O terceiro dia de debates do Congresso Nacional de Escolas de Samba 2026 (CONASAMBA), realizado neste sábado (6), na Fábrica do Samba, em São Paulo (SP), foi marcado pela assinatura e celebração de um acordo de cooperação entre a FENASAMBA (Federação Nacional das Escolas de Samba) e a Federação Francesa do Carnaval Tropical de Paris. O painel internacional do congresso, mediado pelo ex-ministro dos Direitos Humanos Sílvio Almeida, já estava nos acréscimos quando Kaxito Ricardo Campos, presidente da FENASAMBA, subiu ao palco para fazer o anúncio e, em seguida, assinar, em conjunto com Teddy Lacroix, presidente da Federação Francesa do Carnaval Tropical de Paris, a formalização da proposta de acordo.
E o acordo é sobre o quê? O CARNAVALESCO registrou as bases do acordo em detalhes e ouviu as projeções do presidente da federação brasileira a respeito do projeto: “Estamos projetando para o Carnaval de São Paulo, em 2027, a vinda de uma delegação estimada em 650 pessoas oriundas da França, com o objetivo de conhecer a grandeza do carnaval brasileiro, participar das atividades culturais e formativas (…) e, se autorizada pelas instâncias do carnaval de São Paulo e pelas autoridades competentes, abrir simbolicamente os desfiles das escolas de samba de São Paulo”, revelou.
O reconhecimento internacional do carnaval brasileiro já é conhecido. A diferença é que, nos últimos anos, a FENASAMBA tem trabalhado na direção de estreitar institucionalmente as relações entre diferentes organizações carnavalescas ao redor do mundo. Essa cooperação mútua favorece a compreensão da dimensão cultural que o carnaval brasileiro representa, porque, segundo Kaxito, o carnaval é uma “escola viva, um território de formação e o grande centro de transmissão de saberes”.
Sobre o intercâmbio com a França, a FENASAMBA o considera estrategicamente fundamental: “Esse intercâmbio mostra que o carnaval é também um instrumento de integração internacional. Ele cria pontes entre culturas, aproxima instituições, fortalece o turismo cultural, valoriza a imagem do Brasil no exterior e abre novas possibilidades para artistas, jovens, comunidades e territórios. Quando o samba dialoga com o mundo, o Brasil se apresenta (…) como potência cultural, criativa e educativa”, disse o presidente.
A natureza grandiosa do projeto reforça e consolida o papel das escolas de samba como as principais embaixadoras da cultura brasileira no mundo. Para a FENASAMBA, o acordo supera um mero compromisso formal, porque propõe mostrar ao Brasil e ao mundo que “o carnaval é, sim, um polo de conhecimento, saberes, integração, desenvolvimento e paz”.
Acompanhado dos convidados que compuseram o painel internacional do CONASAMBA 2026, formado por representantes da Colômbia, França, Gana e Uruguai, ele reforçou os agradecimentos à delegação internacional presente no congresso. Nitidamente satisfeito com o resultado do encontro, Kaxito fez questão de enaltecer a importância desse movimento cooperativo: “Eu quero incluir todos vocês (…), estamos dando um passo muito grande para a criação de uma grande rede internacional do carnaval”, finalizou.
Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Belém, Macapá, Natal, Porto Velho, Brasília e Rio de Janeiro oficializaram suas candidaturas para sediar o CONASAMBA 2027 – Congresso Nacional das Escolas de Samba, principal fórum de discussão, capacitação e desenvolvimento do carnaval brasileiro.
As manifestações de interesse foram apresentadas durante a mesa de encerramento do CONASAMBA 2026, onde ocorreu a plenária nacional das ligas filiadas à FENASAMBA, e evidenciam o fortalecimento do evento como uma das mais importantes plataformas de articulação institucional, econômica e cultural do país. A crescente disputa pela sede reflete o reconhecimento do congresso como um instrumento estratégico para o desenvolvimento do setor carnavalesco e da economia criativa nos estados brasileiros.
Promovido pela Federação Nacional das Escolas de Samba (FENASAMBA), o CONASAMBA reúne anualmente dirigentes de ligas e escolas de samba, gestores públicos, pesquisadores, profissionais do carnaval, comunicadores e representantes da cadeia produtiva da cultura, consolidando-se como o maior encontro do segmento no Brasil.
Com a apresentação do interesse em sediar a 9ª edição do maior congresso de carnaval do país, os presidentes das ligas filiadas à FENASAMBA irão formalizar as cartas de intenção, e as entidades candidatas iniciam agora uma nova fase do processo seletivo. Cada liga deverá apresentar um projeto técnico detalhado contendo informações sobre infraestrutura, rede hoteleira, mobilidade urbana, equipamentos culturais, capacidade de atendimento aos participantes e propostas de legado para o carnaval local e nacional.
Para a diretora do Departamento de Projetos da FENASAMBA, Alinne Limma, o elevado número de candidaturas demonstra o protagonismo alcançado pelo congresso nos últimos anos.
“Receber o interesse de nove importantes cidades brasileiras confirma a relevância que o CONASAMBA conquistou no cenário cultural nacional. O congresso deixou de ser apenas um espaço de encontros e debates para se tornar uma ferramenta efetiva de desenvolvimento, geração de oportunidades e fortalecimento institucional das escolas de samba em todo o país. A partir de agora, inicia-se uma etapa técnica e estratégica, na qual cada liga deverá apresentar seu projeto de candidatura. Nossa missão será avaliar cuidadosamente cada proposta para identificar aquela que melhor atenda às necessidades do congresso e que apresente condições de ampliar ainda mais o alcance e o legado do CONASAMBA para o carnaval brasileiro.”
A escolha da cidade-sede levará em consideração critérios técnicos, operacionais e institucionais, além da capacidade de realização de um evento que, a cada edição, amplia sua representatividade nacional e seu impacto no setor cultural.
A definição da sede do CONASAMBA 2027 será anunciada pela FENASAMBA após a conclusão do processo de avaliação das propostas apresentadas pelas entidades candidatas.
Mais do que um congresso, o CONASAMBA se consolida como um espaço de construção de políticas, intercâmbio de conhecimento e fortalecimento da maior manifestação cultural popular do Brasil: o carnaval.
A paixão pelo carnaval ganhará novos contornos neste mês de junho. Inspirada no clima das grandes competições esportivas, a Liga Independente dos Acervos e Jurídicos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIAJERJ), em parceria com torcedores e pesquisadores do samba, promoverá a 1ª Copa do Samba, uma disputa inédita que colocará frente a frente alguns dos mais marcantes desfiles da história das agremiações cariocas.
