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Seminário debate como estruturar o enredo de um desfile

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O seminário “Escritas de Carnaval – Pesquisa: como estruturar um desfile?”, transmitido virtualmente através do canal do Youtube da Revista Caju, aconteceu na terça-feira e foi organizado pela crítica de arte, curadora e jornalista Daniela Name, além do professor Maurício Barros de Castro. O encontro faz parte do processo de formação de estudantes do Instituto de Artes da Uerj, em parceria com o projeto Teia Crítica da Revista Caju com o Centro de Referência de Carnaval da Uerj.

O bate-papo recebeu os pesquisadores João Gustavo Melo (Viradouro), Igor Ricardo (Salgueiro) e Sthefanye Paz (Mangueira), além de Marcelo Pires (departamento cultural do Salgueiro).

O encontro foi engrandecedor, apresentando visões distintas sobre temas que atualmente estão em voga no carnaval carioca. No início, inclusive, um apontamento histórico revelou que o termo “enredista” pode muito bem ser associado a um dos presidentes do Salgueiro mais emblemáticos, que foi Nelson de Andrade.

Mesmo sem a definição de nomenclatura na época, partiu dele a escolha tanto do casal Nery, quanto do lendário Fernando Pamplona como carnavalescos. Nelson de Andrade era pesquisador e, já naqueles tempos (décadas de 50/60), entendia o enredo como uma história linear.

Outra questão que merece ser ressaltada é o argumento de que, embora a importância dos pesquisadores seja imensa para valorização do enredo de forma cultural, social ou política, é primordial a confecção de sambas-enredos através dos compositores na estrutura do desfile. A conclusão geral, portanto, foi a de que o compositor também é fundamentalmente um enredista, já que usando sua inspiração para compor se faz necessária a absorção do tema, bem como sua explanação em forma poética e melódica do produto mais genuíno do carnaval, o samba.

O próximo evento já tem data, hora e lugar para acontecer. O Seminário “Escritas de Carnaval – Escrever, Contar e Cortar” será realizado no COART, no térreo do Campus Maracanã da Uerj, próximo das galerias internas, no dia 4 de Julho, às 16h30. Esse será o último evento para encerramento do semestre letivo. Contará com as ilustres presenças de Helena Theodoro, Rachel Valença, Alessandra Tavares, Leonardo Bruno e Marcelo Moutinho. Imperdível!

Salgueiro Convida: Imperatriz é a primeira convidada da temporada 2023

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Um dos eventos mais esperados na pré-temporada de Carnaval está de volta. O Salgueiro Convida, encontro que reúne as escolas de samba dos Grupos Especial e Série Ouro na quadra da Academia do Samba, começa neste sábado, 01 de julho, e terá como primeira convidada a Imperatriz Leopoldinense, campeã do Carnaval carioca em 2023. A quadra do Salgueiro fica na Rua Silva Teles, 104- Andaraí.

convida imperatriz
Foto: Anderson Borde/Divulgação Salgueiro

A partir das 20h30, as portas se abrem para receber o sambista com programação que começa com pagode. Em seguida, o elenco salgueirense entra em cena para saudar o público e receber a escola convidada com muito samba e um repertório que passeia pelos hinos que marcaram os desfiles da Marquês de Sapucaí. A entrada custa R$30 (pista), e os camarotes podem ser adquiridos pelo telefone (21) 3172-0518 ou (21)97453-1669. O valor para 12 pessoas é de R$700 (camarotes laterais) e R$800 (camarotes frontais).

Serviço: Salgueiro Convida Imperatriz Leopoldinense
Data: 01 de julho, sábado
Horário: a partir das 20h30
Valor: pista R$ 30; camarotes laterais para 12 pessoas R$ 700; camarotes frontais para 12 pessoas R$ 800
Classificação: 18 anos
Informações de camarotes: (21) 3172-0518 ou (21)97453-1669 Informações para mesas: (21) 99871-5666 ou (21)97994-2060

Carro de som será julgado no quesito Samba-Enredo, intérpretes opinam sobre mudança no regulamento em São Paulo

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O carnaval de São Paulo tem passado por meses de conversas visando mudanças no regulamento, a cada ciclo definem algum quesito. Um dos que já foi ajustado foi o quesito Samba-Enredo junto com os profissionais de som das escolas, os presidentes, e, claro, representantes da Liga-SP. A inclusão foi do carro de som, que agora será julgado no quesito samba-enredo.

