“A torcida reunida até parece a do FlaxFlu…. Bangu, Bangu, Bangu”. É impossível para qualquer carioca escutar o hino do Bangu Atlético Clube e não lembrar de Castor de Andrade. Benfeitor da Zona Oeste, o bicheiro foi homenageado pela Unidos de Bangu no primeiro dia de desfiles da Série Ouro. Dentre as alegorias da escola, uma retratava a relação de Castor com o clube do bairro, que em suas mãos, chegou a ser vice-campeão brasileiro, em 1985.
Na alegoria, o carnavalesco da Unidos de Bangu, Marcus Paulo, fez diversas referências à Era de Ouro do clube. Dentre as glórias retratadas no carro alegórico, destacavam-se as glórias do time feminino do clube, que ganhou destaque na gestão de Castor de Andrade. De blusa vermelha e saia de bolinhas, as composições do carro vinham todas representando “As vitórias do time feminino do Bangu do Castor”.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, algumas delas falaram sobre a sensação e a importância de homenagear o ícone do bairro e da região, Castor de Andrade. Uma delas, Cris Keller, além de moradora de Bangu, é musa do time e ocupou o mesmo posto no Campeonato Carioca de 2020.
“Esse enredo sobre o Castor se mistura com a história da minha vida porque eu fui musa do Campeonato Carioca de 2020, sou musa do Bangu Atlético Clube e é muito gratificante pra mim estar aqui hoje na avenida, representando meu time. Estou desfilando pelo Bangu e por um bairro que eu amo e tudo isso se mistura com a história do Castor de Andrade. Ele era uma referência para o BAC e para o bairro inteiro. Estou muito feliz de estar participando dessa grande festa do povo banguense e estar representando meu time. Sou torcedora e musa do Bangu. Bangu é tudo para mim. Ali na região, nós temos também a mocidade, minha escola de coração e ali, eu cresci, com esse povo de Bangu”, contou Cris.
Estreante na Marquês de Sapucaí e moradora de Campo Grande, também na Zona Oeste, Bianca da Costa também ressalta, sem titubear, a importância de Castor para a região, mesmo sem ter convivido com o contraventor.
“É a primeira vez que vou desfilar e é na escola do bairro de Bangu. Eu só conheço o Castor por nome porque eu não sou criada em Bangu, mas a minha família é da região e eu conheço a história. Ali, o Castor é muito bem falado por todos porque ele levantou Bangu e o entorno, Realengo e outros. Além disso, ele é muito bem falado por causa da escola, da Mocidade, ele levantou a Zona Oeste. Ele foi uma personalidade original, daquela época, nos anos que ele viveu, e até hoje existem vários outros como ele por aí.”, destacou Bianca.
Na emoção de homenagear o clube do coração, Sabrina Alves, de Bangu, afirmou ser torcedora de carteirinha do time alvi-rubro. Emocionada, reafirma a relação do seu bairro de origem e o antigo patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel.
“Torço para o Bangu, sim. Quando tem jogo no Maracanã, a gente aluga ônibus, faz caravana, o pessoal lá é bem animado. Somos apaixonados por carnaval e futebol. O Castor sempre foi muito bom lá pra nossa região, pra Bangu. Ele participava da Mocidade, onde ele fazia tudo na comunidade e sempre foi respeitado por todos nós. É uma emoção muito forte estar representando essa escola”, afirmou.
Para o Carnaval de 2022, a bateria da Bangu vestiu uma fantasia que remete aos tempos áureos do Bangu Atlético Clube. A fantasia possuía meião branco, calção branco e a tradicional camisa listrada na vertical nas cores vermelho e branco. O time de futebol teve laços estreitos com o homenageado Castor de Andrade. Na época em que o Castor estava a frente do Bangu, havia a cultura da charanga nas arquibancadas do estádio Moça Bonita, um dos pontos de referência do bairro.
Tendo Castor de Andrade como uma agulha de tricô, futebol e samba fazem uma bela costura na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Nos conta um pouco dessa relação, o ritmista Rafael, que desfila na Bangu a três anos e se mostra empolgado com a referência ao futebol.