A competição será realizada entre os dias 11 e 27 de junho e contará com representantes de 14 tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro. Em formato mata-mata, os confrontos serão definidos por sorteio e terão seus vencedores escolhidos por meio de votação popular.
Na Copa do Samba, a Marquês de Sapucaí assume o papel de arena principal. Os grandes desfiles entram em campo para defender as cores de suas escolas em duelos que prometem mobilizar apaixonados pelo carnaval de diferentes gerações. A cada fase, caberá ao público decidir quais apresentações históricas avançam rumo ao título.
Cada escola será representada por seus respectivos Acervos e Jurídicos, responsáveis por selecionar os desfiles que disputarão a competição. O objetivo é promover uma verdadeira viagem pela memória do carnaval, revisitando momentos que marcaram época na Avenida.
A iniciativa nasce do trabalho desenvolvido pela LIAJERJ, entidade formada por páginas, perfis e projetos independentes dedicados à preservação da história e da cultura das escolas de samba nas redes sociais. Embora não represente oficialmente as agremiações participantes, a liga reúne administradores de páginas, pesquisadores, colecionadores e apaixonados pelo carnaval que atuam na valorização dos legados construídos ao longo das décadas.
Mais do que definir um campeão simbólico, a Copa do Samba tem como proposta estimular o debate sobre desfiles históricos, aproximar os torcedores da trajetória de suas escolas e reforçar a importância da preservação da memória carnavalesca.
A competição também destaca o papel dos acervos e jurídicos independentes, que se consolidaram como importantes guardiões da história do samba, preservando fotografias, documentos, registros audiovisuais e informações fundamentais para a construção da memória do carnaval carioca.
O cronograma do torneio já está definido. O sorteio dos confrontos foi realizado no último dia 4 de junho. A primeira fase acontecerá nos dias 11 e 13 de junho. As quartas de final serão disputadas nos dias 17 e 19 de junho, enquanto as semifinais estão marcadas para 23 de junho. A disputa pelo terceiro lugar ocorrerá em 26 de junho, e a grande final será realizada no dia 27, encerrando um mês inteiramente dedicado à celebração da história dos desfiles das escolas de samba.
Os interessados em acompanhar os confrontos, resultados, chaveamento e votações poderão acessar o perfil oficial da LIAJERJ no Instagram, @liajerj.
Ao final da competição, uma escola será consagrada campeã da primeira edição da Copa do Samba. Mais do que levantar um troféu simbólico, a vencedora representará a força da memória carnavalesca e da paixão que une gerações de torcedores. Afinal, no carnaval, a história também entra em campo.
O Paraíso do Tuiuti retoma nesta terça-feira, a partir das 20h, o projeto “Aos passos do Paraíso”, coordenado por Alex Coutinho e Jorge Amarelloh. A iniciativa oferece aulas de samba no pé para crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Os candidatos serão divididos em duas turmas: uma infantil; a outra, para adultos. De acordo com os idealizadores do projeto, não há um limite máximo de idade para os interessados.
Todas as aulas ocorrerão às terças-feiras, sempre a partir das 20h, na quadra do Tuiuti, no bairro de São Cristóvão. Para a inscrição, é preciso levar uma foto 3×4, cópia do RG, CPF (para quem tiver) e comprovante de residência. Para menores de idade, levar uma foto 3×4, cópia do RG ou certidão de nascimento, comprovante de residência, declaração escolar, e cópia do RG e CPF do responsável. A taxa de matrícula será de R$ 80.
Os organizadores do projeto pedem que os alunos usem roupa de ginástica preta e tênis.
Serviço
Data: Toda terça, a partir do dia 09 de junho
Horário: 20h
Local: quadra do Tuiuti – Campo de São Cristóvão, 33, bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio.
“Se o povo te impressionar demais
É porque são de lá os teus ancestrais
Pode crer no axé dos teus ancestrais”
“Sou filha da Angola
Sou neta da Bahia
Sou cria da poesia
Que vem das ondas do mar”
“Gente que lutou pra se libertar
Ver no amanhã novo Sol chegar
Ter que trabalhar, reconstruir
Bom futuro há de vir
Eu vi Luanda, Benguela, Lobito e outras mais
Na Catumbela, o samba jorrou, me deu sinais
Que naquela terra cantaram, sambaram meus avós”
Em 12 de maio de 1980, 64 artistas brasileiros deixaram o Rio de Janeiro para cruzar o Atlântico. O destino? Angola, país africano recém-liberto das garras do colonialismo português. Assim como o Brasil, esse povo se empenhou em superar a violência da colonização para estabelecer uma ideologia da cultura nacional angolana. A turnê político-artístico-musical pelas cidades de Luanda, Benguela e Lobito levou na bagagem uma sofisticada diversidade musical em intercâmbio com as expressões locais de saberes, culturas, danças e músicas. Intercâmbio este que existia antes, existiu durante a viagem e sempre vai existir entre as duas nações. Dos cerca de 4,5 milhões de homens, mulheres e crianças pretas escravizadas através dos séculos XVI e XIX, calcula-se que cerca de 3 milhões sejam de origem bantu, da região da atual Angola.
Nessa caravana designada PROJETO KALUNGA estavam netos e bisnetos de escravizados. Eram, portanto, artistas africanos em diáspora que ao adentrar o solo africano criaram obras musicais populares brasileiras e angolanas para além dos limites do território nacional. A expedição foi um novo capítulo nas relações Brasil/África ao realizar a travessia no sentido inverso: se outrora seus antepassados cruzaram o mar acorrentados, agora eles retornaram livres para celebrar a independência de Angola. Foi um encontro entre povos com raízes culturais que se atravessam de uma forma indissociável, incontrolável e encantada.
Esta jornada tornou Martinho da Vila carinhosamente conhecido pela população angolana como embaixador, fez João Nogueira se emocionar como criança ao pisar em Mussulo, causou em Dorival Caymmi suspiros ao chegar àquela ilha e se imaginar na “sua Bahia”, gerou experiências espirituais em Dona Ivone Lara ao admirar o mar angolano, fez Djavan encontrar sua identidade musical e Chico Buarque compor “Morena de Angola” e mais, muito mais. A kalunga grande não matou a ancestralidade, ao contrário, a fez resistir e se reinventar como festa e alegria de ser, viver e pertencer. Hoje, quase 50 anos depois do Projeto, este marco histórico entre Brasil e Angola desembarca em um porto que se enche de orgulho em poder homenagear o feito tão simbólico para as culturas brasileira e angolana: o Porto da Pedra.
Sejam bem-vindos de volta.
Eu sou a Angola que assenta no teu mutuê. O mar assistiu em segredo a sua partida sem despedida, mas o agora não mora nas dores do Atlântiko, habita no retorno. Sou Porto-Terreiro, feito que arde como jindungo. Sou barro e terra onde nossos ancestrais ainda escutam o rugir do Tigre no bailar do vento. Símbolo este que te convida de volta.
