Por Gustavo Lima e Pedro Ribeiro

Debaixo de chuva e com a Bela Vista tomada pela comunidade, o Vai-Vai definiu, na noite do último domingo, o samba-enredo que levará para o Carnaval de 2027. A obra composta por Naio Denay, Francis Gabriel, Anderson Neguinho e Danilo Alves, formada por nomes ligados à escola, foi escolhida após uma disputa acirrada, com três parcerias na briga para ter seus nomes como hino da maior campeã do carnaval paulistano. O samba confirmou o favoritismo e foi bastante celebrado no anúncio feito pelo intérprete Luiz Felipe. A final também foi marcada pelo reencontro do Vai-Vai com suas raízes, na rua, no bairro da Bela Vista. O local foi tomado por vaivaienses, que celebraram o pertencimento de estar naquele espaço. Todos os segmentos da agremiação também não esconderam a felicidade de novamente terem conseguido realizar a decisão do samba-enredo na rua Rui Barbosa. Assinado pelos carnavalescos Victor Santos e Alexandre Louzada, o Vai-Vai irá desfilar com o enredo “3 Obás de Xangô – A Mãe Bahia em Cantos, Cores e Memórias”, sendo a segunda escola de sexta-feira a passar pela avenida.

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Fotos: Gustavo Lima e Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

“É sempre um momento especial, de extravasar toda a energia que sentimos durante a disputa. Quando chegamos à reta final, é natural sentir aquele frio na barriga, ter noites mal dormidas e ficar pensando em tudo o que está acontecendo. Mas, graças a Deus, deu tudo certo. É mais um samba conquistado. É uma felicidade saber que alcançamos o nosso objetivo de fazer uma obra que a escola e a comunidade abraçassem. Nosso sentimento é esse: a alegria de ter conseguido atingir aquilo que buscávamos”, afirmou Naio Denay, que venceu seu décimo segundo samba no Bixiga.

Grande influência da comunidade

O presidente Paulo Mello destacou a força da comunidade do Vai-Vai durante a final de samba-enredo, realizada na Bela Vista, mesmo sob forte chuva. “É até difícil comentar como foi esta noite, porque é indescritível. Choveu a tarde inteira e durante toda a noite, mas a comunidade do Vai-Vai se fez presente. Tinha muita gente mesmo! Quero agradecer à nossa comunidade pela força e pela presença. Com essa energia, mesmo debaixo de chuva, vamos fazer um belo carnaval”, declarou.

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Presidente Paulo Mello

Sobre a escolha do Samba 19, Mello explicou que a decisão levou em consideração diferentes fatores, mas principalmente a identificação da obra com a comunidade. “As três obras que se apresentaram hoje tinham letras e melodias excelentes, então foi uma decisão muito difícil. A escolha foi tomada após a apresentação dos três sambas. Ouvimos muito a comunidade e consideramos o seu apelo. Precisávamos dessa potência, e ela veio. Por isso, escolhemos o Samba 19, que conquistou a comunidade”, disse.

O Vai-Vai realizou eliminatórias com três chaves, além de quartas de final e semifinal, algo que se perdeu no Carnaval de São Paulo. O mandatário explicou a importância do formato adotado pela escola neste ano. “A importância das chaves é trazer a comunidade para dentro do processo de escolha, permitindo que ela também participe da decisão. Não queremos que somente uma comissão executiva ou a diretoria escolha o samba. Afinal, quem canta é a comunidade, é o chão da escola que vai cantar, é a bateria que vai tocar e é a ala de compositores que vai incentivar tudo isso. Como também fui diretor de harmonia durante muitos anos, tenho essa preocupação no sangue. Observamos todos esses fatores”, afirmou.

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Sobre o Carnaval 2027, o presidente revelou que os trabalhos no barracão estão avançados. “O trabalho dos nossos carnavalescos, Alexandre Louzada e do Victor Santos, está fantástico. O barracão está a todo vapor, e as alegorias já estão praticamente estruturadas. Eu diria que estamos em torno de 60% desse processo. A parte de fantasias também está avançando muito bem. Provavelmente, vamos preparar uma surpresa para a comunidade na semana que vem, talvez durante o ensaio. Todos os protótipos já estão prontos, e muitas alas já foram fechadas. Estamos pensando em dar esse presente à comunidade para que ela possa sentir como a escola está pulsando, tanto interna quanto externamente”, completou.