Desde o fim dos anos 80 desfilando em carro de som, Douglinhas Aguiar, que faz dupla com Serginho do Porto na Águia de Ouro, comentou um pouco sobre o processo que foi realizado para a mudança no quesito.

AguiaDeOuro et Douglinhas
Fotos de Fábio Martins/CARNAVALESCO

“Participei, fui um dos convidados a fazer parte da comissão. Cada escola mandou um representante para montar uma comissão e discutirmos, não é um quesito tão fácil, mas acho que o caminho está certo, conseguimos dar um norte para esse quesito. Estava todo mundo reclamando, não estava agradando ninguém na verdade, e ano que vem o carro de som será avaliado”.

Outro nome bem experiente do carnaval de São Paulo, Ernesto Teixeira, dos Gaviões da Fiel, está desde 1984 na agremiação, e em conversa com o site CARNAVALESCO, aprovou mudanças que estão sendo feitas no carnaval visando 2024.

“Positividade para todo mundo que está nos ouvindo. Estamos acompanhando, todas as mudanças são bem-vindas, o carnaval precisa crescer, ser arejado, tenho acompanhado através da comissão de carnaval dos Gaviões, da qual faço parte, e a gente torce para que essas decisões realmente quando colocadas em prática tragam a transformação que o carnaval precisa”.

Ernesto Teixeira ainda completou falando sobre o contexto geral das mudanças: “Participei através da diretoria de comissão dos Gaviões, como intérprete, é importante, não só a ala musical, não só samba-enredo, como o aspecto da dança que já acontece no casal de mestre-sala e porta-bandeira com a própria bateria, devido ao grande crescimento, emparelhamento dos quesitos, é preciso mecanismos que ajudem a diferenciar uma escola da outra, o que não significa que uma escola vai ser pior, uma escola vai ser melhor. Esse é o detalhe”.

Os ajustes no regulamento também geram adaptações das escolas, o Vai-Vai está de volta para o Grupo Especial, após vencer o Grupo de Acesso I pela segunda vez. Pois o intérprete Luiz Felipe, nascido em 1994, quando Douglinhas e Ernesto já cantavam por suas respectivas agremiações, tem feito seu nome desde que assumiu o microfone oficialmente em 2020 e revelou reforços no carro de som para o próximo carnaval.

VaiVai et LuizFelipe

“Participei um pouco, deixamos os órgãos mais competentes da escola participar. O Rio de Janeiro, se não me é engano, já é julgado, e aqui não seria diferente, demorou para acontecer isso. Agora é aperfeiçoar mais do que já estávamos, fizemos duas contratações para a ala musical, Thiago de Xangó e a Karina Salles, esposa dele. Vamos trabalhar firme para tirar nota máxima em tudo, inclusive no carro de som”.

Outro nome que está há um longo tempo na estrada como intérprete paulista, Darlan Alves, vai estrear na Terceiro Milênio em 2024, onde disputará o Grupo de Acesso I. São 20 anos, e muitas mudanças no regulamento de lá para cá, e em conversa com o carnavalesco deixou sua análise.

Milenio et DarlanAlves

“Na verdade, já venho de uma fase do carnaval, onde praticamente tinha um critério de julgamento que avaliava outros critérios. Vai ter uma adaptação, já que ele está aí, temos que nos adaptar e trabalhar mais, onde vamos fazer de tudo para cumprir o critério. E trazer as notas para que a escola juntamente com os outros quesitos, a gente possa gabaritar, trazer 40, ou 30 que a escola precise”.

Os quesitos que foram debatidos até o momento são Samba-Enredo, Enredo, Fantasias, Alegoria, por último Mestre-sala e Porta-bandeira. As conversas continuam e só serão oficializadas cada mudança nos quesitos após todos serem debatidos.

