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Especial Barracões SP: Mocidade Alegre contará a saga do samurai Yasuke no Carnaval 2023

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A Mocidade Alegre trará para o Sambódromo do Anhembi em 2023 o enredo “Yasuke”. Ao longo do desfile da escola, o público conhecerá a saga do negro que foi levado por jesuítas ao Japão e se tornou um dos maiores samurais de sua época. Em conversa com o Site CARNAVALESCO, Jorge Silveira, que assina o Carnaval da Morada do Samba, contou o que virá pela frente.

Origem do enredo

“O Yasuke apareceu para mim como uma possibilidade há mais ou menos dois anos, apresentado pelo Ricardo, que era meu assistente na época. Ele me apresentou o personagem, que eu não conhecia. Imediatamente, quando ele me mostrou, eu falei que achava ser um tema com um potencial enorme para Carnaval. Comecei a me debruçar sobre o assunto, buscar referências, bibliografia. Achei muito conteúdo na internet, muito material. Existem vários vídeos que falam sobre a história dele. Embora ele seja desconhecido no Ocidente, no Oriente ele é cultuado como um herói, então existe muito material farto sobre ele. A partir daí, comecei a aprofundar a pesquisa e criar uma linha narrativa que pudesse contar a saga do Yasuke. É assim que ele aparece para mim, como a sugestão de um amigo.”

Saga de Yasuke, segundo a Morada do Samba

Existem muitas informações a respeito da possível origem de Yasuke, sua vida no Japão e até mesmo o que aconteceu com o samurai. De acordo com o carnavalesco, a ideia é criar uma linha narrativa carnavalizada e de fácil leitura para o público nas arquibancadas.

“A versão que a Mocidade levará para a Avenida é a versão da Mocidade. Contaremos a trajetória histórica do personagem, desde quando ele chega ao Japão até ele desaparecer. Daremos um desfecho para essa história trazendo para o universo contemporâneo e adaptando para a nossa linguagem do Carnaval. Embora existam muitas formas de contar a história dele, o nosso foco, o que nos interessa, é a saga do herói, a construção do herói. O processo de construção da narrativa da história dele é tipicamente a construção de um mito, de um herói, que surge da adversidade e vai gradativamente construindo sua linha de crescimento até se transformar em uma referência para aquela sociedade. Usaremos essa mesma linha de trajetória. Contaremos de quando ele chega escravizado até o Oriente. É o primeiro negro que se tem história, naquela época, a pisar em solo japonês. É preciso contextualizar que o Japão, há 500 anos atrás, era um território fechado politicamente, que não se comunicava com os países vizinhos, que tinham uma série de restrições. Ele era um indivíduo diferente dos demais, então chamou muita atenção por isso. A partir desse contraste social, começo a desenhar a história até o desenlace, trazendo ele para o contemporâneo, para os dias atuais.”

Reação do Japão feudal ao ver um negro pela primeira vez

A história da humanidade tem uma grave mancha que é a escravidão dos negros africanos em prol da ganância de grandes impérios. Em contrapartida, a sociedade japonesa, por entre os fatores o fato de ser uma ilha, se desenvolveu de forma isolada do restante do mundo. Ao se depararem pela primeira vez com um homem forte e de pele negra, a reação foi totalmente diferente.

“Antes mesmo de eu trabalhar com o Yasuke, eu já sou naturalmente um admirador da cultura japonesa. Sempre fui um consumidor da cultura japonesa. Eu sempre percebi que eles tem um traço de humanidade, de generosidade, que é diferente do Ocidente. Em um primeiro momento, o personagem causou um contraste, mas logo depois ele foi compreendido, aceito e absorvido por suas qualidades e virtudes. Quando o negro foi trazido para o nosso território, o olhar era totalmente outro, totalmente adverso. No Oriente foi diferente, com ele foi diferente. Eles conseguiram enxergar nele as virtudes de um grande homem, o conhecimento de um grande homem. Tanto que ele foi catapultado à condição de ser apto a ser treinado para ser um samurai. O conceito de samurai é muito mais amplo do que os filmes e a cultura pop vendem para a gente. Um samurai nessa época é um homem de honra, de virtude, de dignidade. É um homem que é letrado, que entende de poesia, de artes. É um homem que tem uma vasta visão cultural. Não é só um homem de armas. Isso faz parte do ofício dele, mas ele sobretudo é uma pessoa que se destaca naquela sociedade. A cultura japonesa visualizou nesse homem, que até o momento não se chamava Yasuke. Esse encontro cultural é o que me chamou mais atenção. A maneira como essa bagagem que ele traz, como a ancestralidade dele africana é observada como um tesouro pela cultura japonesa ao ponto deles se juntarem, se mesclarem e criarem um novo indivíduo, único naquela sociedade”.

Um enredo com a essência da Mocidade Alegre

Conhecida por excelentes carnavais de temas ligados à África, em um primeiro momento pode soar estranho a Mocidade Alegre trazer uma temática ligada ao mundo Oriental. A jornada de Yasuke, porém, remete às suas origens ancestrais e inicialmente similar a de tantos outros negros escravizados que vieram ao Brasil. Na essência, é tão característico da Morada do Samba quanto outros consagrados na Avenida.

“Acho que é importante dizer que é um enredo de representatividade. É um enredo que traz a Mocidade, embora eu tenha até ouvido muitas pessoas dizendo que foge um pouco do tradicional, mas o enredo tem fundamentos que tem tudo a ver com a essência das coisas que a Mocidade gosta de trabalhar, que é ancestralidade, respeito à comunidade, um tema que se relacione com um conteúdo que as pessoas se identifiquem, e a comunidade criou uma relação de identidade muito forte com o personagem. Eu vejo isso no desenvolvimento do trabalho, vejo isso na quadra. Temos usado muito a expressão “Somos todos Yasuke”. Toda a nossa galera da diretoria que estará na pista durante o desfile, não estarão discriminados como harmonia, direção disso ou daquilo, na blusa estará escrito “Somos todos Yasuke”. Isso criou para nós um sentido de unidade. Ao invés de o único momento que o Yasuke aparece é no samba, encarnado em determinado momento em alegorias, como personagem ele o coletivo. Nós todos carregamos a história dele em um coletivo em conjunto. É uma escola que se fortifica pelo somatório da sua comunidade. Ela se identificou com o personagem e está carregando ele nos braços. Para mim, é o melhor que pode acontecer, o melhor dos mundos. É quando a comunidade acredita na ideia, se identifica e canta como se não tivesse amanhã”.

