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Estrela do Terceiro Milênio esquenta a comunidade para a grande final de samba-enredo

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

As eliminatórias de samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio revelarão a primeira canção que embalará um desfile no Carnaval 2027. Os últimos finais de semana já tiveram atividades relacionadas à disputa na quadra da escola do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo. No último domingo, o local teve a apresentação das três canções finalistas, que também serão colocados a prova sete dias depois, na grande decisão. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba, o CARNAVALESCO foi ouvir, além dos sambas-enredo, os compositores e a diretoria da Estrela do Terceiro Milênio sobre as canções que chegaram à final.

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Diretoria direta

Vice-presidente da agremiação, Miriângela Moura foi sucinta ao dizer o que a direção da Estrela do Terceiro Milênio quer do samba: “Queremos um samba que seja realmente descontraído, que na avenida as pessoas consigam ouvir o samba e identificar, através das fantasias e das alegorias, a mensagem que está sendo passada. Que seja algo bem lúdico, de fácil entendimento”, pontuou.

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Compositores animados

Se a diretoria é bastante clara em relação ao que deseja do samba-enredo vencedor das eliminatórias da Estrela do Terceiro Milênio, os autores das obras gostaram do que ouviram na apresentação ao vivo na quadra do Grajaú.

Compositor da parceira do Samba 1000, juntamente com Jorge Diego, Rafa Cria, Ayr Júnior, Rapha Moreira, Willian Tadeu, Mário Presidente, Rubens Gordinho, Rodolfo Minuetto e Rodrigo Minuetto, André Ricardo foi só elogios: “Tanto o rendimento do samba em relação à torcida quanto ele ao vivo no palco foi muito a contento. A Milênio realiza um laboratório antes da eliminatória começar, em que todos os setores participam, e eu fiquei muito contente. O samba teve um rendimento maravilhoso com a comunidade. E, hoje, só veio coroar o rendimento do samba, que estourou. Da segunda para frente, foi louco demais. O samba não cai nunca e isso é muito bom, graças a Deus”, destacou.

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Vale destacar que a parceria do Samba 1000 foi a única que trouxe uma torcida organizada para dar mais força ao canto e realizar coreografias no local.

Sobre torcidas

A presença de torcidas foi um dos temas pelos quais os compositores das outras duas obras finalistas passearam. Márcio Biju, do Samba 01, foi um deles: “A gente não optou por não trazer torcida: a gente é uma parceira muito pequena, e a gente não disputa em todos os lugares. Eu, Renê, Alemão do Pandeiro, e o Reinaldo Papum: em quatro, tudo é mais difícil. A gente veio, montamos um bom palco e viemos com um bom samba. Gostaria de poder trazer um monte de gente para cá, também – mas cada um tem a sua força, e a gente sabe quem tem muita força aqui na comunidade. A gente só veio apresentar a nossa obra: uma obra que foi feita com muito carinho, com muita atenção na sinopse, pensando exatamente no enredo, no que foi proposto pelo carnavalesco e pela diretoria. A gente veio com essa ideia: vamos com um bom palco e mostrar o nosso samba. Se eu pudesse, eu trazia vinte mil pessoas para cá. Mas a gente fez o que a gente sabe. Fazer parceria hoje em dia é difícil, gasta dinheiro demais. A gente fez uma boa gravação, um palco bom. Semana que vem, se Deus quiser, tem mais uma apresentação muito boa para a gente chegar lá e fazer um bom trabalho”, comentou.

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Já Fredy Vianna, da parceria do Samba 99, juntamente com Rodrigo Shumacker, Thiago Meiners, Pitty de Menezes, Claudio Mattos, Morganti Tubino, Ítalo Pires, Herval Neto, Wilson Mineiro, Daniel e Anderson Lemos, fez uma analogia muito interessante sobre a canção dos compositores: “É um samba que tem uma pegada diferenciada, uma pegada que toca no coração. É um samba que tem que ser sentido: você tem que ouvir e sentir ele com o coração, porque ele tem umas melodias viajadas, umas melodias mais ‘viradourenses’, mais tocantes, vamos dizer assim. É um samba de primeira, pegou bem na comunidade. As pessoas ouviram e eu vi que as pessoas foram absorvendo. Nós não tínhamos torcida, mas eu fui olhando na boca de cada componente e eles pegavam alguns trechos, como o refrão do meio e o final. As pessoas iam cantando porque isso é romântico, isso é bonito. O saldo foi muito bom e positivo para a primeira eliminatória”, finalizou.

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Mocidade reinventa gestão da comunidade com tecnologia e valorização do componente

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Foto: Divulgação/Mocidade

Quinhentos e vinte inscritos no primeiro final de semana de recadastramento. Trezentos e sessenta e um no segundo. Oitocentos e oitenta e um componentes foram recadastrados no mês de maio. Os números surgem do entusiasmo da comunidade independente e ganham um novo tratamento de gestão. A Mocidade Independente de Padre Miguel chegou ao ciclo 2027 com um sistema inédito de cadastramento digital.

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“Isso nunca aconteceu na Mocidade”, disse Rodrigo Coutinho, diretor executivo da escola. Ele fala do número recorde de recadastramentos do primeiro final de semana, mas poderia estar falando da mentalidade que os atraiu para implementar o novo modelo de gestão da comunidade.

O novo sistema foi desenvolvido por Felipe Rodrigues, um dos coordenadores do departamento comunitário da agremiação, e conta com um banco de dados que coleta informações como nome, altura, peso e tamanho de cada componente logo na triagem, com cintas que detectam automaticamente as medidas corporais.

