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Paixão salgueirense toma conta do último ensaio de rua antes do desfile

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Por Raphael Lacerda e Rhyan de Meira

Com destaque para o canto da escola, o Salgueiro realizou na noite de quinta-feira o seu último ensaio de rua, na Maxwell, antes do desfile na Marquês de Sapucaí. Com início por volta das 21h20, a preparação durou cerca de uma hora. A agremiação será a penúltima a desfilar no domingo de carnaval. Devido aos ensaios que estão ocorrendo na Cidade do Samba, a comissão de frente e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei Santos e Marcella Alves, não compareceram ao ensaio de rua.

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Fotos: Raphael Lacerda e Rhyan de Meira/Site CARNAVALESCO

Em entrevista ao CARNAVALESCO, o diretor de carnaval, Julinho Fonseca, falou sobre o balanço do ensaio e pré-carnaval do Salgueiro.

“Último ensaio na Maxwell e, graças a Deus, a escola cantou e gritou muito. A escola está unida e acho que fizemos um belíssimo ensaio técnico no domingo. A gente deu uma resposta a todos que estavam criticando o samba e não acreditavam nele. Está aí a resposta. Sempre tem aqueles ajustes finais para no dia 19 a gente chegar completo. Este pré-carnaval foi muito sacrifício e um desafio enorme. Todo mundo estava desacreditado no samba do Salgueiro, na comunidade e no nosso barracão. No dia 19 o mundo do samba terá uma surpresa imensa com o Salgueiro”, comentou Julinho Fonseca.

Harmonia

Mais uma vez, o samba-enredo calou os críticos. A comunidade salgueirense cantou forte cada verso do samba – destaque para a ala três – demonstrando um pouco do que fará no Sambódromo. No início, uma rua transversal a Maxwell foi utilizada como primeiro recuo, onde a bateria ficou enquanto a escola passava. A equipe do carro de som, em especial o intérprete Emerson Dias, cumprimentava e interagia com os componentes e o público presente.

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“A gente conseguiu colocar o samba num ponto que é muito gostoso de ouvir, cantar e sambar. Se Deus quiser, será muito gostoso de desfilar. Estamos tendo ensaios com a comunidade cantando absurdamente”, disse o intérprete Emerson Dias.

Evolução

Apesar de alguns trechos da Rua Maxwell estarem com grande quantidade de público, além das obras que ocorriam na via, a direção de harmonia conseguiu manter o controle, resultando em um ótimo ensaio. O Salgueiro percorreu cerca de 700 metros com uma boa evolução e sem abrir buracos. Mais uma vez, destaque para os componentes que, com samba no pé, cantaram muito. Destaque também para a ala 19, que trouxe cartazes pedindo fim ao trabalho infantil, racismo, feminicídio, a homofobia e diversos outros desrespeitos e preconceitos. A ala 21, que representa a comunidade LGBTQUIA+, levantou o astral do ensaio de rua com muita alegria, canto, samba no pé e dando um recado importante contra a LGBTfobia.

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Samba-Enredo

Como o próprio intérprete disse, o samba foi cuidado em cada detalhe para ser ‘gostoso’ de ouvir e apresentou um ótimo rendimento. O chão da escola, mais uma vez, se mostrou presente e cantou muito ao longo da avenida. A rainha de bateria, Viviane Araujo, demonstrou um samba no pé com muita sincronia com o carro de som e bateria. O astral do intérprete Emerson Dias contribuiu muito para o sucesso do ensaio.

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Outros destaques

Destaque para os ritmistas da “Furiosa”, que demonstraram muito entrosamento com o carro de som e a rainha Viviane Araújo, que realizou coreografias acompanhando a bateria.

“A galera está meio eufórica ainda por conta do (ensaio na Sapucaí) domingo. Foi tudo perfeito. A bateria veio perfeita, o samba funcionou. Agora a galera está eufórica esperando o dia do desfile. Daqui pra frente é só sucesso. Sempre tem aquele ‘detalhezinho’, a gente é muito perfeccionista. Mas, a bateria tá pronta já. Sentimos a energia de como vamos vir no dia do desfile. É só acertar mais uns detalhes mínimos que a gente acha coisa pessoal de perfeccionista”, disse o mestre de bateria Gustavo.

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“O que a gente apresentou, é o que a gente vai fazer no dia do desfile. Hoje já estamos com a bateria menor, os instrumentos do desfiles já estão sendo preparados e estamos dividindo a bateria entre esses últimos ensaios. É um ensaio sério mas, também, é mais recreativo pra galera continuar se soltando. A gente está na beira do carnaval, isso é mais concentração mesmo pra estar junto da galera. É isso, só esperar o carnaval agora”, completou o mestre Guilherme.

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Também ficou em evidência o casal de mestre-sala e porta-bandeira dos Aprendizes do Salgueiro, Gabriel Alves e Thaissa Soares, que conquistaram o público com a conexão entre os dois e simpatia.

Sabrina Sato elogia rainhas da comunidade e diz que carnaval é a festa da diversidade

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Sabrina Sato, rainha de bateria da Vila Isabel, está animada com o Carnaval 2023 e ansiosa para vestir a fantasia projetada pelo carnavalesco Paulo Barros. A artista contou ainda que está muito feliz pelo retorno dele para escola e que o enredo sobre os festejos veio na hora certa.

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Foto: Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO

“A Vila tem um histórico de fantasias detalhadas, bem feitas, bem elaboradas e o Paulo respeita tudo isso também. Essa volta dele eu acho que vai ser bem legal, bem interessante, é o momento bom para essa união, a gente está vindo de uma história de querer essa festa, de querer comemorar, vai ser lindo”, pontua Sabrina.

Mesmo não sendo da comunidade, Sabrina é a cara da Vila Isabel, a apresentadora caiu nas graças da torcida desde que chegou na escola. Ela diz que aprende diariamente com as rainhas oriundas da comunidade, como é o caso de Evelyn Bastos, da Mangueira e Mayara Lima, do Paraíso do Tuiuti. A artista aproveitou para elogiar as rainhas, destacar a importância da representatividade no carnaval e dizer que cada rainha é única.

“Eu sou apaixonada por elas, eu bato palmas, converso com a Mayara pelo WhatsApp, com Evelyn também, a gente se fala direto, e a Mayara antes de ser eu já falava com ela porque já era fã. É muito bom vê-la ocupando esse posto. O que é mais importante no carnaval é a diversidade, é você ter representatividade, é saber que cada uma é única, a nossa união e o respeito que temos uma pela outra que fazem a diferença, se for olhar não tem ninguém parecido com ninguém, isso é muito único no nosso carnaval e é só o Brasil que proporciona isso. Eu aprendo muito com a Evelyn, ela dá uma aula não só sobre samba no pé, ela é uma mulher completa, fala sobre o poder feminino, sobre o social e passa isso para todos que acompanham o trabalho dela”, destaca Sabrina.

Série ‘Barracões’: Porto da Pedra traz cultura indígena e mensagem política usando Júlio Verne como condutor

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Há 10 anos na Série Ouro, a Unidos do Porto da Pedra vai brigar para voltar ao Grupo Especial com o enredo “A Invenção da Amazônia” desenvolvido pelo carnavalesco Mauro Quintaes. Ele está de volta ao carnaval carioca depois de passar cinco anos no paulista, onde passou por Peruche, Dragões da Real e Império da Casa Verde.

