O Carnaval é som, cor e vibração. Mas, este ano, a Marquês de Sapucaí deu um passo além: passou a contar com tradução em Libras durante a apresentação dos enredos das escolas de samba. A iniciativa amplia o acesso ao espetáculo e reforça que a festa precisa ser, de fato, para todos.
Transmissão é feita por um telão FOTO: CARNAVALESCO
A presença da intérprete permite que pessoas com deficiência auditiva acompanhem o conteúdo narrativo dos desfiles, compreendendo o enredo, os símbolos e a mensagem levada à Avenida. A novidade foi celebrada pelo público, que destacou a importância da medida como marco de inclusão. A tradução é transmitida em um telão na Passarela do Samba.
Thaís de Souza, de 31 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A profissional de educação física Thaís de Souza, de 31 anos, ressaltou o valor educacional e social da iniciativa.
“É muito interessante visualizar a tradução em Libras ao longo do enredo, porque Libras é a segunda língua nacional e infelizmente não temos isso presente nas escolas. Dessa forma, a Sapucaí se torna ainda mais acessível para o público com deficiência auditiva”, pontuou.
Daniele Lúcio, de 48 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Daniele Lúcio, de 48 anos, servidora pública e profissional da educação, a inclusão vai além da escuta: envolve pertencimento.
“É de suma importância, porque aqui não tem só pessoas que ouvem. A Sapucaí precisa ser um lugar de inclusão. Apesar deles não ouvirem, eles sentem a vibração da bateria e agora podem visualizar o enredo em Libras. Parabéns para quem teve essa ideia. Eu sei a importância da linguagem de sinais em qualquer ambiente. É uma língua que conecta as pessoas, mesmo que existam variações”.
A primeira alegoria da Unidos do Porto da Pedra, intitulada “Cais da Labuta Meretrícia”, trouxe à tona uma das páginas mais silenciadas da história brasileira. O carro retrata a chegada das “polacas” ao país, mulheres judias do leste europeu trazidas pela máfia Zwi Migdal com falsas promessas de casamento, que acabaram escravizadas na prostituição da Zona Portuária do Rio de Janeiro.
Andressa Urach no desfile da Porto da Pedra FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Cercadas por monstros marinhos que simbolizam o medo da travessia e a violência da exploração, elas são lembradas como vítimas de um sistema cruel, e como símbolo de resistência diante do abandono e do preconceito.Vindo à frente do carro, a musa Andressa Urach retornou ao carnaval após 13 anos e afirmou que o desfile teve um significado pessoal e coletivo.
“Me sinto honrada. Estou há 13 anos longe do Carnaval e, quando recebi o convite da Porto da Pedra, senti que precisava estar aqui para dar voz a essas mulheres. Minha fantasia fala das profundezas do oceano, mas é uma homenagem às polacas, vítimas de tráfico humano, que sofreram abusos e não escolheram essa profissão. Ainda hoje existem mulheres que passam por isso. Quando o país olhar para elas com respeito, como cidadãs que merecem direitos básicos, como moradia e acesso a empregos e a lazer, as coisas podem mudar. A Porto da Pedra está sendo um divisor de águas ao trazer voz para essas mulheres que também merecem direitos e proteção”, enfatiza Urach.
A advogada Priscila Dima FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A advogada Priscila Dima defendeu a importância da autonomia feminina ao representar essa memória: “É o marco de uma revolução das mulheres entenderem que podem ser o que quiserem, seja em casa, na cama ou na rua. A mulher não precisa da opinião alheia para definir quem é. Ela pode escolher o próprio caminho. Apesar do machismo ainda existir e mulheres morrerem todos os dias, é fundamental que elas reconheçam o próprio potencial, tenham independência emocional e financeira e não se submetam a abusos”, pontua.
