O casamento Rosa Magalhães e João Vitor Araújo produziu um desfile com grande apuro visual de uma singeleza e de um domínio do tema que ajudou muito a tornar fácil o entendimento de um enredo muito coeso e divertido. O samba muito elogiado no pré-carnaval teve um rendimento irregular por parte dos componentes. Já a evolução vinha muito bem ao longo de boa parte do desfile, mas pode perder alguns décimos por conta de um buraco formado no início da pista gerado por dificuldades na entrada do último carro. A comissão de frente também passou muito bem. Com o enredo “Mogangueiro da Cara Preta”, o Paraíso do Tuiuti encerrou seu desfile com 67 minutos. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILE

Comissão de frente

Coreografada por Lucas Maciel e Karina Dias, a comissão “Um conto pra lá do Marajó”, apostou em uma coreografia que com simplicidade trouxe soluções criativas e de muito bom gosto. É importante destacar a maquiagem e o figurino dos primeiros componentes com um azul claro muito bonito, representando os encarnados Búfalos que começam sua jornada ainda na Índia, sendo demonstrada pelo próprio figurino, sua relação com o país do oriente. O elemento cênico retrata um palácio indiano e um vaso típico da cultura marajoara que estava muito bem acabado e apuro visual. A apresentação do carimbó com os bailarinos e o búfalo “mogangueiro” com a Oyá acima do jarro foram bastante pertinentes além do efeito com as saias dos primeiros componentes ainda na pista, ainda fora do elemento cênico, terem conquistado o público. No geral, uma comissão que prezou por boas ideias, simplicidade, explicação clara do enredo e apuro estético.

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Mestre-sala e Porta-bandeira

Mais uma vez dançando juntos na Azul e Amarela de São Cristóvão, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, vieram com o figurino “Flor de Lótus” que representou o significado da flor importante para a cultura oriental, principalmente a indiana. Raphael e Dandara simbolizaram a pureza da cor e da mente, o renascimento. A fantasia trazia as cores do Tuiuti e era muito bela.

O casal apostou em uma dança bastante pautada pela proximidade e doçura. Em alguns momentos pontuando um pouco mais o samba, principalmente no refrão do meio, quando Dandara realizava um passo de carimbó e Raphael ao lado abaixava e fazia saudava a porta-bandeira. No trecho ” mas precisa de um xodó”, Dandara fazia um carinho no mestre-sala. Outro ponto alto, ainda no início da apresentação, a dupla fez um gesto com o braço, que fazia referência a danças indianas. O único ponto negativo a ser citado foi a dificuldade com o vento que foi bem dominado nos dois primeiros módulos, mas no último , Dandara teve dificuldade para deixar o pavilhão mais desfraldado.

Harmonia

A comunidade da Amarela e Azul de São Cristóvão apresentou um canto irregular ao longo do desfile do samba bastante elogiado no pré-carnaval. Alguns setores cantavam mais, outros nem tanto. As primeiras alas, do primeiro e do segundo setor ficaram devendo no canto. A partir do terceiro e do quarto, o canto melhorou, mas ainda havia irregularidades. Alguns componentes cantavam, outros não. Destaque para as alas “Sadhus”, e ” peixes da costa da Ilha de Marajó”, que era coreografada, inclusive.

Estreando no Paraíso do Tuiuti, o experiente intérprete Wander Pires iniciou a apresentação realizando os seus já conhecidos cacos, em alguns momentos em demasia, mas depois diminuiu, partindo apenas de alguns mais voltados para a letra como o “cadê o boi, cadê o boi” do primeiro refrão. Em termos do canto do samba, Wander Pires iniciou o desfile apostando em demasia em alguns cacos na música, mas diminui ao longo do desfile focando no canto que aconteceu com correção, auxiliado por um bom carro de som, e mais se limitando ao ótimo “cadê o boi, cadê o boi”.

Enredo

O Paraíso do Tuiuti levou para a Sapucaí um enredo que focou na trajetória da chegada dos búfalos ao Brasil, mas precisamente, na Ilha de Marajó, explorando como eles são chamados na região, de “boi”, o boi da cara preta. O ponto de partida foi a Índia, pois o búfalo era o animal de trabalho mais intensamente utilizado no comércio de especiarias entre Oriente e Ocidente. Em seguida, o desfile retrata a chegada ao Brasil destes animais que acontece justamente por causa desse comércio.

Por causa da musculatura desenvolvida esses bichos conseguiram se salvar de um naufrágio e chegam ao Marajó, uma terra cheia de encantos, que é mais um setor da agremiação. O desfile seguiu exaltando os povos originários da Ilha de Marajó e seu legado, destacando o estilo único da cerâmica marajoara e se encerrou homenageando Mestre Damasceno, que para os carnavalescos assumiu o papel de ” Mogangueiro da cara preta” , ao criar a própria manifestação cultural, o búfalo-bumbá. O que se pode destacar é que foi um enredo de fácil leitura, coeso, que apresentou de forma clara uma história bastante interessante. O único ponto negativo a destacar foi uma pequena dificuldade de leitura nas fantasias do primeiro setor que retratava a riqueza da Índia.

Evolução

A evolução do Tuiuti aconteceu quase de forma satisfatória no desfile. Até a dificuldade que a escola teve para colocar o último carro na pista, a passagem do Paraíso pela Avenida se dava de forma espontânea, alegre e sem apresentar problemas. Mas a situação acabou gerando um buraco no início da pista que deve ter sido observado pelos jurados do primeiro módulo, que é duplo. O problema também gerou uma evolução mais lenta, até o carro chegar ao meio da Avenida. Depois, na parte final do desfile, a evolução voltou a ser espontânea e alegre. A escola apostou em algumas alas coreografadas no setor do naufrágio, principalmente as que tinham alguma relação com aspectos do mar. E depois no setor da cultura marajoara, havia bonitas coreografias das danças do carimbó. A bateria entrou no recuo aos 47 minutos e saiu aos 59 sem apresentar problemas.

Samba-Enredo

A obra de Cláudio Russo e companhia segue a linha de bons sambas-enredo que o Paraíso do Tuiuti tem levado para a Sapucaí nos últimos anos, e foi bastante elogiado no pré-carnaval. O samba tem uma melodia muito característica, com alguns pontos altos como o refrão principal ” Cadê o Boi” , e o bis antes do refrão principal com o “É lá, É lá” que remonta a músicas típicas da região homenageada, além do refrão do meio que possuiu um swing da Ilha de Marajó. O canto da comunidade, que foi irregular ao longo do desfile, explodia mais no “Meu Tuiuti não tem medo de careta, chama o Boi da Cara Preta do estado do Pará” e também no “É lá, É lá”. O samba teve bom andamento mas não interagiu de forma satisfatória com o público.

Fantasias

O Tuiuti apostou em suas primeiras alas no amarelo e azul da escola com outras cores só nas penas dos costeiros. A partir das baianas, há a presença de tons de rosa que se incorporam à paleta, contrastando com outras cores. A escola inicia o segundo setor sobre especiarias predominância de cores mais cítricas usando amarelo, verde claro, laranja, e em alguns momentos o rosa. Já no terceiro setor, o do naufrágio começa a opção pelo azul que vai até o quarto setor, apostando em tons mais claros, com estampas de bichos e de referência da cerâmica marajoara. Na sequência, no quinto Setor, os carnavalescos apostam em tons mais de palha inicialmente, mas trazendo o colorido de figurinos típicos do carimbó, prevalecendo o amarelo da escola. No geral, o conjunto de fantasias possuíam volume sem se tornar pesados para os componentes, com bom apuro estético, bom gosto, com soluções criativas e com atenção principalmente para os costeiros, muito bem feitos.

Alegorias e Adereços

Rosa Magalhães e João Vitor Araújo levaram para a Sapucaí um conjunto alegórico composto por 5 carros e sem tripés. O carro abre-alas “o esplendor da Índia” trouxe a opulência e grandiosidade da cultura por meio da religião hinduísta. Com tigres brancos na frente, a alegoria trouxe outras divindades, invocando o simbolismo e a proteção deles. Ainda nessa pegada oriental, o segundo carro do Tuiuti “o mercado indiano” trouxe o colorido das especiarias em um grande mostruário, sintetizando o comércio entre Oriente e Ocidente presente no enredo.

A alegoria “Mocangueiro correu para o Igarapé” apresentou o naufrágio que trouxe os Búfalos para a Ilha de Marajó. O carro era constituído por um barro e os Búfalos, com monstros marinhos, que na época povoavam o imaginário dos marinheiros. A quarta alegoria ” a riqueza da cultura marajoara” resumiu a riqueza dos povos originários da região da Ilha de Marajó. Por fim, a última alegoria ” Bufodromo” , trouxe o personagem principal do enredo sendo coroado com o símbolo da agremiação em seu local de desfile, o bufódromo, que encerrou o desfile com muito colorido e bom gosto. No geral, alegorias de bom acabamento, soluções simples mas criativas, bom uso das cores e bom tamanho.

Outros destaques

As baianas coloriram a Sapucaí em tons quentes somados ao amarelo e azul do pavilhão do Tuiuti. As matriarcas do samba representaram a arte indiana e as cores do festejo do país chamado de Durga Puja. A bateria de mestre Marcão veio representando os indígenas marajoaras, descendentes dos povos originários da região. Com uma fantasia leve, a SuperSom levantou o público com bossas relacionadas ao carimbó.

A rainha Mayara Lima veio como ” Deusa Marajoara” apresentando as mulheres como deusas poderosas, fundadoras de linhagens. O figurino apresentava a riqueza do grafismo decorativo dos povos originários do Marajó. Em sua estreia no cargo, Mayara mais uma vez chamou a atenção pelo samba no pé, simpatia e entrosamento com mestre Marcão.Estreando pelo Paraíso do Tuiuti, Wander Pires comemorou 30 anos de Sapucaí neste desfile.