Subsecretária que batalhou pelos desfiles de Brasília, se emociona e promete crescimento: ‘Ano que vem será muito melhor’

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Enfim, aconteceram os tão sonhados desfiles das escolas de samba de Brasília. Datas marcantes ficam para a história, mas este último final de semana é aquele que se pendura em um quadro. É assim que Sol Montes, subsecretária de difusão e diversidade cultural, está sentindo. É claro que ninguém faz nada sozinho. Os apoios, parceiros e projetos são de suma importância. Mas quem toma as rédeas, liderança e iniciativas, tenha um reconhecimento maior no futuro.

sol montes

Sol Montes  expressou seus sentimentos em relação aos desfiles das escolas de samba de Brasília. No final de tudo, após o fim do desfile da grande campeã, Asa Norte, era nítida a felicidade e emoção estampada no rosto da idealizadora. “Foi tudo lindo. Até superou as expectativas. O comprometimento, o brilho nos olhos e o capricho das escolas fez com que a gente acreditasse que ano que vem vai ser muito melhor”, disse.

Sonho realizado

Sol é reconhecida como a ‘guerreira’ por ter corrido atrás e ter colocado tudo em prática. Recebeu grandes homenagens e realizou discursos antes e depois dos desfiles, além de ter sido a inauguradora da passarela no ritual de lavagem, realizado na última sexta-feira. “Eu só carrego sonhos, mas ninguém faz nada sozinho. A gente vai construindo um tijolinho de cada vez e por isso que deu esse resultado”

O próximo ano

Vale ressaltar que os desfiles aconteceram em um lugar improvisado. Já foi falado que o sonho dos desfilantes de Brasília é construir um Sambódromo próprio. Antigamente, havia o ‘Ceilambódromo’, na região de Ceilândia (DF). Mas por algumas questões deixou de existir. Entretanto, para Sol Montes, o sucesso foi tanto que se deve pensar em outro local para realizar os desfiles de 2024. “Eu tenho certeza que não vai caber esse tamanho ano que vem (passarela Marcelo Sena). A gente vai ter que pensar em um lugar muito maior, porque as pessoas vão acreditar ainda mais que é possível”, completou.

De fato, a passarela Marcelo Sena é relativamente pequena, apesar de ter sido bem estruturada e em um local provisório. É um lugar que comporta 6 mil pessoas e tem uma pista de 220 metros. Foi improvisada no Eixo Cultural Ibero-americano de Brasília.

Riotur abre inscrições para blocos de rua do Carnaval 2024

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Os blocos de carnaval que querem desfilar pelas ruas do Rio de Janeiro no ano que vem já podem se inscrever na RioTur, a empresa municipal de turismo. O cadastro é a primeira fase do processo de validação dos desfiles. A portaria que regulamenta todas as etapas também está disponível no site RioTur no espaço carnaval de rua 2024.

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Foto; Divulgação/Riotur

As inscrições vão até 1º de agosto. A portaria inclui também as normas técnicas sobre o uso de veículos, delimitação de espaço dos blocos, direitos autorais e exposição de marcas de patrocinadores dos blocos.

A prefeitura pede que os foliões façam o cadastro para organizar a estrutura da festa. Como a distribuição de banheiros e do serviço de limpeza urbana.

Este ano, 450 blocos desfilaram pela cidade, durante os períodos de pré e pós-carnaval.

De acordo com estimativas da RioTur, dos cercas de R$ 4,5 bilhões gerados pelo carnaval deste ano, aproximadamente R$ 1,2 bi se deve ao Carnaval de rua.

* Com informações da Agência Brasil

Mestre Átila é o novo comandante da bateria da Tradição

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Mestre Átila é o novo reforço que a Tradição aposta para voar alto no carnaval 2024. O mestre, que assume a bateria “Explosão de Elite”, chega na azul e branco de Campinho no momento em que a presidente Raphaela Nascimento reforça toda a estrutura e equipe da escola para uma nova Tradição.

