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Em Cima da Hora exalta a potência de ‘Esperança Garcia’, mas peca na parte plástica

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Quarta escola do sábado de carnaval da Série Ouro, a Em Cima da Hora trouxe para a avenida o enredo “Esperança, Presente!”, em homenagem àquela que hoje é considerada a primeira advogada do Brasil: Esperança Garcia. Uma mulher negra, escravizada, que escreveu uma carta denunciando a violência e os horrores das estruturas racistas de um Brasil colonial e provinciano. O ponto alto foi a bateria de mestre Capoeira e a exibição do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. Porém, as falhas na parte plástica e na sequência das alas podem tirar décimos da agremiação, que fechou o seu desfile com 54 minutos. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILE

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Comissão de frente

A comissão de frente, coreografada Leandro Azevedo, desfilou representando “A Desonra desperta a justiça por grandes negros e negras”. Eram 14 pessoas ao todo, sendo dois feitores, 11 escravizados e a Esperança Garcia, personagem principal do enredo da escola. Alguns componentes estavam com os pulsos acorrentados e/ou com uma espécie de “tronco” amarrado nas costas, sendo açoitados pelo chicote dos feitores. O segmento realizou uma apresentação bem marcante, com movimentos bem sincronizados e expressivos.

MATÉRIAS ESPECIAIS DO DESFILE
* Componentes da Em Cima da Hora ressaltam a importância de representar a história de Esperança Garcia
* Passistas da Em Cima da Hora mostraram a importância da leitura na luta pela liberdade
* Baianas da Em Cima da Hora fazem homenagem para mulheres pretas

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As vestimentas dos integrantes eram “de época”, em tons pasteis e terrosos, sendo Esperança a única a vestir branco. Quando o samba-enredo dizia “Sou a palavra que arde”, a protagonista do enredo exibiu um cartaz escrito: “Carnaval também é voz pra calar a escravidão”, que é um trecho do refrão. Ao final, Esperança Garcia foi coroada pelo grupo, que colocou nela uma roupa de advogada e um cabelo ‘black power’. A ideia inicial, segundo constava no livro abre-alas, era trazer um elemento alegórico chamado de “Dos maus tratos ao empoderamento negro”, que acabou não passando pela avenida.

Mestre-sala e Porta-bandeira

O primeiro casal, Jhony Matos e Jack Gomes, veio com a fantasia “Trovões da Esperança!”, em referência aos trovões do orixá Xangô, que anunciam justiça. Foi uma espécie de clamor de Esperança à sua ancestralidade religiosa. A roupa dos dois possuía as cores da Em Cima da Hora, azul e branco, além de muito brilho e pedrarias prateadas. O casal realizou uma bela apresentação, demonstrando boa sintonia ao longo dos giros e rodopios. A troca de olhares entre eles foi precisa para que a dança fosse bem executada. A exibição de Jhony e Jack em frente às cabines de jurados durou cerca de 1’50”.

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Samba-Enredo

O carro de som foi liderado por Igor Pitta, ao lado de 3 cantores de apoio, 2 cavacos e 2 violões. Os intérpretes conduziram bem o samba-enredo da escola na pista, procurando manter a empolgação da comunidade de Cavalcanti. A obra da Em Cima da Hora foi composta em parceria por Gilmar L Silva, Julio Cesar, Marcio de Deus, Moisés Santiago, Orlando Ambrosio, Richard Valença, Rogério de Cavalcante e Serginho Rocco.

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Harmonia

A Em Cima da Hora apresentou oscilações no canto ao longo da avenida. Em geral, a escola entoava com mais vigor o refrão principal “Ainda que seja o lugar do folião…”, mas diminuía a intensidade no decorrer do samba-enredo. Destaque para o bom canto da ala 3, intitulada “Ojuobá”. Por outro lado, a ala 5 “Fazenda de Algodões” deixou a desejar em harmonia, passando com vários integrantes sem cantar boa parte do samba.