Conheça o desfile da Mocidade Alegre

A Mocidade Alegre fará um Carnaval na forma da saga de um herói. Conheceremos Yasuke desde suas origens africanas até ele se tornar o samurai que ficou conhecido como “o guerreiro com a força de dez homens”. O desfile de encerrará mostrando a maneira como os jovens negros da nossa sociedade atual precisam das mesmas virtudes de Yasuke para superar as adversidades da vida, renascendo a cada dia nos sonhos e lutas de cada um deles.

Setor 1 – A origem ancestral de Yasuke
“Abrimos o Carnaval mostrando a origem do Yasuke. Existem muitas possíveis origens para o personagem, e a mais provável tratada pelos historiadores, é que ele tenha vindo de Moçambique. E sendo um negro originário de Moçambique, a cultura religiosa é a cultura Banto, ao contrário da cultura Jeje-Nagô, que é a da maioria dos africanos que vieram ao Brasil escravizados. É uma outra linguagem cultural e espiritual. Existem outras divindades cultuadas por essas religiões. Eles tratam essas divindades como “Inquices”, e a nossa abertura faz referência a dois inquices da cultura Banto, que é Nzazi e Nzuzu, que são os guardiões dos mares e o guardião da força e da justiça. Simbolicamente no nosso enredo, eu escolhi essas duas divindades primeiro porque uma significaria a divindade que traz o personagem pelos mares até o Japão, que essa divindade guia o personagem pelos oceanos, e o outro inspira ele de força e coragem, qeu são as ferramentas necessárias para ele se tornar um samurai. Nossa abertura é a convocação dessas duas divindades que vão trazer o Yasuke e entregar até às divindades do Oriente, para que elas cuidem dele a partir desse momento”.

Setor 2 – O Japão conhece Yasuke
“A gente mostra o encontro cultural. Já é o personagem caminhando pelas terras japonesas e conhecendo esse mundo novo e diferente, e esse mundo novo o conhecendo. Temos nesse momento uma passagem muito importante que é o momento em que ele chega até o local, e pela diferença da cor, o Daimiô, que é o líder político local, ordena que ele seja lavado, que ele seja banhado, porque acreditava-se que estavam tentando pregar uma peça nele, que ele havia sido pintado. Diante disso ele é banhado, e obviamente a cor não sai, como o samba diz, revela a beleza dele, e aí o Daimiô, muito envergonhado, passa a querer conhecer e entender esse homem”.

Setor 3 – O guerreiro com a força de dez homens
“Mostramos a maneira como ele se torna Yasuke. Como ele se torna um samurai próximo ao Daimiô. Ganha a armadura, se torna guardião da espada do líder do local. Se torna o mais importante samurai da sua geração.”

Setor 4 – A luz de Yasuke renasce em cada jovem negro
“É o desfecho da história. Acredita-se que ele tenha desaparecido. Tem muitas versões. Não se sabe se ele voltou a morar com os jesuítas no final da vida, se ele morreu efetivamente em batalha, se ele virou um eremita no Japão e desapareceu. Para nós isso não é importante. Para nós é importante dizer que a alma dele renasce todas as vezes que um jovem da nossa cidade, da nossa periferia, precisa se erguer todo dia de manhã, se vestindo da armadura da coragem de um samurai, para enfrentar os desafios do preconceito, das diferentes sociais, para poder vencer essa batalha da vida. O Yasuke nasce e renasce toda vez que é necessário travar esses desafios. A maneira como o contexto cultural da nossa sociedade se organizou faz com que isso seja necessário, que os nossos jovens precisem ter essa força. É isso que a gente termina, com uma mensagem de esperança, de que o Yasuke é um exemplo a ser seguido por essa garotada, pela sua bravura, pela sua dignidade, pela sua honradez”.

Ficha técnica
Enredo: “Yasuke”
Alas: 19
Alegorias: 4
Componentes: 1600
Posição de desfile: Quinta a desfilar no sábado, dia 18 de fevereiro de 2023, pelo Grupo Especial

Série Barracões: Império Serrano vai contar história de Arlindo norteado por grande sucesso do artista

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“O meu lugar é caminho de Ogum e Iansã, lá tem samba até de manhã”. Talvez, nenhuma música fale tanto sobre a forma com que Arlindo Cruz se relacionava com a vida, como a canção “O meu lugar” lançada pelo próprio compositor em 2007. Por isso, o carnavalesco Alex Souza, que em 2023 terá a responsabilidade de contar a vida do sambista, se apropriou do sucesso, produziu um enredo bastante relacionado com a canção e adaptou um pouco o nome para chegar ao enredo “Lugares de Arlindo”. De volta ao Grupo Especial, a Serrinha, nove vezes campeã do grupo de elite do carnaval carioca, vive um momento de reconstrução e espera permanecer e dar sequência a esse trabalho de recuperação da agremiação esperando o retorno aos tempos de Glória da Coroa Imperial. Nada melhor para inflamar ainda mais o orgulho do imperiano na Sapucaí do que falar de um grande baluarte da escola como é Arlindo Cruz. A ideia do enredo foi do presidente Sandro Avelar.

O carnavalesco Alex de Souza revela que tem aprendido e se impressionado muito com a vida e carreira deste grande artista que o Império Serrano vai homenagear no próximo carnaval.

“Confesso que eu não conhecia muito a fundo a história do Arlindo, conhecia aquilo que as pessoas estavam acostumadas, ele naturalmente era um homem de mídia até o momento do problema de saúde, mas algumas coisas me chamaram a atenção em relação ao número de obras dele que é enorme, muita coisa que foi gravada, e tem muita coisa que não foi gravada. Existe até uma certa controvérsia em relação a quantidade de músicas que ele compôs. Ele é uma figura queridíssima no meio musical, as pessoas gostam muito dele. Ele tem muito carisma, tem muita alegria e eu acho a obra dele muito agradável em termos de astral. Eu acho que o Arlindo tem uma coisa de obra de astral, e tem uma variedade muito grande também. Há um lado romântico, um lado do samba mais divertido, com umas tiradas, umas coisas mais engraçadas. Tem um lado mais engajado, de preocupação social. Tem um lado de religiosidade, que ele processa a fé no candomblé, mas é ecumênico, porque você encontra catolicismo na música dele, ele faz referência a várias religiões. Ele tem muitas inspirações na obra dele. E nos shows ele também trazia pessoas que eram de outros gêneros musicais para estar no palco com ele”, explica o carnavalesco.

Alex conta que aprovou desde o início a ideia do presidente Sandro Avelar de escolher para o desfile do Império de 2023 apresentar a vida e obra do sambista, acreditando que a emoção vai ser um algo a mais neste carnaval para tentar a permanência no Especial ou até sonhar com algo a mais.

