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Retrospectiva 2020: outubro, novembro e dezembro
O site CARNAVALESCO apresenta a última reportagem da série ‘Retrospectiva 2020’. Neste texto contamos os principais acontecimentos dos três últimos meses de 2020. Depois de muitas plenárias e reuniões, a Liesa finalmente deixou marcado para julho de 2021 os desfiles adiados. A entidade entretanto só realizará o evento caso haja uma vacina até lá. As Eleições 2020 colocaram o carnaval no centro das discussões politicas do Rio e Eduardo Paes conseguiu se eleger na disputa com Crivella. O candidato do DEM foi apoiado pelas escolas.

Outubro – Quadras e rodas de samba são autorizadas e carnaval esquenta debate político
Em 2020, em virtude da pandemia de Covid-19, as eleições municipais aconteceriam em novembro. Portanto a campanha começou a esquentar apenas em outubro. Além dos temas inerentes ao município, o carnaval foi um dos tópicos mais debatidos pelos prefeitáveis durante entrevistas e debates. Inimigo declarado do carnaval, o prefeito Marcelo Crivella usou o horário político para propagar fakenews sobre a festa. Os candidatos deram suas opiniões a temas sensíveis sobre os desfiles e antes da votação do primeiro turno, o site CARNAVALESCO promoveu uma rodada de entrevistas com os principais candidatos a prefeito.
Unidos da Tijuca, Imperatriz, Estácio de Sá e Cubango apresentaram seus enredos para 2021. A Portela gerou polêmica ao proibir em sua disputa a gravação de videoclipes. A medida irritou as produtoras de conteúdo audiovisual. O mês de outubro levou sambistas importantes como Edeor de Paula, compositor autor do clássico ‘Os Sertões’ da Em Cima da Hora em 1976 e Jorge Velloso, presidente da ala de compositores da Beija-Flor. Jorge Aragão chegou estar na UTI em virtude dos sintomas causados pelo coronavírus, mas não passou de um susto.
Outubro marcou também a liberação das rodas de samba na cidade, após sete meses sem eventos. Em um primeiro momento a medida não contemplava as quadras das escolas de samba, mas a reabertura estaria prevista no plano municipal para o mês de novembro. Gabriel David iniciou um processo de liderança pela retomada responsável dos eventos e a realização do carnaval em julho de 2021.
Novembro – Liesa marcar desfiles para julho de 2021, quadras reabrem e Crivella é derrotado nas urnas
Depois de quatro anos perseguindo a maior manifestação cultural do Rio de Janeiro e do Brasil, o prefeito do Rio Marcelo Crivella sofreu uma acachapante derrota nas urnas. No dia 29 de novembro ele recebeu apenas 35% dos votos válidos e foi derrotado pelo ex-prefeito Eduardo Paes que obteve 65%. No último debate antes da votação, Crivella atacou mais uma vez o carnaval usando o chapéu de Zé Pilintra de maneira pejorativa. Além da resposta dada nas urnas, os cariocas foram em massa votar com o chapéu que simboliza uma das mais representativas entidades das religiões de matriz africana. Após a vitória, a maior de um candidato a prefeito nos últimos 30 anos, Paes reafirmou seu compromisso com o carnaval.
Em meio às disputas políticas pela cidade, o mês de novembro significou também a retomada das atividades e eventos presenciais nas escolas de samba. As quadras foram reabertas após 8 meses fechadas e as agremiações puderam, dentro das exigências sanitárias dos órgãos reguladores, voltar a objetivar o faturamento que haviam perdido ao longo de 2020. Paraíso do Tuiuti, Portela, Salgueiro e Unidos da Tijuca realizaram eventos.
Com as quadras reabrindo era possível planejar os desfiles de 2021. Duas plenárias foram realizadas em novembro. Na primeira o alinhamento daquilo que era esperado: os desfiles aconteceriam no mês de julho de 2021. Na segunda a ratificação. Os desfiles estavam marcados para o meio do ano, mas só acontecerão se a vacina tiver imunizado sambistas e eventuais espectadores da festa.
No dia da Consciência Negra mais uma polêmica envolvendo a São Clemente. A agremiação dispensou o carnavalesco João Vítor Araújo, o único negro no Grupo Especial. A medida causou indignação nos sambistas pela falta de sensibilidade da agremiação. Neguinho da Beija-Flor contraiu a Covid-19 e foi internado, mas gravou um vídeo tranquilizando os fãs. O presidente da Imperatriz renunciou ao cargo alegando problemas pessoais. Novembro marcou a perda de Djalma Sabiá, o último fundador vivo do Salgueiro e de Bira do R, lendário locutor da Academia do Samba.
Dezembro – Covid-19 volta a assombrar o Brasil e mata Ubirani, do Grupo Fundo de Quintal
Se novembro trouxe esperança para os sambistas com a reabertura das quadras para eventos e a marcação de uma data para a realização dos desfiles em 2021, dezembro foi avassalador. Os casos de Covid-19 voltaram a disparar pelo Brasil após meses de queda significativa. Com isso as escolas recuaram na retomada de suas atividades e voltaram a paralisar eventos. A maior perda para o coronavírus para o mundo do carnaval foi sem dúvida a de Ubirani, do Grupo Fundo de Quintal. Sua morte causou perplexidade e comoção em todos os sambistas. Farid Abrahão David e Maurício Mattos foram outras sentidas perdas em dezembro, mas apenas o primeiro também foi por Covid-19.
Mas nem só de más notícias viveram os sambistas no último mês de 2020. As Ligas do RJ e de SP sortearam a ordem dos desfiles de 2021, além da Lierj. A Série A mudou de nome para Série Ouro. Ainda no Rio a Lei Aldir Blanc aprovou os projetos das lives das finais de samba das escolas do Especial. A Mangueira finalmente definiu o seu enredo e com isso todas as escolas da elite do carnaval conhecem seus temas para 2021.
Morre Lourenço Lúcio, fundador e ex-presidente da Associação dos Diretores de Harmonia
O luto no samba parece não ter fim em 2020. Na noite desta quarta-feira, faleceu Lourenço Lucio Ananias de Souza, o Lourenço Lucio, fundador e ex-presidente da Associação Recreativa dos Diretores de Harmonia das Escolas de Samba do Estado do Rio de Janeiro.

