Último carro da Unidos de Bangu levou para avenida as festas juninas e o sincretismo religioso
A Unidos de Bangu foi a terceira escola a entrar na Marquês de Sapucaí na noite deste sábado pela Série Ouro. Com o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó, a agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a história de uma qualidade de Xangô e apresentou os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira.
A terceira alegoria da escola trouxe o sincretismo de Xangô com os santos católicos e a comemoração, no mês de junho, dos festejos a Aganjú. No alto do carro foi encenada uma quadrilha. Predominante dourada e com esculturas bem acabadas, a fachada do carro lembrou uma igreja.
O cabeleireiro Pablo Guimarães, representante do grupo rainbow, diz que sua fantasia representa a quadrilha e a diversidade carioca, ele, que é espírita, conta que é uma honra desfilar pela Bangu com esse enredo tão importante, que é falar de uma das figuras de Xangô.
“Desfilar nesse carro e na Rainbow que é a nossa quadrilha, que representa a diversidade carioca, pra mim é uma honra representar todo público, principalmente na quadrilha e nas festas. O sincretismo religioso é algo muito forte, pra mim é uma coisa que realmente deveria ser mais explorada e respeitada. Nós temos diversidade, existem vários tipos de religiões, no caso, eu sou candomblecista, nossa religião é muito visada porque você acha que o público gay deve ser macumbeiro ou espírita. Não, mas a gente tá em todas as áreas, a gente pode atuar em todas as áreas, Então, eu me encontrei realmente no espiritismo e estar hoje aqui nesse desfile e como esse enredo é também parte da nossa etnia brasileira”, disse Pablo.
Para o vendedor Jorge Henrique, de 32 anos, desfilar nessa alegoria é um momento muito especial. Ele é nordestino e tem a oportunidade de representar as festas juninas típicas da região. Jorge é budista e mesmo não tendo muito conhecimento sobre Xangô, acredita que passar vibração e positividade é essencial em todas as religiões.
“Esse carro me representa porque é uma cultura da minha região, eu sou do Nordeste, eu sou do Rio Grande do Norte, então isso traz uma lembrança da minha infância, eu sempre dancei quadrilha lá no meu interior e estar aqui hoje é muito especial, estou muito feliz de verdade. Eu sou budista, não tenho muito conhecimento com Xangô, mas acredito que a vibração e positividade no coração das pessoas é que faz tudo isso acontecer, temos que respeitar todas as religiões. Desejo alegria e paz para todos, porque é isso que hoje representa no meu coração”, contou Jorge.
Abre-alas da Unidos de Bangu levou para a avenida a Morada de Aganjú
A Unidos de Bangu foi a terceira escola a entrar na Marquês de Sapucaí na noite deste sábado pela Série Ouro. Com o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó, a agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a história de uma qualidade de Xangô e apresentou os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira.
O carro abre-alas, denominado “O Império do senhor do fogo… A chama da renovação”, representou, como o nome diz, o Império do fogo. A morada de Aganjú foi retratada, assim como o fogo que ilumina, purifica e queima todas as mazelas da humanidade. A alegoria teve tons avermelhados e muitas esculturas, a principal delas foi a de um grande Xangô no centro do carro, o impacto causado foi positivo.
Um dos destaques do carro, o vendedor de 26 anos Gabriel Faleiro, contou que sua fantasia representava Alafim e o fogo. Ele disse também que se identifica muito com o enredo e fez questão de desfilar novamente pela escola.
“Minha fantasia representa o Alafim, eu tô muito feliz por estar aqui, desfilo na escola desde 2019, estive em 2020 e também no ano passado. Agora, nesse enredo sobre Xangô é ainda mais especial, meus amigos brincam que eu deveria ser advogado, eu sou justiceiro, eu acredito na justiça, quando eu vi o enredo da Bangu eu tinha que vir aqui como alafim, como justiceiro e como Xangô”, contou Gabriel.
As composições femininas representaram as guerreiras do rei, em entrevista, a pedagoga Luana Behringer trabalha na área da educação e desfilou pela primeira vez na Unidos de Bangu, para ela, representar o desfile é especial por conta do enredo.
“É uma satisfação muito grande estar aqui hoje em Bangu como destaque. Sobre a ala, o que eu posso falar é que ela representa o Xangô, que é o verdadeiro guerreiro da justiça. É uma satisfação grande, foi um convite inesperado e eu me sinto muito lisonjeada de estar aqui como vocês também. É a primeira vez que desfilo aqui na Bangu, mas já fui madrinha de outras escolas”, contou Luana.
Voltando a desfilar pela escola, a correspondente bancária Jéssica Souza, disse estar muito emocionada por poder fazer parte desse momento especial para a escola que está valorizando a comunidade.
Tenho certeza que será um desfile emocionante, afinal, essa é a escola do meu bairro, eu moro em Bangu desde que nasci, então eu já estou muito emocionada por voltar depois de dez anos, ainda mais com esse enredo tão lindo e tão importante, tenho certeza que a história vai ser contada de uma forma linda e é uma honra poder fazer parte desse momento”, pontuou Jéssica.
Acadêmicos do Tucuruvi exalta Bezerra da Silva em desfile marcado pela irreverência do conjunto de fantasias
O Tucuruvi foi a segunda escola a desfilar na noite deste sábado, pelo segundo dia do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo 2023. Com destaque para as divertidas e irreverentes fantasias e alegorias, nem a chuva impediu o Zaca de levantar o público, que se divertiu e aprendeu com a mensagem que a escola quis transmitir. A agremiação encerrou o desfile com uma hora e três minutos. A escola da Zona Norte apresentou este ano o enredo “Da Silva, Bezerra. A Voz do Povo!”. * VEJA FOTOS DO DESFILE