Mas não venha como estrangeiro!
Pise como quem nunca partiu: peça licença, pise descalço, bata cabeça. Cante e dance as nossas músicas; reverencie nossos heróis; coma a nossa comida com as mãos, sinta o gosto dos dedos. O tambor te chama pelo nome! Deixe-me ver nossos deuses no teu corpo. Sussurre ao sagrado o segredo dos teus ancestrais.
Bem-vindos de volta.
Mesmo com o corpo tomado em luta nesses últimos anos, me refiz nas feridas e cobri cicatrizes para conhecer o que fez com as sementes que eu te dei. Sei que plantou em morros, cortejos, palcos, ruas, sambas e sembas. A arte popular que de longe me vi estar. Trago comigo novas sementes plantadas em Luanda, Benguela e Lobito, território livre de onde vi brotar a cultura do povo.
Volte e pegue.
Não esqueça de mim, pois nunca te esqueci. Para andar para frente, não deixe de olhar para trás. Resgate a sabedoria e as raízes do meu passado que brotam em seu legado. Vejo meus galhos no folclore alagoano de Djavan; na Morena de Angola de Clara e Chico; na negra-Bahia de Caymmi; no colo materno africano embalado na Madureira de Dona Ivone; na Ilha de Mussulo de João Nogueira “teve gente que chorou”; “Mas se teu povo te impressionar demais,” Martinho, “Pode crer no Axé do Seus Ancestrais” e faz dessa kizomba a constituição dessa nação Brasingola, fruto do embondeiro que perpetua nossos laços.
Texto e Pesquisa Alex Carvalho, Beatriz Chaves, Caio Cidrini e Thainá Santos
GLOSSÁRIO
Kalunga: “mar”, “oceano”, grandes massas de água em quimbundo
•Luanda, Benguela e Lobito: cidades angolanas
•Mussulo: península de praias de areia branca e águas calmas ao sul de Luanda
•Mutuê: “cabeça” em quimbundo e um termo central nas religiões de matriz africana
•Atlântiko: grafia estilizada de oceano no qual trocamos o “c” pelo “k” de Kalunga
•Jindungo: nome dado em Angola a uma variedade de pimenta malagueta
Kizomba: termo do quimbundo que significa festa e divertimento
•Brasingola: termo que une Brasil e Angola de forma indissociável
•Embondeiro: nome angolano para o baobá, árvore símbolo de resistência,
ancestralidade, força e sabedoria
REFERÊNCIAS
BARRETO, Mariana. O Projeto Kalunga: os significados das produções musicais populares brasileira e angolana para além dos limites do território nacional. In: Congresso Brasileiro de Sociologia, n. 18, p. 26-29. Brasília (DF), 2017.
BARRETO, Mariana. Músicas populares e as fronteiras atlânticas da turnê Projeto Kalunga em Angola. In: O Público e o Privado, n. 46, p. 78–102. Fortaleza, 2024.
CASTRO, Maurício Barros de. Diário do Projeto Kalunga: memórias e narrativas de uma missão de músicos brasileiros na Guerra Civil de Angola. Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, n. 1, p. 115-126. Rio de Janeiro, 2016.
VILA, Martinho da. Kizombas, Andanças e Festanças. 1. ed. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992.
ENREDO EM HOMENAGEM A Bahia, Bolinho, Café, Caldeira, Chico Batera, Chico Buarque, Clara Nunes, Cristina Buarque, Danilo Caymmi, Djavan, Dona Ivone Lara, Dorival Caymmi, Dulce Tupy, Edu Lobo, Elba Ramalho, Fernando Faro, Fernando Mansur, Filipe Mukenga, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Grupo Nosso Samba, Iolanda Huzak, João do Vale, João Nogueira, Lelé, Lessa, Maria do Carmo Buarque de Holanda, Marieta Severo, Martinho da Vila, Miúcha, Novelli, Olívia Hime, Paulinho Sauer, Quinteto Violado, Roberto Ângelo, Rui Mingas, Ruy Faria, Ruy Guerra, Tânia Quaresma, Waldemar Bastos, Wanda Sá, Wellington Lima, Zé Luiz e tantos outros filhos e filhas da diáspora, artistas das travessias. Aos que vieram antes e depois. Aos que se encantaram e aos que persistem. Aos brasileiros e aos angolanos. Aos brasingolanos
O último domingo viveu a primeira final de samba-enredo de São Paulo para o Carnaval 2027. A Estrela do Terceiro Milênio fez a final da eliminatória e consagrou a obra composta por Jorge Diego, Rafa Cria, Ayr Júnior, Rapha Moreira, Willian Tadeu, Mário Presidente, André Ricardo, Rubens Gordinho, Rodolfo Minuetto e Rodrigo Minuetto para o enredo “Incrível, Fantástico, Extraordinário!”, assinado pelo carnavalesco Paulo Barros. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou uma série de personagens importantes não apenas para a concepção do samba-enredo, mas para o projeto da Estrela do Terceiro Milênio.
Exaltação e churrasco
Fotos: Pedro Ribeiro e Will Ferreira/CARNAVALESCO
Perguntados sobre como foi o processo criativo para compor o samba, Rodrigo Minuetto fez questão de elogiar o carnavalesco responsável pelo enredo: “Primeiro que o Paulo Barros é um gênio. Ele é fantástico. Ele que é o incrível e o extraordinário. Ele deu uma sinopse que é só pegar e botar a melodia. É fácil. E, aí, você vê o resultado do samba: uma disputa maravilhosa com um nível altíssimo dos sambas concorrentes. Nós nos consagramos campeões, mas foi uma disputa bem sadia, bem acirrada. Está aí o resultado, ou melhor, o início desse projeto. Agora, vamos continuar, e tomara que a comunidade abrace mais e mais o samba”, disse.
A obra, de acordo com ele próprio, foi construída de maneira bastante tradicional: “Reunião, churrasco… teve de tudo! Nós somos do modo tradicional: samba-enredo não dá para fazer por WhatsApp. Claro que a gente respeita as outras parcerias que fazem, mas tem que ter a magia, tem que ter esse tête-à-tête, esse pensamento, um olhar para a cara do outro e falar algo. Surge uma ideia, a gente discute e, no final, a gente sai sempre muito feliz”, comemorou.
Em tom de brincadeira, Jorge Diego, outro dos compositores, complementou: “Foram doze reuniões e dezessete churrascos”, brincou.