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Evolução

A escola de Cavalcanti realizou sua evolução de forma dinâmica, com a comissão de frente se apresentando na frente do primeiro módulo de julgamento já na segunda passada do samba. A ala que veio atrás da bateria desfilou com certos espaços em seu miolo, abrindo pequenos buracos na pista. A penúltima ala da Em Cima da Hora, dos Ciganos, também apresentou o mesmo problema de evolução. A bateria saiu do recuo com 42 minutos. A partir de então, a escola passou a desfilar em ritmo mais cadenciado até concluir a sua apresentação.

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Enredo

O enredo “Esperança, Presente!” conta a história de uma mulher que, após ter sido separada do marido e sofrer diversas agressões, escreveu uma carta relatando os abusos e pedindo ajuda ao governo da capitania do Piauí, em 1770. Em ato de extrema coragem e resistência, Esperança clamou por justiça diante da série de violências que ela, suas companheiras e filhos vinham sofrendo. O texto é considerado o primeiro habeas corpus do Brasil, cuja autora, Esperança Garcia, foi reconhecida em 2022 pela Ordem dos Advogados do Brasil como a primeira advogada brasileira.

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De acordo com o carnavalesco Marco Antônio Falleiros, no primeiro setor do desfile da Em Cima da Hora foi traçado um paralelo entre a primeira advogada do Brasil e Xangô, orixá da justiça. Esperança é representada como braço firme e verbo vivo em defesa das negras e negros escravizados. A trajetória de vida de Esperança foi relatada no segundo setor, que vai do afastamento de sua família, passando pelas terríveis violências sofridas até a redação de sua carta.

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Por fim, o setor final abordou a relação de Esperança Garcia com a Literatura Afro-Brasileira, realizando uma diplomação simbólica como advogada que lutou e resistiu contra o racismo, machismo e as desigualdades sociais. Entretanto, além do elemento alegórico da comissão de frente que não desfilou conforme previsto no roteiro de desfiles, algumas alas da escola vieram fora da ordem proposta pelo carnavalesco. Um exemplo foi a ala dos passistas, “O poder da leitura e da escrita”, que não estava logo atrás da bateria, conforme o roteiro.

Alegorias

O carro abre-alas da azul e branco de Cavalcanti foi chamado de “O meu canto é por Justiça! Eu me chamo Esperança!” e mostrou a relação entre Esperança e Xangô, representado pelo destaque central Edimilsom Araújo. Mais acima, a destaque Janaína Guerra vestida de “Fogo da Justiça”. As composições da escada simbolizavam as “Obás de Xangô” e as composições das laterais eram as “Filhas de Xangô”. Búzios e chifres de marfim decoravam o carro que tinha as cores vermelho, dourado e branco.

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A segunda alegoria da Em Cima da Hora ganhou o nome de “Onde o verbo me invade, sou palavra que arde! A Resistência da Esperança!”. O cotidiano de trabalho e as violências sofridas por Esperança foram retratados no carro, que trazia como destaque o “Capitão do mato” e como composições os “Escravos da fazenda”. E por fim, o terceiro carro alegórico levava o mesmo nome do enredo: “Esperança, Presente!”. A alegoria exaltou a figura da grande homenageada Esperança Garcia, deixando a mensagem de que ainda é tempo de evocar a justiça com sabedoria. Um grande buraco na parte superior da alegoria deixava as ferragens e a madeira de revestimento aparente. A velha guarda da escola desfilou na parte frontal do carro.

Fantasias

Segunda ala a desfilar, as baianas da Em Cima da Hora vieram vestidas de “Labaredas do Fogo da Justiça!”, trazendo o oxé (machado duplo) de Xangô. Três componentes da ala vieram sem o chapéu, comprometendo a uniformidade das baianas. A ala “Resistência Negra” passou pela avenida sem nenhum chapéu, sem três costeiros e com algumas camisetas aparentes embaixo da fantasia. Já na ala “Piauí, Bandas Esquecidas – Trabalho no chão duro e na terra batida” eram as bermudas dos integrantes que estavam aparecendo por debaixo do tecido amarelo.

