
A Unidos da Tijuca esteve no HZ Estúdio, em Curicica, no Rio de Janeiro, para gravar o samba-enredo que integrará o álbum oficial da Rio Carnaval 2027. A escola levará à Avenida o enredo “A Cabeça do Santo”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato. A agremiação será a segunda a desfilar na Sapucaí na segunda-feira, 8 de fevereiro. A comunidade do Borel contará uma história de forte religiosidade popular, inspirada no livro A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli. O romance acompanha a jornada de Samuel, que, no leito de morte da mãe, promete encontrar o pai e a avó. Ao chegar à cidade de Candeia, ele se abriga no interior da cabeça oca de uma estátua gigante e inacabada de Santo Antônio.
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A vitória do samba na Unidos da Tijuca teve um significado especial para Ian Ruas. O compositor contou que participa de disputas há quatro anos em homenagem ao pai, o compositor Zé Carlos Miranda, bicampeão na Portela em 2019 e 2020, e que a vitória na escola do Borel foi a primeira de sua trajetória. O jovem compositor viveu uma noite histórica ao vencer na Tijuca e no Salgueiro na mesma noite, com poucos minutos de diferença.

“Eu fiz questão de me apresentar nas duas escolas. Deu tempo e eu voltei do Salgueiro para pegar o resultado da Tijuca. No carro, a gente recebeu o resultado que tinha ganhado. Foi uma emoção inacreditável, incrível. Há quatro anos eu faço isso para homenagear o meu pai. Essa sendo a primeira vitória, foi muito significativa para mim. Principalmente sendo uma escola que eu nunca tinha participado de uma disputa, e me abraçou de uma maneira inacreditável, carinhosa. Recebi carinho de todos os segmentos, então foi muito especial para mim ter a minha primeira vitória na Unidos da Tijuca. Isso foi muito, muito especial”, declarou.
Ao explicar o caminho criativo da composição, Ian contou que procurou identificar o sentimento que atravessa o enredo. Para ele, a sinopse e as entrevistas com integrantes da escola apontaram para o afeto e a emoção como elementos centrais.
“A primeira coisa que eu faço, o diagnóstico que eu faço da sinopse, do desfile após a contemplação da sinopse, é entender ou tentar entender ou sugerir o que está por trás daquele desfile, o que está na alma daquele desfile. E, pela sinopse da Tijuca, em conjunto com uma série de entrevistas que eu assisti, dos segmentos da escola, eu entendi que tinha um contexto de afeto, de emoção inserida de maneira muito forte nesse enredo”, explicou.
Em meio a semanas de disputa acirrada na Tijuca, o samba se destacou por não recorrer a estereótipos linguísticos e por apresentar uma referência melódica fora do senso comum para um enredo regional. O compositor associa o destaque ao enfoque sentimental da narrativa que conduz o samba.
“Eu sabia que a gente tinha que capitalizar, fora brincadeira, fora ser um regionalismo, a gente tinha que capitalizar na emoção. Então, ter passado por essa experiência recentemente também me aflorou muito esse sentimento em mim e a vontade de que isso fosse algo muito honesto, que fosse um discurso honesto. E estereotipar esse discurso, para mim, não cabia, não seria coerente com o que eu achava que a escola realmente queria trazer para a avenida”, afirmou.
Ian também descreveu a composição como uma obra dividida em diferentes momentos: “Ele é um samba que tem capítulos, tem momentos. Tem um momento da brincadeira, tem um momento da leveza, tem um momento da emoção, tem um momento daquilo que realmente aquele menino queria falar. Foi esse o caminho que eu busquei e, graças a Deus, condiz com o que a escola estava pretendendo”, declarou.
Já o compositor José Carlos destacou os fatores que, segundo ele, fizeram o samba chamar a atenção: “A primeira é a primeira pessoa. Acho que isso é fundamental. E outra coisa é explorar o lado sentimental dessa história, não o lado cômico da história. Os sentimentos que foram experimentados pelo personagem central da história, que é o Samuel. Eu acho que isso foi o grande mote do nosso samba”, afirmou José Carlos.
Caio Miranda, parceiro na composição, destacou a combinação entre os sentimentos vividos por Samuel e a leveza da narrativa, que culmina em uma festa no sertão.

“Eu acho que essa parte emocional, essa parte de todo o trajeto dele. Ele vai relatando as vivências dele e os lamentos também. Mas com bom humor. Eu acho que tem uma coisa, uma leveza que se torna divertida. Sem trazer por uma tristeza, sem trazer por uma coisa arrastada, e sim numa festa, que é onde termina. Termina ali numa festa, numa festança de sertão. Acho que ele consegue envolver todos esses processos emocionais que agradaram”, explicou Caio.
A gravação oficial representa uma nova etapa para o samba, que ganhará arranjo e interpretação para o álbum. Ian Ruas afirmou que ainda não havia escutado o resultado final, mas demonstrou confiança na equipe musical da escola.
“Agora é que eu vou descobrir, que ele vai tomar forma, vai tomar a cara. A cara da Tijuca. Então eu estou curioso. Ainda não escutei o arranjo, mas tenho certeza de total confiança na equipe da Tijuca, no Casagrande, no departamento musical, que vai ficar incrível. Agora vai ganhar o punch que ele precisa”, afirmou.
Casagrande aposta no andamento e na melodia
A gravação foi um momento especial para a bateria “Pura Cadência”. Durante as disputas, a preferência da ala pela obra da parceria de Ian Ruas deu peso à escolha do samba.
Para Casagrande, um samba querido pela comunidade facilita a escolha. O mestre destacou, porém, o fato inédito de a maior parte da bateria torcer pela obra e defendeu que o segmento seja levado em consideração. Segundo ele, a composição conquistou o apoio dos ritmistas de forma espontânea, mesmo sem contar inicialmente com uma grande torcida entre os integrantes da escola.

“A bateria às vezes, as pessoas dentro da escola, os dirigentes, as pessoas que comandam uma escola de samba, às vezes ficam até chateados comigo, porque às vezes eu falo muito de bateria, eu bato muito nessa tecla, mas a gente tem que entender que realmente a bateria é o coração da escola. A bateria tem que ser ouvida. Esse samba foi engraçado porque os compositores, a galera, eles não tinham uma torcida grande dentro da escola, e desde a terceira, a quarta, a bateria abraçou. 90% da bateria abraçou o samba e foi assim, espontaneamente. Eu nunca vi, no tempo que eu tenho na Tijuca – mas eu não me lembro assim – abraçado tão bem, igual abraçou esse samba”, relatou.
Para a gravação, mestre Casagrande explicou que adotou o andamento de 145 batidas por minuto, que considera confortável para a obra. Além disso, explicou que a bateria trabalha com três bossas principais na estrutura do samba. Durante a gravação, foram utilizadas uma na segunda parte do samba, quase chegando ao refrão, e duas no refrão do meio. Uma bossa na cabeça do samba não foi utilizada na gravação. O mestre destacou o trecho associado a elementos de forró e o trabalho com contratempos que convoca a comunidade.
“Foi no refrão do meio, que é o forrozinho ali, que é a dança de caipira, que ficou muito legal. E a gente caiu para baixo e a gente faz um contratempo, que a gente pede a resposta da comunidade. Naquela frase, ‘Tijuca, ao lume do teu candeeiro’. A gente faz, já há algum tempo, essa jogadinha com a comunidade, porque você deixa o contracanto, e aí a gente acha isso muito bonito. E encaixou de novo, coincidência ou não, encaixou de novo, graças a Deus, e ficou muito bonito”, afirmou.
Com mais de 40 anos de carreira, o mestre afirmou que cada gravação tem um significado diferente e destacou a renovação da bateria da Unidos da Tijuca.
“A sensação é sempre única, é diferente. Ano a ano é sempre diferente. Mas esse ano é um ano muito especial, porque eu estou já chegando na minha carreira final como mestre de bateria. A gente já está há muito tempo, mais de 40 anos. A cada dia, a gente vai deixando legado. Hoje a gente tem uma bateria muito, muito boa, musical, uma bateria muito renovada. Isso é muito importante”, afirmou.
Amadurecimento do samba e emoção do enredo
A disputa de samba-enredo da Unidos da Tijuca teve aumento no número de obras inscritas em relação ao ano anterior e, pelo terceiro ano consecutivo, consagrou compositores diferentes na escola. Para Gabriel Melo, diretor de carnaval, o resultado reforça a abertura da disputa a novos vencedores e a escolha de uma composição que evita estereótipos sobre a cultura nordestina. Gabriel também afirmou que a versão gravada não se diferencia muito daquela apresentada durante a disputa.
“A gente não fez nenhuma alteração significativa no samba, tem a queda de um artigo… Reparos bem pequenos, porque era um samba que já estava muito cristalizado na nossa cabeça. Durante a disputa ele foi crescendo, ele foi amadurecendo durante a disputa e ele chegou muito entregue pra gente já na final”, explicou Gabriel.

O diretor agora aposta no resultado da gravação, que acrescenta novas camadas à obra, com a interpretação de Marquinhos, o coro mais encorpado e as intervenções da bateria: “Agora o Marquinhos coloca a cara dele, o coro vai encorpando, a bateria que já adorava o samba já criou uma série de coisas para gravação. A gente já ensaiou com a bateria e com os cantores ontem na quadra, então a gente já está com a coisa bem madura”, contou.
Gabriel também ressaltou a escolha de um caminho musical que se afasta de representações estereotipadas da região e de sua linguagem. Segundo ele, a autora do livro que inspira o enredo, Socorro Acioli, também se identificou com a composição.
“Eu acho que tem coisas muito felizes nesse samba, é um samba que não tem estereótipos daquilo que se imagina sobre cultura e música nordestina. E eu acho que esse é um passo importante naquilo que a gente está fazendo, a gente se livrar, se afastar um pouco dos estereótipos musicais e inclusive linguísticos”, afirmou.
Entre os pontos do romance que mais o emocionam, Gabriel destacou a relação de Samuel com a mãe e o reencontro com o pai. A promessa feita à mãe no leito de morte conduz o personagem, que também enfrenta a revolta diante da perda e os questionamentos sobre a fé. O segundo momento é o reencontro de Samuel com o pai, inicialmente apresentado como uma figura ausente, mas cuja história revela uma condenação social ligada à escultura inacabada de Santo Antônio. Para Gabriel, a reconciliação acrescenta ao enredo uma reflexão sobre o perdão.
“E o segundo momento que eu acho muito forte, que é quando ele se encontra com o pai. Porque inicialmente é uma história de abandono paternal, que é uma realidade duríssima que a gente vive no Brasil, mas que depois se descobre que na verdade o pai dele foi cancelado. O pai dele sofre uma represália social, uma condenação social envolta até numa questão de misticismo de que o santo castigou a cidade porque a escultura não tinha cabeça”, explicou.
Gabriel destacou o sentido desse reencontro para a narrativa do desfile e a importância de reconhecer a possibilidade de reconstruir relações.
“Eu acho que a vida ela é feita de rupturas com aquilo que nos faz mal, mas ela também tem que ser feita de perdão. Eu acho que isso é bonito. Acho que quando a gente se perdoa também, quando a gente perdoa o outro, a gente se perdoa. Acho que são os dois pontos mais bonitos, mais emocionais do desfile”, concluiu.










