
A Estação Primeira de Mangueira deu início à sua temporada de escolha do samba-enredo para o Carnaval 2027 no último sábado, no Palácio do Samba, recebendo 10 obras concorrentes. A noite foi de boas apresentações, com sambas que já despontam na disputa, e teve a eliminação de quatro obras; seis seguem para a próxima etapa da eliminatória, marcada para o próximo sábado, dia 8 de agosto. A escola trará, em 2027, o enredo “Oyá Por Nós”, encerrando o carnaval na Marquês de Sapucaí. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre as apresentações das parcerias.
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Parceria de Gilson Bernini: Pitty de Menezes e Ito Melodia abriram a noite defendendo o samba de Gilson Bernini, Beto Savanna, Xande de Pilares, Karinah, Felipe Mussili e Gustavo Clarão. Logo na entrada, a dupla trocou gritos de guerra; Ito fez “o sonho virou realidade” e Pitty respondeu com sua icônica gargalhada; um início que já introduziu bem a obra. O refrão principal, “Toca o aguerê, vim pra guerrear / Queima no dendê Epahey Oyá / Oyá por nós minha mãe com o seu axé / Mangueira é terreiro de candomblé”, é o momento de maior força vocal do samba. O canto atinge sua maior intensidade justamente quando o samba sintetiza o enredo de 2027: a Mangueira se afirmando como escola que celebra sua ancestralidade e seus fundamentos. O refrão do meio, original e criativo, já prepara esse desfecho ao tratar da questão ritual do candomblé antes de assumi-la como fundamento da Estação Primeira. Merece destaque também os versos “Voa no rosa do amanhecer / Pousa no verde sagrado de Ewé / Preta do ventre de Oyá / Não vai se curvar”, de beleza poética e de encantamento. De modo geral, é um samba com bastante margem de crescimento: tem bom refrão principal, refrão do meio original e dois intérpretes de peso; falta ainda ganhar aquela “ventania” de arrastar o canto do início ao fim, efeito que por ora só aparece no fechamento.
Parceria de Chacal do Sax: Lissandra Oliveira, Juan Briggs e Tinguinha, este substituindo Pixulé, ausente na apresentação, defenderam o samba de Chacal do Sax, Verônica dos Tambores, Laura Roméro, Rafael Capiberibe, Giovani e Ronie Machado. O trio manteve uma performance vocal com boa regularidade: a letra chegou bem articulada e compreensível em toda a sua extensão. O refrão do meio é o primeiro momento de crescimento do samba, bem cantado e contagiante, e cumpre três funções: saúda [Iansã/Oyá], reconhece a filiação do mangueirense com a orixá, e evoca a força da guerra, da bravura e do amor, tocando também na relação com Xangô. O pré-refrão principal, “Quando ela passa, nada fica no lugar! / Incendeia, mãe! Incendeia! / Eu não seria nada sem Oyá! / Quem é do fogo tem dendê na veia!”, reforça essa mesma ideia do atributo de Iansã, a ventania que não fica parada, reverenciando a filiação e preparando um canto aguerrido para o refrão principal, que chega como uma saudação em tambores e também tem bom desempenho. Na avaliação geral, é uma passagem regular, com bons momentos nos dois refrões. Vale destacar também que esta foi uma parceria bem cantada por alguns segmentos da escola.
Parceria de Arlindinho: A torcida já cantava a obra antes mesmo do início da apresentação, e o samba se consolidou como a segunda parceria mais cantada da noite. Composto por Arlindinho, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto, Paulo César Feital e Igor Legal, e defendido por Evandro Malandro, Bruno Ribas, Thiago Acácio e Vitor Cunha, com a participação da cantora Majur, presente também no clipe de divulgação da música. É um canto potente, sustentado por vozes fortes, com uma vitalidade que se percebe não só na letra, mas sobretudo na interpretação: o samba já nasce grande e se mantém vibrante ao longo de todas as passadas, sem um momento isolado de explosão porque é constante desde o início. Essa qualidade “ventada”, dialoga diretamente com o atributo de Iansã, orixá da guerra e da ventania. Entre os versos, a transformação poética “na fúria de um furacão a fera vai se transformar asas de LÁBÁ-LÁBÁ” sintetiza com beleza a multiplicidade de Oyá. O pré-refrão “Dobra o Adarô…” retoma o toque dos tambores e prepara o refrão principal, que reconhece a filiação mangueirense com Oyá e situa a quarta-feira, dia dedicado à orixá, como o mesmo dia em que a Mangueira desfilará, fechando o carnaval. Essa relação amplia a força do samba não só em relação ao enredo, mas ao momento do desfile em si. A interpretação de Evandro Malandro dá uma identidade muito própria à obra, que teve um desempenho excelente nesta primeira apresentação.
Parceria de Gustavo Louzada: Uma torcida presente cantou com regularidade ao longo da apresentação, que teve em Zé Paulo Sierra a voz principal, numa passagem leve e de andamento tranquilo. Composto por Gustavo Louzada, Dulce Santos, Alexandre Naval, Valtinho Botafogo e Raimundo Santa Rosa, o samba mantém uma constância ao longo das passadas, sem um momento de pico, cumprindo sua função de forma correta. Destaque para a equipe de cordas, que nas primeiras passadas, ainda sem a bateria, construiu um fraseado musical bonito, em diálogo com as vozes. Uma apresentação sem grandes sobressaltos.
Parceria de Bete da Mangueira: O samba tem nos versos “Deixa chover, deixa ventar / Relampejou, Òrum a clarear / Trazendo àse ao povo vem chegando a Verde e Rosa / Saudações Oyá” o seu momento de maior força. É um trecho bem cantado, que anima e faz o samba crescer. O restante da obra, no entanto, mantém uma regularidade mais discreta, sem alcançar a mesma empolgação nas demais passagens, o que deixa a apresentação menos nítida como um todo. Composto por Bete da Mangueira, Jorge Luiz da Mangueira do Amanhã, Denise Mineira, Vera de Jesus e William César, é também um dos sambas da noite que menos se apropria do enredo e o transforma em termos poéticos; um ponto que vale reflexão, já que a poética é um dos subquesitos de samba-enredo.
Parceria de Lequinho: Foi a torcida que mais cantou na noite; os cantores e a equipe de cordas ainda se preparavam no palco quando a quadra já cantava o refrão principal do samba em alto volume. Composto por Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim, o samba foi defendido por Tinga. O refrão do meio, “Iyá mesan orun… / treme-terra desce o morro, sobe o rum… / é guerra bate o oguê que o sangue tem dendê / tá pra nascer quem manda nela”, é um dos trechos de maior força, cantado com intensidade. A letra reúne frases marcantes que evocam nos atributos de Oyá questões sociopolíticas brasileiras; a intolerância religiosa, no verso “Quem tem fé na quarta-feira sabe que eu não ando só, o Brasil da intolerância eu despacho no ebó”, e a afirmação da mulher frente ao machismo, em “Por que não existe macho que levante a mão pra mim é que eu sou preta, macumbeira e de Oyá”. Esses versos-síntese funcionam como ganchos que facilitam o aprendizado do canto já na primeira escuta, dando ao samba um vigor constante. O refrão principal, “OYÁ TETÊ / OYÁ TETÊ OYÁ / OYÁ TETÊ OYÁ MANGUEIRA YABÁ / Ê MAMÃE, TRAZ DE NOVO TEU AXÉ / RELAMPEJOU PRA VITÓRIA / MOTUMBA LÈ”, faz a Mangueira explodir com a torcida e os intérpretes cantando em alta intensidade; mérito de Tinga, que puxa o samba para frente mesmo com a quadra já inflada. Fica uma ressalva para reflexão: por já nascer tão explosivo e “para frente”, o samba corre o risco de, se não for bem trabalhado nas próximas etapas, perder essa força ao longo das eliminatórias. Ainda assim, é seguramente uma das grandes obras dessa safra da Mangueira para 2027.









