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Ailton Santos e Matheus Gaúcho são as vozes oficiais da Unidos do Jacarezinho em 2027

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Foto: Yago Veloso/Divulgação Jacarezinho

A Unidos do Jacarezinho terá no carnaval 2027 a dupla Ailton Santos e Matheus Gaúcho no comando dos microfones oficiais da ala musical. Ailton que atualmente é o intérprete em exercício mais antigo na mesma agremiação, recebe o reforço de Matheus Gaúcho para juntos defenderem a branca e rosa do Jacaré na Sapucaí.

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Ailton Santos é desde 2006 intérprete oficial, mas está na Unidos do Jacarezinho desde meados da década de 90. Aílton Santos é oriundo de Brás de Pina e trabalhava com o tio do ex -presidente da agremiação, José Roberto, quando o convite foi feito para que viesse a fazer parte da escola, em 1995. De lá pra cá, nunca mais se desligou da agremiação. Em 2006 assumiu o primeiro microfone, se tornando a voz oficial da agremiação: “É um orgulho imenso e uma responsabilidade muito grande. O Jacarezinho já teve vários intérpretes de peso como Alexandre D’Mendes, o Monarco já cantou aqui, Elieser Rodrigues, Clóvis Pê, o saudoso Carlinhos de Pilares e o da casa, Joelson Ávila”, lembra Aílton.

Matheus Gaúcho é um intérprete de samba-enredo nascido em Maricá (RJ). Iniciou sua caminhada ainda jovem no samba e ganhou projeção como voz oficial da União de Maricá, onde atuou entre 2015 e 2025. Durante esse período, participou de importantes carnavais da escola e conquistou títulos pela agremiação. Ao longo da carreira, também integrou carros de som de escolas do Grupo Especial como a Unidos do Viradouro e a Unidos da Tijuca, ampliando sua experiência no Carnaval carioca.Para o Carnaval 2026, foi anunciado como intérprete da Unidos da Ponte ao lado de Thiago Brito, formando uma dupla aposta da escola para o desfile e para 2027 passa a integrar o carro de som da Grande Rio ao lado do intérprete de Ito Melodia, além da Unidos do Jacarezinho.

“Será um prazer e uma honra dividir o palco com alguém com tanta história na escola como o Ailton Santos. Também será um grande aprendizado poder conviver com um intérprete com tanta experiência. Chego pedindo os meus respeitos, agradecendo ao convite para fazer parte de uma escola tão tradicional quanto o Jacarezinho e avisando que não mediremos esforços para trazer a nota máxima” – avisa Matheus Gaúcho.

A Unidos do Jacarezinho será a segunda escola a pisar na Avenida na sexta-feira de carnaval, dia 05 de fevereiro de 2027. A agremiação segue montando o elenco que disputará o próximo carnaval.

Estácio de Sá anuncia Diego Nicolau e Guto como intérpretes para 2027

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Foto: Rafael Arantes/Divulgação ImaginaRio

A Estácio de Sá, em preparação para o ano centenário, segue reforçando seu time com grandes nomes de sua história e do carnaval carioca. Para a missão de entoar o samba de 2027, a agremiação anuncia a chegada de Diego Nicolau e Guto como intérpretes oficiais desta temporada. A dupla, que repete a parceria já feita em 2022 pela Unidos de Padre Miguel, vê com alegria esse reencontro no Berço do Samba. “Voltar a cantar com Diego é muito legal. Ele é um ser-humano fantástico, um cantor excepcional, a gente se respeita e se gosta muito e isso reflete no trabalho”, comenta Guto sobre o parceiro.

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Ser voz de uma escola com o peso da Estácio de Sá, por onde grandes nomes já passaram ao longo de sua história, é uma tarefa que emociona. Diego Nicolau, fã do intérprete Dominguinhos do Estácio, conta como é ocupar o mesmo posto de seu ídolo: “Para todo cantor, cantar na escola onde seu ídolo foi figura lendária é uma grande honra. Quando surgiu a possibilidade dessa missão, eu só pensava nele. Inclusive, pedi a ele que, se fosse a minha hora, ele me desse essa ajuda. Hoje estou aqui e acredito que vai ser muito emocionante”. Diego lembra, também, que esteve ao lado de Dominguinhos em seu último desfile, quando este foi homenageado pela Unidos do Viradouro, em 2020.

Diego e Guto possuem uma longa e exitosa trajetória no carnaval e chegam à vermelha e branca para enriquecer os preparativos do centenário. “Poder fazer isso pela Estácio, nesse ano tão especial, é uma vitória muito grande para mim e estou muito feliz”, completa Guto.

A Estácio de Sá dá as boas-vindas aos nossos intérpretes, que serão apresentados oficialmente durante a próxima Feijoada do Leão, que ocorrerá na quadra da agremiação, no dia 7 de junho, a partir de 13h.

Carnaval paulistano dá passo histórico rumo à sustentabilidade com curso gratuito para sambistas

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Fotos: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

Por Pedro Ribeiro

O Senai Bom Retiro foi o palco na última quinta-feira de uma importante iniciativa do carnaval paulistano: o Carnaval Sustentável SP. O projeto, encabeçado pela Liga-SP, em parceria com o SENAI-SP e a UESP, oferecerá um novo e gratuito curso para a comunidade sambista das escolas da Liga-SP e da UESP: o curso Economia Circular e Sustentabilidade no Carnaval. A união das entidades ultrapassa 100 instituições, algo inédito no campo da sustentabilidade no carnaval. Em seu discurso no evento, o presidente da LIGA-SP, Renato Remondini, o Tomate, afirmou que é “uma oportunidade que, se Deus quiser, São Paulo vai exportar para todo o Brasil”. O evento contou também com a presença do presidente da UESP, Alexandre Magno, o Nenê, que explicou ao CARNAVALESCO o quão significativo foi receber o convite da Liga-SP para aderir ao projeto.

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“A união dessas casas faz com que as escolas de samba entendam a importância desses termos para o mundo. Um exemplo formidável e impactante de reutilização são os itens descartados pelas escolas do Grupo Especial da Liga-SP, que para a UESP são como “ouro”. As entidades precisam reconhecer isso. Precisam saber que esse ouro é muito valioso e, na hora, vai ser transformado em espetáculo nas pistas de barro da UESP”, disse.