“Eu sou Vasco, mas o estádio de Moça Bonita foi o primeiro estádio em que fui. Por isso eu passei a ter um carinho especial pelo estádio e pelo clube também e por mais que eu more mais para perto de Padre Miguel, acabei criando uma relação com a Bangu, por causa desse contato do futebol”, afirmou Rafael, ritmista da escola no Carnaval de 2022.
Parece que a aposta da Bangu em apresentar Castor, foi um tiro certeiro nas raízes do bairro. Levantando a autoestima da sua comunidade, a Bangu mostra a história da região com o apoio de componentes orgulhosos e emocionados. Caso de Eduardo Ferreira ritmista da escola a quatro carnavais.
“É uma experiência boa, porque traz referência da bandinha do Bangu e de toda cultura ao redor. A gente traz a Mocidade e por um acaso nós também tocamos na escola. Então tem características da Mocidade aqui, tem a bandinha e a alegria do Castor”, contou ao site CARNAVALESCO.
A bateria da Bangu também proporcionou para além do encontro do público com a história do bairro, o encontro entre componentes crias da região e o compartilhamento de suas memórias.
“Esse ano está sendo maravilhoso e ainda estamos realizando um grande feito. Depois de 20 anos, estamos finalmente desfilando uma no lado da outra”, disse Vivian Lessa, que desfila na Bangu desde 2015.
“E o sentimento de resgate é verdadeiro. Nós somos moradoras do bairro, então desfilar nesse enredo é resgatar a infância no bairro”, afirmou Vivian.
“Eu morava no lado do Moça Bonita. Escutava o jogo todo”, completou a colega de bateria, Aline Freitas.
“Estamos curtindo bastante trazer a Mocidade no desfile e quem for Mocidade, consegue identificar elementos dela na nossa bateria”, disse Vivian finalizando a conversa com o site CARNAVALESCO.
Fazendo alusão aos antigos bailes de carnaval do bairro de Bangu e proximidades, a terceira alegoria da Bangu prestou uma homenagem à escola Mocidade Independente de Padre Miguel. Enorme, a Alegoria esbanjava muitas tonalidades de verde, com belas estrelas verdes com detalhes em brilhante por todo o carro e enfeites que remetiam às decorações dos bailes. Aos fãs e simpatizantes da Mocidade, o carro tira suspiros com um bem acabado escudo da escola no topo. Outro ponto a ser destacado, foi a quantidade de pessoas em cima dele. Um verdadeiro baile.
A homenagem trouxe para avenida um símbolo de respeito e união. Caminhando pela comunidade presente no desfile deste primeiro dia de carnaval 2022, foi fácil encontrar componentes que se sentiram felizes e identificados com a homenagem. É o caso de Suelen Soares, que ao desfilar pela terceira vez na Bangu, falou ao site CARNAVALESCO
“Assim como tenho relação com o Bangu, tenho relação com a Mocidade. Minha tia mora em frente à quadra antiga da escola, então desde criança eu frequento a quadra e sambo muito com a escola”, afirmou Suelen.
É preciso lembrar que essa homenagem a união acontece, porque a Bangu faz um resgate da história da região da Zona Oeste. É isso que nos atenta a fala da Monalisa Marques, torcedora da Mocidade desde criança, esse ano ela resolveu desfilar pela Bangu e foi agraciada com uma vaga no terceiro carro da escola.
“Independente de ser o carro da Mocidade, eu já senti uma emoção forte ao saber que eu iria desfilar, porque a Bangu resolver trazer a história da nossa área. Eu sou nascida e criada em Bangu, então quando fala de Moça Bonita e Castor, já volto a minha infância e lembro dos ensaios na Guilherme. É um privilégio estar nesse desfile” contou Monalisa Marques.
“Eu não vivi a época do Castor, mas os nossos mais velhos não nos fazem não esquecer da importância dele para o bairro, o que ele fazia pelo nosso time, o que ele trazia de melhorias para comunidade e como era presente nas escolas. Hoje, estar desfilando nesse enredo me faz ter o sentimento de estar participando da história. Eu não tive a oportunidade de conhecer o Castor, mas estou conhecendo na avenida”, contou Thaiza Marques ao site CARNAVALESCO.
Essa capacidade de levar o público a visitar o passado e resgatar valores que por vezes podem estar esquecidos, é um trunfo do carro que completa sua mágica na fantasia das componentes que estão trajadas com uma roupa rica em verdes, assim como o carro, tem inspiração no bobo da corte e nas fadas.