Ayr Junior apelou para a emoção ao falar da obra: “Deu até vontade de chorar com essa parceria. Primeira vez que nós estamos fazendo samba juntos e já chegamos com a vitória. Muito obrigado a todos, de coração. Deu um gás para nós! A gente queria parar de fazer samba e nós estamos aqui, com a rapaziada, firme e forte. Mais uma vez, foi a prova de que o amor vence sempre. Eu amei esses caras desde o primeiro dia. E o amor sempre vai vencer. A música vai vencer. A música vai transformar a gente todos os dias da nossa vida”, suspirou.
Quando a reportagem perguntou qual era a parte favorita de cada um deles, tal qual uma transmissão instantânea de pensamento, todos começaram a cantar o refrão principal da obra: “É incrível voar com você/Só quem é Milênio consegue entender/Fantástico/Extraordinário é sonhar/A nossa Estrela vai brilhar!”, declamaram.
A parceria encabeçada pelos gêmeos Rodrigo e Rodolfo Minuetto ganhou pela segunda vez o concurso da Estrela do Terceiro Milênio, a primeira delas aconteceu em 2025, em que Willian Tadeu também foi vencedor. Outros nomes importantes do grupo, como André Ricardo e Rubens Gordinho, estrearam neste ano na parceria.
A primeira canção apresentada na final foi justamente o vencedor, na eliminatória, inscrito como Samba 1000, que novamente contou com uma grande torcida e fez valer o explosivo refrão. O segundo a se apresentar, o Samba 99, que buscou mesclar partes fáceis de se cantar (como os versos antes do refrão de cabeça), teve boa adesão de um grupo de chefe de alas, que estavam cantando e evoluindo próximo da torcida contratada. Já o Samba 01, último a se apresentar, era o mais melódico, focando na poesia e na reflexão que o enredo propõe, com boa adesão das baianas, que acompanharam a apresentação e evoluíram bastante durante a execução da canção.
Panorama musical completo
Desde 2019 na Estrela do Terceiro Milênio, mestre Vitor Velloso mostra maturidade ao falar das mudanças pelas quais a escola tem passado. Uma dessas transformações é ver Raquel Tobias, que estava no carro de som da Coruja, assumir um dos microfones principais da agremiação: “A Raquel é uma querida! Já está aqui há muito tempo na escola, a gente já trabalha há um bom tempo. Todo mundo está muito feliz por ela ter chegado até aqui, pela conquista de ser nomeada como intérprete oficial da escola ao lado do Darlan. Como eu falei, o convívio é muito bom já há muito tempo. Não tem muito segredo. Agora, com ela participando de mais reuniões, a gente já tem um convívio bacana e se fala ainda mais Vai dar certo, com toda a certeza”, comemorou.
O ritmista-mor da escola garantiu que, em tempos de eliminatória de samba-enredo, costuma ficar mais avesso a contatos com os compositores: “O processo de escola de samba é sempre bem complicado. Ainda mais para mim, que também fiz parte do júri. A gente sempre tem que dar uma afastada da rapaziada, evitar ficar conversando muito – porque sempre tem alguma situação. A safra esse ano foi bem bacana, vieram alguns novos compositores que não tinham feito samba aqui ainda na escola e vieram participar nesse ano. Foram oito sambas e o processo é sempre complicadinho para escolher: tinha bastante obra legal que poderia ir. O Rodrigo Shumacker, que é o Diretor Musical da casa, ganhou em 2026 e, nessa final, não foi o samba dele. Os Gêmeos, que ganharam em 2025, ganharam novamente Tomara que a galera volte para fazer sambas em 2028 também”, convidou.
Por fim, mestre Vitor preferiu não dar spoiler sobre como virão os ritmistas na avenida: “Quando sai o enredo e quando a gente fica sabendo qual que é a nossa fantasia, a gente sempre começa a dar uma pesquisada em algumas coisas. A gente já está com alguns pensamentos e a gente, na verdade, estava esperando sair o samba. Agora, que saiu o samba, a gente vai começar a trabalhar em cima disso para poder encaixar nossas ideias dentro da melodia. Vão ter vai ter algumas surpresas aí, sim”, disse.
Trabalho adiantado
A direção de carnaval da Estrela do Terceiro Milênio, composta por Wilson Costa, popularmente conhecido como Japa, e Vinícius Freitas, destacou o motivo pelo qual a agremiação começou a realizar eventos ainda no sexto mês do ano: “Trabalhar nesse novo projeto com um novo carnavalesco é uma entrega de cem por cento em relação a tudo que esses artistas criam para na nossa escola. Para a gente, é um privilégio enorme trabalhar com mais um artista grandioso como o Paulo Barros. Tenho certeza que a comunidade e a nossa direção estão abraçando da melhor forma possível esse projeto, e, com certeza, no que depender da nossa equipe, esse projeto será um sucesso”, comentou Vinícius.
Alinhado com a dupla, Japa também citou outros quesitos: “A Terceiro Milênio começou um pouco cedo porque a gente teve essa troca de carnavalesco. O Paulo Barros já chegou apresentando um enredo para nós. Em reunião com toda a nossa diretoria, a gente decidiu antecipar tudo. Hoje, em pleno começo de junho, já estamos com o nosso samba para poder começar mais cedo o trabalho com a nossa comunidade de Harmonia e de Evolução. A gente acredita que o trabalho que a gente vem fazendo em todo o processo, desde quando nós iniciamos, vai dar tudo certo e a gente vai colher bons frutos”, prometeu.
Vinícius, pouco depois, falou sobre o exemplo e sobre a união da comunidade em prol do que está sendo preparado pela escola: “Além desse lado profissional, além do trabalho, a gente costuma falar que começamos cedo. Isso é muito benéfico, é um ponto positivo para o nosso trabalho, de Evolução e de Harmonia. Dessa maneira, a gente fala para a nossa comunidade que a gente não vai aceitar ninguém trabalhando mais que a gente no Carnaval. Lógico, sempre respeitando todas as coirmãs, mas a gente não vai aceitar ninguém trabalhando mais que a gente. Tem outro lado que a gente pensa em relação a uma escola de samba: as pessoas têm que frequentar o ano inteiro a quadra, tem que ser um prazer além de trabalho. Isso está nos ajudando também na escolha do samba mais cedo, para que as pessoas possam usufruir e desfrutar da quadra da escola”, comentou.
O ciclo do Carnaval de 2026 foi utilizado por Japa para falar sobre a antecipação das datas da escola: “Ter o seu samba antecipado é maravilhoso, porque você consegue trabalhar mais a sua comunidade. O carnaval vai ser no começo de fevereiro e, no ano passado, nós escolhemos o samba em setembro. A gente perdeu quase dois ou três meses de ensaios com a nossa comunidade. Lógico que a gente já vem fazendo um trabalho junto com a nossa comunidade antes da escolha do samba – mas, para nós, iniciar esse trabalho com o samba vai ser maravilhoso. A gente vai conseguir fazer com que a comunidade cante e consiga pegar o samba mais rápido e consiga fazer essa evolução com o samba mais rápido. A gente vai conseguir, com certeza, fazer um grande trabalho”, relembrou.
