
A Beija-Flor realizou na última quinta-feira mais uma etapa da sua disputa de sambas-enredo, que entrou na reta decisiva e mostrou caminhos mais claros em relação aos sambas postulantes a serem a trilha sonora da escola no Carnaval 2027, com dois sambas com ótimas apresentações na noite, sendo uma com um desempenho irrepreensível de seu refrão. Outras duas parcerias também tiveram desempenhos de boa qualidade. Cinco obras se apresentaram nas quartas de final e quatro parcerias seguem para a semifinal após a eliminação do samba 05, da parceria de Junior Trindade. A escola de Nilópolis apresentará o enredo “Zeneida: O sopro do pó de louro”, de criação do carnavalesco João Vitor Araújo, no domingo de carnaval, sendo a segunda escola a desfilar. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre os sambas classificados.
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Parceria de Junior PQD (Samba 02): Sob a autoria de Junior PQD, Ailson Picanço, Junior Billy Mandy, Geraldo, M. Felício, Marquinho Paloma e Marcelo Moraes, o samba foi conduzido por Pitty de Menezes. Antes do início da apresentação, a torcida, que esteve em bom número e com vários adereços, levou o samba no gogó. A primeira parte tem um poder imagético e narrativo enorme, com versos que evocam o universo das entidades indígenas com um toque de mistério, retratando com maestria este universo místico, como nos versos “ela que vem aos saberes da mata, por seus caruanas, letrada, anunciar! Deu hora grande, noite de panavoeiro, todo o fundo da maré vai baixar nesse terreiro”. A melodia possui um casamento impecável com a estrutura de linguagem da obra, em alternâncias de tom que dão peso e ótima fluidez ao samba, além de tornar a passagem dinâmica o tempo inteiro, apesar de uma leve irregularidade no canto da torcida ao longo das passadas. O refrão central “ôô, já chamou na doutrina, ventou na barreira do mar, fez do rio, igarapé, talhada em Maraocá, a corda é de Nazaré e também tupinambá (quero ver segurar” dá sequência nessa narrativa do misticismo presente em Marajó. A segunda parte começa entrando um pouco mais diretamente na vida de Zeneida, em seguida retomando o protagonismo do universo de Marajó, seguindo essa construção bem imagética das forças presentes, vide o trecho “teus curumins, esperança do Igapó, carimbolaram o samba na Ilha de Marajó, vem ver a ciranda dos guarás, preservar os maracás, as sementes de aguaí”, porém faltou centralizar mais nas passagens de Zeneida em certos momentos. O trecho final é o destaque melódico do setor e prepara a linha melódica seguida no refrão principal, que é mais leve em relação ao restante do samba, mesmo sendo uma passagem de clamor, nos versos “É pajé, traz a força de auí, é pajé, traz a força de auí, benze o nosso povo, reza o meu tambor, sopra o pó de louro sobre a Beija-Flor”, rendendo muito bem. Pitty e seus apoios conduziram a obra com muita competência, mas a torcida acompanhou com maior força nos dois refrãos. Na passada apenas com o canto dos torcedores, isso ficou mais evidente, mesmo com outros trechos também bem cantados, como na segunda parte. O retorno para os cantores no palco recuperou o vigor das duas primeiras passadas, e a apresentação terminou de forma bastante valente.