Sobre os “monstros” que ainda cercam as mulheres, ela acrescentou: “O machismo é um deles, mas também existe a dependência emocional e financeira. Mesmo quando conquistam autonomia, muitas ainda se submetem a abusos psicológicos e físicos. Isso vem de uma construção histórica que precisa ser enfrentada”.
Luta diária por inclusão
A advogada Mônica Alexandre dos Santos ressaltou que a história das polacas dialoga com outras experiências femininas mais atuais, que também são marcadas pela exploração.
“Eu já conhecia a história das polacas. Eu e minha amiga Glória Ramos estudamos as trajetórias de mulheres pretas pós 1888 e sabemos como essas histórias de exploração atravessam gerações. Apesar delas serem formadas apenas por mulheres brancas, aqui no carro, somos duas mulheres negras representando essa memória, como forma de mostrar que as mulheres, independentemente da raça, são vulneráveis a exploração”, afirma.
A amiga, a professora Glória Ramos trouxe a identificação com a luta cotidiana das mulheres como uma forma poderosa de passar a mensagem do enredo: “Não é apenas uma representação, somos nós mesmas. Mulheres negras trabalhadoras que matam um leão por dia. Essa é uma homenagem às profissionais do corpo que ainda sofrem preconceito. E todas as mulheres são trabalhadoras, com ou sem carteira assinada. As donas de casa são trabalhadoras. Estão sempre na luta”.
Enredo contra o preconceito O dentista Sérgio Adriano FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O dentista Sérgio Adriano, responsável pela organização da alegoria, apontou o caráter inclusivo da proposta do carro, destacando que ele é muito mais abrangente do que apenas representar as polacas.
“A principal mensagem do enredo é que não pode ter preconceito. Embora o carro represente as polacas, ele também dialoga com outras mulheres que vieram ao Brasil e foram exploradas, como as mulheres negras que foram trazidas escravizadas e são marginalizadas até hoje. A mensagem principal é quebrar preconceitos. É um enredo que inclui, não exclui”.
Ao falar sobre os “monstros” atuais, ele não hesitou em trazer o problema para os homens: “O feminicídio acontece a toda hora e não tem classe social. Qualquer homem sem caráter pode cometer esse crime. Não precisa ser um marinheiro, um empresário rico da Faria Lima pode ser um feminicida: O país precisa mudar essa história e criar leis mais rígidas para proteger as mulheres”.
A Unidos do Porto da Pedra levou um dos maiores tabus sociais para a Marquês de Sapucaí. No desfile deste sábado, a escola de São Gonçalo apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, desenvolvido por Mauro Quintaes, propondo uma reflexão sobre a história e a luta das trabalhadoras do sexo. Dentro dessa narrativa, a Ala 11, “Somos Mulheres do Lar”, ganhou força ao evidenciar que, por trás do estigma, existem mães, filhas e chefes de família que encontram no trabalho o sustento e a dignidade de seus lares.
Detalhes da ala FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
A fantasia misturou elementos domésticos, como avental, tábua de passar e boneca, com referências à vida noturna, dialogando diretamente com o verso do samba-enredo: “Também sou moça de família / Mãe e filha, meu sustento vem da luta”.
Para falar sobre essa representação, participaram Rafael Martins, de 38 anos, desfilando na escola há quatro anos; Silvano de Castro, de 50 anos, há cinco anos na agremiação; e Juliana D’Arc de Souza Magalhães, de 31 anos, professora, que desfila na Porto da Pedra há mais de 15 anos.
A profissional do sexo também é mãe e chefe de família
Ao comentar a dualidade presente na fantasia, Rafael Martins avaliou que a sociedade ainda enxerga a profissional do sexo apenas pelo viés do prazer e da luxúria, apagando sua dimensão humana: “Existe um processo de subalternização dessa profissão. A sociedade tende a enxergar a profissional do sexo apenas pelo viés do prazer, como se ela estivesse ali apenas por diversão ou luxúria, ignorando completamente que, por trás daquela figura, existe uma pessoa com necessidades pessoais e responsabilidades familiares como qualquer outra”, afirmou.