Mas como essas palavras se encontraram? E o que economia circular e folia têm em comum? A dimensão e a potência que o Carnaval paulistano atingiu em 2026, com mais de 80 milhões de visualizações digitais e transmissão para 193 países, trouxeram a necessidade de avançar no tema da sustentabilidade, tão pertinente quanto confuso para o cotidiano, como contou ao CARNAVALESCO a idealizadora do projeto e diretora cultural da Liga-SP, Lúcia Helena.

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Idealizadora do projeto e diretora cultural da Liga-SP, Lúcia Helena

“Eu ouço muito técnicos e acadêmicos falarem em sustentabilidade (…), mas, no dia a dia, como é que eu posso contribuir? E aí nós resolvemos simplificar: afinal de contas, quem tem mais capacidade que o carnaval de descomplicar um tema?”.

Ela conta que, atualmente, dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável, a Liga-SP já pratica 11, como reuso de água, inclusão, diversidade, uso de placas solares, coleta seletiva de lixo, entre outras ações. Pode passar despercebido, em meio à festa, todos os impactos industriais que circundam a folia. Nesse contexto, o SENAI-SP está inserido no carnaval intrinsecamente.

O CARNAVALESCO ouviu o professor Carlos Alberto Pereira Coelho, diretor do SENAI Bom Retiro, para entender essa relação: “Essa mesma indústria é a indústria que também faz o carnaval. Não tem carnaval sem isopor, você não tem carnaval sem tecido, você não tem carnaval sem ferragem, e todo esse material é feito na indústria”, afirma.

A fusão entre a indústria e o desenvolvimento sustentável é uma exigência contemporânea, ética e global. Segundo ele, o uso desses materiais para a realização do carnaval também é responsabilidade da indústria, porque “para a indústria também é importante que esses materiais tenham o destino correto, porque faz parte da cadeia de fornecimento dela. O tema é trabalhado em toda a cadeia: circularidade”, disse ele.

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Presidente da UESP, Alexandre Magno, o Nenê, com Tomate, presidente da Liga-SP

No lançamento do curso, foi apresentada a explicação conceitual da economia circular, baseada em três princípios: eliminar resíduos desde a origem; manter materiais em circulação; e regenerar a natureza, produzindo melhorias do ponto de vista ambiental, social e econômico.

O curioso dessa história é que o carnaval paulistano já praticava lógicas de economia circular, ainda que não as nomeasse assim. Lúcia Helena, mais uma vez, elucidou ao CARNAVALESCO.

“O nosso pessoal já fazia muita coisa de forma intuitiva. Aproveitando o tecido, aproveitando pedra e reutilizando escultura; sem a técnica. Fazendo por necessidade, muitas vezes. Mas sem a consciência de que, com aquela prática, ele estava fazendo muito mais do que reaproveitar uma pedra ou reaproveitar um tecido. Ele estava também trabalhando na economia circular e cuidando do planeta um pouquinho”.

Ainda segundo ela, a inserção do carnavalesco Igor Carneiro no projeto foi decisiva para solucionar o desafio de intermediar a linguagem técnica do SENAI-SP com a linguagem popular dos integrantes da folia paulistana.

A apresentação acerca da estruturação do curso para o público presente foi dinâmica, moderna e incisiva. A flexibilidade de acesso ao conteúdo coloca a teoria para caminhar com a prática da vivência dos sambistas e suas realidades, porque poderá ser feito de forma online. A abordagem está centrada em conhecer os tipos de materiais, identificar os impactos sociais e ambientais, organizar o ambiente de trabalho, aplicar ferramentas de avaliação e aprender novas estratégias de negócio.

Abaixo, tudo o que você precisa saber para participar:

• Início do curso: 08 de junho de 2026
• Prazo de conclusão: 21 dias
• Duração: 16 horas
• Ao final do curso, todos receberão certicado do SENAI Bom Retiro

Unidos da Tijuca 2027: leia a sinopse do enredo

Enredo – A CABEÇA DO SANTO

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JUSTIFICATIVA

“A Cabeça do Santo”, uma proposta de releitura da obra homônima de Socorro Acioli, é o enredo que a Unidos da Tijuca aposta para potencializar a narrativa do brasileiro sertanejo e nordestino no carnaval de 2027. Entendemos que a Marquês de Sapucaí é um espaço de desmistificação de visões estereotipadas a respeito dos elementos culturais da identidade nacional. Vale salientar que o livro, sucesso de vendas, é uma narrativa de realismo fantástico escrita a partir de uma história que só poderia acontecer no Brasil. Uma estátua foi construída, nos anos 80, para homenagear Santo Antônio. Porém, a cabeça do monumento foi construída longe do corpo, e nunca chegou a ser colocada no lugar, deixando a obra inacabada. O fato logo gerou grande discussão entre os moradores do lugar. Foi no município de Caridade, interior do Ceará, que um acidente de percurso virou uma história que despertou curiosidade de várias partes do nosso país.

Utilizamos o mesmo realismo fantástico como fonte para propor uma nova narrativa para Samuel, respeitando os recursos de narrativa da obra de Socorro. No enredo, a história é territorializada em Caridade, lugar onde, de fato, aconteceu a história do santo sem cabeça e da cabeça sem santo. Inserimos elementos da cultura local que representam a devoção dos moradores ao padroeiro Santo Antônio, particularidade que permite uma aproximação da ficção com a realidade, gerando também pontos de identificação dos caridadenses com o desfile e a jornada de Samuel.

SINOPSE

Céu de sonhos e estrelas, incerteza e firmamento sobre a cabeça daquele homem. Samuel, nome de profeta, mas com a inquietude de um cão. No terreiro de casa, tentava adormecer suas memórias. Insônia desinfeliz ou devaneio acordado? Lembranças que rasgam o véu do tempo, uma infância vivida no coração do sertão nordestino. “Filho, vá encontrar o seu destino”, dizeres que ainda ecoam ao pé do ouvido. No fundo, sabia que teria herdado de Mariinha, sua mãe, os olhos pequeninos, e também a coragem. Vitalina malfalada: aos olhos do povo, desonrada, mas aos olhos de Deus, a sua vida se assemelhava ao calvário vivido por outras tantas Marias. Abandonada por um rosto sem nome, desceu à sepultura levando consigo a esperança de quem nunca deixou de acreditar. Sem muito entender, Samuel esfregava a vista e enxergava. Era a besta-fera em pessoa num enlace com a noiva beata. Desfelicidade do passado, o vazio, a desesperança: o que a vida queria lhe dizer?