Tradições mantidas
Presidente da agremiação, Gilberto Rodrigues, popularmente conhecido como Giba, contou como são feitas as votações para definir o samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio: “Nos trancamos na salinha e são onze votos. Toda a nossa diretoria executiva tem direito a voto e eu deixo o pau quebrar. Se for necessário, caso tenha um empate, o último voto é o meu. Mas, nos últimos anos, a gente vem em um consenso. Não me lembro de ter tido algum tipo de problema, de ter que desempatar. Sempre a maioria, quando a gente senta, já tem o voto. O processo é esse, é muito simples. A gente já vinha analisando esses três sambas há alguns dias, conversamos bastante e ouvimos o povo, eles deram o Norte para a gente e a gente leva muito em conta a comunidade. Agora, é completar com esse grande projeto de Carnaval que nós temos para 2027”, explicou.
Paulo Barros é conhecido por não ser muito fã de apresentar as fantasias com antecedência para a comunidade, mas Giba deixou claro que a Milênio seguirá com o evento já tradicional na Coruja: “Nós vamos seguir a nossa tradição de fazer Festa de Protótipos. A nossa comunidade pede isso. Nós vamos fazer uma grande Festa de Pilotos. Estamos só ajustando o nosso calendário. Eu imagino que, no final de julho, no começo de agosto, no máximo na segunda quinzena de agosto, a gente deve estar fazendo essa grande festa. Todo mundo está muito ansioso por esse grande projeto”, anunciou.
Por fim, o mandatário contou como foi o processo para convidar Raquel Tobias para ser uma das intérpretes principais da agremiação: “Foi muito tranquilo chamar a Raquel para ser intérprete oficial. Ela já está com a gente há sete carnavais, salvo engano, e, pouco depois de quando eu saí da presidência da escola, tive uma conversa informal com ela e disse que a hora dela iria chegar. Ela olhou pra mim e perguntou se eu esperaria. Retornei à presidência da escola e, quando decidimos pela saída da Grazzi, foi o primeiro nome que me veio na minha cabeça, a primeira pessoa que me veio na minha mente. Logo que eu falei o nome, foi unânime. Todo mundo olhou pra mim e falou que era ela. Quando eu fiz o convite, ela lembrou exatamente daquele papo anterior que tivemos. Ela se emocionou e lembrou exatamente das palavras. Chegou a hora dela agora. Já está cantando na noite há muito tempo, já tem uma carneira consolidada, já vem buscando o espaço dela… é muitíssimo merecido e é cria da casa, é da comunidade. Eu prezo muito por isso, por dar oportunidade para quem é da casa. E eu não tenho dúvida nenhuma que ela vai realizar um grande trabalho”, comentou.
Cantores alinhados
Novos parceiros no comando do carro de som da Estrela do Terceiro Milênio, Raquel Tobias e Darlan Alves tiveram discursos bastante próximos ao falar com a reportagem. A cantora não deixou de falar sobre o sentimento por chegar a tal posto: “Para mim é emocionante! Estou na Ala Musical faz sete anos, enquanto a Grazzi Brasil estava na escola. Para mim, é muito importante. Estou nesse mundo e nessa ancestralidade para deixar legado. É muito emocionante a escola ter escolhido outra mulher para representar. Já fiz outros carnavais em Minas Gerais, alguns da UESP como Ala Musical, estou nessa carreira há quinze anos e, para mim, é uma responsabilidade e uma gigante alegria estar aqui. É uma emoção defender o pavilhão, eu sempre defendi como Ala Musical e eu vou defender com unhas, dentes e com a minha alma a Terceiro Milênio”, comentou.
Darlan elogiou o olhar para a própria comunidade ao nomear Raquel para o posto: “Foi um processo feito pela direção da escola. Depois que a escola tem uma habitual preferência por dois intérpretes, pensamos em quem trazer. Foi ótimo ver essa valorização de alguém da casa, alguém que já estava aqui. A Raquel já está há muito tempo na Terceira Milênio, salvo engano ela tem dez anos aqui como minha parceira de time de canto. A Milênio, o Silvão e o presidente Giba dão muito valor para valorizar as pessoas do Grajaú e da escola. Eles têm muito essa visão de, sempre que possível, buscar alguém daqui do Grajaú. É muito bacana ver isso e é mais uma grande cantora do nosso Carnaval. Tenho certeza que ela vai arrebentar. A gente está bem feliz com essa chegada dela ao microfone, ainda há pouco estava ajustando o grito, como que ia ser, tudo sendo lapidando para o início da sua carreira como intérprete de samba-enredo. Ela já tem uma carreira consolidada fora do Carnaval – e com certeza vai ter sucesso aqui também”, comemorou.
Raquel relembrou outras intérpretes femininas marcantes do Carnaval paulistano: “Tem mulheres que são intérpretes e que já desceram sozinhas – como a Grazzi Brasil, como a Samantha Santos no Águia de Ouro, Bernardete, Eliana de Lima. Casar junto com uma voz masculina dá aquele molho, também. É bacana essa junção, porque vem essa potência de voz de homens e também de mulheres bem potentes, também. Gosto muito desse casamento de vozes. Eu e o Darlan conversamos muito, é tudo falado, tudo é conversado, tem que ficar um pelo outro: está todo mundo no mesmo nível. As mulheres estão na linha de frente!”, exaltou.
Já Darlan destacou a afinação não apenas nos microfones, mas também no trabalho com a nova parceira de profissão: “A escolha de samba-enredo define muito o trabalho durante o ano. Cantar com intérprete de voz feminina não tem o problema de casar ou se não vai, porque a gente sempre encontra um meio termo para que fique à vontade para os cantores. Geralmente, tecnicamente falando, as cantoras atingem umas extensões vocais muito mais agudas, muito mais altas do que os homens. Mas, geralmente, os sambas-enredos são feitos num tom que, na maioria das vezes, são para vozes masculinas. Isso, muitas vezes, dificulta para as cantoras. A gente ajusta, sobe mais uma nota ou um tom: entramos no meio-termo e está tudo certo”, destacou.
