Por Marcos Marinho e Maria Estela Costa

A final de samba-enredo da Grande Rio para o Carnaval 2027 teve neste domingo um dos momentos mais aguardados da temporada: a coroação de Anitta como rainha de bateria da escola. Em uma quadra lotada em Duque de Caxias, a cantora recebeu a coroa das mãos de Eloína dos Leopardos, referência histórica do carnaval carioca e apontada como pioneira na função de rainha de bateria. A cerimônia aconteceu antes da definição do samba-enredo que a Tricolor da Baixada levará para a Sapucaí em 2027.
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A artista chegou ao novo posto deixando claro que compreende a dimensão simbólica da função e, principalmente, que não pretende colocar sua fama como cantora acima da comunidade que constrói o carnaval da Grande Rio. Durante a entrevista coletiva, Anitta afirmou que ocupar o posto exige respeito às tradições da escola e uma relação construída com quem frequenta a quadra e acompanha a bateria durante todo o ano.
“O carnaval tem seus costumes e tradições. É um mundo à parte. A pessoa pode ser minha fã, gostar do meu trabalho como cantora, mas isso não significa que vai me enxergar automaticamente nesse lugar. A gente tem que se colocar com muita humildade, entendendo que não é assim: ‘ah, porque sou cantora e o pessoal gosta de mim, vai gostar também nesse caso’. Não. A gente tem que fazer as coisas com respeito, entendendo o lugar aonde está indo. Tentei fazer tudo assim desde o início. Desde que conheci o mestre, falei: ‘Se vocês não estiverem contentes, fala comigo’. Para mim, o mais importante é que o pessoal da bateria esteja gostando, que o mestre esteja gostando, que o pessoal que já frequenta a quadra esteja gostando”, explicou Anitta.
A cantora fez uma distinção entre a força de seus fãs e a relação cotidiana construída pela escola com sua comunidade. Para ela, uma quadra cheia por causa de sua presença não necessariamente representa a aprovação de quem acompanha a Grande Rio durante todo o ano.
“Uma coisa é encher a quadra com meus fãs, que vão me acompanhar por onde eu for; outra coisa é o pessoal que vem para a comunidade sempre, independentemente da minha presença ou não. São essas pessoas que fazem a diferença no desfile. Quem tem que estar feliz são essas pessoas”.
Eloína dos Leopardos como símbolo da coroação
A escolha de Eloína dos Leopardos para entregar a coroa foi um dos pontos mais simbólicos da noite. Anitta contou que ficou surpresa quando soube da possibilidade e passou a pesquisar a trajetória da personagem que decidiu colocar no centro da cerimônia.
“Foi uma grande surpresa e acho que faz todo sentido. Eloína foi a primeira travesti que se colocou nesse lugar e abriu a porta não só para outras travestis, mas também para uma visibilidade artística. Ela já era uma artista, já lotava os lugares com seus shows, as pessoas adoravam assisti-la. Aí ela foi convidada para esse lugar de rainha sozinha à frente da bateria, e se desenvolveu tudo isso. Quis trazer a Eloína porque ela traz uma bandeira muito importante para este momento político que vivemos, de resistência para travestis e trans do Brasil. Gosto de trazer essas reflexões nos meus trabalhos”, comentou.

Ao explicar sua relação com o carnaval, Anitta também destacou o caráter histórico e social dos desfiles das escolas de samba. Para a cantora, compreender essa manifestação significa entender que os enredos e as apresentações das agremiações sempre estiveram relacionados a questões da sociedade.
“O carnaval, as escolas de samba, começaram num contexto político: os enredos sempre foram escolhidos para praticar alguma mudança na sociedade, para trazer alguma revolta ou necessidade do povo, para trazer reflexões que pudessem mudar politicamente a história da cidade, das pessoas, da política. Você tem que pesquisar o que está fazendo. Quando recebi o convite, quis saber, como em tudo que faço, toda a história: como isso começou, se transformou, cresceu, como é hoje.”
Preparação para ocupar a frente da bateria
A preocupação de Anitta com a preparação também apareceu durante a coletiva. Ela contou que, depois de receber o convite para ser rainha, procurou aulas específicas de samba para compreender as exigências de uma apresentação à frente de uma bateria.
“Quando fui chamada, primeiro fui fazer aulas de samba. Uma coisa é a gente sambar no dia a dia, como todo mundo do Rio samba. Vai no pagode, em uma quadra. Meu tio, que é da velha-guarda do Império Serrano, dizia: ‘Hoje vai ser o dia mais emocionante’. Ele me levava para a quadra do Império; outro tio, que era portelense, me levava para lá. Uma coisa é a gente sambar para curtir, achando que sabe; outra coisa é sambar nesse lugar de palco, diante das pessoas que assistem, tem mais exigência. Fiz aulas com a Mayara (Lima, do Tuiuti), com a Belinha (Delfim, da Viradouro) e também com a maravilhosa Ana Flávia, do Salgueiro, que foi queridíssima comigo. Quero marcar também com a Evelyn (Bastos, Mangueira) e com a Gaby, da Mocidade, porque acho que cada uma tem um truque especial para trazer”.
Coroação pensada para dialogar com o enredo
A cerimônia também foi construída pela própria Anitta a partir de pesquisas sobre outras coroações. A cantora contou que recebeu liberdade para pensar o formato da apresentação e decidiu que queria inserir fundamento e emoção no momento.
“Me disseram que eu podia fazer o que quisesse. Comecei a pesquisar coroações, a ver como cada pessoa escolhe a sua, e falei: ‘Quero fazer algo que traga fundamento, que traga emoção’”.
A apresentação incorporou elementos da trajetória artística da cantora e de sua turnê, ao mesmo tempo em que procurou criar uma conexão com o enredo da Grande Rio. A estrutura visual usada na cerimônia teve referências à turnê “EQUILIBIVM”. Anitta defendeu que a emoção poderia ocupar um espaço próprio na avaliação de um desfile.