Comissão de Frente
A comissão de frente da Tucuruvi representou “Os Da Silvas”. Um protagonista, representando o homenageado, interagiu com os demais atores dançando no ritmo do Partido Alto, em um bailar característico do malandreado. De um elemento cenográfico, simbolizando uma favela em estilo antigo, o protagonista surgiu à frente de uma cruz e começou sua evolução junto com os demais na própria alegoria, que contou também com uma espécie de tablado rotatório, girando por vezes de acordo com o repertório proposto.

A malandragem dos morros se fez presente. Com uma coreografia tomada pela dança, Bezerra, seus malandros e malandras levaram o público a entrar de cabeça no desfile. A entrada triunfal do protagonista ascendendo com a cruz no topo da alegoria enquanto os dançarinos tocavam seus instrumentos logo abaixo arrancou aplausos, e a coreografia se desenrolou em alto nível ao longo de duas passagens do samba. A chuva não comprometeu em nada a evolução do grupo cênico, que pode ir para terça-feira otimista quanto a suas notas.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Luan Caliel e Waleska Gomes dançaram pela Avenida representando em suas fantasias “Sua Majestade, a Malandragem”. Um casal que se trata como se fossem mãe e filho fora da Avenida, e que ao defender o pavilhão demonstram o porquê disso com sincronia, elegância e beleza de movimentos. A chuva resolveu enfrentar a dupla duramente, com direito a ventos que obrigaram Waleska a mostrar o porquê é uma das melhores porta-bandeiras da atualidade.

Nos giros com Luan, a dançarina não teve apenas que cumprir o seu papel habitual, mas também duelou com a intempérie com a valentia de uma guerreira, fazendo o público vibrar mais que o habitual durante as passagens do segmento. O mestre-sala foi irretocável em seus movimentos, executados de acordo com o que tem que ser. Uma pequena observação é preciso ser feita, porém. Perto do final da apresentação obrigatória diante do primeiro módulo, o vento empurrou o pavilhão para o mastro e enroscou levemente, o que pode render dedução do jurado. Agora, se o casal passou pelos últimos módulos do mesmo jeito que passou pelo segundo, será mera nota de descarte.
Harmonia
Se tem que ter fé para viver nesse país, cantar diante de uma imparável chuva gelada não é diferente. Nesse aspecto, a comunidade do Zaca cumpriu bem o seu papel, muito ajudada pela irreverência do samba da Tucuruvi. O conjunto de fantasias foi tão divertido que o público inevitavelmente reagia a cada uma, o que contagia inevitavelmente os componentes na pista. Alguns componentes aparentando cansaço em certas alas, porém, podem ter sido notados pelos jurados.

Enredo
Com o título “Da Silva, Bezerra. A Voz do Povo!”, a proposta da Tucuruvi para 2023 foi mais do que homenagear Bezerra da Silva. O famoso sambista este inserido no enredo com fio condutor, através de sua vida e obra, de uma temática com cunho social falando da realidade dos moradores das favelas. Um enredo que, tal qual as músicas de Bezerra, pode ser interpretado das mais variadas maneiras possíveis dependendo da classe social a qual o expectador pertence. Quem não sabe o que é viver em uma favela entende de forma caricata e bem-humorada, mas quem já passou pelas difíceis provações da vida das comunidades consegue perceber o quão sério o conteúdo dos sambas de Bezerra da Silva é e quão criativa era a maneira como o artista era para conseguir furar as diferentes bolhas sociais de sua época.

