
A Camisa 12 realizou no último sábado o evento de lançamento do enredo para o Carnaval 2027. A festa contou com diversas atrações de samba e uma grande feijoada, até chegar ao momento mais aguardado: o anúncio do tema, que aconteceu durante a tarde. Para o próximo desfile, a escola contará com uma comissão de carnavalescos formada pelos estreantes Leno Vidal e Fernando Dias, além de Delmo Moraes, que já integrava a agremiação.
O responsável por apresentar o tema à comunidade, no palco, foi Leno, que fez a leitura de um texto. O enredo irá exaltar o orixá Ogum, destacando suas batalhas e sua importância nos dias atuais, com ênfase no ferro e na tecnologia. Os profissionais envolvidos, incluindo o diretor de carnaval Demis Roberto, fizeram questão de ressaltar que não haverá sincretismo religioso. Portanto, a escola não pretende levar São Jorge para a avenida. O evento foi encerrado com o repertório de sambas comandado pelo intérprete Tim Cardoso e pela bateria “Ritmo 12”, sob a regência do mestre Lipe.
Os carnavalescos Delmo Moraes, Leno Vidal e Fernando Dias conversaram com o CARNAVALESCO e detalharam o tema “Meu terreiro é protegido. Ogunhê – A força que atravessa o tempo”, que guiará a “pantera” no Carnaval 2027.

Enredo forte e pertencimento para a escola
O carnavalesco mais experiente da equipe e da escola, Delmo Moraes, não escondeu a felicidade em desenvolver um desfile sobre Ogum, seu orixá regente. “Para mim, é uma grande honra falar do meu orixá de cabeça. Eu sou filho de Ogum, na nossa religião de matriz africana. Nós vamos trazer um Ogum sobre o qual vamos falar da metalurgia, das profissões e dos caminhos que Ogum proporciona para a gente. Nós não vamos falar de sincretismo religioso, não vamos falar de São Jorge, até para não haver uma equiparação com a nossa coirmã, Gaviões da Fiel, que já lançou o enredo deles como São Jorge. A gente não vai entrar nessa parte, mas vamos falar da tecnologia da metalurgia de Ogum, dos caminhos abertos”, disse.
Fernando Dias, que fará seu primeiro carnaval pela escola, exaltou o nível da concorrência e destacou a necessidade de um tema forte para enfrentar as demais agremiações do Grupo de Acesso 2. “A gente buscou um enredo forte, até porque sabemos que a concorrência é forte. Então, achamos melhor sair na frente com um enredo que vai fazer as pessoas se posicionarem. Vão ter que correr atrás, porque Ogum está trilhando o nosso caminho”, comentou.

Outro estreante, o carnavalesco Leno Vidal, afirmou que uma das intenções do enredo é fazer com que a comunidade se sinta parte da narrativa, já que Ogum é o orixá protetor da Camisa 12. “O interessante é trabalhar o espaço da escola. O que a gente traz para a comunidade se sentir pertencente também nesse contexto, nessa grande potencialidade do enredo? É trazer a comunidade para dentro do enredo, no caso, o seu protetor, que é Ogum. Através desses conceitos, nós vamos apresentar uma grande diferenciação nesse processo, que é a filosofia estética afrofuturista, na qual se coloca a África como centralidade humana, fazendo com que a África ancestral seja, exatamente, o futuro do mundo. No caso, nós traremos Ogum como esse precursor do ancestral, do presente e do futuro, em todos os tempos”, contou.
Separando Ogum de São Jorge
É comum que Ogum e São Jorge caminhem lado a lado na cultura brasileira. Inúmeros cânticos, sambas e desfiles fazem essa associação, já que o sincretismo é recorrente. No entanto, a Camisa 12 pretende exaltar apenas Ogum, e o carnavalesco Leno Vidal explicou como isso será feito. “Nesse contexto, quando a gente opta por não abordar o sincretismo religioso, é porque existem dois processos de sincretismo. Um foi muito positivo, no sentido de preservar a matriz africana por meio da associação com santos. Mas existe também outro processo que é um pouco perigoso, porque acabou embranquecendo demais a cultura africana. O nosso viés é exatamente mostrar que não vamos abordar isso. Sabendo da força e da energia de São Jorge, que também é um santo guerreiro, assim como Ogum, a gente entende essa divisão. Mas Ogum, na sua ancestralidade, vem muito antes, no berço da humanidade, antes das cruzadas e do momento cristão em que surge São Jorge. A gente sempre destaca que Ogum vem primeiro, na sua essência africana, porque ele desenvolve os ferros. Por isso, ele carrega essa simbologia dos caminhos, das guerras, dos elmos e de outras representações que aparecem em diversas civilizações, não só na romana, mas em muitas outras, com diferentes usos do ferro. É importante mostrar essa essência de Ogum no início, que depois transborda para outros universos, onde São Jorge acaba sendo associado a ele”, ressaltou.

Delmo revelou que o trabalho vem sendo desenvolvido há algum tempo, incluindo a parte plástica do desfile. “Nós já estamos trabalhando nisso desde o fim do último carnaval. O nosso foco agora é dar continuidade ao processo de pilotagem das fantasias, e já iniciamos o desenho das alegorias. Vai ser algo maravilhoso, diferente do que todo mundo está esperando”, contou.
Ao entrar em detalhes técnicos sobre a estratégia de desfile, especialmente no aspecto visual, Fernando destacou que a proposta é focar no ferro. “Inclusive, uma das coisas que a gente mais discutiu foi a ideia de fazer um barracão diferente, porque as pessoas vão esperar um tipo de desfile, e estamos seguindo por outro caminho. Como o Leno falou, onde nasce o ferro, onde ele é extraído, onde ele surge… É isso que a gente quer mostrar. Estamos trazendo algo muito diferente do que estamos acostumados a ver: a origem da ferramenta, o essencial, onde tudo começa. A africanidade não vai deixar de existir”, revelou.

Expectativa por um grande samba
Delmo elevou as expectativas em relação ao samba-enredo e revelou que a obra está praticamente pronta. “Na nossa escola não tem disputa, e nós já estamos praticamente com o samba pronto também, e é uma ‘paulada’. Você sabe muito bem que a Camisa 12, de uns quatro anos para cá, vem trazendo sambas maravilhosos, e esse não vai deixar a desejar, pode ter certeza”, afirmou.

Leno também projeta uma obra de excelência, com potencial para exaltar a africanidade com alta qualidade. “Pode ter certeza de que teremos um samba muito grandioso, muito forte, potencializado dentro daquilo que estamos pensando: essa africanidade toda, esse universo, esse corpo preto que representa Ogum para a cultura negra, ancestral, africana e brasileira”, disse.