Neste ano, a escola de São Gonçalo vai apresentar um desfile inspirado no livro de Júlio Verne chamado “A jangada”, de 1881. O livro é ambientado na Amazônia brasileira e a jornada feita pelos protagonistas apresenta com uma riqueza de detalhes a cultura amazônica. A partir da ficção, Mauro Quintaes elaborou um enredo que vai do ficcional ao político, do misticismo à conscientização.

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Fotos: Matheus Vinícius/Site CARNAVALESCO

“O que me impressionou foi o Júlio Verne, um escritor do século XIX, conhecer a geografia e a cultura do povo amazonense e da Amazônia como um todo. O que me veio à cabeça? Ele imaginou e inventou uma Amazônia. A partir desse mote, eu joguei para o Diego Araújo, historiador e pesquisador, e ele desenvolveu esse enredo tendo como alavanca a figura do Júlio Verne. Foi uma maneira de encaixar uma figura que é muito contemplada em termos de futuro e de estética e amarrar aos povos amazônicos”, explicou o carnavalesco.

A partir da curiosidade de Quintaes e da pesquisa de Diego Araújo, o enredo foi apresentado ao presidente de honra da agremiação, Fábio Montibelo, que já conhecia a história homenageada. O livro do francês traça um caminho do Peru até Belém, do Pará.

Para a história contada na Avenida, Mauro colocou Verne e seus personagens para encontrar personalidades contemporâneas. Entre os três escolhidos está a escritora Zeneida Lima, responsável por dissertar sobre os Caruanas em “O mundo místico dos Caruanas da Ilha de Marajó”, que rendeu um enredo para a Beija-Flor em 1998. A segunda personagem que o autor encontra é a pajé Baku, indígena sateré-mawé, única mulher a assumir a liderança da sua tribo. E, por último, Júlio Verne conhece Tonzinho Saunier, cronista, poeta e historiador de Parintins, que representou os povos ribeirinhos.

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“Como tem três carros, eu escolhi três personagens da Amazônia. A gente monta essa viagem até o Júlio Verne e seus parceiros chegarem a essa Amazônia folclórica, dos bois, dos ritos, dos personagens”, conta Quintaes.

A proposta é ir além de um desfile plasticamente bonito. Mauro quer que o público veja na Sapucaí a Porto da Pedra informativa e política, já que falar da Amazônia na atualidade envolve diversos aspectos territoriais e ambientais. No terceiro carro, haverá homenagens às pessoas que batalharam e batalham pela preservação do meio ambiente e da cultura indígena.

“Eu tenho que ter um grito político no último carro, principalmente agora. Eu trago as figuras da Irmã Dorothy, Chico Mendes, Dom Phillips e Bruno Pereira. Eles vão estar em evidência. Nas laterais do carro, eu trabalho com imagens políticas indígenas. A escola está fazendo um esforço para trazer lideranças indígenas, lideranças politicamente ligadas à cultura indígena e ao conceito humanitário dos povos indígenas amazonenses. Esse vai ser nosso carro político. É a resposta que a Porto da Pedra tem a obrigação de dar e eu, enquanto carnavalesco, não posso me omitir”.

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Irmã Dorothy, Chico Mendes, Dom Phillips e Bruno Pereira foram assassinados por serem ambientalistas relevantes na luta contra a exploração ambiental e genocídio indígena. Os compositores do samba da Porto da Pedra referenciam Bruno Pereira ao colocar no seu refrão um cântico que o ativista entoou em um dos seus últimos registros antes da sua morte: “Warrãna-rarae, Warãna-rarae. Mari-nawa-kenadêe”.

“Transformar esse canto no refrão foi maravilhoso. No primeiro momento as pessoas recuaram um pouco porque pode ser difícil de cantar. E, hoje, nós vemos que foi muito certo ter isso no samba, porque no ensaio a comunidade canta de uma maneira absurda. Você sente uma energia diferente na escola”, relatou Mauro.

Liberdade artística

A cobrança dentro da Porto da Pedra é fazer o melhor. A agremiação, nos últimos anos, tem estado entre as primeiras colocadas da Série Ouro, mas não tem conseguido o passaporte para o Grupo Especial. Quintaes conta com a fluidez e a liberdade para construir seu Carnaval nesta etapa da sua carreira, aspectos que são concedidos a ele para elaborar um carnaval diferenciado para a vermelho e branco.

“A cobrança é ‘vamos fazer o melhor’, ‘vamos fazer o mais bonito’, ‘vamos fazer o diferente’. Se olhar os carros, dá para ver que é bem diferente do carnaval anterior. Talvez esteja bem diferente das escolas do próprio grupo pela dificuldade financeira. Eu estou aqui no barracão todos os dias, inclusive nos domingos à tarde. Interajo com todo processo criativo do barracão. Estou muito à vontade”, comentou Mauro.

Com o apoio da escola e da Prefeitura de São Gonçalo, o carnavalesco está construindo seu carnaval do zero. Esculturas e estruturas das alegorias foram feitas para esse desfile, em vez de reaproveitar produções já existentes como outras escolas costumam fazer.

“Evidente que eu na figura do carnavalesco e entendo a Série Ouro como eu entendo, eu não vou querer fazer um carnaval com despesas absurdas. Eu faço sempre ‘das quatro linhas’ da escola financeiramente”, disse Mauro Quintaes.

Um dos trunfos do desfile será a plástica empregada nas fantasias e alegorias. Saindo da estética gigantesca de São Paulo, o carnavalesco busca dessa vez criar cenários ao longo do Sambódromo.

“[Esse desfile] é como se fosse cartão de visita. Eu não faço carro alegórico de galãozinho e de pingentes pequeninhos. Eu faço grandes cenários. Meu foco é sempre uma cenografia. Eu trabalho luz e forma como se fosse um cenários. Então eu tenho quatro cenários”, explica Mauro.

Com o enredo tem também um viés de conscientização, a criação fez a escolha de não usar penas verdadeiras na maioria dos componentes. Só usarão penas reais de faisão as musas e o casal de mestre-sala e porta-bandeira.

Volta para o Rio

Após passar três carnavais na Unidos da Tijuca (entre 2015 e 2017), Mauro Quintaes dedicou cinco anos da sua carreira exclusivamente ao Anhembi. Seu melhor resultado em São Paulo foi o vice-campeonato pela Dragões da Real com o enredo “A invenção do tempo. Uma odisseia em 65 minutos”. Em 2023, ele volta para a Porto da Pedra, que já foi sua casa e onde teve bons resultados, por exemplo, a classificação para o Grupo Especial em 1995. A vinda para o Rio de Janeiro ocorreu quando ele decidiu parar a carreira de carnavalesco.

“Nesses meus cinco anos de São Paulo, eu tive momentos muito bons e momentos muito ruins. Eu estava muito sozinho, tinha acabado de sair de uma COVID depois de 16 dias na UTI e estava muito debilitado. Eu resolvi parar. Falei: ‘Não vou fazer mais. Vou para o Rio, cuidar da minha vida e do meu filho. Vou fazer outras atividades paralelas ao Carnaval’. Minha ideia era não fazer mais barracão. No entanto, eu recebo uma ligação do presidente, já com as malas prontas. Era o Fábio me fazendo o convite”, conta o carnavalesco.