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Outros destaques

A rainha Anny Santos e o rei Jorge Amarelloh sambaram à frente da bateria Sintonia de Cavalcanti. Jorge, vestia a fantasia “A Santa Fé que Engana”, em tons de branco e prata com um grande costeiro que imitava asas. Anny, desfilou trajada de “Laços Africanos”. Raissa Oliveira veio como rainha da escola à frente do carro-abre alas, fantasiada de “Justiça”, em dourado e marrom. A Em Cima da Hora esquentou com o antológico samba de 1976, “Os Sertões”, escrito por Odeor de Paula.

É nossa hora de vencer’: Componentes da Porto da Pedra destacam preparo do Tigre na busca pelo título da Série Ouro

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PP04‘Porto da Pedra, é nossa hora de vencer’, o trecho do refrão do samba-enredo do Tigre de São Gonçalo demonstrou na avenida a expectativa da comunidade gonçalense na disputa pelo tão sonhado retorno ao Grupo Especial. No carnaval de 2023, a Vermelha e Branca apresentou o enredo “A invenção da Amazônia”, do experiente carnavalesco Mauro Quintaes.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, componentes da Unidos do Porto da Pedra comentaram sobre a expectativa pelo título da escola. O gonçalense Waldeir Mota, desde 2010 no Tigre, acredita que, além da escola estar preparada, o título seria histórico para São Gonçalo após as recentes enchentes que atingiram a cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

PP03“Chegou o nosso momento, foi um ano de superação para todas, mas particularmente para nossa escola, a gente sabe da situação das enchentes em São Gonçalo, tivemos perda de pessoas, de amigos, mas estamos aqui com tudo mesmo assim. Com todo respeito que temos às co-irmãs que passaram ontem, algumas com alguns problemas, mas estamos na torcida para que tudo dê certo para a Porta da Pedra e que todas sejam julgadas com pé de igualdade.”, afirmou.

O sentimento de Waldeir é compartilhado por seu colega de ala, Felipe Rodrigues. Há 2 anos desfilando na Vermelha e Branca, o gonçalense acredita que a força do samba-enredo somada a parte plástica conduzirão o Tigre ao Grupo Especial.

PP02“A expectativa é a melhor de todas, estamos todas felizes, com a expectativa lá em cima que a gente vai subir hoje, com certeza. Esse ano vai, a escola tá muito linda, o samba é muito bom e temos um prefeito maravilhoso que ajudou muito a escola esse ano”, ressaltou o gonçalense.

Confiante no título, a gonçalense Paula, além de ser torcedora do Tigre, mora na rua da quadra da escola, no bairro Porto da Pedra, em São Gonçalo. Para ela, o entusiasmo da comunidade da Vermelha e Branca nos ensaios foi determinante para o desempenho apresentado na Marquês de Sapucaí.

PP01“A Porto da Pedra tá linda é esse ano vamos subir se Deus quiser. Estamos com muita garra e com o samba na ponta da língua. Os ensaios foram muito entusiasmantes”, enfatizou Paula, que desfila desde 2016 na escola.

Pela primeira vez como passista da Porto da Pedra, Francisca Fernandes apontou um trunfo na busca pelo acesso da Porto da Pedra: o fato de ser pé quente. Há anos frequentando a quadra da escola, Francisca confia que “chegou a hora de vencer”.
“É a minha primeira vez na ala de passistas, antes saía na comunidade, e acredito que sou pé quente e a Porto da Pedra já chegou campeã. É a hora de vencer, a hora da comunidade do Porto da Pedra vencer”, destacou.

Bateria da Ponte desmistifica termos racistas

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Ponte01 4Com a fantasia “Vagabundos, vadios e malandros”, a bateria da Unidos da Ponte buscou desmistificar estes termos que eram usados como estereótipos raciais e religiosos. Com a vestimenta, os ritmistas ressaltaram a mensagem de respeito e combate à intolerância religiosa que foi destacada ao longo do enredo “Liberte nosso sagrado”. A roupa trouxe manchetes de notícias da época que destacavam perseguições contra os praticantes de religiões afro-brasileiras.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, os ritmistas da bateria da Unidos da Ponte comentaram sobre a importância do enredo, a mensagem da fantasia e definiram o que é, para eles, o segredo para ser um bom malandro.