Um dos enredos de mais fácil leitura a passar pelo Sambódromo do Anhembi nesse ano. As propostas de cada segmento eram muito claras de serem entendidas, e as músicas escolhidas pelos carnavalescos Dione Leite e Yago Duarte foram estrategicamente posicionadas para permitir uma linha narrativa irretocável e divertida.
Evolução
A chuva pode atrapalhar muito as escolas, ainda mais se for de forma constante. Não foi totalmente o caso da Tucuruvi, que desfilou de maneira constante do início ao fim, parando apenas para as manobras de entrada e saída do recuo da bateria. Em alguns momentos foram observados espaçamentos excessivos à frente dos carros dois e três, mas para ser considerados falhas dependerá da interpretação de cada jurado. Com portões fechados em uma hora e três minutos, sem correr, foi um desempenho no geral correto da escola. Vale destacar o trabalho do vice-presidente Rodrigo Delduque, que liderou a harmonia com muita habilidade nos momentos chave do quesito.

Samba-Enredo
Um samba digno da obra de Bezerra da Silva. A primeira parte da letra tem um tom descontraído, descrevendo o sambista como mais um dentro da comunidade em que vivia. O refrão do meio cita a religiosidade de Bezerra, elemento fundamental para que ele conseguisse sair das ruas. A parte final da obra trata da realidade das pessoas sofridas da favela de maneira séria, apelando para palavras fortes e pouco comuns em sambas-enredo, entregando para o refrão principal uma autêntica síntese do que é o dia-a-dia do povo brasileiro e como a vida de Bezerra se assemelha com a de tantos outros “Da Silvas” que vivem no Brasil. A obra, composta pela ala de compositores da Tucuruvi e anunciada junto ao próprio enredo, é assinada por: Paulo César Feital, Marcelo Casa Nossa, André Diniz, Rodrigo Minuetto, Rodolfo Minuetto, Evandro Bocão e Carlos Júnior.

Se na letra o samba tem jeito de Bezerra, na voz não foi diferente. Mais um desempenho arrebatador para a conta do intérprete Carlos Junior, que estreou na Tucuruvi esse ano com o pé direito. A obra é de tão fácil assimilação e tem tantos elementos de identificação com as pessoas que até mesmo o público dos camarotes foi contagiado. Chega a ser curiosa essa observação se lembrar do comentário feito a respeito das “bolhas” no quesito Enredo.
Fantasias
As fantasias das alas da Tucuruvi utilizaram em grande parte das obras de Bezerra da Silva para ilustrar a realidade dos moradores da favela. Quando o tema não eram as músicas do sambista, registros de sua história de vida se fizeram presente para costurar o fio condutor de acordo com a proposta do enredo.

Parece até que foi uma continuidade ramificada para o lado musical do desfile que passou antes. A irreverência das fantasias em contar a realidade do povo periférico e a facilidade como a leitura aconteceu deram ao desfile da Tucuruvi cores raramente vistas em enredos com teor crítico. Se o luxo não reinou nas roupas da escola é porque seria elemento estranho ao desfile, já que falar do povo brasileiro é apelar para o popular e o discurso direto de quem quer ter sua voz ouvida. Risadas foram muitas em alas, com grande destaque para a ala “O Presidente Caô”, com direito a uma cabeça de jacaré com uma coroa e faixa com o nome da fantasia, e também para a ala “O Dia a Dia em Família” que retratou de forma inconfundível a música “Sequestraram Minha Sogra”.
Alegorias
Os carros da Tucuruvi ilustraram diferentes elementos formadores das comunidades que fizeram parte da vida de Bezerra da Silva. O Abre-alas veio com o nome “A Arte que Pulsa ao Som dos Meus Batuques”, com o segundo carro trazendo a religiosidade do sambista com o título “Quem me Protege Não Dorme”. A terceira alegoria foi uma exaltação aos “Talentos Brasileiros à Serviço da Canção”, com o quarto carro finalizando o desfile com um “Salve o Povo da Favela!”.

Um Abre-alas monumental, na forma de grande exaltação ao próprio símbolo da Tucuruvi e em tons de azul com laranja. O segundo carro foi uma exaltação à religiosidade do povo brasileiro através dos símbolos religiosos que ajudaram Bezerra da Silva a superar o momento em que viveu nas ruas de Copacabana. O terceiro carro, porém, é muito similar a uma das alegorias apresentadas no ano anterior, e destoou do conjunto geral. Já o quarto carro finalizou o desfile com maestria ao trazer uma grande favela com componentes interpretando pessoas no dia-a-dia da periferia em diferentes aspectos e espalhados por todos os cantos. As alegorias passaram impecáveis em acabamento, e a leitura de todas elas foi muito clara tal qual as fantasias. Os décimos perdidos em 2022 no quesito podem ser recuperados pela escola este ano.

