Um desfile muito bom da bateria “Não Existe Mais Quente” (NEMQ) da Mocidade, comandada por mestre Dudu. Uma boa conjunção sonora foi apresentada, permitida graças ao equilíbrio entre os naipes e ao andamento confortável adotado. Um leque de paradinhas de muito encaixe musical forneceu inúmeras possibilidades sonoras, além de boas execuções.

Uma bateria NEMQ com sua autêntica afinação invertida de surdos foi notada. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com firmeza e precisão. O balanço genuíno dos surdos de terceira esteve envolvente por toda a pista. Uma ala de repiques de incrível nível técnico se exibiu em conjunto com um naipe de caixas de guerra com boa ressonância, além de sua tradicional batida com acentuação na mão invertida, gerando um molho peculiar que amparou os demais naipes da bateria da Estrela Guia.
Na parte da frente do ritmo da verde e branca da zona Oeste, uma ala de cuícas ajudou na sonoridade da cabeça da bateria da Mocidade. Um naipe simplesmente primoroso de chocalhos tocou de modo entrelaçado com uma ala de tamborins de nítida virtude musical. É possível dizer que o entrosamento extremamente acima da média entre tamborins e chocalhos foi um dos pontos altos das peças leves. Em meio ao ritmo, agogôs de duas campanas (bocas) foram corretos, adicionando um tom metálico a um ritmo que tem culturalmente predominância do timbre grave. Na primeira fila da bateria ainda vieram duas zabumbas e dois triângulos, ajudando no ritmo e nos arranjos musicais com levada nordestina.
Bossas completamente integradas ao divertido samba-enredo da Mocidade demostraram a boa versatilidade rítmica da bateria. Todas pautadas pela variações melódicas da obra independente, consolidando o ritmo através das nuances, garantindo assim uma musicalidade bem intuitiva. Paradinhas que utilizavam tapas em conjunto de diversos naipes exibiram a conexão musical plena. A interação popular foi garantida tanto ao largar o refrão principal para o público para fazer a bossa 7, quanto pela paradinha em que os ritmistas se abaixavam no final do refrão do meio, para a realização de uma subida com progressão dinâmica, elevando o volume conforme levantavam. Garantiu ovação popular, além de boa receptividade do júri.
A apresentação na primeira cabine (módulo duplo) foi excepcional. Foi possível lançar duas vezes o leque de bossas, além de garantir a fluência entre as peças. Na segunda cabine (módulo 3), mais uma grande apresentação foi realizada. No último julgador, mesmo com tempo próximo do limite, uma bossa foi exibida em mais uma apresentação segura, garantindo um grande desfile à bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, dirigida por mestre Dudu.


Os últimos três enredos da Mocidade Independente de Padre Miguel, foram com narrativas fortes e densas. A homenagem a maior torcedora da escola, Elza Soares, com o enredo “Elza Deusa Soares”, em 2020, o cortejo ao orixá Oxossi, em 2022, com “Batuque ao Caçador” e no ano passado com o enredo “Terra de Meu Céu, Estrelas de Meu Chão” em homenagem ao artesão Mestre Vitalino. Para 2024, a escola da Zona Oeste entra na avenida cantando sobre uma fruta, o caju.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, componentes da Mocidade contaram o que acharam dessa mudança notável de narrativa por parte da escola e se aprovam ou não.
“Trazer um enredo alegre é uma ideia maravilhosa, porque a Mocidade é isso, é frescura, é uma coisa mais solta. Sempre foi assim. Eu não desfilei há muitos anos atrás, mas os antigos enredos eram isso. A escola vem assim alegre, colorida, leve, cheirosa, como caju. Mas eu acho que os outros enredos anteriores não eram sério, era vida, biografia, era diferente, era outro peso. Essa história do caju é maravilhosa, assim como a da Elza e de Oxóssi foi. Só que era uma biografia e o outro era homenagem, não tem uma coisa pesada, é a vida”, disse a chilena.
Uma fantasia volumosa e abrindo os caminhos para um desfile cujo objetivo era fazer o Brasil saborear suas próprias vocações e riquezas, as mães baianas da Mocidade Independente de Padre Miguel desfilaram cheias de balangandãs, a maioria deles eram cajus que rodeavam as suas saias, o fruto nativo e abundante ao que cristalizou no imaginário estrangeiro, graças a Carmen Miranda, como a referência do Brasil e concretizando a mensagem teórica do enredo.
Com as cores douradas, verde, amarelo, laranja e rosa, a fantasia das baianas, chamada “O que é que a baiana tem? Caju no Balangandã!”, é inspirada na canção “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymmi, gravada pelo próprio e por Carmen Miranda, em 1939, que virou um dos clássicos da identidade nacional ao ser apresentada ao mundo.
Cláudia Rodrigues, tenho 59 anos, sou doméstica. E aí, a fantasia significa o quê?
O samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel é o grande hit do carnaval de 2024. Através de um refrão popular e sacadas geniais, trazendo a irreverência que andava em falta na folia carioca, a obra musical tomou as ruas, furando a bolha carnavalesca. De forma natural, o samba foi sendo comentado de boca a boca, ganhando notoriedade e caindo nas graças do povão. O setor de marketing da escola, com extrema competência, se aproveitou dessa onda e fez ativações para alavancar ainda mais esse sucesso. Tornou-se comum andar pelo Rio de Janeiro e ouvir aparelhos de som tocando o “samba do caju”, ver pessoas entoando em festas, rodas de samba, blocos, entre outros lugares, com muita alegria.
“É a segunda vez que vou desfilar na escola. Vim pela primeira vez no ano passado. O samba desse ano é muito melhor, bem mais animado. Acho que é por isso que está todo mundo cantando. Gosto muito do refrão principal”, disse Diogo Novais, de 36 anos.
Em um carro alegórico extenso, composto por dois chassis, a Mocidade Independente coloca o caju em seu platô de destaque, a flora brasileira, o apresentando como estrela. Com grande predominância do verde, mas também permeado por vermelho e amarelo, o abre-alas mostra uma visão assumidamente tropicalista. A escola grita que o caju é o verdadeiro símbolo da terra, flor aberta no florir do Brasil.
A reportagem do site CARNAVALESCO ouviu integrantes da escola que vieram no abre-alas sobre suas opiniões acerca do enredo e da alegoria.
“As composições vem representando as tropicajulinas. A escola está bonita e bem acabada. Todo mundo está cantando o samba, então acho que vamos fazer um grande desfile “, falou Flávia Lopes, de 37 anos.