Silvano de Castro destacou que o preconceito parte de uma visão que desconsidera as escolhas individuais: “As pessoas olham para isso com um preconceito desnecessário. Cada indivíduo sabe o caminho que está traçando para sua própria vida e as escolhas que faz. Não cabe a ninguém ficar criticando ou tentando se meter na vida alheia”.
Juliana D’Arc de Souza Magalhães, de 31 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Juliana D’Arc de Souza Magalhães ressaltou que a proposta da ala foi justamente ampliar o olhar sobre essas mulheres: “A ideia foi trazer que não é só esse lugar de profissional, mas que também existe uma mãe por trás dessas mulheres. São mulheres completas, não apenas a profissão”.
“Meu sustento vem da luta”: trabalho e dignidade
O verso do samba-enredo ecoou como uma declaração de resistência e sobrevivência. Para Rafael Martins, a frase representou um posicionamento claro sobre respeito e valorização: “Eu vejo essa mensagem como um grito de afirmação. Todas as profissões são importantes para a engrenagem da sociedade. Elas precisam ser valorizadas e tratadas com o devido respeito. Não é uma vida fácil; é uma forma de sobrevivência e sustento que merece reconhecimento como qualquer outra jornada de trabalho”.
Silvano de Castro reforçou que não existe trabalho sem desafios. “Não existe vida fácil em nenhum tipo de trabalho. Eu enxergo a prostituição como um trabalho como qualquer outro. Ela possui dificuldades e desafios da mesma forma que qualquer emprego formal teria”.
Juliana também associou o verso à realidade do sustento diário. “É uma forma de ganhar dinheiro. É uma profissão. Não deixa de ser uma maneira de colocar o alimento de cada dia na mesa, de levar comida para o filho”.
Representatividade para enfrentar o preconceito Rafael Martins FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
A ala também trouxe à tona a realidade de mulheres que escondem a profissão da própria família por medo do julgamento social. Para Rafael Martins, colocar esse debate na avenida foi um passo importante na quebra de estigmas. “Quando trazemos essa discussão para o desfile, mostramos que a remuneração e o sustento que vêm do trabalho, seja ele qual for, são fundamentais para a dignidade humana. Essa representatividade na avenida é um passo importante para quebrar o estigma e mostrar a realidade dessas mulheres”.
Silvano de Castro Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Silvano de Castro enxergou a iniciativa como um enfrentamento direto ao conservadorismo: “Tudo aquilo que bate de frente com o conservadorismo é extremamente importante. A ala trouxe essa história e essa mensagem necessária para a avenida, e é sob essa ótica de resistência e visibilidade que devemos enxergar essa iniciativa”.
Juliana destacou que o silêncio muitas vezes nasce do medo do julgamento: “O esconder é pelo medo do que vai ser julgado, do que vai ser pensado em relação a elas. Trazer aqui que todas são mães, são donas de casa, são mulheres, ajuda a diminuir esses preconceitos”.
A Unidos do Porto da Pedra levou para a Sapucaí o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, desenvolvido pelo carnavalesco Mauro Quintaes. Entre os setores que provocaram reflexão está a Ala 09 – “Perpétua Moralidade”, que usa ironia e crítica social para questionar o julgamento direcionado às trabalhadoras do sexo. Inspirada na personagem Perpétua, da novela Tieta, a ala representa o dedo apontado de quem condena em público, mas esconde contradições na intimidade.
A fantasia mistura símbolos religiosos, marcas de beijo e o gesto de silêncio, compondo uma alegoria visual sobre hipocrisia, desejo reprimido e falso moralismo.
Monica Maia, de 62 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Para falar sobre o significado desse desfile, participaram Monica Maia, de 62 anos, corretora e há dois anos na escola; Jeferson Vieira, de 28 anos, desempregado e há três anos na agremiação; e Nélia Cláudia, de 51 anos, babá e integrante da Porto da Pedra há sete carnavais.
