Quase vinte anos. É o tempo que Julinho Nascimento e Rute Alves dançam juntos, e também o tempo suficiente para construir uma linguagem própria, uma lealdade rara e uma carreira que atravessou rebaixamentos, títulos, mortes e recomeços. Para abrir a série “Entrevistão”, o CARNAVALESCO conversou com um dos casais mais longevos do Grupo Especial. Campeões pela Viradouro com 40 pontos no último carnaval, eles chegam à União de Maricá com a missão de abrir o domingo do Especial pela primeira vez em toda a parceria. Nesta conversa, falam sobre o que encontraram no barracão de Maricá, sobre a cabine dupla, sobre a noite em que Julinho soube da morte do irmão minutos antes de entrar na concentração do ensaio técnico e ainda assim entrou. E sobre o que significa, depois de tudo, não ter soltado a mão um do outro.
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O sentimento de vocês aqui é o mesmo de quando saíram da Tijuca e apostaram na Viradouro ou tem diferença?
Rute Alves: Não vejo semelhança; as situações, ao contrário, são bem diferentes. Na Tijuca, foi a primeira vez que eu fui demitida de uma escola de samba. Foi um ano trágico, politicamente trágico, que repercutiu e respingou em todo o carnaval. Não tivemos ensaios técnicos nem aporte nenhum da Prefeitura para o carnaval. E resultou naquele desfile trágico de 2017, de vários acidentes, e nós estávamos na escola que teve um dos maiores acidentes. Eu me lembro que a gente ficou quase 40 minutos parados em frente à cabine dupla quando teve o acidente. E a nota foi muito ruim: 9,7. E aí o Sr. Fernando dispensou a gente, com todo o direito. Sempre penso que é a forma que se manda embora e não o mandar embora. Todo mundo tem direito. Assim como um dia ele achou que a gente podia defender da melhor forma o pavilhão, naquele ano, ele achou que a gente não deveria mais defender.
E, antes ainda dessa dispensa do Sr. Fernando, no Sábado das Campeãs, recebi uma ligação do Marcio Moura, na época da comissão de frente da Viradouro, dizendo que o Marcelo Calil, o pai, gostava muito do nosso trabalho e sempre que a gente passava [na avenida] ele estava no camarote e falava: ‘Ainda vou ter esse casal na minha escola’. Saímos de uma demissão com a pior nota entre os casais do Grupo Especial, vencendo um ano trágico e fomos para uma escola que quem estava ali sabia da potência dela, mas quem estava ao redor não. A escola estava no Acesso.
Quando a gente chegou na Viradouro e conversamos com o Marcelo, logo o estar no Grupo Especial já passou a não fazer diferença para a gente. Primeiro, porque a gente já começou com uma estrutura que nunca tinha tido no Especial. Todas as nossas ponderações, tudo o que a gente pediu, ele aceitou. Eu me lembro que falei assim para o Júlio: ‘Não importa para onde a gente vá, mas para onde a gente for, temos que ter uma ensaiadora’. Era só eu e ele, sabe? É muito difícil um casal ir para a avenida sem um ensaiador. E o Marcelo aceitou. Também me lembro que teve uma situação que foi muito chata: alguns casais do Grupo Especial desdenharam da gente em rede social e fizeram live para debochar que a gente estava no Acesso. As pessoas, ao invés de ensaiar, fizeram live para debochar do Julinho e de mim. Mal sabiam eles o quanto a gente estava feliz na Viradouro. Mal sabiam eles o quanto a gente estava sendo respeitado, o quanto a gente estava financeiramente sendo respeitado também, que a estrutura que tínhamos nunca tivemos antes. Tanto que, em nove carnavais na Viradouro, entregamos nota todos os anos. O único ano que não entregamos nota, perdemos um décimo, ainda assim foi o ano que o Júlio teve o problema com o sapato. Nove carnavais dando 30 ou 40 pontos diz todo o resultado e diz sobre o porquê a gente não ter dado esse resultado na Tijuca. E nós saímos tão pela porta da frente na Tijuca que, quando a gente saiu esse ano da Viradouro, o Sr. Fernando ligou querendo que a gente voltasse para a escola. Esse ano nós saímos campeões com 40 pontos. E foi nossa opção sair. Nós não fomos mandados embora. E viemos para uma escola que talvez nove entre dez profissionais queiram vir trabalhar. A Viradouro tinha uma estrutura que não era vista por fora pelas pessoas. A Maricá tem uma estrutura que é vista por todos, e ela está no Especial e vai permanecer no Especial.
