Em 2020, a Grande Rio realizou o que muitos consideram ser o maior desfile de sua história, sem dúvidas entrou para a galeria de grandes desfiles não só da escola, mas também do carnaval carioca, porém, a homenagem a Joãozinho da Goméia apresentou problemas de evolução, o que fez com que a escola perdesse o título para a Viradouro no quesito desempate. Quem pensa que isso desanimou a escola está muito enganado, o clima é de muita garra, determinação e foco no tão sonhado título do Grupo Especial.
Foto: Site CARNAVALESCO
A reportagem do site CARNAVALESCO conversou com alguns integrantes sobre essa expectativa para o desfile e o que é possível fazer para superar o último.
O presidente da escola, Milton Perácio, destacou que a escola tem a expectativa de brigar pelo título todos os anos, inclusive, além de 2020, já bateu na trave em outros anos, como em 2006 e 2007, porém, para o próximo carnaval a agremiação buscou corrigir os erros do passado e se empenhou muito para fazer um carnaval grandioso.
“A gente peca pelos nossos próprios erros, mas estamos nos policiando bem para fazermos um grande desfile, em 2020 foi um desfile genial, nós ficamos em segundo lugar, a bolinha do sorteio não foi generosa com a gente, foi bem entregue a Viradouro o título, mas o nosso lema é buscar o título, queremos fazer um carnaval superior ao de 2020, essa é nossa expectativa e nós temos certeza que vamos fazer, a comunidade está ansiosa, estamos trazendo tudo na ponta do lápis. Estamos incansavelmente buscando esse título, uma hora ele vai chegar, já dizia o samba: qualquer dia eu chego lá”, disse o presidente.
Foto: Site CARNAVALESCO
Parte da reformulação da escola vem a partir da chegada do diretor de carnaval, Thiago Monteiro, questionado sobre o que a escola precisa fazer para superar o carnaval passado, Thiago disse que confia muito no trabalho realizado pela equipe de carnaval.
“Queremos fazer o maior desfile da história da Grande Rio, independente do resultado estamos muito felizes com o trabalho que foi feito nesse pré-carnaval, com esse samba, com enredo e com essa comunidade eu não tenho dúvidas de que podemos fazer um desfile melhor que o de 2020, queremos mais coisas, é muito trabalho de todos os segmentos, a escola toda junta, preparada e forte para dar o seu melhor”, conta Thiago.
Já o mestre de bateria, Fafá, acredita que a comunidade será responsável por levar a Grande Rio a voos mais altos, ele agradece o carinho dos componentes da escola e diz que eles são fundamentais para o sucesso da tricolor da Baixada.
“A gente espera realizar um grande desfile como em 2020, ou tão bom quanto, para se Deus quiser alcançar esse título, hoje a nossa comunidade e nosso chão são diferenciais para gente conseguir nossos objetivos, desde o que ocorreu com a gente em 2018, a comunidade começou abraçar a Grande Rio de uma forma muito diferente, abraçou o enredo de 2019, que não era um grande enredo, veio 2020 e abraçaram com uma força absurda, surreal, e agora em 2022 está mais do que provado o quanto eles estão cantando e apaixonados por esse samba, acredito que eles vão ser o grande combustível que vai impulsionar a escola para esse título”, destaca Fafá.
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Na escola desde 2019, o intérprete Evandro Malandro acredita que chegou o ano da escola ser campeã e para isso, os problemas do último carnaval foram corrigidos e o carinho do público é primordial para que a escola faça um bom trabalho.
“Primeiramente, no mínimo devemos fazer um desfile tão bom ou parecido com o de 2020, algumas coisas que aconteceram já foram resolvidas, já foram corrigidas, depois da aclamação do público no ensaio técnico, esse é o caminho certo pra gente chegar lá e fazer um ótimo desfile”, comenta Evandro.
Casal nota 10 no último carnaval, Daniel Werneck e Taciana Couto vivem a expectativa de realizarem uma apresentação ainda melhor que a última, para eles, a força do enredo será fundamental para a escola conquistar grandes coisas.
“Nós temos que manter essa união que temos, na nossa equipe não é cada um por si, é todo mundo brigando por todos, a união da família Grande Rio, o diálogo com a comissão de frente, com o mestre de bateria, com os diretores de harmonia, somos um conjunto e é isso que a escola precisava, se unir em prol do que a gente quer, que é o campeonato para a escola”, disse o mestre-sala.