A inscrição também passa por um questionário que mapeia o histórico de cada pessoa com a escola. Ao fim do recadastramento, o componente ganha a carteirinha e a camisa da agremiação.

O resultado é um retrato em tempo real da comunidade. Ele resolve um problema antigo. Em novembro, quando a Mocidade precisa fechar a grade de fantasia de cada ala, normalmente parte das vagas ainda não está preenchida. A saída histórica é a chamada grade fantasma: estimativas de tamanho para completar o pedido.

Com o banco de dados, a estimativa deixa de ser um chute e passa a ser um dado. “Eu consigo ver quantos (tamanhos) P tem em toda a escola, quantos M, quantos GG, quantos calçados 39”, explicou Coutinho. “A partir daí eu tiro uma média de cada ala por gênero para complementar a grade”.

Mocidade 2027, leia a sinopse do enredo

Outra novidade é o controle de presença da comunidade, que será feito por meio da carteirinha e de um aplicativo. Nos ensaios, o diretor de ala acessa o sistema pelo celular, registra presença ou ausência e devolve o documento ao componente no fim da atividade. Simples, rastreável, sem papel. “A gente tem um backup no papel caso o sistema falhe em algum momento”, admitiu Rodrigo, “mas tenho certeza que em pouco tempo isso vai cair no gosto do componente e da escola”.

De uma média de 25 ensaios previstos no calendário da agremiação, o componente precisará comparecer a 20. Cinco faltas serão toleradas sem justificativa. A partir da sexta, precisará comprovar o motivo. A regra é clara.

“Acabou aqui na Mocidade o componente vir na hora que quiser e pegar a fantasia. A gente vai valorizar quem veio ao ensaio. Não quero saber se tem 10, 15, 20 anos de Mocidade: se o componente não frequentar os ensaios e não justificar as faltas, vai ser cortado. E vai ter oportunidade de voltar no ano seguinte”, afirmou Coutinho.

A disciplina, porém, tem a sua face de recompensa. A começar pelo escalonamento das taxas de inscrição. Quem se inscreveu na primeira leva pagou R$50. O segundo lote custou R$70. O terceiro fim de semana de recadastramento acontecerá após a Copa do Mundo, ainda sem valores divulgados.

Mocidade anuncia calendário de disputa de samba-enredo e confirma superfinal no dia 05 de setembro

Também serão sorteadas camisas da Boutique da Mocidade para os componentes com maior frequência nas atividades da escola. “É uma série de medidas para valorizar mais o componente que frequenta o ensaio e que vai chegar na avenida evoluindo e cantando bem”, declarou o diretor executivo.

Para Coutinho, esse conjunto de mudanças na gestão da comunidade se articula com a identidade da agremiação. “A melhor escola do carnaval para fazer isso é a Mocidade porque é uma escola de vanguarda, que busca inovação ou pelo menos deveria ter buscado ao longo de toda a sua trajetória. Em algum momento isso se perdeu”, afirmou.

A escola prevê desfilar com cerca de 1.400 componentes de ala de comunidade, divididos entre 16 ou 17 alas, sem contar bateria, baianas, velha guarda, compositores e alas coreografadas.

Na Mocidade de agora, tradição e modernidade se unem na nova gestão de comunidade para fazer brilhar ainda mais a Estrela Guia de Padre Miguel.

Imperatriz Leopoldinense 2027: leia a sinopse do enredo

SINOPSE DO ENREDO ‘A MEMÓRIA DO REI E O SUMIÇO DE DONA JÚLIA’- IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE 2027

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Todo maracatu que desfila não conta exclusivamente a sua própria história: Ele narra algo mais antigo. Uma história, antes da história. Guiado pelo baque do tambor, o maracatu atravessa a imensidão do Atlântico e a extensão dos séculos em busca do que se foi. Ele é o passado e o presente. Ele é a África e o Brasil.

Seu desfile nos leva a uma viagem guiada por uma ancestralidade embalada pelo som. Olhá-lo nos garante acesso a um cortejo em terras africanas. Miragem que nos faz ver o antigo Reino do Congo. Império engalanado em noite de festa. Visão esfuziante que nos faz testemunha da coroação de um monarca negro. Rei majestoso de pele retinta entronada.

O que se vê é a celebração do poder em cortejo. Música e dança. Teatralização majestosa que ecoa numa realeza ancestral que desfila desde tempos imemoriais.

O baque do tambor do Reino do Congo se fez ouvir em terras brasileiras. Agora, o couro vibra e nos leva ao Nordeste do Brasil. Enquanto o som ecoa, o velho reino existe. Enquanto o séquito real caminha pelas ruas do velho Recife, o rei e a rainha do Congo estão entre nós. A origem bantu, ganha o seu traço nagô. Em Pernambuco, a dor do exílio transformou-se em beleza. Novas vestes, outros caminhos, a mesma dignidade.

Aqui, é o porta-estandarte quem anuncia o novo reino que desfila. Na sequência, a dama do paço conduz os mundos invisíveis. O rei e a rainha estão protegidos do sol. Por cuidado, suas capas não podem tocar o chão. Coroados, eles não são meros personagens. São a memória soberana que sobreviveu à travessia. O bem mais valioso, seguido e festejado pela corte que lhes acompanha em cortejo.

Mundo colorido de reinvenções para uma nova existência. Criação moldada feito boneco de barro do chão do Brasil. Uma nova realidade forjada entre as paredes do terreiro. O povo da macumba que desfila vestido de rei e rainha. Brincadeira séria, que se mostra na festa portando ancestrais divinizados carregados como estatuetas de mão. Um mundo de beleza que se sustenta nos mistérios do sagrado.

