Com a fantasia “Vagabundos, vadios e malandros”, a bateria da Unidos da Ponte buscou desmistificar estes termos que eram usados como estereótipos raciais e religiosos. Com a vestimenta, os ritmistas ressaltaram a mensagem de respeito e combate à intolerância religiosa que foi destacada ao longo do enredo “Liberte nosso sagrado”. A roupa trouxe manchetes de notícias da época que destacavam perseguições contra os praticantes de religiões afro-brasileiras.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, os ritmistas da bateria da Unidos da Ponte comentaram sobre a importância do enredo, a mensagem da fantasia e definiram o que é, para eles, o segredo para ser um bom malandro.
Lucas Batista, de 25 anos, é um dos diretores de bateria da Unidos da Ponte. Ele explicou que a fantasia traz uma mensagem sobre o preconceito vivido por todos aqueles que cultuam as religiões afro-brasileiras.
“A fantasia vem representando todo preconceito e a intolerância, assim como no enredo, que as religiões de matriz africana vem sofrendo ao longo dos anos. No terno, trazemos termos como ‘ladrão’, ‘roubo’, coisas que as pessoas falavam sobre quem frequentava a religião. Viemos também com algumas manchetes estampadas, que mostram pessoas que foram perseguidas e presas apenas por cultuar religiões de matriz africana”, contou o diretor de bateria.
Para ser um bom malandro é preciso levar a vida com muito bom humor e jogo de cintura para enfrentar os problemas. Assim foi a definição feita por Lucas. Já na bateria da escola de samba, ele contou que o segredo para ser um malandro é a dedicação.
“Ser um malandro é levar a vida com bom humor, de um jeito irreverente, passando pelos problemas da vida da melhor maneira possível, com muito jogo de cintura e sempre sorrindo. O segredo para o malandro se dar bem na bateria da Unidos da Ponte é muito ensaio, atenção, mas, também, divertimento. A gente aqui está trabalhando, mas estamos, também, nos divertindo. Vamos entregar um desfile muito bom, assim como foi no ano passado”, disse Lucas, um dos diretores da Unidos da Ponte.
Lucas Batista também contou o que achou da fantasia. Para ele, a roupa deste ano, além de representar uma importante mensagem, é leve e facilita o trabalho dos ritmistas ao longo da Passarela do Samba – o que Lucas definiu como ‘um exemplo a ser seguido’.
“Achei a fantasia bem legal, bem leve e maravilhosa. Não tem esplendor e é isso que a gente precisa. Uma fantasia leve para poder tocar. A fantasia é o sonho de todo ritmista; facilita a visão do diretor, está confortável e todas as escolas deveriam seguir igual”, comentou.
O diretor também falou da importância do carnaval como um meio de mensagem e quebra de preconceitos e paradigmas.
“Carnaval é sempre um veículo de informação. Através do carnaval as pessoas vão buscar informação. O combate à intolerância religiosa é fundamental, assim como o combate a qualquer tipo de preconceito. Espero que a Unidos da Ponte consiga passar a mensagem. Deixe em paz todo mundo que quer cultuar qualquer religião”, completou.
Junior Guedes, estreante da Ponte aos 41 anos, contou que para ser um malandro é preciso postura. O ritmista também falou sobre o que, para ele, é o necessário para o ‘malandro’ da bateria fazer um bom desfile na Marquês de Sapucaí.
“Inteligência, galanteio, consciência, postura, saber chegar e saber sair, ser amigo de todo mundo e usar sempre um bom palavreado de um verdadeiro malandro. eu sou meio suspeito pra falar. Em questão de malandro, ele sempre sobressai e, no samba, na boêmia, ele sempre sobressai e não vai ser diferente. Nós vamos entrar com o pé direito aqui na avenida pra fazer o melhor desfile que podemos entregar”, revelou o ritmista da Unidos da Ponte.
A ritmista Janaína Muniz,de 45 anos, também estreante na agremiação, ressaltou que a fantasia da bateria é uma referência a uma das entidades do terreiro.
“A fantasia fala do malandro, que também é uma das entidades do terreiro, dentro do enredo que fala sobre a Mãe Menininha, que começou a reunir esses pedaços de objetos sagrados que foram roubados para montar esse acervo. Uma luta contra essa intolerância religiosa”, destacou Janaína Muniz.