“Esse enredo é muito importante, ele esteve presente dentro de vários enredos, mas nunca ganhou um destaque maior, então agora a escola deu esse destaque, o samba caiu no gosto popular e tem tudo para dar muito certo. Acho que devemos manter o mesmo nível de trabalho, a galera conseguiu manter, vocês vão ver na avenida um trabalho ainda mais lindo”, pontua Taciana.
Inspirados nas referências dos adornos da arte kemética, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis, Claudinho e Selminha Sorriso, completam neste carnaval, 30 anos de parceria, sendo 26 dedicados a defender o pavilhão da azul e branca da baixada. Com o enredo “Empretecer o Pensamento é Ouvir a Voz da Beija-Flor”, o casal desfila no segundo setor, que busca trazer de volta toda a cultura e intelectualidade que a história escondeu, a fantasia deles, mostra que o esplendor de uma civilização não está apenas em suas conquistas territoriais, mas sim na importância de construir heranças que irão inspirar seus descendentes a construir uma sociedade mais justa para seus irmãos.
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Em entrevista, Selminha explicou a estética da fantasia, predominantemente preta, com detalhes em azul, a indumentária é de um primor inigualável, a porta-bandeira, que ostenta um cabelão, desfila dessa vez “careca”, assim como Claudinho, na concentração, quem passava ficava curioso com o visual dos dois. Selminha ainda destacou a importância desse enredo que desde que foi anunciado emocionou a todos.
“A fantasia representa a força da mulher egípcia, que constrói com amor, a construção da vida só é sólida quando é construída com amor, quando existe respeito, educação, quando existe a família, eu represento essa força da mulher preta egípcia, porque construir destruindo é para os homens de mau coração, infelizmente estamos no século XXI ainda vivendo isso”, conta Selminha.
Sobre o enredo, a porta-bandeira conta que ele fez com pudesse se enxergar de outra forma, segundo ela, o enredo foi um presente e ao mesmo tempo uma grande missão.
“Esse enredo pra mim caiu como grande presente, simultaneamente com uma missão, presente porque eu me descobri enquanto mulher preta, eu descobri o que os livros didáticos não me contaram, eu descobri que tantas vezes fomos influenciados pelo pensamento europeu. Durante muitos anos eu tinha vergonha da minha origem, ao longo dos anos eu fui perdendo essa vergonha e fui me encontrando, mas com esse enredo eu me encontrei com tanta alegria, eu nunca mais quero ser aquela Selma de 50 anos atrás, porque com 51 eu descobri o Empretecer o Pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”.
Ao longo de três décadas de apresentações memoráveis, Claudinho e Selminha acumularam prêmios e sempre defenderam a dança do mestre-sala e porta-bandeira como um bailado em puro estado de arte.
Foto: Site CARNAVALESCO
A pandemia de covid-19 foi um momento duro para toda sociedade, para o mundo do samba não foi diferente, o cancelamento do carnaval em 2021 foi difícil, para o casal, poder pisar na avenida dentro desse contexto é ainda mais especial.
“É mágico, ainda mais depois de um momento que ficamos parados por dois anos, tentamos nós reinventar, foi um ano que a gente não tava acostumado, foram muitas perdas de pessoas que foram vítimas, vidas foram perdidas, eu mesmo perdi a minha mãe e outros amigos, parentes, então eu acho que o dia de hoje é a celebração da vida, vamos entrar nessa Marquês de Sapucaí e dar o máximo em respeito a todos que já se foram”, pontua Claudinho.
Ao longo desses dois anos de preparativos para este desfile, Selminha incorporou as bases do enredo da escola e atuou na linha de frente da escola pela luta antirracista. A porta-bandeira lutou pelo cumprimento da Lei 11.645, que trata o ensino da arte, cultura e histórias afro-brasileiras nas escolas da rede pública.
Foto: Site CARNAVALESCO
“A reparação tem que se fazer presente no dia a dia do brasileiro, que a lei 11.645 tem que ser posta em prática, porque um povo esclarecido é um povo evoluído, é um povo que aprende a respeitar o seu semelhante, tantas atrocidades que acontecem no nosso dia a dia é por desinformação, até mesmo entre nós pretos acontece o erro, muito por conta da falta de informação, é estrutural, no passado o preto não podia estudar, então essa reparação com a lei de cotas é fundamental que nós consigamos alcançar o que lá atrás foi tirado de nós, que é o direito a oportunidades iguais”, destaca Selminha.