Postura diferente e a volta às suas raízes

Um dos grandes nomes da história do Vai-Vai, e que ainda faz parte da direção de carnaval, Seo Fernando Penteado também destacou o simbolismo de ver a escola novamente nas ruas da Bela Vista. “Para mim, este é um dos momentos épicos da história do Vai-Vai. É o nosso velho Vai-Vai de volta às ruas, na Bela Vista, debaixo de chuva, como a comunidade está acostumada. Se tivéssemos uma noite linda, com estrelas no céu, talvez não tivéssemos a emoção que estamos vivendo hoje. A chuva, as pessoas se acotovelando, os bons sambas e uma disputa realmente acirrada tornaram esta noite especial. Ganhou o samba aprovado pela comunidade, e vamos fazer um grande desfile neste ano”, disse.

Penteado também afirmou que espera uma mudança de postura do Vai-Vai no próximo carnaval e prometeu uma escola potente no Anhembi. “Estamos voltando às nossas origens. Nos últimos anos, por mais que o Vai-Vai se esforçasse, não conseguiu agradar. Mas prometo à comunidade e a vocês, da imprensa, que ficarão surpresos com o Vai-Vai na avenida. Respeitamos todas as entidades e todas as escolas de samba, mas a nossa escola vai colocar a sua força na avenida. Será aquele Vai-Vai que todos conhecem”, contou.

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Sobre o Samba 19, ele ressaltou a identificação da obra com a comunidade. “O Samba 19 já chegou grande. Desde a primeira apresentação, conquistou a comunidade e veio nos braços dela. Os outros sambas também tinham grande valor e eram muito bem construídos, mas essa obra conseguiu uma identificação especial com a escola. Sou diretor da escola e vou para a avenida, mas não sou eu quem canta o samba. Quem canta é a comunidade. Por isso, precisamos fazer a escolha olhando para ela. Meu pai costumava dizer que, em uma guerra, a bala do oficial não mata ninguém; quem faz a diferença é a bala dos soldados. A nossa comunidade é o nosso soldado. É ela que precisa ir para a avenida e cantar. Nós vamos juntos, acompanhando. Se a comunidade abraçou o samba, é assim que tem que ser. O samba é esse, e já está na boca do povo. Graças à nossa obra, vamos fazer um grande carnaval, sempre respeitando todas as coirmãs”, afirmou.

Com décadas de história no Vai-Vai, Penteado também falou sobre o atual presidente, Paulo Melo. “Sem desrespeitar os outros presidentes que tivemos, porque cada um teve sua fase e desenvolveu seu trabalho à sua maneira, o Paulo Mello, para mim, é o meu presidente. Ele começou no Vai-Vai com cinco anos de idade. É filho do senhor Mello, que também foi presidente da escola, e da dona Águeda, que era diretora social. É um vaivaiense nato, nasceu no Bixiga e tem a família ligada à nossa história. A escola precisava, neste momento, de um presidente jovem, com a mentalidade aberta e experiência em harmonia, que soubesse como a escola desfila. E não é só ele: temos também o Buiú como vice-presidente e o Mingau, que são grandes nomes da escola. Graças a Deus, estamos em boas mãos”, finalizou.

Samba com a característica da escola e a busca de uma marca especial

Sobre o processo de composição, Naio explicou a preocupação da parceria em construir uma obra que dialogue com a identidade da escola. “O Vai-Vai é uma escola especial quando se trata de samba-enredo. Procuramos sempre enfatizar a música, com uma melodia para a frente, para o alto, que coloque a escola para cima. Na letra, buscamos envolver diferentes momentos, como a empolgação, a tranquilidade e a demonstração do amor pela escola”, celebrou.

