Início Site Página 72

Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos da Ponte no desfile no Carnaval 2026

0

Um ótimo desfile da bateria “Ritmo Meritiense” da Unidos da Ponte, sob o comando da dupla de mestres, Juninho e o estreante Alex Vieira. Um ritmo profundamente conectado ao que o enredo e samba solicitavam foi exibido. Tudo com bossas dançantes e uma sonoridade potente.

ponte desfile 2026 17

Na parte da frente da “Ritmo Meritiense”, um ala de cuícas segura tocou junto de agogôs de qualidade. Um naipe de tamborins de inegável virtude coletiva se exibiu interligado a uma ala de chocalhos de elevada técnica musical.

Na cozinha da bateria da Ponte, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda ditaram com firmeza o andamento. Surdos de terceira deram bom balanço aos graves. Repiques coesos tocaram juntos de caixas de guerra sólidas.

Bossas absurdamente musicais se aproveitavam das variações melódicas do samba da escola de São João de Meriti para consolidar a sonoridade, integrando a musicalidade da bateria ao ritmo de Funk. Criações musicais bastante pertinentes, atrelando a “Ritmo Meritiense” ao enredo da escola. Simplesmente sensacional o bom balanço envolvendo a bossa do refrão do meio, bastante dançante e que certamente auxiliou componentes na evolução. Outro arranjo que merece menção musical é o Funk do refrão principal, também bem musical e plenamente inserido na proposta da agremiação.

Uma ótima apresentação da bateria da Unidos da Ponte, dirigida pelos mestre estreante Alex Vieira, em dupla inédita com mestre Juninho. Uma sonoridade bastante vinculada ao ritmo de Funk foi exibida. Uma “Ritmo Meritiense” que colocou a Sapucaí para dançar ao som do seu pancadão. As exibições em cabines julgadoras foram boas, com destaque para a apresentação mais solta e divertida no último módulo, que devem garantir boa pontuação a bateria da Ponte, evidenciando seu grande desfile.

Do cais à resistência: Porto da Pedra, com um desfile correto, levou à Sapucaí o debate sobre as mulheres da vida

0

Sendo a penúltima escola a desfilar no último dia da Série Ouro, o Tigre de São Gonçalo rugiu a favor das “mulheres da vida”. Com um excelente desempenho do carro de som, um casal correto e uma plástica modesta, a Porto da Pedra fez um bom desfile.

porto pedra desfile 2026 18
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite” do carnavalesco Mauro Quintaes, a Porto da Pedra trouxe a figura da prostituta como tema central para um debate na Sapucaí.

COMISSÃO DE FRENTE

Intitulada “Encruzilhada de Mistérios”, a comissão da coreógrafa Aline Kelly representou o elo simbólico entre o profano e o sagrado, retratando a realidade das profissionais do sexo sob a perspectiva da espiritualidade afro-brasileira.

Com quinze componentes, sendo dez mulheres e cinco homens, a coreografia teve os bailarinos vestidos com roupas curtas e coloridas, rodando bolsinha e sensualizando. Ao se posicionarem diante dos módulos de julgamento, os bailarinos utilizavam máscaras que simulavam o efeito de desfoque facial, recurso recorrente em reportagens sobre prostituição, reforçando a ideia de invisibilidade social. Mas com a entrada do tripé, elas tiravam as máscaras, e em cima da encruzilhada em forma de tripé, a religiosidade as empoderava, tiravam as máscaras, faziam macumba e rebolavam mais ainda.

porto pedra desfile 2026 02

A encruzilhada no tripé era demonstrada com as placas de ruas nos dois cantos dele, escritas “Francisco Eugênio” e “Vila Mimosa”, ambos localizadas no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, pontos de prostituição famosos. Além disso, de dentro do elemento cênico, saíam três pomba-giras.

A proposta coreográfica buscou evidenciar a encruzilhada como espaço de tensão, proteção e resistência. Baseada em cinco momentos: A exposição, por isso o rosto oculto; O rito, com a subida no tripé e o contato com as entidades de umbanda; A transformação, tiram as máscaras e usam a bolsinha como arma; O empoderamento, donas de si e de tudo que as cercam.

Nos três módulos, foram ótimas apresentações. No primeiro, um bailarino escorregou e caiu, mas nos demais módulos, tudo correu sem problemas.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Com a fantasia “O Axé do Povo de Rua”, vermelha e preta, muito bem feita, Rodrigo França se apresentou caracterizado como Exu, entidade masculina cultuada na umbanda, associada à proteção das ruas e daqueles que nela viviam e trabalhavam. Joyce Santos, caracterizada como Pombagira, entidade feminina da umbanda, também ligada à guarda dos caminhos e à proteção de quem tinha a rua como espaço de morada e ofício.

porto pedra desfile 2026 04

Com uma coreografia clássica e sem problemas nos três módulos, o casal saiu da avenida tranquilo.

EVOLUÇÃO

Administrando o tempo muito bem, a escola passou com calma, a bateria entrou no segundo recuo e finalizou o desfile com 54 minutos, sem precisar correr e nem ficar estagnada.

porto pedra desfile 2026 07

Entretanto, faltou maior intensidade na movimentação das alas. A escola desfilou de maneira organizada, porém com pouca vibração coletiva, o que reduziu o impacto visual do conjunto e a potência dramática que o enredo sugeria.

ENREDO

A Porto da Pedra apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, que abordou a trajetória de mulheres que atuaram no que popularmente se denominava “vida”, propondo uma reflexão sobre personagens historicamente marginalizadas. Com concepção do carnavalesco Mauro Quintaes e do enredista Diego Araújo, a escola desenvolveu uma narrativa que revisitou o imaginário da noite e a figura feminina como presença cultural e social no contexto brasileiro.