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Foto: Divulgação/Império Serrano

“É uma pena tudo isso que aconteceu com ele (Arlindo). Acho que para esse retorno do Império, foi uma ótima ideia do presidente trazer algo que tivesse emoção, tivesse uma relação muito forte com a escola. Eu fiz questão de fazer essa relação entre o Arlindo e o Império Serrano, porque ele se apaixona pelo Império e se põe como imperiano, a partir de 1989, quando ele ganha o primeiro samba-enredo dele. Ele é de uma família portelense. Além de ser da ala de compositores da escola, ele também prestou homenagem à escola nos shows e nos álbuns, gravando sambas-enredo, gravando sucessos de pessoas que fazem parte desta ala de compositores fantástica que a escola tem. E o mais interessante, o destino, ele venceu sambas-enredo em homenagem a ícones do Império e agora ele é um dos homenageados do Império, assim como Dona Ivone foi, Silas de Oliveira, que ele venceu”, descreve Alex de Souza.

Desfile pretende focar nas obras mas sem esquecer da vida do artista

Com mais de 700 obras oficialmente lançadas de acordo com órgãos de direitos autorais, e uma infinidade de canções que nem chegaram a isso, como passear durante pouco mais de uma hora de desfile por todo esse acervo e ainda falar da intensa vida do cantor? O desafio foi dado ao carnavalesco Alex de Souza que explicou qual a linha que vai seguir para este carnaval do Império.

“O meu desfile vai permear mais as obras do Arlindo. Cada fantasia é relacionada a uma música. Eu fiz questão de colocar quais eram seus parceiros, com quem ele compôs. Naturalmente tem um pouco da vida dele, principalmente isso vai ser retratado na comissão de frente, um pouco vem nas primeiras alas porque é inevitável falar do Fundo de Quintal, e falar do fundo de quintal é falar do Cacique de Ramos. Ele também tem as músicas dele daquele período de Fundo de Quintal, por exemplo, ‘Coração da massa’ é uma música que é do tempo do grupo e é uma homenagem ao Bloco Cacique de Ramos. Tudo é muito relacionado”, define o artista.

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Foto: Divulgação/Império Serrano

Uma das grandes sacadas do enredo fica clara a partir do nome “Lugares de Arlindo”. A expressão faz referência à canção “O meu lugar”, grande sucesso do músico. Nela há muito do que é a essência de Arlindo Cruz. Por isso, foi escolhida por Alex para guiar o desfile do Império. Mas haverá referências também que não estão presentes na música.

“O norte de tudo é a música ‘O meu lugar’, porque é uma canção que ela em si já descreve muito do subúrbio, da Zona Norte, de Madureira e Adjacências, fala de religiosidade, fala de grandes figuras do Império, não deixa de falar da Portela. Aquela música, por si só, já é o enredo de fato. Só que eu não repeti o título, até porque tem outras coisas que são acrescentadas, por isso que eu coloquei ‘Os lugares de Arlindo’, porque a gente vai além da música. A música não fala do Cacique e o bloco é um dos lugares de Arlindo, o Fundo de Quintal é um dos lugares de Arlindo. O pagode da Tamarineira é um dos lugares de Arlindo. Tem outras músicas que vão além. A música ‘Banho de fé’ eu descobri depois de já ter criado todo um setor e uma alegoria que tinha tudo que essa música fala. Tem a coisa do compositor de samba-enredo, não só do Império, como de outras escolas. Essa coisa de ele ser do samba, do pagode e também da escola de samba, e ele tem como grande parceira dele a vida inteira, uma porta-bandeira, que também assinou músicas com ele, mãe dos filhos dele. É bem agradável, interessante e gostoso esse enredo”, confessa o carnavalesco.

Trabalho no Império retoma lembranças de infância para Alex de Souza

O Império Serrano será a quinta escola em que Alex de Souza assina um trabalho no Grupo Especial. Com quase 30 anos de carreira como carnavalesco, e mais alguns anos em outras funções, o artista se diz muito feliz de poder produzir o enredo de uma figura tão importante para os sambistas. Alex também lembra que já tem uma relação com a Serrinha de infância, principalmente por uma samba que ficou em seu coração no passado.

“Acho muito bacana a figura dele, a obra do Arlindo, e o tanto que estas pessoas gostam dele. Eu sempre tive em mente, meio de brincadeira, não muito imaginando assim que fosse fazer essas escolas que eram consideradas as quatro grandes do carnaval no passado. Então eu trabalhei no Salgueiro e estou no Império, ainda tem as outras duas. Mas, o Império é uma escola que eu tenho sambas-enredo inesquecíveis e que marcaram a minha vida, a minha infância. Eu com nove anos de idade quis acordar cedo para assistir o Império por causa do samba-enredo. Eu torci pelo Império, pelo menos uma vez, em 1993, quando ela estava no acesso, que era um samba do Arlindo, ‘Império Serrano – um ato de amor’ , que é um samba que eu amo, eu cheguei a ir na Estrada do Portela, no ensaio de rua, lembro do Marçal, que era mestre de bateria da Portela, mas estava no Império, e eu queria desfilar no Império naquele ano por causa do samba. O samba me chamava a atenção. Como foram as obras do carnaval de 1976, 1977 dos imigrantes, que eu adoro. Eu acho que o Império tem além da sua história, tem uma relação de sambas-enredo fantásticos. E estou eu aqui, são coisas da vida. Me sinto honrado e gostei da escolha do enredo pelo presidente”, relembra o profissional.

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Foto: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

Além das lembranças de infância e juventude, no passado, o carnavalesco também já prestou serviços a Verde e Branca de Madureira fazendo desenhos para outros carnavalescos como Ernesto Nascimento, Sílvio Cunha, Actir Gonçalves, por volta dos anos 2000. Agora como carnavalesco, Alex, liderando o processo estético e criativo da escola, terá o desafio tornar legível toda a numerosa obra de Arlindo Cruz.

“Confesso que não foi uma coisa fácil de início, porque é complicado, seja pelo lado biográfico vasto, seja pela obra, você tem que pensar que você vai pegar letras de música e um pouco da vida desta pessoa e transformar em visual, fantasia, alegorias. Você tem que produzir uma linguagem visual para uma coisa que está toda nas palavras. Foi preciso criar de forma lúdica imagens retiradas das letras, dos títulos das músicas e um pouco da história dele, para ver o que vai render de imagem. Mas, acho que vai dar certo”, aposta o carnavalesco.

Imponência característica do Império será preservada

Nos últimos quatro carnavais, Alex esteve no Salgueiro, antes fez Vila Isabel,União da Ilha, Mocidade, Rocinha, só para citar o Grupo Especial. A chegada em uma nova escola sempre requer uma fase de adaptação, tanto na questão comportamental como, em relação aos carnavalescos, a questão da estética. É claro que existem diversos casos de parceria. Muitas vezes o profissional chega para realizar uma grande mudança, impor um estilo. Outras vezes é mais uma questão de resgate ou apenas de manutenção do jeito que a agremiação já possui para diversas questões. No caso de Alex, o artista aponta que, obviamente, vai trazer algo do seu estilo, mas pretendendo resgatar uma opulência e luxo que é característica da Serrinha.