A fantasia, segundo ela, era um pouco quente por conta do clima, mas muito leve para facilitar o desfile na Passarela do Samba. Ela também falou da importância do enredo para os dias atuais.
“Ela tá bem leve. Achei muito linda. Ela é um pouco quente, mas isso é por conta do verão, está tudo bem tranquilo. Esse tema é muito importante, porque estamos vivendo um momento de virada de governo e combate contra tudo isso”, comentou.
A Unidos da Ponte foi a segunda escola de samba a desfilar neste sábado de carnaval.























As baianas da Em Cima da Hora trouxeram, no segundo dia de desfile do Grupo de Acesso, a ancestralidade africana e clamam pela justiça de Xangô. As mães do samba da azul e branca, neste sábado, exibiram em sua fantasia a luta de mulheres negras. “Infelizmente nem sempre existe justiça na terra, quando falamos de mulheres pretas, não existe na maioria dos casos. Estamos aqui para lutar por dias melhores”, explicou Sidneia de Freitas, presidente da ala de baianas.
Para a presidente, a fantasia representa as mulheres negras através das fotos, representa os povos africanos através dos desenhos do tecidos e os búzios. É, também, uma fantasia com ancestralidade. “Nosso enredo conta a história da primeira advogada negra do Brasil. Com essa fantasia, não só homenageamos ela, mas também, homenageamos todas as mulheres negras. Mostramos na fantasia mulheres negras famosas que lutaram pela nossa cor”, disse.
As passistas da Em Cima da Hora trouxeram para avenida neste sábado, no segundo desfile do Grupo de Acesso, a historia de Esperança Garcia. Uma mulher negra escravizada que virou voz da resistência e lutou contra a escravidão. A azul e branco, em sua ala nove, mostrou o poder da leitura e da escrita. As passistas, representando Esperança, exibem em sua fantasia ‘horrores e abusos’ a luta de uma mulher que encontrou na leitura e escrita seu poder de luta e resistência.
As passistas tiveram a responsabilidade de levar para avenida a importância da leitura e escrita, extremamente relevante na luta de Esperança pela liberdade.
Para as passistas da azul e branca, representar esse símbolo de resistência é uma causa maior. “É um fruto de muito esforço dos nossos coordenadores. […] A leitura e escrita representa o futuro da nossa nação e precisamos incentiva-la”, diz Dandara Barbosa, mulher negra e dona de casa, é passista por mais de dois anos.

A Em Cima da Hora trouxe para a Avenida a história de Esperança Garcia, a primeira mulher advogada do Brasil. Infelizmente a história de luta contra a escravidão da advogada não é conhecida pelo público. Apesar de não conhecerem Esperança, os componentes da escola se sentiram honrados em contar sua trajetória na Marquês de Sapucaí.
Juliano Coelho, psicólogo de 40 anos, ressaltou a importância do samba da Em Cima da Hora na luta contra o racismo. Para ele, a mensagem que a escola trouxe foi muito importante.
“Eu como uma mulher negra fico honrada em representar. Fico também triste por a gente não ter conhecimento dessas histórias de personalidades negras que não chegam para todo mundo (…) Muita coisa eu aprendi através do carnaval.
A Unidos de Bangu foi a terceira escola a entrar na Marquês de Sapucaí na noite deste sábado pela Série Ouro. Com o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó, a agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a história de uma qualidade de Xangô e apresentou os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira.
O cabeleireiro Pablo Guimarães, representante do grupo rainbow, diz que sua fantasia representa a quadrilha e a diversidade carioca, ele, que é espírita, conta que é uma honra desfilar pela Bangu com esse enredo tão importante, que é falar de uma das figuras de Xangô.
Para o vendedor Jorge Henrique, de 32 anos, desfilar nessa alegoria é um momento muito especial. Ele é nordestino e tem a oportunidade de representar as festas juninas típicas da região. Jorge é budista e mesmo não tendo muito conhecimento sobre Xangô, acredita que passar vibração e positividade é essencial em todas as religiões.