Não era lá homem de muitas crenças. Era difícil continuar acreditando. Tinha apenas uma esperança: o relicário que ganhou de mainha. Estavam ali Santo Antônio, Padre Cícero e São Francisco, a tríade sertaneja da fé. Era a lembrança da promessa. Antes da partida, ela pediu que acendesse uma vela aos pés de cada um, como quem quisesse pagar uma antiga dívida, agora herdada por Samuel. Peregrinar até Caridade talvez fosse o único jeito de encontrar as respostas sobre o seu passado. Levando na mala a saudade do ontem, o jovem vaqueiro partiu sem saber do amanhã.

A estrada não seria fácil. Quanto mais longe ficava o seu Juazeiro, mais perto estaria da sua verdade. No bolso esquerdo, o endereço de poucas palavras. No mesmo lado do peito, o vazio. Trocava de pele como quem quisesse mudar de vida. O sopro quente do sol a pino já começava a enganar a sua mente. Entre as andanças, ficou face a face com um andarilho no sertão. Seria Jesus testando a sua fé? Dizem as línguas que o nazareno peregrina pelas estradas empoeiradas do Ceará em busca de um pedaço de pão. Ao adentrar a escuridão, viu seus próprios medos refletidos na figura do cramulhão. A imagem sem rosto que sempre teve do seu pai, a dor sem nome, o abandono. Vade retro, coisa ruim! Enfrentou os assombros, os monstros de que ouviu falar quando criança. Quase teve um passamento no coração! Nessa história mal contada, até a mula perdeu a cabeça. Ameaçou rezar, mas lembrou da descrença que lhe tomava. Naquela afobação, adormeceu, viu clarear o dia. Lembrou do tempo em que sonhava ver o mar, para saber se era mesmo verdade essa história de que a água era salgada. Naquele instante, tudo era miragem. Diacho, o sertão virou mar!

Entre paisagens e visagens, dias e noites, Samuel andou tanto que em algum momento desacreditou que um dia pudesse chegar. Olhou para os lados e avistou: Caridade. Talvez fosse exatamente o que ele precisava. Sua chegança gerou o maior zum-zum-zum, era uma ruma de gente amontoada nas janelas das casas. Eita, povo fuxiqueiro! Também se falava de um Santo Antônio sem cabeça, ou seria de uma cabeça sem santo? Muitas são as tentativas de explicar esse causo, mas a verdade é que talvez só Deus saiba o motivo de tamanha peleja. Histórias que só poderiam acontecer no Brasil. Esteve em frente à casa de sua avó, no velho endereço, mas viu a porta de seu reencontro com o passado se fechar. Já era noite, precisava descansar. Brilhos no céu estrelado anunciavam os festejos do padroeiro: treze dias de devoção para o famoso santo casamenteiro. Na igreja matriz, barraquinhas, ex-votos e anjinhos. O traje colorido das crianças se misturava às bandeirolas que caíam das estrelas. Era junho, mês em que a reza se fazia par da festa. O arraiá do povo! Como podia aquela gente acreditar tanto? O cansaço não lhe dava muito tempo para pensar. Ao avistar uma gruta silenciosa, deixou o corpo repousar. Mal sabia ele que era na cabeça do santo que o seu sono fazia morada.

Despertou de um sono profundo, entre choros, súplicas e lamentos. Um alvorecer de vozes. Em meio ao caos, um canto inebriante acordou os seus pensamentos. Seria ainda o delírio de um mar no sertão? Pois aquela voz soava como um canto de sereia, de alguém que já teria sentido um dia a brisa que vem das águas. Olhou à sua volta e não teve fé em tamanha ironia: o sujeito desacreditado morou por uma noite dentro dos pensamentos do santo. Que diacho aquelas vozes queriam falar? Se essa era mesmo a mente aperreada de Toinho, ele deveria estar de saco cheio. Também, quem mandou ser casamenteiro? Ora, devia ser um verdadeiro martírio a vida do santo naquele lugar. Coitado, não tinha nem descanso nem dignidade. Era submetido a diferentes castigos: escondido no congelador, deixado de cabeça para baixo dentro de um copo e, quando não atendia aos pedidos, arrancavam-lhe o menino Jesus dos braços como forma de punição. Era chantagem emocional em nível celestial.

Se a simpatia era porta aberta para todo tipo de gente, a cabeça virou um templo de confissões. De tanto acompanhar a novela das devotas apaixonadas e o penar de Madeinusa, a mais fervorosa das vozes, virou mensageiro do santo. Se conselho fosse bom, não se dava, se vendia. E foi exatamente o que ele fez. Uma fila de mulheres se aprumou em frente à cabeça oca para escutar o que ele tinha a dizer. Já era praticamente um confidente delas. Sabia, pela sinfonia das vozes, o nome de cada um dos pretendentes e, juntando a fome com a vontade de comer, organizou casamentos como quem orquestrava um milagre. O altar de Caridade se encheu de véus e buquês. Um grande matrimônio popular!

Samuel não lembrava nem de longe aquele forasteiro liso que chegou à cidade. A fama, a bufunfa e o prestígio chegaram sob o jugo de Santo Antônio, como graça torta, dessas que se recebe sem nunca entender o preço. Mas tinha um buraco por dentro que nem toda fortuna do mundo dava conta de tapar. Um vazio danado, desses teimosos, que não obedecia nem a milagre. O bafafá sobre o cabra milagreiro só crescia. Seria ele um enviado dos céus ou um malandro aproveitador? Que heresia falar pelo santo sem nem ter fé na sua existência! Ou algo dentro de si teria mudado? Numa tomada de consciência, sentiu-se um grande pecador. Naquele dia, não fez atendimentos na cabeça. Greve do santo! Estava decidido a deixar tudo para trás e voltar para o seu velho Juazeiro.