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O compositor ainda falou sobre a marca que persegue na escola. “Em número de sambas, estou atrás apenas do Zé do Cavaco, que tem 13. Não sei se vou conseguir ultrapassá-lo, só Deus sabe. Já estou com uma certa idade e participo das disputas desde a década de 1980, quando ainda se divulgavam os sambas na rua, na época em que se catituava. Depois vieram as fitas cassete e, posteriormente, os CDs. Hoje é muito mais fácil divulgar uma obra. Estou nessa caminhada desde aquela época. Mas sigo nessa caminhada como compositor buscando o melhor para o Vai-Vai”, disse.

Feito para emocionar a Bela Vista

Francis Gabriel, outro compositor campeão da noite, destacou a relação de sua parceria com a Bela Vista. “É alegria total! A gente ama demais isso aqui. Nem tenho palavras para descrever o sentimento. Vivemos o Vai-Vai de janeiro a janeiro e defendemos esse pavilhão o ano inteiro. A nossa parceria completou dez anos fazendo samba para o Vai-Vai. Acredito que seja uma das parcerias formadas exclusivamente por compositores da escola, sem ninguém de fora. Sempre tivemos esse cuidado de não trazer compositores de outras agremiações. Também não escrevemos para nenhuma outra escola”, ressaltou.

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Francis defendeu a preservação dessa identidade nas disputas de samba-enredo. “Acho importante ressaltar isso porque acredito que o carnaval vem perdendo essa característica com as firmas e as empresas. A beleza do carnaval está justamente nisso: cada tribo tem sua linhagem melódica e seus compositores. Quando essa essência se perde, o carnaval também vai perdendo parte de sua identidade. Nossa parceria luta para resgatar isso. Somos 100% Bela Vista. Não é fácil participar de uma disputa, porque fazer samba hoje custa caro. Mais uma vez, contamos com a ajuda do nosso povo do Bate Fundo, movimento e roda de samba que tenho na zona sul de São Paulo. O pessoal colaborou comprando rifas e camisetas, como fazemos todos os anos. Não temos patrocinador, patrono ou qualquer outro tipo de apoio financeiro. Tudo é feito na raça, com a ajuda do povo do Bate Fundo. Esse troféu é deles mais uma vez”, comemorou.

A parte do samba localizada antes do refrão de cabeça é a parte que emociona a comunidade, mesmo estando fora do enredo. É uma declaração de amor ao pavilhão. Francis também explicou a construção do trecho, pensado para aproximar ainda mais a obra dos componentes. “A nossa parceria é engraçada porque todo mundo participa de tudo. Acredito que a primeira ideia do trecho tenha sido do Danilo, que é um grande mestre da melodia do Vai-Vai. Ele trouxe a ideia, nós lapidamos e chegamos ao resultado. Não é algo que parte de uma única pessoa, mas sim de uma construção coletiva. Ainda assim, acho que o Danilo foi quem começou com essa ideia. Ele é craque e sabe como conquistar o povo. Todos os anos, procuramos colocar alguma coisa no samba para tocar o componente e conquistar a comunidade. É algo proposital, pensado para mexer com o Vai-Vai e com o povo da Bela Vista. Graças a Deus, conseguimos isso mais uma vez”, revelou.

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Sobre a expectativa antes da final, Francis celebrou a repercussão do Samba 19. “É uma honra saber que éramos apontados como favoritos. A gente nem sabe direito como lidar com isso. Estamos há dez anos escrevendo sambas para o Vai-Vai e, nesse período, perdemos mais do que ganhamos. Esta é apenas a nossa segunda vitória. Por isso, é um momento difícil de explicar, mas maravilhoso. Agora é viver e aproveitar essa conquista”, concluiu.

Obra que mexe com os sentimentos

Intérprete do Vai-Vai, Luiz Felipe ressaltou a emoção de cantar para a escola novamente na Bela Vista. “É muito louco. Tudo o que você canta e tudo o que você faz aqui arrepia, porque o Vai-Vai está presente em todos os lugares. É raiz, está no chão, está na árvore, está em todo lugar. Aqui é diferente, ainda mais no nosso bairro. O Vai-Vai se potencializa na Bela Vista. É muito bom estar aqui com o nosso povo, cantando esse grande samba que vamos levar para o Carnaval de 2027. Na minha opinião, é um dos melhores sambas do carnaval de São Paulo, e isso não sou eu que estou dizendo. É o próprio povo do samba. Agora é trabalhar para fazer esse samba crescer cada vez mais”, comentou.

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Para Luiz Felipe, o Samba 19 reúne características marcantes da escola. “É um grande samba, com cara de Vai-Vai, com corpo e jeito da escola. A melodia, então, nem se fala. Você escuta e já pensa: ‘É Vai-Vai’. Agora temos a responsabilidade de fazer esse samba ficar gigantesco até o dia 5 de fevereiro”.

O intérprete também falou sobre a emoção de cantar o trecho final da obra e colocou um discurso positivo em relação ao próximo desfile. “‘O meu Vai-Vai é coração, amor, paz e religião’. Quando chega essa parte, eu falo: ‘Vocês cantam que eu choro’. Já está explicado. É difícil, é um momento que mexe muito comigo. Passamos por momentos difíceis nos últimos anos, principalmente em relação às colocações. Não merecíamos algumas situações, mas, infelizmente, elas acontecem. Agora temos tudo para virar essa chave. Temos uma nova direção e novos pensamentos. A partir de agora, depende de nós”, completou.

Gigante escola de samba

Carnavalesco que assinará o Carnaval 2027 da escola, Victor Santos contou o quanto o aspecto ‘chão’ do Vai-Vai é determinante para a escolha de um samba-enredo. “Os sambas que chegaram aqui já são competentes de acordo com o enredo. A gente chegou aqui aberto ao que a escola quisesse, porque não é o carnavalesco, o presidente, a executiva e a direção de carnaval que vai cantar o samba. É a escola. Nós vimos que não tinha outra escolha. Nós somos a escola do povo, onde o protagonista é a comunidade. Como eu vou dar outro samba senão o que a escola cantou? Eu não posso fazer isso. Se eu fizesse isso, eu estaria indo contra tudo que o Vai-Vai acredita, e tudo o que a escola se propôs a fazer na sua fundação. Hoje, o Vai-Vai escolheu um samba do povo e para o povo”, reforçou.

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Após afirmar, visivelmente emocionado, que agora o Vai-Vai possui ‘o melhor refrão do carnaval’, Victor salientou o privilégio e a responsabilidade histórica de estar à frente da maior campeã do carnaval paulistano: “Seo Juarez me ensinou muito bem. Eu tenho muito orgulho de ser sambista e de viver isso aqui. Ter nascido no meio do carnaval e hoje ser um menino que sonhou ser carnavalesco com o Vai-Vai é um sonho realizado. E hoje, uma ideia minha (o enredo), de construir algo e se tornar um carnaval do Vai-Vai não é pouca coisa. Ninguém começa pelo Vai-Vai, pela porta da frente. E eu tenho a honra de começar, porque Exu é meu melhor amigo. Eu tenho a consciência e a certeza de que esse desfile entrará para a história. Não por resultado, mas por trazer e lembrar o Vai-Vai como sentinela da cultura e como obra. Ele reencontra os seus e faz acontecer. Meu povo, minha gente, minha raça, minha escola, é hora de ir para a rua e fazer acontecer”, defendeu.

Trabalhando dentro da obra

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O primeiro mestre-sala, Pedro Trindade, também destacou como correta a decisão da escola, ao ouvir o clamor da comunidade para embasar o resultado, além de antecipar o impacto que o novo samba-enredo do Vai-Vai para o Carnaval 2027 produz na coreografia do quesito. “Foi uma emoção. Um samba que a nossa comunidade queria. Foram três obras maravilhosas para a final. O ano de 2027 está chegando, e estamos com tudo pronto e trabalhando os movimentos de coreografia afro em cima do samba. O refrão do meio será um espaço onde adaptaremos a nossa coreografia de pista e a coreografia de quadro dentro deste refrão”, contou.

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