A Mocidade Unida da Mooca foi a terceira escola a passar no Sambódromo do Anhembi, em desfile válido pelo Grupo de Acesso 1. Com um enredo afro, a agremiação fez um desfile correto, buscando se manter dentro do esperado pelo regulamento. Destaques para a cabeça da escola, onde a comissão de frente fez grande apresentação e contou com um gigantesco carro Abre-alas, e presença do intérprete consagrado Ito Melodia no carro de som. A apresentação do enredo “Aruanda – O Eterno Retorno” foi finalizada em 55 minutos, com grande tranquilidade.
Comissão de Frente
Um ritual de invocação marcou apresentação da comissão de frente. A coreografia contou com o apoio de um tripé que servia de templo, onde Exu, protegido por anjos guardiões, observava a todos e adentrava na pista para liderar as incorporações de filhos de santo por Zé Pilintra e Preto Velho. Nesse momento, os personagens eram vestidos rapidamente e assumiam um estilo único, sempre um de cada vez, e eram seguidos em uma apresentação pelos demais componentes. A interpretação durava exatas duas passagens do samba, e foi uma bela maneira de iniciar um desfile com essa temática, que foi assinada pelo coreógrafo Nildo Jaffer.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Jefferson Gomes e Monalisa Bueno defenderam o pavilhão principal da Mocidade com uma apresentação segura e bem sincronizada. O casal, que representou Exu Mensageiro e o Poder da Fé, eram protegidos por guardiões vestidos de “A Nobreza da Noite” e compuseram belo conjunto. A dança foi bem executada em frente a diferentes módulos, o que pode ser um bom sinal nas pretensões da escola.

Harmonia
Esperava-se mais do canto da escola com base no visto nos ensaios. Foram percebidos clarões em diferentes momentos, e não houve grande destaque de alguma ala no quesito. O samba foi bem interpretado pelo carro de som, mas a comunidade aparentou não corresponder à altura, o que acabou fazendo a bateria fazer uma apresentação mais conservadora. Pode ser um quesito problemático na hora da apuração.
Enredo
De leitura fácil, o desfile começou apresentando Luanda antes da chegada dos europeus, cuja invasão foi representada pelo carro Abre-alas. A partir desse momento, o público é apresentado a diferentes figuras que compõem a falange de Aruanda, que é o nome que foi dado pelos escravos ao local sagrado onde as entidades se localizam e tem origem no desejo de retornarem a sua terra natal. Por fim, diferentes manifestações culturais das religiões de matriz africana são representadas, no desfecho de um desfile linear e didático.

Evolução
A Mocidade não precisou correr para finalizar seu desfile e passou com tranquilidade, mas alguns erros básicos em diferentes pontos foram observados. A ala Boiadeiros perdeu-se na organização em frente ao segundo carro da escola, e ficou visivelmente disforme na região do segundo módulo, a ponto de os chefes de ala repreenderem severamente os componentes. Logo após a saída do primeiro recuo, a bateria arriscou uma bossa, mas para isso parou de andar, enquanto a ala da Congada acabou avançando por um trecho considerável.
Samba-Enredo
O samba da escola da Mooca conseguiu contar com clareza os diferentes momentos do desfile. O rendimento na pista, porém, ficou abaixo do esperado e transmitiu uma frieza inesperada para o nível da obra. O carro de som ficou devendo e não apresentou nenhum momento de grande destaque, tendo atuação muito protocolar.

Fantasias
Ponto forte da escola na apresentação, o público foi agraciado com um belo conjunto de fantasias. O desfile começou muito bem, com a ala das baianas representando as águas das praias de Luanda, a espuma branca e nzimbos, conchas que eram utilizadas como moeda de troca pelos povos da região. Com grande volume, as roupas dos componentes formaram um belo tapete colorido por toda a avenida e eram de fácil leitura, todas dentro da proposta do enredo.
Alegorias
A Mocidade iniciou seu desfile com um carro Abre-alas imponente, que retratava a chegada dos invasores nas praias de Luanda. Composto por dois eixos, retratou com qualidade a proposta do enredo e serviu para dar um gás inicial no desfile da escola. Os demais, porém, ficaram em um nível abaixo do primeiro e foram de difícil leitura, além de acabamento explicitamente mais simples.
Outros destaques
O discurso do presidente da agremiação, Rafael Falanga, marcou o início da apresentação da escola ao fazer uma crítica velada ao julgamento do carnaval de 2020, onde na visão dele a Mocidade fez um carnaval “campeão”. À frente da bateria, a rainha Camila Silva interagiu com o público e fez a sua parte para levantar o astral da apresentação, no geral, segura da Mocidade.



A Acadêmicos de Santa Cruz uniu toda a força da comunidade da Zona Oeste para homenagear a vida e obra do ator Milton Gonçalves, no enredo “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”, desenvolvido pelo carnavalesco Cid Carvalho. Além da indiscutível relevância da estrela na história do teatro e do audiovisual brasileiro, a Santa Cruz procurou mostrar a origem do ator, das lembranças de sua cidade natal Monte Santo, em Minas Gerais, além dos personagens e trabalhos marcantes.
Ligado a religião de matriz africana, os orixás e mitos aspectos da cultura de matriz africana são traços transversais da homenagem da Santa Cruz. A família acredita que esta abordagem do enredo se conecta muito com a personalidade de Milton, na perspectiva de transmitir um conhecimento novo para o público que desconhece a Umbanda e o Candomblé.










Banhada na ancestralidade negra, a Acadêmicos de Santa Cruz abusou do axé da cultura de matriz africana para estruturar a homenagem ao ator Milton Gonçalves no enredo: “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”, de autoria do carnavalesco Cid Carvalho.
Toda composta por tons de roxo e variações, a alegoria trazia uma grande escultura de Nanã e trechos com escritos de livros nas laterais. No entanto, além da bem acabada escultura, o destaque principal da alegoria fazia uma menção ainda maior à senhora do barro, uma legítima filha de Nanã na alegoria. Elaine ty Nanã comentou a satisfação de dar vida a representação da grande Mãe na avenida.
Reeditando o enredo de 1995, a Estácio de Sá entrou na avenida contando a história e os títulos conquistados pelo Clube de Regatas do Flamengo. Com a temática “Cobra-Coral, Papagaio-Vintém, Vesti Rubro-Negro Não Tem Pra Ninguém”, desenvolvida por Wagner Gonçalves e Mauro Leite. A escola trouxe uma alegoria que representa a “Festa na Favela”.
Vestida como motoqueira, a torcedora e também componente da alegoria, Kelly Medeiros, de 40 anos, é apaixonada pelo clube e pela escola vermelha e branca. Desfilando pela segunda vez na agremiação, a profissional de recursos humanos não conseguiu esconder a emoção. Com o enredo da escola em homenagem ao time de coração, ela relata o quão grata está por esse momento:
Magia, é algo que define o sentimento da analista de marketing, Júlia, de 23 anos. Para ela, desfilar no carnaval é mágico, pois é o que ama fazer. Juntar isso com o Flamengo é totalmente diferente do que já viveu e que não tem explicação. “ Sou muito fã do carnaval e acho essa festa linda. Poder representar a favela que é a origem de tudo, que representa a torcida do Flamengo é maravilhoso e fico arrepiada só de falar sobre isso. Esse time é minha vida e, é inexplicável tudo o que sinto. Agradeço muito ao clube e a Estácio por ter me dado essa oportunidade”, diz Júlia.
O desfile de 1995 da Estácio de Sá, foi memorável para todos que estavam presentes lá. Seja os torcedores, jogadores, funcionários e ídolos do clube, a passagem foi marcante e histórica.