Dentre os segredos envolvendo a ancestralidade do maracatu, nada é mais representativo e simbólico que os mistérios da calunga. Boneca fetiche e guardiã da secreta presença dos ausentes. Assentamento dos que vieram antes e seguem guiando os passos dos que ainda estão por vir.

Como exemplo, a princesa Dona Júlia. Calunga de imbuia e cera tingida de pigmento negro. Braços e pernas de lenho articulado. Cabeça esculpida em madeira nobre. Cabelo humano bem penteado. Vestido de renda brilhante, colares, joias e capa de veludo bordada em paetês.

Calunga feita a mando do rei coroado do Maracatu-Nação Porto Rico, Eudes Chagas, cinco anos após Dona Santa ser guiada ao òrun. A boneca confeccionada era, na verdade, um trono numa estatueta feminina para que Dona Santa – mãe e mão que lhe iniciou no culto do Xangô de Pernambuco – pudesse seguir próxima dele.

Ausência sentida traduzida em presença. Rainha morta, que não foi posta. A morada do egun da matriarca catimbozeira, da detentora dos segredos da Jurema e Rainha do Maracatu Elefante. Dona Júlia, a calunga, era a presença viva de Maria Júlia do Nascimento, a Dona Santa. Reverenciada no terreiro e alimentada pelo preceito da espiritualidade.

Erguida pela dama do paço nas saídas carnavalescas do Maracatu Porto Rico por mais de uma década, a boneca foi a presença que deu proteção ao maracatu de pai Eudes até o dia de seu encantamento.

Com a morte de seu líder e babalorixá, no final dos anos setenta, os objetos sagrados do Maracatu-Nação Porto Rico foram levados para o museu. Lugar seguro, como mandam as tradições, para guardar algo que brevemente poderia ser solicitado. Naquele espaço, artigos de valor simbólico inestimável estariam resguardados até que a sucessão do Porto Rico – e a sua nova liderança – fosse caso resolvido. Foi assim que Dona Júlia – calunga sagrada ligada ao culto dos eguns – foi parar no museu.

Longe do terreiro, foi guardada em desencanto. Ali, ela era um objeto deslocado de seu sentido sagrado. Mero artefato. Artigo guardado à espera de retornar às mãos daqueles que, com autoridade e autorização, colocariam o maracatu do falecido Eudes na rua e, com isso, reivindicariam sua posse.

Dois anos se passaram até que a missão de tirar o Porto Rico do Museu foi destinada à mãe Elda Viana. Neta de santo de Eudes, ela foi a liderança confirmada pela ancestralidade como apta para a reorganização daquele maracatu. Foi nessa ocasião, ao reivindicar a calunga sagrada de sua nação para voltar ao terreiro e à rua, que os integrantes do Porto Rico tomaram conhecimento do sumiço da calunga que permaneceria desaparecida por longas décadas.

O museu, que devia zelar por sua integridade, informou que Dona Júlia havia desaparecido de suas dependências de forma desconhecida. Mistério duradouro. Ausência e vazio sentidos por mais de três décadas. Certeza de furto e extravio definitivo até que, após trinta e quatro anos de sumiço, a boneca foi levada a um terreiro de candomblé em Olinda acusada de assombrar o morador da residência que, naquela ocasião, era o endereço que escondia seu paradeiro.

Deixada no Ilê Axé Oyá Meguê – sua última localização antes de voltar para a sua verdadeira casa e para as mãos de seus reais donos – a calunga foi entregue aos cuidados das tradições do Xambá. Lá, guiados pela ancestralidade e pela dúvida sobre como proceder diante do objeto misterioso, os sacerdotes do culto recorreram à tábua sagrada e ao jogo dos dezesseis búzios lançados sobre a trama da arupemba. Respondidos pelas divindades, a vontade dos orixás foi a lei: A boneca não podia ficar naquele Ilê. Mais do que isso, todos os esforços deviam ser prioridade para que aquele artigo atingisse o intuito que o havia levado até a porta do Xambá e ao colo de Oyá.

A prioridade para resolução da demanda alcançou o êxito e a calunga voltou para o seu Maracatu de origem dias antes do carnaval 2014. Seu aparecimento foi notícia que correu de boca em boca. De volta aos preceitos religiosos do Ilé Axé Oxóssi Guangoubira após trinta e tantos anos sem cuidados, Dona Júlia estava em desencanto espiritual. Na ocasião, ela era uma boneca que guardava orixá com fome e egun quebrantado. Madeira morta e inanimada.

Para voltar à vida, como se um sopro pudesse lhe encher o pulmão vazio de ar, era necessário preceito e encantamento. Por isso, em toda parte e por todo canto, seu corpo foi limpo com morim vermelho, roxo, branco e preto. Da cabeça aos pés, quatro carreteis de linha foram desenrolados. Ali não mais havia embaraço. Livrou-se de qualquer possível mal e da presença da morte quando um acaçá percorreu sua silhueta. Na sequência, toda sorte de grão seco foi lançado sobre a madeira escura onde seu contorno humano havia sido esculpido.

Era preciso limpeza profunda. Então, entoaram-se as cantigas sagradas para que a energia das folhas de boldo e colônia despertassem antes de se somarem às águas que banhariam a boneca. O líquido derramado lhe abriu as portas para a incorporação. Na intimidade do terreiro onde o umbigo da calunga estava plantado, seu corpo foi colocado diante de um vasilhame de barro – farto em mingau de farinha – do abanador de palha e da colher de pau.

Vela acesa e copo d’água. Pólvora incendiada. A fumaça sobe e a chama aquece os pés da estatueta. O orixá derrama encantamento e atua para animá-la. Em sua cabeça – orí esculpido em madeira que já foi árvore – o mistério é guardado por entre as três frestas abertas tal qual ferida na pele.