A construção explorou as múltiplas dimensões dessas mulheres, evidenciando tanto a sedução e a força simbólica atribuídas à noite quanto o julgamento moral imposto pela sociedade, como no primeiro setor, “Prazeres sagrados e profanos”. O desfile apresentou o “doce e o amargo” de suas vivências, ressaltando a busca por dignidade e reconhecimento para além de estigmas. A proposta destacou a complexidade dessas trajetórias, situando-as como parte integrante da história social e cultural do país, visível no segundo setor, “Personagens da Vida”.

porto pedra desfile 2026 08

Ao final, com o último setor, chamado “Uma Puta Mulher”, o desfile reafirmou o histórico da agremiação na abordagem de temáticas sociais consideradas sensíveis, consolidando sua identidade como escola que utilizava a Marquês de Sapucaí como espaço de reflexão e visibilidade para narrativas frequentemente silenciadas.

HARMONIA

Com uma performance impecável do carro de som, no comando de Wantuir no microfone principal, os componentes não conseguiram cantar o samba à altura do desempenho do intérprete.

A comunidade teve um canto regular, deixando a nítida sensação de que poderia ser melhor. Muitos componentes não faziam esforço para cantar.

porto pedra desfile 2026 11

FANTASIAS

As fantasias da Porto da Pedra atravessaram a avenida sem nenhuma avaria. As alas “Perdições do Bataclan” com os passistas, “Perpétua Moralidade” e “Meninas do Job” chamaram a atenção, vista a didática e referência nítida ao enredo.

SAMBA

O samba-enredo, composto por Bira, Rafael Raçudo, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Eric Costa, Fernando Macaco (em memória), Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Miguelzinho, Jarrão e Pierre Porto, é um manifesto político, social e de gênero a favor das profissionais do sexo.

porto pedra desfile 2026 17

As relações do enredo com a escola, escritas no samba, como nos trechos: “Fiz um Porto da Pedra que você jogou” e “Tigresa que mata um leão por dia!” chamam a atenção para a genialidade da composição.

ALEGORIAS E ADEREÇOS

Apesar de modestas, as alegorias foram produzidas corretamente, sem nenhum defeito evidente de acabamento ou concepção.

A primeira alegoria, “Cais da Labuta Meretrícia”, representou a chegada das chamadas Polacas ao Rio de Janeiro, contextualizando o fluxo migratório associado à exploração sexual no início do século XX. Foi um carro de fácil compreensão, sendo um navio com a velha guarda a bordo, com vestidos de marinheiros e polacas. Além do clássico tigre em cima do carro.

porto pedra desfile 2026 23

Na segunda alegoria “Meu Ofício é o Seu Prazer”, a escola apresentou o exercício da prostituição no ambiente noturno, destacando o contraste entre visibilidade pública e invisibilidade social. Destaque para as composições do carro, com mulheres dançando pole dance e performando muito bem e em conformidade com o enredo.

A última alegoria “Uma Puta Mulher!” encerrou o desfile como celebração da vida e da resistência das profissionais do sexo, enfatizando sua luta por reconhecimento e respeito. Com Lourdes Barreto em destaque no carro e com seu nome gravado na frente da alegoria, a histórica ativista brasileira dos direitos das prostitutas, reconhecida por sua atuação política e social na luta pela cidadania, dignidade e reconhecimento profissional das trabalhadoras do sexo, foi a cereja do bolo no carro de manifestação em defesa dessas mulheres.

OUTROS DESTAQUES

Sempre icônico em suas fantasias, o mestre Pablo vestido de tigresa e com uma peruca loira, com a indumentária chamada “Tigresa Que Mata Um Leão Por Dia”.

Onde o samba e o sagrado se conectam: Estácio de Sá recria terreiro de Tata Tancredo

0

Cria do Morro de São Carlos, Tata Tancredo esteve presente, direta e indiretamente, na formação de importantes tradições brasileiras, entre elas a organização da Umbanda, a criação da “Deixa Falar”, pioneira entre as escolas de samba, e a divulgação do tradicional réveillon de Copacabana. Neste sábado, a Estácio de Sá o homenageou na Marquês de Sapucaí. Mais do que celebrar sua vida, a escola inovou na estética ao se inspirar no povo Lunda-Quioco, de Angola.

IMG 2865
Carla Close. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A segunda alegoria “Umbanda Omolokô: o Terreiro de Tancredo” recriou o espaço religioso fundado pelo homenageado. Entre referências à natureza, o carro evidenciou a intersecção entre a Umbanda e o samba, reafirmando como ambas as expressões se complementam na cultura brasileira.

Carla Close, de 35 anos, iniciou sua trajetória na agremiação há seis anos e, neste carnaval, desfilou como destaque da alegoria. Representando a pombagira Maria Navalha, ela se encantou ao ver o carro pela primeira vez.

“Me sinto feliz, porque tem tudo a ver comigo, com o trabalho que faço na Europa, com espetáculo da noite. Foi um presente receber essa fantasia”, declarou.

IMG 2867
Cintia Gomes. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Recepcionista, Cintia Gomes, de 33 anos, está em seu segundo ano na escola e afirma que a emoção aumenta o frio na barriga, sobretudo com um enredo dedicado a Tata Tancredo.

“Ele lutou muito para trazer a Umbanda e mostrar ao povo o que realmente ela é. Independentemente de religião, os líderes religiosos sempre lutaram para conquistar respeito no nosso país. Isso é muito importante para a gente”, disse.

IMG 2868
Renata Palottini. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A advogada Renata Palottini, de 40 anos, desfilou pela primeira vez na Estácio de Sá representando os umbandistas. Para ela, o principal destaque da alegoria é a escultura de um Preto Velho, por simbolizar a ancestralidade dentro da religião.