Ponte03 2Lucas Batista, de 25 anos, é um dos diretores de bateria da Unidos da Ponte. Ele explicou que a fantasia traz uma mensagem sobre o preconceito vivido por todos aqueles que cultuam as religiões afro-brasileiras.

“A fantasia vem representando todo preconceito e a intolerância, assim como no enredo, que as religiões de matriz africana vem sofrendo ao longo dos anos. No terno, trazemos termos como ‘ladrão’, ‘roubo’, coisas que as pessoas falavam sobre quem frequentava a religião. Viemos também com algumas manchetes estampadas, que mostram pessoas que foram perseguidas e presas apenas por cultuar religiões de matriz africana”, contou o diretor de bateria.

Ponte04 2Para ser um bom malandro é preciso levar a vida com muito bom humor e jogo de cintura para enfrentar os problemas. Assim foi a definição feita por Lucas. Já na bateria da escola de samba, ele contou que o segredo para ser um malandro é a dedicação.

“Ser um malandro é levar a vida com bom humor, de um jeito irreverente, passando pelos problemas da vida da melhor maneira possível, com muito jogo de cintura e sempre sorrindo. O segredo para o malandro se dar bem na bateria da Unidos da Ponte é muito ensaio, atenção, mas, também, divertimento. A gente aqui está trabalhando, mas estamos, também, nos divertindo. Vamos entregar um desfile muito bom, assim como foi no ano passado”, disse Lucas, um dos diretores da Unidos da Ponte.

Ponte05 2Lucas Batista também contou o que achou da fantasia. Para ele, a roupa deste ano, além de representar uma importante mensagem, é leve e facilita o trabalho dos ritmistas ao longo da Passarela do Samba – o que Lucas definiu como ‘um exemplo a ser seguido’.

“Achei a fantasia bem legal, bem leve e maravilhosa. Não tem esplendor e é isso que a gente precisa. Uma fantasia leve para poder tocar. A fantasia é o sonho de todo ritmista; facilita a visão do diretor, está confortável e todas as escolas deveriam seguir igual”, comentou.

O diretor também falou da importância do carnaval como um meio de mensagem e quebra de preconceitos e paradigmas.

“Carnaval é sempre um veículo de informação. Através do carnaval as pessoas vão buscar informação. O combate à intolerância religiosa é fundamental, assim como o combate a qualquer tipo de preconceito. Espero que a Unidos da Ponte consiga passar a mensagem. Deixe em paz todo mundo que quer cultuar qualquer religião”, completou.

Junior Guedes, estreante da Ponte aos 41 anos, contou que para ser um malandro é preciso postura. O ritmista também falou sobre o que, para ele, é o necessário para o ‘malandro’ da bateria fazer um bom desfile na Marquês de Sapucaí.

“Inteligência, galanteio, consciência, postura, saber chegar e saber sair, ser amigo de todo mundo e usar sempre um bom palavreado de um verdadeiro malandro. eu sou meio suspeito pra falar. Em questão de malandro, ele sempre sobressai e, no samba, na boêmia, ele sempre sobressai e não vai ser diferente. Nós vamos entrar com o pé direito aqui na avenida pra fazer o melhor desfile que podemos entregar”, revelou o ritmista da Unidos da Ponte.

A ritmista Janaína Muniz,de 45 anos, também estreante na agremiação, ressaltou que a fantasia da bateria é uma referência a uma das entidades do terreiro.

“A fantasia fala do malandro, que também é uma das entidades do terreiro, dentro do enredo que fala sobre a Mãe Menininha, que começou a reunir esses pedaços de objetos sagrados que foram roubados para montar esse acervo. Uma luta contra essa intolerância religiosa”, destacou Janaína Muniz.

A fantasia, segundo ela, era um pouco quente por conta do clima, mas muito leve para facilitar o desfile na Passarela do Samba. Ela também falou da importância do enredo para os dias atuais.

“Ela tá bem leve. Achei muito linda. Ela é um pouco quente, mas isso é por conta do verão, está tudo bem tranquilo. Esse tema é muito importante, porque estamos vivendo um momento de virada de governo e combate contra tudo isso”, comentou.

