Por Almir Aprígio e Will Ferreira
O Camisa Verde e Branco apresentou o samba-enredo da escola para o Carnaval 2027 no último domingo. Décimo colocado em 2026, a agremiação aposta em uma temática muito voltada para brasilidades com o enredo “Ajuruetês – O Voo da Terra Brasil”, assinado pelo carnavalesco Marcus Ferreira. A canção é composta por Claudio Russo, Turko, Rafa do Cavaco, Silas Augusto, Zé Paulo Sierra, Fabio Souza, Luis Jorge, Dr. Elio e Bruno Giannelli. Nove vezes campeão do primeiro pelotão da folia paulistana, o Camisa Verde e Branco será a última escola a desfilar na sexta-feira do Grupo Especial de São Paulo. Sempre presente em eventos importantes para as agremiações da cidade, o CARNAVALESCO conversou com personagens importantes do Camisa Verde e Branco para o desfile de 2027.
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Diretor empolgado
Se o enredo vai em um caminho bem diferente do que o Camisa Verde e Branco estava acostumado a mostrar, Armando de Souza Lima Junior, popularmente conhecido como Armando Polêmico, diretor musical da escola, mostrou confiança no sucesso que a obra fará: “Eu acompanhei tudo mais por cima, mas os compositores mergulharam nesse enredo que é muito complexo para fazer esse samba maravilhoso. Foi uma criação maneira para caramba, os caras viajaram legal para poder chegar nesse ponto que chegou esse samba. A complexidade desse enredo fez com que o nível do desafio fosse maior para os compositores, é bem natural isso. Ainda mais por você sair de Exu como tema e ir para um enredo desse, tropical. É um desafio muito grande. Mas aqui, na Barra Funda, como a gente gosta de desafio, está tudo tranquilo. Vai ser muito bonito isso aí na avenida, pode ter certeza”, destacou, falando pelos compositores, que não compareceram ao evento.

Mostrando ciência de como a obra foi concebida, Armando destacou a dinâmica de trabalho tal qual nos tempos antigos: “Eu não participei da criação diretamente do samba, mas sei que eles se reuniam quase todos os dias para poder suprir essa parada para o Camisa poder vir bonitão desse jeito. Eu fiquei sabendo que eles se encontravam quase todo dia para poder fazer esse samba. E, mais do que isso: foi tudo presencial”, disse.
Régua alta
Mostrando a força da escola que representa, Armando falou sobre o quanto os últimos sambas-enredo, aclamados pelo público, não tiram a paz da Ala Musical do Trevo: “Não tem um grande desafio porque cada ano é um ano. O que passou ficou lá para trás. Agora é tropical, e a gente vai vir totalmente tropical para esse desfile, que vai ser maravilhoso. Pode ter certeza de que na manhã da sexta para o sábado vai ser diferente o que vai acontecer em São Paulo, pode ter certeza. Vai ficar bem tropical. É um samba de mais melodia, o outro era um samba mais agressivo; esse é um samba mais cadenciado. Mas, por ser mais cadenciado, é mais a cara do Camisa ainda. Para a gente é tranquilo. A gente vai trabalhar conforme o que foi entregue e vai ser bem maneiro na avenida, pode ter certeza”, prometeu.
Uma canção com nível técnico igualmente alto também foi algo anunciado por Armando: “A gente vem de anos com sambas bons, com expectativas altas. E esse samba não vai abandonar essa característica, vai chegar legal na avenida. É uma expectativa que foi criada e vai ser atendida. Para a gente não vai ter problema nenhum, vai ser só um diferencial mesmo de enredo, porque o resto para a gente está tudo tranquilo. Todo ano só tem uma coisa que pode levar ao sucesso: o trabalho. É trabalhar e fazer acontecer. O resto não tem como eu contar uma história para você que não vai acontecer. Tem que trabalhar, e é do trabalho que vem o sucesso”, refletiu.
O Diretor Musical também elencou qual a parte favorita dele na canção apresentada à comunidade do Trevo neste domingo: “Eu gosto muito do final da segunda: ‘Malandreando a Barra Funda vem / E a Furiosa não tem pena de ninguém’. Isso aí é o básico de tudo. Esse verso, inclusive, vai ser algo que a gente vai usar muito: sabendo como a Furiosa desce a avenida, todo mundo vai esperar uma Furiosa sem pena de ninguém”, comentou.
Comandantes felizes
Dois dos principais nomes do Camisa Verde e Branco também mostraram satisfação ao falar do samba. Érica Ferro, presidente da escola, foi sucinta: “Tanto o enredo quanto o samba já caíram nas graças da comunidade: todo mundo abraçou e gostou, a comunidade inteira está feliz. Toda a diretoria, eu enquanto presidente, o vice-presidente… eu te garanto que vai ser um sacode na avenida”, disse.