“Gritar o nome do Tatá na avenida, num país com formação social extremamente desigual, é gritar a história do Brasil. É o Brasil-terreiro sendo lembrado”, afirmou.

Homenagear Tata Tancredo significa resgatar a memória do povo negro e reafirmar que, apesar do preconceito, do racismo e da intolerância religiosa, a luta iniciada por essas comunidades segue viva, sustentada pela resistência e pela fé.

“A Bala Não Erra o Alvo”: ala do Império Serrano impacta a Avenida ao protestar contra a violência no Rio de Janeiro

0

O Império Serrano levou para a Marquês de Sapucaí uma forte mensagem no Carnaval de 2026. O desfile que homenageou a escritora Conceição Evaristo, símbolo da resistência negra, que por muitas vezes usou suas obras como forma de protesto, trouxe a ala “Protesto na Avenida – O Alvo no Peito” como forma de denunciar a brutalidade policial contra o povo periférico do Rio de Janeiro.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Detalhes do guarda chuva
Detalhes do guarda-chuva
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Os componentes cruzaram a avenida vestidos de Erês e carregavam alvos estampados no peito, além de guarda-chuvas pingando sangue, erguidos como símbolo de denúncia. Inspirada na estética urbana de Jean-Michel Basquiat. Segundo a escola, a fantasia fez referência aos absurdos cometidos pela violência da cidade, onde objetos cotidianos como uma simples sombrinha já foram confundidos com armas, e a cor da pele que, muitas vezes, determina quem é visto como suspeito. A mensagem que a agremiação quis passar foi clara: “A bala não erra o alvo”.

Andre Pree de 31 anos
André Pree, de 31 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Morador de Oswaldo Cruz, o vendedor André Pree, de 31 anos, explicou o simbolismo do guarda-chuva. O adreço trazia a frase “isso aqui não é um fuzil”.

“Estamos trazendo a realidade do dia a dia do Rio de Janeiro. O que se passa na comunidade e, literalmente, com o trabalhador, que sai de casa sem saber se volta. O guarda-chuva que levamos em um dia chuvoso, por exemplo, pode ser um alvo, simplesmente por estarmos o segurando e acharem que é um fuzil. A galera da periferia está sempre mais vulnerável a ser o alvo por qualquer coisa mínima, inclusive a cor da pele. Estamos mostrando justamente como é que funciona no dia a dia da comunidade, da galera que o pessoal de cima não vê”, desabafa o componente.

Questionado se o sentimento de indignação fortalece a evolução na Avenida, ele afirmou sem hesitar: “Garra nesse ponto a gente sempre tem. O Império é uma comunidade que tem chão. Mas, obviamente, isso nos faz vir para mostrar como é que funciona. Como Conceição Evaristo diz, ‘a gente combinou de não morrer’”.

Micael Nascimendo de 32 anos
Micael Nascimendo, de 32 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Professor de desenho, Micael Nascimendo, de 32 anos, morador da Penha, falou sobre o impacto de vestir uma fantasia tão simbólica: “É bem sentimental, ainda mais porque, recentemente, teve uma operação, e centenas de pessoas morreram. Ação que, ao meu ver, é mais uma manobra política do que uma tentativa de resolver alguma coisa. Por isso, eu acredito que a escola trazer esse tema é sempre muito importante. E quanto mais as pessoas verem e comentarem sobre isso, melhor”, refletiu.

A referência artística de Basquiat também foi destacada pelo professor: “A arte tem todo um ambiente político também. Quando avaliamos uma arte, também é importante saber o contexto por trás dela”.

Já a professora Rosane Borges, de 41 anos, reforçou o caráter de denúncia do desfile: “O carnaval, além de ser festa, também é uma manifestação de denúncia. Estamos aqui para denunciar essa violência que o povo preto de comunidade sofre. E esse enredo, além de falar das mulheres, fala sobre a violência que o povo preto sofre e que a literatura está aí para denunciar”.

A nutricionista Luziane Ferreira, 39 anos, destacou o papel pedagógico da festa: “O carnaval é cultura, e uma forma de educar a população sobre temas importantes”.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Porto da Pedra no desfile no Carnaval 2026

0

Um bom desfile da bateria “Ritmo Feroz” da Unidos do Porto da Pedra, comandada por mestre Pablo. Mestre Pablo, sempre excêntrico e irreverente, veio fantasiado de Tigresa. Um ritmo potente, com pressão sonora da afinação de surdos foi exibido, junto de bossas complexas, mas bem executadas.

porto pedra desfile 2026 14

Na parte da frente do ritmo do Tigre, um naipe de tamborins de grande virtude técnica se exibiu interligado a uma ala de chocalhos de ótima ressonância coletiva. Um naipe de agogôs de qualidade, pontuou a convenção baseada nas nuances da melodia do samba. Uma boa ala de cuícas também auxiliou no preenchimento sonoro das peças leves.

Na cozinha da “Ritmo Feroz”, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza, mas segurança. Surdos de terceira ficaram responsáveis pelo bom balanço do miolo, inclusive em bossas. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas sólido.

Bossas bem vinculadas a melodia do samba se aproveitavam das nuances para consolidar o ritmo. Com um conceito criativo pautado pela complexidade e pela dificuldade de execução, os arranjos também exibiram a potência sonora proporcionada por uma boa afinação de surdos. Com participação privilegiada dos surdos de terceira nas paradinhas, que também contavam com acentuação rítmica bem pontuada das caixas.

Uma boa apresentação da bateria da Porto da Pedra, dirigida por mestre Pablo. Um ritmo pulsante exibiu com segurança paradinhas de difícil execução e de certa complexidade musical. Uma sonoridade que contou com marcadores potentes para a realização de arranjos contendo impacto da pressão sonora de surdos. A primeira apresentação em cabine foi boa, mas a do segundo módulo foi até superior, com boa receptividade dos julgadores. Na última cabine (dupla), uma exibição segura e enxuta foi realizada, confirmando o bom desfile da “Ritmo Feroz” de mestre Pablo.

