sidnei mangueira
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Durante a leitura, realizada no Palácio do Samba, em maio, o carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira, Sidnei França, sinalizou aos compositores que a proposta do projeto é que a escola chegue ao seu centenário, em 2028, vinda de um desfile aguerrido e combativo. Em entrevista ao CARNAVALESCO, ele contou que, antes de qualquer domínio conceitual da Orixá, o tom que a Mangueira quer levar para a Marquês de Sapucaí no próximo ano é a emoção.

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“Será um desfile primeiro para sentir, depois para entender. Faz sentido trazer para a Mangueira, no pré-centenário, um enredo quente, um enredo potente, que entrega a Mangueira em alta temperatura. Samba emocionante, mas em consonância com todos os códigos mínimos para se entender Oyá como uma divindade que, no Brasil, é cultuada em plenitude. Acho que o que está faltando no gênero samba-enredo é uma interpretação da história, e não musicar uma sinopse. Não é pegar as palavras que a sinopse traz e jogar melodia”, afirmou.

Sidnei explicou três orientações fundamentais. A primeira é que Oyá/Iansã será tratada na narrativa do desfile a partir de uma perspectiva nagô-iorubá. Ele também pediu aos compositores que as obras não abordassem o sincretismo religioso existente entre Oyá/Iansã e Santa Bárbara no Brasil. E, por fim, que Oyá/Iansã seja a protagonista em todo o curso do samba-enredo.

Embora Oyá não faça parte da ancestralidade fundadora da Mangueira, Sidnei reconhece que o enredo fala da aproximação entre a Orixá e a escola. Para ele, essa relação se intensificou nos últimos anos a partir de três fatores: o enredo de 2016, “Maria Bethânia: a menina dos olhos de Oyá”, que tornou Iansã uma presença cada vez mais marcante no imaginário da escola; o histórico feminino e matriarcal da Mangueira; e a eleição de Guanayra Firmino à presidência, “uma mulher preta de Oyá”, nas palavras de Sidnei.

“Uma escola tão feminina, de um matriarcado tão forte, e que tem uma comunidade que se autodenomina combativa, aguerrida, apaixonada e de luta, aos poucos, (essa ideia) foi colando”, disse o carnavalesco.

Para o carnavalesco, a Mangueira não é a mesma de cem anos atrás, nem deveria ser. Entregar Oyá à Mangueira em 2027 é, para ele, respeitar o que a escola se tornou. “Ela foi se transformando com a sociedade, com o terreiro, com a experiência sociocultural do morro em relação às políticas públicas da cidade.”

O desfile da Mangueira em 2027 abre antes mesmo de qualquer arquétipo humano. “Oyá é natureza, Oyá é força, Oyá é potência dos ventos, raios, tempestades, ventanias”, afirmou Sidnei. A Orixá será apresentada primeiro como elemento. “Orixá, primeiro, é a natureza; depois, ele é arquétipo; depois, ele representa a estrutura humana.”

Do segundo momento em diante, o enredo explora o poder de transformação de Iansã: ela que se torna elefante, coral, rio, búfalo e borboleta. Para Sidnei, essas metamorfoses são estratégias de sobrevivência. “Quando Oyá se transforma, ela está buscando uma estrutura de sobrevivência. Isso está muito presente na vida contemporânea. Estamos sempre nos moldando ao novo para continuar resistindo e, a partir disso, continuar existindo”.

O terceiro movimento trata dos amores e das guerras de Iansã. Sidnei evocou o mito dos nove filhos, que conta sobre a mãe que parte para a batalha e deixa um par de chifres para ser chamada em caso de perigo: “Se vocês estiverem em perigo, batam o chifre que eu apareço de onde for para salvá-los, porque eu ainda sou sua mãe e eu amo vocês”.

Imediatamente, o carnavalesco traçou um paralelo com a realidade: “Quantas mulheres não podem cuidar dos seus filhos e vão cuidar dos filhos de outras, das casas de outras, das empresas de outras, deixando o filho em casa, pensando na sobrevivência?”

Os casamentos de Oyá estruturam o quarto movimento. Com Ogum, ela aprendeu a arte da guerra. Com Xangô, formou o “casal do dendê”: quente, intenso e sedento por conquista. Foi Iansã, contou o carnavalesco, que desafiou as ordens do marido, descobriu o segredo das bolas de fogo e passou a governar o fogo ao lado dele. “Ela foi a única esposa de Xangô que enfrentou as suas ordens e se tornou tão poderosa quanto ele”.

O quinto movimento levará o desfile ao terreiro. Oyá é o único orixá feminino com poder sobre o trânsito entre Orun e Aiê, o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. O enredo mostrará o universo dos eguns e, a partir daí, chegará aos terreiros de candomblé, abordando como esses ritos se formaram, como se popularizaram e como persistem.

O fechamento é contemporâneo e coletivo. Sidnei quer falar dos movimentos femininos, da mulher que vai à luta diária pelo sustento e pela proteção dos seus e, por fim, da própria Mangueira. “A Mangueira é uma escola de mulheres icônicas, de mulheres imortais, que, assim como Iansã, sempre foram à luta e à batalha para defender os seus”, finalizou.