A Unidos da Ponte foi a segunda escola de samba a desfilar neste sábado de carnaval.

Mancha Verde mostra grande desempenho na plasticidade e entra como favorita ao título

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A Mancha Verde, atual campeã do carnaval paulistano, mostrou que pode defender o título e conquistar o seu tricampeonato. Houve vários destaques, como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, carro de som, bateria, harmonia e, principalmente, a plasticidade. As alegorias e fantasias que a agremiação alviverde levou para o Anhembi foram impecáveis, principalmente os carros alegóricos. Deve-se atentar a cada detalhe em cada material. Destaque também para os apagões que a ‘Puro Balanço’ fez e a comunidade respondeu de forma satisfatória, mostrando uma harmonia apurada. O único problema notório foi a evolução, que houve uma aceleração no final devido á uma paralisação que teve no recuo de bateria após a entrada da batucada. O desfile terminou com 1h04. * VEJA FOTOS DO DESFILE

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Comissão de frente

A dança representava mais puramente o xaxado, onde cangaceiros faziam a dança com as armas nas mãos. A ala foi encenada repleta desses personagens. O que diferia era a aparição de Luiz Gonzaga tocando sanfona e Marinês com o instrumento do triângulo. Além disso, o personagem Padim Ciço evoluía junto com a comissão fazendo espécie de rezas e, para fechar, a presença de Lampião e Maria Bonita, que são os maiores símbolos da dança do xaxado. As vestimentas tiveram como predominância o marrom característico da época nordestina de Lampião.

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Mestre-sala e porta-bandeira

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcelo Silva e Adriana Gomes desfilaram representando o sol do sertão, fizeram um desempenho gigante. Pista molhada, chuva caindo, vento forte – e nada impediu a dupla de apresentar um bailado digno do histórico dessa parceria. Pelo contrário. Esses percalços engrandeceram o desfile.

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Analisando em frente a cabine do recuo de bateria, o casal realizou os giros horários e anti-horários de forma sutil. Após, optaram por mostrar a sua elegância, sorrindo para o público. Marcela cortejou Adriana beijando sua mão e arrancou aplausos da torcida alviverde.

Harmonia

A comunidade cantou forte neste desfile. Embalados pelo carro de som e bateria ‘Puro Balanço’ que tiveram um ótimo rendimento nesta noite, os componentes da Mancha Verde tiveram um desempenho totalmente satisfatório no quesito. Responderam de forma clara os quatro apagões feitos pela bateria e voltaram no tempo correto.

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As partes mais cantadas do samba foram o refrão principal e os últimos versos. O rendimento da obra foi inesperado. A comunidade, junto à bateria e carro de som, fez o samba crescer, visto que a canção tem uma melodia para baixo.

Enredo

A escola contou a história do xaxado de uma forma lúdica, porém sem deixar as histórias fatídicas de lado. Uma prova disso é alguns acontecimentos da história de Lampião estiveram presentes no desfile. O contraponto foi o mascote ‘Manchão’, que teve uma escultura tocando sanfona na última alegoria. Então essa ambiguidade mostrada pela agremiação alviverde na avenida foi o diferencial no quesito.

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Dentro do desenho na pista, se imaginava uma abertura de abre-alas já representando o xaxado, por mais que a comissão de frente tivesse feito. Entretanto, a escola optou por levar a Caatinga como abertura para os setores, onde foi o local de sucesso da dança nordestina.

Evolução

Talvez tenha sido o único quesito falho da Mancha Verde. Por algum motivo a escola ficou parada após fazer o recuo de bateria. O abre-alas estagnou e a escola parou por 2 ou 3 minutos. Isso conta bastante no tempo final. Tal feito fez com que os componentes fossem obrigados a fazer aquela correria no final e, por isso, o tempo foi terminado no limite.

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A Mancha Verde deixou os seus componentes evoluírem tranquilamente dentro de suas alas. Não cobraram tanto alinhamento e os deixaram solto. A participação do departamento de harmonia foi realmente para cobrar o canto da comunidade. Todas as alas foram leves para a pista.