Estácio alia fundamento religioso, harmonia e evolução segura em desfile consistente na Série Ouro

0

A Estácio de Sá, quinta agremiação a cruzar a Passarela do Samba neste sábado de crnaval, entregou uma apresentação vigorosa e espiritualmente densa na Série Ouro. Com o enredo “O Papa Negro: Tata Tancredo e o Fundamento do Omolokô”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo, a vermelho e branco mergulhou nas raízes do Morro de São Carlos para contar a trajetória de Tancredo Silva. O desfile foi uma demonstração de força da comunidade, aliando um visual tecnicamente consistente a uma harmonia que ecoou como um verdadeiro manifesto de fé e resistência.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

estacio desfile 2026 09
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

COMISSÃO DE FRENTE

Apresentando dois corpos de baile que personificavam a essência do enredo, o primeiro grupo representava o cotidiano e a malandragem do Morro de São Carlos, enquanto o segundo, oculto na parte inferior de um imponente tripé metálico com estampas étnicas, simbolizava a ancestralidade africana e contava apenas com mulheres.

estacio desfile 2026 04

O bailarino que interpretou Tata Tancredo serviu como elo místico entre esses dois mundos. No clímax da encenação, o segundo ato revelou um bailado de passos ancestrais, pulsantes, intensos e aguerridos, traduzindo com clareza a concepção do Omolokô e a mediação espiritual do homenageado.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Feliciano e Raphaela, protagonizou uma exibição de gala sob o título “Sentinelas da Fé”. O figurino chamou atenção pela riqueza de materiais e pelo efeito visual inovador, com uma capa de textura holográfica para o mestre-sala, em uma paleta dominada pelo vermelho e preto.

Feliciano exibiu um bailado deslizante e carismático. Com giros precisos e um cortejo de extrema elegância, incorporou coreografias que remetiam às religiões de matriz africana sem perder a essência da dança tradicional do quesito.

estacio desfile 2026 05

Raphaela conduziu o pavilhão da agremiação com maestria esvoaçante. Sua performance foi marcada pela segurança e pelo sincronismo com o par, executando giros com excelente controle de eixo e mantendo a bandeira altiva, simbolizando a guarda dos fundamentos religiosos trazidos por Tancredo.

HARMONIA E SAMBA

A Estácio de Sá reafirmou sua fama de escola de chão. A harmonia foi o combustível do desfile, impulsionada pela interpretação de Tinganá, que conduziu o samba com sua ala musical, sentindo a ausência de Serginho do Porto (cantou pelo Águia de Ouro em SP), mas suprindo-a com técnica e garra. O canto da comunidade atingiu o ápice no trecho “Atabaques no terreiro, na porteira o guardião, uma vela no cruzeiro, duas velas pro leão”, entoado com intensidade. A bateria, sob o comando de mestre Chuvisco, garantiu a cadência necessária para que a escola desfilasse com segurança e organicidade.

estacio desfile 2026 24

EVOLUÇÃO

O quesito Evolução foi um dos pilares da apresentação. A Estácio manteve uma cadência firme e segura, ocupando a avenida de forma orgânica. Não houve registros de buracos ou correrias para compensar o cronômetro. As alas pareciam conscientes de sua função espacial, resultando em um deslocamento coeso até o último módulo de julgamento. Foi uma evolução madura, que não buscou o excesso, mas sim a consistência técnica que o regulamento exige.

estacio desfile 2026 18

ALEGORIAS E FANTASIAS

O conjunto plástico de Marcus Paulo dialogou perfeitamente com a narrativa. O abre-alas, “O Primeiro Fundamento da Curimba”, trouxe o leão, símbolo da escola, em uma proposta festiva e colorida, destacando-se sobre o fundo preto e as luzes da pista. As esculturas apresentaram boa volumetria e acabamento cuidadoso, embora o último carro tenha enfrentado um problema técnico com refletores apagados em sua parte superior.

estacio desfile 2026 10

As fantasias, por sua vez, foram um ponto alto de criatividade, ricas em materiais diversos e com uma paleta de cores amarrada. Preservaram a leveza necessária para a mobilidade dos componentes, garantindo que o luxo não comprometesse a performance das alas.

OUTROS DESTAQUES

Entre os momentos mais simbólicos, a ala das baianas executou elegância e técnica. Com saias amplas e ricamente trabalhadas, ocuparam a pista com uma presença ancestral hipnotizante. Outro ponto de destaque foi um destaque de chão, que desfilou sem o tradicional costeiro, que foi carregado por apoios.

estacio desfile 2026 25

A Estácio de Sá encerrou o desfile com a sensação de dever cumprido, ao unir o fundamento religioso de Tata Tancredo à competência carnavalesca de sua comunidade.

Rodado de fé e memória: baianas da Estácio de Sá celebram Iemanjá e a origem do Réveillon carioca

0

Se a bateria pulsa, a ala das baianas é o coração. No desfile da Estácio de Sá, elas chegam como “As Mães do Réveillon”, vestidas de prata e branco, levando para a Sapucaí a memória da festa de Iemanjá em Copacabana. A celebração foi idealizada por Tata Tancredo e se tornou marco cultural da cidade, dando origem ao atual Réveillon do Rio.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Baianas da Estacio de Sa
Baianas da Estácio de Sá
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A fantasia “Festa para Iemanjá em Copacabana” carrega no figurino os traços do icônico calçadão, um barco dedicado à Rainha do Mar com vela acesa e uma estrutura leve que valoriza o rodado. Beleza e movimento caminham juntos.