Dizem que trabalhar na Maricá é excelente pelo lado profissional e financeiro. É diferente de tudo o que vocês já viveram?
Rute Alves: Ano que vem faço 30 anos como porta-bandeira de carnavais e a Viradouro foi a primeira que me deu estrutura. Isso é inegável. Era o que a gente precisava e, ao longo desses anos, não teve um senão. Penso que, para um casal dar resultado na avenida, precisa de uma estrutura. Tivemos agora uma reunião com os jurados, e o Zikan, que é um dos nossos jurados, levantou essa fala: os casais têm que ter estrutura, ensaiador, preparador físico, pelo que a gente carrega, por todas as demandas que existem. As pessoas pensam que é só no dia do desfile, mas não é só no dia do desfile. É toda uma preparação, e a gente precisa estar bem em toda essa preparação. E a escola que não oferece isso não vai ter casal gabaritando. Não vai ter. Quando a gente veio para cá, falamos tudo o que a gente já tinha e precisava: do ateliê que faz a nossa fantasia, que gostaríamos de continuar. E foi tudo aceito. Em termos de estrutura, o que a gente já tinha na Viradouro, aqui temos também para nós e para a nossa equipe. É impossível não se apaixonar por aquela sala (de ensaios). Porque não é só a sala: a gente precisa de colchonetes, barra, som. O diretor de carnaval não tem como saber o que um casal precisa, e tudo foi dado 100%. Eles querem ver a gente emocionados e felizes. Não é barganha: ‘eu estou te dando para você me dar a nota’. Claro que o resultado final é a nota. Óbvio. Mas é: ‘fique feliz no processo, seja feliz no caminho’. E isso faz muita diferença. Quando o Matheus [Santos, presidente da Maricá], que é a nossa voz maior aqui na escola, faz as reuniões, emana isso: amor. A gente vê que está todo mundo muito comprometido. A gente está indo para voltar no Sábado das Campeãs. Só que a certeza disso a gente só vai ter na quarta-feira de cinzas. Está todo mundo nesse propósito, com amor, com felicidade… cheirinho de casa nova de verdade.
Esse barracão aqui nunca tinha visto uma obra. Ele não fez uma coisa só para entrar, estar e fazer o carnaval. Fez uma coisa para a gente ter dignidade no trabalho. Para todo mundo entrar com prazer e trabalhar com prazer,. Todo mundo tem que estar bem. Não tem como você trabalhar com arte mal. Eu me lembro que eu e Julinho passamos por um processo pessoal em nossas vidas, que a gente rezava, chorava e depois entrava para dançar. Alguma coisa ali dizia que a gente não estava bem. Por mais que a gente fizesse os movimentos quase que à perfeição, a perfeição não existe, tirando o Júlio dançando, alguma coisa passava para quem estava vendo a gente. A gente tem que estar bem, a gente tem que estar feliz.
Enquanto os dirigentes não entenderem isso, enquanto os dirigentes tratarem mal as pessoas… E foi o que foi falado pelo Zikan e que eu fiquei triste: em 24 pessoas, 12 casais, eu fui a única que falei que realmente não são todas as escolas que dão estrutura. Eu podia me calar e não falar nada. Eu sei que hoje se contam nos dedos as escolas que têm estrutura. E hoje, é inadmissível, gente! Uma escola do Especial tem condição de dar estrutura. Por menor que seja, por mais que só tenha a verba de um município. Não importa. Se você for botar na ponta do lápis, contando salário, roupa de quadra, roupa de avenida, preparador, ensaiador, o que se gasta com o casal não chega ao que se gasta com uma alegoria. Mestre-sala e Porta-bandeira ainda assim é o quesito mais barato. É inadmissível uma escola não dar estrutura. E chega a ser burrice, porque o resultado não vem. É um quesito.
Vocês ganharam títulos com a Viradouro e agora vão experimentar abrir o domingo de carnaval com uma escola novata no Especial. Como garantir os 40 pontos que a escola depende de vocês?