A sociedade ainda é muito parecida com Perpétua?
Para os três componentes, a personagem ultrapassa a ficção e dialoga diretamente com a realidade brasileira. Monica Maia acredita que o país ainda convive com uma cultura forte de julgamento, especialmente contra mulheres.
“A gente ainda vive numa sociedade que aponta muito o dedo, principalmente para as mulheres. Existe um discurso moral muito forte, mas que nem sempre corresponde às atitudes. A Perpétua é esse retrato da hipocrisia: condena publicamente, mas esconde seus próprios desejos”, afirmou.
Jeferson Vieira relaciona essa postura ao comportamento nas redes sociais e ao discurso moralista que nem sempre corresponde à prática: “A gente vê muito isso nas redes sociais: pessoas julgando, atacando, falando de moral e bons costumes, mas vivendo outra realidade escondida. A Perpétua não é só uma personagem, ela representa um comportamento que ainda é muito comum”.
Já Nélia Cláudia destaca que o julgamento recai, sobretudo, sobre quem foge dos padrões sociais: “Existe uma cultura de julgamento muito forte, principalmente contra mulheres que fogem do padrão. Infelizmente ainda temos muito disso no nosso dia a dia”.
Os símbolos religiosos e as marcas de beijo: o que representam?
A fantasia da ala aposta no contraste entre o sagrado e o profano para evidenciar contradições. Para Monica, os elementos visuais funcionam como um choque proposital: “Os símbolos religiosos representam essa imagem de pureza que muita gente quer sustentar. Já as marcas de beijo mostram o outro lado, aquilo que é escondido. E eu acho que é por aí ninguém é totalmente santo, e julgar o outro é muito fácil quando não se olha para si mesmo”.
Jeferson Vieira, de 28 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Jeferson interpreta o figurino como uma crítica direta à fachada moral: “Os símbolos religiosos mostram essa aparência de santidade, enquanto os beijos representam os desejos e as atitudes escondidas. Acho que todo mundo tem suas contradições, então antes de julgar, é preciso ter consciência disso”.
Nélia reforça a ideia de denúncia presente na composição visual: “A religião é importante, mas muitas vezes é usada como instrumento para julgar. As marcas de beijo mostram que por trás do discurso moral existe desejo, existe contradição”.
Desfilar contra o falso moralismo é uma forma de protesto?
Na avaliação dos três integrantes, levar essa crítica para a Avenida transforma o desfile em manifestação artística e política. Monica vê o Carnaval como espaço histórico de questionamento: “Quando a gente entra na Avenida com essa mensagem, está dizendo que a sociedade precisa rever seus preconceitos. É um protesto feito com arte”.
Jeferson destaca que o debate ganha ainda mais força por estar inserido em um enredo que trata das trabalhadoras do sexo: “Quando a gente critica o falso moralismo, está defendendo o direito dessas mulheres serem vistas como trabalhadoras e como seres humanos. É um protesto por respeito”.
Nélia Cláudia, de 51 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Para Nélia, o tema exige coragem e posicionamento: “A gente está falando de um tema sensível, que muita gente prefere fingir que não existe. Levar isso para a Sapucaí é dizer que essas mulheres merecem respeito e dignidade”.
Com tabuleiros à cabeça, as baianas de Maricá evocaram o empoderamento feminino e a força do enredo “Berenguendéns e balangandãs”, assinado por Leandro Vieira. A fantasia das matriarcas do samba remete à luta de mulheres que, ainda no período da escravidão, conquistaram a própria liberdade por meio da venda de adornos e joias metálicas compostas por pingentes e símbolos diversos.
A indumentária traduz o núcleo simbólico do enredo: as negras do tabuleiro, que transformaram as joias em forma de conquistar a alforria.
Em seu terceiro ano na ala, Fabiana Dantas destacou a liberdade como eixo central da representação.