Crueza de Souza Xavier conhecida na escola como Xavier
Crueza de Souza Xavier, conhecida na escola como Xavier
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Crueza de Souza Xavier, conhecida na escola como Xavier, de 54 anos, auxiliar de serviços gerais e estreante na ala, fala da responsabilidade de vestir a fantasia das baianas.

“É uma responsabilidade muito grande. A ala das baianas representa o coração de qualquer escola. O público anseia para ver o rodado da baiana. Nós representamos a mãe baiana de todas as escolas, com muito axé, muita força e amor. Não é fácil. Hoje, cada giro nosso é como se estivéssemos levando embora o que é ruim e trazendo o que é bom: força, caminho aberto e boa energia. Vai ficar para trás tudo que for intolerância religiosa ou preconceito”, comenta.

Amanda Ferreira de 63 anos
Amanda Ferreira, de 63 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Amanda Ferreira, de 63 anos, empresária e há seis anos na escola, a fantasia toca uma vivência pessoal profunda. Ela relaciona o desfile a um episódio marcante de sua vida.

“É muito importante ver a ala das baianas trazendo o calçadão de Copacabana junto de Iemanjá. É exatamente o que eu vivo no Réveillon do Rio. Estou apaixonada. A Rainha do Mar salvou a minha vida. Eu caí de uma pedra de quatro metros na praia, e hoje não era para estar aqui se não fosse Iemanjá. Eu renasci. Só entende esse sentimento quem desfila. Não adianta explicar, é preciso viver a energia”, revela.

Laucilene Silva de 56 anos
Laucilene Silva, de 56 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Laucilene Silva, de 56 anos, biomecânica e há quatro anos na Estácio, descreve a emoção como algo que atravessa o corpo.

“É um misto de emoções representar Iemanjá. Meu corpo arrepia e meus olhos enchem de lágrimas só de pensar em tudo que vivi nessa noite. A ala das baianas veio para lavar a alma e fazer a Estácio ser campeã. Já está na hora desse título. Vamos abrir os caminhos para sermos ainda mais felizes”, comenta.

Conjunto plástico e criatividade na comissão de frente se destacam no desfile da Tom Maior

0

Penúltima escola a desfilar, a Tom Maior realizou sua apresentação no Carnaval 2026. A agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a cidade de Uberaba e a história de Chico Xavier, com o objetivo de alcançar a melhor colocação possível, já que retorna do Acesso 1. No entanto, o que se viu na pista foi uma escola que jamais deveria ter deixado o Grupo Especial. O nível de investimento no conjunto estético foi altíssimo, com fantasias de elevado padrão e alegorias que podem figurar entre as melhores do carnaval. O grande destaque esteve justamente na estética, aliada ao empenho da comunidade, que mostrou por que a Tom Maior tem trajetória de Grupo Especial.

tommaior desfile26 27

A escola encerrou seu desfile às 1h02min com o enredo “Chico Xavier: Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, desenvolvido pelo carnavalesco Flávio Campello.

COMISSÃO DE FRENTE

Sob o comando do estreante Gandhi Tabosa, a comissão de frente apresentou o segmento “Manancial de uma Terra Sagrada”. Toda a coreografia foi executada sobre um tripé que representava as raízes ancestrais. A proposta cênica traduziu a ancestralidade da terra de Uberaba, especialmente no período da pré-história e da era dos dinossauros. Os componentes vestiam figurinos em tom cinza, com pinturas corporais que, combinadas com lentes de contato, reforçaram a atmosfera pré-histórica, sem remeter ao contexto indígena.

tommaior desfile26 25

Em determinado momento, um integrante realizava uma transmutação cênica e surgia com cabeça de dinossauro. Uberaba é fortemente associada a esse período da história do planeta, e a representação foi satisfatória.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Ruhanan Pontes e Ana Paula Sgarbi desfilou com a fantasia intitulada “Um manancial de terra sagrada”. A vestimenta marcou a abertura monocromática em azul. Experientes e parceiros de longa data em outras agremiações, apresentaram uma performance segura e sincronizada. A coreografia foi bem executada, com movimentos obrigatórios realizados corretamente. Foi uma atuação consistente de ambos.

tommaior desfile26 24

HARMONIA

A comunidade da Tom Maior demonstrou canto forte ao longo de todo o desfile. Embora o conjunto tenha transmitido certa sensação de frieza, é importante considerar que o samba possui andamento cadenciado, assim como a bateria, o que naturalmente imprime maior lentidão à apresentação. Ainda assim, a escola mostrou uma comunidade aguerrida, que manteve o canto potente do início ao fim. Destacaram-se os apagões promovidos pela bateria Tom 30, que incendiaram os componentes.

tommaior desfile26 18

ENREDO

A proposta foi levar Uberaba para a avenida, cidade marcada pela presença histórica do médium Chico Xavier. O município é rico em referências culturais e históricas, com forte ligação à pré-história e aos povos originários, ponto bem introduzido na comissão de frente. A Índia também apareceu na narrativa, assim como o Geoparque dos dinossauros, apresentado no abre-alas como Terra de Gigantes, além de elementos da culinária local. A ideia de conduzir o enredo por meio de uma carta psicografada por Chico Xavier foi um recurso criativo e bem aplicado desde a sinopse até o samba-enredo. As alegorias, principalmente, facilitaram a compreensão da narrativa, aliando clareza e beleza estética.

tommaior desfile26 22

EVOLUÇÃO

A escola evoluiu com leveza e alegria, ocupando a pista de forma correta. Mesmo com o ritmo cadenciado, a intensidade foi mantida, como já havia sido observado nos ensaios técnicos. Os componentes dançaram de um lado para o outro sempre sendo incentivados e orientados pelas lideranças. Em certos momentos havia pedidos para colocar na grade, com o objetivo de não deixar espaçamentos na lateral da pista. Não foram percebidos buracos, divisão de alas ou falhas que comprometessem o quesito.

tommaior desfile26 7

SAMBA

O samba foi bem interpretado pelo também estreante Léozinho Nunes. O cantor repetiu o desempenho dos ensaios técnicos e conduziu a obra com animação, utilizando cacos que incentivaram os componentes, como o chamado “Vamos lá, geral”. Ele assumiu o microfone no meio do ciclo e demonstrou total domínio da obra, que se encaixou bem em sua voz. O entrosamento com a bateria Tom 30, especialmente nos apagões, foi preciso, sem qualquer atravessamento, evidenciando sintonia entre intérprete e ritmistas.