Outros destaques
Aplausos para a “Bateria do Zaca”, liderada por Mestre Serginho, que junto com o irretocável carro de som deram ao desfile da Tucuruvi um ambiente digno do povo das favelas. A Rainha Carla Prata deu o toque de beleza diante de toda a malandragem das roupas dos ritmistas, e foram um conjunto de alto nível para um desfile de alto nível.

A Tucuruvi se preparou para o Carnaval de 2023 com muita consciência a respeito da própria realidade e de suas pretensões. O resultado disso foi um pré-Carnaval todo moldado sem ter metas ambiciosas, o que resultou em um desfile acima das expectativas e de muito bom gosto. Não seria de se estranhar que a agremiação da região da Cantareira tenha um resultado muito melhor do que o planejado. Desfile para tal, ao menos, eles certamente fizeram.
Valorização à ancestralidade das baianas está presente na fantasia da ala para 2023 na Bangu
As baianas da Unidos de Bangu no desfile que conta a história da qualidade do Xangô menino, apresentando os festejos de Aganju, reservou para as baianas, matriarcas do samba e bastiões das religiões de matriz africana, uma parte central. Em “Awá Dupé… a roda de Xangô”, nome do figurino produzido para as guardiões do samba e religião, nos ritos Nagô, Ketu, Efon, Awá Dupé é um agradecimento a presença do rei de Oyó, o orixá Xangô.
A presidente da alas de baianas da Unidos de Bangu, Teresa Cristina, esclareceu mais sobre a fantasia, seu valor dentro do enredo e da religiosidade do tema, além de contar como as componentes ficaram felizes com o figurino.
“Fiquei muito feliz com a fantasia, com a escolha do tema do figurino e com o enredo. As baianas estão adorando, estão amando, vamos arrebentar na Avenida, mostrar a força que Xangô tem. Elas vem representando o Xirê de Xangô. É a força da escola, o orixá traz essa força. Todas adoraram porque todas adoram Xangô. Vai trazer uma grande energia, ainda mais que dessa vez não viemos abrindo a escola, deixando uma surpresa”, contou com alegria a presidente da ala.
Componentes da ala das baianas da Bangu, Maria Inês e sua irmã Maria Nazaré, falaram um pouco sobre a importância do figurino das matriarcas do samba apresentarem uma temática ligada ao afro e sua ancestralidade.
“Eu acho muito importante a gente não perder as nossas raízes,, as baianas em cada escola representam realmente a ancestralidade , na realidade partiu de Tia Ciata, então eu acho muito importante essa ala nunca acabar e a gente ter essa representação para os mais novos e que eles saibam contar a nossa história. Os novos não sabem mais , a gente se sente muito importante dentro dessa roupa, ainda mais com esse enredo”, conta Maria Inês.
A médica Maria Nazaré, irmã de Maria Inês, além de exaltar a fantasia e todo o seu significado, fez questão de ressaltar a valorização da cultura africana e das religiões de matriz dentro das escolas como um brado contra a intolerância.
“Em um momento que a gente vive tanta polarização religiosa, a demonização da cultura africana. Para as religiões de matriz africana, as escolas resgatam essa história da nossa ancestralidade, do povo preto que veio para ser escravizado e passa sua religiosidade de maneira bonita, alegre e não de forma como se fosse demoníaca. Respeito. As escolas de samba estão aqui representando uma religião que tem muita ancestralidade. É um brado contra intolerância, a gente tem que lutar até que todos nos ouçam. Temos terreiros de umbanda sendo destruídos e as pessoas que professam essa fé tem sido impedidas até de falar alguma coisa. Eu acho que isso tem que acabar”, acredita a baiana.
A baiana Valdemira Sacramento, aproveitou a importância da fantasia e do tema para lembrar de como as baians são importantes para as agremiações.
“É um resgate também do valor que as baianas tem. Tem muita gente que não valoriza a gente, mas na escola de samba a baiana não dá ponto, mas tira. Temos nossa importância no desfile porque somos ancestralidade das escolas, temos que ser valorizadas. Mas tem muita gente que não repara nisso. E além do desfile somos as pessoas que sempre ajudam nas escolas, na comida, barracão, fantasias”, completou a componente.
Bateria da Bangu traz ritmo e religião em sua fantasia e reforça luta contra a intolerância e valorização das religiões de matriz afro