“Eu gosto de tentar dependendo do enredo. O enredo às vezes pede uma outra coisa. Mas, tem o lado da escola, tem a personalidade da escola, o jeito de ser, uma característica da escola. Eu enxergo o Império como uma escola que tem um glamour, que tem uma imponência. É a coroa Imperial. Sem ser uma coisa antiquada, dentro das medidas algo luxuoso, algo que seja por esse lado. Porque eu acho que não cabe, na minha visão, uma coisa muito despojada. Eu acho que cada escola tem o seu jeito. Eu não acho legal descaracterizar completamente o que se espera de uma determinada escola. Eu já trabalhei com escola em verde e branco no passado, mas há muito tempo que eu não sei o que é isso. O verde eu achava que tinha uma certa dificuldade. Quando eu comecei o trabalho, eu pensei como o verde é uma cor derivada, você tem muitas tonalidades, eu brinquei com o que eu pude, todos os tons e sobretons de verde. Isso deu uma paleta de cores muito interessante, naturalmente por força do enredo você adiciona outras cores. Tem um pouco de tudo, mas eu acredito que vai ter um conjunto com mil tons de verde”, define o artista.

Um dos símbolos do Império Serrano é a coroa, que sempre gera expectativa se vai aparecer no desfile e como será representada no enredo. Alex Souza não quis revelar muito, mas deixou a impressão de que o símbolo estará presente e será um dos pontos altos do desfile.

“Quanto a coroa, é diferente quando você tem um animal que está representado todo o ano em uma escola. Você tem uma forma da coroa Imperial e você tem ela dentro de um contexto. Eu tenho uma coisa que acho melhor não falar, mas tem muito a ver com esse passado da escola e com suas conquistas. Eu estou unindo elementos que são fortes da história da escola, já para abrir o desfile e espero que cause uma grande impressão logo no início”.

Enredo identitário é trunfo para permanência no Especial

Outra grande questão que o Império Serrano terá que resolver é o fato de abrir o desfile. Essa colocação de apresentação tem sido um problema, neste século, de 21 desfiles, poucas agremiações que vieram do Acesso conseguiram permanecer no Grupo Especial, e mesmo assim, algumas foram em anos em que não houve rebaixamento. Alex revelou ao CARNAVALESCO o grande trunfo que acredita, a Serrinha ter, para vencer este desafio.

“Tem muitas outras escolas que abriram o carnaval que não tem a tradição que o Império tem. São escolas, de repente, muito mais novas, que não tem uma comunidade tão presente, ou uma escola que teve bons êxitos no grupo de Acesso, mas já tem esse pessoal espalhado por aí, de tudo quanto é lugar. No caso do Império, a escola tem aquela coisa de quem viveu a vida inteira ali. Eu sempre ouvi que o Império é uma escola formada por famílias. São várias famílias que fizeram a escola, e até hoje seus descendentes estão presentes. É uma escola que deveria estar na elite como sempre esteve. Logo no primeiro ano entre as grandes, em 1948, ela ganhou, foi fundada em 1947 e seguiu um tetra campeonato. Super escola de samba”, entende Alex.

O carnavalesco complementa falando sobre uma possível presença do cantor Arlindo Cruz que hoje encontra-se em uma situação de saúde que aspira cuidados, após o acidente vascular cerebral que o acometeu em 2017.

“A presença do Arlindo, se for possível, eu creio que trará uma grande comoção, sem dúvida. Acho que o grande trunfo da escola é a vontade do imperiano de botar para fora tudo que puder de empolgação, de alegria, de cantar o samba, dar a vida. Esse carnaval ou nada. Cada ano é um ano, a escola continua, os carnavais virão, mas é uma grande oportunidade de permanecer, tem que trazer essa força, essa garra. É uma escola que tem muitos apaixonados e uma boa parte é formada por gerações mais antigas, pessoas que viram as glórias da escola. Outra, são os mais jovens, que são de fato da comunidade. Acho que nesse sentido é bem raiz. Quem gosta, quem desfila no Império é porque gosta mesmo”, finaliza Alex de Souza.

Conheça o desfile do Império Serrano 2023

Para o próximo carnaval, o Império Serrano vai levar para a Sapucaí 5 carros, mais um tripé. Ao todo são 29 alas, e 3000 componentes. O carnavalesco Alex de Souza explicou mais sobre o que estará sendo representado em cada setor. “A abertura é imperiana mesmo”.

Primeiro Setor: “É uma primeira parte que tem o primeiro samba que foi gravado, a entrada no Fundo de Quintal, o Cacique de Ramos, para fazer essa ligação”.

Segundo Setor: “Neste segundo momento, a gente vai mostrando o subúrbio, um subúrbio boêmio”.

Terceiro Setor: “Depois a gente vai ter uma parte mais religiosa, essa coisa do candomblé, da umbanda”.

Quarto Setor: “Representamos uma parte do pagode romântico e uma menção às músicas românticas”.

Quinto Setor: “Neste momento falamos da parte do Arlindo como compositor de escola de samba. Neste setor também tem o grande amor da vida dele, que é a porta-bandeira Babi Cruz”.

Sexto Setor: “Neste vem a grande homenagem que ele sempre prestou ao Império Serrano e encerra com o ‘show tem que continuar’, e é o próprio Império homenageando o Arlindo”.

Opinião: Excelência no ritmo e enredo cultural dão protagonismo para o Tuiuti

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Ingressos populares para os desfiles do Grupo Especial esgotam em menos de duas horas

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Realizada nesta quarta, a pré-venda de 13 mil ingressos populares para as arquibancadas dos Setores 12 e 13 da Marquês de Sapucaí foi esgotada em menos de duas horas — movimento que indica uma procura recorde pelo espetáculo. Agora, estão esgotadas todas as entradas para os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, em 19 e 20 de fevereiro: desde arquibancadas especiais às populares, passando ainda pelas cadeiras individuais e frisas. Ingressos de camarotes ainda podem ser encontrados para aquisição direta com os responsáveis por cada uma das áreas VIPs.

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Foto: Allan Duffes/Site CARNAVALESCO

No caso dos ingressos reservados pela internet nesta quarta, o pagamento será feito em dinheiro no próximo sábado, 11, no estande da Central de Vendas da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) no Setor 11 do Sambódromo (entrada pela Av. Salvador de Sá). O atendimento ao público será das 10h às 16h. Os ingressos foram disponibilizados por R$ 15, sem cobrança de taxas. O não comparecimento para o pagamento cancelará a reserva feita pela internet.

“Com esta grande procura, podemos antecipar que o Sambódromo baterá um recorde de público no Rio Carnaval 2023, com uma expectativa de 100 mil foliões por noite, entre compradores de ingressos, sambistas, e os mais diversos prestadores de serviços”, reforçou Jorge Perlingeiro, presidente da Liesa.

De volta para Beija-Flor, Gabriel David diz que Liesa precisa de nova ‘chacoalhada’ e defende mudança total na gestão dos camarotes

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O PodCarnavalesco recebeu na Biblioteca Parque, no Centro do Rio, o diretor de marketing da Liesa, Gabriel David, que fez um balanço do trabalho no carnaval carioca, pontuou alguns fatores e falou sobre seus desejos na Liga. Confira os pontos mais importantes e toda a expectativa para o Carnaval 2023.

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Foto: Octacílio Barbosa/Divulgação Alerj

“Na minha sincera opinião não é um balanço positivo, me sinto muito frustrado ainda dentro da Liesa. Claro que existem conquistas e elas devem ser comemoradas, mas sendo sincero, o que me move não são as conquistas e sim o processo. Porque está sendo muito ruim, mesmo nas conquistas, o processo é muito ruim, isso me frustra muito, mas ainda acredito. Importante deixar muito claro, acredito que a Liga possa melhorar, que o carnaval possa melhorar em vários aspectos. A gente está precisando de uma nova chacoalhada, tivemos uma grande com a saída do Jorginho Castanheiro, mas precisamos. Não estou falando da saída do Perlingeiro, mas precisamos de mudanças”.

Escolas de samba no mercado digital”
“As escolas de samba têm uma representação social brilhante, perfeita. Quando falamos de inserção no mercado qual seria a competição delas no mercado, teriam outras empresas que competiriam com elas? Eu diria que não, é um produto único se pensarmos como mercado. As escolas evoluíram muito, principalmente no pós pandemia no campo digital. Estão caminhando para um ritmo melhor, estou falando há algum tempo é que a liga melhore por elas. As escolas têm uma capacidade de criação, inovação e adaptação muito grande o que falta é a liga forneça para elas maiores possibilidades, sejam elas financeiras, de contato de que tenha gente exclusivamente trabalhando que não seja só para fazer carnaval.

A cereja do bolo do carnaval nem as escolas de samba e nem a liga tem, esse que é o problema, o espaço. Há mais estão usando o carnaval. Usa-se o que tem paixão no mundo o tempo todo, quando se fala em termos de mercado é assim que os grandes esportes ganharam dinheiro; é assim que a NBA evoluiu, o futebol a mesma coisa. Então com o carnaval não é diferente, quando você tem paixão as pessoas querem estar não necessariamente para ver o espetáculo, mas para falar que estão. O famoso ver e ser visto, a Sapucaí é para ser visto, comercialmente falando ela sempre foi isso. Quando você está fazendo alguma coisa para rentabilizar dentro do carnaval precisa ter isso na cabeça, que aquilo ali é o que as pessoas mais querem quando elas vão para o sambódromo. E a liga não tem isso, espaço para receber as pessoas, como a maioria das escolas também não tem”.

Criação do Museu do Samba
A gente tem um projeto de museu que já avançou consideravelmente neste ano também, é uma coisa que a gente não vai divulgando, mas o preparo do museu está rolando na Cidade do Samba, espero na verdade que no máximo em dois anos ele esteja pronto e inaugurado”.

Receitas financeira do carnaval
“O dinheiro público é muito fundamental para as escolas hoje, vindo da prefeitura e do governo do estado. A gente tem essa receita, a da Globo que é a segunda maior receita do carnaval e a principal e maior receita disparada é a da venda dos camarotes. Isso é um fato, são dados públicos e não tem questionamento sobre isso”.

Camarotes na Sapucaí
“Eu vou ser bem direto, os camarotes precisam acabar. Para as escolas terem a vida comercial que acabamos de falar, para elas poderem crescer, a primeira coisa que tem que ser feito é a Liga acabar com os camarotes. Faz uma colaboração com os produtores que já estão ali, mas tirar os empresários, eu sou um deles. Tudo ali tem que ser da Liga, assim você vai poder dizer, a Liga está certa ou está errada. Hoje não. Ela repassa tudo e assim os erros também são repassados e os acertos também. Para isso acontecer é preciso convencer quatro pessoas, o governador, prefeito, principalmente, e convencer dois membros do Conselho da Liga. Fazendo isso você pode comprar briga com quem quiser”.

Som alto dos camarotes e invasão da pista
“Sobre a invasão de pista não vai ter nenhuma portinha em nenhum camarote, eu pessoalmente fui na Sapucaí fiscalizei tudo isso em todos ensaios técnicos tem uma equipe fiscalizando por lá, todas as portinhas foram cerradas, só vai ter uma que é da própria Liesa, que não vai ter problema, porque todas as pessoas que estão ali são credenciadas. Acredito eu, que invasão de pista não vai acontecer, a não ser que tenha uma falha de segurança. Ano passado teve falha. Na verdade, teve uma quebra de contrato dos camarotes com a Liesa, que eu confesso que queria ter sido mais duro. Mas é uma opção que não cabe a mim, eu teria multado todos os camarotes. Mas entendo volta de pandemia, muitos dando prejuízo, querendo ou não é uma receita para a Liga, então pegou-se mais leve com esse caso. Espero que se algo acontecer esse ano, como está tudo explícito no contrato, realmente seja cobrado as multas altíssimas. O som é um ponto que está no contrato de todos os camarotes, a multa é significamente alta, espero eu que isso seja cobrado caso aconteça. Fora isso o que vai ter é o teste de som de todos os camarotes que vai ser acompanhado pela produção da Liga”.

Relação com o pai
“Ele ainda tem muita vontade com o carnaval e vai ter para sempre. É um amor que temos em comum, eu vejo que a idade vai mudando algumas coisas, mas o tesão e o amor que ele tem pelo carnaval é uma coisa inacreditável. No início ele nem queria que eu me envolvesse com a Liesa já tivemos várias discussões, hoje em dia não. As vezes pergunta uma coisa ou outra, porém eu pergunto mais, quando tenho dúvidas de algo mais sério mais delicado, ele sempre me aconselha. O que compartilho com meu pai é um amor muito grande pela Beija-Flor e um desgosto muito grande pela Liesa, ele também tem esse lugar muito claro dentro dele. Meu pai é um dos principais se não for o principal fundador da Liesa e sinto que ele foi vendo a Liga caminhar para um lugar”.

Futuro presidente da Liga?
“Eu me interesso, não vou dizer que sou um candidato para 2024, porque isso não é uma escolha minha e sinto também que muita gente ainda me vê como só um garoto que tem muito a crescer e a mostrar, sinto que isso pode pesar. Eu diria assim, se eu contar nos dedos a quantidade de presidente que me canta por causa disso, eu teria a maioria tranquilamente, para ser sincero eu jamais entraria no embate, eu respeito a hierarquia ali, sei quem manda e sei que um norte vai ser traçado e acredito que não serei um nome a ser escolhido. Tem uma pessoa que eu queria muito que fosse, considero que poderia ser um ótimo presidente que é o Júlio Guimarães, coordenador de jurados, já trabalhou na Liga há muito tempo foi assistente do Jorginho. Um cara que viveu e entende muito da Liga, mas eu não sei se ele quer”.

Reestruturação da Beija-Flor

“A escola não planejou a saída do Laíla, eu não planejei a saída dele, para mim ele ia morrer na Beija-Flor. Reestruturar foi muito difícil. O carnaval em 2019 foi total responsabilidade minha. O que faltou de fato em 2019 foi a figura do diretor de carnaval, o Almir e eu ficamos sobrecarregados, tínhamos os afazeres normais da escola ainda tinha toda essa ralação, fui descobrindo certas coisas que acontecia, no meio do processo.  Precisava de um tempo para se reestruturar. A vantagem é quando você tem uma escola com a estrutura igual a da Beija-Flor, mesmo se você muda uma figura tão grande igual ao Laíla, em três ou quatro anos você volta com potência máxima e favoritismo”.

Retorno do apoio federal para o carnaval
“Não tem nada assinado, a gente foi lá, eles gostaram da ideia, o governo federal tem a intenção de patrocinar não só o carnaval do Rio, mas de outros estados do Brasil também. Claro que o tempo é algo que dificulta muito isso, mas eu acredito que esse patrocínio possa ser concluído ainda para 2023. E para 2024 a gente possa se relacionar melhor com o ministério da Cultura, conversei com a presidente da Mangueira, que é muito próxima da ministra Margareth Menezes, para que a gente possa criar uma pauta para mostrar alguns pontos do carnaval como um todo. Ela (Guanayra) está sendo uma baita parceira para gente poder aproximar mais o governo federal com o carnaval”.

Veja abaixo o PodCarnavalesco na íntegra com Gabriel David

PodCarnavalesco recebe Gabriel David, diretor de marketing da Liesa

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Série ‘Barracões’: São Clemente promete desfile alegre e irreverente ao inverter a lógica da colonização

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A São Clemente vai desfilar, na Marquês de Sapucaí, uma subversão do descobrimento do Brasil. O que aconteceria se os nossos povos originários tivessem ido para as terras europeias e não o contrário? O enredo do carnavalesco Jorge Silveira intitulado “O Achamento do Velho Mundo” se propõe ser uma viagem lúdica e divertida que se passa em um período de um dia começando na manhã, assim que o Sol aparece, e terminando em uma grande festa à noite, nas novas terras chamadas de Euroca, em vez de Europa.

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Fotos: Matheus Vinícius/Site CARNAVALESCO

Jorge Silveira havia imaginado esse carnaval anos atrás, quando fazia uma versão virtual da festa. Ele chegou a apresentar a temática para o desfile de 2018, o seu primeiro na São Clemente, mas a diretoria já estava planejando homenagear os 200 anos da Escola de Belas Artes. O carnavalesco passou três anos no barracão da agremiação, fez um carnaval exclusivamente em São Paulo pela Dragões da Real e volta desse hiato para a São Clemente, onde conseguirá colocar na Avenida o seu plano inicial.

“Eu sempre parto para criar as coisas da São Clemente da própria São Clemente. Eu acredito muito que cada escola de samba do Rio de Janeiro tem uma identidade própria e uma trajetória, e isso tem a ver com a opções que os carnavalescos fazem ao longo do tempo dos temas que são escolhidos. A partir disso, a São Clemente se construiu no tempo como uma escola irreverente, crítica e divertida. Toda vez que ela desvia dessa trajetória ela tropeça. O meu esforço é sempre trazê-la para isso. Eu encontro o enredo da São Clemente na irreverência da escola. Eu optei por alguns símbolos nesse carnaval que tem a ver com a identidade da agremiação. Por exemplo, a São Clemente nasce de um time de futebol que tem a ver com a praia, com areia, ela nasce em Botafogo. Nosso enredo parte de um dia de verão na Praia de Botafogo”, explicou Jorge Silveira.

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Para construção de um enredo bem humorado, Jorge decidiu inverter a lógica do descobrimento do Brasil. No mundo elaborado pelo artista, os portugueses não vieram para as nossas terras, foram os indígenas que pegaram 13 canoas, desbravaram o mar e chegaram nas estranhas terras portuguesas de gente com as “verdades” muito cobertas. Assim, a personalidade festeira dos nativos de Pindorama, nome usado no enredo para designar o Brasil, vai se chocar com a personalidade dos reservados nativos de Euroca. Em vez de colonização, os tupis vão se mostrar generosos com o povo recém-achado, passando uma mensagem de tolerância e respeito às diferenças.

Referência, cores e economia

O carnavalesco diz que a principal inspiração para a construção desse desfile foi o marcante enredo “Tupinicópolis”, da Mocidade, de 1987. Naquele ano, Fernando Pinto levou para a passarela uma versão retrô-futurista de uma cidade projetada por indígenas e conquistou o vice-campeonato para Padre Miguel.

“Especialmente nesse Carnaval, eu uso muito como referência meu maior ídolo que é o Fernando Pinto. […] A alegria, espontaneidade e a maneira de contar a história desse desfile de ‘Tupinicópolis’ são sem dúvida o pano de fundo, a referência e aquilo que me alimenta emocionalmente para contar a história da São Clemente esse ano”, revelou Silveira.

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Já que o enredo contará uma jornada, a plástica do desfile também servirá a essa proposta. A escola evoluirá com uma estética colorida que realçará as cores vivas do dia e da noite e será de fácil entendimento para o público consiga se divertir genuinamente com sua passagem. Jorge Silveira elaborou uma paleta de cores que pode ser trabalhada tanto com a luz dos refletores da Sapucaí quanto com a luz do Sol, afinal a São Clemente será a última escola a desfilar na sexta de carnaval.

Para economizar na elaboração das alegorias, Jorge optou por reutilizar estruturas de carros do ano anterior, quando a escola desfilou no Grupo Especial e tinha carros com grandes alturas. Além disso, o uso de material mais barato vai ser uma marca importante. O carnavalesco escolheu o impacto visual que eles podem causar.

“Eu optei por fazer muita coisa de aplicação. Ao invés de usar estampas prontas, estamos usando desenhos e padrões que remetem a desenhos e padrões indígenas sendo feitos manualmente. Eu fiz muita forração com tecidos baratos, como o feltro, e apliquei fitas coladas para criar os desenhos e estampas que eu precisava. Também estou usando muito o recurso de pintura de arte. Nós usamos uma base de tecido e aplicamos as camadas de pintura para poder trabalhar o carro como se fosse uma tela em branco. Trabalhamos a ilusão de óptica do volume como a característica da pintura de arte”, comentou o carnavalesco.

Mão da massa

Quem chegar no barracão da São Clemente, na Av. Brasil, embaixo do viaduto do Gasômetro, pode ter grandes chances de achar Jorge Silveira com a mão-na-massa, trabalhando com tinta e outros materiais. O exemplo veio de casa. Foi a partir de seu pai, o carnavalesco Jorge Caldeirão, que ele aprendeu a fazer carnaval.

“Eu já trabalhei com muita gente, muitos carnavalescos, e com todos eles eu pude aprender bastante. Eu tenho uma referência pessoal, eu falei em outras entrevistas, que é o meu pai. Ele foi carnavalesco durante 20 anos e eu aprendi a amar Carnaval com ele vai ser sempre minha referência eterna”, disse Silveira. “Especialmente, na Série Ouro, a gente tem um percentual de mãos à obra muito maior que no Grupo Especial. Vendo isso, eu me lembro do meu pai, porque eu via ele fazendo isso desse jeito. Feliz, trabalhando dessa forma”.

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Jorge Silveira saiu da São Clemente após o desfile de 2020, ano cujo enredo foi “O Conto do Vigário”. Infelizmente, a agremiação caiu para a Série Ouro no Carnaval seguinte, o de 2022, ao homenagear o saudoso Paulo Gustavo. Porém, em 2023, ele voltou para acentuar a identidade clementiana.

“Voltar para a São Clemente, para mim, nesse momento, é resgatar uma linha de trabalho que estava desenvolvendo antes de ter saído daqui. É uma forma de dizer que os preceitos que a gente havia começado a trabalhar naquela era, naquele momento, tinham um significado especial. E eu quero resgatar esse significado. Quero que as pessoas voltem a olhar para a São Clemente e se lembrar da alegria, da irreverência e da leveza. O que eu posso dizer a respeito, principalmente, desse momento é que, de todos os carnavais que fiz na escola, esse é o mais carioca e esse é o mais leve, portanto é que se propõe a ser mais divertido. Eu estou pegando os símbolos da São Clemente e passando um marca-texto, elevando isso à máxima potência da irreverência”, contou o carnavalesco.

Jorge Silveira ficou feliz ao voltar para a agremiação. A sua recepção foi um misto de “que pena que foi embora” e “que bom que voltou”. Essa gratidão o motiva e dá disposição para entregar esse Carnaval divertido, colorido, leve e irreverente que ele propõe.

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“Eu quero devolver essa alegria com um Carnaval absurdamente alegre. Nós vamos brincar Carnaval”, exclamou Silveira. “Eu fico feliz que isso [a recepção] é uma forma de afago e afeto de quem observa o trabalho. A vida tem circunstâncias que são maiores que nós, às vezes é necessário trilhar outros caminhos. Eu tinha que cumprir uma tarefa no Carnaval de São Paulo. Meu esforço sincero na São Clemente é tentar ler a alma da escola. Eu fico muito triste quando vejo que um carnavalesco impõe sua marca e seu estilo e descaracteriza a agremiação. Nenhum carnavalesco é maior que nenhuma escola de samba. Os carnavalescos não são maiores que as agremiações. As agremiações existem no tempo, eles têm história, têm permanência, têm vivência. Eu tenho que entender como ela é e meu trabalho serve a ela, não o contrário”.

Concomitante à São Clemente, Jorge Silveira também divide sua atenção com o Carnaval paulista. Carnavalesco da Mocidade Alegre, ele se sente confortável e realizado com os dois trabalhos que estão sendo executados, apesar do cansaço. Enquanto no Rio, o enredo é “O Achamento do Velho Mundo”, Silveira trabalha a alma samurai dentro de cada pessoa preta paulista da cidade mais japonesa fora do Japão, em São Paulo.

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As duas escolas entendem perfeitamente o processo e, desde o começo, elas entenderam essa divisão. Em qualquer escola se trabalha com equipe e eu gerencio a criação de ambas, mas tenho muitas outras pessoas que me auxiliam nesse processo. Não é a primeira vez que eu faço isso. Em 2017, eu fiz Dragões da Real lá e Viradouro aqui, e fui vice-campeão nas duas. Não é um problema de distância, é um problema de dedicação, de entrega e de projeto. Eu trabalho muito baseado em projeto, cronograma de trabalho, organização, metas a serem alcançadas. Dentro desse cronograma, é tranquilo. Dá para fazer e estamos fazendo”, explicou ele.

O trabalho no barracão da amarela e preta carioca já está em etapa de decoração e ruma para a finalização. Jorge Silveira não vê a hora de entregar os dois Carnavais e ver a reação do público ao seu trabalho.

Conheça o desfile da São Clemente:

A São Clemente vai para a Avenida com três carros, 21 alas e com o canto de 1600 componentes. O objetivo é realçar o DNA irreverente e crítico da escola com um desfile colorido e feliz. Jorge Silveira contou ao site CARNAVALESCO como será a divisão de setores definida para narrar esse enredo que acontece, magicamente, do dia para a noite.

Setor 1: “É uma abertura partindo da Praia de Botafogo, em Pindorama, em um dia quente e ensolarado de verão”.

Setor 2: “No segundo momento, eles chegam até o Velho Mundo, que o nosso samba batizou de Euroca, como sendo a visão dos nativos brasileiros”.

Setor 3: “No terceiro capítulo, eles celebram e festejam o congraçamento entre os dois povos através de uma festa. E essa festa é dada através dos moldes de Pindorama. Em Pindorama, se festeja com baile funk. E vai ser um baile para Jaci, como o povo de Pindorama chama a Lua”.

De olho nos quesitos: falta julgar a proposta da escola para Alegorias e Adereços

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Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro, herdeiros do legado de Chiquinho e Maria Helena, elogiam Leandro Vieira: ‘torna coisas simples numa criação perfeita’

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Rafaela Theodoro está prestes a completar 13 anos como porta-bandeira da Imperatriz Leopoldinense. Apaixonada pela agremiação, sua jornada começou ao lado do mestre-sala Phelipe Lemos, com quem dançou por cinco anos consecutivos. Após um longo período separados, a dupla voltará a encantar o público da Avenida no carnaval de 2023. Para o site CARNAVALESCO, os dois encontraram tempo para falar sobre sua relação, inspirações e como lidam com a constante pressão de conseguir boas notas.