FANTASIAS

Flávio Campello apostou em uma estética refinada na concepção das fantasias. A abertura completamente azul deu unidade visual ao início do desfile, seguida por um conjunto mais colorido que dialogou harmoniosamente com as alegorias. As indumentárias chamaram atenção pelo acabamento e pela riqueza de detalhes. Vale destacar que as indumentárias não atrapalharam a evolução e o canto da escola. Uma Tom Maior leve, apesar de esteticamente bem servida de materiais.

tommaior desfile26 5

ALEGORIAS

A primeira alegoria, intitulada “Das águas emana o perfume! A Terra das Águas Claras e Berço de Gigantes”, foi um carro de grande impacto visual que completou a abertura azul da escola, composta pelo casal, pela ala e pelo próprio abre-alas. Uma grande escultura central, em constante movimento, destacou-se ao representar de forma carnavalizada a pré-história de Uberaba.

tommaior desfile26 20

O segundo carro, “Tem boi pra lá e pra cá! O Zebu: Da Índia para Uberaba”, apresentou esculturas de elefantes e bois, além de forte iluminação e brilho. Houve, porém, um problema técnico: a alegoria teve sua iluminação apagada por um período durante o percurso e passou assim pelo segundo módulo de jurados. Posteriormente, o sistema foi restabelecido e o carro seguiu normalmente.

tommaior desfile26 11

A terceira alegoria, “O futuro chegou! Nos caminhos para a industrialização”, trouxe engrenagens e esculturas com olhos iluminados, remetendo ao avanço tecnológico e à modernização da cidade.

tommaior desfile26 6

Encerrando o desfile, o último carro, “Chico de luz e amor! Um templo de fé: eterno Chico Xavier”, apresentou uma alegoria em formato de templo, com escultura realista do médium escrevendo uma carta. A representação emocionou especialmente os admiradores do espiritismo e da trajetória de Chico Xavier.

tommaior desfile26 2

OUTROS DESTAQUES

A bateria Tom 30, comandada pelo mestre Carlão, executou bossas estratégicas, com destaque para o apagão coordenado envolvendo toda a escola, realizado tanto na pista quanto no recuo. Mais uma vez, Carlão demonstrou experiência à frente da cadenciada Tom 30.

tommaior desfile26 3

A rainha de bateria Pâmela Gomes e a madrinha Andreia Gomes também se destacaram, sambando com garra e presença durante todo o percurso.

Unidos da Ponte 2026: Galeria de fotos do desfile

0

Maricá faz desfile campeão, mas estouro do tempo e alegoria apagada tiram a escola da briga por título da Série Ouro

0

A Maricá, caçula da Série Ouro, pisou na Sapucaí, em seu terceiro desfile no grupo, mais uma vez se postulando fortemente ao título. Com plástica de Grupo Especial, musicalidade de excelência e força nos quesitos de chão, a Vermelha e Branca da Região dos Lagos ouvia gritos das frisas e arquibancadas de “vai subir”. A escola estaria na briga pelo título, mas a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, passou apagada do primeiro ao último módulo de julgamento e teve dificuldades para deixar a pista, fazendo com que a agremiação estourasse em dois minutos o tempo máximo de desfile. Já na dispersão, um momento triste: a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, foi responsável por deixar quatro pessoas feridas. A alegoria bateu na grade da frisa do setor 12.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

marica desfile 2026 09

Com comissão e casal tendo ótimo rendimento e boa resposta do público, evolução sem intercorrências e canto satisfatório da comunidade, a Maricá tem tudo para, pelo menos, estar nas primeiras colocações. Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a União de Maricá foi a sexta escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de apresentações da Série Ouro, com o tempo de 57 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão foi assinada mais uma vez pelo renomado coreógrafo Patrick Carvalho, que mais uma vez fez essa dobradinha com o carnavalesco Leandro Vieira, assim como na Imperatriz. Composta exclusivamente por mulheres negras, a comissão esteve intimamente ligada à ideia de empoderamento feminino e à construção simbólica da mulher negra como vitrine para o luxo e a exuberância das joias. O traje apontou para a memória africana de negras engalanadas, cobertas por adornos de ouro. Simbolicamente, o dourado presente no figurino lançou luz de forma poética sobre o acúmulo de poder traduzido por joias, enquanto o vermelho que tingiu a saia das componentes remeteu, de maneira metafórica, às lutas individuais de mulheres negras que se tornaram protagonistas de suas emancipações.

marica desfile 2026 03

Já o elemento cenográfico que serviu de “palco” para a apresentação fez referência ao espaço público das ruas (local onde grande contingente de mulheres negras desenvolveu suas atividades de trabalho), num misto de arquitetura colonial acrescida de artigos diretamente associados ao imaginário afro-brasileiro. Coreograficamente, a luta de mulheres negras foi apresentada com garra e exuberância, enquanto o balangandã, artigo fundamental dentro do enredo, foi revelado em meio a imaginários de ancestralidade e devoção, quando a estrutura subiu acima das componentes, em união de duas partes que estavam inseridas em cada lado do elemento e se uniram no meio da alegoria.