Com o enredo ‘O Vendedor de Orações’, a União da Ilha, quinta escola a desfilar na noite de quarta-feira, brilhou na Marquês de Sapucaí. O
primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Marlon Flores e Danielle Nascimento representaram a fé do escravo Zacarias, semente que espalhou por
todo País, não apenas um grito de liberdade, mas um apoio àqueles que acreditam nas forças no bem e nos poderes. Com roupas adornadas com fitas, medalhas, crucifixos, terços e outros símbolos de devoção, o casal representou a fé do povo.
A Porta-Bandeira Danielle Nascimento não esconde a emoção ao homenagear a senhora do Brasil, que leva uma multidão de devotos ao Santuário para pedir, agradecer e colocar as intenções.
“A minha relação com Nossa Senhora é muito linda e especial. Minha mãe faz promessa a Aparecida e pede que eu cumpra. Sou muito devota dela e da minha Exú, ela sempre esteve comigo e me abençoou. Em 2017 fui abençoada na Portela e tenho certeza de que vai me abençoar esse ano outra vez”, declarou Daniele Nascimento.
O pavilhão encarna a bandeira, que pode mover céu e terra, unido a padroeira do Brasil. “Viemos falando um pouquinho do milagre que ocorreu
com Zacarias, que a partir desse acontecimento ficou responsável por transmitir a fé em Nossa Senhora Aparecida e falar sobre a história dela. Não era muito devoto, depois que a escola escolheu esse tema como enredo, pesquisei mais sobre
ela e tenho muito carinho”, revelou Marlon.
Vendedores de oração, guardiões de relíquias, oferendas, romarias e outras alas renderam homenagens à Mãe Preta. Com a fé em Nossa Senhora Aparecida, a Ilha celebrou a vida, ao derramar samba e religião.
“A relação samba e carnaval é muito importante, pois o contato com a religião é algo natural”, opinou Marlon. “Eu trabalho e desfilo com muita fé, isso me fortalece no carnaval”, ressaltou Danielle com um brilho no olhar.
A grande aposta da União da Ilha para a ala das baianas foi “Mãe Preta”. As baianas representam o que há de mais sublime no sincretismo, incorporando simultaneamente, a beleza negra de Aparecida, extraída da argila do Paraíba, com a pureza da ancestralidade africana, latente na pele de Oxum.
Na parte superior da cabeça, o adereço alterna entre o azul e o dourado. Quanto a roupa, apresenta um laço amarelo no centro e uma saia leve de cor predominantemente azul com alguns detalhes em laranja.
A baiana Maria Josemar de 73 anos, se mostrou bastante satisfeita com o resultado final de seu figurino. Alegou leveza da fantasia e com isso, uma maior facilidade para evoluir.
“Tenho uma ótima relação com Nossa Senhora e estou sempre pedindo proteção a ela por mim e pelos meus”, concluiu a doméstica.
Coopera de 63 anos, Vera Lúcia dos Santos, também baiana da escola, similarmente pontuou sobre a leveza de sua fantasia, que foi de seu total agrado.
“Nossa ala representa bastante alegria, a fantasia leve acaba ajudando na empolgação. Ano retrasado a nossa fantasia estava bem pesada. Sou devota de Nossa Senhora, então me encontro muito ansiosa para desfilar e almejar o Grupo Especial”.
A baiana Damiana Maona de 58 anos, não mediu palavras quando também questionada sobre o enredo da escola e a representatividade de sua fantasia. Defensora do enredo, a advogada acredita que o tema reacende a fé das pessoas mesmo em época de folia, carnaval.
“Com essa pandemia, senti que as pessoas ficaram muito egoístas, então desfilar com esse enredo maravilhoso e regado de amor e carinho é maravilhoso, principalmente para a nossa ala das baianas. Essa fantasia foi tudo o que eu pedi durante os meus cinco anos como baiana. Leve e belíssima, estou encantada ainda”, contou.
“Sou espiritualista, não sou devota de Nossa Senhora Aparecida, mas sou devota de Nossa Senhora da Conceição. Acredito que a representatividade esteja ligada ao fato de todas serem Nossa Senhoras. Temos que amar todas elas, mães daquele que morreu para nos salvar e que até hoje não damos o devido valor”.