Vice-presidente citado pela mandatária e também diretor de carnaval, João Victor Ferro destacou o caráter único da temática: “A nossa intenção foi trazer uma proposta de enredo diferente das demais treze escolas que são nossas concorrentes no Grupo Especial. A gente entendeu que algumas escolas estavam indo bastante para a linha do afro ou do afro religioso. Eu propus para Marcus um enredo que venha na contramão das outras treze. Ele falou que tinha um e já estava há um tempo namorando esse enredo, mas ele não sabia se São Paulo estava preparado para algo tão diferente. Eu respondi dizendo que não queria nem saber qual era o enredo, seria aquilo. A gente aprovou, ele trouxe a proposta, a gente leu, estudou, deu bom. O Marcus traz uma proposta totalmente diferente do que eu já fiz nos últimos anos, a galera vai gostar. E o samba também foi essa viagem. O que eu propus para os compositores, porque não era eliminatória, era encomendado, era que eu precisava de um samba leve, gostoso e que despertasse a galera. O samba do Exu era um samba mais denso, de pegada, um samba mais agressivo, e não era essa viagem de 2027. Os meninos entregaram para a gente aquilo que a gente propôs. Deu certo, deu bom. Eu gostei, a escola gostou. Agora é fazer acontecer”, animou-se.

Idealizador identificado
Ao falar sobre o samba-enredo, Marcus Ferreira, carnavalesco estreante no Camisa em 2027, aproveitou para falar um pouco da temática desenvolvida por ele: “Gostei do samba! Gostei muito, ele atingiu a alegria que a gente precisa para encerrar a sexta-feira. Ele tem a diferença que a escola me pediu a partir da experiência do enredo. Eles queriam um enredo que tivesse um pouco da energia histórica do Camisa Verde e Branco e que fosse algo diferente. No histórico dos meus trabalhos, lá no Rio de Janeiro, sempre gostei desses enredos inéditos, que dialogassem com a história das escolas por onde eu passei. Chegando aqui, a gente tinha uma ideia de enredo, mas, de rompante, a presidenta Érica Ferro me ligou e perguntou se eu tinha algo diferente, porque ela via um caminho diferente para esse ano. Eu pedi um dia para pensar porque eu tinha algumas ideias, mas, para que a gente siga algo palpável, ela me deu a referência do meu enredo sobre o caju, da Mocidade Independente de Padre Miguel de 2024, alguma coisa que impulsione a escola, que traga alegria, que traga força e leveza. E, aí, surgiu o enredo. O samba transmite essa alegria que o enredo proporcional, e o Carnaval está irreverente, está alegre, está a cara da escola”, observou.

Mais músicos
Outro estreante no Trevo é Antônio Wilson, popularmente conhecido como Tuninho Jr. O intérprete foi mais um integrante do Camisa a elogiar a obra: “Gostei muito do samba! Samba assim tem a minha cara: um samba alegre, um samba com garra e com a cara do enredo, também, que é alegre. Combina com o meu jeito de trabalhar e o jeito da escola, também: uma escola valente, uma escola raiz. Vai dar muito certo esse samba no Anhembi”, vislumbrou.

Ao ser perguntado sobre o quanto um samba encomendado pode ajudar o próprio trabalho, Tuninho não negou o quanto prefere sentir a execução da obra presencialmente: “Eu já fico pensando em variações melódicas e cacos para o samba ao ouvi-lo, sim… apesar que, no ao vivo, eu consigo sentir mais o que o samba está pedindo, para onde o samba está indo. Um samba encomendado também tem suas coisas boas: no estúdio, a gente tem um contato anterior com o samba bem antes do que algumas escolas. A gente tem um pouco de mais de tempo de criação para fazer o samba evoluir cada vez mais na quadra e, consequentemente, lá na no Anhembi”, disse.
Com dois mestres de bateria, a escola teve mais alguns nomes que elogiaram a canção. Jeyson Ferro foi um deles: “Eu gostei demais do samba! Gostei muito, graças a Deus. É um samba alegre, que dá para explorar bastante e vai falar da nossa origem, do Brasil. A gente veio de dois temas muito fortes, de Cazuza e Exu; e, agora, é um samba que vai totalmente contra o que veio dos dois sambas anteriores. É um samba que vai abranger muito o Brasil em si”, comentou.

Já Jeferson da Conceição, popularmente conhecido como Cachorrão, destacou que o trabalho ainda está em andamento em relação à obra: “O samba é bom! Vai dar para a gente trabalhar legal, o arranjo já está meio que pronto, inclusive. Uma coisinha ou outra a gente vai ajustar, é claro, mas o trabalho já está sendo feito. Lógico que, se você for comparar com o do Exu do ano passado, é algo completamente diferente no estilo. O pessoal vai gostar do que o Camisa vai mostrar”, afirmou.
Há, entretanto, uma dinâmica que está muito adiantada, de acordo com Cachorrão: “Não só o arranjo como as bossas já estão todas prontas. A gente já está ensaiando até para a gravação do CD. O O BPM é aquele: 142, 140 no máximo. Não adianta, a característica da bateria do Camisa é essa, não adianta correr. Fica feio. A batida de caixa traz isso. Só não pode ser um pagodão, mas é uma parada valente, mas que também não pode ser corrido. A gente está adequado, está tudo certinho, já”, exemplificou.
Jeyson, porém, destacou o quanto o caminho pode ser alterado: “A gente já cria algumas coisas com antecedência e deixa de stand-by, só esperando mais ou menos o que vai vir no samba. Como a gente já tinha uma coisa alinhada com a direção da escola e conseguimos ouvir um pouquinho do samba antes, já tínhamos as coisas bem encaminhadas. Mas a gente sempre grava uma coisa e muda no meio do caminho: para a gravação do clipe, vão duas bossas prontas; aí, mais para frente, a gente coloca mais uma. Depois do trabalho sempre vem alguma coisinha. Às vezes a gente até muda essas duas bossas que estavam no começo porque vem mais ideias, uma coisa mais legal, a gente tira daqui e coloca dali. Mas a base é essa”, comentou.
Os mestres de bateria também elogiaram o fato da escola manter o mesmo grupo de compositores que produziram as duas últimas (e elogiadas) obras: “Facilita muito a parceria já conhecer tão bem a casa. Eles já têm a linhagem, já sabem o que a escola pede, o que a bateria gosta e quer… já sabem que, aqui, não adianta a bateria vir muito para frente, aqui não vai. Para mim, o trabalho com eles é sensacional”, elogiou Cachorrão.
Citando nominalmente alguns dos compositores, Jeyson foi mais específico: “Eu tenho amizade com o Rafa do Cavaco faz tempo, tenho amizade com o Turko e com os demais meninos, a gente já sabe mais ou menos o tipo de melodia que vai vir quando eles estão numa composição. A gente dá uma ideia disso aí que vai vir e a gente faz algumas coisas em cima do que vem. Além dos breques, a gente tem a parada do surdo de terceira, que a gente sempre põe um desenho em cima da melodia junto com os arranjos de tamborim. Aí dá para ter mais ou menos uma prévia do que que eles estão fazendo, do que que eu posso fazer lá na frente. Sabendo dos caras, quem é que está fazendo, dá para a gente fazer uma coisa mais adiantada”, comemorou.
Dinâmica especial
‘Diferente’, de fato, é uma palavra que pode sintetizar bem o ciclo do Camisa Verde e Branco para o Carnaval 2027. Marcos Costa e Lyssandra Grooters, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola, inclusive, valorizou a característica bastante ímpar do samba-enredo apresentado pela agremiação: “O samba é diferente do padrão que a gente vinha acostumando a ouvir aqui no Camisa ou até mesmo em São Paulo: é um samba que explica o enredo. Hoje em dia, a gente vê muito samba que exalta mais a escola, às vezes, do que fala sobre o enredo. E o samba do Camisa está falando mais sobre o enredo. É um samba que é mais difícil para o nosso lado de dança: não é um samba que, no primeiro olhar, você ouve e fala que deu vontade de fazer algo em específico. É um samba que a gente vai precisar escutar e trabalhar em cima para poder desenvolver. Mas é um bom samba”, afirmou Marquinhos.

Lyssandra valorizou o desafio que a obra traz para a dupla, que só ganhou notas máximas nas duas últimas apurações: “É um samba difícil para nós. No ano passado foi aquele sambão que a gente já imaginava um monte de coisa. Esse ano já não: a gente já vai ter que dar mais uma estudada no samba e ver os movimentos, é o Marquinhos que monta a coreografia e ele já está de olho nisso. Ao escutar, é um samba que está contando a história de todo o nosso enredo: se você parar, você vai ver, olhar a sinopse e perceber que todos os pontos estão no samba. É mais a nossa comunidade aceitar, abraçar o samba e a gente cantar lá no Anhembi e fazer virar um sambão”, comentou.
Se o trabalho individual é realizado quase que diariamente, o trabalho específico voltado para o samba-enredo é bastante recente, revelou Marquinhos: “Sendo bem sincero, a gente começou os nossos trabalhos na semana passada. Foi o nosso primeiro trabalho voltado para o Carnaval 2027, já que a gente está renovando o quadro: está chegando um novo segundo mestre-sala e chegando um casal mirim. Lógico que cada um está se cuidando pessoalmente, trabalhando com as respectivas preparações física. Eu trabalho com dança, estou constantemente dançando. Mas, voltado para o Carnaval 2027, a gente começou na semana passada. Agora, que a gente já tem o samba, temos a ideia do que a gente vai precisar trabalhar. Daqui para frente, só vamos parar no Desfile das Campeãs, se Deus quiser”, comentou.
Lys detalhou melhor a fala do companheiro de dança: “A gente começou mais precisamente na quinta-feira, e o nosso trabalho é muito dinâmico: tem casais que ficam ensaiando, a gente não. A gente vai, o Marquinhos já monta e a gente já tenta decorar. No próximo ensaio, a gente já quer executar na base da perfeição. A gente vai alinhando o que dá para fazer, o que não dá para fazer. É no ensaio técnico que a gente tem a noção mesmo do que a gente vai realmente conseguir fazer. Normalmente, a gente vai até o final na coreografia que o Marquinhos monta, é bem difícil nós mudarmos alguma coisa. Nosso trabalho é árduo: não é diferente de nem um outro casal, mas o nosso é bem dinâmico. A gente separa uma hora, ensaiamos uma hora e acabou. Na outra quinta-feira é outra hora e assim sucessivamente. A gente é bem específico e rápido. Mas, agora, até o Carnaval, a gente não para e nem pode parar”, finalizou.
Evento marcante
A apresentação do samba-enredo do Camisa Verde e Branco para 2027 teve uma série de atrações, todas elas comandadas por Adriana Gomes, das grandes porta-bandeiras da história do Carnaval de São Paulo. A Herdeiros do Trevo, escola mirim da agremiação, por exemplo, ganhou um novo primeiro mestre-sala: João, que fará dupla com Luna. Heloísa é a Rainha Mirim da bateria da escola e Andressa é a Rainha Infantil dos pequenos ritmistas.

A Velha-Guarda Musical, o Samba Òrun Ayê e o Pagode da Furiosa também se apresentaram antes do show do Camisa Verde e Branco, que teve algumas canções interpretadas por Carlos Junior (atualmente cantor do coirmão Rosas de Ouro e revelado no Camisa) e Rogério Papa (integrante do carro de som do Trevo). Encerrando a grande noite, a coirmã Nenê de Vila Matilde abrilhantou a festa.
O evento previa, também, uma apresentação de outra coirmã: o Vai-Vai, que teve a final de samba realizada também neste domingo. Por conta de um problema em um dos ônibus que levava os integrantes da Escola do Povo para a Barra Funda, entretanto, o show da Alvinegra foi remarcado para a Festa da Bateria do Camisa, à priori marcado para o dia 14 de novembro.