Em consonância com isso, figuras cobertas de ouro, orixás femininos, também surgiam vindas do interior do carro através de elevadores. Na parte da frente do elemento, abaixo da figura da figa e dentro dela, na parte inferior do braço, uma mulher, como que em um domo utilizado para se colocar imagens de santos. Comissão com tamanho de Grupo Especial, bem desenvolvida, com clímax e efeitos. Serviu muito bem para apresentar o enredo. Indumentária e elemento cenográfico primorosos, de alto nível.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O experiente casal Fabrício Pires e Giovanna Justo se apresentou com a fantasia “Realeza e identidade”. Vestindo-se à moda africana, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira ostentou signos de realeza para mencionar o universo estético que o enredo aborda. Reforçando a ideia de que o uso de joias revela status e poder, o traje emplumado, luxuoso e ornamentado por búzios e joias douradas que vestia o primeiro casal impôs a narrativa de empoderamento negro proposta pelo enredo, debruçado sobre o balangandã.

marica desfile 2026 06

A dança do casal mostrou bastante vitalidade, com a dupla aproveitando bastante as bossas que a bateria fazia para incluir algumas inserções de passos mais voltados para o afro. Fabrício, já de início, mostrou muita desenvoltura no refrão principal, riscando o chão com muita energia. E Giovanna, mesmo em um momento em que o vento estava mais forte, segurou muito bem e manteve o pavilhão bem desfraldado. O casal foi seguro, não ousou tanto, focando mais no bailado clássico. A dupla não teve intercorrências em seu bailado, e todas as apresentações nos módulos foram limpas, com correção e qualidade. A dupla é muito experiente e foi pelo caminho mais seguro.

ENREDO

“Berenguendéns e Balangandãs”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, transformou uma joia produzida por mãos pretas em linguagem de resistência, autonomia e orgulho ancestral, reposicionando o corpo feminino negro no centro da narrativa carnavalesca. Nesse sentido, o enredo apresentou um artefato conhecido visualmente, mas com significado esvaziado ao longo do tempo. A abertura da escola apresentou as negras quitandeiras, mulheres fundamentais no Brasil colonial, responsáveis por gerar a renda que possibilitou o acúmulo de joias.

marica desfile 2026 13

Na sequência, o desfile mergulhou nos antecedentes do balangandã, passando pela influência das joias portuguesas, pela expertise dos negros malês na forja do metal e pela relação do artefato com Ogum, senhor da forja. Nessa parte, o visual priorizou o tom metálico. O terceiro setor mostrou a individualidade de cada peça que compõe o balangandã: figa, estrutura metálica, dentes de animais e pingentes ligados aos orixás. No encerramento, a Maricá exaltou o empoderamento feminino por meio de mulheres pretas cobertas de joias, senhoras autônomas de sua própria história.

Outra ótima sacada de Leandro Vieira ao revestir uma joia de muito significado e ancestralidade. Fácil leitura das fantasias para apresentação de um tema com tamanho para os desfiles da Série Ouro, fácil de contar com três alegorias e o número de alas próprio para este grupo. O empoderamento feminino no final também foi um acerto e justificou a importância da história contada.

EVOLUÇÃO

A Maricá fazia um desfile de bom nível na evolução, cadenciado no início, mas com espontaneidade dos componentes. Parecia ter boa dosagem do tempo, fazendo suas apresentações sem correria, de forma controlada. Mas, no final, o último carro da escola, “Reluz o Amuleto”, teve dificuldades para deixar a pista, fazendo com que a agremiação estourasse em dois minutos o tempo máximo para encerrar o desfile.

marica desfile 2026 22

Com isso, pelo regulamento, a agremiação deverá perder dois décimos, cada décimo referente a cada minuto ultrapassado do tempo limite. No final, também houve pequena correria da escola para fechar. Na pista, não se viram problemas de buracos. Como detalhe informativo, a União de Maricá optou pela não entrada da bateria no segundo recuo a fim de não prejudicar ainda mais a questão do tempo.

HARMONIA

Fazendo dobradinha neste carnaval, Zé Paulo Sierra, que também vai comandar o carro de som da Portela, mostrou que as preocupações com a maratona de trabalho em duas agremiações não afetaram seu rendimento, pelo menos não na Maricá. Com um carro de som de excelente musicalidade, Zé esteve bem à vontade e mostrou entrosamento das vozes e trabalho muito bem feito de preparação e ensaio. Zé Paulo fez, em diversos momentos, solos com a resposta do coro, em alguns trechos apenas com as vozes femininas, como no refrão do meio, em que ele cantava sozinho o “Balanço que lembra meu adarrum”, com a resposta das vozes cheias no “Na amargura de Ogum, memória ancestral”. Fantástico.

marica desfile 2026 23

Excelente trabalho das cordas e ótima consonância entre carro de som e bateria, abrilhantando ainda mais a obra que a Maricá levou para a Sapucaí. Já o canto da comunidade foi satisfatório. Alguns momentos com um pouco mais de força, mas sempre presente. Em alguns trechos, o carro de som deixava a escola cantar sozinha o “Claro, tinha que ser preto” do refrão principal. A comunidade comprou a ideia e mostrou força e rendimento para nota máxima.

SAMBA-ENREDO

A obra escolhida pela Maricá para este carnaval foi composta por Babby do Cavaco, Rafael Gigante, Marcelo Adnet, Hélio Porto, Jefferson Oliveira e André do Posto. O trabalho realizado pela direção musical da escola fez com que o samba fosse levado ao máximo na Sapucaí. Com andamento muito adequado à obra, a escola aproveitou todas as partes para que a bateria “Maricadência” pudesse inserir bossas muito pertinentes ao contexto da música. Logo na cabeça, no verso “Nega da Ladeira do Pelô”, foi introduzida uma bossa com levada de axé. E, no refrão do meio, “Balanço que lembra meu adarrum…”, uma bossa de atabaque com batida para orixá, totalmente dançante e evocando ancestralidade.