A Colorado do Brás realizou um grande evento em seu novo espaço, localizado na Arena Canindé, em parceria com a Portuguesa de Desportos. Batizada de “Arraiá do Brás”, a festa marcou a celebração junina da escola, com comidas típicas, atrações musicais e apresentações de quadrilhas ao longo da tarde. À noite, foi a vez da bateria e da ala musical assumirem o protagonismo da festa. O intérprete Léo do Cavaco apresentou sambas que marcaram a trajetória da agremiação e, na sequência, teve início o lançamento oficial do enredo para o Carnaval 2027. A apresentação contou com uma encenação criativa, conduzida pela coreógrafa da comissão de frente, Paula Gasparini. Em um cenário inspirado na cultura nordestina, o espetáculo foi encerrado com a revelação de um banner contendo a logomarca do tema “O Homem que Desafiou o Diabo: Ojuara”, desenvolvido pelo carnavalesco David Eslavick. O CARNAVALESCO conversou com David Eslavick, responsável pela concepção e pelo desenvolvimento do enredo da escola para o próximo carnaval.
Tema de superação
De acordo com o artista, trata-se de um enredo profundamente brasileiro, que tem em Ojuara um personagem capaz de transmitir mensagens de superação e autoconhecimento.
“É um enredo que, para mim, é muito brasileiro, porque dialoga com o povo nordestino e transmite uma mensagem extremamente positiva de autoconhecimento. A partir do momento em que a pessoa passa a acreditar em si mesma, ela consegue vencer seus medos e chegar onde quiser, superando qualquer tipo de dificuldade. Esse enredo vem para mostrar que todos aqueles que são oprimidos ou enfrentam situações complicadas na vida podem conquistar aquilo que desejam se acreditarem em si. Ojuara sonha em chegar a um lugar de fartura, onde as pedras são de rapadura e o leite corre em rios como mel. É algo muito lúdico, bonito e genuinamente brasileiro. Será uma mensagem muito positiva, em um carnaval bonito e diferente, assim como foi no ano passado. E acredito que conseguirei apresentar um carnaval ainda melhor”, disse.
Misturando o lúdico e o real
David Eslavick explicou que o desfile irá combinar elementos tradicionais da cultura nordestina com o universo fantástico proposto pela narrativa de Ojuara.
“Será uma mistura de situações, porque o enredo transita entre o imaginário e o real, sendo essencialmente lúdico. Vou trabalhar essa combinação entre os elementos nordestinos, o universo fantástico e manifestações como o xaxado. Costumo fugir do convencional e buscar formas diferentes de transmitir a mensagem por meio das fantasias e alegorias. Acredito que, quando você desenvolve um trabalho, as pessoas precisam conseguir identificar e compreender aquilo que está sendo apresentado. Caso contrário, algo não está funcionando da maneira ideal. Por isso, vou procurar mostrar o nosso enredo de forma clara e envolvente para o público”, declarou.
Tentativa de superar o próprio trabalho
A Colorado do Brás chamou a atenção no último carnaval pela força visual apresentada na avenida. Questionado sobre a expectativa de repetir ou até superar o nível do desfile de 2026, o carnavalesco preferiu evitar promessas, mas garantiu empenho máximo para entregar um espetáculo ainda mais grandioso.
“É muito difícil fazer promessas, porque isso pode elevar a expectativa das pessoas e, no fim, o resultado não corresponder ao que elas imaginavam. Mas vou me esforçar ao máximo para apresentar algo ainda melhor do que mostrei no ano passado. Sou suspeito para falar, mas adorei o carnaval que apresentei em 2026. Acho que o enredo da Bruxa foi incrível; se pudesse, eu o reeditaria. Este novo enredo também dialoga com o universo lúdico, de que gosto muito. Vou me dedicar ao máximo para superar o carnaval do ano passado”, afirmou.
Expectativa por um grande samba
Após dois anos, a Colorado do Brás voltará a realizar eliminatórias para a escolha de seu samba-enredo. Para David Eslavick, o modelo amplia as possibilidades criativas e pode resultar em uma obra ainda mais identificada com a proposta do desfile.
“Eu gosto desse formato porque me dá mais opções. No ano passado, como o samba foi encomendado, trabalhamos a partir de uma proposta específica. Desta vez, terei a oportunidade de explorar ideias e caminhos diferentes. Essa eliminatória será muito interessante, porque permite a apresentação de propostas inovadoras. Além disso, podemos chegar a um samba forte, com o qual as pessoas se identifiquem facilmente. É exatamente esse tipo de samba que está voltando à Colorado. O samba da Bruxa foi muito bom, mas tenho certeza de que o de Ojuara será ainda melhor”, concluiu.
A Feijoada da Torcida Jovem, realizada neste sábado na quadra da agremiação, na região do Aricanduva, Zona Leste de São Paulo, teve momentos bastante especiais. A posse do novo segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação, Marcos Guilherme e Madu Vasconcelos; o reencontro com a comunidade; e o lançamento do enredo para o Carnaval 2027. A agremiação terá como tema “Porto de Santos, O Mundo Se Encontra Aqui”, desenvolvido por uma Comissão de Carnaval – formada por Leonardo Santos (Bambu), Sérgio Roberto Nonato (China), André Vinícius (Deko), Evandro Guedes, Jefferson Silvano e Fernando Senattori (Raposa). Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou duas eminentes figuras da Torcida Jovem para saber mais sobre a escolha do maior porto da América Latina como enredo.
Associação óbvia
A Torcida Jovem é uma escola de samba oriunda da torcida organizada do Santos Futebol Clube – e que, mesmo acompanhando o clube da Baixada Santista, foi fundada em São Paulo. A cidade de Santos é conhecida mundialmente pelo porto, o maior da América Latina e do hemisfério Sul, de acordo com dados da Lloyd’s List – publicação que é referência do setor portuário.
Não precisa ser um gênio, portanto, para entender que o Porto de Santos é importante para toda a cidade e para todos que, de alguma maneira, estão ligados à Baixada Santista – algo que, naturalmente, acontece com a Torcida Jovem.
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
Evandro Guedes, integrante da Comissão de Carnaval e Diretor de Carnaval da escola, destrinchou os motivos da escolha de tal enredo: “A ideia é antiga e quase foi à prática em 2024, quando a gente subiu para o Grupo de Acesso I. Foi uma ideia que veio de um assessor do prefeito de Santos e não foi para frente. Diante das dificuldades que a gente tem para levar o Carnaval para a avenida, a gente voltou a se falar novamente em 2026, assim que acabou o Carnaval. Passou uma semana, ele já falou que um enredo sobre o Porto daria bom. O interessante é o porto fica na cidade de Santos, o time da Torcida Jovem é de Santos e a gente nunca procurou falar do porto. Dessa vez, surgiu a ideia de falar do Porto de Santos, um dos portos mais importantes do mundo e o maior da América Latina. Através desse enredo, tentamos arrumar uns patrocínios aí, uns contatos ali, algo que ajuda muito”, confessou.
