
A fotografia esteve no centro das discussões do Desenrolando a Serpentina, que celebrou 20 anos de história no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio). Com o tema “Olhares da fotografia na cobertura do carnaval”, a roda de conversa reuniu profissionais com experiência na cobertura dos desfiles da Marquês de Sapucaí e do carnaval de rua para refletir sobre os desafios de registrar uma das maiores manifestações culturais do país. Entre os assuntos abordados estiveram a sensibilidade necessária para captar os momentos da festa, os limites éticos na produção de imagens, as transformações tecnológicas e a importância da fotografia na preservação da memória carnavalesca.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
Participaram do encontro os fotógrafos Moskow, com experiência na cobertura do carnaval de rua; Alex Ferro e Publius Vergilius, que atuam tanto na Sapucaí quanto nos blocos; e Lucíola Villela, fotógrafa da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A mediação foi conduzida por Marcela Esteves, jornalista e roteirista da TV Globo.
Um dos principais pontos da conversa foi a necessidade de o fotógrafo ir além das pautas previamente estabelecidas. Embora os profissionais muitas vezes saiam das redações com orientações específicas sobre o que registrar, a natureza popular, plural e imprevisível do carnaval exige atenção ao que acontece fora do planejamento inicial. A capacidade de perceber um momento inesperado e compreender o contexto de uma manifestação pode ser determinante para a construção de uma imagem significativa.

Nesse sentido, a fotografia carnavalesca exige mais do que domínio técnico. O profissional precisa desenvolver um olhar atento às pessoas, aos gestos e às situações que surgem durante a festa. A discussão ressaltou a diferença entre simplesmente operar uma câmera e exercer a fotografia como uma prática que envolve escolhas, interpretação e sensibilidade.
Ética e sensibilidade na construção das imagens
Outro tema importante foi a representação da nudez, especialmente no carnaval de rua. Em uma manifestação marcada pela liberdade corporal, pela sensualidade e por diferentes formas de expressão, os fotógrafos precisam avaliar o contexto em que cada imagem é produzida e como ela poderá ser utilizada posteriormente.
A discussão destacou a importância de distinguir situações em que a nudez está relacionada à sensualidade daquelas em que assume um caráter político, artístico ou de manifestação. A questão ganha ainda mais relevância quando envolve os corpos femininos, frequentemente expostos a interpretações e representações que podem desconsiderar a intenção original da pessoa fotografada.

O desafio, portanto, não está apenas em registrar uma cena, mas em compreender o que ela representa e quais implicações sua divulgação pode ter. Em meio à intensidade do carnaval, o olhar fotográfico também envolve responsabilidade ética, respeito e consciência sobre a maneira como as imagens circulam e são interpretadas.
Tecnologia amplia possibilidades de registro
As transformações tecnológicas também integraram a conversa. O avanço dos equipamentos e o uso de recursos como drones ampliaram as possibilidades de registro, permitindo novas perspectivas sobre os desfiles, os blocos e a ocupação dos espaços urbanos durante a festa.
Apesar dessas mudanças, a tecnologia não elimina a importância das escolhas de quem fotografa. Durante o encontro, os profissionais apresentaram trabalhos que evidenciaram como um mesmo acontecimento pode resultar em imagens completamente diferentes, dependendo do posicionamento, da intenção e da perspectiva de cada fotógrafo.
A diversidade de registros também revela as múltiplas possibilidades narrativas do carnaval. Enquanto algumas imagens privilegiam a grandiosidade dos desfiles, outras encontram sua força nos detalhes, nos personagens anônimos, nos bastidores e nas manifestações que acontecem longe dos grandes palcos. Cada enquadramento estabelece um recorte da realidade e contribui para uma interpretação particular da festa.
Encontrar esse recorte, diante de tantas possibilidades, é um dos desafios permanentes da cobertura. A pluralidade do carnaval exige que o profissional faça escolhas sobre o que merece ser destacado, sem perder de vista a riqueza dos acontecimentos que se desenvolvem simultaneamente.
Fotografia preserva a memória do carnaval
A conversa também abordou as mudanças no comportamento dos foliões ao longo dos anos e a maneira como essas transformações aparecem nos registros fotográficos. As imagens permitem observar alterações nas formas de ocupar as ruas, nas manifestações individuais e coletivas e na relação do público com a própria festa.
Assim, a fotografia ultrapassa o registro imediato de um acontecimento. Ao reunir momentos, personagens e expressões de diferentes épocas, ela contribui para a construção da memória coletiva do carnaval e para a compreensão das mudanças culturais e sociais que atravessam essa manifestação.
Realizada em um evento dedicado à reflexão sobre os caminhos do carnaval, a roda de conversa reforçou a importância de reconhecer a fotografia como parte da própria narrativa da festa. Entre a Sapucaí, os blocos de rua e os bastidores, os profissionais constroem diferentes versões visuais de um mesmo universo, preservando experiências que ajudam a contar a história do carnaval carioca.