“É imensamente gratificante fazer parte das baianas. Hoje representamos as negras do tabuleiro, com frutas e pães. O enredo mostra a importância da liberdade, não só do povo negro, mas do ser humano como um todo, seja branco, preto, homem ou mulher”, afirmou.
Detalhe fantasia das baianas. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
As componentes também ressaltam o esforço necessário para evoluir com a fantasia, marcada pelo brilho do ouro das joias, pelas estampas africanas nas cores do pavilhão e pelo tradicional tabuleiro de ganho.
“Leve nunca é, mas com esforço e amor ao que a gente faz, a gente consegue levar”, afirmou Fabiana.
Apesar do peso, Gisele Bárbio destacou a beleza, o conforto e a potência histórica da indumentária.
“Estou achando essa fantasia maravilhosa. Ela traz ancestralidade. Os balangandãs mostram a força das mulheres. Tenho fé que seremos campeãs. Não é leve, mas é confortável. Vamos arrasar”, disse.
Gisele Barbio. Foto: Marina Santos/CARNAVALESCO
Veterana da ala, Juliana Nunes se orgulha de representar a herança das mulheres que trabalharam em busca da própria liberdade. Para ela, o empoderamento feminino segue atual e necessário.
“A gente fala de empoderamento feminino, e é muito importante ver isso na avenida, reafirmando que queremos e podemos ser livres”, concluiu.
A Porto da Pedra transformou o encerramento de seu desfile em um ato político com a alegoria “Uma Puta Mulher!”, que propôs a ressignificação da palavra “puta” — até hoje usada como xingamento — para uma expressão de orgulho, força e luta pelos direitos das mulheres.
Detalhes da alegoria da Porto da Pedra FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O carro trouxe uma escultura da ativista Lourdes Barreto e também homenageou Gabriela Leite, fundadora da grife Daspu. Ambas foram pioneiras na criação do movimento das trabalhadoras do sexo no Brasil, que luta por direitos civis e trabalhistas para essas mulheres, além de ser contra a estigmatização.
Juma Santos representou a Tulipas do Cerrado FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Com a ativista Indianarae Siqueira e Raquel Pacheco, a famosa “Bruna Surfistinha”, como destaques, a alegoria reuniu representantes de ONGs e coletivos de trabalhadoras sexuais de diferentes regiões do país. Juma Santos representou a Tulipas do Cerrado, movimento de trabalhadores sexuais do Distrito Federal, e comentou a emoção de participar do momento.
“Eu sou uma trabalhadora sexual com mais de 50 anos aí na estrada. Está sendo muito emocionante para mim estar aqui nesse carro, porque essa é uma pauta que tem que ser discutida. Hoje em dia, quando vão falar de puta ou prostituta, falam de ‘job’. Cada um inventa um termo diferente para nos ofender, mas somos todas profissionais”, desabafa. Bruna Surfistinha e Indianarae Siqueira FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já Cleide Almeida é da Vila Mimosa, famoso reduto de prostituição do Rio de Janeiro. Ela ressaltou a importância de Lourdes e Gabriela para o movimento.
“A figura de ambas começaram toda essa história. Elas são como as nossas ancestrais, e nós estamos dando continuidade a essa luta, que é de resistência e de empoderamento, pela justiça social e direitos humanos”, comenta Cleide. Cleide e a amiga Betânia FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Amiga de Cleide, Betânia Santos, prostituta em São Paulo, completou: “Para a gente, essa homenagem é muito forte. Lourdes Barreto e Gabriela Leite são as protagonistas na defesa do trabalho sexual e das prostitutas do Brasil”.
‘Lute como uma puta’
Sobre a ressignificação do slogan “Lute como uma puta”, Cleide leva uma certeza consigo: “A Gabriela sempre achou que tínhamos que quebrar esse tabu. Quanto mais as pessoas se acostumarem a falar ‘eu sou uma puta’, a sociedade vai aceitar um pouco mais, com mais respeito e dignidade”.