Com o enredo “O vendedor de orações”, o carro escolhido pela União da Ilha para abrir o desfile da escola foi “O milagre de Zacarias”. O abre-alas retrata o negro Zacarias, que depois de fugir e ser novamente capturado e levado de volta ao cativeiro, pediu para rezar aos pés da imagem de Nossa Senhora, até então encontrada por pescadores dali. Após a reza, por milagre, as correntes de Zacarias se quebraram, uma vez que santa teria lhe dado tal liberdade.
A alegoria composta por componentes em ambos os lados e na sua parte superior, chama atenção por seus tons vermelhados e ótimo acabamento. O abre alas conta com componentes fantasiados de Nossa Senhora Aparecida, além de apresentar uma escultura da santa na sua parte central.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, a componente do carro Aline Grassano de 40 anos, revelou a ansiedade em estar de volta a Sapucaí depois de dois anos. Antiga moradora da Ilha do Governador, a policial civil que desfila há 15 anos na escola, contou um pouco sobre a representatividade de sua fantasia e juntamente do enredo.
“O carro é uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida, por isso viemos com a santa na cabeça. Eu nasci dia 12 de outubro, não tinha como eu deixar de participar desse desfile. Sou devota de Nossa Senhora, é uma santa que fez muito milagre e que vai proteger e iluminar o desfile da nossa União da Ilha”.
Kátia Lepletier de 49 anos, também integrante do carro, contou que a escola está bem confiante nessa retomada do carnaval pós pandemia.
“Parece que é a primeira vez que to desfilando. O rapaz da escola disse que eu fui a primeira do carro a subir e eu sigo aqui intacta graças a minha enorme vontade de desfilar e representar Nossa Senhora Aparecida – Oxum”, desabafou a advogada.
Quando questionada quanto a representatividade do enredo, afirmou: “É um enredo que retrata a padroeira do Brasil. Temos muita fé e devoção, e eu acredito que tudo que é feito dessa forma, tem tudo para dar certo”, concluiu.
O componente Paulo Junior de 39 anos, também mostrou opinião quanto ao quesito representatividade.
“É um enredo forte que retrata a espiritualidade do brasileiro. Depois de dois anos longe da Sapucaí, estou muito emocionado e com o coração batendo muito forte, principalmente por ser a minha primeira vez desfilando na União da Ilha”, revelou o documentalista.
A Porto da Pedra foi a primeira escola na noite em que as bandeirinhas começaram a tremular na arquibancada. Muito esperada por ter um dos melhores sambas da safra de 2022, o Tigre apresentou alegorias de destaque, uma comissão de frente com coreografia forte e de marcante caracterização, além do já destacado primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Rodrigo e Cintya. Mas, a iluminação do Abre-alas da escola que passou apagado em todos os módulos, deve fazer a Vermelha e Branca de São Gonçalo perder décimos preciosos. Com o enredo “O caçador que traz alegria”, a Porto da Pedra foi a quarta agremiação a desfilar, encerrando seu desfile com 55 minutos. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILES
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Comissão de frente
A comissão de frente do coreógrafo Paulo Pina, representou a ancestralidade do candomblé, preservando a essência da religião pelas palavras dos mais sábios. O figurino se chamava “partículas de ancestralidade” e o tripé, grande e imponente, significava as raízes que alimentam os galhos, as folhas e os frutos de uma árvore. O tripé apresentava em palha a imagem da homenageada que se mexia, segurando “a flecha de Odé”, que acendia em um LED verde. A coreografia dos bailarinos fez algumas referências a palavras que o samba citava como “flecha”, “cabeça” e havia uma transformação na roupa em que a saia marrom subia e aparecia o verde das folhas, os componentes se transformavam em caçadores retirando flechas do elemento alegórico. O único ponto negativo foi o fato de que estas flechas eram para emitir um laser verde, mas em todos os módulos o efeito não funcionou com alguns componentes.