Samba-Enredo

Comandado pelo intérprete Fredy Viana, o carro de som soube lidar com o samba perante a comunidade. Fredy Viana tem o estilo de colocar energia nos componentes e soube fazer isso com maestria novamente. Vale destacar que a Mancha teve uma estratégia mudada para 2023, pois escolheram uma obra com a melodia mais cadenciada, diferente de 2020, onde se ouvia a harmonia fluir e empolgar de ponta a ponta da avenida.

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Porém, diferente do que se viu em ensaios técnicos, o samba rendeu de uma forma inesperada. Andamento lá no alto o desfile inteiro.

Sobre a letra, além de falar do xaxado é cantado em primeira pessoa. Passa a visão de um Lampião ‘engraçado’ e um nordeste bastante feliz e dançante.

Fantasias

A forma como a Mancha Verde elaborou e dividiu as vestimentas foi uma grande sacada. Todas as alas tinham seu adereço de cabeça o formato de chapéu nordestino, típico do Nordeste e que todos conhecem. Só que em cada um deles, tinha uma representação diferente. O material usado era bastante agradável para desfilar e tinha um contraste favorável ao espetáculo.

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Apesar de haver um equilíbrio entre leveza, beleza e qualidade as alas 3, que é a ‘Farmacopéia do Cangaço” e a ala 7, “Lampião, o rei do cangaço”, se destacaram pela estética e a forma propícia que se dá ao integrante para desfilar.

Alegorias

A primeira alegoria representou a Caatinga com sua fauna e flora. Tinha uma cor quase inteira verde e esculturas de animais com esqueletos e rostos de pessoas simbolizando a natureza.

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O segundo carro alegórico foi simbolizando o Cangaço em Serra Talhada com o Lampião. A alegoria mostrou ao público a dança do xaxado, que é o enredo da escola. O carro tinha como principal elemento a escultura de Lampião no alto do carro, que vale destacar o realismo do rosto que tinha. Extrema semelhança com o cangaceiro.

A terceira alegoria vem representando o sertanejo através do Padim Ciço e sua fé. Na cor toda em marrom, o carro tinha uma escultura do padre no centro e alto, além de anjos nas partes laterais. Vale destacar o piso do carro, que tinha tecido que parecido com um tapete de tão luxuosa.

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A última alegoria faz uma homenagem à Luiz Gonzaga. No carro há festa junina e o mascote da escola, o ‘Manchão’ tocando sanfona com o chapéu nordestino. A escultura do ‘Rei do Baião’ se mexia bastante, tanto o rosto dele como os braços com a sanfona. Uma grande forma de fechar os desfiles.

Como já era esperado, a plástica da Mancha respondeu. O quesito alegoria foi um dos destaques da escola. Mais do que acabamento e beleza, os carros da agremiação têm vida. Muitas pessoas dançando e encenando.

Outros destaques

A bateria ‘Puro Balanço’, regida pelo mestre Guma, teve um grande desempenho nesta noite. Sobretudo pelos quatro apagões realizados, onde a comunidade respondeu. Todos eles feitos no refrão principal. As fortes caixas da bateria se destacaram.

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A rainha de bateria Viviane Araújo deu show. Sambou perfeitamente na pista molhada, interagiu com o público e dançou no ritmo das bossas. O Anhembi foi à loucura.

Erros graves em evolução comprometem melhor desfile plástico da história da Unidos de Bangu

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Por Diogo Sampaio

Com alegorias gigantescas e fantasias de fácil leitura, a Unidos de Bangu realizou nesta segunda noite da Série Ouro o seu melhor desfile plástico da história. Aliado a parte visual, o samba defendido com maestria pelo carro de som e o canto empolgante da comunidade poderiam ter credenciado a escola para disputa do título. No entanto, uma série de erros graves em evolução, como a abertura de buracos e o embolamento de alas, prejudicou de forma significativa a apresentação, que terminou com 53 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE

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Comissão de Frente

Intitulada de “A Força do Vulcão”, a comissão de frente da Unidos de Bangu, assinada pelo coreógrafo Fábio Costa, trouxe a morada de Aganjú. