
O Salgueiro esteve no HZ Estudio, em Curicica, no Rio de Janeiro, para dar vida ao samba que embalará o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história” na Avenida. O enredo desenvolvido por Jorge Silveira será o terceiro a desfilar na segunda-feira de carnaval, dia 8 de fevereiro. A escola promete recontar a história de Xica da Silva, personagem histórica retratada pelo Salgueiro no desfile campeão de 1963, que moldou a identidade da agremiação. A figura também foi reinterpretada pelo audiovisual brasileiro, com Zezé Motta no filme de Cacá Diegues, em 1976, e Taís Araújo como protagonista da novela de 1997. Agora, Xica será repensada a partir de seu testamento, disponibilizado em 2025, que aproxima a personagem dos fatos históricos e desmistifica a trajetória de Francisca Silva de Oliveira. Xica volta ao Torrão Amado como uma Pomba-Gira, carregando facetas já conhecidas pelo público, mas pronta para contar a própria história.
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Para Ian Ruas, integrante da parceria vencedora da disputa de samba-enredo, a gravação representa uma etapa decisiva de sua trajetória profissional. Depois de quatro anos participando da competição, o compositor venceu as disputas do Salgueiro e da Unidos da Tijuca na mesma noite e define o momento como um “divisor de águas na carreira”. Agora, acompanha a transformação da composição no registro oficial da escola para o Carnaval 2027 e elogia a equipe responsável pela produção musical e artística da agremiação.

“Eles fizeram um trabalho inacreditável. O Guilherme e o Gustavo são profissionais incríveis, o Alemão e todo o departamento musical e artístico do Salgueiro. Estou muito emocionado, muito feliz de ter visto esse resultado aqui”, afirmou.
A conquista também tem um significado familiar para Zé Carlos Oliveira, que relacionou a vitória ao desejo do pai de Ian, o compositor Zé Carlos Miranda, bicampeão da Portela em 2019 e 2020, de ver os filhos seguindo carreira na música.
“Isso a mim significa muito, porque eu sei da alegria que o pai deles deve estar no céu, porque ele queria muito que esses meninos ficassem no mundo da música. E eles estão”, declarou Zé Carlos.

O compositor ainda fez uma previsão sobre o espaço que Ian Ruas poderá conquistar no carnaval carioca. “Eu vou fazer uma coisa para você: o Ian Ruas vai ser referência no carnaval carioca. Ele vai ser muito importante. Eu tenho certeza disso”, afirmou.
A apresentação do arranjo no estúdio também surpreendeu Zé Carlos, que não conhecia previamente a proposta desenvolvida pela equipe musical.
“Foi uma loucura, porque eles fizeram um arranjo que nós não conhecíamos. E, nossa, ficou louco! Eu fiquei todo arrepiado. Isso aqui é interessante, porque é sempre uma nova emoção, é sempre uma renovação. O samba está emocionante, está lindo o samba”, avaliou.
Davi Carvalho também destacou a dimensão pessoal da obra, construída em uma jornada de composição ligada à homenagem ao pai de Ian, além da importância de dar vida à história de força e empoderamento representada por Xica, proposta pelo enredo.
“Está sendo incrível por vários motivos. O principal é que a gente entrou nessa jornada de samba-enredo em homenagem ao pai do Ian, que é meu compadre. É uma história muito especial. Outro motivo muito grande é que o enredo é muito forte, fala de um tema muito importante, e a gente ficou apaixonado desde o início. Fazer parte disso com o Salgueiro é mais importante ainda”, contou.

Sobre o desempenho que espera da composição na Avenida, Davi projetou uma apresentação competitiva e explicou que a obra procura seguir um caminho diferente daquele adotado em sambas anteriores.
“É samba para ganhar a Estandarte de Ouro. A gente fez uma obra para mudar um pouco a trajetória dos últimos sambas, com uma pegada diferente, e está querendo fazer algo especial”.
Entre os versos que mais o tocam, o compositor escolheu um trecho que relaciona a autonomia feminina à memória da personagem e à identidade da escola: “Toda mulher tem direito à própria história. Meu Salgueiro é a memória que eu voltei para consagrar.”
Direção musical aposta em pesquisa e referências diversas
À frente da direção musical, Alemão do Cavaco está no quinto carnaval com o Salgueiro. Desde que chegou à escola, no ciclo de 2023, seu trabalho também tem sido voltado à preparação do carro de som e à busca por resultados no quesito Harmonia. Ele lembrou que, naquele ano, a equipe alcançou quatro notas máximas e que, desde então, não voltou a perder pontos no quesito.

“É um prazer muito grande, porque é um time muito qualificado, de músicos excelentes, mas que a gente consegue também ajudar com o nosso trabalho artístico, de criação, de produtor, de arranjador. Hoje, a gente tem um time bem coeso na mão, bem formado, muito profissional, que entrega bastante, e a gente sempre busca desafios”, avaliou Alemão.
Para o samba de 2027, o trabalho envolveu a produção de duas propostas de arranjo em apenas cinco dias. Uma delas foi pensada para uma versão premium, com características teatrais e participação de Zezé Motta, lançada nas redes sociais do Salgueiro. A outra corresponde à gravação oficial do disco, que eternizará a obra com a bateria da escola.
Alemão explicou que a pesquisa para construir a sonoridade partiu de uma leitura mais ampla do enredo, sem se limitar às referências musicais imediatamente associadas à personagem.
“A gente pesquisa muito. Eu gosto muito de sair da caixa. Não é só: ‘Xica da Silva, vamos botar macumba’. ‘Xica da Silva, vamos botar interior de Minas, uma viola caipira’”.

O diretor musical contou que ele e os mestres de bateria estudaram filmes e livros para identificar elementos capazes de dialogar com a trajetória de Xica. Entre as referências encontradas está a atuação da personagem como mecenas das artes, com apoio a estudos de piano e flauta. A vida em Diamantina também inspirou a combinação entre sonoridades rurais e referências musicais africanas.
“A gente vai a fundo no enredo. Junto com os mestres de bateria, que também são pesquisadores de percussão, a gente chegou a uma conclusão estudando, vendo o filme, lendo livro, de que ela era uma grande patrocinadora, uma mecenas da arte. Ela patrocinava estudos de piano e estudos de flauta. Sempre tinha as rodas de choro. E, como ela morava em Diamantina, tinha aquele som rural de viola caipira, de piano de cauda, misturado com o som da África. Os tambores, o Congo, o tambor de Minas”, detalhou.
A gravação incorpora essas referências na construção do arranjo. Ao explicar uma das escolhas feitas para a faixa, Alemão destacou a inclusão do piano como elemento de ligação com a pesquisa sobre a personagem.
“Estou trazendo um piano para cobrir a harmonia, para fazer uma breve lembrança dela, uma citação disso. E a gente procurou caprichar”, acrescentou.
Alemão também destacou o trabalho realizado sobre a melodia e a letra da composição. Para ele, os ajustes buscaram valorizar as características da obra e alcançar um resultado musical consistente com a proposta do enredo.
Ao projetar o desempenho do samba na Avenida, o diretor afirmou acreditar que o Salgueiro tem condições de figurar entre os destaques do próximo Carnaval. Ele avaliou que a composição se distancia de um modelo que, em sua visão, vinha se repetindo nos últimos anos.
“É uma aposta diferente, que é uma aposta com a cara, sim, do Salgueiro. O que é a cara do Salgueiro? A cara é um samba poético, é um samba que mexe com a comunidade, e a comunidade vai cantar a plenos pulmões. A gente está muito feliz e com a expectativa lá no alto”, declarou.
Mestres de bateria trabalham andamento e convenções
Guilherme e Gustavo, mestres de bateria do Salgueiro, participaram da definição do andamento e das soluções rítmicas da gravação. A escolha foi feita para valorizar a melodia e a letra, mantendo a força característica da bateria “Furiosa”.
Gustavo explicou que a equipe buscou um andamento mais cadenciado, entre 142 e 143 BPM (batidas por minuto), para favorecer a interpretação da composição e a conexão entre os diferentes elementos musicais.