No geral, um samba muito gostoso de se ouvir, conduzindo bem o desfile, com pegada para frente sem prejudicar a melodia e a métrica. Além disso, ótima interação com o público. O trecho mais cantado, obviamente, foi o último verso da segunda parte do samba, “Vai dormir com esse barulho”, algumas vezes com o carro de som deixando para a escola cantar sozinha.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da União de Maricá teve nível dos conjuntos apresentados por Leandro em títulos da Série Ouro com Imperatriz e Império Serrano, e até mesmo de desfiles que ele assinou no Grupo Especial. Entre os pontos altos, destaca-se o bom uso da paleta de cores para retratar cada ponto do enredo, variando o uso do prata, dourado e branco com tons de marrom e palha quando o enredo pedia mais ancestralidade. Costeiros e adereços de mão muito bem desenvolvidos, como nas alas “Herança dos Malês” e “Armadura de Ogum”.

marica desfile 2026 21

No último setor, por exemplo, houve excelente mistura entre o dourado, os tons pastosos, o acabamento mais metálico das joias com estampas africanas, como nas alas que vinham antes do último carro, destacando-se as fantasias “Espelho e Orgulho” e “Pretas Consagradas”. O primeiro figurino, inclusive, com saias rodadas que produziam bonito efeito. Um conjunto estético primoroso, de acabamento luxuoso. Assinatura de Leandro. Outro destaque para a ala das baianas, que recriou de forma carnavalesca o imaginário das negras que praticavam a venda ambulante e, por meio do trabalho diário e de estratégias de existência e resistência, passaram a adquirir variada sorte de joias de ouro e prata como uma espécie de poupança financeira.

ALEGORIAS

Leandro Vieira trouxe para a Sapucaí, assim como no conjunto de fantasias, um conjunto alegórico primoroso e impactante. Com esculturas com a assinatura do carnavalesco e traço fino, as alegorias apresentaram boa volumetria, principalmente para o que Leandro vinha trazendo para a Série Ouro. Alegorias com movimento e bem inseridas no enredo. Porém, a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, causou muitos problemas na Sapucaí. O primeiro deles foi passar em todos os módulos completamente apagada, o que deve fazer com que a escola perca vários décimos. A alegoria também foi responsável por deixar quatro feridas. A alegoria bateu na grade da frisa do setor 12.

O abre-alas, “Nêga da Ladeira do Pelô”, reproduziu cenograficamente o espaço público das ruas da Bahia colonial. Inspirado nos registros de artistas como Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o conjunto cênico reproduziu, de maneira carnavalesca, os velhos casarões que testemunharam mulheres escravizadas realizando o comércio ambulante nas ruas. A segunda alegoria, “Ogum é a Forja do Metal”, fez menção ao imaginário do orixá Ogum dentro da simbologia da joia de tradição afro-brasileira. Caracterizado como o “deus-ferreiro” e o “senhor da forja”, o saber africano da manipulação de metais, que tanto foi usado para a produção dos berloques que compõem a penca, é associado ao universo simbólico da divindade. No centro do conjunto alegórico, o orixá foi representado como uma espécie de guerreiro retinto que veste sua armadura de prata. No topo, o conjunto escultórico fez menção carnavalesca ao assentamento de Ogum e às pencas feitas com artigos de ferro e prata que tradicionalmente estão penduradas, imbuídas de devoção. São reproduções carnavalescas de espadas, martelos e outras ferramentas de trabalho que, pendendo em uma estrutura igualmente metálica, reforçam as semelhanças entre os símbolos associados ao universo votivo do orixá e o design dos balangandãs usados como uma espécie de “joia-amuleto”.

marica desfile 2026 24

O último carro, “Reluz o Amuleto”, encerrou o desfile apresentando o balangandã como uma joia que traduz o status e o empoderamento de mulheres pretas. Predominantemente dourada e ricamente decorada, a cenografia geral mencionou a narrativa de poder revelada pelo artigo e celebrou o corpo preto como vitrine de luxo, ostentação e beleza, apesar das limitações raciais impostas por uma sociedade racista marcada pelo sistema escravocrata.

OUTROS DESTAQUES

Os passistas vestiram a fantasia “Força Animal”, utilizando uma estética “selvagem e animal” para mencionar uma prática comum junto às pencas de balangandãs: a utilização de dentes de javalis, onças, gatos-maracajás e jacarés como amuletos de proteção e evocação de força por aqueles que os levavam junto ao corpo. A bateria “Maricadência”, de mestre Paulinho Steves, foi vestida pelo carnavalesco Leandro Vieira, ostentando como signo imagético de seu traje um popular, simbólico e recorrente artigo presente em boa parte das pencas como uma espécie de amuleto capaz de propiciar a evocação de caminhos abertos: a chave. Na pista, os ritmistas mostraram segurança.

marica desfile 2026 17

A rainha Rayane Dumont veio com o figurino “Joias da Princesa”, vestindo o brilho dos artigos dourados que compuseram seu figurino, ostentando luxo e exibindo estética exuberante influenciada pelo contorno africanizado, personificando todo o imaginário de luxo e ostentação associado à joalheria negra.

marica desfile 2026 18

No esquenta, Zé Paulo Sierra cantou a obra do carnaval passado, “O Cavalo do Santíssimo e a Coroa do Seu 7”. Com drones, antes do desfile, a escola escreveu no céu “Vai dormir com esse barulho”, além de seu nome e símbolo, sendo ovacionada pela Sapucaí nesse momento.