Subiu ao Serrote e estava ali de frente com a estátua descabeçada. Procurou Padim Ciço, o milagreiro, lembrou da infância em sua terra natal. Viu São Francisco, o beato pregador, e foi como se passasse de novo por Canindé. Sentiu a presença de Mariinha e uma paz foi se espalhando no peito, feito chuva boa caindo em tempos de seca. Ali, no silêncio da própria alma, entendeu que aquela velha dívida enfim estava prestes a ser paga. Quando enfim se ajoelhou aos pés de Toinho, acendeu a última vela e desabafou sobre as sombras do passado, até ser surpreendido por uma voz: “Perdão, meu filho!” Oxe, agora o santo queria falar? Esfregou os olhos, custou a crer e viu um senhor cabrunco sair de dentro do corpo. “Eu não queria ter te abandonado, Samuel”, continuou a falar. A besta-fera agora tinha rosto: Manoel, seu pai. “É tudo culpa minha!”, revelou que, muito tempo atrás, mandou construir a cabeça maior do que deveria. Foi quando o filho abandonado percebeu que aquele era, na verdade, um cabra escambichado, carregado de culpa, e foi como se enfim se libertasse das injúrias do passado. Jurou nunca mais voltar ali, era hora da partida.

Samuel tinha se desfeito de tudo que conquistou com a ajuda do santo. Estava livre para voltar para casa, sua terra. Os pés se viraram para a estrada, quando ele ouviu novamente aquele canto de sereia como onda. Voltou atrás e finalmente encontrou Rosário. Reconhecia aquelas palavras: “Despedida. Coração. Mar. Saudade.” Entendeu ali que nem toda saudade precisa ser triste. O coração livre das sombras o fez abrir os olhos para a fé e a crença no amor. Lembrou de cada pedido recheado de devoção, da fé esculpida pelas mãos dos artesãos. Preces de barro, peito de couro, sonho talhado em madeira. O que um dia foi maldição para a cidade se transformou num grande símbolo de devoção.

“Você é o meu milagre, Rosário.” O milagre mora nas escolhas miúdas e nas grandes travessias, no amor que a gente decide sustentar mesmo quando tudo é aperreio, no perdão que desata nó antigo e devolve a esperança. Mora nas tradições que mantêm um povo de pé, firme como o chão do sertão, reinventando suas existências onde parecia não haver mais nada. Mora nas histórias que seguem sendo contadas. Histórias de gente teimosa, de gente que luta, que cai e levanta, que acredita, apesar de tudo, em dias mais bonitos, mais justos, mais vivos. Samuel entendeu que também fazia parte disso. Que sua caminhada não era só dele, mas de muitos que vieram antes e de tantos outros que ainda viriam depois. E que os milagres, estes moram na nossa coragem. Coragem de fazer diferente, de desafiar o destino já escrito, de romper com o que aperta e não deixa avançar. Coragem de escutar o próprio coração, mesmo quando se duvida que ele ainda more no peito. Coragem de partir, de recomeçar e até mesmo de ficar. Um povo que acredita é livre pra sonhar, e o tempo de sonhar é em cima da terra.

AGRADECIMENTOS

À Socorro Acioli e à Companhia das Letras; à Simone Tavares, à Sibelle Tavares, ao Junior Tavares, à Amanda Lopes, ao Matheus Belo e ao Thyago Belo; ao Mestre Chico Belo e ao Instituto Chico Belo; à Mestra Benedita Gomes; à Mestra Aucélia; à Mestra Maria do Ceo; ao Mestre Francisco Lopes e à Fundação Cultural Francisco Lopes; à Jamylly Souza e ao Carimídia; à TV Canindé; ao Pedro Mores, à Mariana Barros, ao Ivan Cangaço, ao Gustavo Fernandes e ao Kassyo Mikaelson; ao Padre Felipe Calisto e à Paróquia Santo Antônio, em Caridade; e ao Padre Gleidson Freitas e à Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Campos Belos, nosso mais profundo agradecimento pelo acolhimento, generosidade, apoio e confiança ao longo desta pesquisa. Cada encontro, gesto e contribuição ajudou a construir, fortalecer e manter viva a beleza desse percurso coletivo.

Viva Santo Antônio!

Enredo e Pesquisa: Lucas Milato, Leandro Thomaz e Thayssa Menezes

‘Praça Onze Maravilha’: emenda aprovada na Câmara garante pleno funcionamento da Cidade do Samba

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Foto: Fabio Motta/Prefeitura do Rio

A Câmara do Rio aprovou, na última quarta-feira, o projeto que vai permitir à Prefeitura tirar do papel o programa “Praça Onze Maravilha”, iniciativa que promete transformar toda a região do entorno da Marquês de Sapucaí. Nos moldes do Reviver Centro e do Porto Maravilha, o projeto prevê requalificação urbana, novos empreendimentos residenciais, áreas de lazer e intervenções estruturais, como a derrubada do Viaduto 31 de Março e a criação de um novo Boulevard do Samba.

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Em meio às mudanças previstas para a região que tem o carnaval carioca como protagonista, uma das mais de 60 emendas aprovadas pelos vereadores chama atenção justamente por tratar diretamente do espetáculo. De autoria do presidente da Câmara, Carlo Caiado (PSD), o texto determina que qualquer processo de reestruturação, modernização, transferência ou implantação de novos equipamentos ligados ao carnaval deverá garantir a continuidade integral das atividades da Cidade do Samba Joãosinho Trinta, que fica na Gamboa.

Na prática, a medida assegura que os trabalhos das escolas de samba não sejam interrompidos durante as obras do “Praça Onze Maravilha”, preservando a cadeia produtiva do carnaval e evitando impactos sobre milhares de profissionais que atuam nos barracões ao longo de todo o ano. A emenda também reforça a permanência da Cidade do Samba próxima ao Sambódromo, evitando que os barracões sejam afastados da região dos desfiles.

“Estamos falando de uma cadeia produtiva que movimenta milhares de empregos e mantém viva uma das maiores expressões culturais do Rio e do Brasil. Essa emenda busca garantir que, durante todo o processo de requalificação da região, os trabalhadores do carnaval não tenham suas atividades interrompidas e que o espetáculo siga acontecendo com a grandeza que o caracteriza. Também queremos assegurar que os barracões permaneçam próximos da Marquês de Sapucaí, para não prejudicar a logística das escolas de samba”, afirmou Carlo Caiado.

Unir PDF Facilmente: Métodos Rápidos e Eficientes

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Tem uma cena bem comum hoje em dia que quase ninguém comenta: você termina alguma coisa importante – um trabalho, um relatório, um contrato – e, quando vai organizar tudo, percebe que virou uma coleção de PDFs separados.

Um arquivo com o conteúdo principal. Outro com anexos. Outro com assinatura. Outro com imagens… e por aí vai. Separados, eles até parecem fazer sentido. Mas na hora de enviar ou compartilhar… vira uma grande bagunça.

Você precisa explicar o que é cada arquivo, garantir que não esqueceu nada e ainda torcer pra pessoa abrir na ordem certa. E tudo isso é mais trabalhoso do que deveria.

É aí entra algo simples, mas extremamente útil: unir pdf.

Isso muda bastante a forma como você lida com documentos. Um único arquivo organizado é mais fácil de entender, mais profissional e muito mais prático. A melhor parte? Não precisa instalar nada, não precisa ser técnico e não precisa perder tempo.

Aqui você vai entender como unir pdf de forma rápida, quais métodos funcionam hoje e como fazer isso de um jeito mais inteligente no dia a dia.

Métodos rápidos para unir PDF

Se você ainda associa esse tipo de tarefa com programas complicados, vale atualizar essa ideia. Hoje existem formas muito mais simples de unir arquivos pdf, e justamente por isso o processo ficou muito mais acessível.

Ferramentas online (o jeito mais prático)

Esse é, de longe, o método mais fácil. Com uma boa ferramenta online, como o Lumin, você consegue unir documentos pdf direto no navegador. Sem instalação. Sem configuração. Sem cadastro complicado.

É só entrar no site, enviar os arquivos e pronto. Esse tipo de solução funciona especialmente bem quando você precisa de algo rápido e sem burocracia.

Arrastar e soltar (drag-and-drop)

Pode parecer detalhe, mas muda tudo. Em vez de navegar por menus confusos, você simplesmente arrasta os arquivos pra tela. Depois, organiza a ordem visualmente e pronto.

Isso torna o processo de unir arquivos pdf muito mais intuitivo, principalmente pra quem nunca fez isso antes.

Integração com nuvem

Outro ponto que facilita bastante é poder acessar arquivos direto do Google Drive, Dropbox, Onedrive ou outras plataformas. Isso evita:

  • Baixar arquivos manualmente 
  • Ficar movendo documentos entre pastas 
  • Perder tempo com etapas desnecessárias 

Pra quem trabalha com muitos arquivos, isso agiliza muito e deixa tudo mais fácil.

Ferramentas que permitem ajustes antes

Algumas plataformas vão além do básico. Você pode editar, reorganizar páginas, excluir partes e ajustar detalhes antes de finalizar.

Isso transforma o simples ato de unir arquivos pdf em algo mais estratégico: não só juntar, mas organizar melhor.

Como unir PDF facilmente (Passo a Passo)

Agora vamos ao que realmente importa: como fazer isso na prática.

  1. Carregue os arquivos PDF

Escolha todos os documentos que você quer juntar. Dá pra unir dois pdfs ou até mesmo vários pdfs. Você pode, por exemplo, unir imagens em pdf e montar um álbum específico pra ser impresso depois.

  1. Organize a ordem correta

Esse passo é essencial. A ordem dos arquivos define como o documento final será lido. Então vale parar alguns segundos e pensar qual arquivo vem primeiro, qual vem em segundo… e por aí vai. Normalmente as ferramentas permitem arrastar os documentos e páginas pra ajustar a ordem.

  1. Clique em “unir”

Depois de organizar, basta clicar. Sem complicação. A ferramenta faz o resto automaticamente, como mágica.

  1. Faça download ou compartilhe

Em poucos segundos, o novo PDF está pronto e organizado. Você pode baixar, enviar por e-mail, compartilhar na nuvem… só não esqueça de dar uma conferida antes!

Ferramentas recomendadas

Não basta aprender como unir pdf. Acima de tudo, é importante escolher bem a ferramenta, pois nem todas entregam o mesmo resultado. Estas são algumas das ferramentas mais populares atualmente:

1 – Lumin

Uma das opções mais práticas e mais bem avaliadas pelos usuários.

  • Funciona direto no navegador, de forma rápida e segura
  • Compatibilidade com diferentes dispositivos 
  • Interface simples e fácil de usar
  • Integração com armazenamento em nuvem, facilitando trabalho colaborativo
  • Ideal para produtividade

Além disso, possui diversos certificados de segurança e recursos avançados (mediante uma assinatura com preço justo).

2 – iLovePDF

Ferramenta online bem simples e popular entre usuários iniciantes.

  • Fácil de usar, sem extravagâncias 
  • Diversas funções úteis pro dia a dia
  • Processo rápido 

3 – Smallpdf

Outra alternativa confiável e boa pra unir arquivos pdf.

  • Visual simples e limpo 
  • Navegação simples até para iniciantes 
  • Boa performance pra uma ferramenta gratuita

Dicas para unir PDFs com mais eficiência

Depois que você pega o básico, alguns detalhes fazem bastante diferença.

  • Prepare os arquivos antes:  antes de começar a unir arquivos pdf, organize direitinho todos os arquivos que você vai usar e defina a ordem. Verifique também se está tudo completo. Isso evita retrabalho.
  • Use arquivos de boa qualidade: se os arquivos originais não estiverem em boa qualidade, não tem milagre: o resultado também ficará ruim. Isso é ainda mais importante ao unir imagens em pdf.
  • Revise o resultado final: por mais que as plataformas sejam confiáveis, abra o arquivo final e confira tudo: ordem das páginas, conteúdo e qualidade. Esse passo evita surpresas desagradáveis depois.
  • Evite ferramentas desconhecidas: prefira plataformas confiáveis pra evitar problemas de qualidade e de segurança.
  • Crie um padrão: se você precisa unir documentos pdf com frequência, vale padronizar o nome dos arquivos, a ordem dos documentos e a estrutura. Isso economiza muito tempo.

Conclusão

No fim, aprender como unir pdf não é só sobre juntar arquivos. É conseguir gerenciar documentos e melhorar seu workflow e a sua rotina.

Você economiza tempo, evita erros e deixa seus documentos muito mais organizados.

E o melhor: qualquer pessoa consegue fazer isso hoje. Sem instalar nada, sem complicação e sem precisar de conhecimento técnico. Basta usar uma ferramenta online moderna e segura como o Lumin e seguir as dicas deste artigo.

Depois que você entende como unir pdf e começa a usar esse conhecimento no dia a dia, fica difícil voltar ao jeito antigo. Até porque lidar com vários arquivos separados simplesmente deixa de fazer sentido.

Presidente da União de Maricá é homenageado em sessão solene pelos 212 anos da cidade

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Foto: Diego Mendes/União de Maricá

O presidente da União de Maricá, Matheus Santos, foi homenageado com o título de Cidadão Maricaense durante a sessão solene em celebração aos 212 anos de Maricá no Campus de Educação Pública Transformadora (CEPT) Prof. Zilca Lopes da Fontoura, no Centro. A honraria reconhece a contribuição do dirigente para o fortalecimento da cultura e do Carnaval da cidade, especialmente à frente da escola de samba que conquistou o acesso ao Grupo Especial. A homenagem foi entregue pela vereadora Kelly Bernardos, autora da indicação legislativa.

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Matheus Santos agradeceu a homenagem e destacou a importância de Maricá em sua trajetória. O presidente também fez questão de agradecer aos vereadores da cidade, em especial à vereadora Kelly Bernardos, responsável pela indicação.

“Receber esse título é uma honra enorme e aumenta ainda mais a minha responsabilidade com essa cidade que me acolheu e que aprendi a amar. Agradeço a todos os vereadores pelo reconhecimento e, de forma muito especial, à vereadora Kelly pelo carinho, confiança e pela lembrança do nosso trabalho. Seguiremos trabalhando para levar a cultura de Maricá para todo o mundo”, afirmou.

Carnavalesco da escola nos desfiles de 2025 e 2026, Leandro Vieira também recebeu o título de Honra ao Mérito pelos relevantes serviços prestados à cultura maricaense. Campeão da Série Ouro neste ano, o artista foi reconhecido pelo trabalho desenvolvido no desfile que marcou a ascensão da escola à elite do Carnaval carioca. A cerimônia reuniu autoridades, convidados e representantes do mundo do samba em uma noite de celebração e emoção.

Ao final da solenidade, a União de Maricá realizou uma apresentação especial que animou o público presente. Com muito samba no pé, integrantes da escola transformaram a cerimônia em uma grande celebração popular.

Mocidade anuncia calendário de disputa de samba-enredo e confirma superfinal no dia 05 de setembro

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Mais uma vez, a Mocidade Independente de Padre Miguel promete transformar a escolha de samba-enredo em uma grande festa. A escola divulgou a primeira parte do calendário oficial do ciclo 2027 durante a leitura da sinopse do enredo “Latinamente Independente”, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, e já confirma uma superfinal na quadra da Avenida Brasil.

Com a leitura da sinopse, a escola dá o pontapé inicial para a disputa de samba. Os compositores já se preparam para a próxima etapa que acontecerá em junho, com sessões de tira-dúvidas marcadas para os dias 22 e 30. Julho concentra mais dois encontros entre compositores e carnavalesco, nos dias 08 e 16, antes da entrega dos sambas no dia 25.

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A fase de eliminatórias de samba acontecerá em agosto. Como já é tradição na escola, as eliminatórias serão realizadas aos domingos, nos dias 09, 16, 23 e 29 de agosto, na quadra da Vila Vintém. E a grande final, com três sambas finalistas, está marcada para o dia 05 de setembro, na quadra da Avenida Brasil. A escola também divulgou a data do início dos ensaios de rua no dia 07 de novembro.

Com o calendário definido, a escola vai além de uma disputa tradicional e aposta numa superfinal com programação especial no Maracanã do Samba. O modelo já foi adotado pela Mocidade em edições anteriores e promete fazer mais uma vez a maior final de samba no carnaval. Em 2026, a programação contou com dois palcos e mais de 14 horas de programação para um público de 10 mil pessoas.

Veja o calendário:

Tira-dúvidas: 22 e 30 de junho, 08 e 16 de julho
Entrega dos sambas: 25 de julho
Eliminatórias de samba: 09, 16, 23 e 29 de agosto
Final de samba: 05 de setembro
Início dos ensaios de rua: 07 de novembro

Beija-Flor 2027: leia a sinopse do enredo

Enredo – Zeneida: O Sopro do Pó de Louro

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“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e toda a sua falange.”

Ao soprar o pó de louro, eu abro caminhos. Quando cada partícula da folha alcança a brisa do vento, ela limpa o que pesa, afasta o negativo e evoca a abundância. Trago comigo esse ensinamento antigo, que fortalece meu espírito, clareia meus pensamentos e guia meus passos e, portanto, passo adiante para quem um dia possa precisar. A natureza sempre oferece a mão para quem recorre a ela.

Sabe, moço, gosto de pensar que nenhuma folha cai da árvore sem que exista um motivo, sem que o invisível permita. E toda a minha vida foi assim. Hoje, consigo compreender que tudo teve uma razão e um porquê, dos momentos mais difíceis aos mais felizes da minha vida, e acredito nisso porque sinto que sempre fui guiada e protegida pelas forças da floresta, pelas energias dos meus caruanas e, entre eles, um que ocupa um lugar especial no meu coração: o caruana Beija-Flor, a força que reserva o cuidado a todos os que vêm destinados a ser pajé.

É verdade que ele me acompanha desde meu nascimento, mas vai fazer quase trinta anos de uma data que jamais saiu da minha cabeça. Ela mora no mais nobre espaço da minha memória. Sob suas asas, o Beija-Flor me levou a conhecer o seu maravilhoso e soberano ninho, que estava tão distante de mim no corpo, mas tão próximo no espírito. Lá, diante das voltas perfeitas do Girador, ser criador, compreendi os desígnios da lua, equilibrei os três reinos da terra – vegetal, animal e mineral – e participei do renascimento de uma nação inteira. Mas o que eu ainda não sabia, moço, é que naquele instante não era apenas uma comunidade que se transformava. Era eu também. Dali em diante, todos compreenderam e vivenciaram a abertura de um portal para um novo mundo: o mundo místico dos Caruanas, morada dos seres encantados que me guiam, dançam ao meu redor e alimentam a força que me mantém de pé, a coragem que me atravessa e a certeza que reafirmo todos os dias com orgulho: eu sou Zeneida Lima, a última pajé do Marajó do povo Sakaka.

É engraçado lembrar, sabe, moço, que, quando eu era gitinha, me chamavam de Pajerama, aquela que vem pra ser pajé. Eu não entendia muito bem o que isso queria dizer, mas entendia que vim ao mundo de maneira singular. Muito antes de eu abrir os olhos para a vida, meus ancestrais já trilhavam caminhos de luta, coragem e protagonismo. Eu nasci de uma linhagem de gente que aprendeu a permanecer.

Pelo lado de papai, corre em meu sangue a bravura de Maria Mineira Naê, a Agotime do clã de Daomé, mulher de força imensa, cuja história de resistência atravessa o tempo e ainda hoje me ensina a não baixar a cabeça diante da vida. Mas foi pela parte materna que me ocorreu o saber profundo das ervas, dos rios, da floresta e dos encantados. Meu avô, pajé conhecedor dos segredos da floresta, de um povo originário da Ilha do Marajó, me deixou de herança o entendimento das coisas da terra. Minha existência, portanto, se dá a partir dessa confluência de mundos, onde a ancestralidade é presença viva que me guia e me sustenta.

Tem coisa que a gente escolhe pra vida, mas tem coisa que a vida escolhe pra gente. Tem coisa que é um encontro agendado pela ancestralidade. E, portanto, moço, tem alguma maneira de fugir daquilo que já está traçado? Não tem.

Meu chamado começou antes mesmo de eu chegar aqui. Meu choro ecoava ainda no ventre de minha mãe, como se minha voz já conhecesse os mistérios que me aguardavam. Borboletas azuis rondavam seu ventre como um prenúncio de que a natureza já me esperava. Já enxames me cercavam como guardiões de um chamado impossível de negar. Eu sou a continuidade de um saber antigo que vive, respira e se manifesta através de mim. Entre o medo e o encantamento, fui sendo moldada pelas águas que me escolheram, compreendendo, aos poucos, que minha existência era ponte entre mundos. Assim, ainda menina, reconheci minha missão como parte do caminho que me foi traçado.

Levada, como a correnteza de um igarapé, nasci em Soure, no coração do Marajó, onde a água conversa com a terra e o céu parece repousar sobre os rios. Demorou algumas luas até que o ultimato se revelasse. Há chamados que não surgem de uma vez, eles vêm chegando devagar, como a brisa que atravessa a mata e sussurra sem ruído. Mas devagar também se chega, moço, e meu chamado chegou.

Um dia senti meu corpo enfraquecer de repente. Uma ventania me atravessou por dentro, como se o mundo espiritual tivesse decidido me tocar de uma só vez. O ar se tornou pesado, o tempo pareceu suspenso e, então, mundiada, eu os vi: três seres de pele azul incandescente surgiram diante de mim. Tinham forma humana, mas não pertenciam a este mundo. Eles tinham cara de peixe, só vendo.

Quando recusei o que me ofereciam, fui castigada e, por dezessete dias, desapareci. Ao retornar, envolta de galhos e cipós, o que mais espantava a todos era o meu corpo todo marcado. Mais pra frente fui entender que aquilo era a flecha de Anhanga sobre mim. Anhanga é força antiga. É ele quem protege a natureza e pune aqueles que desrespeitam seus mistérios. Ao mesmo tempo em que guarda, também castiga. E o meu castigo tinha motivo: ainda não havia iniciado a missão que me trouxe pra esse mundo. Eu ainda não estava assentada pajé. Anhanga me cobrou. Me chamou pela dor para que eu compreendesse quem eu era.

Não podendo fugir daquilo que já estava traçado, foi Mestre Mundico quem me ensinou os fundamentos da pajelança. O mistério da encantaria só é passado de pajé para pajé. Com ele, aprendi a traduzir o que a natureza fala, aprendi a escutar o vento e a decifrar o silêncio da mata. Passei a interpretar o banzeiro, o balé das marés e a influência da lua, entendi o segredo de todas as folhas e compreendi o que a jandaia canta no alto da palmeira, bem como o que o sabiá tem a dizer com seu gorjeio. Foi Mundico quem trouxe meus ancestrais indígenas para ensinar os segredos da cura a partir das folhas e explicar toda a abundância que a natureza tem, que muitas vezes passa despercebida pelo entendimento do homem.

Nesta jornada, que durou mais de um ano, recebi minhas cordas, elementos fundamentais para um pajé, e conheci o mestre e contramestre delas, meu guardião, o Caruana Norato Antônio, que se apresenta na forma de uma cobra. Mundico me entregou ainda meus três maracás, instrumentos sagrados que conduzem o ritmo, abrem os caminhos do transe e afastam as energias ruins. Com seu som, firmo a ligação entre o terreno e o espiritual. Enfim, ao concluir meu aprendizado, cumpriu-se o destino da pajerama: estava assentada pajé.

Se, por um lado, ainda era menina, com apenas 12 anos, por outro tornava-me uma mulher forte do Norte, forjada nas terras encantadas do Pará, onde o açaí alimenta o corpo, o carimbó embala a alma e os rios ensinam a resistência de seu povo. Assim, segui pronta para encarar a vida de peito aberto.

O que eu ainda não sabia tão bem, moço, era o quanto pode ser pesada a realidade de uma mulher com dons que ultrapassam o pequeno entendimento de muitos. Afirmo que é muito mais fácil compreender a natureza e todos os seus mistérios. Passei por muita coisa, moço, só Deus sabe. Só vendo.

Cheguei a ter a casa rodeada por toda uma população que me perseguia e, como herdeiros da Inquisição, me tomaram como bruxa. Mas não titubeei, não dei um passo para trás e nem sucumbi. Não reneguei minha verdade e, pra ser sincera, nem os condeno, nem guardo mágoa, nem rancor. Ocupar esse espaço é a melhor maneira de responder a todos que me julgaram. Ódio é uma bagagem pesada demais para se carregar. Gosto de uma frase que um grande amigo, que entende o jogo da vida, me diz sempre: “fazer o bem é mais difícil que fazer o mal”.

Portanto, me mantive de pé e de cabeça erguida. Amparada pelos meus caruanas e pela Mãe Nazaré, que nunca soltou minha mão e nem há de soltar. Encontrei na fé a coragem e o abrigo para seguir em frente e vencer. Olhe em volta, moço, a natureza nos dá a poesia que é preciso pra viver e ver a beleza da vida, ainda que em meio a contratempos e injustiças. Eu gosto de cantar pra agradecer a vida, canto para afastar o mal e canto para não esmorecer.

Cantar também é reza, é um jeito de me manter firme e, sendo firme, serei fortaleza para os que precisam de mim. Serei forte para seguir criando o que vem na minha cabeça, como as notas de um órgão que me inspiram a desenhar, compor, pintar, costurar, escrever e cumprir todas as outras missões que tenho, sempre com dignidade e força. Como se fosse tudo um filme, onde, no final, a caminhada toda valerá a pena. Cantar me mantém viva, é a forma de jogar pro mundo todas as mensagens que ainda tenho que dizer. Cantar é minha forma de conversar com Nazaré. E eu sei que ela me ouve. Quando vejo o sorriso das minhas crianças no Marajó, eu não tenho dúvida nenhuma.

Moço, eu sou mãe de muitos, mas Nazinha é mãe de todos. Sei que ela, junto dos meus caruanas, me ajuda a manter em pé o que hoje é o meu maior sonho realizado: o Instituto Caruanas da Ilha do Marajó, o lugar onde reafirmo minha promessa de criança: que nenhum outro gitinho da Ilha deveria conhecer abusos, explorações ou falta de educação.

É nessa enorme escola-floresta que eu semeio meus conhecimentos e partilho com minhas crianças os saberes para construírem novas perspectivas de futuro. Quero que elas cresçam sabendo que pertencem a um lugar sagrado e que pobreza nenhuma pode determinar o seu espaço. Quero que elas tenham acesso à cultura, à educação e à preservação da nossa memória e da nossa terra. Quero que conheçam e mantenham a nossa cerâmica, que respeitem a grande mãe natureza e que tenham como lema: “se Deus me deu, vou preservar”.

Quando vejo meus pequenos uniformizados, alimentados, em sala de aula, lendo um livro e compreendendo a importância da floresta, moço, eu entendo todas as perseguições e injustiças. Eu entendo toda a minha missão e, não nego, faria tudo de novo. Tudo.

Olha, vou ser sincera, moço: “para muitos, eu não passo de um caso de paranormalidade. Talvez assunto para psicólogos. Já eu, me vejo tão somente como uma pajé, alguém que lutou e ainda luta para manter íntegra a sua fé e seus princípios, apesar de todos os abalos violentos que a vida trouxe. Venci a inveja, a maledicência e o julgamento, e tive meu saber reconhecido porque aprendi a navegar entre mundos que muitos não compreendem. Venci porque permaneci”.

E vou permanecer pra sempre, porque, quando meu corpo virar memória, não se enganem, eu ainda estou aqui. Me procurem na maior árvore que encontrarem na minha escola. Estarei ali, fazendo sombra para minhas crianças e para todos aqueles que precisarem de abrigo. E, se ainda me cabe um recado para a posteridade, moço, quando o mundo insistir no desequilíbrio, acredite em mim: sopre o pó de louro. Ele é pai d’égua. Ele não costuma falhar.

Liga RJ renova com Macaco Branco para produção do álbum da Série Ouro 2027

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Foto: Divulgação/Liga-RJ

Pelo sexto ano consecutivo, a Liga RJ seguirá apostando na experiência e na qualidade musical de Macaco Branco para comandar a produção do álbum oficial dos sambas de enredo da Série Ouro. A renovação foi acertada nesta semana, durante reunião realizada na sede da entidade, no Centro do Rio, entre o presidente Deo Pessoa, o diretor de carnaval Moacyr Barreto e o produtor musical. O planejamento para o projeto de 2027 já começa antecipado, impulsionado pelo calendário do próximo Carnaval, que acontecerá no início de fevereiro.

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Responsável pela produção do álbum da Série Ouro desde o Carnaval 2022, Macaco Branco acumula elogios de sambistas, compositores e dirigentes pelo cuidado musical empregado no projeto ao longo dos últimos anos. As gravações estão previstas para começar na segunda quinzena de setembro, dentro de um cronograma que possa garantir que o álbum seja lançado e disponibilizado nas plataformas digitais mais cedo.

A permanência de Macaco Branco também representa a continuidade de uma identidade musical construída ao longo das últimas temporadas. O produtor destacou a felicidade em seguir à frente do trabalho e ressaltou o compromisso em unir inovação e respeito à tradição do samba-enredo.

“É um prazer imenso poder estar à frente da produção do álbum da Liga RJ. Para mim, é uma honra dar continuidade a esse trabalho, agora também com a chegada do presidente Deo Pessoa. Fico honrado porque isso mostra que o trabalho vem sendo satisfatório. A nossa ideia é sempre trazer coisas novas, mas sem perder a essência do samba de enredo tradicional. Queremos fazer um álbum que fique marcado na lembrança e na memória afetiva de todos os sambistas”, afirmou.

Com o Carnaval de 2027 marcado para o início de fevereiro, a Liga RJ decidiu antecipar todo o planejamento do álbum oficial. A medida busca ampliar o período de divulgação dos sambas e permitir que o produto chegue mais cedo às escolas, comunidades e plataformas digitais. A estratégia também reforça a importância do álbum como ferramenta de promoção da Série Ouro, valorizando músicos e compositores.

“Este ano teremos um cronograma um pouco mais adiantado, até porque o Carnaval será no início de fevereiro. A nossa intenção é lançar o álbum o quanto antes, para disponibilizá-lo rapidamente nas plataformas digitais e fazer com que ele chegue aos sambistas o mais cedo possível”, destacou Macaco Branco.

Além da renovação, o produtor fez questão de exaltar a equipe envolvida no projeto e agradecer pela oportunidade de seguir conduzindo um trabalho que se tornou referência no Carnaval. Segundo ele, a dedicação coletiva é um dos pilares para o sucesso alcançado ano após ano pelo álbum da Série Ouro.

“Para mim, é um prazer imenso estar mais um ano à frente desse trabalho, junto com toda a minha equipe, que se dedica muito ao projeto. Só tenho a agradecer a Deus e aos orixás por me darem vida e saúde para continuar fazendo aquilo que eu amo”, completou.

Em 2027, os desfiles da Série Ouro serão nos dias 5 e 6 de fevereiro, na Marquês de Sapucaí.