O ichãn toca o chão. O galho, preparado no quarto de igbalé, guia o caminho do egun evocado. Dona Júlia se encanta. Agora, ela é madeira viva e sagrada. Boneca que tudo enxerga e boca que come sem se mexer. Levada ao igbá de Oxalá, sentiu sua energia pulsar mais forte quando o sangue de uma cabra, um casal de pombos e cinco galinhas (sendo uma d’angola) escorreu por seu corpo.

Na sequência, vestiram-na de branco. Recolhida no peji (roncó), cumpriu resguardo de três dias antes de ganhar a rua e a folia. Boneca que guarda egun, Dona Júlia passa a falar pela boca de Oyá Igbalé. É a dona dos ventos e senhora da vida e da morte que lhe anima durante sua ida para o cortejo do Maracatu-Nação Porto Rico.

Assim, encantada, foi erguida pelas mãos da dama do paço e conduzida ao carnaval. Depois de tanta ausência, ganhou as ruas do Recife num domingo de momo. Junto ao maracatu que parte do bairro do Pina, brincou à frente da corte, guiada pelo estandarte que leva a caravela de Santa Maria estampada como emblema e da Nação que canta e dança ao som do baque das ondas.

No dia seguinte, uma segunda-feira, foi levada em cortejo noturno para o Pátio do Terço. A folia que marca seu retorno às tradições carnavalescas se encerraria à noite. Uma noite de maracatu onde os tambores tocam – e também se silenciam – para reverenciar quem partiu. Diante da igreja, a ausência de quem se encantou é também a memória dos reis e das rainhas que foram coroados tendo como espectadora a imagem da Virgem do Rosário. Gente que vinha e não vem mais.

Tendo a escuridão do céu como testemunha, o relógio marca a zero hora. A lua da meia-noite boia no céu do mundo visível dos vivos para fazer resplandecer o sol do meio-dia que brilha e anima o reino invisível dos que estão mortos. É nessa hora que as luzes se apagam e a senhora do portão que cede a passagem do Òrun para o Àiyé se manifesta. Quem vinha, agora pode voltar a vir.

Os tambores tocam e a ancestralidade baila. Hora em que Dona Júlia se mostra viva enquanto baila energizada ao sabor das mãos da dama do paço. Ambas, corpos vivos que giram no sentido contrário ao do relógio.

À meia-noite, a princesa Dona Júlia não dança no sentido dos ponteiros que marcam as horas que virão. Ancestral, ela dança no ar sustentada pela dama do paço e se manifesta encantada por buscar – assim como os tambores, os corpos que desfilam e a escola de samba que cruza a avenida – um encontro marcado com aquilo que já se foi.

ENREDO, PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA.

PS: Agradeço imensamente a Mestre Chacon pela generosidade de me presentear com a sua sabedoria, abrir os caminhos e me permitir adentrar os mistérios que as calungas iniciam e encerram entre as quatro paredes dos terreiros. Bato cabeça pro filho de Xangô, sucessor de Mãe Elda, mestre do Maracatu Porto Rico e sacerdote do Ilê Axê Oxóssi Guangoubira.

Thiago Almeida é o novo presidente da São Clemente

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Foto: Divulgação/São Clemente

De volta à Marquês de Sapucaí, a São Clemente está de cara nova. Na noite desta terça-feira, a preta e amarelo de Botafogo, na Zona Sul do Rio, elegeu Thiago Almeida como novo presidente. Ele é herdeiro da família Almeida Gomes, fundadora da agremiação.

Thiago começou a desfilar na São Clemente ainda quando criança, aos 10 anos. Aos 18, já trabalhava dentro do barracão. Desde então, nunca mais parou de prestar serviço para a escola do coração, chegando até o cargo de diretor de Carnaval e vice-presidente.

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Após ser aclamado no pleito, o jovem declarou que vai buscar reforços de peso para reviver os áureos da São Clemente.

“Foram 12 anos ininterruptos no Grupo Especial. Nossa escola tem uma bandeira e uma história de peso. São 64 carnavais. Não vou medir esforços para voltar à elite do Carnaval carioca. Em breve, vamos anunciar o nosso enredo, carnavalesco e outros nomes que vão nos ajudar nesse objetivo. Será uma nova São Clemente, mais forte e mais unida”, afirmou Thiago, que é sobrinho do ex-presidente Renato Almeida Gomes, a quem agradeceu pelos ensinamentos: “Eu quero honrar todo o legado da nossa família à frente da escola. Tenham certeza disso”.

Em 2027, a preto e amarelo vai abrir os desfiles na Marquês de Sapucaí, sendo a primeira a desfilar na sexta-feira de Carnaval, dia 5 de fevereiro.

Francine Montibelo é a nova superintendente executiva da Liga RJ para a Série Ouro 2027

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Foto: Divulgação

A Liga RJ segue fortalecendo sua estrutura administrativa e operacional para a organização da Série Ouro. Após a eleição que confirmou Deo Pessoa na presidência da entidade e a chegada de Moacyr Barreto para comandar a direção de carnaval, a instituição anunciou nesta terça-feira mais um importante reforço em seus quadros. A administradora Francine Montibelo assume o cargo de superintendente executiva, participando diretamente do planejamento e da execução dos projetos voltados para o Carnaval de 2027.

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Aos 29 anos, Francine chega à Liga RJ em um processo de renovação promovido pela atual gestão. A entidade vem ampliando sua equipe técnica e administrativa com o objetivo de aprimorar o planejamento da Série Ouro e oferecer melhores condições para o desenvolvimento dos desfiles. Para ela, assumir a nova função representa um importante desafio profissional e também um avanço na ocupação de espaços de liderança por mulheres no carnaval.