Jefferson Silvano, presidente da Torcida Jovem, foi pela mesma linha: “Referente à escolha do enredo, já é uma vontade um pouco antiga nossa. A gente já vem há alguns anos falando que a gente gostaria de falar do porto. Nesse ano, a gente achou que era o momento correto, um momento bom para falar do Porto de Santos – que tem uma história muito rica, não só do Porto em si, mas a história de como tudo começou, da cidade de Santos e até do próprio Santos Futebol Clube. Tudo está envolvido. A gente acha que tem tudo para fazer um ótimo Carnaval, de grande qualidade, para colocar o desfile na avenida. Quem vem acompanhando os nossos últimos carnavais vê que a gente em um ano é campeão, no outro cai, depois é por um décimo perdendo o Carnaval. Estamos sempre fazendo carnavais bem competitivos, com muito respeito a todas as outras coirmãs. Na nossa visão, era o momento certo de encaixar esse tema para esse ano. Vocês podem ter certeza que a cada ano que passa é o Carnaval mais importante da história da Torcida Jovem. Todos vão se surpreender muito na avenida”.
Jé, como é popularmente conhecido o presidente, foi ainda além e revelou que a temática era desejo do grande nome da história da agremiação: “A gente já fala desse enredo há muitos anos, mesmo. Inclusive, quem falava isso era o nosso número um aqui da entidade, Cosmo Damião Freitas Cid, o fundador. Ele que é o culpado por tudo isso aqui! A gente já escutava muito ele falar que gostaria muito de falar do Porto de Santos. A gente ficou martelando vários anos, e mesmo depois do falecimento do seo Cosmo a gente sempre teve a vontade de fazer esse enredo. Agora, entendemos que esse ano é o ano para falar do porto – e, se Deus quiser, vamos fazer um grande Carnaval e a Torcida Jovem vai subir para o Grupo de Acesso I”, disse.
Fundador da TJ, seo Cosmo, falecido em setembro de 2023, foi homenageado logo no início do vídeo que apresentou o enredo na quadra da escola:
Cronologia respeitada
Antes da revelação do enredo, a comissão de frente da Torcida Jovem fez uma apresentação para facilitar o entendimento de todos. Um vídeo também antecedeu a aparição do logotipo da temática, e algumas dicas foram dadas por meio de tais momentos. Evandro foi didático a respeito de tudo que o enredo tratará: “A gente vai começar falando do porto antigo, por chegaram os imigrantes e pela exportação do café – que, na época, era o ouro do Brasil. A gente vai trabalhar do porto antigo até chegar no porto atual – já com os containers, os navios cargueiros, os navios de cruzeiro e etc. Também não tem como falar do Porto de Santos, que fica em Santos, sem falar do Santos Futebol Clube. A gente vai ter uma palhinha de Santos e do Pelé, a gente vai ter uma palinha de Iemanjá – que tem tudo a ver com a praia. A ideia é juntar tudo. A gente vai quebrar um pouco a cabeça, porque a gente já tem tudo em mente – mas sabe como é o Carnaval: vai chegando e vão surgindo novas ideias. O Porto de Santos está do lado, a gente está mais em Santos do que em São Paulo, e por isso vai ser fácil adquirir pesquisa para trabalhar melhor ainda – fora o que a gente já pesquisou, é claro”, disse.
Sem medo
Nos últimos anos, a Torcida Jovem notabilizou-se por sempre trazer temáticas que envolvem temas afro. Em 2023, a escola foi campeã do Grupo de Acesso I exaltando Iemanjá; em 2024, o Brasil Bantu foi a temática; e, em 2026, a cultura afro-baiana teve vez. A mudança aparentemente acentuada na direção de enredo da TJ, entretanto, não é algo que tira o sono de ninguém na escola: “Essa mudança no enredo não nos preocupa porque é uma transição boa! Querendo ou não, tem uma palhinha de Iemanjá muito bem elaborado – orixá que nos deu o tema para o título do Grupo de Acesso II em 2023, ela vai abençoar nosso enredo. É uma transição legal e diferente, porque a gente vem há carnavais seguidos vindo com enredos afros. A gente acaba sentindo o público: eu sei que o carnaval tem tudo a ver com afro, só que o povo que a gente conversa, não só o santista e o TJ, tem uma vontade de mudança. O pessoal que tem outra religião, que não seja candomblé ou umbanda, tem um certo receio de desfilar com a gente por conta disso. Mas nada que desabone o tema, é um tema bom, é um tema rico, é um tema que tem a ver com a Jovem. Agora é trabalhar até chegar o dia 30 de janeiro para estar nos trinques, pronto para ser campeão”, vislumbrou.
Participação
Jé fez questão de destacar que, na Torcida Jovem, comunidade de escola de samba e associados da torcida organizada não apenas se confundem como fazem parte do mesmo ideal – e isso começa por ele próprio: “Nós somos uma escola de samba oriunda de uma torcida organizada, por isso a gente tem essa responsabilidade tanto na arquibancada quanto na escola de samba. Eu sou um presidente que gosto de estar atuante nessas duas áreas. É extremamente importante até para você estimular o seu povo, incentivar, ter o seu povo do lado. É mais do que justo a gente dar esse exemplo de participação para a nossa comunidade, para a gente realmente ter uma comunidade aguerrida que abrace as nossas propostas. Todo mundo realmente está envolvido de cabeça e a gente fez as coisas acontecerem hoje e ao longo de todo esse tempo”, finalizou.
Este último sábado foi marcado por mais um dia de CONASAMBA, realizado pela primeira vez na cidade de São Paulo, na Fábrica do Samba. Mais uma vez, a organização da FENASAMBA promoveu debates e momentos de imersão voltados à troca de conhecimentos entre as diferentes praças carnavalescas. Desta vez, o CARNAVALESCO acompanhou de perto o Encontro Nacional dos Diretores e Diretoras de Harmonia. Mediado por Demis Roberto, o painel reuniu especialistas que compartilharam suas visões sobre a função, sobretudo os desafios de liderar uma equipe de harmonia e de lidar da maneira adequada com os componentes.
História de um diretor de harmonia
Lenda viva do carnaval paulistano e uma das maiores referências do quesito, Raimundo Mercadoria relembrou as dificuldades enfrentadas por quem desejava chegar ao cargo de diretor de harmonia.
