A Dragões da Real vai cantar Adoniran Barbosa no Carnaval de 2022. O enredo é focado nas músicas de Adoniran, essas que contam sobre a cidade de São Paulo, ou seja, uma grande homenagem para um dos personagens mais marcantes da história da cidade paulistana. E a promessa é que a escola vai trazer o músico que morreu há 40 anos de volta para desfilar com a comunidade, será?

Para 2022, a escola contou com o retorno do Jorge Silveira que foi vice-campeão do carnaval paulistano em 2017 com a Dragões. Entre 2018 e 2020 esteve como carnavalesco da São Clemente, no Rio de Janeiro, na qual considera uma grande experiência. Segundo ele, amadureceu muito profissionalmente, e analisou que encontrou uma Dragões também mais madura do que estava em 2017.

A escolha do enredo: Adoniran Barbosa

Neste retorno, Jorge pensou em um enredo diferente do que a Dragões costuma trazer: “É uma oportunidade da Dragões de fazer uma transformação no seu próprio universo. Ela vem de uma herança, de um percurso de vários enredos muitas vezes lúdico, muitas vezes mais leve. Às vezes abstratas. Conversei com o presidente e falei que se a gente quer chegar em um resultado que não chegamos, precisamos procurar fazer o que ainda não fizemos. Ter ousadia de fazer enredos com outras características, um enredo mais maduro, mais cultural, enredo de mais densidade, e aí que apresento a figura do Adoniran que surgiu muito que ao acaso para mim. Sempre gostei da obra do Adoniran, sempre fui fã da musicalidade dele. Durante a pandemia fiz desenho de vários músicos, que sou fã, e publiquei nas minhas redes sociais. E curiosamente uma das imagens que mais despertou atenção das pessoas, foi justamente um desenho que fiz do Adoniran. E a ficha caiu na minha cabeça de uma maneira muito forte. E eu percebi que enquanto carnavalesco no carnaval de São Paulo, precisava entender, que era hora de dar voz ao universo da cultura de São Paulo”, explicou.

Enredo será sobre a parte musical de Adoniran e não sua bibliografia

Com um personagem tão complexo e rico devido sua vasta história em diversas áreas de atuação, a Dragões resolveu focar mais na parte musical de Adoniran Barbosa e é isso que a escola vai cantar buscando seu primeiro título do carnaval de São Paulo.

“O enredo do Adoniran, a proposta da Dragões, não é um enredo biográfico. A gente não conta a vida do Adoniran. Ele é um enredo sobre a obra musical dele. Pois é através da música que as pessoas identificam com ele. O povo paulistano se reconhece nas suas letras, na sua melodia, no seu jeito de ser, que é expresso na musicalidade. O personagem Adoniran era imenso de possibilidades, trabalhou na TV, fez cinema, trabalhou em rádio, infinito, um desfile com quatro alegorias não iria dar conta da multiplicidade cultural que ele tinha… Então a filosofia desse trabalho é permitir que o próprio Adoniran conte e cante o seu amor por São Paulo através das suas músicas”.

São Paulo, Demônios da Garoa e aposta no emotivo

A Dragões da Real realmente está fazendo um carnaval bem diferente do habitual, e com isso as apostas são grandes. O personagem Adoniran Barbosa traz algo em comum com o carnaval, que é demonstrar diferenças sociais, ele mostra uma realidade de quem vivia caminhando pelas ruas da cidade. Mas vai dizer ‘faz muito tempo’, porém muitas coisas continuam iguais ou piores.

“Talvez, seja um dos desfiles mais emocionais que a escola vai fazer na sua jovem trajetória de 22 anos. É um desfile bastante emotivo, pois ele toca no coração do paulistano. A gente vai se ver na avenida, o Adoniran está presente na vida de todo paulistano de alguma forma”.

Maiores interpretes da obra de Adoniran, os Demônios da Garoa são convidados e estão próximos de estarem no desfile em uma alegoria. A questão fica por conta da agenda deles, mas está sendo alinhado. Por outro lado, a certeza é que a cidade de São Paulo estará muito presente em todos os quesitos: “São Paulo vai se ver, identificar, através desses cenários, talvez seja o carnaval mais cenográfico que eu já fiz. Porque cada carro se dedica a construir, ou reconstruir um cenário musical do Adoniran. A gente tem a Saudosa Maloca visualmente na avenida. O Trem das Onze vai estar literalmente na avenida através da estação da Luz, vamos representar a Luz que é um ícone da arquitetura de São Paulo. E por aí vamos caminhando pela cidade, o paulistano vai se ver no desfile da Dragões, através da paisagem física da cidade. E vai se reconhecer pela musicalidade e pelo que o Adoniran canta”, afirma o carnavalesco.

Escola pronta e simplicidade

Mesmo com mudança no cronograma devido interrupções por conta da pandemia, a Dragões da Real está com suas fantasias prontas, e finalizava detalhes do último carro. A aposta de Jorge Silveira é mais no estilo do seu homenageado: “Tem momentos de muito luxo, mas tem momentos de muita verdade. A música de Adoniran é de simplicidade e verdade. A simplicidade é a forma mais sofisticada que existe, fazer algo elaborado é fácil, você encontrar uma forma sintética, simples, que resuma uma ideia é muito mais difícil. E Adoniran fazia isso com maestria, o meu desafio é encontrar as formas exatas para traduzir o Adoniran”.

As fantasias

O carnavalesco da Dragões revelou que sua missão é sempre trazer fantasias que sejam fáceis de serem entendidas pelo grande público, e com Adoniran a situação favorece, afinal por si só, o músico já era claro em suas letras, e por aí que elas estarão na avenida: “O que posso dizer é que as fantasias, todas elas são músicas”.

Conheça o desfile

A ideia de Jorge Silveira é trazer Adoniran Barbosa para o desfile da Dragões em 2022. Como ele explica através dos setores, a escola trará um outro lado do grande símbolo paulistano que é sua parte cômica, afinal, Adoniran também era um humorista. Mas passará por outros momentos do personagem, e tudo isso será mostrado de acordo com sua obra musical.

“Ao ouvir a obra de Adoniran, eu percebi que de uma certa forma, ele criou uma espécie de opera para a cidade de São Paulo, tem algumas músicas dele, ou quase todas, que elas se interligam, se conectam, quase que uma história começa e continua na sequência da próxima música, e isso com certeza ele não fez de forma intencional, porque não é do habito do cronista, o cronista vai se descrevendo. Então eu senti que ele próprio já tinha escrito um enredo sobre a cidade de São Paulo com suas músicas”.

Setor 1
“A nossa abertura, ela vai iniciar os trabalhos contradizendo a ideia de que São Paulo é o túmulo do samba. São Paulo não é o túmulo do samba, São Paulo tem tradição, herança, tem escolas de muita tradição no carnaval de São Paulo, tem grandes artistas. A gente vai se apropriar do título de túmulo do samba para dizer que aqui não é o túmulo do samba. E a gente vai fazer um samba, um pagode, para o Adoniran no cemitério, para acordar ele. Trazemos ele do mundo dos mortos para que ele próprio possa cantar sua história por São Paulo, então a abertura é esse momento, mais engraçado, mais cômico que a gente vai tirar a poeira dos esqueletos, e fazer um pagode no cemitério para ele”.

Setor 2
“Em um segundo momento mostraremos a visão do Adoniran em um cenário da cidade, mostramos como ele descreve a diferença social, os cenários mais pobres da cidade, vai mostrar o amor pelo bairro italiano de origem, vamos mostrar aspectos físicos e visuais que ele identificava na cidade. Com alegorias interativas, como de costuma para a Dragões da Real, Jorge Silveira chama atenção do público: “Se eu pudesse convidar o público para prestar atenção em alguma coisa, eu queria que o público prestasse muita atenção no carro número 2 que é justamente o ‘Saudosa Maloca’. Esse carro vai ser muito diferenciado, tanto pela forma dele, é o carro mais diferente que eu já fiz em termos de arquitetura, é um carro que não tem nada da cara de um carro tradicional de carnaval. Ele traz uma linguagem de comunicação muito grande com o público. Não tem destaque, não tem composição, ele só tem gente encenando. E vivendo o que a música representa, acho que isso vai ser um ponto alto do desfile”.

Setor 3
“Em um terceiro momento vamos mostrar um Adoniran mais boêmio, romântico, Adoniran da noite, que galanteava as mulheres, que usava sua música para cortejar, tudo isso vai estar presente no terceiro momento que é uma outa característica dele”.

Setor 4
“E nosso encerramento, quarto momento, a gente vai fazer uma viagem na memória afetiva do próprio Adoniran, tem uma música dele muito marcante, chamada ‘Vila Esperança’, onde ele conta nessa música que foi na Vila Esperança que ele se apaixonou pela primeira vez pelo carnaval. Em que ele viu no bairro, o carnaval acontecer, ele não sabia que existia, e é lá que ele se apaixona. Se a gente olhar o jovem Adoniran em São Paulo, é a mesma época que nascem as grandes matriarcas do carnaval de São Paulo. O Adoniran de certa forma foi testemunha visual do nascimento da Lavapés, Vai-Vai, Nenê de Vila Matilde, Peruche, as grandes matriarcas, as ancestrais do carnaval de São Paulo, então esse último setor, convido essas escolas, as mães do samba de São Paulo para adentrarem o desfile das Dragões, e cortejarem, homenagearem o sentimento do Adoniran, então nosso encerramento está muito relacionado a uma celebração do samba de São Paulo através do que o Adoniran viu e viveu, em homenagem ao próprio artista, e ai encerramos para subir e ele volta ao sono profundo dele, de onde ele voltou”.

Ficha técnica
Alegorias: 4 + elemento de comissão de frente
Componentes: 2200
Alas: 22

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