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Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Átila possui vasta experiência no carnaval. Comandou as baterias do Império Serrano, entre 2002 a 2009, e da Unidos de Vila Isabel, em 2010, sendo agraciado com diversas premiações, além de presidir a verde e branco da Serrinha, o Império Serrano, entre 2011 e 2014. O mestre também possui passagem à frente dos ritmistas da Acadêmicos do Sossego, Em Cima da Hora e Lins Imperial.

Com uma bela trajetória, o músico entra para o time do Condor com o objetivo de somar ao espetáculo que a presidente Raphaela Nascimento está preparando para o próximo desfile. Segundo a presidente, é uma honra ter um mestre com tanto talento musical.

“O mestre Átila é sinônimo de qualidade. Estou muito honrada e feliz em tê-lo conosco. Tenho certeza que a bateria Explosão de Elite estará em ótimo comando, pois é enorme o seu talento musical. É uma honra poder montar um time cada vez mais coeso com meus objetivos: uma escola forte e pronta para brilhar e fazer bonito em 2024”, afirmou a presidente.

Para o mestre de bateria, a Tradição é uma grande escola e merece grandes desfiles. “Fico honrado em fazer parte de uma escola com tantas histórias e carnavais inesquecíveis. A Tradição é uma grande escola e merece grandes desfiles, pois foi assim que ela começou: grandiosa. E, com a presidente Raphaela Nascimento, o Condor irá voar alto mais uma vez. Muito interessante a proposta da escola para 2024. Fiquei feliz com o convite e abracei com carinho a Explosão de Elite”, contou Átila.

A Tradição será a sétima escola a desfilar na sexta-feira, dia 16 de fevereiro do próximo ano, pela série prata do carnaval carioca.

Salgueiro: Edson Pereira vai deitar e rolar na plástica com o enredo para o Carnaval 2024

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Durante a live “Galera no CARNAVALESCO“, Guilherme Campagnuci, Leonardo Antan, Freddy Ferreira e Renata Campagnuci falaram sobre o enredo do Salgueiro para o Carnaval 2024. Escola levará para Marquês de Sapucaí no ano que vem “Hutukara”.

 

Leia a sinopse do enredo da Mocidade para o Carnaval 2024

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Enredo: “Pede caju que dou… pé de caju que dá!”

Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido” – (Breviário do Tropicalismo, Torquato Neto)

logo mocidade24

Carne de caju

O poeta sempre mira a própria terra ao trançar letras e alçar voos. Nada mais natural que ele e seus parceiros, além de outras inspirações, buscassem uma fruta nativa, farta e com certo capricho corporal para explodir em cores toda a revolução tropicalista. Pudera! A suculência agridoce que seduz os lábios, proclama a ciência, é mero penduricalho acessório. O fruto, no duro, está no alto, qual um cocar, black power ou coroa: a castanha. Mas quem é bobo de não se lambuzar com tudo?

No chão de inversões igualmente marcantes e da arte que passou a transgredir e realçar o profundo da brasilidade, nosso recado carnavalizado tá na mesa: o redemoinho antropofágico da Tropicália cravou os dentes também em carne de caju. Yes, nós temos pra chuchu! A partir dele, simbora abocanhar e sentir o país de tantas porções e sabores? Caldo de mel e travo, como o cotidiano, “a manhã tropical se inicia. Resplendente, cadente, fagueira, num calor girassol com alegria. Na geleia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia…”.

Há um cajueiro de copa verdinha no lado esquerdo de todos os peitos, dizem. Pinta de rim, mas convite ao pecado. Caju-de-árvore, caju-anão, caju-rasteiro, caju grandão ou tímido, caju amarelo, rosado ou pra lá de vermelho. Protagonista de soneto composto, quiçá, na banheira de Vinicius: “consistência de caralho e carrega um culhão na natureza”. O materialismo elementar pelo avesso. Que mancha, que arde, que abunda! Que chove. Exagerado e a prumo. Tupi acayu a pau.

Cajuí or not cajuí, that is the question! Faremos dele carnaval!