Entre 1995 e 1998, enquanto carnavalesco iniciante, Mauro começa a ganhar reconhecimento pelo esforço empreendido na Porto da Pedra. O novo chamado do presidente Fábio lhe pareceu um sinal de que haveria algo a mais a ser feito pelo Tigre. Nesse momento, ele está em uma fase feliz e prazerosa no trabalho rodeado de amigos.

“Eu começo aqui, minha carreira decola a partir da Porto da Pedra. Eu faço Caprichosos de Pilares, depois faço Porto da Pedra, vou para o Especial e faço o ‘Um Carnaval dos Carnavais’. Faço os ‘loucos’, a escola vem em quinto lugar e toma aquela paulada com ‘os ladrões’. Realmente foi enredo fora de época, hoje talvez funcionasse melhor. E aí eu parto para Salgueiro, Viradouro, Mocidade… A história da Porto da Pedra se confunde um pouco com a minha história. A escola estava surgindo e eu também estava surgindo. Se eu começo aqui, quem sabe eu não termino aqui também?”, disse o artista.

Confortável com a volta ao carnaval carioca, Quintaes pretende fazer um desfile mais alegre e com menos rigor, como é exigido na Terra da Garoa. Ele quer terminar sua carreira no Rio de Janeiro, prezando pela liberdade criativa.

“São Paulo é um universo completamente diferente do Rio. Aqui eu posso arriscar materiais, posso inventar. Lá existe um rigor de material por conta do tempo que o carro fica exposto. Aqui no Rio, eu posso usar materiais mais à vontade, tem um leque de opções muito maior. A questão das dimensões altera muito. Lá eu cheguei a fazer carros de 18 metros de altura com 22 de comprimento e isso compromete a estética. Eu trago de São Paulo uma visão de acabamento diferenciada, mas, principalmente, eu trago a vontade de não fazer muita coisa que eu fazia em São Paulo. Quero fazer um carnaval mais carioca, mais livre plasticamente falando, um carnaval que eu posso trabalhar melhor a luz porque em São Paulo é muito iluminado, que eu posso mover as alas. O carnaval do Rio é um carnaval mais molecão. A Marquês de Sapucaí é muito mais alegre que o Anhembi. No mais, eu tenho muito carinho pelas escolas que eu passei em São Paulo, em todas eu ganhei alguma coisa”, declarou o carnavalesco.

Conheça o desfile da Porto da Pedra

O Tigre de São Gonçalo será a quinta escola a desfilar no sábado de carnaval da Série Ouro. Durante sua exibição na Marquês de Sapucaí, vão passar três carros, um tripé e 19 alas contando essa viagem fictícia de Júlio Verne pelo Rio Amazonas em sua jangada futurista. Mauro Quintaes descreveu a estrutura:

Setor 1: “A abertura é bem indígena, com as baianas em vermelho e preto. O carro abre-alas é a jangada que mistura essa mecânica do Julio Verne com a coisa rústica do ribeirinho, da construção da jangada, que mistura o passado e o presente. Tem a figura do tigre. Não tem tigre na Amazônia, mas tem na Porto da Pedra”.

Setor 2: “Quando eu vou para os povos que fazem fronteira com o [rio] Solimões, na parte de cima da Amazônia, eu fiz a escolha, em termo de alegoria, dos Incas, que me deu um retorno mais plástico. Eu trabalho um templo Inca. Eu trouxe um escultor específico de São Paulo, o Zico”.

Setor 3: “Depois vai para a parte do folclore. Eu falo dos bois, da matinta pereira, dos botos. São os personagens do imaginário amazonense. Vem um pequeno tripé com alguns personagens”.

Setor 4: “Fecha com uma grande celebração. É uma celebração política, cultural, regional. É um abraço do povo do Rio de Janeiro a essa cultura indígena”.

Série Barracões SP: África, Brasil e música! Império de Casa Verde projeta uma nova identidade de desfile

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Dando sequência à Série Barracões São Paulo, o site CARNAVALESCO visitou o barracão do Império de Casa Verde e conheceu o projeto que a agremiação desenvolveu para 2023. O tema do ‘Tigre’ para o próximo desfile se trata de “Império dos Tambores – Um Brasil Afro-Musical”. É um enredo afro, mas que será apresentado apenas para o lado da musicalidade africana. A equipe conversou com o carnavalesco Leandro Barboza e o enredista Tiago Freitas, que abrangeram o enredo.

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Fotos: Gustavo Lima/Site CARNAVALESCO

“A gente começa com a comissão de frente trabalhando na questão da ancestralidade feminina. É um enredo que trabalha muito na feminilidade de uma forma bem transversal, mas o nosso foco é falar da musicalidade”, explicou o enredista.

Como surgiu

A escola não desenvolve um enredo afro desde 2003, quando subiu ao Grupo Especial do carnaval paulistano. Porém, o artista Leandro Barboza sugeriu o enredo e a diretoria acatou a ideia. Sendo assim, a entidade vem colhendo frutos, como um dos melhores sambas do ano. “Esse enredo era um sonho meu de falar sobre a música. Depois ele foi formando uma nova cara. Chegou um momento em que eu vi que estava saindo muito e foi que apareceu o Tiago. Quando caiu na mão dele, ele sugeriu o nome. A ideia era realmente falar sobre a música. A escola abraçou e, no primeiro momento, a gente já viu brilho nos olhos da comunidade e isso foi bem legal. Principalmente o presidente”, declarou.

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Pesquisa do enredo

O tema afro, como dito pelos profissionais, será diferente. Abordará totalmente a música. Não vamos ver algo como o habitual. Porém, a história foi inspirada inicialmente em uma baiana da escola. “O ponto de partida, quando eu conversava com o Leandro, eu queria saber qual era a pessoa mais velha da escola. Ele de prontidão falou que era a baiana Ba. A narrativa nasce dela. Ela tem uma noite de sonho em transe e desenha todas as narrativas do enredo. A gente focou nessa caminhada de trabalhar a questão da identidade da Casa Verde. Trabalhar a emoção de um componente que queria um enredo afro há um tempo. A gente trabalhou essa África mais musical e alegre. Uma pesquisa muito rica no sentido em que a África pode trazer pra gente. O carnavalesco foi delimitando onde a gente poderia seguir e a gente já deu o nome das alas e dos carros. Foi um trabalho do que ele queria na avenida. A gente foi trabalhando e enriquecendo nosso trabalho e conjunto”, disse o enredista Tiago.

Novos relatos e o ótimo recebimento

Sempre é importante receber testemunhos do que se passa dentro da comunidade. Segundo o carnavalesco, que está presente nos ensaios, o ‘feedback’ tem sido positivo. “Esse enredo me proporcionou estreitar essa relação que eu tenho com os componentes. Como eu era muito presente dentro do barracão, eu não estava muito presente dentro da quadra. Nesse período de 2016 até o último carnaval, eu não participava tanto. Eu fui participar ano passado, quando eu assumi como carnavalesco. Eu tinha essa função de tirar o papel dos outros carnavalescos que estavam aqui, como do Jorge Freitas, Flávio Campello e do projeto também que era meu e do Mauro Quintaes. A parte de execução eu que coloco tudo em prática. Por isso essa dedicação toda com a escola me distanciou um pouco da quadra. Com essa história desse enredo e eu estando mais presente, cada dia é uma surpresa para o componente. Eu tenho escutado e tido contato”, contou.