“Acho que devia até ser criado esse quesito emoção, porque os desfiles emocionantes têm contado muitos pontos, na minha opinião, de quem assiste. Tenho visto que a emoção das pessoas sobre aquele tema, enredo, levanta a comunidade, o público. Sabia que estariam muitos fãs presentes e queria que eles se conectassem, que entendessem o link entre o meu álbum, minha carreira e o enredo da Grande Rio este ano, que tem tudo a ver: ancestralidade, retorno ao passado. Às vezes, quando você fala do enredo, parece que está falando do meu álbum, de tanto link que existe. Quis trazer essa energia, essa emoção para a quadra. Acho que hoje em dia muita gente opina sem buscar a história e o samba tem muita história para contar. Quando você olha para o passado, aprende muitas coisas para o futuro: para não errar, respeitar as pessoas, saber o fundamento de onde vem cada coisa”.
A relação construída com o mestre Fafá também ganhou destaque na entrevista. Anitta afirmou ter criado uma conexão imediata com o profissional e comparou a relação ao encontro com um irmão.
“Me conectei muito com o mestre. Pareceu, de cara, um irmão perdido, mais um irmão perdido que eu estava achando ali em Caxias. Não sei se vocês prestaram atenção na apresentação, mas minha mãe, quando veio da Paraíba, morou muitos anos numa comunidade, uma favela, antes de ir para Honório Gurgel e conhecer meu pai. Quando nos conhecemos, pensei: ‘Será que tenho outro irmão perdido?’ Já estávamos tendo ideias do que fazer de diferente, dessa conexão. No dia, colocamos a roupa igual, combinamos o ‘lookinho’ e tudo mais. Acho isso importante”.
A cantora também fez questão de estabelecer um limite para sua relação com o posto. Mesmo com a projeção de sua carreira, ela afirmou que não pretende se colocar acima das rainhas que a antecederam.
“Sempre falei para o mestre Fafá: ‘Se em algum momento você sentir que o pessoal da bateria não gostou tanto da minha vibe, eu não obrigo todo mundo a gostar de mim, me fala’. Não é desdém ao cargo, que eu amo e estou muito feliz nele, mas é no respeito de saber quem realmente importa nesse lugar. Eu não sou maior aqui do que as que vieram antes. Eu não fico muito comparando. Não faço comparações, porque, com arte, a gente tem que aprender desde cedo a não comparar, senão é fórmula do fracasso. Tento acrescentar o que acho que vai me fazer feliz”.
Agenda de shows não será obstáculo para o carnaval
A agenda internacional da cantora também foi um dos assuntos da coletiva. Anitta afirmou que houve muitas especulações sobre supostas exigências feitas por ela para assumir o posto, mas explicou que fez apenas um pedido à escola: garantir que pudesse participar do ensaio técnico.
“O pessoal fala muito de ‘exigências’ que eu fiz, mas, na verdade, só fiz um pedido, nem chega a ser exigência, para que entendessem o que era mais importante para mim: as datas. Falei: ‘Gente, precisamos entender se eu vou poder estar presente no ensaio técnico’, porque isso para mim é o mais importante do desfile, fazer o ensaio técnico perfeitamente. Só deixei anunciarem o show quando soubemos que a data poderia ser uma das últimas, porque aí eu teria tempo de fazer o show e sair a tempo. Já fiz isso muitas vezes na carreira, quem me acompanha há anos sabe: faço um show num lugar, pego o avião, vou para outro, faço outra coisa. Isso é normal na minha rotina”.









