
A disputa da Unidos de Vila Isabel para 2027 já começou a afunilar. Na noite de quartas de final, que reuniu seis parcerias concorrentes, as obras de Marcelinho Moreira, Paulo César Feital e Raoni Ventapane se destacaram, entregando as exibições mais fortes e envolventes em torno do enredo baseado no livro “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior. A escola anunciará, ainda neste sábado, nas redes sociais, as obras classificadas para a semifinal. Em 2027, a Vila Isabel fecha o domingo de carnaval com o enredo “Torto Arado — Sobre a Terra Há de Viver Sempre o Mais Forte”. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações da noite.
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Parceria de Ricardo Mendonça: Evandro Malandro conduziu o samba da parceria de Ricardo Mendonça, Jarbas Bittencourt, Diego Nicolau, Diego Jorge, Aldir Senna, Antônio Pontes e Gigi da Estiva. A obra apresenta uma sequência de dois bis no refrão principal, com destaque para a segunda metade: “Abra a sala de Angolá, olha a Vila, Lelê / Abre a sala de Angolá, olha a Vila, Lelecó”. Trecho que tem passagem mais forte e melhor cantada que a primeira. A primeira parte do samba, sobre a relação com a terra e uma exaltação do território da Chapada Diamantina, chega com bons versos e boa dinâmica de abertura, até desembocar no refrão do meio, que evoca o ritual do jarê. Esse refrão do meio é longo e, apesar de bem colocado do ponto de vista da narrativa, trazendo o ritual para dentro do samba, não tem a força de um refrão de meio propriamente dito. A segunda parte segue para o tema da luta pela terra, com uma passagem de belíssima melodia e poesia: “Quanta injustiça, meu Deus! / No encanto de Severo / O rio sangrou / Eu me desfiz em chuva / Pra só mais uma vez molhar tua boca / E galopar teu corpo”. É um samba de boa condução, com qualidades de melodia e letra. Fez uma boa passagem.
Parceria de Marcelinho Moreira: Igor Vianna, Charles Silva e Tem-Tem Jr. defenderam o samba da parceria de Marcelinho Moreira, Kléber Cassino, Mano 10, Orlando Ambrósio, Miguel Dibo, Guilherme Karraz, JB Oliveira e Marcelo Rodrigues. Uma apresentação que se destacou nessa noite de quartas de final. O refrão principal é muito forte nos versos: “Firma o ponto de macumba, Dona Vila Isabel / O povo do samba faz do livro seu papel / Cabo de marfim empunho corta o mal na raiz / Feitiço teimoso de ser feliz”. Ele passou com muita força durante toda a apresentação. A cabeça do samba já se destaca: “Ô joga a rede, Santa Rita Pescadeira / Que o Morro dos Macacos é pedra de batucar / Ô joga a rede, Santa Rita Pescadeira / Em água negra traz história pra contar”. A letra acerta ao evocar nos primeiros versos Santa Rita Pescadeira, entidade do jarê que conduzirá a narrativa do desfile. O refrão do meio acontece em dois bis, evocando um ponto conhecido dedicado a Ogum: “Ogum, Ogum, Tatará / Tenha dó de mim / Aê, Aê, Tatará / Tenha dó de mim”. Um trecho conhecido por parte do público, o que é uma escolha inteligente: por já ser identificável, traz o ritual do jarê para dentro da passada do samba. Resta saber se o protagonismo de Ogum no refrão do meio atende ao desenvolvimento do desfile, já que a entidade é uma entre outras cultuadas no jarê. De qualquer forma, o refrão do meio é uma boa passagem para a segunda parte. Essa segunda parte fala sobre a bravura e a luta pela terra e traz versos bonitos, dos quais destaco: “Quem te evoca sou eu, pedaço desse chão / Tapera que resiste contra o vício da invasão”. São versos que sintetizam bem a proposta desse momento do samba. É um samba que entrega consistência do início ao fim, com a força do refrão principal. Uma excelente exibição.
Parceria de Paulo César Feital: Rafael Tinguinha e Juan Briggs cantaram a obra da parceria de Thales Nunes, Paulo César Feital, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Julio Alves, Marcelo Martins e Gabriel Simões. Outra excelente exibição. O refrão principal é muito vigoroso “Jarê! Jarê! / Vai descer o morro todo! / Jarê! Jarê! / Vai descer o morro todo! / O Brasil nasce de novo pela força da enxada / O Quilombo é do povo / É a Vila incorporada!”. É o ponto alto do samba. A primeira parte abre falando sobre a própria Santa Rita Pescadeira, a entidade que narrará o desfile da Vila Isabel, ainda que sem citá-la explicitamente. Destaca-se o verso “Eu ando pelas águas pra cicatrizar / A velha mágoa / Memória secular”, que sintetiza bem a narrativa. O refrão do meio cresce e puxa o canto forte, que vai crescer de volta no refrão principal. Já a segunda parte traz uma variação melódica, com característica mais dolente, fechando com “Livrar do severo abandono / Esta terra que tem dono / Hoje tem macumbaria” antes de avançar para o forte refrão principal. É um samba bem construído, de excelente desempenho, bem conduzido pelos intérpretes Rafael Tinguinha e Juan Briggs.
Parceria de Moacyr Luz: Leozinho Nunes esteve à frente do microfone do samba da parceria de Moacyr Luz, Gustavo Clarão, Inácio Rios, Márcio André Filho, Igor Federal, João Martins e Daniel Braga. A primeira parte do samba tem um bom início, com uma poesia singular para apresentar Santa Rita Pescadeira: “Eu sou um rio maior que o mar / Sou o anzol maior que o peixe / E vi o sol, o corte e o fio / Da mãe África eu sou o arrepio”. O refrão do meio tem uma pegada divertida e gostosa, com boa passagem, sendo o momento forte do samba. A segunda parte traz a questão da luta pela terra, com melodia redonda, mas sem grandes achados poéticos. O refrão principal “E sangue preto parindo o amanhã / No fio da faca, desafio a morte / Minha Vila rasga o chão, mãe guardiã / Sobre a terra há de viver sempre o mais forte!” teve uma boa passagem. No geral, é uma apresentação inteira, mas com leve queda de rendimento ao longo das passadas. O grande mérito do samba está no refrão do meio; como conjunto, é uma exibição regular.
Parceria de Raoni Ventapane: Pitty de Menezes e Dodô Ananias defenderam a obra de Raoni Ventapane, Didi Américo, Markinho da Vila, Wilson Mineiro, Robson Bastos, Elton Babu, Bernardo Nobre e Gabriel Coelho. Uma apresentação de excelente nível. O refrão principal “Ogum, Ogum… Ouça a voz de quem te chama / Ogum, Ogum… Lá da aldeia de Aruanda / Ô nagô iná… Partilhar é o caminho / Me orgulho em ser a Vila de Martinho” é envolvente e empolgante, com melodia de fácil assimilação e gostosa de ouvir. A primeira parte também se destaca, com a abertura de melodia cativante: “Por terras secas passei e feito anzol de pescar / Cativa então mergulhei, não via o sol brilhar”. Já o refrão do meio é outro excelente momento do samba. A sequência “Tem boneca de milho na casa de barro, Jarê / Raízes que vêm ‘benzê’… Do velho nagô / Vi curador cavalgando em cantoria / Cada alma que descia, um lampião incendiou”, seguida de “Ê marinheiro, ventania e aluá / O peji foi convocado pra jogar rede no mar”, tem ótimo rendimento. Já na segunda parte, a melodia é muito bonita e há um jogo de pergunta e resposta entre as vozes logo na abertura: “Se essa terra fosse minha (eu quero) / Eu mandava partilhar (que o povo) / Pra que cada Bebiana (na vida) / Tenha um canto pra plantar ou ensinar / À sombra de um buritizeiro”. Esse jogo de pergunta e resposta traz uma virada bonita para o samba. A performance de Pitty de Menezes e Dodô Ananias acentua a ótima melodia da obra e faz o samba passar com força, sendo uma apresentação de destaque da noite.
Parceria de Martinho da Vila: Fechando a noite, a parceria de Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz não contou com Wander Pires. Foi o próprio André Diniz quem comandou a primeira passada do samba sem bateria. Depois, Wandinho assumiu o microfone principal. O refrão principal “A semente que ficou, é se juntar / Dividir o que plantou, e se a vida derrubar / Enxugue o pranto, te levo pra lutar” é uma boa síntese, com melodia simples e bonita que funciona bem. Logo depois, sem função de bis, aparece outro trecho de destaque: “Nas páginas de um livro admirado / Torto Arado é retrato brasileiro / A nossa Vila, mais que uma escola / Aguerrida quilombola, risca o chão desse terreiro”. É um trecho muito bem cantado e que acaba ganhando mais força na apresentação do que o próprio refrão principal. Já o refrão do meio traz “Na brindeira, o batuque do Jarê / Rodo na gira do corpo pra corpo benzer / À luz de um velho nagô, o lume de lampião / O caruru na tigela, comendo com a mão”, com os versos invertidos no bis, rendendo bem. Na segunda parte, destacam-se os versos “A professora dá as mãos à profetisa / Dos dramas, na lida, na fé e no amor / Mulheres destemidas não se calam / Contra injustiças e grilhões / E a luta pela terra vai seguindo gerações”. Narrativa que traz mais as personagens de “Torto Arado”, remetendo a Bibiana e Belonísia. Ainda assim, o samba passa de forma mais fria: a abertura que André faz é bonita e envolvente, chamando a torcida do samba, mas, depois disso, a obra não sustenta o mesmo encanto, tendo uma passagem sem grandes sobressaltos.