Anacardium occidentale

E vamos de mergulho no passado contado em castanhas por tantos povos originários. Cada caju na cabaça, uma primavera. A tribo do indígena Porã, expulsa do lugar de origem, só encontrou felicidade quando floresceram as castanhas guardadas pelo sábio Tamandaré (seu avô), até então, perdidas. Veio a seguir o tempo de caju, de generosidade, já que a “noz que se produz”, além do beabá da Botânica, semeia fartura, lembrança e afeto. Nas cerimônias que envolvem o Torém, ritual sagrado dos Tremembés, os espíritos dos que cantaram para subir proseiam com os vivos. O entornar desbragado de mocororó, ou vinho de caju, hidrata a raiz das tradições – já que a festa esbarra na época de colheita.

Contam os sabidos que hordas do interior buscavam o litoral enfeitado pelas árvores abarrotadas. As ditas “Guerras do Caju” surgem assim, e antes de Cabral, mas ganharam adstringência quando as treze naus apontaram no horizonte. Aí, cresceu o olho gordo pra ordem de tonelada! O portuga logo melou os bigodões de interesse. O francês, mon amour, pôs na boca, manchou os bolsos e deu firma em célebre ilustração. Já ao dono real da terra… Bem, restou lutar – borduna em punho – contra as mumunhas do afanar institucionalizado, nosso amargor histórico.

E nem falamos do holandês, outro que não marcou bobeira naquele fuzuê: Nassau tratou de legislar, pôs carimbo e remeteu aos seus o presentinho inflacionado. Velas ao vento na contramão, estava arranjada a invasão – o caju-desbravador a fazer epopeia e pose de Tupiniquim Caju Fruit Company – pelo inverso itinerário das grandes navegações. Retorno à vista! The Brazilian Way Of Life natural reverenciado com rapapés e incrementado do lado de lá do oceano por monarcas e súditos.

Caju-rei

Mas, se até o nada asseado D. João topava um banho de gato marotíssimo na antiga Praia do Caju (com a intenção de se curar das picadas por carrapatos), e Pedro II era retratado como Pedro Caju pelas charges dezenovistas… Quis o fruto erguer o seu reinado nas bandas de cá mesmo. Em Pirangi do Norte (quina litorânea superior do país), no ano da libertação dos escravos, um pescador de nome Luiz Inácio plantou o danado que vestiu a faixa de “Maior Cajueiro do Mundo”.

No lugar de subir, a galhada se espichou para os lados, com a aparição de novas raízes ao tocar o solo. Danou a crescer sem freios. O “polvo” potiguar de tentáculos cheirosos fez fama e enumera colheitas a sumir da memória, espécie de refazenda em trajetória interminável. Sobre o pescador homônimo de presidente, seguiu os dias sempre próximo à criação improvável. Certa vez, bastante velhinho, sentou-se prum descanso à sombra de uma das ramificações e nunca mais acordou. Ciclo vital aromatizado pela árvore-sentinela.

Tudo parecia mar calmo, só que pintou contestação. O típico duelo de meninotes de calça curta acerca de quem ostenta o tronco de destaque entre a molecada. Recentemente, o autocoroado “Cajueiro-Rei”, nas franjas do Delta do Parnaíba, tratou de reivindicar o alto da rampa de campeão da fita métrica. No caso deste, há, ainda, trágica lenda indígena a tiracolo: espalham nos arredores que – cercados por mar de cavalos-marinhos, peixes-bois, tartarugas e golfinhos – dois guerreiros lutaram pelo amor da cunhã-poranga Jacira. Culminou em tragédia acompanhada de milagre.

Após a disputa, o perdedor emboscou o seu rival e a amada durante passeio em que colhiam cajus. Duas flechadas, ambos mortos. Foi, então, que a tempestade plena de raios e trovões do dia seguinte produziu cena mágica: no exato lugar do enterro do casal, emergiu a planta de dimensão extraordinária. Alguém duvida?

O quiproquó dos cajueiros inspira torcidas organizadas, teorias rocambolescas que fazem biólogos rebolarem um bocado nas explicações, tal de “mede aqui, mede acolá” longe do apito final do juiz. Mas, enquanto não existe régua com o devido amém de ambos os lados, o jogo é bom para a castanha-commodity e seu pedúnculo popstar: seguem campeões de audiência junto a paladares gringos e nossos. Autênticos reis do mundo. Reis à caju.

