Por Lucas Santos e Marina Perdigão

O Paraíso do Tuiuti realizou seu último ensaio de rua antes do desfile oficial e depois de longos meses de trabalho, de preparação para o grande dia na Passarela do Samba, a comunidade não demonstrou cansaço, cantou o elogiado samba da agremiação de São Cristóvão que valoriza a negritude, empurrada por uma grande atuação da SuperSom de mestre Marcão e do carro de som comandado pelos intérpretes oficiais Celsinho Mody e Grazzi Brasil. O carnavalesco Paulo Barros prestigiou o treino acompanhando a evolução à frente da escola, assim como o presidente Renato Thor. A comissão de frente da coreógrafa Cláudia Mota mostrou um pouco do que vai levar para a Avenida. O Tuiuti caprichou na preparação e o treino, que teve seu encerramento na porta da quadra da agremiação, durou cerca de duas horas.

“Foi um belíssimo ensaio, foi uma noite maravilhosa, quero agradecer a toda comunidade, a todas as alas coreografadas. Hoje eu tive representantes dos carros. A ansiedade está muita, a gente não vê a hora desse desfile. Não só o Tuiuti, mas todos estão muito ansiosos para o dia. Mas, o Tuiuti tem feito um trabalho muito grande, muito especial e vamos sim tentar alcançar aquele décimo que a gente perdeu lá em 2018. Vamos chegar com tudo na Avenida, com garra, com força, com chão, gritando muito Ogunhê que abra nossos caminhos”, diz André Gonçalves, diretor de carnaval do Tuiuti.

Harmonia e Samba

O samba já vem funcionando há algum tempo com a comunidade. Os componentes cantam bastante principalmente os dois refrãos. Em diversas vezes, quando mestre Marcão fazia uma bossa em que apenas os surdos sustentam o ritmo, o canto do refrão principal pelo povo acabava se sobressaindo, o que demonstrava o quão forte os desfilantes se comprometeram com a harmonia.

Outros trechos como “Nas veias do povo preto do meu Tuiuti”, ou “Para vencer a opressão, com a força da melanina”, que chamam à valorização da negritude, o samba era gritado pela comunidade de forma valente, sempre acompanhado de gestos de orgulho como o punho erguido ou a mão tocando a própria pele.

Importante destacar o experiente carro de som que além de contar com os intérpretes oficiais Celsinho Mody e Grazzi Brasil, que já contava com Ciganerey e Hudson no apoio, agora também tem Alessandro Tinganá, intérprete da Camisa Verde e Branco em São Paulo, e agora voltando a participar dos desfiles no Rio de Janeiro depois do convite da diretoria do Tuiuti.

“Eu estou ainda em êxtase, uma felicidade tremenda, já queria voltar para cá, então surgiu essa oportunidade do Tuiuti, a diretoria resolveu me dar essa oportunidade e eu estou voltando para fazer o meu melhor, matar a saudade de casa, e tirar onda e se divertir. “Estou em um momento muito complicado, onde eu tenho duas casas para levantar do zero, a casa da minha mãe, a casa dos meus filhos, mas Papai do Céu vai ajudar, meus orixás também vão ajudar. E aí para a gente manter a felicidade é cantando, extravasar. Cantando a gente consegue ficar mais feliz, aí volta para casa e resolve tudo”, afirmou Tiganá ao site CARNAVALESCO.

Mestre-sala e Porta-bandeira

O casal Raphael e Dandara estava vestido em um amarelo bastante vibrante, ele com um terno de gala e ela com um vestido que reluzia principalmente o dourado da parte de cima. Na dança, o experiente casal mais uma vez não se poupou, mesmo faltando poucos dias para o desfile, e mais uma vez o que se destacou na apresentação foi uma presença de alguns elementos de dança de religiões de matriz africana principalmente no momento do refrão do meio a partir do “Ê Dandara”, mas isso não tirou a leveza e a sincronia dos movimentos tradicionais, nas giradas e no contato sempre buscado pelo casal. A dupla era sempre aplaudida incessantemente pelo público nas calçadas depois de cada apresentação que levava em média dois minutos e meio.

“A expectativa é gigante! Todo sambista está muito emocionado, a gente quer mostrar a força da nossa cultura, a força do samba, a resistência que nós somos.
Então, estamos todos empenhados em cumprir essa missão com muita alegria, com muito sorriso, que é o que a gente sabe fazer de melhor. A principal mensagem da Tuiuti hoje é essa: vamos exaltar os nossos com muito sorriso e com muita alegria que a gente conquista”, comentou a porta-bandeira.

“Vai ser um espetáculo maravilhoso! É o que a Dandara falou, a gente está muito emocionado, a gente está nervoso por voltar, querendo voltar logo à Sapucaí, depois desse tempo todo, depois desses dois anos parados. Porque a gente é isso, a gente é o carnaval, a gente é o samba, a nossa vida gira em torno disso, o Rio de Janeiro gira em torno disso, está todo mundo ansioso, é uma ansiedade tamanha e se Deus quiser nós iremos
fazer um bom trabalho”, completou o mestre-sala.

Bateria

Mestre Marcão está muito à vontade no comando da SuperSom e a bateria tem a sua cara, com bom ritmo e realizando muitas bossas, convenções e até coreografia. Em uma das bossas no refrão principal do samba, na primeira vez os surdos sustentavam o ritmo para o apogeu do canto dos componentes se sobressair, voltando o restante dos instrumentos no bis. Essa bossa no refrão principal revezava neste mesmo momento da obra com uma pegada de batida mais ancestral. Já no trecho na primeira do samba que vai a partir do “Sou Alabé gungunando o tambor” até quase no final da estrofe “Inundou um oceano até a Pedra do Sal”, os ritmistas faziam bossas e convenções marcando e valorizando de acordo com a métrica do samba neste pedaço da música. A parte de coreografia muitas vezes ia seguindo o balanço das convenções e se intensificava na ala de chocalhos com passo mais marcado.

A frente da SuperSom de mestre Marcão, estava a princesa da bateria, Mayara Lima, que além de muito samba no pé, esbanjou muita simpatia e foi “tietada” pela comunidade antes e depois do ensaio com muitos pedidos de fotos. A bela estava vestida toda de dourado, valorizando o amarelo do Tuiuti.

“Hoje, como é o último ensaio, essa semana nós já entregaremos as fantasias dos componentes, dá uma sensação de dever cumprido. Ainda não acabamos de cumpri-lo, que temos que passar na avenida ainda, mas, 89,9% já está tudo resolvido”, afirmou mestre Marcão.

Evolução

A escola evoluiu bem. Mais uma vez chamou a atenção a presença de dança um pouco mais coreografada em diversas alas, mas que não fez a escola perder a espontaneidade, pois os movimentos estavam bastante de acordo com o enredo, trazendo para a evolução uma ginga bem africana, sendo realizado em alguns momentos chaves do samba e do ensaio, não tirando a alegria e a liberdade dos componentes para brincar durante o desfile. O principal foi perceber que os passos eram realizados de forma natural, apesar de bem sincronizados. O único ponto de atenção que a escola deve ter é no final da apresentação da comissão de frente para dar início à apresentação do casal. Neste último ensaio, houve um rápido momento em que se gerou um espaço logo no início da escola, entre os dois quesitos, mas a equipe de harmonia agiu de forma veloz e não chegou a ser um buraco. No início da apresentação, em outros momentos, em algumas alas se viu algum espaçamento um pouquinho maior no início, mas rapidamente corrigido ao longo do caminho sem gerar maiores problemas.

Outros destaques

Celsinho Mody, antes de iniciar a arrancada do samba-enredo do Tuiuti 2022, apresentou ao público a chegada de Alessandro Tingana. No esquenta, mais uma vez foi cantado o samba em honra ao padroeiro São Sebastião e a obra de 2018, desfile que inspira a escola a alçar voos mais altos e tentar superar sua melhor marca. O último ensaio da agremiação contou com a presença de um grande público. Antes do desfile, a equipe de harmonia teve que pedir para que as pessoas liberassem a pista para que o desfile pudesse se iniciar. A comissão de frente trouxe um elenco com mais de 15 componentes, que dançaram com uma pegada de dança ancestral, realizando a apresentação para quem estava na calçada. A comissão também chamou a atenção cantando com bastante vibração o hino do Tuiuti para 2022. Os passistas desfilaram bem elegantes, todos de branco, homens e mulheres, com camisa social e chapéu de sambista.

Com o enredo “Ka ríba tí ÿe – Que nossos caminhos se abram” , o Tuiuti abre a segunda noite de desfiles do Grupo Especial no sábado, dia 23 de abril, feriado de São Jorge.

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