Betânia enfatizou o poder de levar essa mensagem para uma vitrine mundial como a Sapucaí:“É para que mais pessoas entendam que a puta, assim como qualquer outro cidadão, tem direito, além das necessidades básicas,como ao lazer, ao trabalho e à cultura”, completa.
A confiança tomou conta dos ritmistas na Marquês de Sapucaí neste sábado (14), durante o segundo dia de desfiles da Série Ouro. Integrantes da União de Maricá reforçaram um discurso em comum: pertencimento, reconhecimento e a certeza de que o trecho “Vá dormir com esse barulho” pode ecoar como grito de vitória. O CARNAVALESCO ouviu componentes que apostam na força da bateria e na ousadia rítmica como trunfos na disputa pelo tão sonhado acesso.
A principal aposta, segundo os próprios componentes, está na cadência da bateria e na fusão entre o samba carioca e ritmos como ijexá e adarrum. A combinação, vista como ousada e identitária, é tratada como elemento capaz de levantar o público e diferenciar a escola na Avenida.
“Esse ano a Maricá sobe, é nosso. Acho que a Sapucaí vai levantar com o ‘Vá dormir com esse barulho’”, afirma Gabriela Mendes, de 24 anos, técnica de segurança do trabalho, que desfila há quatro anos pela escola. Sobre a mistura do samba com o ijexá e o adarrum, ela destaca: “Brasil é isso, uma grande mistura de ritmos, acho bacana levarmos isso pra Avenida também”. Antes de entrar na pista, Gabriela mantém um ritual simples e simbólico: conferir o instrumento, garantindo que tudo esteja perfeito para o grande momento. Gabriela Mendes, de 24 anos, técnica de segurança do trabalho FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
No mesmo tom de confiança, Thalita Ribeiro, de 28 anos, advogada, encara seu segundo desfile pela Maricá com entusiasmo renovado: “Ainda não tenho superstição, acho que vou criar. A bateria vai ser o diferencial. Diferente de todas as outras baterias a de Maricá vai ser a chave para o título”, projeta. Para ela, o refrão de “Vá dormir com esse barulho” tem potência suficiente para não deixar ninguém parado nas arquibancadas. Thalita Ribeiro, de 28 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A advogada também enxerga na construção rítmica um elemento estratégico. Ao comentar a presença do ijexá e do adarrum na estrutura do samba, Thalita resume: “É a chave que estava faltando para o nosso 40”. A referência à pontuação máxima revela o foco competitivo da escola, que aposta na inovação sem abrir mão da raiz do samba carioca.
Gustavo Hinago, de 18 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A percepção é compartilhada por Gustavo Hinago, de 18 anos, produtor de eventos, que não hesita ao apontar o ponto alto do desfile: “A chave para o título da Maricá é a bateria com toda certeza. O samba carioca com o ijexá e o arredum foram o casamento perfeito”.
A União de Maricá desfilou na noite deste sábado, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida em busca de uma vaga no Grupo Especial de 2027. Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a escola levou para a pista um mergulho na força dos amuletos e das proteções ancestrais. No segundo carro alegórico, “Ogum e a Forja do Metal”, o contraste visual e espiritual marcou a noite. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da composição “Armadura de Ogum” falaram sobre fé, pertencimento e emoção.
Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Se o primeiro momento do desfile reluzia em dourado, o segundo mergulhou no prateado intenso do ferro. A alegoria religiosa e guerreira trouxe cães puxando o carro, atabaques metalizados e uma estética marcada por ferramentas ligadas ao orixá. Vestidos predominantemente em prata e metal, os componentes incorporaram a tecnologia africana de forjar o ferro, evocando proteção e resistência. A transição cromática simbolizava não apenas mudança visual, mas também um chamado à força espiritual.