Caju-brasuca

Entre pelejas e causos assim da sabedoria dos povos – com delírios por excesso de caju fermentado nas ideias ou verdades incontestes –, o filho legítimo dessa aldeia gigante grudou feito “noda”. Expressão de memória coletiva, nos lábios de mel da literatura, economia musculosa, holofote dos anjos ou demônios que nos conectam ao sentimento e calorzinho de nação. Castanha-mátria, caju-pátria. Confidentes dos profundos quintais interiores.

Nas curvas do destino e dos desatinos de Macunaíma, tão metáfora da rotina brasileira, ah!, lá está o caju a marcar e serpentear os seus passos contraditórios. Acompanhante-anti-herói-espelho-meu. Caju-brasuca também na corda bamba com pincel na mão: a feira modernista de Tarsila em contraste com a “cica” memorial da melancólica aquarela de Debret retratando a escravidão. Haja caju nas tantas camadas sobre tela! Telas, por óbvio, da mais pura vida real extraída do pé. Pede caju que dou, pé de caju que dá.

Dá em tela de caju-caipi-pop, virado pra dentro industrialmente, enquanto as pernocas não bambeiam: a própria enciclopédia dos amigos pós-doutores na disciplina língua enrolada. Consistente, cortadinho em rodelas, do prato e da polpa, sabor agreste e cerrado, que encanta o doce e o salgado. Para quem quebra castanha coletivamente – alegoria da roda cronológica –, gosto de pertencimento compartilhado e laço. Ou mero pedaço, vá lá.

Tela do caju-família. Vitamina, crendice e mistura que nos inflamam. Do refresco, do licor, do suco. “Goiabada para sobremesa…”. O acorde da viola sussurrando saudades. E até compota ajeitadinha, fita e tudo. Remedinho da mamãe. Receita passada como herança no caderninho amarelado que não se empresta nem ao melhor amigo. Sujeito-elo entre a rua e a varanda. Toalha de mesa estendida e água na boca. Pinga. A regar brincadeira popular ou manifestação religiosa: da quermesse à curimba, do sambão ao batidão na esquina de casa.

Tela do caju-moleque. Com travessa de cajuzinhos a perfumar a vivência dos experientes – “quando você ia aos cajus, eu já voltava com as castanhas assadas”. Virou também recado reto ao vacilão que resolve brigar de bobeira: “ei, vai tomar caju!”. E segue o bloco! Que contorna a praça e abraça o cajueiro central, debruçado na fuzarca tipo anfitrião namorador. Rostinhos colados à malemolência do cancioneiro, o fim do baile traz o beijo da morena tropicana, vejam só. Pele macia, saliva doce, sim, vou lhe desfrutar. “Ô, iô, iô, iô…”.

Geleia geral

Natural que a geleia geral de sabores acima tenha, de fato, a alma da Tropicália, e aí pensamos outra vez no poeta: “existirmos a que será que se destina?”. A dúvida existencialista diante da ambivalência do fruto-não-fruta parece extrato nosso chupado de canudinho com aquele barulhinho sacana. Ora, fundamentalmente, existimos a partir da cultura popular e da riqueza exuberante sobre a terra fértil, inda que descuidadas. Eis que o Brasilzão mira a água cristalina do Atlântico e lá está peladão e sem vergonha: é o próprio caju jamais proibido. Travesso no trato, travoso um tanto, “totoso” no total.

Que mistério possui o torrão continental que goza flora pujante como fogos de artifício, e se entorpece da energia do povo na loucura de ser? Salada mista ardente de gritos ambulantes que vendem e consomem fertilidade, é mascate de prazeres até o talo. A alquimia desengonçada do rapaz metido a gato-mestre na barraca de caipirinha: “açúcar, dotô?”. Para esbanjar vida cajuína mergulhada em delirante cortejo made in sol e mar, desfile n’areia, curvas de sereia, sumo e pegada.

Um viva ao paraíso tropical que tudo dá e ao estado de festa indomável na relação entre gentes e chão – o melhor caju do pé de Brasil. Ou seria o melhor Brasil do velho cajueiro?