“É uma honra assumir esse desafio em um espaço tão importante para a Série Ouro. Acredito na força da gestão feita com diálogo, sensibilidade e compromisso. Cada vez que uma mulher ocupa um cargo de liderança, abrimos caminhos para que outras também possam sonhar e conquistar esses espaços. Espero contribuir para um carnaval cada vez mais forte, representativo e inclusivo”, afirmou.

Os desfiles da Série Ouro 2027 estão marcados para os dias 5 e 6 de fevereiro, na Marquês de Sapucaí.

Portela realiza sua tradicional feijoada no sábado e inaugura exposição ‘Contos de Norival Reis’

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Foto: Léo Nogueira/Divulgação Portela

A Portela realiza, no sábado, mais uma edição da tradicional Feijoada da Família Portelense, na quadra da escola, em Oswaldo Cruz. Durante o evento, o Departamento Cultural da Portela inaugura a exposição “Contos de Norival Reis”, em homenagem ao compositor e um dos autores do samba-enredo “Contos de Areia”, de 1984, um dos mais marcantes da história da azul e branca.

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A exposição apresenta fotos, documentos e curiosidades sobre a trajetória de Norival Reis e destaca também outros sucessos de sua coautoria, como Ilu Ayê, a Terra da Vida (1972), Macunaíma, Herói de Nossa Gente (1975) e Hoje Tem Marmelada (1980).

Entre as atrações musicais da Feijoada estão o cantor Liomar (Pique Novo) e o Grupo Zoa Samba. O evento também contará com apresentações da Velha Guarda Show e do elenco da Portela, reunindo sambistas e torcedores da Majestade do Samba em uma grande celebração da cultura portelense.

Os últimos ingressos e mesas do lote atual estão disponíveis pelo site Meu Bilhete: 06/06 – FEIJOADA DA FAMÍLIA PORTELENSE

Em 2027, a Portela levará para a Avenida o enredo “Ao Mestre, com Carinho”, do carnavalesco Paulo Barros, que homenageará o baluarte Monarco. A escola será a primeira a desfilar na terça-feira de Carnaval em busca do 23º título de sua história.

Viradouro divulga calendário da disputa de samba-enredo para o Carnaval 2027; final é dia 19 de setembro

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Foto: Alicia Oliveira/CARNAVALESCO

A atual campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro, a Unidos do Viradouro, divulgou o calendário oficial da disputa de samba-enredo para o Carnaval 2027. Após a entrega da sinopse aos compositores, a escola abriu o processo para a escolha da obra que embalará o desfile na Marquês de Sapucaí no próximo ano. De acordo com o cronograma anunciado pela agremiação de Niterói, a entrega dos sambas concorrentes acontecerá no dia 8 de agosto, um sábado, das 13h às 16h, na quadra da escola.

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Antes da inscrição das obras, a Viradouro promoverá uma série de encontros de tira-dúvidas e audições internas no barracão. A participação dos compositores em pelo menos um encontro de cada etapa será obrigatória para a inscrição dos sambas. Os encontros de tira-dúvidas serão realizados nos dias 16, 23 e 30 de junho, além de 8 de julho, sempre das 17h às 21h. Já as audições internas acontecerão nos dias 16, 21 e 28 de julho, também entre 17h e 21h.

A disputa terá início no dia 15 de agosto, na quadra da escola, e seguirá por seis apresentações até a definição da obra vencedora. As três primeiras eliminatórias serão realizadas nos dias 15, 22 e 29 de agosto, às 17h. As eliminatórias seguintes acontecem em 5 de setembro, às 19h, e a semifinal será em 12 de setembro, às 22h.

A grande final está marcada para o dia 19 de setembro, também às 22h, quando a vermelho e branca conhecerá o samba-enredo que defenderá o título conquistado no Carnaval 2026.

Calendário da disputa de samba da Viradouro para o Carnaval 2027

Tira-dúvidas (Barracão – 17h às 21h)
16 de junho (terça-feira)
23 de junho (terça-feira)
30 de junho (terça-feira)
8 de julho (quarta-feira)

Audições internas (Barracão – 17h às 21h)
16 de julho (quinta-feira)
21 de julho (terça-feira)
28 de julho (terça-feira)

Entrega dos sambas concorrentes
8 de agosto (sábado) – das 13h às 16h – Quadra

Eliminatórias
15 de agosto (sábado) – 17h
22 de agosto (sábado) – 17h
29 de agosto (sábado) – 19h
5 de setembro (sábado) – 19h

Semifinal
12 de setembro (sábado) – 22h

Grande Final
19 de setembro (sábado) – 22h

Viradouro 2027: leia a sinopse do enredo

União de Maricá inaugura reforma do barracão na Cidade do Samba e celebra conquista com equipe

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Fotos: Diego Mendes/União de Maricá

A União de Maricá viveu uma noite especial na segunda-feira, com a inauguração oficial do seu novo barracão na Cidade do Samba. A cerimônia contou com uma bênção conduzida pelo Padre Wagner Toledo e pelo babalaô Ivanir dos Santos, seguida por um jantar de confraternização que reuniu toda a equipe da escola. Totalmente reformado, o local passa a concentrar a produção do Carnaval 2027 e setores estratégicos da agremiação.

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O espaço revitalizado é mais um importante passo no processo de fortalecimento da União de Maricá desde a conquista do título da Série Ouro e o acesso ao Grupo Especial. Com instalações modernas e planejadas para atender às necessidades da equipe, o barracão foi pensado para oferecer melhores condições de trabalho aos profissionais que constroem o desfile da escola.

O presidente Matheus Santos destacou a importância do momento e fez questão de ressaltar o papel de cada integrante da equipe nessa conquista. O dirigente também reforçou o sentimento de pertencimento que o barracão representa para toda a família maricaense.

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“Eu fiz questão de reunir toda a equipe para esse momento. Não tem preço chegar aqui e ver esse sorriso no rosto de cada um, os olhos brilhando. Isso é muito importante para mim. Não sabemos o dia de amanhã, mas hoje podemos comemorar que esse barracão é nosso”, disse Matheus Santos.

Um dos momentos mais marcantes da noite foi a inauguração da sala de dança, espaço que será utilizado para os ensaios dos casais de mestre-sala e porta-bandeira e da comissão de frente. O ambiente recebeu uma decoração especial, com fotografias dos defensores do pavilhão da escola, dos integrantes da comissão e do coreógrafo Patrick Carvalho.

O mestre-sala Julinho Nascimento não escondeu a emoção ao conhecer o novo espaço. O artista destacou o significado da sala para os segmentos que dependem diariamente de um local adequado para desenvolver seus trabalhos. Para ele, a estrutura reforça o compromisso da escola com a valorização de seus profissionais e com a busca pela excelência na Sapucaí.

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“Entrar nessa sala e ver nossa história retratada nas paredes foi algo muito emocionante. Esse espaço representa respeito, reconhecimento e, principalmente, investimento no trabalho que realizamos durante todo o ano. Tenho certeza de que daqui sairão apresentações ainda mais fortes e emocionantes. A palavra é gratidão”, declarou Julinho.

Ao lado do mestre-sala, a porta-bandeira Rute Alves também celebrou o espaço e ressaltou o impacto que o novo barracão terá na preparação dos segmentos para o próximo Carnaval. A artista lembrou que a estrutura oferece melhores condições para os ensaios e fortalece o sentimento de união entre os integrantes da escola.

“É impossível não se emocionar ao ver tudo isso. Cada detalhe demonstra carinho e respeito pelos profissionais da escola. Ter uma sala pensada para os nossos ensaios nos dá ainda mais motivação para trabalhar e representar a União de Maricá da melhor forma possível”, afirmou Rute Alves.

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A União de Maricá segue intensificando os preparativos para sua estreia no Grupo Especial. A escola será a responsável por abrir os desfiles da elite do Carnaval carioca no dia 7 de fevereiro de 2027, na Marquês de Sapucaí.

Viradouro 2027: leia a sinopse do enredo

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ENREDO: GRIÔ

É noite. Fogueira abrasa no centro do terreiro.

Ao redor, um ancião reúne os iniciados e sopra palavras, acendendo a voz mística que se ergue em saudação:

Laroyê, Exu! Mojubá! Fagulha primeira, Senhor das Encruzilhadas que abre os caminhos e faz a história circular.

Saluba, Nanã! Divina senhora que molda a memória no barro.

Iroko Issó! Iroko Kisselé! Salve o Senhor do tempo, árvore sagrada que rege a eternidade.

E fala:

“Eu vim do silêncio do mundo, quando a boca não conhecia o verbo. Gente de carne, como nós, não tinha memória para recordar. Nada! Passado não existia. Futuro, tampouco. Só o pulsar da vida no agora.

Certo dia, um sábio caminheiro vindo do reino Ashanti me narrou que, em tempos imemoriais, viveu Kwaku Ananse, um ser divino, meio humano e meio aranha. Ele não queria apenas contemplar o correr dos dias, mas povoar a Terra de histórias. Com agilidade, Ananse teceu uma enorme teia de prata. Por ela, subiu ao céu onde morava o grande deus Nyame.

Dono de todos os enredos do universo, o supremo Nyame duvidou da capacidade de Ananse, desafiando-o a lhe trazer as criaturas mais ferozes e astutas do reino.

Pelo poder do convencimento, paciência e encantamento, Ananse cumpriu tudo o que foi pedido e conseguiu o que queria. Colocou as histórias em uma cabaça e desceu pelos fios que havia bordado. Mas o artefato que carregava se partiu. Naquele momento, o mundo nasceu outra vez: os contos guardados se espalharam por todos os recantos. E Ananse virou o narrador primordial, envolvendo toda a gente com seus fios de histórias.

Desde então, contar virou ato de força vital. Nada era mais poderoso que a palavra moldada com justeza. Por ela, tornou-se possível esculpir lembranças.

E eu caminhei no tempo.

No Mali, encruzilhada do continente africano, renasci no prestigiado clã dos Djéli, casta social que fazia circular o sangue da memória entre os Mandingas. Dinastia de músicos e poetas que transmitiram todo o conhecimento pela palavra dita e pela palavra cantada.

Eu aprendi com os antepassados e ensinei meus sucessores a tocar Balafon, e a dedilhar as cordas sagradas do Korá, instrumentos passados de geração a geração. Cada um desses objetos sonoros carregava uma força mística. A cadência e o ritmo, unidos ao timbre da minha voz, revelavam poderes encantatórios.

Foi assim que narrei aos filhos dos meus filhos o apogeu no suntuoso Mali, no tempo do lendário mansa Sundiata Keita, rei dos cem reis vencidos, unificador daquele império de ouro e sal.

Sem nós, os Djéli, a comunidade cairia no abismo do esquecimento. Por isso, éramos muito respeitados e tidos como o eixo da continuidade dos saberes por meio da escuta e da memorização.

Até que veio o colonizador e nos batizou de Griôs.

O nome que eu carrego, Griô, foi também atribuído a diferentes povos que contavam histórias e cantavam loas na África Atlântica. Mas muitos dos meus irmãos e irmãs tiveram seus enredos silenciados.

Deu branco… A memória… (…) Ia… se apagar…

As histórias, porém, sobreviveram na minha fala, no corpo e no canto de fazer lembrar. Se os nossos saberes tivessem sido escritos na fibra da árvore morta, o branco os teria queimado. Nosso tecido social não desbotou. A oralidade costurou as lembranças, salvou nossa cultura do fogo do esquecimento.

A herança que recebi dos antepassados, eu doei com a minha voz.

Eu reexisto na fala dos que vieram antes de mim.

Foi por isso que eu ressurgi nos versos trazidos da alma nas minerações das Gerais. Garimpei ouro e diamante, reatei laços ao som dos vissungos, cantos de esperança e de saudade da terra original.

Eu me nutri de palavra e de canção. Partilhei o banquete de mistérios que meus antepassados me proveram e prepararam antes da minha chegada.

Aprendi a conservar o Axé nas casas de santo, a guardar os segredos espirituais, a reconhecer o invisível dançando diante dos olhos. Me embalei no ponto firmado. Me banhei de saudações e ensinamentos por meio de itãs e oríkìs para que nunca esquecesse meus caminhos. Minha palavra se fez música e trovão.

Hoje, eu me alimento em coletivo de cantigas, de sambas de roda e de repentes. Faço coro nos jongos, congos e folias. Eu revivo nos saberes das mestras e mestres da cultura popular.

Eu faço a recordação adormecida se acender! Meu impulso vital é contar as histórias que o Brasil nem sabia que precisava conhecer…

Eu me tornei o guardião dos enredos que ainda vão nascer. Mobilizo o terreiro místico para dar de comer ao sagrado com o meu samba.

Minha voz fala ao futuro por meio da tua voz!

Sou a sabedoria acumulada, sou entidade viva, detentora dos saberes do meu ilê. Baluarte, orixá em Terra. Sou também comunidade em voz altiva que um dia bordou as glórias do meu pavilhão… e rega as raízes para o amanhã.

É essa memória que agora eu faço despertar: cumprir o rito anual de narrar histórias ao redor do fogo em terreiro sagrado, como faço desde o princípio.

Eu sou Griô! Samba! Escola!
Guardião da memória preta!
E vim aqui para contar o meu enredo”.

Carnavalesco: Tarcísio Zanon
Texto: João Gustavo Melo

GLOSSÁRIO:
Ashanti: Povo que faz parte do grupo étnico Akan, localizado na porção ocidental da África, onde hoje fica Gana.
Balafon: Instrumento musical feito de teclas de madeira e cabaças, tocado com duas baquetas. Acompanha as falas e canções dos griôs, ajudando a narrar genealogias de heróis, casamentos e cerimônias religiosas.
Djéli: Casta do reino do Mali, formada por famílias de contadoras e contadores de histórias. Eram também conselheiros reais. Narravam e entoavam canções épicas sobre as dinastias reais do Mali, entreposto comercial e cultural para diversas populações da África Ocidental. O nome “Djéli” se refere à ideia de laços de sangue, aqueles que fazem circular a vida social.
Griô: Para alguns linguistas, a origem da palavra “Griô” vem da forma como os franceses ouviram a palavra “criado”, em português, referindo-se à casta dos djéli, contadores de histórias que acompanhavam os antigos reis do Mali.
Itã: Narrativa, mito ou conto do povo Iorubá. Transmite filosofias, conhecimentos e origens dos orixás.
Korá: Instrumento feito de 21 cordas, semelhante a um alaúde. Produz melodias e acordes suaves de grande riqueza harmônica. Acompanha os griôs nas contações de histórias e narrativas épicas. Assim como o balafon, é considerado um instrumento musical sagrado.
Mansa: Título de nobreza utilizado pelo povo do Mali para designar o soberano do reino.
Oríkì: Palavras e provérbios de Axé do povo Iorubá. Vem de Orí (cabeça) e Kì (saudar, louvar). Pode ser dito sobre orixás, pessoas, animais ou lugares.
Provas de Ananse: Para entregar as histórias do mundo, Ananse teve que cumprir algumas provas para Nyame, o deus supremo: Capturar o leopardo Osebo, a serpente Onini, os marimbondos (Mmbooro) e a feiticeira Mootia. Há variações nas versões contadas sobre as provas de Ananse, mas evocamos estas como as mais recorrentes.
Sundiata Keita: Supremo unificador e fundador do Império Mali. Também conhecido como o “Rei Leão”, governou entre 1235 e 1255, tendo seus feitos eternizados pelo Griô (Djéli) Bala Fasseké Kouyaté, habilidoso mestre contador de histórias e conselheiro. Até hoje, os Kouyaté são uma dinastia de griôs, com músicos e atores que espalham, por meio da oralidade, o legado do seu povo.
Teia de Ananse: Símbolo de coesão social e dos enredos contados pelo povo Ashanti.
Vissungos: Cantigas que misturam o português arcaico com língua quimbundo, quicongo e umbundu, sendo entoadas no trabalho nas minerações, celebrações fúnebres, ritos de cura e em festividades. Serviam também como um código secreto para poderem se comunicar por meio da oralidade durante o processo de escravidão no Brasil.

REFERÊNCIAS:
Bâ, Amadou Hampâté. A Tradição Viva. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África I: metodologia e pré-história da África. Brasília: Unesco, 2010.
Bâ, Amadou Hampâté. Amkoulell, O Menino Fula. Rio de Janeiro. Editora Palas Athena: São Paulo, 2003.
BERNAT, Isaac. Encontros com o Griot Sotigui Kouyaté. Editora Pallas: Rio de Janeiro, 2013.
DEUS, Zélia Amador de. Os Herdeiros de Ananse: movimento negro, ações afirmativas, cotas para negros na Universidade. 2008. 295 f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais. Belém, 2008.
LIMA, Heloísa Pires; HERNANDEZ, Leia Leite. Toques do Griô. Melhoramentos. São Paulo, 2011.
GONZALES, Lélia. Festas Populares Brasileiras. São Paulo: Boitempo, 2024.
MARTINS, Danielle da Silva. “Foi Nesse Chão que Me Criei”: Letramentos baluartes da Galeria da Velha-guarda da Unidos do Viradouro. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística). 185f.:il. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), 2023. Disponível em DissertacaoDanielledaSilvaMartins231107154845.pdf. (Acesso em abril de 2026).
MARTINS, Leda Maria. A Fina Lâmina na Palavra. Rio de Janeiro: Cobogó, 2025.
MARTINS, Leda Maria. Performances da Oralitura: Corpo, Lugar da Memória. Universidade Federal de Santa Maria, 2003. Disponível em PERFORMANCES DA ORALITURA: CORPO, LUGAR DA MEMÓRIA | Letras. (Acesso em abril de 2026).
PRIORI, Mari del. Vissungo: O Canto dos Escravos no Trabalho. Revista História Hoje. Disponível em Vissungo: o canto dos escravos no trabalho – História Hoje. (Acesso em abril de 2026).
QUEIROZ, Sônia. Vissungos do Rosário: cantos de tradição Bantu em Minas Gerais. UFMG. Belo Horizonte, 2016. Disponivel em Vissungos no Rosário: cantos da tradição banto em Minas. (Acesso em abril de 2026).
SALOM, Julio Souto. Quando Chega o Griô: conversas sobre a linguagem e o tempo com mestres afro-brasileiros. 2019. 305 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Imagens da Branquitude: a presença da ausência. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
SIMAS, Luiz Antônio; FABATO, Fábio. Pra Tudo Começar na Quinta-feira. Rio de Janeiro: Mórula, 2026.
SUBURBANA, Dandara; OBALERÁ. Ebó Poético: palavras ancestrais que abrem caminhos. Rio de Janeiro: Aruanda Livros, 2025.

Outras referências:
10 – SER GRIOT – Pape Babou Seck – MEMÓRIAS ANCESTRAIS
Homenagem ao ator Sotigui Kouyaté no Arte do Artista
Da Kali: The pledge to the art of the griot
The Griot tradition of West Africa | Sibo Bangoura | TEDxSydney
Coluna África em Verso: “Griot”, por Ed Mulato – Por dentro da Áfric
O Canto dos Escravos – Canto I
Griot, símbolo da oralidade africana | Mwana Afrika Oficina Cultural

Jacarezinho terá dupla de mestres de bateria no Carnaval 2027

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mestres jacarezinho
Foto: Yago Veloso/Divulgação Jacarezinho

Mestres Darllan Nascimento e Pelezinho são os novos mestres de bateria da Unidos do Jacarezinho para o Carnaval 2027. Com a permanência da agremiação na Série Ouro, a escola monta seu time e se reestrutura para competir no próximo Carnaval pela Liga RJ.

Darllan começou na música acompanhando o pai em noites de pagode, de lá pra cá nunca mais parou. O novo mestre sempre teve referências dentro da própria casa. O pai tocando harmonia e percussão, o tio na percussão e o avô mestre de bateria. Passou por diversos grupos e projetos. Com 10 anos fez seu primeiro trabalho na noite cobrindo o percussionista do grupo de pagode do seu pai (Grupo Só Limpeza). Mesmo entrando no mundo do pagode nunca largou o samba. Além de músico percussionista é também aluno de Educação Física, ritmista de várias escolas de samba. No Grupo de Acesso já comandou as baterias das escolas: Unidos de Manguinhos, Vila Santa Tereza, Novo Império, Difícil é o Nome e Unidos da Ponte. Darllan também é diretor de bateria do Acadêmicos do Salgueiro, no Grupo Especial.

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“Comecei minha história ajudando meu avô Elliu, ex-mestre de bateria do Jacarezinho, fabricando macetas (objeto utilizado para tocar surdo). Em 2000 desfilei pela primeira vez no Jacarezinho na ala das crianças e em 2005 ingressei na bateria da escola permanecendo até 2010. Voltei no Carnaval 2019 para participar do projeto de resgate e retorno em 2027 na função de mestre para fazer dupla com meu amigo e irmão Pelezinho Estamos com novas ideias e também novos ideais”, destaca o mestre.

Rafael Silva, popularmente conhecido como Pelezinho, é cria da comunidade do Jacaré. Começou sua vida no samba através de um projeto social desenvolvido na quadra da Estação Primeira de Mangueira aos 7 anos de idade. No ano seguinte, estreou na bateria da escola de samba mirim Mangueira do Amanhã, onde permaneceu até seus 14 anos de idade. Em 2008 se tornou ritmista da bateria da Unidos do Jacarezinho, e em 2013 passou a ser diretor. Em 2022, estreou no comando da bateria Show Mil. Como diretor, Pelezinho passou por Unidos da Ponte, Acadêmicos de Vigário Geral, Engenho da Rainha e Unidos de Manguinhos. No Grupo Especial é diretor de bateria da União de Maricá.

A Unidos do Jacarezinho será a segunda escola a pisar na Avenida na sexta-feira de carnaval, dia 05 de fevereiro de 2027. A agremiação segue montando o elenco que disputará o próximo carnaval.