Igor Barbosa. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Devoto de São Jorge, sincretizado com Ogum, o fisioterapeuta Igor Barbosa, de 28 anos, viveu o desfile como um ato de fé. “Sou devoto, carrego comigo um terço e um escapulário de São Jorge que levei na igreja para benzer. Foi uma emoção muito grande vir nesse carro, com essa fantasia. Assim que vi o carro no barracão fiquei encantado, mas só tive dimensão dele hoje, vendo aqui na Avenida. Ele é muito maior do que eu imaginava”, contou. A armadura prateada, para ele, não era apenas figurino, mas extensão de sua devoção.
Leandro. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A relação com a proteção espiritual também esteve presente no discurso de Leandro, de 40 anos, analista de sistemas. “Não tenho uma religião, mas acredito na proteção de São Jorge/Ogum. Acredito que ele vai guiar o desfile de toda a escola. No barracão como é bem apertado, eu não tinha dimensão do tamanho dele, me surpreendi quando vi hoje. Acredito que a escola vai cantar do início ao fim e vamos rumo ao título”, afirmou. Entre crença pessoal e energia coletiva, o sentimento era de confiança.
Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
O enredo ressalta o balangandã como amuleto, como arma simbólica no corpo, e essa ideia atravessava os relatos. Igor reforçou que a preparação espiritual foi essencial para entrar na Avenida protegido. “Só a emoção de estar aqui já me faz ter energia suficiente para cantar e me emocionar o desfile inteiro”, concluiu.
Visualmente impactante, o segundo carro impressionou desde o barracão até o momento do desfile. Os cães que puxavam a alegoria reforçam o aspecto guerreiro, enquanto os atabaques prateados ampliaram a atmosfera ancestral. Para os componentes, ver o conjunto pronto foi um momento de descoberta.
Primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Estácio de Sá levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Tatá Tancredo: O Papa Negro no Terreiro do Estácio”. A proposta exalta Tancredo da Silva Pinto, líder religioso central na reafricanização da Umbanda Omolokô e na aproximação entre o samba e a espiritualidade afro-brasileira.
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Na bateria “Medalha de Ouro” comandada pelo Mestre Chuvisco, o tributo ganha forma sonora e visual. Sob o tema “O Papa Negro da Umbanda Omolokô”, os ritmistas vestem figurinos que combinam elementos da liturgia católica, como mitra e batina, a referências afro-brasileiras. A estética simboliza a fusão cultural defendida por Tatá Tancredo e reforça o respeito às raízes e à diversidade religiosa.
Victor Diniz Souza da Silva. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
O ator Victor Diniz Souza da Silva, de 30 anos, destaca a emoção de participar do momento.
“Eu não tenho palavras para a homenagem que a Estácio está fazendo a Tatá Tancredo. A bateria vem com uma bossa no refrão que traz o ritmo da religiosidade para mexer com o público. Hoje o leão vai rugir na Sapucaí”.
Denise Melo. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Denise Melo, 60 anos, servidora pública e componente há sete anos, o enredo dialoga com a pluralidade brasileira.
“Sou católica e me sinto honrada em participar de uma escola que homenageia Tatá Tancredo e fala sobre o Papa Negro da Umbanda. O Brasil é samba, axé e religião. Só desfilando para sentir a energia que vibra na avenida”.
Ana Paula. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Já Ana Paula Martins, 39 anos, professora e integrante da escola há 14 anos, vê na bateria um manifesto de identidade e respeito.
“É representatividade, negritude e axé. A bateria mostra que a ancestralidade precisa ser respeitada e que o respeito ao outro passa pela religião, pela cor e pela classe. A Estácio tem chão e tem axé.”
Mais do que sustentar o desfile, a bateria se apresenta como extensão do próprio enredo. Cada batida reafirma a ligação entre terreiro e avenida, entre fé e tambor, entre passado e presente.
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Na Sapucaí, o “Papa Negro” deixa de ser apenas fantasia para se tornar símbolo de resistência cultural e reafirmação identitária — eco de um samba que nasceu nos terreiros e segue pulsando no coração do carnaval.