Julinho Nascimento: Confesso que a gente está vivendo mais um sonho em nossas vidas, como tantos que já vivemos. A Maricá, com essa sede, é uma escola tão jovem e com uma vontade muito grande de aprender e de mostrar o que o povo de Maricá tem. É mais um sonho. Enxergo lá na frente: vamos abrir um carnaval. Já tivemos a oportunidade de subir (do Acesso para o Especial) com uma escola e ser campeão.
Rute Alves: Nunca abrimos [os desfiles]…
Julinho Nascimento: É agora, de fato, é a primeira vez que, nesses 20 anos juntos, a gente vai abrir um carnaval. Acho que vai ser a realização de um sonho, no sentido do desafio, da expectativa. Temos uma certa maturidade para encarar esse desafio. Ao mesmo tempo, no mesmo sentimento que a União de Maricá, entrar com muita garra, de mostrar um belíssimo carnaval e realizar um grande desfile. Como a Rute já mencionou, a estrutura que a escola está oferecendo não só para nós, mas para todos os profissionais, é maravilhosa. Vamos buscar alcançar esse êxito de gabaritar.

Rute Alves: Eu penso que é ótimo (abrir o domingo). Pela primeira vez, depois de muito tempo, eu vou ter os outros dias de carnaval para curtir. Desfilamos em Belo Horizonte na terça-feira de carnaval, vamos ter o resto do domingo, segunda-feira… É domingo que a gente abre. Deixa a avenida para a gente. Vamos abrir, a gente vai dar licença para quem vem depois.
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Vocês gostam de ensaiar super cedo. É mais fácil ou mais difícil acordar e treinar? Como é essa rotina de preparação?
Julinho Nascimento: Entendo que, dentro da atividade física, o corpo de manhã cedo desperta, principalmente para o que a gente se propõe que é a dança. É claro que dois meses antes do carnaval a gente começa a enfrentar uma rotina muito louca de compromissos, e manter essa rotina de manhã cedo é realmente puxado. Para a gente é algo maravilhoso. A Rute não gosta muito, porque, ela tem os motivos dela (risos). Eu adoro atividade física de manhã cedo; sempre pratiquei, sempre gostei. E a dança não é somente atividade física, ela mexe muito com o mental. E a nossa proposta de dança como Mestre-sala e Porta-bandeira não é só mental e físico; é espiritual, tem a ver com essa espiritualidade que envolve o pavilhão. Acordar de manhã cedo e já colocar em prática o nosso trabalho, a nossa arte, para mim, é algo inusitado e maravilhoso ao mesmo tempo.
Rute Alves: (Risos) Primeiro, não sei que espiritualidade é essa de manhã. A macumba eu vou fazer à noite, lá até de madrugada. Eu odeio. Porque não é um de manhã, 8 horas, 9 horas, é 5 horas da manhã. Quando é aqui na sala de ensaio (no barracão) é um pouquinho mais tarde, mas quando é na Marquês, é tipo 5 horas da manhã. Que corpo que está acordando a essa hora? Ele que começou com essa pa-lha-ça-da. (risos) Eu só aceito pelo seguinte: ele tem toda a razão. Não é negócio do corpo acordar a essa hora, não. As nossas ensaiadoras falavam até que a gente alinhava mais quando ensaiava durante o dia. O que é muito importante é o que acontecia nas outras escolas mais em janeiro: quando não tem ensaio agendado, surge muita coisa em cima da hora. Quando você ensaia de manhã, um horário que ninguém ocupa… Ninguém marca gravação às 5 horas da manhã. Às vezes, a gente precisava deixar de ensaiar para poder fazer alguma coisa, e isso é muito ruim. A gente ensaia de manhã e fica com o dia livre. Outro ponto é que a pista é toda para a gente. Fazemos cinco, seis, sete vezes em cada cabine sem preocupação [com o horário]. A noite é muito ruim: você faz uma vez e tem que passar.
Falando em treino, por que muitos casais postam vídeos de treinos físicos e poucos de dança? Para vocês, o treinamento físico prevalece sobre a dança?