“A gente está mais um ano buscando acertar o andamento para o samba. O andamento que consiga impulsionar essa melodia linda dessa nossa obra, a letra também, que é espetacular. Juntando ali com essa força da bateria Furiosa, esse peso nosso, o andamento mais cadenciado, entre 142 e 143, a gente consegue chegar num lugar em que a galera aprecia essa obra magnífica dos nossos compositores”, explicou o mestre.
Os mestres explicaram que as bossas que serão apresentadas no audiovisual foram pensadas especialmente para a gravação e ainda passarão por ajustes até o desfile na Sapucaí. Guilherme explicou que as convenções foram planejadas em diálogo com a melodia e com o arranjo produzido por Alemão do Cavaco.
“A gente está começando a pensar no trabalho para a Sapucaí. O que a gente fez na gravação, como acaba ficando um pouco em cima, a gente gosta de trabalhar com calma. Pensamos em alguma coisa específica para a gravação, mas que a gente ainda vai mexer para a Sapucaí. O que a gente ouviu aí, a bossa, que a gente chama de uma bossa principal ali, que é no refrão do meio, a gente pensou especificamente dentro da melodia, dentro da métrica do samba também, para casar com o arranjo que o Alemão fez e ficar harmônico junto com o samba. A gente fez uma coisa especial para a gravação”, detalhou Guilherme.

A resposta da equipe à gravação superou as expectativas de Gustavo. O mestre também projetou a continuidade do trabalho até o Carnaval, quando a bateria deverá consolidar as escolhas feitas no estúdio.
“O melhor possível, o melhor possível. Juro que eu já estava um pouco ansioso, já esperando que o resultado ia ser bem positivo, mas ultrapassou as nossas expectativas. A gente vai fazer um trabalho especial para a situação do carnaval. Pode ter certeza. Espera o Salgueiro, espera a Furiosa, que vai ser lindo”, afirmou Gustavo.
Guilherme também destacou a resposta dos ritmistas e a integração entre o canto e as convenções da bateria. Mesmo com pouco tempo desde a escolha do samba, ele afirmou que a equipe já consegue perceber o potencial da obra.
“Acho que, contando com a energia da galera da bateria, a energia do samba, apesar de o samba ter sido escolhido há pouquíssimo tempo, a gente já consegue entender e sentir a força do samba. Ele tem uma letra muito linda, um refrão forte também. E a galera, aprendendo a bateria em si, já sabendo cantar, tocando junto com as convenções, a energia ficou muito boa. A gente já sabia que ia ficar. Eu sempre gostei muito do samba e a gente está entendendo que o samba vai ganhar mais força ainda a cada etapa até o carnaval”, avaliou Guilherme.
Direção de carnaval destaca preparação para a Sapucaí
Diretor de carnaval do Salgueiro, Wilsinho Alves avaliou positivamente a retomada do formato de gravação ao vivo ou com simulação de apresentação ao vivo. Para ele, essa escolha faz parte de um movimento cíclico, que alterna entre o registro em estúdio e uma sonoridade que busca reproduzir a energia da quadra.
“É um acerto da Rio Carnaval voltar com a questão do samba na modalidade ao vivo ou simulando ao vivo. Na verdade, ao longo dos anos, isso é um período cíclico. Passam alguns anos no ao vivo, passam alguns anos no estúdio. Eu, particularmente, gosto dessa pegada mais do ao vivo”, afirmou Wilsinho.

Depois do sucesso do violino que deu o tom folk ao samba em homenagem à mestra Rosa Magalhães, em 2026, o diretor antecipou a inclusão de um novo instrumento na gravação, mas guardou segredo até o lançamento oficial do álbum.
“A escola está muito feliz com a escolha, uma escolha que se mostrou certa no momento em que a gente escolheu, com a quadra toda cantando o samba. É um samba riquíssimo, belíssimo, que descreve lindamente o enredo. Acho que a gente está muito bem de samba e enredo para o próximo ano”, destacou.
Wilsinho está em seu quarto ano na escola e, para 2027, aponta dedicação total à busca pela décima estrela. Na avaliação dele, a combinação entre enredo, samba e equipe profissional coloca o Salgueiro em boas condições para a disputa.
“Estar no Salgueiro é sempre muito especial. É meu quarto ano de Salgueiro, grandes carnavais. Esse último carnaval, em especial, foi um carnaval que marcou muito todo mundo que participou. E, para o próximo carnaval, a busca do salgueirense, a busca da direção e a minha busca pessoal, incessantemente, é pelo título do Salgueiro. Acho que a gente tem grandes chances no próximo ano, porque a gente está com as peças certas. A gente tem enredo, a gente tem samba, a gente tem os profissionais certos nos lugares certos. Acho que a gente está forte nessa briga aí”, projetou.