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Fotos: Nelson Malfacini

Qual é o sentimento presente entre vocês no retorno da dupla?

Rafaela: “É um sentimento de muita felicidade, algo que já era esperado pela parceria. O Phelipe sempre foi um irmão. Foi aqui que realmente começou a grande história, em que começamos a ser avaliados. Tivemos muitas realizações juntos como notas máximas e prêmios. Acredito que tenha sido aqui o pontapé inicial da dupla, quando fomos consolidados. Ter esse retorno num momento tão especial que a Imperatriz vem vivendo, forte e com vontade de lutar pelo título, é muito gratificante”.

Phelipe, quem é sua referência como mestre-sala? E por qual motivo?

Phelipe: “Tenho muitas referências, como os meus colegas que atuam agora. Sou fã do Claudinho, que é o mestre-sala da Beija-Flor, e do Juninho da Viradouro, mas a minha maior e total referência é o Chiquinho, por conta da tradição que ele manteve e da nossa história na Imperatriz. Hoje, a minha referência de mestre-sala e o que eu pretendo passar adiante, até para os que virão depois de mim, são os conceitos que o Chiquinho trouxe me trouxe”.

Rafaela, quem é sua referência como porta-bandeira? E por qual motivo?

Rafaela: “Estando na Imperatriz, não tem como deixar de mencionar a Maria Helena, que está sempre em nossos corações, mas digo pela história que ela construiu não só na Imperatriz, como no carnaval. Foi uma guerreira que lutou muito para chegar aonde chegou, e você se identificar com uma escola, lutar pelo pavilhão até o fim, o que é difícil nos dias de hoje, estar ali na frente com tanto amor e carinho, é lindo. Também preciso citar a Rute da Vila Isabel, que foi quase uma fada madrinha quando iniciei. Ela foi uma das primeiras a me estender a mão. Não esqueço das grandes professoras que tive, sou muito fã delas, além das minhas outras colegas de trabalho. Ah, eu também gosto muito da Andrea Machado”.

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O mestre-sala vem sendo muito cobrado em cortejar mais a porta-bandeira do que dançar sozinho. Acha que falta mais esse “olhar” do mestre-sala para a porta-bandeira?

Phelipe: “Acho que a dança do casal evoluiu muito, até mesmo por conta do julgamento. Só que em alguns momentos, nós deixamos um pouco de lado a tradição, e digo ‘nós’ porque eu também praticava isso, mas gosto de manter a dança tradicional com o cortejo, que é o sentido do mestre-sala e da porta-bandeira. A origem foi justamente essa. O mestre-sala deve proteger o pavilhão e a porta-bandeira, e com a evolução do cargo isso ficou menos evidente. A dança de maneira geral e individual ganhou mais ênfase. Acho que estamos resgatando essa proteção novamente”.

Phelipe, te preocupa quando falam que você dança mais do que corteja a porta-bandeira?

Phelipe: “Não tenho essa preocupação porque, na verdade, nem gosto muito de dançar sozinho. Eu sempre me importo demais com a Rafaela e com a condução, mas é importante ouvir isso. Todas as críticas servem de aviso para algo. Se ela for negativa, eu sei que preciso melhorar num aspecto”.

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Phelipe, como surgiu a ideia do passo de ficar na ponta dos pés?

Phelipe: “Esse movimento eu resgatei do Chiquinho e, inclusive, foi a Maria Helena que obrigou ele a fazer. Eu só quis trazer isso como referência quando chegamos na Imperatriz, para ajudar a criar a nossa identificação de casal com a escola”.

Qual é o desfile inesquecível de vocês?

Rafaela: “Acho que para todo sambista a estreia é marcante, mas tenho dois pontos muito fortes aqui dentro da escola. Primeiro, a minha estreia em 2011 com o Phelipe, e também o ano de 2014 em que falamos sobre o Zico e nós dois ganhamos todas as notas máximas. Fomos agraciados nesse ano e marcou a nossa história”.

O que torna diferente vestir fantasia criada por Leandro Vieira?

Phelipe: “O Leandro é um gênio e tem um carinho muito grande pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira. Não que os outros não tenham. Todos eles se preocupam muito com o nosso desenvolvimento de dança e, logicamente, com as obras deles, as fantasias. Só que o Leandro tem uma visão diferenciada, torna coisas simples numa criação perfeita. Você nem imagina que um detalhe tão pequeno pode ganhar destaque, mas ele faz isso. Ele encontra a beleza na simplicidade e, para mim, é uma honra vestir um figurino que foi pensado por ele”.

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É muito pesado ter que entregar nota máxima, já que a escola quer o título? Como vocês lidam com isso?

Rafaela: “Acho que essa pressão acontece anualmente porque somos profissionais que se dedicam durante todos os meses, e quem não quer chegar lá e dar orgulho para a comunidade? Temos que saber dosar porque, antes de mais nada, o nosso psicológico precisa estar preparado. Não adianta termos muitos ensaios e preparação física, sem uma mentalidade boa. Também entramos sempre confiantes, falando e atraindo bons resultados. A gente tenta manter a tranquilidade para não atrapalhar o trabalho”.

Phelipe, o que não pode faltar em um mestre-sala perfeito?

Phelipe: “Perfeito ninguém é, mas acho que não pode faltar num mestre-sala a consciência de que o pavilhão e a porta-bandeira são as peças fundamentais do nosso trabalho. Precisamos estar sempre pensando neles”.

Rafaela, o que não pode falar em uma porta-bandeira perfeita?

Rafaela: “A gente busca a perfeição e, como o Phelipe citou, não existe, mas não pode faltar um sorriso no rosto e graciosidade. Uma porta-bandeira precisa estar sempre com energia e simpatia, porque você está representando milhares de corações apaixonados pela agremiação”.

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E qual é a declaração que o Phelipe fala olhando para a Rafaela?

Phelipe: “Só tenho a agradecer. Como a Rafa mencionou, ela é a minha irmã e parceira de vida. Ela me fez chegar até aqui e conquistar o que conquistei. Muito do que tenho na vida eu agradeço a ela, porque foi uma parceira que me deu a mão para caminharmos juntos. Por isso também estou de volta, por esse carinho enorme que temos um pelo outro”.

Qual é a declaração que a Rafaela fala olhando para o Phelipe?

Rafaela: “Tem muito amor, união e cumplicidade aqui. Somos muito felizes juntos e lutamos para sermos melhores a cada dia”.

Opinião: Império Serrano prepara carnaval imponente e traz esperança para os componentes

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