Julinho Nascimento: A questão da dança é muito pessoal de cada casal: a quantidade de ensaios, a qualidade dos ensaios; tem alguns que preferem ensaiar com mais qualidade, perto do carnaval, outros preferem a quantidade de ensaios e começar muito cedo. Acho que é muito particular de cada casal. A dança é tão importante quanto a preparação física, mas hoje a parte física é fundamental porque a dança dos casais de Mestre-sala e Porta-bandeira é performática. Porque hoje exige uma expectativa muito grande de performance justamente por conta da mudança que houve, há algumas décadas, da posição do casal lá para frente. Hoje existe toda uma preparação para uma entrada, para apresentar uma parte principal de dança, para uma finalização. O nível de performance exigido do casal é maior. E com as fantasias, o casal tem que se preparar muito bem para suportar esse nível de performance. Hoje existe um amplo processo de movimentação, de dança, que passou a exigir esse preparo. E quando você entrava na frente dos casais, há muito tempo atrás, contavam o entrosamento, contavam o entrosamento, a parte do ensaio, a dança em si. Você dançava; não havia um momento de entrada, de saída. Hoje todo mundo sabe que você tem praticamente o mesmo tempo de apresentação de um outro quesito. A comissão de frente vem junto. Você tem a entrada, tem a saída; você passa praticamente de 2 minutos a 2 minutos e meio se apresentando ali com um nível de exigência alta. Hoje você tem elementos de dança que exigem isso. Quem não cuidar da preparação física, quando chega lá, pode ficar devendo alguma coisa no decorrer do desfile. Acontece o desgaste físico, o peso da fantasia, o emocional, isso tudo vai te desgastando. E quando você vai chegando nas cabines finais, pode ser que o nível de performance pode ser comprometido pela questão física. Nesse sentido, a preparação física começa um pouco antes do que a própria preparação técnica. É por isso que digo que é muito pessoal: tem casais com parceria mais recente, outros com mais tempo. Cada um prioriza o seu planejamento de acordo com a peculiaridade do casal.
Existe reclamação de alguns casais sobre a mudança na dança de casal de Mestre-sala e Porta-bandeira. A Selminha, por exemplo, diz que a dança tradicional está sumindo. O que vocês pensam sobre isso?
Rute Alves: Eu vejo que isso decorre muito do julgamento. Quando um casal gabarita em um ano, a tendência é, no ano seguinte, de todos irem naquilo como se fosse uma receita de bolo. Se tem um movimento mais coreográfico em cima de alguma menção ao samba, à letra ou até mesmo às bossas da bateria, isso foi vindo dos jurados para a gente. E a gente sem uma linha, porque isso não era tão transparente. Uma coisa que eu louvo é a gestão do Gabriel (David, presidente da Liesa). Ficamos muitos anos sem ter contato com os nossos jurados, como se eles fossem extraterrestres e não pudéssemos conhecer o pensamento deles. A gente entra na Avenida para fazer um espetáculo, mas está sendo julgado por certas pessoas. Então, tem que ter uma especificidade direcionada para eles. E como fazer algo direcionado se eu não sei como eles pensam? Se alguém me julga, tira notas, escreve uma coisa, concordando ou não, eu não tenho como questionar, não tenho como entender. Agora, com o Gabriel, temos duas reuniões com os jurados. Ele retirou aquela exigência de balé. Hoje temos ainda jurados do Municipal, sim, mas que são super populares. Eles não julgam a gente com a cabeça do balé clássico. Quando não havia o julgamento transparente, quando a gente não podia sentar e conversar com os nossos jurados, se um casal fizesse alguma coisa, concordando ou não, você, querendo nota, ia na boiada também. E a coisa foi crescendo.

Coreografia todos fazem, desde que você tenha um tempo para entrar, certos momentos para fazer alguma coisa. Há jurados que exigem que você faça alguma movimentação caso caia na bossa da bateria. Eu acho que tem que ter um bom senso de cada casal com a sua ensaiadora, com a sua coreógrafa. Nós não temos coreógrafa; temos ensaiadora. Quem monta as coreografias somos eu e Júlio. A ensaiadora olha e verifica o que está legal para ser visto de frente, porque às vezes a gente monta, mas não está se vendo. Acho que tem que ter um bom senso dos três para fazer as obrigatoriedades, manter viva a tradição e, ainda assim, botar inovação, um algo a mais. Eu sou a favor disso. A gente fala em tradição, mas antigamente, a velocidade dos nossos giros, por conta do andamento do samba e da bateria, era menor; as bandeiras nem abriam. Nós giravamos muito lentamente para vir na cadência. Só que as bandeiras desfraldadas, abertas, exigem velocidade no giro. E antigamente não tinha como, por conta do andamento.