A Unidos de Bangu levou para a Sapucaí em 2023 o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó”. O desfile contou a história de uma qualidade de Xangô, apresentando os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira. Para quem não o conhece é o orixá ainda criança, diferente da sua qualidade mais conhecida, até sua data de comemoração é diferente, no sincretismo religioso Aganjú é São João e não São Jerônimo
A bateria Caldeirão da Zona Oeste comandada pelo estreante mestre Laion virá com um figurino representando uma parte que além de ser importante para o enredo faz referência a religiosidade que os ritmistas ancestralmente derivam. A fantasia “O toque de Alujá” representa como citado no nome o alujá, que é o toque dos atabaques, que invoca Xangô nos terreiros de candomblé. O modelito era bastante leve permitindo que os ritmistas pudessem desempenhar bem o seu papel, sendo predominante o branco, mas com traços em vermelho com detalhes em signos das religiões de matriz africana.
O site CARNAVALESCO conversou com alguns dos integrantes da “Caldeirão Vermelho e Branco” para saber mais sobre a relação que tiveram com a roupa e como está conectada também com o ritmo que produziram. Bruno Bangu, que toca surdo de segunda na bateria, além de ser intérprete da Vila Carioca que desfila na Intendente, falou da importância da bateria retratar uma parte tão importante para o enredo e para a musicalidade de Xangô em geral.
” A gente se enquadra no que o enredo está falando, tanto na batida afro, na batida de Xangô e também a caipira, porque veio falando também das linhas de Xangô e também vai no Santo Antônio da caipira, a gente vai representando toda essa característica da batida. Quando a Bangu se reencontra com esses temas afros é uma facilidade a mais para bateria que também se junta a religião com o carnaval, na batida afro, e fica impossível não colocar aquele valor legal da batida afro. Sempre se enquadra junto”, explicou o ritmista.
Na linha de Bruno, Gustavo Oliveira, que toca surdo de primeira na Unidos de Bangu comentou a importância de a escola principalmente retomar a apresentação de um tema afro, o que em sua opinião facilita o trabalho dos ritmistas.
” A bateria toda a vez que traz um tema afro, consegue desenvolver melhor o trabalho, a gente consegue fazer umas bossas um pouco mais complexas, soa melhor. Acho que essa é a vantagem de estar fazendo um enredo sobre o Aganjú, Pai Xangô da justiça”, entende o ritmista.
Gustavo, nascido e criado na umbanda, também ressalta que a temática escolhida pela escola é importante para que a cultura possa ser grande artifício para vencer a intolerância contra as religiões de matriz africana.
” A gente nasceu em um país que seria laico, mas na verdade ele pé cristão, então a gente cresce com intolerância desde sempre, desde que o Brasil se tornou Brasil. Mas, é extremamente importante a gente fazer um enredo sobre isso, porque cada vez mais vai batendo nesta tecla e as pessoas vão entendendo que não é qualquer coisa, é uma religião extremamente importante, extremamente brasileira que traz a nossa cultura e mistura a nossa cultura”, afirmou o músico.
Da ala de cuíca, Ralf Dias e Jairo Carvalho, falaram um pouco sobre como a energia de trazer um toque importante não só para o ritmo, mas para a religiosidade, interferiu até mesmo no astral da agremiação.
” Foi muito importante trazer uma fantasia completamente ligada ao enredo. E a nossa fantasia trouxe um toque de religiosidade, uma energia positiva não só para gente, mas para escola, ainda mais porque a bateria é o coração da escola. Não tenha dúvida. Fizemos alguns toques na parte da bateria que faz alusão ao Machado de Xangô”, explicou Jairo.
” Acho que o tema trouxe uma energia que é sempre positiva para escola, uma fantasia leve, boa para tocar, e Xangô ajudou para que o desempenho fosse satisfatório. E o alujá que é um toque importante para Xangô não podia faltar no desfile”, ressaltou Ralf.
A Unidos de Bangu foi a terceira escola a desfilar na segunda noite de desfiles da Série Ouro 2023.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos da Ponte no desfile
A bateria da Unidos da Ponte de mestre Branco Ribeiro fez um desfile correto, que poderia ter sido melhor com um andamento mais cadenciado. Tocando de forma acelerada, os arranjos musicais complexos perderam parte da fluidez musical, que permite a integração plena com o samba-enredo da agremiação. A conjunção sonora da “Ritmo Meritiense” exibiu um nível satisfatório, com um casamento musical com certo refino entre as peças leves (tamborins e chocalhos), sem contar uma afinação de surdos acima da média.