Parceria de Sidney de Pilares (Samba 39): O samba, da autoria de Sidney de Pilares, Pedro Marajoara, Dudu Nobre, Marcelo Lepjane, Salgado Luz e João Conga, foi cantado por Igor Sorriso. Antes de a apresentação iniciar, rolou uma roda de curimba dentro da torcida da obra, com direito a banho de ervas. Em seguida, a torcida puxou o canto para os intérpretes darem a largada. O refrão principal “firma a curimba na gira do carimbó, firma a carimba na gira do carimbó, é a pajelança nilopolitana, o meu Beija-Flor incorpora caruana” é outro a apostar na figura de linguagem da incorporação da Beija-Flor, chamando essa força visceral que se identifica com a azul e branco. O trecho funcionou e se destacou na sustentação da obra na quadra. A primeira parte não se mostrou tão funcional e já não iniciou tão forte, cansando ao longo das passadas, mesmo com uma narrativa bem-feita e com poética qualificada em versos como “materna a floresta que me fez mulher, o chão de Dahomé foi colo de meu pai, meus olhos mergulhados no Igarapé, segredos sussurrados quando a folha cai”. Igor Sorriso e seus apoios fizeram força para colocar o samba no prumo e, mesmo com o bom desempenho, a passagem não foi regular. O refrão central “de pajé pra pajé vou curar, esse mundo repleto de dor, pela pena dos meus maracás, vivem os rituais que mestre Mundico deixou” é carregado e tem uma melodia densa, coerente com a construção narrativa, tendo um desempenho melhor. A segunda parte apresentou a linha melódica mais ousada e as variações para tom maior elevaram o canto e o funcionamento do setor, como na transição melódica do bis “canta que o canto é reza, canta meu curió, evoco a força guará, do rio mar do Marajó” para o verso seguinte “floresta viva onde voa o Beija-Flor”. A forma como o enredo é contado na segunda parte traz uma Zeneida afirmando sua resistência e seu poder sem rodeios, vide os versos “Seu moço, a natureza é deusa mulher, venci o calvário por mãe Nazaré, pois todo fogo que aponta para mim, não decreta o meu fim, é fumaça que eu faço transcender”. A torcida segurou bem o samba, cantando com precisão quase que a totalidade da obra, com uma pequena queda no início da segunda parte, com boa comunicação entre Igor Sorriso e torcedores da parceria. Nas duas últimas passadas, o samba cresceu no trecho mais problemático, que foi a primeira parte, mantendo o bom nível nas partes restantes. Uma apresentação que mostrou uma primeira parte irregular, mas também boas credenciais e terminou em um crescente.
Parceria de Marquinhos Beija-Flor (Samba 13): A parceria de Marquinhos Beija-Flor, Claudio Russo, Chacal do Sax, Ronaldo Massacesi, Júlio Alves e Léo Freire teve Pixulé como voz principal do seu samba. A torcida do samba 13 entoou com animação, antes da apresentação, o poderoso refrão principal. O trecho “Ê, incorpora caboclo, incorpora caboclo, quero ver incorporar, do ventre do meu Pará, o pó de louro soprou, comunidade, caruana Beija-Flor” se sobressai na obra e é dono de uma força impressionante, um magnetismo que prende quem ouve, tendo o estilo que a agremiação gosta. A primeira parte obtém êxito em trazer Zeneida contando sua história; a narrativa é clara e, ao mesmo tempo, não fica presa a lugares comuns, como no trecho “dezessete dias amarrada no cipó, eu, filha das águas, floresci em minha fé, foi o meu chamado, mas eu não estava só, a mata me assentou pajé”. A melodia é muito bem ajustada e tem variações qualificadas, como na virada para o verso “do girador, princípio e criação”. O refrão central “É de pena e maracá, é de pena e maracá, eu sou cabocla com herança africana, mestre Mundico me ensinou a dar o nó em Caruá, eu tenho a alma nilopolitana” segue com a trajetória de Zeneida como centro, contada pela mesma, neste trecho citando os ensinamentos de mestre Mundico, além de trazer a relação da homenageada com a Beija-Flor, o que potencializa o alcance com o componente. A segunda parte do samba começa com uma mudança melódica que une força e lirismo nos versos “eis-me aqui, o tronco forte que nasceu Marupá”; melodicamente, o samba segue bem resolvido e a narrativa mantém a coerência descritiva, como nos versos “vem no balanço do Siriá, marujada e carimbo, quem ensina é Aguaguara, no curumim vi o futuro no olhar, a Baixada a invocar a força marajoara”, trecho que passou com ótimo balanço. A relação ancestral entre Zeneida e Beija-Flor é retratada novamente no bis antes do refrão principal, “do povo eu sou muiraquitã, pajé Zeneida, soberana, campeã”, outro trecho de assimilação rápida com o componente. A segunda parte como um todo é um pouco menos poética, mas de uma linguagem muito límpida e potente na comunicação da história proposta. Uma apresentação quente e constante nas primeiras passadas, com o evidente ápice no refrão. A passada só com o canto dos torcedores manteve o nível, porém com uma leve queda em alguns versos, crescendo no refrão central e, a partir do verso “vem no balanço do siriá”, onde até o refrão principal o samba explodiu na boca da torcida. Nas duas passadas finais, o poderio da obra se manteve, bem conduzido por Pixulé e seus apoios. Uma apresentação forte, com um desempenho espetacular do seu refrão, de um samba que se credencia com força a ser o vencedor na disputa da escola nilopolitana.
Parceria de Diogo Rosa (Samba 01): Tinga e Charles Silva defenderam o samba da parceria de Diogo Rosa, Julio Assis, Kirraizinho, Manolo, Clay Ridolf e Dr. Luiz Claudio. A parceria trouxe uma sósia da pajé Zeneida num pedestal, simulando o sopro do pé de louro, e uma torcida animada. O refrão principal “Chama karuana que a Baixada incorporou, chama Karuana que a Baixada é Beija-Flor, pajelança cabocla Sawé! Sawé!, na magia da floresta o segredo pra vencer” tem o peso e o clamor que o nilopolitano gosta e com o qual se identifica, e sintetiza a ideia de incorporação e presença das entidades tão forte na narrativa do enredo, sendo levado com a garra necessária pelos intérpretes e tendo um rendimento excelente. A primeira parte se inicia com um refrão de cabeça “moço, espia só, invisível vira folha, folha vira pó” que tem uma solução interessante na repetição, onde a palavra pó já inicia o verso seguinte, apesar de ser um trecho onde o canto é mais corrido. A obra descreve a ancestralidade e força espiritual presente em Zeneida como algo traçado pelo destino através de sua ascendência, como no trecho “entrelaço de cipó, risca mato, Marajó, transe de patuanú, encantado pele azul, eu tentei fugir da flecha, flecha acertou, mundiada em ventania….o tempo parou”, com uma melodia forte, bonita e que permeia com qualidade a força presente na letra. O refrão central “parou, pra ver o Brasil dos maracás, pra se render a fé dos ancestrais, Amazônia sustentada pela força de Majé, ver o norte ser um norte desse meu país mulher” apresentou uma melodia conduzida com gingado, sobretudo no primeiro verso. Na segunda parte, a melodia seguiu com bom peso, mas apresentou poucas variações. A narrativa se apresenta mais descritiva, citando características, nomes e os obstáculos que Zeneide teve que enfrentar, vide os versos “pra vencer a Piracema, Curimbatá, marajoara pajureba, carimbo do meu Pará”, cujas citações soam um pouco jogadas dentro da proposta. O trecho final “gratidão que borda o manto e assenta altivez, evoca o mundo místico outra vez” entrega bem para o refrão principal e resume o sentimento de dever cumprido da pajé Zeneida diante de toda sua trajetória. As qualidades da obra foram realçadas por uma ótima apresentação, onde o samba não caiu com o desenvolvimento das passadas iniciais. Na passada com a voz uníssona da torcida, a sustentação não foi a mesma, com Tinga pedindo o canto dos presentes em alguns momentos. No refrão final, o canto funcionou melhor. Nas duas passadas finais, a apresentação voltou ao nível anterior, com a obra pisando firme na quadra e finalizando com o fôlego lá em cima. Outra apresentação de destaque na noite.