Alegria gaiteira, convenhamos, já muito experimentada no terreiro fervido dos independentes. Basta “olharmo-nos intacta retina”.

Na cabeça, uma estrela. No corpo suave, o rebolado passista e a pulsação do tambor. Que tal a deliciosa carne de carnaval, o salivar permitido, lamber os beiços longe de qualquer pingo de culpa?

Cá estou, “cajuinamente”, servida de bandeja com a dose de feitiço que me fez banquete desejado desde moça.

Vai, batida mais quente, e vê se leva o aroma do sonhado reencontro comigo mesma: sou dádiva que se alastra igual caju. Sou o fruto mais doce e sexy da capital da folia. Sou quem morde o seu coração…

Carnavalesco: Marcus Ferreira
Enredo: Marcus Ferreira e Fábio Fabato
Sinopse: Fábio Fabato
Presidente de Honra: Rogério Andrade
Presidente: Flávio Santos
Vice-presidente: Luiz Claudio Ribeiro

Beija-Flor leva o samba ao maior São João de Maceió

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A população de Maceió caiu no samba com a Beija-Flor de Nilópolis durante o São João Massayó deste ano, uma das principais festas juninas do Nordeste. A agremiação esteve entre as atrações do último sábado, no Polo Carlos Moura, no bairro do Jaraguá.

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Foto: Itawi Albuquerque/Secom Maceió.

Prestes a mostrar a capital de Alagoas dentro do enredo de 2024, que vai abordar a história de Rás Gonguila, importante personagem da cultural local, a azul e branca caprichou na apresentação, com direito a passistas, bateria e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha Sorriso.

A Beija-Flor será a segunda agremiação a desfilar pelo Grupo Especial, na Marquês de Sapucaí, no domingo, dia 11 de fevereiro.

Grande Rio começa ensaios de bateria para o Carnaval 2024

Os dias de descanso do sambista de Duque de Caxias já terminaram. A partir desta terça-feira, a quadra do Acadêmicos do Grande Rio retoma suas atividades visando o Carnaval 2024. A partir das 20h, os ritmistas comandados pelo mestre Fafá voltam a afinar seus instrumentos para dar início a mais um ciclo de preparação para o próximo desfile na Marquês de Sapucaí. É o próprio comandante que explica a antecedência com a qual os treinos acontecem.

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Foto: Eduardo Hollanda/Divulgação

“Para nós, o entrosamento cumpre um papel fundamental para a execução perfeita na Avenida. Quanto antes começarmos esse aquecimento, melhor. Logo teremos as outras etapas do pré-Carnaval, como a escolha do samba-enredo, e é preciso que estejamos preparados desde já para entrarmos no ritmo e desenvolvermos nosso trabalho com base na obra que levaremos para o desfile”, explica o mestre.

Mas não só a orquestra de Fabrício Machado vai entrar em cena na Grande Rio nesta terça. O chão da quadra também começa a ser riscado pelas alunas e alunos que desejam aprender ou aprimorar seu samba no pé. Comandado pelos premiados Marisa Furacão, Luciene Santinha e Avelino Ribeiro, o projeto Samba de Ouro terá periodicidade semanal, começando também nesta terça-feira, às 19h e promete formar novos talentos do Carnaval.

“Nossa bandeira é o samba. Queremos propagar essa arte e transmitir nossa paixão através dessa oficina. E, quem sabe, incorporar novos integrantes à nossa ala para o próximo desfile”, avisa a diretora da ala de passistas Marisa Furacão, que já foi ganhadora do Estandarte de Ouro e tem uma história de mais de duas décadas defendendo as cores da tricolor caxiense. Se esse era o incentivo que faltava, basta comparecer na quadra da Grande Rio na data e hora do projeto e se inscrever. Será cobrada uma taxa de inscrição no valor simbólico de R$ 15, sem pagamento de mensalidade. É possível obter mais informações pela página do Instagram @passistasdagranderiooficial.

O Acadêmicos do Grande Rio será a quarta escola a desfilar no domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro de 2024, e levará para a Sapucaí o enredo “Nosso destino é ser onça”, dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora.