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Série ‘Barracões’: São Clemente promete desfile alegre e irreverente ao inverter a lógica da colonização

Jorge Silveira volta à agremiação da Zona Sul para fazer um enredo leve, feliz e colorido com referências a Tupinicópolis, da Mocidade

A São Clemente vai desfilar, na Marquês de Sapucaí, uma subversão do descobrimento do Brasil. O que aconteceria se os nossos povos originários tivessem ido para as terras europeias e não o contrário? O enredo do carnavalesco Jorge Silveira intitulado “O Achamento do Velho Mundo” se propõe ser uma viagem lúdica e divertida que se passa em um período de um dia começando na manhã, assim que o Sol aparece, e terminando em uma grande festa à noite, nas novas terras chamadas de Euroca, em vez de Europa.

Fotos: Matheus Vinícius/Site CARNAVALESCO

Jorge Silveira havia imaginado esse carnaval anos atrás, quando fazia uma versão virtual da festa. Ele chegou a apresentar a temática para o desfile de 2018, o seu primeiro na São Clemente, mas a diretoria já estava planejando homenagear os 200 anos da Escola de Belas Artes. O carnavalesco passou três anos no barracão da agremiação, fez um carnaval exclusivamente em São Paulo pela Dragões da Real e volta desse hiato para a São Clemente, onde conseguirá colocar na Avenida o seu plano inicial.

“Eu sempre parto para criar as coisas da São Clemente da própria São Clemente. Eu acredito muito que cada escola de samba do Rio de Janeiro tem uma identidade própria e uma trajetória, e isso tem a ver com a opções que os carnavalescos fazem ao longo do tempo dos temas que são escolhidos. A partir disso, a São Clemente se construiu no tempo como uma escola irreverente, crítica e divertida. Toda vez que ela desvia dessa trajetória ela tropeça. O meu esforço é sempre trazê-la para isso. Eu encontro o enredo da São Clemente na irreverência da escola. Eu optei por alguns símbolos nesse carnaval que tem a ver com a identidade da agremiação. Por exemplo, a São Clemente nasce de um time de futebol que tem a ver com a praia, com areia, ela nasce em Botafogo. Nosso enredo parte de um dia de verão na Praia de Botafogo”, explicou Jorge Silveira.

Para construção de um enredo bem humorado, Jorge decidiu inverter a lógica do descobrimento do Brasil. No mundo elaborado pelo artista, os portugueses não vieram para as nossas terras, foram os indígenas que pegaram 13 canoas, desbravaram o mar e chegaram nas estranhas terras portuguesas de gente com as “verdades” muito cobertas. Assim, a personalidade festeira dos nativos de Pindorama, nome usado no enredo para designar o Brasil, vai se chocar com a personalidade dos reservados nativos de Euroca. Em vez de colonização, os tupis vão se mostrar generosos com o povo recém-achado, passando uma mensagem de tolerância e respeito às diferenças.

Referência, cores e economia

O carnavalesco diz que a principal inspiração para a construção desse desfile foi o marcante enredo “Tupinicópolis”, da Mocidade, de 1987. Naquele ano, Fernando Pinto levou para a passarela uma versão retrô-futurista de uma cidade projetada por indígenas e conquistou o vice-campeonato para Padre Miguel.

“Especialmente nesse Carnaval, eu uso muito como referência meu maior ídolo que é o Fernando Pinto. […] A alegria, espontaneidade e a maneira de contar a história desse desfile de ‘Tupinicópolis’ são sem dúvida o pano de fundo, a referência e aquilo que me alimenta emocionalmente para contar a história da São Clemente esse ano”, revelou Silveira.

Já que o enredo contará uma jornada, a plástica do desfile também servirá a essa proposta. A escola evoluirá com uma estética colorida que realçará as cores vivas do dia e da noite e será de fácil entendimento para o público consiga se divertir genuinamente com sua passagem. Jorge Silveira elaborou uma paleta de cores que pode ser trabalhada tanto com a luz dos refletores da Sapucaí quanto com a luz do Sol, afinal a São Clemente será a última escola a desfilar na sexta de carnaval.

Para economizar na elaboração das alegorias, Jorge optou por reutilizar estruturas de carros do ano anterior, quando a escola desfilou no Grupo Especial e tinha carros com grandes alturas. Além disso, o uso de material mais barato vai ser uma marca importante. O carnavalesco escolheu o impacto visual que eles podem causar.

“Eu optei por fazer muita coisa de aplicação. Ao invés de usar estampas prontas, estamos usando desenhos e padrões que remetem a desenhos e padrões indígenas sendo feitos manualmente. Eu fiz muita forração com tecidos baratos, como o feltro, e apliquei fitas coladas para criar os desenhos e estampas que eu precisava. Também estou usando muito o recurso de pintura de arte. Nós usamos uma base de tecido e aplicamos as camadas de pintura para poder trabalhar o carro como se fosse uma tela em branco. Trabalhamos a ilusão de óptica do volume como a característica da pintura de arte”, comentou o carnavalesco.

Mão da massa

Quem chegar no barracão da São Clemente, na Av. Brasil, embaixo do viaduto do Gasômetro, pode ter grandes chances de achar Jorge Silveira com a mão-na-massa, trabalhando com tinta e outros materiais. O exemplo veio de casa. Foi a partir de seu pai, o carnavalesco Jorge Caldeirão, que ele aprendeu a fazer carnaval.

“Eu já trabalhei com muita gente, muitos carnavalescos, e com todos eles eu pude aprender bastante. Eu tenho uma referência pessoal, eu falei em outras entrevistas, que é o meu pai. Ele foi carnavalesco durante 20 anos e eu aprendi a amar Carnaval com ele vai ser sempre minha referência eterna”, disse Silveira. “Especialmente, na Série Ouro, a gente tem um percentual de mãos à obra muito maior que no Grupo Especial. Vendo isso, eu me lembro do meu pai, porque eu via ele fazendo isso desse jeito. Feliz, trabalhando dessa forma”.

Jorge Silveira saiu da São Clemente após o desfile de 2020, ano cujo enredo foi “O Conto do Vigário”. Infelizmente, a agremiação caiu para a Série Ouro no Carnaval seguinte, o de 2022, ao homenagear o saudoso Paulo Gustavo. Porém, em 2023, ele voltou para acentuar a identidade clementiana.

“Voltar para a São Clemente, para mim, nesse momento, é resgatar uma linha de trabalho que estava desenvolvendo antes de ter saído daqui. É uma forma de dizer que os preceitos que a gente havia começado a trabalhar naquela era, naquele momento, tinham um significado especial. E eu quero resgatar esse significado. Quero que as pessoas voltem a olhar para a São Clemente e se lembrar da alegria, da irreverência e da leveza. O que eu posso dizer a respeito, principalmente, desse momento é que, de todos os carnavais que fiz na escola, esse é o mais carioca e esse é o mais leve, portanto é que se propõe a ser mais divertido. Eu estou pegando os símbolos da São Clemente e passando um marca-texto, elevando isso à máxima potência da irreverência”, contou o carnavalesco.

Jorge Silveira ficou feliz ao voltar para a agremiação. A sua recepção foi um misto de “que pena que foi embora” e “que bom que voltou”. Essa gratidão o motiva e dá disposição para entregar esse Carnaval divertido, colorido, leve e irreverente que ele propõe.

“Eu quero devolver essa alegria com um Carnaval absurdamente alegre. Nós vamos brincar Carnaval”, exclamou Silveira. “Eu fico feliz que isso [a recepção] é uma forma de afago e afeto de quem observa o trabalho. A vida tem circunstâncias que são maiores que nós, às vezes é necessário trilhar outros caminhos. Eu tinha que cumprir uma tarefa no Carnaval de São Paulo. Meu esforço sincero na São Clemente é tentar ler a alma da escola. Eu fico muito triste quando vejo que um carnavalesco impõe sua marca e seu estilo e descaracteriza a agremiação. Nenhum carnavalesco é maior que nenhuma escola de samba. Os carnavalescos não são maiores que as agremiações. As agremiações existem no tempo, eles têm história, têm permanência, têm vivência. Eu tenho que entender como ela é e meu trabalho serve a ela, não o contrário”.

Concomitante à São Clemente, Jorge Silveira também divide sua atenção com o Carnaval paulista. Carnavalesco da Mocidade Alegre, ele se sente confortável e realizado com os dois trabalhos que estão sendo executados, apesar do cansaço. Enquanto no Rio, o enredo é “O Achamento do Velho Mundo”, Silveira trabalha a alma samurai dentro de cada pessoa preta paulista da cidade mais japonesa fora do Japão, em São Paulo.

As duas escolas entendem perfeitamente o processo e, desde o começo, elas entenderam essa divisão. Em qualquer escola se trabalha com equipe e eu gerencio a criação de ambas, mas tenho muitas outras pessoas que me auxiliam nesse processo. Não é a primeira vez que eu faço isso. Em 2017, eu fiz Dragões da Real lá e Viradouro aqui, e fui vice-campeão nas duas. Não é um problema de distância, é um problema de dedicação, de entrega e de projeto. Eu trabalho muito baseado em projeto, cronograma de trabalho, organização, metas a serem alcançadas. Dentro desse cronograma, é tranquilo. Dá para fazer e estamos fazendo”, explicou ele.

O trabalho no barracão da amarela e preta carioca já está em etapa de decoração e ruma para a finalização. Jorge Silveira não vê a hora de entregar os dois Carnavais e ver a reação do público ao seu trabalho.

Conheça o desfile da São Clemente:

A São Clemente vai para a Avenida com três carros, 21 alas e com o canto de 1600 componentes. O objetivo é realçar o DNA irreverente e crítico da escola com um desfile colorido e feliz. Jorge Silveira contou ao site CARNAVALESCO como será a divisão de setores definida para narrar esse enredo que acontece, magicamente, do dia para a noite.

Setor 1: “É uma abertura partindo da Praia de Botafogo, em Pindorama, em um dia quente e ensolarado de verão”.

Setor 2: “No segundo momento, eles chegam até o Velho Mundo, que o nosso samba batizou de Euroca, como sendo a visão dos nativos brasileiros”.

Setor 3: “No terceiro capítulo, eles celebram e festejam o congraçamento entre os dois povos através de uma festa. E essa festa é dada através dos moldes de Pindorama. Em Pindorama, se festeja com baile funk. E vai ser um baile para Jaci, como o povo de Pindorama chama a Lua”.

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