Durante anos, ele foi integrante da harmonia salgueirense. Lourenço era torcedor apaixonado pelo Salgueiro. Além disso, ele trabalhou como diretor de carnaval na escola de samba Renascer de Jacarepaguá.
Em nota, a ASSORDHESERJ lamentou o falecimento do sambista. “Com pesar a ASSORDHESERJ comunica a todos os associados e amigos o falecimento do Fundador e Presidente da Associação no período de 2017/2020 Sr. Lourenço Lucio Ananias de Souza. A todos os familiares e amigos os nossos sinceros sentimentos e nossas homenagens a esse grande personagem do Segmento Harmonia e do nosso Carnaval”.
Retrospectiva 2020: o que aconteceu em julho, agosto e setembro
O site CARNAVALESCO apresenta a quarta reportagem da série ‘Retrospectiva 2020’. Neste texto vamos relembrar o primeiro trimestre do segundo semestre de 2020. Longe de acabar, a Covid-19 começava a dar os primeiros sinais de diminuição de casos e óbitos. Mas a realização do carnaval se mostrava cada dia mais improvável. Em São Paulo o martelo foi batido em julho: desfiles apenas em julho de 2021. No Rio ficou para setembro. Enquanto os dirigentes decidiam o futuro das escolas em reuniões a portas fechadas os sambistas seguiam se mexendo para que os colaboradores das agremiações não morressem de fome.