Selminha fala sobre esses projetos e sobre a importância da escolinha de mestre-sala e porta-bandeira, iniciativa que já está na quarta geração de crianças aprendendo sobre o samba, segundo ela, isso garante a perpetuação da arte do Samba na Beija-Flor.
“Faço um trabalho com as crianças do instituto Beija-Flor, um trabalho que eu não tive a oportunidade de vivenciar, a escolinha não ensina somente a dançar, mas ensina noções de valores, de cidadania, de ética. É a Beija-Flor sendo mantida viva, hoje nós estamos, amanhã eles estarão, então temos um amor muito grande por essas crianças, já estamos na quarta geração. É necessário que eles entendam a importância de se assumir, de ter orgulho da sua cor, da raça, entender o quanto é importante respeitar o seu semelhante, independente da sua cor entender que eles tem que reivindicar os seus direitos”.
“A reparação tem que se fazer presente no dia a dia do brasileiro, que a lei 11.645 tem que ser posta em prática, porque um povo esclarecido é um povo evoluído, é um povo que aprende a respeitar o seu semelhante, tantas atrocidades que acontecem no nosso dia a dia é por desinformação, até mesmo entre nós pretos acontece o erro, muito por conta da falta de informação, é estrutural, no passado o preto não podia estudar, então essa reparação com a lei de cotas é fundamental que nós consigamos alcançar o que lá atrás foi tirado de nós, que é o direito a oportunidades iguais”, finaliza a porta-bandeira.
Última escola de samba a pisar no sambódromo do Anhembi, a Dragões da Real sofreu com os atrasos e o sol forte, e viu favoritismo desaparecer. O atraso na primeira noite de desfiles afetou diretamente a Dragões, por ser a última, pisou na pista com um sol forte.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
A primeira porta-bandeira da agremiação sofreu uma queda de pressão em frente ao setor B. Médicos e integrantes da diretoria ajudaram no canto da pista. A responsabilidade de levar o pavilhão oficial ficou na conta do segundo casal, Gabriela e Lucas.
Comissão de frente
Pra fazer uma representação ao samba, a comissão de frente da escola trouxe um tripé que representou uma caixa de fósforo, e nas laterais cenografia pra ilustrar um bar. A caixa de fósforo é uma associação direta ao homenageado, Adoniram Barbosa, que sempre utiliza o objeto pra acompanhar suas canções.
Os bailarinos também se caracterizam conforme o objeto, por isso os bailarinos estavam de palitos sambistas (versão masculina e feminina), e um que representou o Adoniram Barbosa.
Interação com a platéia em momentos distintos, principalmente durante a coreografia no tripé, é uma das características marcantes do coreógrafo Ricardo Negreiros, e foi notada no desfile da escola.
Harmonia
Inegavelmente o quesito sofreu uma queda de rendimento por conta dos acontecimentos, mas não significa que a escola deixou de cantar. As últimas alas cantaram forte e fecharam o desfile com animação.
Enredo
Importante citar que a homenagem da escola ao sambista Adoniran Barbosa foi feita através das obras musicais do artista, o que não segue uma ordem cronológica da vida. O que deu uma liberdade criativa pra escola abordar as características que suas músicas carregavam. Por exemplo: Sarcasmo, críticas sociais, bom humor, noitada, relacionamentos, parcerias e muito mais.
A escola apresentou elementos criativos, que não necessariamente tem ligação com o universo do samba, mas fez sentido com a proposta. As caveiras presentes no abre-alas nada mais é que uma ironia ao nome “Túmulo do samba”, dada à São Paulo.
Outro ponto de destaque criativo é terem enxergado a possibilidade de criar uma ala tendo como referência o samba “Torresmo à milanesa”. O acidente com a porta-bandeira pode afetar o quesito.
Alegorias
Pra aprofundar o tema já comentado acima, o carro abre-alas: “Túmulo do samba – Abraçando a batucada, saudades vou cantar”, era uma representação irônica, uma brincadeira, ao fato de Vinicius de Moraes ter chamado São Paulo como o túmulo do samba. Pra mostrar que tal afirmação é mal fundamentada, as caveiras levantam do túmulo e balançam o esqueleto. Revertendo então a ideia.
Já a segunda alegoria é uma homenagem à Saudosa Maloca. Como a música sintetiza a dureza da vida social de forma leve e bem humorada, a escola resolveu materializar essa comunicação através de coreografia.
A alegoria seguinte foi um grandioso trem, uma associação rápida à música “Trem das Onze”. O carro então sintetizou também o que o local representava, por isso notou-se momentos idas e vindas.
A quarta, e última alegoria, trouxe o símbolo maior da escola, o Dragão, que conduziu as homenagens aos baluartes do samba paulistano.
Fantasia
A questão criativa presente nas alegorias, também ganhou destaque nas fantasias. A ala 02 (As gárgulas e as “Arma penada”), continha uma espécie de asa e, ao abrirem, mostravam letras. Os componentes, que evoluíam de forma coreografada, se juntavam na ordem que as letras formavam o nome do homenageado, “Adoniran”. Outros componentes também chamaram a atenção pelo tamanho da caveira como costeiro.
A agremiação encerrou o desfile com uma homenagem às escolas de samba, e por isso contou com várias alas que homenagearam escolas de samba, como: Nenê, Vai-Vai, Peruche e muito mais.
Samba
Novidade no carro de som do Renê Sobral, as vozes femininas ganharam destaque. Notou-se uma segunda voz feminina, no trecho: “Dragões, amanheço em teus braços. Rene também fez variações, utilizou cacos e sustentou o samba.
Evolução
O acidente fez a escola ficar parada por um tempo, mas ao retomar o padrão no andar, seguiu da mesma maneira. Assim como dito no quesito de harmonia, pode ser repetido em evolução: os acidentes atrapalharam pra alcançar um desempenho maior.
Sexta escola a passar pela pista nesta primeira noite de desfiles, a Acadêmicos do Tatuapé levou o enredo “Preto Velho conta a saga do café num canto de fé”. A apresentação foi marcada pelo o péssimo desempenho da evolução da escola. O abre-alas emperrou e abriu um buraco gigante entre tal alegoria e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. Os responsáveis pelo andamento do desfile, não conseguiam resolver o problema e o caos foi instaurado por volta de três minutos. Uma enormidade. A repercussão foi imediata. Diante disso, muito provavelmente a agremiação irá levar notas baixas na apuração. Um desfile recheado de expectativa com briga pelo título, virou um drama. Agora, o Tatuapé pode facilmente brigar nas posições mais baixas da tabela. * VEJA FOTOS DO DESFILE
Comissão de frente
A comissão do Tatuapé, liderada pelo coreógrafo Leonardo Helmer, consistiu em mostrar o amor que Preto Velho tem pelos seus divinos orixás. A sensação é que realmente a entidade está em Aruanda, que é o paraíso espiritual dos orixás. Dentro da dança, se tem o próprio Preto Velho, além dos orixás Nanã, Iemanjá, Obá, Oxum, Oxalá, Obaluaê, Logum Edé, Iansã, Ossain, Xangô, Oxumaré, Ogum, Exú e Oxóssi. Todas essas entidades, vestiam grandes costeiros e cada um carregava seu adereço de identidade significativa na mão. Destaque para os martelos de Xangô, arco e flecha de Oxóssi e espelho de Oxum. Outra ressalva também é a maquiagem de todos os integrantes da ala. Apesar da proposta do enredo enfatizar a história do café contada pelo Preto Velho, na encenação, vimos apenas as entidades. A coreografia inteira foi executada no ritmo da melodia do samba.
Mestre-sala e porta-bandeira
O casal Diego do Nascimento e Jussara de Sousa, representando a “Realeza Africana”. A dupla fez uma dança enérgica, onde giravam e apontavam um para o outro o tempo todo. Mantiveram o sorriso no rosto o tempo todo durante o ato de bailar. Porém, foram prejudicados pelo buraco que se formou no recuo entre eles e a primeira alegoria. Ficaram bastante tempo dançando em um terço à frente do recuo, quando era para basicamente estarem no fim das apresentações para os jurados. Nessa questão, o planejamento foi por água abaixo devido à fraca evolução do Tatuapé. A fantasia de ambos era preta e branca, combinando com as cores do abre-alas. Dificilmente se vê cores neutras em casais de mestre-sala e porta-bandeira e, a Tatuapé, decidiu fazer diferente com Diego e Jussara.
Harmonia
Novamente, o canto do Tatuapé foi gigante no Anhembi. Há um bom tempo a comunidade ‘Zona Leste Guerreira’, vem se mostrando ótimos desempenhos em relação ao quesito. Em questão de puxar a comunidade para o samba, o intérprete Celsinho Mody é um dos melhores do carnaval paulistano. Ele colocou uma energia impressionante do início ao fim. A aceleração da bateria dentro da melodia do samba, culminou para tal desempenho da comunidade para com essa parte do desfile. Como nos ensaios técnicos, é até difícil dizer qual ala cantou mais ou menos, mas vale destacar o empenho da ala das baianas, que cantaram fortemente. As partes mais cantadas foram o refrão principal, onde a palavra ‘saravá’ é entoada com mais força. A última estrofe do samba, onde se canta ‘aruanda’, também se destaca dentro da letra.
Enredo
“Preto Velho canta a saga do café num canto de fé”, foi uma boa sacada da escola. O enredo une a entidade Preto Velho com o precioso e histórico fruto que é o café. Dentro disso, o primeiro setor contou como o fruto foi propagado pelo mundo. O café passou pela Arábia até chegar na África. Também é falado do fruto nas senzalas, como os endinheirados enriqueceu através dele no uso do trabalho escravo. O desfile também passa pelo café na arte, onde levou uma alegoria com escultura de pintor e do cantor Roberto Carlos. Por fim, fechou com o carro alegórico de Aruanda, berço divino dos orixás e lar de Preto Velho.
Evolução
A evolução da escola foi péssima. Em frente ao recuo, o abre-alas empacou e abriu um enorme buraco entre o casal de mestre-sala e porta-bandeira, causando divisão da escola. Nessa situação, os responsáveis pela alegoria e harmonia da agremiação, não souberam como resolver e, só depois de 3 a 4 minutos, o carro andou, o que significa uma enormidade em um desfile de escola de samba. Devido a isso, a escola teve que correr consideravelmente para passar no tempo, fechando o desfile com 1h03m.
A coreografia dentro do samba, têm algumas partes padronizadas. Na parte do ‘Aruanda’, todos levantam o braço para cima. Logo após o primeiro refrão, onde o samba fala ‘incorporei’, os componentes movimentam o corpo para trás e para frente. Esse efeito, com as plumas dos costeiros, deu um efeito especial dentro da pista.
Samba-enredo
A letra do samba-enredo traz uma concepção diferente. A parte do ‘tanacinê, tanasanã, ina inê, tanuotã’, trouxe um algo a mais e pegou dentro da obra. Já era esperado. Os componentes puderam cantar e coreografar de maneira satisfatória devido à essa parte. As alas coreografadas também usaram bastante desse verso. O intérprete Celsinho Mody teve uma grande atuação e, junto da bateria ‘Qualidade Especial’, regida pelo mestre Higor, conseguiu obter sucesso dentro do quesito.
Fantasias
Diferente dos últimos anos, o Tatuapé inovou em suas fantasias e levou vestimentas criativas. Apostou bastante em plumas e detalhes minuciosos dentro de costeiros. Não se resumiu apenas em fazer o básico dentro do quesito. A revolução das fantasias não condiz tanto com as alegorias da escola, que será o próximo tópico a ser abordado.
Alegorias
A primeira alegoria, veio representando “Cazuá do Preto Velho e África berço do café”, onde tinha uma grande escultura central do Preto Velho junto com as velas, simbolizando um terreiro. No acoplamento, pudemos ver animais e esculturas com vestimentas afro, simbolizando a África. Na frente da alegoria e no centro, pudemos ver um efeito em que saía aroma de café.
O segundo carro, simbolizou “A Casa Grande e Senzala: reluziu o ouro negro, ‘meu sinhô”. No centro, a figura do Preto Velho e, ao lado dele, esculturas de escravos carregando sacos. No topo, uma figura de um homem segurando uma nota de dinheiro, ou seja, enriquecendo em cima do trabalho escravo.
A terceira alegoria, representou o café e a arte, onde pudemos ver esculturas do artista Roberto Carlos e, no topo, a figura de um pintor. No carro inteiro, havia latas de tintas. Também um efeito que soltava aroma de café.
Por fim, a quarta e última alegoria, simbolizou Aruanda, que é o paraíso divino dos orixás e, nele, tinha figuras de oxum.
Ao todo, o Tatuapé mostrou o mesmo nível de alegoria dos anos anteriores. Esculturas simples, trabalhando apenas para apresentar algo que traga nota de qualquer forma. Não se preocupou com o belo. Lembrando que nos últimos dois anos, a agremiação perdeu dois campeonatos devido a esse quesito.
Outros destaques
A bateria ‘Qualidade Especial’, teve um desempenho satisfatório. O andamento foi feito da forma que o samba pede. A forma acelerada de se batucar, virou característica da escola e, as bossas desempenhadas, foram executadas com sucesso. Destaque para o arranjo de Aruanda, onde a bateria faz uma pequena paradinha, deixa a escola gritar a palavra pelas duas vezes e volta na chamada do samba.
Última escola a encerrar o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial, a Beija-Flor voltou aos tempos de imponência e luxo na Sapucaí. Com carros alegóricos gigantes e bem acabados, e com fantasias impecáveis, a escola de Nilópolis foi irretocável na parte plástica. No entanto, a agremiação cometeu alguns erros de evolução, teve ausência de composições na segunda alegoria e somou problemas na apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira A Beija-Flor cruzou o Sambódromo em 67 minutos. * VEJA FOTOS
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Comissão de Frente
Coreografada por Marcelo Misailidis, a Comissão de Frente da Beija-Flor trouxe 15 homens que representavam Macuas, povo originário de Moçambique. A intenção do primeiro quesito da escola foi fazer uma reflexão sobre ações que privam o povo negro de conhecer seu passado, a ancestralidade do povo. Sobre a memória arrancada e o apagamento da cultura do povo preto durante e pós-escravidão. A coreografia se deu toda em cima de um elemento cênico. Homens brancos carregavam um molde de navio em ferragens simbolizando a colonização, enquanto escravos faziam coreografia no chão. Na sequência um painel com imagens acende e o busto de um navegador branco em isopor explode. No lugar, sobe um homem negro, afirmando seu lugar de pertencimento. Toda coreografia demorou cerca de três minutos.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Claudinho e Selminha Sorriso vieram representando o ‘Esplendor de Kemet’, que significa ‘terra negra’. A dança dos dois quis passar a ideia da irradiação do poder ancestral, com a movimentação do pavilhão em representação da releitura dos caminhos para o povo preto. A roupa dos dois causou grande impacto visual, com o contraste do preto com o dourado e os detalhes em azul em alusão à escola. A fantasia de ambos também estava muito bem acabada nos quase 2m10s de coreografia.
Apesar da beleza dos figurinos, Selminha e Claudinho tiveram apresentação problemática no segundo módulo. Os dois tiveram leve esbarrão, o mestre-sala deixou escapar o pavilhão na hora de mostrá-lo aos jurados e no fim, ainda somaram outro erro. A porta-bandeira não estendeu a mão para o mestre-sala quando deveria, e quando o fez, ele recuou e beijou a própria mão. Visivelmente abalados, a dupla não conseguiu reproduzir o mesmo bailado no último módulo e apresentaram pouca coreografia.
Harmonia
Um dos pontos positivos do desfile da Beija-Flor. A comunidade nilopolitana brilhou com o canto, com destaques para as alas 4 ‘Por que o Negro é Isso que a Lógica da Dominação Tenta Domesticar?’; 14, ‘Machado de Assis: A Mística de Quem Somos na Capa’, e ‘O Balé dos Terreiros: Somos Filhos de Deuses que Dançam’. O canto foi uníssono durante toda Sapucaí, os problemas de evolução não influenciaram no canto.
Enredo
No primeiro setor, a escola retorna à África, para entender a grandiosidade e a importância do continente, mostrando que lá é onde tudo começou para o povo preto brasileiro, e não na escravidão. As civilizações africanas ganham destaque neste primeiro momento. Na sequência, a Beija-Flor fala sobre a produção intelectual na África, que veio, inclusive antes da Grécia, que é considerada como berço da civilização. O setor traz o questionamento de porque não existirem grandes esculturas pretas, assim como as dos gregos. O colonizador taxa o negro de não inteligente por não ser cristão, e este passa e não entender que também pode produzir intelectualmente.
No terceiro setor, a Beija-Flor conversa sobre a ancestralidade através das produções do povo preto, sem negar as origens e a religiosidade nas matrizes africanas. Em seguida, a escola mostra que o povo preto pode escrever sua própria história, citando obras literárias pretas que foram apagadas da história, e personagens que tentaram embranquecer, como Machado de Assis. No quinto setor, a escola coloca o povo preto como protagonista nas mais diversas expressões culturais, como o teatro, mostrando a importância de ocupar lugares de visibilidade. O último setor traz ainda o questionamento sobre a questão racial no Brasil e a importância da luta contra o preconceito. A escola fala sobre as mudanças necessárias em um país racista como o Brasil. O enredo foi contado de forma linear e soube passar a mensagem na Avenida.
Evolução
A Beija-Flor acumulou alguns problemas de evolução durante a passagem pela Sapucaí. Logo no início, a segunda alegoria demorou a entrar no Sambódromo, o que fez com que a escola retardasse o passo na Avenida. O motivo foi a tentativa de colocar algumas pessoas nos lugares de destaque do carro. Assim permaneceu por alguns minutos até o carro avançar e a escola voltar a andar novamente. Por conta do atraso no início, a escola teve que correr no fim, e várias alas e as três últimas alegorias passaram de forma muito rápida nas cabines de jurado do setor 11.
Samba
O samba da Beija-Flor teve grande rendimento no desfile e a escola cantou bastante a obra. Neguinho da Beija-Flor e o carro de som fizeram bom trabalho, e não deixaram os problemas de evolução abalar a performance. O refrão e o refrão do meio foram as partes mais cantadas. Do verso ‘Foi-se o Açoite e a chibata sucumbiu’ até ‘E o meu povo ainda chora pelas balas do fuzil’. Na sequência, o samba dava uma queda e era menos cantado na parte ‘Quem é sempre revisado é refém da acusação’ até ‘Retirando o pensamento da entrada de serviço’, o que não atrapalhou o desempenho da obra.
Fantasias
Com bastante preto, azul e dourado, as primeiras alas da Beija-Flor passaram com bastante luxo e chamaram bastante atenção. O figurino casou com a primeira alegoria e com o figurino do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira. ‘Ancestralidade e Movimento’ e a ‘Monumentalidade Intelectual de Kemet’ foram alas aclamadas pelo público pela beleza. A ala 7, ‘O Tabuleiro Global’, também brilhou em cores branca e dourada, além de uma imagem do geógrafo negro Milton Santos, que escrevia sobre a crueldade da globalização nas camadas mais pobres do mundo, incluindo negros do Brasil.
Com riqueza de detalhes representando as mais diversas culturas negras, a ala das Baianas ‘Saluba Rosanas’ chamou atenção pela beleza do figurino e imagem de alguns baluartes negros da escola. A ala 27, ‘Asas Para o Sonho’, trouxe vários elementos na fantasia, e estandartes com imagem de alguns personagens negros de importância no Brasil. Ao fim da apresentação, a ala 27, ‘Nkosi’ê: A Espada é a Lei por Onde a Fé Luziu’, também passou arrancando elogios do público pela beleza, com figurino azul, com detalhes em verde e prateado. A ala representou a espada Nkosi’ê, que significa ‘aquela que luta por nós’, reforçando a luta contra o preconceito racial. Na ala 29, ‘A Contagem não Para’, parte do figurino dos componentes tinha luzes azul em neon.
Alegorias
Logo na primeira alegoria, a Beija-Flor mostrou que viria com carros grandes e de muito luxo. O Abre-Alas ‘Traz de Volta o que a História Escondeu’ trouxe um olhar da Beija-Flor para o passado para projetar o futuro negro, vislumbrar a ancestralidade como ponto primordial para desenvolvimento do planeta. A ideia com as cores azul, preto, dourado, além da iluminação dão tom de um Afrofuturismo. O mascote da escola mostrou imponência, assim como uma grande árvore no Abre-Alas.
O carro tinha ao todo três chassis, mas no segundo módulo, um dos animais projetados no início estava com uma parte quebrada. A segunda alegoria, ‘O Voo Livre do Pensamento Afrosófico’ trata sobre os grandes pensadores negros, que tiveram histórias apagadas, histórias negras que passaram por embranquecimento. O carro tinha imagens africanas esculpidas na cor branca, em alusão ao mármore grego. Um pote dourado, com uma coruja em cima representou a sabedoria ancestral. A alegoria também estava muito bem acabada e luxuosa, mas fez o desfile todo sem três destaques, deixando espaços vazios no carro.
A terceira alegoria ‘A Arte da Forja de Ser’ trouxe a reflexão sobre saber as origens de ancestralidade e respeitá-las. A escola trabalha em primeira pessoa no carro, onde leva os moldes de Silvestre David da Silva, o Cabana, com imagens de Ogum e Oxum, que é a figura central da alegoria em dourado. O carro, predominantemente roxo possui esculturas feitas pelo artista preto Jorge dos Anjos. O quarto carro alegórico levou para a Avenida uma favela moldada por alguns livros com a crítica do cerceamento da educação e da manifestação cultural do povo preto. A acusação sempre feita aos negros e a limitação do crescimento imposta aos mesmos. Na traseira, um sol simboliza a conquista do povo preto de um lugar ao sol. A alegoria foi bem carnavalizada e não deixou a desejar em relação as outras.
Na quinta alegoria, a Beija-Flor traz um grande palco onde o negro é coroado e conquista o protagonismo merecido. Composto todo por pretos a composição do carro exibe a cultura, a dança negra em evidência no lugar mais nobre do espetáculo. Uma grande escultura de bailarina preta foi vista na traseira, passando a coroa para o último setor da escola, que representa a luta cotidiana do povo preto. O desfile é encerrado com uma grande alegoria que faz menção à escola, como um grande Quilombo do samba. Uma enorme escultura remete à baluarte Pinah, e o carro, com predominância de cores em azul e dourado, exalta a cultura do povo preto da Beija-Flor, apontando para um futuro de protagonismo dos negros. Laíla também foi homenageado com escultura na alegoria final.
Outros Destaques
Rainha de bateira, Rayssa Oliveira veio com roupa toda em dourado com a fantasia ‘Poétnica’. Os ex-BBB’s Natália Deodato e Babu, o ator Hélio de La Peña também desfilaram na escola. A fantasia da bateria ‘Gramática do Tambor: Nei Lopes’ tinha detalhes em prateado. Grande baluarte da escola e homenageada na Avenida, Pinah veio à frente do último carro.
A bateria Furacão Vermelho e Branco de Mestre Ciça fez um grande desfile. Uma boa afinação de surdos foi notada, amparando os demais instrumentos numa plataforma grave sólida. O balanço das terceiras se deu de forma irrepreensível. Um naipe de caixas de guerra com batida uniforme, limpa e acrescentando volume à cozinha da bateria da Viradouro. O acompanhamento das peças leves foi consistente. O naipe de tamborins tocou com solidez e firmeza, acrescentando valor sonoro, assim como a ala de chocalhos adicionou volume à cabeça da bateria.
O trabalho da ala das cuícas também merece menção musical. As paradinhas da escola uniam ousadia rítmica e tentativa de interação popular quase constante. A concepção dos arranjos musicais foi voltada para o aspecto do espetáculo. A paradinha de maior destaque musical, garantindo ovação do público foi a que continha solo de caixas, repiques, com adição sonora de pratos para os momentos de pressão e explosão. Essa bossa ainda conteve um toque de caixas remetendo a marchinhas, numa alusão aos antigos carnavais, além da produção de um clima circense.
Infelizmente, a harmonia não parou a escola para apresentação no primeiro módulo de cabine dupla de julgadores. Sendo assim, a passagem da Furacão Vermelho e Branco na referida cabine, bem como sua avaliação, pode ter sido prejudicada por um erro que não compete a bateria. As demais passagens ocorreram sem qualquer outro transtorno, seja no aspecto musical ou relacionado à evolução. A apresentação da bateria da Viradouro de mestre Ciça na última cabine dupla de jurados ganhou contornos apoteóticos, com aplausos dos jurados e delírio da plateia.