A cozinha da bateria da Ponte apresentou uma afinação de surdos de extrema qualidade. Marcadores de primeira e segunda tocaram de forma consistente, enquanto as terceiras auxiliaram dando um balanço envolvente para preencher a sonoridade, tanto no ritmo, quanto em bossa. As caixas de guerra se exibiram com solidez, enquanto repiques foram coesos ao longo do cortejo.
A cabeça da bateria da “Ritmo Meritiense” exibiu um trabalho acima da média. Uma ala de cuícas tocaram com segurança, junto de agogôs que faziam convenção pautada pela melodia. Um naipe de chocalhos de alta qualidade musical tocou de forma atrelada a uma ala de tamborins de técnica apurada. Esse casamento sonoro de tamborins e chocalhos foi o ponto alto entre as peças leves.
Na primeira do samba houve uma virada que permitiu a plena fluência dos naipes, sem contar que o balanço dos surdos adicionou um molho peculiar a bateria da Unidos da Ponte. Assim como o arranjo envolvendo o naipe de caixas na virada para a segunda do samba propiciou um swing envolvente após ser realizado o movimento rítmico ousado.
A paradinha do refrão principal mostrou valor sonoro, além de estar intimamente vinculada ao tema de matriz africana. Inicia
com solo de atabaques no estribilho. Seguindo para uma elaboração musical sofisticada já na cabeça do samba, onde um toque de Candomblé foi percebido em homenagem ao Orixá Omulu, conforme pede o samba da escola de São João de Meriti. Um arranjo musical vinculado ao tema da agremiação, que se aproveitou da pressão dos surdos junto com as batidas de qualidade das caixas.
A bossa do final da segunda tinha um grau de dificuldade de execução considerável, num arranjo marcado pelo impacto sonoro da pressão provocada pelos surdos, que se aproveitavam da variação da melodia da obra para consolidar o ritmo.
A paradinha do refrão do meio tinha um alto grau de complexidade, numa elaboração que indicou bom gosto musical. Nos versos finais da primeira houve um corte seco na palavra “Resistir”, para posteriormente iniciar o arranjo pautado pela pressão dos surdos, junto dos demais naipes numa batida de vertente africana. O vínculo cultural com o enredo e samba da escola foi o ponto alto da constituição da convenção. A “Ritmo Meritiense” aproveitou a bossa para realizar um movimento sincronizado pela pista, sendo bem recebido pelo público. O desafio foi tocar andando enquanto os ritmistas trocavam de posição pela pista, mantendo o ritmo da Ponte inalterado, o que pareceu ter transcorrido de modo correto.
As apresentações nos três módulos ocorreram de forma sólida e segura. As exibições contaram, nas três cabines, com a bossa do refrão do meio que fazia os ritmistas trocarem de lugar com o ritmo acontecendo. Tal movimento causou frisson no público presente na Sapucaí em todas as vezes que foi feito e visualmente parece ter agradado os jurados. Pela pista não houveram problemas a serem relatados nas apresentações para o júri, num desfile qu evidenciou o acerto cultural de atrelar a sonoridade da bateria da Ponte de mestre Branco Ribeiro ao tema africano da escola.
Parte musical se destaca, mas problemas na parte visual, no casal e em enredo comprometem desfile da Unidos da Ponte
Segunda escola a entrar na avenida no Sábado de carnaval da Série Ouro, a Unidos da Ponte apresentou o enredo “Liberte Nosso Sagrado – O Legado Ancestral de Mãe Meninazinha de Oxum”, desenvolvido pelos carnavalescos Rodrigo Marques e Guilherme Diniz. Em 54 minutos de desfile, a Azul e Branca de São João de Meriti realizou um desfile com destaque para o bom desempenho de sua parte musical, com o funcionamento do samba-enredo, o excelente desempenho do intérprete Kleber Simpatia e espetáculo da bateria “Ritmo Meritiense”. Problemas apresentados em enredo, na apresentação do primeiro casal, Thainara Matias e Emanuel Lima, e na parte visual, no entanto, comprometeram a apresentação da escola. * VEJA FOTOS DO DESFILE

- LEIA AQUI: ANÁLISE DA BATERIA NO DESFILE
Comissão de Frente
Comandada pela coreógrafa Alessandra Oliveira, a Comissão de Frente da Unidos da Ponte representou “Okutá – A Pedra Sagrada que encanta Orixá”. No enredo, o Okutá é um pedra sagrada associada a Oxum, orixá de cabeça da homenageada da escola. Na coreografia, 12 bailarinas vestiam uma roupa branca com saias de palha, 2 bailarinas portavam um recipiente na mão e 1 vestiam roupas douradas, nas cores da orixá Oxum. A apresentação possuía dois pontos tidos como altos, um no qual a dançarina de dourado aparecia com a pedra sagrada, Okutá e no outro, logos após os demais componentes terem deitado no chão, como no processo de iniciação nas religiões de matriz africana, a bailarina de dourado ia para trás das palhas e saia como a própria orixá Oxum.
VEJA ABAIXO MATÉRIAS ESPECIAIS
Parte musical se destaca, mas problemas na parte visual, no casal e em enredo comprometem desfile da Unidos da Ponte
Intolerância contra religiões afros são denunciadas em desfile da Unidos da Ponte
Baianas da Unidos da Ponte comentam sobre ancestralidade e conexão com a escola
Unidos da Ponte encerra desfile com o enaltecimento do legado de Meninazinha de Oxum