Julho – São Paulo adia o carnaval e Liesa muda a decisão mais uma vez
O mês de julho aumentou a especulação para o adiamento do carnaval. Sem tempo e recursos para a realização do evento em fevereiro e o mais importante: sem condição de saúde, aumentou a força dos argumentos para o adiamento da folia. A Liga SP largou na frente e cravou o adiamento para julho de 2021. A Liesa até fez uma plenária para definir a questão, mas decidiu adiar a decisão para o mês de setembro.
Enquanto isso as escolas, sem fluxo de caixa, já tomavam a decisão de demitir funcionários. Mangueira e São Clemente anunciaram paralisação total. Em meio ao cenário avassalador os casais de mestre-sala e porta-bandeira lançaram o projeto ‘Bailado Solidário’ para ajudar os dançarinos que defendem os pavilhões. O carnavalesco Edson Pereira também passou a ajudar seus colaboradores e a Unidos da Tijuca também ajudava com subsídio os seus funcionários.
Ainda em julho Portela, São Clemente e Salgueiro divulgaram seus enredos para 2021, mesmo com a indefinição na realização da festa. O site CARNAVALESCO realizou sua primeira live em parceria com o camarote do King e contou com a presença de União da Ilha, Viradouro e Grande Rio.
Agosto – Projeto Barracão Solidário é lançado para ajudar artistas do carnaval
Com os barracões das escolas fechados por tempo indeterminado e sem qualquer previsão para o afrouxamento das medidas de isolamento aconteceu o óbvio: o estrangulamento econômico de artesão, artistas plásticos, marceneiros, ferreiros, costureiras e demais trabalhadores da parte plástica do carnaval. Neste sentido surgiu o projeto ‘Barracão Solidário‘, que assim como o ‘Ritmo Solidário’ e o ‘Bailado Solidário’ buscou doações e recursos para ajudar financeiramente essas pessoas. A ideia foi abraçada pelos grandes carnavalescos que doaram desenhos e obras para leilões. Uma live também foi produzida para arrecadação de fundos.
A Unidos de Padre Miguel impressionou os sambistas em agosto ao realizar uma eliminatória inteiramente virtual, respeitando todas as medidas de segurança sanitária. A escolha do samba foi no dia 01 de agosto e deixou a sensação de que era possível produzir algo paliativo enquanto as quadras não pudessem ser reabertas em virtude da pandemia de Covid-19.
Em São Paulo as escolas também usaram da criatividade para realizarem suas finais de samba-enredo e demais eventos. Assim como cinemas e grandes de casas de show, agremiações como a Águia de Ouro e Dragões da Real criaram eventos drive-thru para tentar alguma arrecadação no período de pandemia. A iniciativa arrancou elogios em todo o mundo do samba.
Setembro – Morte de compositor com Covid-19 deixa sambistas perplexos e Liesa adia desfiles
Com o anúncio da sinopse de grandes escolas de samba e ainda sem a definição sobre a realização dos desfiles os compositores começaram a gravar sambas em estúdios fechados e nem sempre com a segurança sanitária recomendável. A consequência foi trágica: o compositor do Salgueiro Diego Tavares contraiu o coronavírus e alguns dias depois acabou morrendo. A notícia abalou o mundo das escolas de samba e os grandes compositores decidiram recuar nas gravações. Poucos dias depois da morte de Diego, imagens de quadras cheias e sem nenhum tipo de isolamento ou uso de máscara causou revolta nas redes sociais.
Paralela à essa situação a Liesa finalmente bateu o martelo sobre o Carnaval 2021. Os desfiles em fevereiro estavam cancelados. Ainda não havia entretanto uma definição quanto a uma data. A Riotur elogiou a decisão da entidade que organiza os desfiles, mas uma audiência pública virtual da Câmara de Vereadores cobrava um plano emergencial para o carnaval. Blocos e escolas foram taxativos: sem vacina não desfilariam.
Ainda no início de setembro um vídeo editorial do site CARNAVALESCO pediu profundas mudanças no carnaval das escolas de samba. O veículo referência na cobertura carnavalesca realizou sua live de aniversário. O lendário mestre de bateria da Unidos de Vila Isabel, Mug, contraiu e venceu a Covid-19. E o Império Serrano causou polêmica ao colocar em seu regulamento de disputa um artigo sobre a moral e os bons costumes. Depois de uma intensa reação o artigo foi removido.
‘Desenquadrando folias’: Por um Basquiat do samba

Milton Cunha: “O texto do amigo Hélio Rainho, passista, lança luz sobre estilhaços de um corpo negro desconstruído num doutorado em andamento na FGV. Sou movido por estas proposições desconcertantes. Boa leitura”.
“DESENQUADRANDO FOLIAS”: POR UM BASQUIAT DO SAMBA
Por Hélio Ricardo Rainho
Um preto elegante, terno, gravata, defendendo sua arte e afirmando sua cultura negra em meio a uma sociedade branca e hostil. Paulo da Portela nos anos 20?! Não. Jean-Michel Basquiat nos anos 70!
A figura negra, garbosa, imponente, africanizada, resiste ao tempo, ao mistério da vida e da morte. Nascido no Brooklyn em 1960, o pintor negro mais importante do mundo, colocado entre os quatro mais caros do mercado da arte neste século, morreu aos 27 anos em 1988, em seu loft nova-iorquino, milionário e com um legado de mais de duas mil obras produzidas.