O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Rodrigo França e Cintya Barboza, representou as raízes do candomblé que atravessaram além-mar e trouxeram a ancestralidade das terras africanas para São Gonçalo do Retiro na Bahia. Na coreografia Cintya girava inúmeras vezes e impressionava pela intensidade e vitalidade, ainda que com bastante classe. No primeiro módulo, quase que a bandeira deu uma pequena enrolada, mas a porta-bandeira conseguiu evitar a tempo e manteve a continuidade da apresentação. Já Rodrigo, acompanhava os movimentos da porta-bandeira com entrosamento, mantendo sempre o contato no olhar. A dupla fez um passo de religião de matriz africana no trecho do samba “Roda Yaba´”.
Como era esperado pela qualidade da obra e pelos ensaios, a comunidade cantou a plenos pulmões o samba. Com destaque para diversas alas como as alas do primeiro setor 3, “retiro de São Gonçalo”, e a ala 4 “encantamento”. Do segundo setor, o destaque de canto foi para a ala 6 “Oxum”, e no quarto setor as alas “eterno aprendiz” e “Títulos e Honrarias”. Não se viu alas com grande quantidade de componentes que não cantavam o samba.
O enredo “O caçador que traz alegrias” apresentou a vida de Mãe Stella de Oxóssi, usando da oralidade e da memória da mãe de santo. Dividida em quatro setores, a Porto da Pedra reconstruiu a trajetória da pequena Stella de Azevedo com o dia que recebeu a maçã do pé do fruto do Orixá, a presença de Xangô em sua caminhada e o dia de sua consagração como Mãe de Santo, além de seu legado como enfermeira sanitarista, defensora da educação e cultura, e sua luta na libertação do candomblé às narrativas homogêneas. A escola apresentou o enredo de forma cronológica e linear.
A evolução da Porto da Pedra em geral se deu sem correrias em um ritmo fluido, durante boa parte da Sapucaí, mas próximo ao setor 3, aconteceu um buraco entre a ala de passistas e a bateria, próximo às cabines 1 e 2 de julgamento. Na entrada da bateria no segundo recuo, houve uma pequena demora para a ala “Renascimento-Yaô”, que vinha logo atrás, preencher o espaço, por pouco não se tornando um problema maior para a escola. Por fim, na parte final do desfile, a agremiação evoluiu com um pouco mais de rapidez para não estourar o tempo, finalizando no tempo máximo de 55 minutos.
Samba-enredo
O samba, um dos trunfos da Porto da Pedra para 2022 se confirmou na Sapucaí com grande atuação do intérprete Pitty de Menezes e seu carro de som. Entre as partes mais cantadas pelos componentes e que geraram maior integração com as arquibancadas , o refrão do meio “O santo dança, o céu relampejou…”, e os últimos versos anteriores ao refrão principal “Roda yabá é ginga!Canta pra firmar curimba!”, além, é claro, do refrão principal “No toque do Aguerê…”.
Fantasias
As fantasias estavam um pouco mais abaixo da qualidade que foi vista nos carros, ainda sim, de fácil leitura, apesar de o enredo ser um pouco mais denso e tocando em algumas nomenclaturas mais específicas das religiões de matriz africana. Destaque para as fantasias no último setor que traziam soluções criativas para homenagear a intelectualidade de Mãe Stella de Oxóssi. As baianas, segunda ala do desfile, representaram Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha de Xangô, a matriarca do Ilê Axé Opô Afonjá. Já a ala de passistas veio fantasiada como “Folhas e Ervas de Oxóssi”, festejando a iniciação de Stella de Oxóssi. A ala de compositores “o dom das palavras” trouxe os ensinamentos importantes para compor os mais belos sambas em homenagem à Mãe Stella de Oxóssi.
Alegorias
Ao mesmo tempo, trunfo e calcanhar de aquiles da escola, a Porto da Pedra trouxe boas soluções e elementos alegóricos com boas soluções e de fácil entendimento, mas o carro Abre-Alas “Mata virgem deixa serenar”, que trazia o Tigre de São Gonçalo como Odé Kayodé, o ser mais puro e profundo das florestas, passou em todos os módulos apagado. Destaque para o terceiro carro alegórico “Legado de Mãe Stella” apresentando Mãe Stella de Oxóssi, mulher negra, determinada, reservada de olhar sereno. Nela, estava presente a velha-guarda, “os griôs”. Como surpresa, a alegoria tinha o efeito de soltar balões e apresentava muitas referências à paixão de Mãe Stella aos livros com algumas frases da mãe de santo.
Outros destaques
O mestre Pablo, comandante da Ritmo Feroz, veio fantasiado de Tigre, devidamente maquiado, inclusive, chamando atenção pela beleza da caracterização. A bateria veio representando os “Ogãs”, responsáveis em zelar pelo andamento do Xirê, os cuidados dos iniciados, a comunicação entre zeladores, Iaôs e os Orixás.A rainha de bateria Tati Minerato, que interagia bastante com o público e era lembrada em alguns momentos pelo intérprete Pitty de Menezes veio de “Agbara dos Ogãs” representando a potência e a força necessária para os ritmistas do Tigre de São Gonçalo dobrarem o couro dos instrumentos. O intérprete Wantuir, com passagem marcante pela Porto da Pedra no passado, esteve presente no desfile próximo ao carro de som.
A Baterilha dos Mestres Keko e Marcelo fez uma grande apresentação. A afinação de surdos proporcionou uma base de sustentação rítmica sólida, fazendo com que o balanço formidável dos surdos de terceira fosse percebido. As caixas de guerra com acentuação rítmica característica tocaram de forma ressonante. O complemento das peças leves se deu de modo sublime.
A ala de tamborins produziu uma sonoridade coesa exemplar. O naipe de chocalhos ecoou com firmeza, dando volume a cabeça da bateria. As paradinhas tem alto grau de complexidade e uma concepção musical acima da média. A utilização de um sino em duas bossas tocado por Mestre Keko empolgou o público, além de contar visualmente com a simpatia dos jurados.
A subida identitária na cabeça do samba em forma de breque acrescentou valor sonoro a apresentação da bateria da União da Ilha. A execução das paradinhas nos módulos de julgadores ocorreu de forma precisa. Infelizmente no último módulo de julgador, com o tempo próximo do estouro, a apresentação contemplou somente uma paradinha, com a bateria seguindo adiante para encerrar seu desfile.
A bateria Ritmo Feroz do excêntrico Mestre Pablo fez uma ótima apresentação. A boa afinação de surdos serviu de base para o ritmo. O swing proporcionado pelos surdos de terceira embalaram a bateria da Unidos do Porto da Pedra, inclusive utilizando duas macetas nas paradinhas. O acompanhamento das peças leves auxiliou a preencher a musicalidade. A ala de chocalhos desfilou com uma só fila na cabeça da bateria e os demais ritmistas perfilados dentro cozinha.
O naipe de tamborins executou o desenho rítmico de forma segura, com coesão e produzindo uma sonoridade notável. A convenção rítmica dos agogôs também merece menção positiva, se baseando nas nuances da obra. As bossas foram executadas com precisão, mesmo possuindo grau extremo de dificuldade. Tudo com uma concepção musical marcada pela complexidade e pautada pela ousadia rítmica.
A paradinha de maior destaque sonoro foi a do refrão do meio, onde era possível ouvir um solo envolvente de ritmistas que tocaram timbal. O timbal, inclusive, tem participação fundamental na musicalidade da bateria, assim como em bossas. As apresentações da bateria da Porto da Pedra nos módulos de jurados ocorreram sem problemas evidenciados da pista de desfile.
A estreia de Mestre Branco Ribeiro na bateria Ritmo Meritiense foi excelente. A boa afinação de surdos foi notada. Marcadores tocaram com firmeza, ditando o andamento do samba. O arranjo musical envolvendo os surdos no final da primeira do samba propiciou uma fluidez musical, tudo pautado na melodia do samba.
O balanço produzido pelas terceiras merece menção positiva. O acompanhamento de peças leves ocorreu de forma sólida. A ala de tamborins executou a convenção rítmica de modo preciso, produzindo bom volume e agregando na musicalidade da bateria da Unidos da Ponte. Chocalhos tocaram de forma firme, assim como cuícas e agogôs auxiliaram no preenchimento musical do ritmo.
Foi possível notar a bateria tocando de forma mais leve na segunda, valorizando ritmicamente os traços melódicos do samba da Ponte. As paradinhas aliaram concepção musical acima da média, além da execução irretocável de frente para os jurados. As passagens da bateria pelos módulos de julgadores aliou precisão, boa musicalidade e certa ovação popular.