
A Unidos da Tijuca realizou a segunda noite de disputa do samba-enredo para o Carnaval 2027, recebendo novamente as 15 parcerias concorrentes na quadra da Francisco Bicalho. A rodada teve algumas apresentações prejudicadas por problemas técnicos nos microfones, ao lado de obras que se destacaram e outras que ainda têm margem para crescer. A escola vai divulgar os 6 sambas eliminados na próxima segunda-feira, às 17h, nas redes sociais da escola. A Tijuca trará, em 2027, o enredo “A Cabeça do Santo”, baseado no livro homônimo de Socorro Acioli, sendo a segunda escola a desfilar na segunda-feira de carnaval. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre a apresentação das parcerias.
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Parceria de Marcio André: Nêgo, Art’Samba Júnior e Leozinho Nunes cantaram o samba da parceria de Marcio André, Robson Bastos, Daniel Katar, Romulo Massacessi, Gilson Bernini. O samba abriu a noite com uma melodias interessantes e um andamento envolvente, com destaque para a performance de Art’Samba Júnior e Leozinho Nunes, que deram vitalidade à apresentação. A letra narra bem a trajetória de Samuel, cobrindo diversos momentos da sinopse. O refrão principal não tem muito impacto: sem um fechamento à altura, a sensação é de que falta força justamente na reta final. Já o refrão do meio, “VIXE MARIA, NUNCA TINHA VISTO ISSO / A CIDADE EM REBULIÇO, UM TREMENDO QUIPROCÓ / E QUEM DIRIA POR ASSOMBRO QUE PAREÇA TEM UM SANTO SEM CABEÇA ERA UM FUXICO SÓ”, é bem mais gostoso e divertido de cantar.
Parceria Leandro Gaúcho: Wantuir, Lissandra Oliveira e Hudson Luiz defenderam o samba de Leandro Gaúcho, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes, Ricardo Construção e Ailson Picanço. A apresentação foi marcada por problemas no microfone de Wantuir, o que gerou uma certa desconcentração tanto na execução quanto na assimilação da letra e da performance pelo público presente. O samba conta a peregrinação de Samuel em terceira pessoa, como se a própria Tijuca estivesse narrando essa trajetória. Um dos pontos altos é o trecho do pré-refrão principal “É HORA, PAI. DE SEGUIR PRO MEU JUAZEIRO / LEVANDO UM ROSÁRIO BATENDO NO PEITO / OUTRO MILAGRE AINDA ESTÁ POR VIR”, de grande beleza poética, que faz um jogo polissêmico entre a devoção ao Rosário como objeto religioso e a dimensão amorosa da personagem Rosário, voz que Samuel busca em sua saga. No geral, foi uma passagem com rendimento regular.
Parceria de Arlindinho: Rodrigo Tinoco, Milena Wainer e Diego Nicolau defenderam o samba da parceria de Arlindinho, Fred Camacho, Bruno Dallari, Igor Leal e Diego Nicolau. A apresentação também sofreu com problemas técnicos, dessa vez no microfone de Diego Nicolau. Ainda assim, o trio abriu de forma muito bonita, com o refrão do meio e o refrão principal bem forrozeados logo de início, criando uma atmosfera que já ambienta bem a entrada no samba. Um dos grandes acertos da letra é a aposta na reconstrução de cenas da sinopse com liberdade poética, valendo-se de uma oralidade nordestina presente em palavras como “visagi”, “zói” e “muié”, sobretudo na primeira parte. Os versos iniciais, “Lá nas entranhas do sertão do meu Ceará, nasceu a história de um menino sonhador, as cicatrizes que a vida tentou me dar, viraram marcas que a alma não curou, sem sorte, sem eira nem beira, errante, distante do quê? O peito vazio, calado no sol de arder”, sintetiza muito bem a saga de Samuel. O andamento é envolvente, com vocalizes como “lalaiê, lalaiá” reforçando a ideia de canto popular, e o refrão principal cresce ao longo da apresentação. Um desempenho ótimo da obra.
Parceria João Estevam: Igor Vianna foi a voz principal do samba da parceria de João Estevam, César Som Livre, Cigano e Odmar do Banjo. Uma apresentação regular, marcada por uma melodia que parece não variar muito ao longo da obra; a sensação é de estar sendo contada uma história sem as nuances melódicas necessárias para traduzir os altos e baixos de uma saga sertaneja, como propõe a sinopse. Essa mesma limitação se reflete na construção da letra, que segue a sinopse de forma muito linear e sequencial, com trechos bastante próximos ao texto original e sem uma reelaboração poética mais autoral, tampouco uma especificidade maior da poética do sertão. O resultado é um samba um tanto inconsistente, apesar da boa defesa de Igor Vianna, mas sem muita sustentação para seguir longe na disputa.
Parceria de Robson Ramos: Niu Souza comandou o trio de vozes que defendeu o samba de Robson Ramos, Gegê Fernandes, Rafael Lopes e Vinicius Xavier, com muito vigor. A letra é entendida com clareza e facilidade, e as variações melódicas são bem executadas ao longo da obra. O refrão do meio, “VALEI-ME, SANTO ANTÔNIO, ATENDA A ORAÇÃO! / A CABEÇA É OCA, MAS QUEM FALA É O CORAÇÃO! /É “VELA” E BUQUÊ NO ALTAR / O GRANDE MATRIMÔNIO VAI COMEÇAR”, é um dos pontos altos, com uma síntese poética interessante e funcionando como uma virada dentro do samba. No final da primeira parte, antes da chegada desse refrão, há uma variação melódica bonita, mas que também traz o risco de uma leve queda de rendimento. Já o refrão principal é aguerrido, conclamando a escola a “levantar poeira”, mas dá a sensação de não fechar o samba; soa mais circular, como uma passagem que devolve a obra ao início do que um desfecho firme. Um ponto a ser observado.
Parceria Henrique Badá: Bico Doce comandou o samba de Henrique Badá, Jailson Taroba, Fernando Mesquita, Marcelo Oliveira e Dionísio. Um samba aguerrido, que cobre bem o arco da sinopse e dá a sensação de acompanhar lado a lado a saga de Samuel. O refrão principal, “ABRE O LIVRO PRA CONTAR, TIJUCA / A HISTÓRIA DO MENINO SAMUEL / E NA QUARTA-FEIRA VER COMEMORAR / A COMUNIDADE DO MORRO DO BOREL”, é animado e dialoga com o contexto de um enredo baseado em adaptação literária. No geral, uma apresentação sem grande destaque.
Parceria de Samir Trindade: Evandro Malandro e Tem Tem Jr. defenderam o samba de Samir Trindade, Kléber Rodrigues, Sandro Nery, JP Figueira e Gilberth Castro. Um samba de grande apelo emocional, que se destaca por ser contado em primeira pessoa; o próprio Samuel narrando sua saga, recurso que convida o público a incorporar a narrativa para si. O refrão do meio, “CÉU, AREIA, SOL E MAR / SE É MIRAGEM OU HORIZONTE, SERÁ QUE EU VOU CHEGAR? / CÉU AREIA, SOL E MAR / PEÇO A DEUS NÃO ME ABANDONE MESMO SEM ACREDITAR”, manifesta de forma precisa certa dimensão do realismo fantástico presente na sinopse. Na segunda parte, o verso “cabeça e corpo se abraçaram” sintetiza com beleza o ato do perdão como chave da história, no reencontro de Samuel com o pai. A apresentação foi muito bem resolvida, com destaque para a performance de Evandro Malandro, que transmite toda a carga emocional do samba sem recorrer a trejeitos ou exageros; uma interpretação expressiva e tecnicamente apurada, tanto na voz quanto na presença de palco. Uma excelente exibição.
Parceria Rafa Hecht: Emerson Dias liderou o samba de Rafa Hecht, Shumacker Rocha Jr, Dudu Seixas e Kaleo Augustus. A letra investe na contação de história, acompanhando o enredo, com duas passagens de destaque: o trecho do refrão do meio, “TU PERDEU, FOI A CABEÇA, OH MEU SANTINHO?”, divertido e de fácil assimilação, e o trecho “QUANDO A ÚLTIMA VELA, ENFIM ACENDEU / NO OLHAR DO PASSADO, SE RECONHECEU”, que reforça, como já observado na análise da semana passada, um dos melhores momentos da obra. A primeira parte, porém, é um pouco mais truncada e de compreensão mais difícil. O refrão principal, “A TIJUCA VAI CANTAR, A POEIRA VAI SUBIR / RODEIA A MIM, MEU SANTO ANTÔNIO, RODEIA / NA MINHA FÉ, ESCOLHI ACREDITAR / O MILAGRE MORA NA CORAGEM DE SONHAR!”, é animado e cantado para frente. No geral, uma apresentação irregular, com bons momentos pontuais, mas sem força total, especialmente na primeira parte, ganhando corpo conforme se aproxima do final.
Parceria Paulo César Feital: Pixulé comandou o samba da parceria de Paulo César Feital, Franco Cava, Zeca do Cavaco, Jorge Mathias e Rafa Cria. O intérprete ainda parecia em processo de assimilação da letra, e essa falta de domínio pleno prejudicou a compreensão do samba em sua totalidade, sobretudo nos trechos fora dos refrões; ainda que a potência vocal de Pixulé seja, como já se sabe, indiscutível. A primeira parte é um dos pontos altos da obra: “PARIDO DO BARRO DO CHÃO NO SERTÃO BRASILEIRO / DO VENTRE DIVINO E OFENDIDO DE MÃE MARINHA / …”, versos que sintetizam com riqueza o início da saga, valendo-se de um vocabulário fortemente ligado ao campo da fé. Uma apresentação que, com a letra mais assimilada, tem potencial para render mais do que mostrou.
Parceria Luiz Carlos Máximo: O samba de Luiz Carlos Máximo e Manu da Cuíca é uma das narrativas mais bem construídas dessa safra de sambas da Tijuca, com esmero na construção da letra. Embora bem escrito, a obra se mostra difícil de cantar. A melodia não desperta no canto as nuances de uma saga que, tal como proposta no enredo, é feita de altos e baixos. Essa dificuldade acaba pesando sobre uma obra que começa muito bem construída em termos narrativos.
Parceria Gabriel Machado: Charles Silva fez uma belíssima apresentação do samba de Gabriel Machado, Julio Pagé, Hélio Porto, Serginho Motta e Orlando Ambrósio, trazendo uma vivacidade muito grande à obra. A interpretação tem vigor e resulta em um excelente rendimento nessa primeira eliminatória. O refrão principal traz muita força, com uma melodia vigorosa e pra frente, sustentando bem o samba em todas as passadas. Um dos pontos altos é o trecho do pré-refrão principal “O amor se encontra na fé, onde a história tem pé e cabeça”, que sintetiza poeticamente a saga de Samuel, com um jogo de linguagem muito bem resolvido. Uma apresentação de destaque na noite.
Parceria Ian Ruas: Dowglas Diniz e Victor Cunha defenderam o samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos. O pré-refrão, “Ê, BATUQUE EM TERREIRO DE ARRAIÁ! / GINGADO, BALÃO, FESTIM, PANELA DE MUNGUNZÁ / ABRE A RODA QUE O CABRA INCORPOROU / CABEÇA DO SANTO HERDEI, CABEÇA DO SANTO SOU!”, é muito bonito e foi cantado com bastante vigor pelos intérpretes. Outro trecho de destaque é “DELÍRIOS PLANTADOS EM TERRA RACHADA FLORESCEM / NUM RASTRO DE DOR”, que também já anuncia a proposta de realismo fantástico da obra. Há ainda versos que exploram a questão do perdão, presente na sinopse do enredo, como “Ô TOINHO, MEU PAI, PEÇO PERDÃO! / Ô TOINHO, MEU PAI PEDE PERDÃO!”. O refrão principal, por sua vez, funciona dentro do samba, mas sem grande impacto.
Parceria Dudu Nobre: O próprio Dudu Nobre, com a ajuda de Juan Briggs, defendeu sua parceria com Totonho, Fadico, Kadu Gomes e Júlio Alves. O pré-refrão e o refrão principal funcionam bem, mas a obra deixa pontos da narrativa pouco resolvidos: a letra aborda, na primeira parte, a figura do pai “João Ninguém”, em um comparativo com a realidade de muitas famílias brasileiras, mas essa linha se perde ao longo do samba, já que a saga de Samuel também envolve a busca pelo próprio pai, a pedido da mãe. Falta clareza sobre o que efetivamente move o personagem em sua caminhada, algo que a sinopse deixa explícito. Ainda assim, foi uma apresentação bem cantada, com letra nítida e boa atuação de Juan Briggs.
Parceria Lico Monteiro: Wandinho apresentou uma grande atuação no samba de Lico Monteiro, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo AG da Estiva, Juca Gomes. A letra se estrutura como a contação de um “causo”. A primeira parte é um dos pontos altos, deixando evidente a motivação da saga logo de início, no verso “PROMETO MÃE, SEGUIR MEU CAMINHO / BUSCAR SENTIDO QUE ME FALTA DESDE ENTÃO”; mesmo sem revelar exatamente o teor da promessa, o samba já estabelece o que move o personagem em sua jornada. O trecho, “É SÓ REZAR PRA SANTO ANTÔNIO OUVIR / Ô DIACHO, ME ESQUEÇA! VOU ACHAR UM CAZUÁ / ATENDER A SIMPATIA PRA TOINHO DESCANSAR”, é brincante. Já na segunda parte, o trecho “Chorar, chorei…” traz uma variação melódica belíssima, com uma virada mais dolente que prepara a chegada do refrão principal, “EU DIGO AMÉM, O MILAGRE VAI CHEGAR / E MUITO ALÉM, FAÇO O POVO ACREDITAR/ SOU NORDESTINO QUE VAI À LUTA / A MISSÃO SERÁ CUMPRIDA, TIJUCA!”; um fechamento inteligente para essa saga que também é, de certa forma, a da própria Tijuca olhando para si. Uma das apresentações de maior destaque da noite.