“Que temos nós, brasileiros, a ver com isso?” – perguntam os ufanos, os canônicos, os acadêmicos, os xenófobos…esses “enquadrados” que não compreendem a tríade conceitual do pintor sobre “a realeza, o heroísmo e as ruas” (em suas palavras, a síntese de sua arte).
Acordem! “Desenquadrem-se”! Basquiat chegou!
Os quadros do artista colocaram nas galerias de arte a imagem e as dores dos negros, o brado antirracista, a denúncia dos maus tratos coloniais em traços desconexos, corpos desfigurados, ares surrealistas, neo-expressionistas. Basquiat transitou nas ruas, conheceu a cultura marginal do Low Manhattan, dialogou com os desprovidos, os guetos, os redutos de negros e latinos largados e ameaçados pelo poder. Veio de família abastada, mas escolheu conviver com os desvalidos para dar-lhes voz nas obras, que invadiram as galerias onde jamais um artista negro conseguiu entrar. E está nelas até hoje! Um agente estratégico que muito nos tem a ensinar!
Há um mistério em Jean-Michel Basquiat que ninguém explica, mas o samba tem a pretensão de querer explicar.

Em 2018, recebi um convite da Brazilian Council on Samba, uma organização sem fins lucrativos de Nova York que promove a cultura do samba brasileiro entre comunidades negras e latinas locais, para desenvolver um enredo sobre as premissas da ONU para a década dos afrodescendentes. Eu estava fascinado com uma visita a Nova York em 2015 onde encontrei as obras de Basquiat nos museus, com a recente exposição sobre o artista no CCBB em 2018, com a bibliografia que há algum tempo já levantava sobre ele, com um trabalho que já havia feito chamado Meninos do Samba no qual um passista (Brener Belisário, das escolas de Padre Miguel) o havia representado. Propus que fizéssemos não um enredo panfletário sobre premissas, mas com um personagem protagonizando tudo o que a ONU apregoava e, ao mesmo tempo, filho nativo daquela Nova York onde o desfile seria realizado. Criei o enredo Basquiat – Every Boy is a King como tema da parade (adiada devido à pandemia da covid-19), conjugando a biografia do artista com a proposta da ONU. Não teve o desfile, mas o colecionador Randall Smith, dono de 95 obras do acervo The Lost Masterworks of Jean-Michel Basquiat – 1981- 1987, me procurou e concedeu-me direito de uso e estudo de toda sua coleção com exclusividade. Um brasileiro sendo, pela primeira vez, contemplado com essa grandeza! Basquiat virou, então, tema da minha tese de doutorado.

De lá pra cá não parei de pensar que Basquiat tinha elo comum com o samba. O dândi negro de terno e gravata era um apóstolo e um apóstata de Paulo da Portela. “Pés e pescoço ocupados!”- bradava o Príncipe Negro do Samba. Mas Basquiat quis ser atrevido quatro décadas depois: ocupou o pescoço, mas “desocupou os pés”. A imagem clássica da cabeça com tranças/dreads e dos pés descalços em forte contextualização africana é combinada com o corpo de terno. A especialista em literatura contemporânea afro-americana e estudos culturais afro-diaspóricos Monica L. Miller nos lembra que “A história do dandismo negro na diáspora atlântica é a história de como e por que