“Para ser diretor de harmonia naqueles anos (e muitos aqui acompanharam esse período da história do Carnaval e das escolas de samba), era uma função muito ingrata. Pelo menos aqui em São Paulo, o diretor de harmonia precisava exercer várias funções. Primeiro, tinha que saber tocar todos os instrumentos da bateria. Também precisava saber cantar e, popularmente falando, ‘dar no pé’. Ou seja, todas as funções existentes em uma escola de samba. Na nossa época, ninguém se tornava diretor de harmonia de um dia para o outro, como acontece hoje. No mínimo, para chegar a esse cargo, era preciso começar lá embaixo e passar por todos os setores da escola. Você era ajudante de chefe de ala, depois chefe de ala; auxiliava a bateria, carregava instrumentos e ajudava a prepará-los. Naquele tempo, nem existiam as baquetas industrializadas. Nós mesmos as fabricávamos, utilizando bambu e madeira. Portanto, o diretor de harmonia precisava conhecer e vivenciar todas as funções da escola de samba. Era uma formação construída na prática, ao longo dos anos”, comentou.
Técnica para formar uma equipe de harmonia
Ao entrar em aspectos mais técnicos da função, Carlos Pires, popularmente conhecido como Carlão, explicou a importância de o diretor de harmonia conhecer profundamente os demais setores da escola e destacou como ocorre o processo de formação de novos integrantes da área.
“É importante tomar conhecimento do que aconteceu no passado para saber o que deve ser preservado e levado adiante. Essa é a primeira questão. A segunda é entender quem está transmitindo esse conhecimento e como ocorre esse processo de formação. É preciso explicar como funciona o trabalho dentro da escola, desde a construção do desfile até os quesitos de julgamento. O diretor de harmonia precisa conhecer tudo isso. Como você vai conversar com o mestre de bateria sobre algum problema técnico se não entende minimamente do assunto? A primeira reação será ele questionar sua autoridade para falar sobre aquilo. Formar um diretor de harmonia é um processo. Muitas vezes, as pessoas não querem passar por todas as etapas necessárias. Existe a questão da disciplina, da liderança e da capacidade de comandar uma equipe. O diretor de harmonia lidera um grupo, orienta pessoas e dá direcionamento ao trabalho.”
Carlão também comentou como avalia sua equipe. Segundo ele, a forma de comunicação e as aptidões individuais são determinantes para definir as funções de cada integrante.
“Particularmente, nos cursos de formação que realizo, promovemos encontros frequentes para discutir todos esses temas. Também ouvimos novas ideias e trazemos profissionais experientes, inclusive de outras escolas, para compartilhar conhecimento. Sempre enxerguei isso como uma troca. O principal é que a pessoa tenha interesse, amor pela escola e vontade de aprender. Com o tempo, ela se desenvolve e demonstra seu potencial. Também procuro identificar as habilidades de cada integrante da equipe. Alguns têm facilidade para se comunicar com a comunidade; outros entendem mais de barracão, fantasia ou organização. Ninguém domina tudo. Por isso, distribuímos responsabilidades de acordo com as competências de cada um. Quando você forma um grupo com diferentes qualidades, consegue atender a todas as áreas da escola. Afinal, ninguém consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo”, afirmou.
Empatia pelo componente
Diretor de harmonia da Dragões da Real, Rogério Félix abordou o lado humano da função e ressaltou que a missão da harmonia é servir à comunidade e proporcionar as melhores condições para que o componente tenha um bom desempenho no desfile.
“Para mim, a harmonia é a arte de servir. Se você não está disposto a servir ao próximo, esse não é o seu departamento. Servimos nossa comunidade durante o ano inteiro para que ela nos represente em um único dia: o desfile. Não há como cobrar das pessoas algo que você mesmo não faz. Harmonia é liderança, não chefia. A liderança se constrói pelo exemplo. Não adianta falar e não fazer. As pessoas se espelham nas suas atitudes. Se você limpa o chão da quadra, independentemente do cargo que ocupa, mostra que é apenas mais um trabalhador daquela comunidade. Eu uso o mesmo uniforme da minha equipe porque não sou maior do que ninguém. Somos todos iguais no dia a dia e no trabalho”, afirmou.
Ainda dentro desse aspecto, Félix destacou que os diretores de harmonia da nova geração precisam buscar conhecimento sobre liderança, empatia e comportamento humano, especialmente diante do aumento das demandas relacionadas à saúde mental.
“Quando me perguntam como escolho um diretor de harmonia ou um integrante da equipe, a resposta é simples: pela paixão. Se a pessoa é apaixonada pela escola, ela pode aprender o restante. Eu não meço o tamanho de uma escola de samba pelos seus recursos, mas pela quantidade de pessoas apaixonadas que ela possui. São essas pessoas que fazem carros alegóricos, costuram fantasias, reaproveitam materiais e transformam sonhos em realidade. Além disso, o diretor de harmonia da nova geração precisa estudar liderança, perfil comportamental e empatia. Cada vez mais convivemos com pessoas que enfrentam dificuldades emocionais e desafios de saúde mental. É preciso compreender o componente, ouvir suas necessidades e saber acolhê-lo”, declarou.
Importância de conhecer o quesito e da uniformização adequada
Representante do carnaval capixaba, Wesley Dedanai enfatizou a necessidade de diferenciar os quesitos Harmonia e Evolução, que ainda são frequentemente confundidos dentro das escolas de samba. Ele também detalhou o papel desempenhado pelas equipes ao longo da preparação para o desfile.
“Temos tomado bastante cuidado para deixar claro que harmonia e evolução são quesitos diferentes. Muitas pessoas ainda confundem os dois. A harmonia está diretamente ligada ao canto da escola. Harmonia e evolução são responsáveis pela condução dos ensaios de quadra, dos ensaios técnicos e de todo o processo de preparação para o desfile. Também procuramos superar uma visão antiga do diretor de harmonia como alguém de postura fechada ou autoritária. Liderança não tem relação com arrogância. Trabalhamos com pessoas que frequentam a quadra por amor à escola. Muitas vezes, elas vão ao ensaio apenas para receber um aperto de mão ou um abraço e sentir que fazem parte daquele projeto”, disse.
Dedanai também ressaltou a importância da uniformização das equipes, tanto pela organização quanto pela identificação visual da liderança dentro da escola.
“A uniformização também é importante. O diretor de harmonia é uma referência visual dentro da escola. Quando alguém precisa de orientação, sabe exatamente a quem recorrer. Além disso, o diretor representa o pavilhão, que é o maior símbolo da escola de samba. Costumamos dizer que a escola de samba é um importante equipamento sociocultural. Ela transforma vidas, especialmente em territórios de maior vulnerabilidade social. A cultura abre oportunidades e oferece novos caminhos. O Carnaval é uma das maiores manifestações culturais do planeta. Por isso, quem veste as cores de uma escola e representa sua comunidade precisa compreender a responsabilidade que carrega ao defender esse patrimônio cultural”, ressaltou.