Se fosse assim, a gente tinha que dançar mais lentamente. Não posso assegurar para você, mas acredito que, se hoje um casal dançar como se dançava antigamente, 100% raiz, vai ser canetado também. Até o novo regulamento da Liga tem essa exigência da dança 360º. Antigamente, não tinha. Isso também tira a originalidade da dança do casal? Acho que não. Acho que tem que ter bom senso. O que tem que se manter mesmo é o cortejo, o carinho, o giro para os dois lados, o namoro. O que você for incrementando, o recheio que você for botando ali é super válido.
Qual o balanço de vocês da cabine dupla no Carnaval 2026?
Julinho Nascimento: Confesso que a gente transitou entre momentos de ‘poxa, vai ser legal, vai ser divertido’ e momentos de ‘Oh, meu Deus, o que vai acontecer?’.
Rute Alves: Você transitou. Eu nunca transitei. (Risos)
Julinho Nascimento: Era algo novo. Muitos falavam assim: ‘Vocês casais vão lidar com isso, vão tirar onda, só vão sair da coisa centrada e ter a preocupação de olhar de um lado para o outro’. As pessoas falavam como se fosse simples, mas não é assim. Sabemos que ali estamos sendo avaliados e, ao mesmo tempo, precisamos atender aos dois lados (das cabines de jurados) e ao público. Todos os casais se acostumaram, durante muitos anos, a dançar chapado de frente para o jurado, quase sempre de costas para o lado contrário da cabine. Não é só olhar e sorrir para um lado e para o outro: tem toda uma questão corporal. A gente permeou situações de ‘está bom, não está bom, está ruim, está indo, não está indo, até onde atinge um certo clímax na dança, até onde atinge um lado, o outro’. São perguntas que ficam na nossa cabeça: como o jurado vai interpretar isso? Um vai gostar, de repente não era o momento para o outro. Foi um desafio para todos nós casais, mas eu gostei da mudança. Achei que quem ganhou mais foi o público. Porque ali em frente à cabine dos jurados é um momento tão gostoso do desfile, no qual acontecem as apresentações de comissões de frente, dos casais, da bateria, e o público aguarda esse momento. E a gente conseguiu se dividir para os dois lados da pista com a mesma intensidade. Foi muito legal. Graças a Deus a gente alcançou as notas. Um balanço bem positivo.
Rute Alves: Eu juro que em nenhum momento eu achei legal. Em nenhum momento eu gostei. Eu nunca transitei. (risos) Fiquei muito revoltada. Quando teve a reunião, a primeira, eu não pude ir, estava trabalhando, falei: ‘Achei péssimo. Como vai ser isso?’. E ficava ainda mais péssimo quando chegavam pessoas da comissão de frente e bateria dizendo que para o casal não ia mudar nada. Claro que muda. E aí, não é defendendo o meu peixe, mas para o casal é que mais muda. O casal tem a obrigatoriedade de apresentar a bandeira. E você vai apresentar só para um jurado e não vai apresentar para o outro? A apresentação vai ter que ser pocket, porque você está perdendo tempo de samba. Não digo ‘perdendo’ com desrespeito, porque o momento mais importante é a apresentação do pavilhão, mas a gente só apresentava para um lado. E agora tem que apresentar para os dois. Sempre se dizia: ‘não pode ficar de costas para o jurado, principalmente o Mestre-sala’. E como desmistificar isso? Agora pode, porque num dos momentos, você vai estar de costas para o jurado. E outra: não existe isso de ser para agradar o público. Se fosse para o público, seria obrigatório nas três cabines. E é só em uma (no caso, no momento de apresentação para as cabines espelhadas). O público das outras cabines não precisa ver? Achei muito equivocada essa mudança com essa fala de que era para o público. Se fosse, tinha que ser em todas as cabines. Tanto que nós mantivemos a mesma coreografia nas três cabines.
Passado o susto, não que eu tenha passado a adorar, para mim normalizou. E deu super certo. Saiu até em um canal do YouTube que filma todos os casais dizendo que nós, desde o início, fomos o casal que mais entendeu a cabine espelhada. Mas não foi fácil. Até sair os 40 pontos: será que foi isso mesmo? Será que acertamos? Porque uma coisa é a gente sair da Avenida satisfeitos; outra é satisfazer quatro pessoas. Até sair a quarta nota, a gente ler as justificativas e entender os comentários e os prêmios… Aí a gente acertou. Ainda assim, a coreografia deste ano não pode ser repetida no próximo ano. Tirou o pavor do primeiro momento, mas temos que acertar novamente. Agora vai ser o medinho. No passado foi o pavor.
Rute, qual a sensação quando elogiam a sua dança mais aguerrida? O que sente quando exaltam essa sua garra na dança?

Rute Alves: Louvando o nome de Maria Helena. Essa minha garra veio dela. Minha maior ídola. Tenho respeito a todas que vieram antes de mim; peço licença às minhas ancestrais, mas a minha ídola é ela. Eu danço por ela. Na época dela, não tinha nada disso: ela fazia a fantasia dela, ela descia o morro com a fantasia dela, ia para a Avenida de Kombi, chegava ali e entrava. Então, a gente com preparador, com água, com hotel, com maquiador, não pode entrar ali e fazer menos. Quando ainda me veem com a dança aguerrida, eu falo: ‘Estou imitando ela direitinho; estou louvando o nome da minha maior ídola’.
Julinho, o momento do ensaio técnico quando você soube que seu irmão tinha falecido foi o pior da sua carreira? Como foi para se concentrar e por que não quis ir embora e preferiu ensaiar?
Julinho Nascimento: Não sei exatamente de onde me veio a força (para ensaiar). Acho que eu e a Rute ficamos tão entregues à nossa arte, ao nosso trabalho, ao nosso compromisso um com o outro, com o nosso pavilhão, com a nossa escola, que às vezes a gente só vai entender algumas atitudes depois, porque a gente está tão levado por essa magia. Só depois que a gente vai ter uma ideia. É mágico demais. O que aconteceu com meu irmão foi uma prova muito grande. Na hora, quando recebi a notícia, foi um baque. Estava chegando à concentração com minha família, ligaram e avisaram no viva-voz o que tinha acontecido. Foi uma gritaria dentro do carro. Foi algo que pegou todo mundo de surpresa.

Eu só tinha sentido isso com o meu pai, há muitos anos… E quando fui me dar conta, eu pensei: ‘Calma. Tenho que acalmar todo mundo aqui’. Acalmar minha irmã, meus filhos… E a Rute chegou logo depois e falou comigo: ‘Não, amigo, vai para casa, vai resolver as coisas’. Eu que sou um cara centrado, estava atordoado. Pensei: ‘Cara, meu irmão era do carnaval; ele não iria admitir que eu deixasse de passar na avenida num momento tão importante como o ensaio técnico e que o motivo fosse ele’. Ele não iria querer isso. Se ele estivesse acamado, adoentado, ele ia falar para mim: ‘Vai lá, faz o teu papel, arrebenta e faz o seu melhor. Eu estou aqui torcendo por você’, como ele sempre esteve. Naquele momento, foi Deus que me tocou no meio daquilo tudo e me veio: ‘Não, eu vou passar; meu irmão vai vir comigo; é o que ele gostaria que eu fizesse; vou fazer por ele, e depois daqui eu vou resolver. Porque agora eu não vou conseguir resolver nada. Não adianta sair daqui correndo; eu só precisava contar para minha mãe, e isso seria depois. Segurei na mão da Rute e disse: ‘Amiga, a gente vai passar por você, pela nossa bandeira, pela nossa escola, pela nossa arte’. E dali, acho que Deus me deu força e eu segui. Expliquei aos meus filhos que depois do ensaio técnico a gente ia resolver as coisas. A gestão da escola (Viradouro) me perguntou se eu queria parar e sair para resolver, eles foram muito humanos, muito solícitos, eu falei que iria honrar minha dama, minha porta-bandeira, meu pavilhão. É o que o meu irmão gostaria. E lá no Setor 1, na concentração do ensaio técnico, a Rute me puxou para o meio da ala das crianças que veio atrás da gente e disse: ‘Tio Julinho está triste. Ele precisa de amor, ele precisa de abraço’. Enfim, são muitas coisas que a gente já passou juntos. Ela é minha irmã de alma, de dança, de vida. E sempre houve essa síntese nossa, de parceria, de irmandade. Ali, acho que eu pedi muito ao meu irmão que ele viesse comigo, que com todo o respeito ao momento que ele estivesse, ele me ia dar forças. E depois ia resolver o que precisasse ser resolvido. A preocupação era a minha mãe, que ninguém da família contasse para a minha mãe antes de eu chegar com a minha irmã para conversar com ela. E isso foi só depois do ensaio. E veio uma chuva naquele ensaio. Foi Deus, não foi da forma que eu gostaria, mas Deus ali me sinalizou com fortaleza, com algo que eu não esperava ter. Meu São Jorge, aqueles que me protegem, que me regem, me conduziram. Sei o quanto esse momento é importante para a gente. Pedi muito a Deus que nada me tirasse do foco. Acho que fizemos um grande ensaio técnico. E ali meu irmão mostrou para mim que a gente ia vencer. É algo que eu vou carregar para mim. Amo meu irmão.
Julinho, como é ser parceiro da Rute? Dizem que ela fala mesmo. Como vocês mantêm a união e ainda debatem sobre o trabalho?
Julinho Fonseca: É como todo relacionamento: nós somos seres humanos, somos diferentes. Personalidades diferentes, maneiras diferentes de enxergar as situações. Por mais que algum momento houvesse atrito, nunca foi por ‘mal caratismo’, por safadeza um com o outro, por traição. Esse tempo todo juntos mostrou para nós o quanto a gente é importante um para o outro. Até nas questões pessoais, o quanto cada um tem para contribuir na vida do outro, seja da maneira que for, no momento que Deus quer.
O amor de verdade, a parceria e a amizade é você aprender a conviver com aquela pessoa, com aquele ser humano que tem defeitos como qualquer outro, como eu tenho, e aprender a lidar com isso, agarrando essa pessoa, com unhas e dentes, para não deixar que nada separe essa amizade. Não é à toa que os Deuses do carnaval nos uniu, e vamos para 20 anos de parceria. A Rute é a maior Porta-bandeira com quem eu já dancei. A Vilma Nascimento é a minha madrinha; ela está lá no lugar dela e ponto final, todo mundo sabe quem é. Mas estou falando da minha relação com a Rute, que foi construída entre nós. Eu não a conhecia, ela também não me conhecia, e a gente construiu e consolidou uma vida e uma parceria juntos. Então eu posso dizer, de boca cheia, que eu tenho a melhor Porta-bandeira do mundo; uma amiga, uma irmã, que está comigo para o que der e vier. Ela com todo o gênio que ela tem, e graças a Deus que ela tem, porque se ela chegou onde chegou é justamente por ser quem ela é, do jeito que ela é. E a troca que a gente tem, sabe? A gente nunca solta a mão um do outro. Não solta.

Tenho plena confiança de que ela nunca soltaria minha mão, como ela sabe que eu nunca soltaria a mão dela. E isso supera qualquer rusga. Os ensinamentos que Deus nos tem dado ao longo desses 20 anos só irão fortalecer e consolidar essa parceria. Estamos aí para realizar mais um sonho juntos: 20 anos de parceria e uma escola que tem menos tempo do que a gente de parceria, e a gente unido a ela para marcar essa parceria de uma maneira muito intensa. O que eu sinto hoje é que Deus conduziu a gente até aqui, e não vai ser por acaso—eu tenho certeza que a gente vai ser muito vitorioso juntamente com a Maricá.
Rute Alves: Eu te amo!
Julinho Nascimento: Também te amo!
Rute, você considera o Julinho o melhor mestre-sala?
Rute Alves: Julinho é! Com todo o respeito a todos os outros, sou muito fã da dança do Daniel, sou fã do Matheus. O Felipe é muito bom, gosto muito da dança dele, mas, para mim, não tem ninguém que chegue aos pés do Júlio. Não tem, não tem, não tem. O Júlio é um dos melhores seres humanos que eu conheço. E tenho certeza que se o mundo conhecesse o Júlio, o mundo ia achar o Júlio um dos melhores seres humanos do mundo.
