
A manhã de sábado começou bastante agitada na Fábrica do Samba. A primeira edição do Congresso Nacional do Samba (Conasamba) realizada em São Paulo teve discussões passionais no Encontro Nacional de Mestres-Salas, Porta-Bandeiras e Porta-Estandartes, que fazia parte do cronograma do evento. Com nomes importantíssimos para o bailado, a mesa teve opiniões divergentes e reflexões profundas. Sempre presente em tudo que envolve o universo das escolas de samba, o CARNAVALESCO se fez presente no encontro.
Fina flor paulistana
Dois dos maiores mestres-salas do Carnaval paulistano iniciaram as falas. O primeiro foi Ednei Mariano, que defendeu nota entre 1974 e 2013 com passagens por agremiações como Barroca Zona Sul e Rosas de Ouro – e, hoje, é o presidente da Associação de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Estandarte do Estado de São Paulo (AMESPBEESP). O eminente nome buscou um olhar positivo sobre a arte defendida por ele: “Em um momento de tantas mudanças e transformações, mesmo com toda a dificuldade, o que me conforto é que ainda conseguimos manter pelo menos um pouco das tradições ligadas ao bailado do casal de mestre-sala e porta-bandeira”, disse.
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Já Gabriel de Souza Martins, imortalizado como Mestre Gabi, tido como maior mestre-sala da história do Carnaval paulistano e intimamente ligado ao Camisa Verde e Branco, teve falas mais alarmantes: “Minha preocupação é que a nossa dança está se desvirtuando, indo pra outro caminho”, disse. Em outro momento, ao falar de coreografias, foi franco: “Não sou contra coreógrafos, já que eles podem consertar a minha postura. Mas, o meu riscado, não. Quando a gente ouve o batuque, a nossa pulsação muda”, suspirou.

Um flagrante relembrado por Mestre Gabi também teve destaque: “Hoje, vejo alguns casais que passam dançando e eu falo para riscar, mas ele não pode fazer isso na minha frente porque ele está fazendo uma coreografia – e isso é o que foi passado para os jurados”. Uma lembrança dos antigos desfiles também teve espaço na fala dele: “Eu defendo o meu pavilhão primeiro e, depois, a minha porta-bandeira. “O mestre-sala, quando girava, fazia uma observação – para ver se ninguém iria roubar nosso pavilhão. Hoje, vejo mestres-sala girando tanto quanto portas-bandeira”, lamentou.
Mestre Gabi também pontuou que a avaliação precisa de mudanças: “Não está mais tão interessante quanto era. Antes, víamos danças completamente diferentes. Hoje, nossa dança tem que se adaptar aos jurados: se o jurado não conhece a nossa dança, ele que estude para conhecer. Nossos instrutores de jurados também devem se preparar melhor. Nossa dança não é fácil. Jurados têm que ir às quadras para ver a dança livremente”, comentou.
Outro a falar foi Paulo Guedes, o Paulinho, mestre-sala do Vai-Vai entre 1994 e 1997: “Muitos casais estão deturpando o que é a dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira. A culpa não é só dos casais, é também de dirigentes e jurados. Nossa dança é intuitiva. Hoje, tem mestre-sala que fala que é bailarino. Eu sempre vou ser mestre-sala. Não dá para reinventar a roda, a dança está aí para todo mundo ver”, alertou.
Voz dissonante
Atual mestre-sala do Camisa Verde e Branco, Marquinhos Costa foi um dos poucos a contemporizar sobre uma série de questões, como o quanto o regulamento é um vilão, por exemplo: “Nem tudo é culpa do regulamento. Eu vim hoje, por exemplo, vestido como me ensinaram – e isso não está no regulamento. Tivemos que colocar no regulamento algumas coisas óbvias, como o adereço de mão. Fui um dos principais responsáveis por redigir o atual regulamento, de 2023, e que teve algumas mudanças posteriores, antes, padronizamos muito por baixo”, disparou.

Ele seguiu: “Falta uma maturidade para entender que o regulamento traz o mínimo que o jurado precisa ver. Se você quiser ousar, você pode ousar. Primeiros casais têm que se garantir, temos que segurar rojões, O problema não é o regulamento, é a forma com a qual o regulamento é passado. Primeiros casais não podem ter medo da nota, isso não tira a sua essência”, comentou.
Na visão, dele, há, porém, uma oportunidade a médio e longo prazo: “É histórico, em São Paulo, tentar mudar critérios de julgamentos e julgadores com base em notas perdidos por casais. O resultado baseia as trocas. Trabalho tem que ser contínuo e de evolução para amadurecer o critério”, disse.
Damas com muito a falar
Duas das maiores porta-bandeiras da história do Carnaval paulistano também marcaram presença no Encontro. Uma delas foi Adriana Gomes, multicampeã na Mocidade Alegre e na Mancha Verde. Para começar, ela teve uma fala ligeiramente diferente da maioria dos participantes: “Ainda acho que a nossa dança é inimitável, ela não tem muita mudança. Ela pode ter evoluções, mas o fundamento não pode ser mudado. “Seria leviano da minha parte enquanto porta-bandeira não passar para os demais tudo que eu aprendi. Nossa dança é de passagem, um passa para o outro, mas as pessoas não querem mais saber disso”, lamentou.
Adriana também aproveitou para elogiar grandes nomes presentes no espaço: “Quando eu entendo que eu não preciso de pessoas como Mestre Gabi, Ednei e Selminha, eu já estou perdendo”, refletiu.
A porta-bandeira também aproveitou para falar do papel das redes sociais em todo o processo citado ao longo da mesa: “A inserção de mídias, que julgam os melhores casais porque eles têm mais likes, é algo que diz muito sobre os tempos de hoje. Meu medo é acontecer com os outros o que aconteceu comigo: se desapaixonar pela dança de mestre-sala e porta-bandeira”, protestou.
Ildely Conrado, porta-bandeira dos quatro títulos dos Gaviões da Fiel no Grupo Especial, começou falando de maneira mais irreverente e terminou introspectiva: “Hoje em dia, o casal dança do começo ao final na faixa amarela. Eu gostava de ir primeiro na arquibancada, porque quem veio me ver pagou uma nota. Os casais, hoje, entram para dançar em quatro locais. Isso ajuda a matar a tradição do bailado de mestre-sala e porta-bandeira. Será que se deixar tudo um pouco mais leve e livre no julgamento não retornamos à tradição?”, ponderou.