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Unidos da Ponte, Emanuel Lima e Thainara Marias, vestiram uma fantasia em tons terrosos, representando “O Culto dos Alufás”, uma prática religiosa baseada nas tradições das religiões de matriz africana, sobretudo o candomblé e a umbanda. Os Alufás são considerados como os representantes dos Orixás e são vistos como os porta-vozes dos deuses africanos no mundo humano.

A coreografia do casal apostou em uma dança de muita garra e algumas alusões à letra do samba, como passos afro. Em sua apresentação na avenida, no entanto, o casal apresentou alguns problemas em frente às cabines de julgadores. O primeiro deles se deu na fantasia da porta-bandeira, que soltava penas ao longo da avenida, o que ocorreu nos julgadores dos módulos 1 e 2. Com o forte vento que acometeu a Sapucaí durante o desfile da escola, a porta-bandeira enrolou a bandeira na primeira cabine dos julgadores. De positivo, o fato de o casal cantar com muita força a letra do samba da escola durante suas apresentações.
Harmonia
A Harmonia da Unidos da Ponte também foi outro ponto que desejou a desejar em alguns momentos do desfile da escola. O desempenho do canto da comunidade de São João de Meriti foi irregular e não-uniforme entre as alas. As alas 5, “Tenda dos Milagres” e 11, “Mulheres de Axé”, por exemplo, passaram com diversos componentes sem cantar a letra do samba-enredo da escola. As alas 3, “Procópio D’Ogum” e 17, “ Liberte nosso Sagrado”, foram as que mais cantaram a obra. O refrão principal do samba-enredo da escola, “Eu vi a coroa de Oxum… Deixe em paz meu terreiro de Candomblé”, foi bem cantado pela comunidade de São João de Meriti.

Evolução
A evolução da Unidos da Ponte em seu desfile foi, de maneira geral, fluida e sem grandes sustos, como buracos ou clarões. Ao longo de 54 minutos, a Azul e Branca de São João de Meriti conseguiu avançar ao longo da Marquês de Sapucaí de maneira leve, solta e organizada, com as alas bem compactas. O único ponto de preocupação no quesito foi o tempo que a escola permaneceu parada na altura do segundo módulo, um pouco maior que o normal. A se destacar no quesito a animação e leveza apresentada pelas últimas alas da escola, 16, “Respeito o meu terreiro”, 17, “Liberte nosso sagrado” e a dos compositores.

Enredo
O enredo da Unidos da Ponte, “Liberte Nosso Sagrado – O Legado Ancestral de Mãe Meninazinha de Oxum”, tem como ponto de partida Acervo Nosso Sagrado, coleção de objetos de religiões de matriz africana que estavam sob poder da Polícia Civil até poucos anos atrás, para homenagear a Mãe Meninazinha de Oxum, ialorixá que tem seu terreiro no bairro São Mateus, em São João de Meriti.

A história desenvolvida pelos carnavalescos Rodrigo Marques e Guilherme Diniz foi contada por meio de três carros, 18 alas e dividida em três setores. No primeiro setor, “Os Ancestrais de Mãe Meninazinha de Oxum”, foi retratada as raízes e a ancestralidade da homenageada do enredo, desde Marcolina de Oxum, que veio jovem ao Brasil escravizada. No segundo setor, “Da repressão à repatriação”, a escola abordou a coleção ‘Nosso Sagrado’ e toda história de luta pela libertação dos objetos apreendidos pela polícia. No terceiro e último setor, “Liberte Nosso Sagrado”, a escola retratou a luta da homenageada, junto com outros religiosos, para reaver os objetos apreendidos e terminou com uma mensagem de paz e tolerância religiosa.

A execução do enredo da escola, no entanto, apresentou graves problemas que afastaram a leitura da história a ser contada da boa proposta inicial dos carnavalescos. Algumas fantasias e alegorias da escola possuíam dificuldade de leitura, sem fazer referências tão claras ao que representavam, como na ala 5, “Tenda dos Milagres”, que contrastava com alas de entendimento mais claro, como a ala 8, “Documentação Fílmica e Iconográfica”, que possuía um elemento de mão com uma câmera colada.

Outro grave problema da Unidos da Ponte no quesito enredo se deu na inversão de elementos do desfile da escola, como a ala de Baianas, que estava vestida de “Ioruba à Ifá” e, segundo o Roteiro dos Desfiles, deviam estar logo após o primeiro casal da escola, mas no entanto, vieram após o tripé “Oriki”. Outro erro ocorreu no terceiro setor do desfile, onde o muso Bruno Fernandes, representando “A Magia do Candomblé”, deveria vir após o segundo casal da Azul e Branca e não estava. A ala de passistas da escola, prevista para desfilar após a bateria de “Mandingueiros e Feiticeiras”, não entrou na avenida por falta de fantasias.
Alegorias e Adereços
O abre-alas da escola, “A cidade da palha de Iyá Marcolina”, trouxe diversos elementos estéticos da cultura afro e apresentou uma bela escultura do orixá Omulu. A alegoria, no entanto, passou na avenida com óculos solto em cima, ao lado de um dos balaios com pipoca e integrantes descalços. A segunda alegoria, “Invasões, prisões e confiscos”, apostou em tons mais escuros e uma escultura com “Magia Negra” escrita em cima para representar a prisão dos objetos do Acervo Nosso Sagrado. A terceira alegoria, “ O legado ancestral de Mãe Meninazinha de Oxum”, teve o predomínio da cor dourada da orixá Oxum, esculturas de mulheres negras na frente e a coroa na parte de cima do carro. A alegoria, no entanto, passou apagada pelos três módulos de julgadores.

Fantasias
O conjunto de fantasias da Unidos da Ponte na homenagem à Mãe Meninazinha de Oxum apresentou irregularidades, alternando bons e maus momentos nos figurinos. Algumas alas da escola possuíam soluções mais simples, passando apenas com calças brancas e algumas até sem sapatos, como a ala 2, “Eleguns”, e alguns componentes da primeira e da última alegoria da escola. Outro ponto baixo no quesito fantasias foi a pouca leitura do enredo em alguns figurinos elaborados pelos carnavalescos Rodrigo Marques e Guilherme Diniz, com alas, como a “Tenda dos Milagres”, sem referências tão claras à mensagem passada. Porém, essas alas se contrastavam com outras com leituras mais claras e boas soluções, como a ala 8, “Documentação Fílmica e Iconográfica” e 12, “Cantigas e Toques”, como elementos que passaram com maestria a ideia do figurino. A ala das Baianas da Azul e Branca, representando “Saberes Silenciados no Culto Iorubá à Ifá” em um belo figurino branco, também foi destaque positivo.

Samba-Enredo
Composto por Bruno Castro, Carlos Kind, Junior Fionda, Léo Freire, Marcelinho Santos, Marcelo Adnet, Tem-Tem Jr, Tião Pinheiro e Vitor Hugo, o samba-enredo da Unidos da Ponte confirmou na avenida sua qualidade e funcionou perfeitamente para o andamento do desfile da escola. A se destacar o ótimo desempenho do estreante da noite na Sapucaí, o intérprete Kleber Simpatia, que apesar de um problema no som no início do desfile, desempenhou com maestria a função de conduzir o microfone principal da escola. A bateria “Ritmo Meritiense”, de Mestre Branco Ribeiro, também teve contribuição fundamental para o desempenho da obra. O refrão principal do samba-enredo, sobretudo a parte do “Deixe em paz meu terreiro de candomblé”, foi o principal destaque da obra e a mais cantada pelos componentes da Azul e Branca.

Outros Destaques
Comandados pelo segundo consecutivo pelo Mestre Branco Ribeiro, os ritmistas da bateria “Ritmo Meritiense” vieram vestidos de “Vagabundos, Vadios e Malandros”. A rainha de bateria da escola, Lili Tudão, vestiu uma fantasia de “Magia Negra”, enquanto a princesa, Denise Kaya, se vestiu de “Pombagira”.

Show à parte, os ritmistas da escola de São João de Meriti foram o ponto alto da apresentação da escola no carnaval 2023. Ao longo da avenida, a bateria executou paradinhas que levou o público ao delírio, sobretudo a do refrão do meio, na qual os ritmistas se movimentavam para o lado e se misturavam entre si. A “Ritmo Meritiense” provocou aplausos ao longo dos setores da Marquês de Sapucaí. A se destacar, também, a presença de Mestre Lolo, da Imperatriz Leopoldinense, a frente da bateria.