A gente tem divergências, às vezes, de montagem de coreografia. Mas um nunca foi infiel com o outro. Um nunca foi infiel com o outro. E Júlio é meu irmão mesmo. Foi um casamento mágico. Daqui a pouco não seremos mais um casal de Mestre-sala e Porta-bandeira.

Julinho Nascimento: Quem é, nunca vai deixar de ser.
Rute Alves: A gente pode não estar mais dançando, mas a gente vai continuar sendo irmãos. Tanto assim que, como eu falei, a gente até abriu mão de estar no grupo especial para poder ficarmos juntos. A parceria era mais importante.
E um fato que eu sempre faço questão de falar para dimensionar o caráter, a grandeza, a nossa parceria: quando o segundo filho do Júlio nasceu, a então esposa teve um problema; precisou ficar internada. Na época o Wilsinho era o nosso presidente na Vila Isabel e deu um valor para o Júlio para ajudar no hospital. E aí, graças a Deus, o Pedro teve alta, a mãe do Pedro também teve alta, ficou tudo bem. E sobrou um dinheiro daquilo, e o Júlio queria dividir comigo.
Isso é muito real: os casais brigam muito por causa de dinheiro. Há Mestres-sala que traem Portas-bandeira por causa de dinheiro, e Portas-bandeira que traem Mestres-sala. A gente nunca entrou numa reunião sozinho para conversar qualquer coisa relacionada ao nosso trabalho sem que o outro estivesse lá. Lealdade, honestidade.
Julinho Nascimento: E acho que o grande plus nosso é isso: a gente transmite essa cumplicidade quando está dançando.
Julinho, o que você sente sendo considerado o melhor mestre-sala?
Julinho Nascimento: Cara, eu me sinto honrado, lisonjeado. Mas eu não sei, de verdade, se sou o melhor mestre-sala. Isso é a perspectiva das pessoas, de algumas que acompanham o carnaval. Eu procuro encarar com naturalidade, não deixar isso subir à cabeça, porque o ego às vezes pode trair a gente. A gente tem vaidade, sim; a gente trabalha para buscar o melhor.
Mas, principalmente, é entender que se eu sou o melhor mestre-sala, é porque alguém me faz ser o melhor mestre-sala. E esse alguém é a minha porta-bandeira que está lá carregando o meu pavilhão. Ela proporciona isso, ela me permite isso, ela me puxa a orelha quando tem que puxar. Eu tenho uma irmã e tenho uma mãe, tenho uma amiga, parceira, vaidosa também, e que tem que ser sim, pelo posto que ela carrega, pela responsabilidade que ela tem. Então, se dizem que sou o melhor mestre-sala, é porque tenho a melhor porta-bandeira, que me faz o melhor mestre-sala. Porque a dança é do um para o outro e do outro para o um.
E pelo outro lado: eu prometi ao meu pai, no seu sepultamento, que um dia seria considerado um grande Mestre-sala, um grande sambista, mas acima de tudo um grande sucessor dele. E acho que é isso que me leva a respeitar os outros grandes Mestres-sala com que já tive o prazer de dividir a avenida, e com que ainda divido… Cara, há mestres-sala maravilhosos desfilando hoje. Então, eu divido com eles essa responsabilidade e esse legado que eu trago comigo.
Para vocês, o que vocês ainda gostariam de realizar na carreira de Mestre-sala e Porta-Bandeira?
Rute Alves: No momento, é ajudar a minha escola, a Maricá, a voltar no sábado das campeãs. No topo. No momento é isso. Depois da quarta-feira de cinzas, do sábado das campeãs, vai mudar, mas no momento o que me falta é isso.
Julinho Nascimento: É, acho que é realizar o sonho de enfrentar esse grande desafio juntamente com a Maricá, que vem com essa proposta de chegar ao grupo especial. Essa jovem escola, com vigor muito grande, e a gente poder se realizar junto com ela, pelo desafio de abrir o carnaval, depois de tanto tempo, com a responsabilidade que é abrir um carnaval no grupo especial do Rio de Janeiro. E dali, deixar caminhos abertos para que os outros casais também façam grandes desfiles.