os negros se tornaram árbitros do estilo e como usam roupas e trajes para definir sua identidade em diferentes contextos políticos e culturais” (Slaves to Fashion: Black Dandyism and the Styling of Black Diasporic Identity. Londres: Duke University Press, 2009:50-51). Paulo e Basquiat eram dândis negros e sabiam disso! Fizeram do terno europeu o ícone de uma elegância representativa na luta pela afirmação de sua identidade e seu poder de ressignificação. Apropriaram-se do traje do colonizador e o reconfiguraram. Basquiat recebia caixas de ternos Armani e Versace…e pintava seus quadros com eles em seu estúdio, os respingando de tinta. “Danem-se os cânones: eu quero é desenquadrá-los”!!! Manda o luxo pro lixo!!!
Frantz Fanon afirmou que o africano “parece ser hostil com essa conformidade com as categorias do tempo” e que “para ele, o passado é um passado pungente” (“Em Defesa da Revolução Africana”, Ed. Sá da Costa, 1980, p.8). Basquiat escolheu não querer o passado, soube dominar o presente e fazer-se “futuro”. Um afrofuturista de si mesmo!
Basquiat escolheu não morrer mesmo tendo a certeza da morte. Eternizou-se como figura, imagem, fantasmagoria benjaminiana no século XXI. Passou a perna no teórico alemão: a imagem fotográfica não lhe “roubou a aura”, como na teoria de Benjamin; pra Basquiat, a aura seguiu adiante, virtuosa e pulsante.
Se vivo, faria 60 anos. Capoeira Machado, bamba do Império Serrano, integrante da Velha Guarda Show, afirmou em depoimento: “Basquiat era um malandro, driblou muitas dificuldades pra afirmar sua arte e ocupar espaços! Se fosse vivo, aos 60 anos, poderia fazer parte da nossa Velha Guarda”.
Já foi-se o tempo em que a arte negra podia ter CEP, endereço, lugar. “Afro-atlânticos” na concepção do historiador inglês Paul Gilroy, “afro-diaspóricos” na concepção do martiniquense Frantz Fanon, “afro-modernistas” na concepção do nigeriano Chika Okeke-Agulu ou “donos do corpo” na concepção do brasileiro Muniz Sodré – estão desterritorializados e ocupam todos os lugares. Os negros espalhados pelos continentes estão na mesma luta, na mesma afirmação, em busca das mesmas estratégias de desenquadramento da estruturação racista e colonizadora.
Basquiat está vivo, dá samba, dá enredo, dá linha a tudo isso! Mas desenquadra tudo, até mesmo a própria folia. “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar?”
Hélio Ricardo Rainho é doutorando e mestre em História, Política e Bens Culturais e crítico dos desfiles de escolas de samba.
Retrospectiva 2020: Adeus para Luizinho Drumond, Covid-19 paralisa eventos, escolas realizam lives e começam os projetos sociais
Após os intensos três primeiros meses de 2020, o mundo se viu abalado com a informação de que um vírus de contágio muito rápido causava a morte em questão de dias, principalmente de pessoas acima de 60 anos e com problemas crônicos de saúde, como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos e outras comorbidades. A única solução era manter isolamento social e usar máscaras com higienização constante. A notícia abalou o planeta e não foi diferente com o mundo do carnaval.

Na terceira reportagem da série ‘Retrospectiva 2020’ relembramos os meses de abril, maio e junho. Assim que a Covid-19 se alastrou pelo mundo as escolas de samba interromperam suas atividades. Enquanto os mortos e contaminados progrediam geometricamente os sambistas tentaram criar soluções de enfrentamento à crise econômica que batia a porta: projetos sociais e lives tentavam socorrer os mais necessitados. O medo se alastrava mais rápido que o novo coronavírus.
Abril – Covid-19 devasta escolas de samba e sambistas reagem com solidariedade
No início de abril o mundo estava sentindo os primeiros efeitos da pandemia de Covid-19. A recomendação da OMS era clara: isolamento social absoluto, o que representava a paralisação total de atividades nas escolas de samba. No Brasil os contaminados se empilhavam dia após dia. As mortes começaram a se alastrar dentro das escolas de samba. A Mocidade contabilizou três perdas apenas em abril. Portela, Mangueira, Grande Rio, Porto da Pedra e Salgueiro foram outras agremiações que perderam integrantes para o novo Coronavírus. O coreógrafo Carlinhos de Jesus foi o sambista mais conhecido e lutar contra a doença e a conseguir vencê-la.
‘Madeira de dar em doido’ os sambistas não tinham tempo para chorar. Era enxugar as lágrimas causadas pelas perdas e buscarem alternativas para evitar que aqueles que estivessem vivos não morressem também, mas de fome. Neste sentido o primeiro projeto social de reação à Covid-19 foi o Ritmo Solidário. A arrecadação de donativos e insumos de primeira necessidade seriam doados aos ritmistas que não poderiam realizar mais shows nessa época do ano. Além disso as escolas de samba usaram a própria estrutura nos barracões na produção de equipamentos de proteção individual (EPI’s) para os profissionais da área de saúde na linha de frente do enfrentamento à pandemia.
Além das sentidas perdas para a Covid-19, personalidades do samba partiram em abril por outros motivos. Casos de Tantinho da Mangueira, Seu Zacarias Siqueira e Rico Medeiros. No fim do mês o barracão da Viradouro pegou fogo causando enorme prejuízo para a campeã do carnaval.
Maio – Lives explodem pelo Brasil e pela primeira vez fala-se em não realização do Carnaval 2021
O segmento mais atingido pelas restrições impostas pela pandemia de Covid-19 foi sem dúvida o de eventos. Shows, bares e similares ficaram impedidos de trabalhar em virtude dos riscos que as aglomerações traziam. Os maiores artistas do Brasil então passaram a realizar lives que explodiram de audiência nos mais variados ritmos musicais. As escolas de samba perceberam o nicho de mercado e também realizaram lives históricas que deram um alento aos sambistas em um cenário de tanta tristeza.
A primeira escola a produzir uma live foi o Salgueiro. Em quase 6 horas no ar foram mais de 130 mil visualizações. O pioneirismo motivou outras produções. A Beija-Flor liderou uma live com mais seis escolas do Grupo Especial. A Viradouro também realizou a sua para a divulgação de seu enredo. A Liga SP foi outra que fez uma live. Ao fim do mês o Império Serrano produziu a primeira de uma série de lives com produção profissional. Nos meses seguintes escolas como Portela e Mangueira também prepararam lives.
Mas nem só de mortes e notícias ruins viveu o carnaval em 2020. Diversos sambistas foram atingidos pela Covid-19 e conseguiram derrotá-la. Os casos mais emblemáticos foram do carnavalesco da Unidos da Ponte, Rodrigo Marques, que passou 15 dias internado e venceu a doença, e do diretor de carnaval da Mocidade, Marquinho Marino. O dirigente chegou a estar na UTI, mas também conseguiu derrotar o coronavírus.
Com o crescente cenário de incertezas começava a cair a ficha: a vacina era uma realidade distante ainda e o carnaval de 2021 estava ameaçado. Os primeiros a tocarem no tema foram o prefeito de Salvador e o governador da Bahia, praticamente descartando a realização da festa por lá em fevereiro. O tradicional carnaval de Notting Hill, em Londres, que se realizaria em agosto também foi cancelado. A Banda de Ipanema foi o primeiro mega-bloco do Rio a descartar desfilar no carnaval. Escolas de samba e a Liesa ainda resistiam em tomar uma decisão.
O Império Serrano realizou eleições em maio e aclamou Sandro Avelar presidente da agremiação. A escola, que fez um melancólico desfile em 2020 desonrando sua história, montou uma forte equipe para voltar ao Especial. Foram contratados nomes como Leandro Vieira, Nêgo, Igor Viana e Patrick Carvalho.
Junho – A morte de Luizinho Drumond e os protestos contra o racismo pelo mundo
Em 27 de maio de 2020 um homem negro foi assassinado nos EUA pela polícia. A morte de George Floyd iniciou uma série de protestos iniciados pelos americanos e que rapidamente se alastraram por todo o mundo. No Brasil houve reações da sociedade civil e de personalidades negras. A campanha “#blacklivesmatter (vidas negras importam)” ganhou as redes sociais. O mundo do carnaval se posicionou com veemência e as escolas de samba não se calaram. A cantora Alcione foi desrespeitada pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e foi defendida pelos sambistas. O site CARNAVALESCO produziu uma grande reportagem sobre lugar de fala dos negros no caso do racismo e uma live apenas com colaboradores negros.

Aproveitando o clima de anti-racismo que dominava as discussões pelo mundo a Beija-Flor e a Grande Rio divulgaram seus enredos com temática negra. No fim do mês os presidentes do Grupo Especial planejavam a primeira plenária para discutir o Carnaval 2021. Ela entretanto não foi realizada em virtude da morte de Luiz Pacheco Drumond, grande benemérito e sócio-fundador da Liesa. Luizinho comandou a Imperatriz Leopoldinense em todos os campeonatos de sua história. Sua morte causou reações em todo o mundo do carnaval.
Jorge Perlingeiro surge como favorito para presidência da Liesa, informa colunista
O apresentador Jorge Perlingeiro, responsável pela leitura das notas do carnaval do Grupo Especial do Rio de Janeiro, na quarta-feira de cinzas, surgiu como favorito para ocupar a presidência da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), na futura eleição, que ainda não tem data prevista para acontecer. A informação foi divulgada nesta terça-feira na coluna do jornalista Ancelmo Gois, em O Globo.

O pleito oficialmente marcado para maio de 2021 deve ser adiantado. Alguns dirigentes, nos bastidores da Liga, queriam que acontecesse já em dezembro de 2020, mas a tendência é que seja em janeiro ou provavelmente em fevereiro. A atual gestão ainda tem que apresentar sua prestação de contas.
O atual presidente Jorge Castanheira não manifestou oficialmente sua decisão de concorrer ou não para uma nova reeleição. A seu favor tem o lado da gestão do carnaval, e, caso os desfiles aconteçam em julho de 2021, com autorização do poder público e autoridades sanitárias, muitos confiam que ele é o nome ideal para realizar toda estrutura operacional e depois deixar o comando da Liesa.
Do outro lado, alguns dirigentes, que não declaram suas preferências abertamente, acreditam que é hora de mudança no comando do Grupo Especial. Além de um novo presidente, eles sugerem uma descentralização na Liga, com novos diretores cuidando de áreas específicas (marketing, comunicação, operações, social e cultural).
Além do nome de Jorge Perlingeiro, outros citados são Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, e, Renato Thor, presidente do Paraíso do Tuiuti e ex-presidente da Lierj. Oficialmente, nenhum dos três se posicionou ainda sobre o pleito na Liesa.
A eleição terá os votos presidentes das escolas de samba e das fundadoras da Liesa, além das palavras decisivas do Conselho Superior da Liesa. Com o falecimento de Luizinho Drumond, o grupo hoje é formado por Anísio Abraão David e Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães.
Retrospectiva 2020: Carnaval da Viradouro, Imperatriz e Águia de Ouro
Viradouro e Águia fazem história nos desfiles de Rio e São Paulo
No segundo capítulo da Retrospectiva 2020 vamos abordar os meses de fevereiro e março. O mês dos desfiles chegou com muita expectativa para todos os sambistas. A folia entretanto só ocorreria a partir do dia 23 de fevereiro. No início do mês o ex-presidente da Portela, Carlinhos Maracanã morreu e recebeu muitas homenagens do mundo do samba. Faltando poucos dias para os desfiles uma nova indefinição angustiava as escolas e a Liesa: o Sambódromo ainda não estava liberado pelos Bombeiros. A autorização só foi concedida na bacia das almas.

No Rio de Janeiro a Viradouro fez história. A vermelha e branca de Niterói foi a segunda escola a desfilar no domingo de carnaval e rompeu dois tabus de uma vez: foi a escola campeã a desfilar mais cedo na história e venceu desfilando domingo depois de dez anos. O desfile impressionou pela grandiosidade e bom gosto e garantiu à escola o segundo campeonato de sua história. Em uma apuração emocionante a Grande Rio ficou com o vice-campeonato depois de empatar com a Viradouro e perder no desempate. A Mocidade tirou o 3º lugar com uma emocionante homenagem a Elza Soares. Beija-Flor, Salgueiro e Mangueira completaram as campeãs. A Portela não conseguiu voltar pela primeira vez, desde 2013. União da Ilha e Estácio de Sá foram rebaixadas.

Na Série A, a Imperatriz fez um desfile sem nenhum defeito e garantiu o acesso com 10 em todos os quesitos. A Lins Imperial e a Em Cima da Hora regressaram ao Sambódromo.
Se a história foi escrita no Rio de Janeiro, em São Paulo não foi diferente. Depois de muitas vezes ficar no quase, finalmente a Águia de Ouro levantou o caneco pela primeira vez na história, com um desfile sobre a educação. Mancha Verde, Mocidade Alegre, Tatuapé e Vila Maria completaram as campeãs. Estreando em São Paulo, Paulo Barros não conseguiu nem uma vaga nas Campeãs pela Gaviões da Fiel, o que causou revolta em muitos sambistas. X-9 Paulistana e Pérola Negra foram rebaixadas. Vai-Vai e Tucuruvi regressaram ao Grupo Especial.

