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Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A Imperatriz Leopoldinense entrou na fase decisiva da sua disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027, com a etapa de quartas de final realizada na última sexta-feira. Sete obras pisaram na quadra da verde e branco numa noite que realçou as particularidades de cada samba, com obras de diferentes estilos melódicos e formas de contar a história proposta. Nesta diversificação, destaque para a apresentação da parceria de Hélio Porto, com um desempenho excelente. Quatro sambas passaram para a fase semifinal, com as parcerias de Renan Gêmeo, Jefferson Lima e Mateus Pranto ficando pelo caminho. O enredo da agremiação de Ramos para o próximo carnaval é “A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia”, desenvolvido por Leandro Vieira. A escola fechará a segunda-feira de carnaval. A seguir, a análise do CARNAVALESCO sobre as parcerias classificadas para a semifinal, que acontece no sábado, 5 de setembro.

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Parceria de Me Leva: Igor Vianna defendeu a obra de Me Leva, Gabriel Coelho, Guilherme Macedo, Herval Neto, Bernardo Nobre e Thiago Meiners. Um samba que aposta na repetição de seus versos para alcançar com mais força o imaginário do componente. São cinco trechos com bis, o primeiro deles na cabeça do samba: “é baque virado do Congo, cortejo de coroação, essa loa traz mistérios de uma história feita a mão”. Na sequência, a primeira parte traz a realeza do maracatu e o início do mistério da calunga feita para suprir a ausência de Dona Santa no plano terrestre, vide os versos “Dona Santa subiu pro Orun, a calunga incorporou, tem mistério a mandinga que seu filho assentou”. O bis seguinte, “Ô babá, na imbuia, o Egun da rainha, epa babá, na madeira, o ori de Oxalá”, é mais interessante melodicamente que o primeiro, apesar de toda a primeira parte ter uma base melódica semelhante. O refrão central, “é galinha d’angola, farinha, é sangue no couro, sassanha pra folha de boldo, copo d’água, fumaça e acaçá, foram três dias de resguardo no roncó, feitiço que corta nó pra boneca reencantar”, gera a imagética de um ritual, este, no caso, para a limpeza e retorno de Dona Júlia para o sagrado, extremamente sedutor em letra e melodia, obtendo efeito imediato em quem escuta, gerando o grande momento da obra durante a passagem na quadra. Em seguida, o samba retrata o retorno da boneca ao cortejo de maracatu e à noite dos tambores silenciosos, com mais um bis antes do refrão principal, “meia-noite, meia-noite, eu vi a terra tremer, senhora dá passagem pro povo do Orun descer, senhora dá passagem pro povo descer pro Ayê”, que entrega bem para o refrão principal, “Oyá Oyá, ê Lari Ô Oyá Balé, Oyá Oyá, ê Lari Ô Oyá Balé, que meu Ogã evoque um ponto de macumba, pra ganhar a rua a Imperatriz do candomblé”, trecho que possui boa variação melódica e boa comunicação com o público, se mantendo firme durante a apresentação. A letra beira a perfeição em sua construção, toda a história está ali e contada com muita qualidade poética, mas o samba passou aquém de sua qualidade. Talvez pela numerosa sequência de bis, o samba passou com alguns sobressaltos ao avançar das passadas e, principalmente, nas duas últimas passadas, de maneira truncada em alguns momentos, como na primeira parte, onde a variação melódica é menor. Foi uma passagem que apresentou as qualidades da obra, mas que não alcançou todo o potencial do samba.

Parceria de Josimar: Ronaldo Ylê defendeu o samba da parceria de Josimar, Carlos Kind, Diego Jorge, PC do Rio, Kleber Di César e Robert Farrow. A parceria apostou em uma melodia mais dolente, com boas variações, como na primeira parte, nos versos “o baque virado vai ecoar, Recife é o reino do Congo do lado de cá, no chão da nação do Maracatu, nos caminhos de Exú a rainha vai desfilar”. A melodia no geral do setor é muito interessante e acaba sendo superior à letra do mesmo, que não explora tão bem as nuances do enredo e é pouco criativa. O refrão central, “Gira aê calunga, boneca morada do Egun no Ayê, gira aê calunga, boneca morada do Egun no Ayê, no encanto do criador, Porto Rico perguntou, Dona Júlia cadê você?”, é gostoso de ouvir, tem a boa sacada de citar o maracatu Porto Rico e fluiu com facilidade durante a apresentação. O samba segue com uma melodia menos pesada em quase toda a segunda parte, que também possui boas variações, como nos versos “mistério trazido pro Ilê, no Xambá, Awurê, Arupemba vai desvendar, a mão do destino guiou, pra sua casa voltou, na lei do orixá”. A narrativa melhora e versos mais inspirados surgem, como no trecho “O sangue lava, Orixá não tem mais fome, Igbalé sopra seu nome, erguida e encantada pro Carnaval”. Foi na segunda parte que o samba mostrou sua maior irregularidade na apresentação, com uma primeira passada forte e as demais bastante irregulares. O refrão principal, “Tem macumba e maracatu segunda-feira, tem macumba e maracatu segunda-feira, no toque do meu tambor, as bênçãos do candomblé, Imperatriz axé”, dá sequência temporal ao que é retratado na sinopse e teve um bom rendimento. No geral, foi uma apresentação correta, com uma primeira passada valente, mas com as demais passadas mais irregulares em seu desempenho, apesar dos bons momentos melódicos da obra.

Parceria de Hélio Porto: Tinga e Charles Silva foram as vozes principais do samba da autoria de Hélio Porto, Miguel Dibo, Orlando Ambrósio, Marcelo Viana e Antônio Crescente. A apresentação mais potente da noite, conduzida pelo ótimo trabalho dos intérpretes e por um samba que tem uma força intrínseca em sua narrativa, com uma melodia que permeia a estrutura com categoria. O refrão principal, “Akoro mina Dewa Oyá Afulele, Akoro mina Dewa Oyá Motumbalé, catimbó catibozeiro nos encantos da calunga, Imperatriz firma seu ponto na macumba”, além da força semântica, possui uma melodia que o sustenta muito bem e uma frase final que possui impacto e fácil assimilação com o componente, passando com categoria em toda a apresentação. A primeira parte é redonda melodicamente e possui uma narrativa muito bem empregada, com destaque para a poética bastante inspirada nos versos que tratam da criação da boneca Dona Júlia: “nosso rei firma e consagra a saudade, entidade musicada ao xequerê, ausência presente de gente que olho não vê”. O refrão central, “È desce do Orun, fiz teu trono Dona Santa na boneca guardo Egum, Awre Awre brilha no axé, calunga de embuia que babá mandou fazer”, teve um desempenho excelente e grande sustentação em todas as passadas, com um excelente desempenho de Charles e Tinga junto com seus apoios. O refrão que cita o ritual de limpeza e retorno à vida espiritual de Dona Júlia, “tem vela acesa, couro em sangue, copo d’água, a cantiga, tira a mágoa, veste branco no roncó, okan de cabra e galinha pra ofertar, rastilho, fumaça, acaçá, quem vai pra rua não vai só”, é mais um momento de destaque na obra e possui uma melodia envolvente. Em seguida, o trecho que precede o refrão principal, “Deu meia-noite, é meio-dia para alguns, quando o sol encontra a lua na porteira dos eguns”, possui uma virada melódica brusca para o trecho seguinte, sem uma transição mais natural. O samba se portou com altivez e categoria durante todas as passadas, sem momentos de queda, se destacando na noite e dando um passo à frente em um momento decisivo da disputa.

Parceria de Zé Katimba: Bruno Ribas conduziu o samba de Zé Katimba, Inácio Rios, Jorge Arthur, Júlio Alves, Mirandinha Sambista e Igor Federal. O refrão de cabeça, “Ayê Ayê, a corte chegou, eu sou do baque virado no terreiro de xangô”, não tem um apelo tão forte com o componente nem uma narrativa marcante, mas passou de forma agradável durante a apresentação. A primeira parte é interessante em sua narrativa, com versos como “a sagrada fé retinta que se pinta, com as cores do poder, isso é macumba, é batuque de ancestral, salve a calunga, em Recife o carnaval, se transforma em ritual, Dona Santa incorporada, na boneca decorada, sob o toque do conguê”. Na sequência, o refrão “Alfaia não pode, não pode ganzá, na hora que o rei desencarnou, Dona Julia do sagrado ao sumiço inusitado desencantou” mostra uma narrativa mais carnavalesca do fato, com uma carga emocional menor e uma melodia com uma subida que acrescentou lirismo ao trecho, obtendo um rendimento muito bom ao longo das passadas. O samba possui uma melodia mais swingada, e ela funcionou com bastante êxito, fazendo a obra fluir de forma agradável. Na segunda parte, a construção da escrita seguiu uma linguagem mais coloquial e menos rebuscada, contando a história com clareza, vide os versos “pra todo ojé o ixá traz proteção, e quando toca o chão, conduz a Dona Júlia pra Yansã, voltou, ela voltou”. O trecho final da obra se comunica facilmente com o gresilense: “Maracatu é macumba na rua, realidade nua e crua, leopoldinense é macumbeiro de verdade”. O refrão principal, “Igbalé Oyá, Igbalé Oyá, meia-noite na matriz, meia-noite na matriz, na boneca de madeira, o Egun da catimbozeira é o axé da Imperatriz”, seguiu a melodia agradável da obra e também conseguiu uma passagem muito boa. Foi uma apresentação muito redonda de um samba que possui uma narrativa descritiva de fácil assimilação e uma melodia que funcionou de maneira bastante agradável na quadra.