
O segundo dia do 1º Seminário das Rodas de Samba, realizado no Palácio Gustavo Capanema, foi marcado por uma rica troca de conhecimentos sobre a história e a importância das rodas de samba na formação da cultura brasileira. O encontro reuniu uma mesa composta por importantes referências do cenário cultural nacional, com representantes dos estados de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. A abertura da mesa ficou a cargo da professora e filósofa Helena Theodoro, que utilizou o clipe do samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval de 2026 como ponto de partida para a discussão. A apresentação dialogou diretamente com o tema central do debate: a trajetória e o legado de Tia Ciata, personalidade histórica que será homenageada pelo Paraíso do Tuiuti no Carnaval de 2027.
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Durante sua fala, Helena Theodoro destacou a relevância de Tia Ciata para a consolidação do samba no Rio de Janeiro. Baiana de origem, ela se estabeleceu na capital fluminense e transformou sua residência em um importante espaço de encontro para músicos, compositores e sambistas. Segundo a filósofa, foi a partir dessa articulação entre a tradição cultural trazida da Bahia e os sambistas cariocas que se fortaleceu a base do samba que conhecemos atualmente.
A professora também ressaltou o papel de Tia Ciata como agente de intercâmbio cultural, promovendo o diálogo entre diferentes manifestações afro-brasileiras e contribuindo para a preservação e valorização da cultura negra. Sua atuação foi fundamental para a organização das primeiras rodas de samba e para a consolidação de uma das mais importantes expressões culturais do país.

O seminário segue promovendo reflexões sobre a memória, a resistência e a importância das rodas de samba como patrimônio cultural brasileiro, reunindo pesquisadores, artistas e representantes de diversas tradições do samba nacional.
“O samba cura, revigora e educa”, afirmou Helena Theodoro.
Em seguida, a sambista e pesquisadora Fabíola Machado, fundadora do grupo Moça Prosa e cantora do Awurê, compartilhou sua trajetória e os desafios enfrentados para conquistar visibilidade para os grupos de samba formados por mulheres. Durante sua fala, destacou as barreiras históricas impostas às mulheres dentro desse espaço cultural e a importância da organização coletiva para ampliar o protagonismo feminino no samba.
Fabíola ressaltou que a realização do 1º Seminário das Rodas de Samba representa um marco para a construção de políticas de preservação da memória e da identidade do samba brasileiro. Segundo ela, o encontro fortalece o debate sobre a valorização e a salvaguarda dos saberes transmitidos por homens e mulheres do samba, incluindo mestres e mestras que contribuíram para a formação dessa importante manifestação cultural.
A artista também defendeu a ampliação de ações educativas que levem a história do samba e seus protagonistas para as escolas, valorizando trabalhadores da cultura e garantindo a efetivação de legislações já existentes voltadas à preservação da memória e do patrimônio cultural afro-brasileiro.

“Eu acredito em políticas públicas por meio das quais possamos cobrar os políticos, as pessoas que hoje estão no poder. Que a gente consiga garantir isso como herança”, afirmou.
O sociólogo Tadeu Kaçula trouxe ao debate reflexões sobre a trajetória do samba paulista e o protagonismo da população negra em sua construção histórica. Durante sua participação, destacou que o samba de São Paulo enfrentou, ao longo de décadas, processos de apagamento racial e cultural, o que contribuiu para a invisibilização de importantes personagens e manifestações ligadas à cultura popular negra.
Kaçula ressaltou a necessidade de preservar a memória dos baluartes que ajudaram a construir a história das escolas de samba paulistanas e das rodas de samba, como Madrinha Eunice da Lavapés, Seu Pé Rachado, do Vai-Vai, Seu Inocêncio Tobias, do Camisa Verde e Branco, Seu Carlão, do Peruche, e Seu Nenê, da Vila Matilde.
Para ele, iniciativas como o seminário representam um importante passo na valorização desse patrimônio cultural, mas ainda são insuficientes diante dos desafios existentes. O sociólogo lembrou que o reconhecimento oficial do samba paulista como patrimônio cultural é recente, tendo sido conquistado apenas em 2024, o que reforça a necessidade de ampliar as ações de preservação e valorização dessa tradição.
Representando a Bahia, o produtor cultural Samora Lopes, fundador da roda de samba Banjo Novo, em Salvador, compartilhou os desafios enfrentados pelos organizadores de rodas de samba na capital baiana. Segundo ele, a realização de eventos culturais em espaços públicos ainda encontra obstáculos relacionados à burocracia e à falta de diálogo com o poder público.
Samora destacou que a articulação nacional das rodas de samba é fundamental para fortalecer o movimento, promover a troca de experiências entre diferentes territórios e construir estratégias coletivas para garantir melhores condições de realização e preservação dessas manifestações culturais. Para o produtor cultural, encontros como o seminário contribuem para unir diferentes realidades em torno de pautas comuns, fortalecendo o samba como expressão de identidade, memória e resistência.
“Esses pontos precisam ser fortalecidos. Não podem ficar fragilizados. Estamos construindo pontos saudáveis para a comunidade”, afirmou Samora.