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Nova assinatura solo

Leandro chegou no Império de Casa Verde em 2016 com o carnavalesco Jorge Freitas. Porém, ele tinha a missão de cuidar apenas do barracão e foi assim até o ano de 2020. No carnaval de 2022, Mauro Quintaes chegou e finalmente o Leandro assinou um projeto em conjunto. Para 2023, Quintaes deixou a agremiação e o atual artista está assinando um tema solo pela primeira vez. “É uma experiência nova. Eu já estava preparado para isso há muito tempo. Claro que ter um projeto 100% na sua mão te dá uma liberdade maior do que você pensou, amarrou e defendeu. Tem um controle maior. Ano passado eu tinha, mas eu fazia questão de tocar junto com o Mauro”, disse.

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Famosa plástica do Império

O ‘Tigre Guerreiro’ é famoso por ser a escola da plástica impecável e das alegorias gigantes. O luxo predomina nos desfiles e a agremiação faz questão disso. O famoso tigre, que é o símbolo, é sempre aguardado no desfile. Resta saber como ele virá no próximo carnaval. “A gente não vai deixar a desejar em alegorias. Acho que elas vêm gigantescas. Eu acho que com um bom acabamento, uma nova plástica também na parte das fantasias, mas não deixando de lado o luxo que é característica da escola. O presidente sempre quer isso. o tigre vem diferente. A gente deu uma nova roupagem para ele, vem cheio de significados e representações. Tanto no abre-alas quanto no último carro”, explicou.

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Conheça o desfile

Setor 1: “A gente traz a majestosa África ancestral. Uma África enriquecida”.

Setor 2: “Navio dos ritmos e do torpor. A questão dos ritmos, das alegrias e da invasão cultural da África até o Brasil”.

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Setor 3: “A África nas periferias do Brasil. Quando ela chega e se manifesta em várias identidades em São Paulo, no Rio, na Bahia, no Maranhão, no Pará, enfim, a gente vai trabalhar uma série de aspectos nessa questão cultural”.

Setor 4: “É o Império dos tambores, onde a gente chega no quilombo da Casa Verde nessa viagem, que nasceu na África e chegou na Casa Verde com uma das nossas fundadoras, a griô Bernadete que vai ser coroada na avenida. O quarto setor trabalha a identidade do território mesmo da Casa Verde”.

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Ficha técnica
Quatro alegorias
Um tripé
Um elemento alegórico de comissão de frente
2400 componentes
Diretor de carnaval: Tiguês
Carnavalesco: Leandro Barboza
Enredista: Tiago Freitas

Cordão da Bola Preta é o convidado deste domingo da Feira das Yabás

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Carnaval é a época que podemos reverter posições na pirâmide social, onde o súdito pode virar rei. Assim, nesse clima, a Feira das Yabás de fevereiro abre o carnaval suburbano. A roda de samba de Marquinhos de Oswaldo Cruz fará um passeio nos antigos sambas de terreiro e sambas-enredo. A Feiras das Yabás recebe como convidado especial a banda do Cordão do Bola Preta. O evento acontece neste domingo, a partir das 13h, na Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio de Janeiro.

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Foto Divulgação/Cordão da Bola Preta

Além da boa música, o público ainda aproveita para experimentar a culinária típica do subúrbio carioca e pratos de origem africana nas 16 barracas expositoras, sob o comando das matriarcas das famílias mais importantes e tradicionais da região de Oswaldo Cruz: um imenso restaurante a céu aberto. Entre as muitas opções, estão: mocotó, Angu a Baiana, feijoada, cozido, tripa lombeira entre outras iguarias do mundo do samba.

Serviço:
FEIRA DAS YABÁS – CORDÃO DA BOLA PRETA
Roda de Samba de Marquinhos de Oswaldo Cruz recebe Cordão da Bola Preta
Quando: Domingo, 12 fevereiro de 2023.
Hora: a partir das 13h.
Local: Praça Paulo da Portela – Estrada do Portela – Oswaldo Cruz
Evento gratuito.
Mais informações: 21 – 97036-4543
Classificação: Livre

Delacruz e Ferrugem abrem nesta sexta temporada de shows no Terreirão do Samba

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Para o folião que estiver no Rio, não faltarão opções para curtir o período de pré-Carnaval e os dias oficiais da festa, numa programação que vai além dos blocos e tradicionais desfiles na Marquês de Sapucaí, o Sambódromo. Na celebração mais democrática da cidade, as atenções também estarão voltadas para o Terreirão do Samba. Os ingressos são para lá de atraentes – R$ 20 – e podem ser adquiridos no próprio local, a partir de quinta-feira.

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Foto: Divulgação/Riotur

O objetivo é privilegiar encontros entre artistas de diferentes gêneros e gerações. Samba e pagode continuam como protagonistas, mas o espaço também contemplará segmentos que dão ao público a oportunidade de assistir ritmos populares e para todos os gostos.

Com curadoria do presidente da Riotur, Ronnie Aguiar, a estreia acontece nesta sexta-feira, 10 de fevereiro, às 20h, num show que reúne o cantor de pagode Ferrugem e o rapper Delacruz. Já no sábado, dia 11, Diego Senna, grupo Coisa Séria, Suel, Caio Lucas e MC Maneirinho comandam a festa.

“Só o fato de estarmos nos palcos de novo, na estrada novamente, é muito especial. O Terreirão é um espaço de muito carinho, onde vai o nosso público. São pagodeiros de verdade, gente dos subúrbios do Rio, todo mundo vai em peso. Em todos os anos foi quente, a galera sempre canta junto e dessa vez vai ser sensacional de novo, eu tenho certeza. Estou super ansioso”, diz Ferrugem.

O rapper Delacruz usa a palavra responsabilidade ao comentar a sua estreia no Terreirão, “um lugar famoso, conceituado, que eu admiro”:

“E essa mistura de samba com rap, sendo bem feita, com carinho, com responsabilidade, com cuidado com a música, com amor, com certeza dá liga. Para resumir, são dois gêneros que são filhos da mesma mãe. Só tem que ter amor. E isso, modéstia à parte, a gente sabe fazer, porque ama muito o que faz. Estou ansioso por essa apresentação e espero que o público goste”.

Os demais shows no Terreirão já têm datas: serão nos dias 17 (sexta de Carnaval), 18 (sábado de Carnaval), 19 (domingo de Carnaval), 20 (segunda de Carnaval) e 21 (terça-feira de Carnaval). A última sequência de apresentações será na sexta-feira antes do Desfile das Campeãs (dia 24) e no sábado (dia 25).

O esquema de infraestrutura montado especialmente para os shows inclui a instalação de dois postos médicos, com uma ambulância em cada posto; 28 quiosques de venda de bebidas e comidas e 65 banheiros químicos. A segurança externa será feita pela Polícia Militar.

Criado para enaltecer e preservar a história local, fundamental da cultura popular brasileira, o espaço ganhou o nome de Terreirão do Samba Nelson Sargento, em julho de 2021, em homenagem ao compositor Nelson Sargento, que foi vítima da Covid-19 naquele ano.

Serviço:
Endereço: Rua Benedito Hipólito, 66 – Centro
Programação:
Sexta-feira 10/02: Ferrugem e DelaCruz
Sábado 11/02: Suel, Caio Luccas e MC Maneirinho
Horário: A partir das 20h
Preço: R$ 20

Série Barracões: Em formato de crônica, Grande Rio vai homenagear Zeca Pagodinho valorizando o subúrbio e a Baixada

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Foram 34 anos de espera até que a Grande Rio conquistasse o primeiro título. Campeã do carnaval de 2022, com o enredo “Fala Majeté! Sete Chaves de Exu”, a agremiação manteve sua equipe vitoriosa sonhando em não parar na primeira conquista e estabelecer uma dinastia da escola de Duque de Caxias. Leonardo Bora e Gabriel Haddad, carnavalescos muito festejados tanto no vice-campeonato de 2020 e no título de 2022, vão homenagear um ícone do samba e da música brasileira em geral, mantendo a pegada de enredos culturais, mas saindo um pouco da religiosidade, na verdade, nem tanto assim como será fácil de perceber nesta matéria.

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Fotos: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

O enredo de grande título “Ô Zeca, o pagode onde é que é? Andei descalço, carroça e trem, procurando por Xerém, para te ver, para te abraçar, para beber e batucar!” vai buscar trazer mais que a vida e a obra de Zeca Pagodinho, mas em formato de crônica encontrar pelo subúrbio carioca e pela Baixada Fluminense lugares que fazem sentido tanto para a vida pessoal do artista quanto para sua obra. Zeca é vizinho da Grande Rio e já havia sido lembrado no carnaval de 2007 quando a escola fez um carnaval sobre o município de Duque de Caxias, hoje lugar de moradia e refúgio deste grande sambista. O carnavalesco Leonardo Bora explica que a dupla de artistas decidiu por essa abordagem do enredo a partir de conversas com Zeca e de um estudo mais detalhado de sua obra musical.

“O caminho narrativo do enredo veio da própria obra do Zeca. A gente encontrou esse fio depois de mergulhar em sua obra e de trocar com o próprio Zeca, entender esse estilo de vida que se confunde com a obra e que é o que torna ele um artista tão popular, tão próximo do povo brasileiro. É um enredo em formato de crônica porque a obra musical do Zeca é muito cronística, no sentido de que ela fala muito de lugares, de passeios por espaços da cidade do Rio de janeiro, principalmente dos subúrbios, no plural destacando a diversidade dos subúrbios do Rio de janeiro, a Baixada Fluminense, o samba, todos os aspectos da vida social e cultural do samba, do pagode, por extensão a cultura carnavalesca das escolas de samba. Tudo isso foi levando a gente por um caminho que não guiava o nosso olhar para uma homenagem monumental, para uma coisa laudatória, muito linear. A obra do Zeca é bastante diversa, imprevisível, ele tem essa característica no dia a dia, muito inquieto. Acho que o enredo precisava ter essas características. Ao longo das conversas, juntamente com o Gabriel, Vinícius Natal, a gente foi encontrando esse caminho”, explica o carnavalesco.

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Leonardo Bora assina o carnaval com Gabriel Haddad

Leonardo Bora afirma que ao estudar a vida e principalmente a obra de Zeca, a dupla percebeu uma similaridade com outros grandes artistas do gênero tanto no estilo de vida quanto nos assuntos abordados pelas músicas.

“Nos arquivos da família Pagodinho a gente percebeu o quanto o Zeca era comparado a Noel Rosa e a João do Rio, ainda na década de 1980, início da carreira dele. Ele era descrito como o Noel Rosa do Irajá, porque havia pontos de contato muito explícitos entre a obra desses dois sambistas que passearam e cantaram o Rio de Janeiro em décadas tão diferentes. Ouvindo as músicas e viajando nas mais de 400 músicas dele, entre gravações, composições, parcerias, uma música em específico nos chamou a atenção “Zeca cadê você”, parceria do artista com o Jorge Aragão, que fala dessa procura muito jocosa e brincalhona, quase um repente, em busca do paradeiro desse artista que transita pelo Rio de Janeiro e que é encontrado em Xerém na Baixada Fluminense. Daí se desenrolou esse enredo, uma proposta nossa para a escola, que tem essa ligação com o chão caxiense, com a comunidade da escola”, revelou Leonardo Bora.

O carnavalesco também define que o desfile vai passear muito pelo subúrbio carioca e pela Baixa Fluminense, porque Zeca não era um artista muito dado a falar do Rio de Janeiro que é vendido lá para fora, para os turistas, a cidade das praias e da Zona Sul.

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“O Zeca transforma Xerém em uma espécie de cenário mítico para o samba, um quintal coletivo e musical. A gente percebeu que estava tudo conectado e nos deixamos levar por esse passeio que não é aquele Rio de Janeiro do cartão postal a beira mar. É o Rio do botequim, da gafieira, da birosca, da cadeira na calçada, do chão de caquinho, do engradado de cerveja, da pipa, do saquinho de Cosme e Damião, da devoção a São Jorge em Quintino, dos quintais, da roda de samba. É esse Rio com toda a sua multiplicidade, com todo o seu colorido explosivo que vai aparecer na Avenida”.

Enredo em formato de crônica e religiosidade de Zeca Pagodinho

Durante o período de pesquisa, Gabriel e Léo mergulharam no universo de Zeca Pagodinho e, como dito acima, perceberam que a história não deveria ser contada de uma forma bibliográfica clássica. Zeca, além de um grande artista, é uma pessoa que oferece muitas histórias e que nestes seus pouco mais de 60 anos transitou por muitos lugares que estão enraizados na cultura e no cotidiano do carioca, talvez por isso o cantor seja tão festejado pelo chamado “povão” e seja tão representado como alguém que busca levar uma vida mais simples. A dupla de artistas da Grande Rio percebeu que esses aspectos da vida do sambista é que poderiam impulsionar uma grande homenagem ao artista e a tudo que ele valoriza.

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“O que mais nos chamou a atenção como narradores é esse aspecto da crônica. É perceber o Zeca como um cronista. Um artista cuja obra expressa essa geografia musical. É uma obra bastante metalinguística como o próprio samba é enquanto gênero. Ou seja, é uma obra que fala muito do próprio samba. Tem muito esse olhar cronista para as pequenas coisas. E é algo que a gente sente falta para o carnaval. A festa já teve muitos enredos em formato de crônica como “Domingo” da Maria Augusta, pode pensar na obra de Luis Fernando Reis que cantou o subúrbio carioca pela Caprichosos de Pilares. A gente acha que foi uma oportunidade de fazer essa brincadeira”, esclarece Leonardo Bora.

Outro aspecto que também encantou a dupla foi a presença da religiosidade na vida de Zeca Pagodinho. Nos últimos dois carnavais a luta contra a intolerância religiosa e busca pelo respeito principalmente às religiões de matriz africana estiveram muito presentes e foram temáticas centrais no trabalho de Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Neste desfile, contando a vida de Zeca, a dupla poderá mais uma vez falar sobre a fé.

“Também nos chama muito atenção a presença da religiosidade popular na obra do Zeca. É um volume muito grande. É um aspecto que nos viemos explorando nos últimos desfiles, olhar para obra do Zeca nos levou para um outro olhar para esse grande tema da religiosidade que engloba a umbanda, candomblé, e isso também vai aparecer no desfile. Na abertura do desfile temos a Alvorada de São Jorge, e no segundo setor temos como norte a música ‘minha fé’. A Grande Rio procura Zeca por terreiros,capelas, oratórios, igrejinhas, entendendo a dimensão dessa religiosidade popular sincrética do Zeca Pagodinho”, explica Bora.

Gabriel e Léo seguem na busca por linguagens diferentes e experimentações 

Após dois grandes desfiles na Grande Rio e outros tantos elogiados no Grupo de Acesso, Leonardo Bora e Gabriel Haddad estão conquistando um espaço no carnaval carioca entre os grandes artistas da folia e vão ano a ano apresentando um estilo bem próprio de criação carnavalesca. A dupla não pensa em parar por aí, o enredo sobre Zeca Pagodinho é a oportunidade de mostrarem mais uma vez que tem um repertório amplo e que não se deixam acomodar.

“A busca por linguagens diferentes, essa inquietação criativa, é algo que nos anima demais enquanto artistas, eu e o Gabriel. A gente sempre tenta buscar caminhos pouco usuais, experimentais, brincar, ainda mais nesse ano que a gente está falando de samba de roda, de quintal, de brincadeira, a obra do Zeca também tem um aspecto muito voltado para a infância, não apenas devido a devoção a Cosme e Damião, mas por uma série de músicas que cantam as memórias infantis. Esse experimento, brincar com o fazer carnaval, é muito presente no nosso trabalho”, aponta Leonardo.

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Em 2022, era possível perceber no enredo sobre Exu como cada setor da escola tinha as suas particularidades, até mesmo quase um estilo próprio sem comprometer a unidade narrativa do enredo. Para 2023, Gabriel e Leonardo devem trazer esse efeito de novo até por conta da diversidade temática presente na vida e na obra de Zeca Pagodinho.

“Esse ano a gente foi guiado pela musicalidade do Zeca para uma visualidade muito diferente, eclética. São cores mais saturadas, é uma miscelânea estilística dentro de um mesmo desfile. Algo que a gente já explorou principalmente em ‘Exu’, nosso último carnaval, que tinha sete setores com propostas estéticas bem diferentes. A gente continua nesse caminho da experimentação. E nesse ano também olhando bastante para a linguagem carnavalesca já que a obra do Zeca fala muito do fazer samba e do fazer carnaval. Exploramos mais matérias que mais rapidamente são associados à linguagem do carnaval das escolas de samba”, define Leonardo Bora.

Dupla confia em grande conjunto artístico 

O desfile de 2022 da Grande Rio foi fundamentado em uma grande apresentação estética e de um grande desenvolvimento narrativo do enredo por parte da dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Mas além disso, o samba funcionou muito bem, a bateria foi aclamada e o primeiro casal fizeram apresentações irretocáveis, tudo bem fundamentado em um canto homogêneo e intenso da comunidade de Caxias, sem falar na comissão de frente que trouxe talvez a grande imagem do carnaval, não é a toa que um de seus personagens estampa a capa do CD deste ano. Essa eficiência coletiva que a Grande Rio apresentou em 2022 é o que Leonardo Bora espera que se repita em 2023, e esteja acima de qualquer coisa que os carnavalescos possam produzir na parte estética.

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“Eu sempre espero que o grande trunfo de um desfile de escola de samba seja o samba. É aquilo que a Rosa Magalhães sempre fala, é escola de samba. Não é escola de visual. Nós carnavalescos damos um contorno para algo que é muito mais complexo, vivo e potente que é o samba, o chão. Espero que a bateria seja novamente um trunfo, a gente tem uma bateria espetacular comandada pelo Fafá. A gente espera que o samba interpretado pelo Evandro aconteça mais uma vez. Um samba com características bastante diferentes do Exu. A gente espera que a obra embale um desfile muito alegre e solto. A comissão de frente vem desenvolvendo um trabalho bastante regular, que é uma característica da trajetória artística do Hélio e da Beth Bejani. O casal de mestre-sala e porta-bandeira que está voando, Daniel e Taciana. Harmonia, evolução, enfim. O todo, o conjunto da escola, esse quesito que não existe mais, essa ideia de uma escola de samba como corpo coletivo, a gente espera que isso funcione bastante, seja muito potente, alegre, vivo e se a nossa contribuição que é o enredo, as fantasias, alegorias, for importante para embalar isso, que bom. A gente trabalha dia e noite para isso”.

Em relação ao título de 2022, que acabou com o jejum da escola se tornando a tão esperada primeira conquista da Tricolor de Caxias, é fácil imaginar que ela possa levar a dois caminhos neste carnaval imediatamente posterior: uma sensação de leveza por não existir mais a pressão pelo primeiro título, ou uma sensação de pressão para se manter no topo após dois grandes desfiles. Mas Leonardo Bora garante que nem uma coisa, nem outra assombram o cotidiano de trabalho da dupla de artistas da Grande Rio.

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“Responsabilidade sempre existe. Todos nós carnavalescos e carnavalescas temos uma posição muito delicada em qualquer agremiação, é uma disputa, todas querem não apenas ganhar como apresentar um grande espetáculo. Sempre há cobrança. Isso em qualquer grupo e a gente tem experiência nisso, a gente começou no último grupo no carnaval da Intendente Magalhães. Agora, a forma como a gente lida com essa cobrança, é a chave dessa pergunta. No caso do título da Grande Rio, a gente entendeu automaticamente que não deveria cair na armadilha de tentar comparar um desfile com o outro. Porque cada desfile tem as suas características, têm os seus caminhos narrativos, texto escrito, samba, na visualidade. A nossa proposta foi brincar, festejar, celebrar, comemorar. É um desfile que a gente espera que seja muito feliz, muito festivo para a escola como estão sendo os ensaios. Como é o samba. Porque a gente precisa dessa dimensão da brincadeira, da festa. Envolve uma liberdade criativa grande. Felizmente eu e o Gabriel trabalhamos em uma escola que nos dá total liberdade criativa. Estamos exercitando essa liberdade com responsabilidade sempre. É um compromisso que a gente tem com essa comunidade de Caxias”, conclui o carnavalesco Leonardo Bora.

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Conheça o desfile da Grande Rio

A Tricolor de Caxias vai levar para a Sapucaí em 2023, cinco alegorias e dois tripés. Em termos de contingente são 28 alas e 3200 componentes. O carnavalesco Leonardo Bora explicou à reportagem do site CARNAVALESCO como estão divididos os setores do desfile em homenagem à Zeca Pagodinho.

Primeiro Setor
“Na abertura do desfile temos a Alvorada de São Jorge, o início deste enredo que é no formato de uma crônica que narra um dia mágico. A Grande Rio procurando o Zeca Pagodinho por lugares do Rio de Janeiro, lugares geográficos e afetivos. E nesse dia mágico podem se misturar o 23 de abril, 27 de setembro, inclusive o dia do desfile da escola. E a Grande Rio foi campeã no 23 de abril, também é um agradecimento a Ogum. Ele é o segundo orixá na Gira de Exu, então está tudo conectado. A gente começa a procurar Zeca na Alvorada de São Jorge, saudando essa religiosidade do homenageado e seu culto a Ogum”.

Segundo Setor
“Tem como norte a música ‘minha fé’. A Grande Rio procura Zeca por terreiros, capelas, oratórios, igrejinhas, entendendo a dimensão dessa religiosidade popular sincrética do Zeca Pagodinho. Umbanda, candomblé, catolicismo popular, tudo se mistura nesse setor que saúda os santos de cabeça do homenageado: Obaluaê, Oxum, presentes na obra dele e a extrema devoção que ele tem por uma infinidade de santos”.

Terceiro Setor
“Fala da faceta infantil da obra de Zeca. Mergulhando nessas memórias e nesses territórios, a gente vislumbra a devoção de Zeca, ainda pensando nos aspectos religiosos, a Cosme e Damião, e ao Irajá da doce infância. O velho Irajá. Zeca que cresceu entre Irajá e Del Castilho buscando saquinhos de doce, brincando em chão de caquinhos, soltando pipa, brincando com pião. Esse é o universo da ‘Patota de Cosme’, um disco muito importante para ele”.

Quarto Setor
“Se chama ‘raízes musicais’ e é a busca desse solo suburbano onde nasceu Zeca Pagodinho. Este artista que passa pelos Bohemios de Irajá, bloco de onde ele herdou o sobrenome artístico, saía na ala do pagodinho, transitando por serestas, e despontando para valer no Cacique de Ramos, no bairro de Olaria, nos arredores da Igreja da Penha onde ele canta ‘camarão que dorme a onda leva’ e dali sai para o estrelato, amadrinhado por Beth Carvalho, gravando um álbum coletivo. E esse setor foca essa musicalidade que embalou o jovem Pagodinho em direção ao sucesso”.

Quinto Setor
“Depois a Grande Rio pega o ônibus, trem, lotação, carona e vai a procura de Zeca por diferentes territórios simbólicos, cantados na música dele no setor intitulado ‘crônicas suburbanas’. Passamos por lugares que ajudam a gente a entender a cultura sambista e a cultura dos subúrbios cariocas. As esquinas, a feira, o campinho de futebol, o botequim, a gafieira, o trem com o vendedor ambulante”.

Sexto Setor
“Já no cair da tarde, início da noite, a Grande Rio toma o rumo da Baixada guiada pela música ‘Sapopemba e maxambomba’ gravado pelo Zeca, entendendo que a Baixada Fluminense pode ser entendida como grande subúrbio, expandida. A Grande Rio vai contando indiretamente a história dos fluxos migratórios que levaram tantas pessoas a morar nesta territorialidade com destaque para Duque de Caxias e Xerém. Inclusive o próprio Zeca que escolhe Xerém para morar no início da década de 1990. A gente passeia pela faceta menos conhecida e menos abordada, porém fascinante, que é o olhar para o samba rural, samba de roda rural, o diálogo com os repentistas, essas memórias nordestinas, de tantos migrantes que se fixaram no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense”.

Sétimo Setor
“Da Jaqueira ao Jaqueirão. No quintal do Zeca que é chamado de Quintal do Jaqueirão, que já se tornou esse espaço tão importante, para a gente pensar o samba e o pagode na contemporaneidade, a Grande Rio recebe todas as escolas de samba para uma grande confraternização, uma homenagem ao Zeca e ao aniversário da coirmã Portela. A Grande Rio que é a mais jovem das escolas do Especial saúda a memória da centenária Portela, a Águia Altaneira que fez ninho na Jaqueira, cantando, no Jaqueirão Pagodinho, em Xerém, a vitória das escolas de samba. A gente entende que ao celebrar o centenário da Portela estaremos celebrando a vitória da cultura sambista, é uma grande festa misturando Madureira e Xerém, e abordando esse aspecto da obra do Zeca que é o cantar das escolas de samba”.

Opinião: Imperatriz chega no Carnaval 2023 muito bem servida nos quesitos de julgamento

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Arlindo Cruz visita o barracão do Império Serrano

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Foto: Pedro Siqueira

Na tarde desta quinta-feira, 9, o Império Serrano recebeu uma visita mais do que especial em seu barracão. Enredo da escola para 2023, o cantor e compositor Arlindo Cruz, trazido por sua família, esteve na Cidade do Samba, proporcionando um momento de muita emoção aos funcionários e dirigentes da escola.

Babi Cruz, esposa de Arlindo, não conteve as lágrimas na visita. Ela revelou que sua primeira percepção sobre o enredo já indicou que o momento seria recheado de situações marcantes.

– Desde o momento que fiquei ciente de que o Arlindo seria o enredo, eu fiquei pensando em alguns momentos. A notícia do anúncio, a visita do Alex de Souza contando a história e o lançamento na quadra foram grandes emoções. E eu já imaginava o momento de trazer o Arlindo aqui para visitar o barracão, ver as alegorias e todos os funcionários que fazem esse carnaval que nós sempre respiramos. Tenho certeza que ele recebeu toda a energia positiva da família imperiana – diz Babi.

Responsável por desenvolver o enredo, o carnavalesco Alex de Souza destacou a importância de receber o grande homenageado no barracão do Reizinho. Para ele, será um desfile extremamente marcante para todos os amantes do carnaval.

– É muito honroso receber a visita de Arlindo Cruz e toda a sua família. Essa visita dele nos traz muita emoção e tenho certeza que será um desfile maravilhoso. Estamos trabalhando para fazer uma grande homenagem, que será inesquecível e muito especial – completa Alex.

O Império Serrano será a primeira escola a desfilar no Grupo Especial, no dia 19 de fevereiro (domingo), na Marquês de Sapucaí, com o enredo “Lugares de Arlindo”.

Especial Barracões SP: Roseira aborda racismo, homenageará personalidades e aposta em trazer luta dos dias atuais

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No segundo ano consecutivo trabalhando na Rosas de Ouro, Paulo Menezes, está em seu terceiro carnaval em São Paulo e cada vez se sente mais adaptado com o trabalho em solo paulista. Para 2023, trouxe o enredo ‘Kindala’,na Rosas de Ouro, e a busca de abordar o racismo, mas com um combo extra que será os dias atuais, como está a luta. A Roseira será a quinta escola a desfilar na sexta-feira, dia 17 de fevereiro.

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Fotos: Fábio Martins/Site CARNAVALESCO

Sete vezes campeã do carnaval, a agremiação da Freguesia do Ó, Zona Norte de São Paulo, venceu pela última vez em 2010. Depois bateu na trave com três vices consecutivos em 2012, 2013 e 2014. Enquanto Paulo Menezes assinou carnavais no Rio de Janeiro, fez parceria com Paulo Barros, e conquistaram o carnaval de 2017 na Portela.

Paulo Menezes em São Paulo

Em 2020, chegou em São Paulo junto com Paulo Barros para assinar o projeto do Gaviões da Fiel, e desde então permaneceu no carnaval paulista. Seguiu para a Rosas de Ouro no início de 2020, mas explodiu a pandemia, carnaval adiado. O enredo de 2022 foi um dos mais premiados, sobre a cura, mas no resultado ficou em 9ª lugar. O carnavalesco Paulo Menezes contou sobre a adaptação ao site CARNAVALESCO.

“Na realidade quando cheguei no Rosas, cheguei em um dia e no dia seguinte começou a pandemia. Então foi um carnaval pensado por causa da pandemia, mas ao mesmo tempo não tinha um conhecimento, não tinha aquela coisa pessoal. Era tudo muito virtual. Então você criar para uma escola, sem conhecê-la presencialmente, para mim não é fácil. Não gosto de fazer um projeto e entregar, gosto de vivenciar esse projeto. Então quando tem essa distância para mim, Paulo, não é bacana. Gosto de estar presente”.

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Na nossa visita ao barracão da Rosas em 2022, Paulo Menezes dizia sobre a adaptação ainda estar acontecendo, explicou e disse como está atualmente: “Ano passado quando falava que ainda estou me adaptando era muito por causa disso, foi um período muito difícil. Primeiro não sabíamos se teria carnaval, não sabia quando seria e o pior, não sabia se estaria vivo no carnaval. Foi muito difícil para todas as escolas, e principalmente para os artistas, pois criar com essa pressão na cabeça não é tão simples. Criação precisa de liberdade, de espaço, então é muito difícil para você criar com essa pressão de não saber o que vai a frente”.

Assim como a conexão com a escola: “Agora estamos em casa, conheço a escola totalmente, é claro que o conhecimento é eterno. Tem que estar sempre conhecendo, mas posso dizer que estou em casa”.

Escolha do enredo

Através de um samba vice-campeão na disputa da Rosas em 2005, que o carnaval de 2023 surgiu. Um dos compositores daquele samba foi Arlindo Cruz, sempre cantado na quadra da agremiação azul, rosa e branco. Um dia eis que o carnavalesco parou, escutou e conectou com um enredo que já vinha sendo arquitetado, deu liga.

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“Já tinha vontade de fazer um enredo com essa temática há um bom tempo. Tinha umas ideias guardadas, mas quando por acaso escutei o samba na quadra, que é o samba que participou da disputa em 2005 para o Carnaval de 2006. E não foi vencedor. Em uma festa ouvi esse samba cantado na quadra e ele me chamou atenção. Pois tinha muitas coincidências daquilo que eu queria falar no meu enredo. Quando passou o carnaval, a gente sentou e discutiu várias opções. Essa era uma delas, e a gente acabou optando por ela”.

Vale ressaltar que ‘Kindala’, no idioma bantu, significa ‘agora’. No logo oficial do enredo, ainda tem um recado: “Que o amanhã não seja só um ontem com um novo nome”.

Cuidado com a temática

Com muito estudo, Paulo Menezes foi através de diversas personalidades negras do carnaval, do samba, e também fora dele. Tem quem será representada em vida, outras serão homenageadas, e também personalidades que representarão nessas homenagens, caso de Karol Conka, Manoel Soares, Fofão, Fernanda Ross, Adriana Lessa, entre outros artistas e atletas que estarão no Anhembi.

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“Não queria que fosse um enredo com olhar de um carnavalesco branco sobre um tema preto. Então o primeiro ponto da pesquisa foi conversar com as pessoas, independente de que camada social ou intelectual que elas pertenciam. O mais importante foi conversar com elas e para sabermos quais eram as prioridades, necessidades, o que seria importante ser tocado. Pois elas foram a fonte maior de pesquisa, daí partimos para pesquisa em livros e principalmente em redes sociais, jornal, televisão. Porque tudo que a gente está falando aconteceu na época que começou a escravidão, e continua hoje em dia. Então é um tema muito atual, não é um fato histórico. É uma história que se perpetua até hoje. Infelizmente ainda é assim”.

Proposta do enredo

Paulo Menezes quer tocar o próprio componente da roseira e trazer um sentimento que talvez seja um pouco peculiar para sua própria escola, mas que simboliza bastante sua ideia em ‘Kindala’.

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“São realizadas diferentes, histórias diferentes, hoje a proposta é que quem esteja desfilando sinta vergonha. Que uns sintam vergonha pelos outros. E outros sintam vergonha, pois estou participando ativamente disso que está acontecendo. Ou então não participo, me calo, não faço nada. São maneiras de vergonha diferente, e o que a gente espera é isso. É colocar na cabeça das pessoas um pouco daquilo que estamos falando para que elas se sintam engajadas nesta luta que esse povo tanto briga, tanto luta e corre atrás da sua igualdade”.

Alegorias e fantasias da Roseira

“Tudo é grande. São Paulo gosta de tudo grande. Continuo com meu estilo, fantasias rebuscadas, detalhadas, mas a escola está muito colorida. Mas ao mesmo tempo ela está muito azul e rosa. O azul e rosa estarão presentes na escola inteira. Claro que entram outras cores, entre verde, laranja, tons terrosos, mas o azul e o rosa sempre estarão presentes. Quando Rosas estiver na avenida, as pessoas irão perceber que é uma escola azul e rosa”.

Pesquisa e descobertas

“O mais diferente de tudo é claro, contamos a luta do povo negro, e a herança que deixa para a nossa cultura. Mas a gente começa com África, antes dela ser invadida pelos brancos e antes dos negros serem escravizados. O mais importante do nosso enredo é a parte final dele que é a luta de hoje. Pois a luta de hoje não é uma luta que tenha virado enredo ainda. A escravidão, navio negreiro, sempre passou na avenida, mas o enredo que conte a luta de hoje, como esse povo se organiza para lutar por direito, respeito, igualdade. Não vemos toda hora como enredo de escola de samba, essa é a parte mais importante do enredo. Retratarmos essa luta como ela se movimenta hoje”.

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Em três momentos diferentes, Paulo Menezes relatou sobre os quatro setores tradicionais nas escolas: “Para mim são mais setores”. Um dos motivos é: “Tripé tem muitos”. Por fim, o carnavalesco não gosta muito de revelar o jogo, disse: “Spoiler deixamos para a avenida”, sem dar muitos detalhes sobre os setores, mas contou quatro momentos:

Conheça o desfile da escola

Setor 1: Contando brevemente um pouco de cada momento, afinal Paulo Menezes gosta de trabalhar com tripés e mais setores, inicialmente disse: “Mostramos a África antes da chegada do branco”.

Setor 2: Para um segundo momento do desfile, a etapa contada será: “O branco chegando e escravizando”.

Setor 3: “Chegada no Brasil e distribuição do povo preto no Brasil, e a sua luta. Começa a luta pela busca da liberdade e resistência. Mostramos também a influência da cultura africana na cultura brasileira”.

Setor 4: “Por fim como essa luta se perpetua nos dias de hoje. Como mudou o pensamento do povo preto, e como hoje, as armas utilizadas para conquistar seus direitos”.

“Algumas (personalidades) vem representando personagens e outros vem sendo homenageados justamente pela sua história, legado, história de vida e de luta, esses vêm na última alegoria”.

Sobre os homenageados, a roseira tem anunciados personalidades negras em seu Instagram, Paulo falou alguns deles: “Milton Gonçalves, Ruth de Souza”, e do “carnaval de São Paulo serão vivos, tem muita gente bacana, até do carnaval, estamos resgatando”.

Recado do carnavalesco para a escola

“Pode esperar um carnaval lindo, está lindo. Uma escola feliz com o enredo e o que esperamos é que esse enredo plante uma semente na cabeça de cada um. Que as pessoas pensem, repensem as suas atitudes, suas maneiras de olhar o próximo, e o que pode fazer, cada um de nós, para mudar tudo isso que vivemos. Sabemos que é uma luta árdua, que não vai acabar tão cedo. Mas cada um é um grão de areia, cada um lutando, se unindo, sendo um aliado nesta luta, as coisas melhoram muito”.

Ficha técnica
Alegorias – 04
Componentes – 1.600
Alas – 19
Diretor de Barracão – Alexandre Vicente
Supervisor de fantasias e atelier – Binho e Edson