Março – Em meio à dança das cadeiras, Covid-19 abala as escolas de samba
Como acontece todo ano após os desfiles foi frenética a chamada dança das cadeiras, como os sambistas chamam a troca de profissionais entre as escolas. Com exceção da campeã Viradouro, muitas escolas realizaram trocas visando o desfile de 2021. As principais mudanças, escolhidas pelos leitores do site CARNAVALESCO, foram as contratações de Paulo Barros pelo Tuiuti e de Rosa Magalhães pela Imperatriz. O que ninguém sabia é o que estava por vir.
Foi no dia 15 de março que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou o mundo perplexo ao decretar a pandemia de Covid-19. Reação em cadeia em todo mundo, não foi diferente no mundo do samba. A primeira decisão causada pela decretação da pandemia foi o cancelamento do evento de apresentação da equipe da União da Ilha para 2021. Em seguida, Portela e Mangueira cancelaram também todas as suas atividades. A Lierj também recomendou total paralisação e o Sambódromo passou a servir de abrigo para moradores de rua. A primeira morte por Covid que teve relação com o mundo do samba foi a da atriz Érika Ferreira.
Retrospectiva 2020: Janeiro marcado com a polêmica na eleição da corte e Sambódromo sem os ensaios técnicos
‘Torcemos que o ano de 2020 seja de mudança‘. Esse foi o desejo do editoria publicado pelo site CARNAVALESCO no primeiro dia de 2020. O texto tinha a intenção de pedir uma nova guinada nos rumos do carnaval. Não imaginávamos, entretanto, que enfrentaríamos o ano mais difícil deste século para toda a humanidade. Após o carnaval, a pandemia do novo Coronavírus mudou a vida de todos. Como se tornou tradição em nosso site, iniciamos com este texto a contar a história do histórico 2020 para o carnaval e os sambistas. Nesta primeira matéria relembraremos o mês de janeiro.
Janeiro – Sambistas sem ensaio técnico novamente. CARNAVALESCO intensifica cobertura na rua
Nos primeiros dias de 2020 o site publicou o resultado do júri com os especialistas que apontaram os melhores sambas no Rio (Especial e Série A) e São Paulo. Mas o que trazia grande angústia a escolas e sambistas era novamente a grande indefinição que cercava a realização ou não dos ensaios técnicos. Evento tradicional no calendário da folia até o ano de 2017, apenas em duas ocasiões eles foram realizados durante a gestão de Marcelo Crivella. No início do mês o governo do estado se reuniu com as escolas prometendo ajuda. Entretanto, a Liesa descartou a realização dos ensaios logo em seguida.
Alheio a essa indefinição, o site CARNAVALESCO tratou de não deixar o seu público sem o modelo de cobertura da competição. Ainda em 2019 iniciamos a cobertura dos ensaios de rua, intensificadas em janeiro e fevereiro de 2020 até a realização dos desfiles. 2020 marcou também o crescimento da cobertura dos ensaios em São Paulo com uma equipe exclusivamente locada na capital paulista.
Janeiro foi marcado por muitas polêmicas. A primeira envolveu a São Clemente. Temeroso que a agremiação fosse novamente prejudicada com o julgamento de bandeira, o carnavalesco da escola na época, Jorge Silveira pediu que a escola fosse respeitada. O presidente Renatinho foi outro que criticou a forma com que a escola era tratada dentro da Liesa. O que se viu no desfile entretanto foi novamente um rigor excessivo com a escola.

Em 2020 a escolha da tradicional corte que representaria a folia até o carnaval foi cercada de polêmicas. O evento aconteceu na praia de Copacabana. A paulistana Camila Silva foi eleita a rainha. Uma das princesas não se conformou com a decisão do júri formado pela Riotur e reclamou o fato de uma mulher de fora do Rio ter sido escolhida. O mundo do carnaval saiu em defesa de Camila, causando um grande mal-estar dentro da própria corte.
Evelyn Bastos sobre o ano de 2020: ‘Vimos o quanto é necessário pensar e cuidar do outro’
Rainha de bateria da Estação Primeira de Mangueira e uma das responsáveis pelo projeto social SAC (Samba Amor e Caridade”, Evelyn Bastos, conversou com o site CARNAVALESCO, após a Ação de Natal com os moradores em situação de rua no Centro do Rio de Janeiro.
A mangueirense explicou que após o Natal diferente, com distanciamento social e poucos familiares, a virada do ano deverá ser para reflexão de todos.

“O Natal foi diferente. O dobro de sentimento de todos os outros. Foi um ano que fez a gente refletir muito. A virada do ano que seja de reflexão. Vimos o quanto é necessário pensar e cuidar do outro. Nos aproximamos de nós mesmos, de quem nós somos, valores da vida e sentimentos. Que seja um fim de ano repleto de amor e que todos pensem positivo, emanando a melhor energia que guardamos, porque 2021 precisa ser uma renovação”, disse Evelyn Bastos.
A rainha de bateria da Mangueira contou que já esperava um número maior de pessoas em situação de rua na Ação de Natal, mas que a quantidade foi além do previsto, já que a pandemia da Covid-19 afetou completamente a vida da população.
“A gente já esperava um movimento maior esse ano. Foi muito maior com as pessoas com necessidade de comida ou água. Ver isso é muito ruim, porque sempre queremos que a população de rua diminua. Muita criança e o desespero de todos é grande. Viemos para ajudar e unirmos nossas mãos. Essa população não é vista pelo poder público. Nunca existiu um projeto eficiente para essas pessoas tão necessitadas. A gente que ganha o presente nessa ação, saímos gratificados por podermos fazer o bem. Ainda tenho esperança, acredito que um dia ainda vamos mudar essa situação”, afirmou Evelyn Bastos.
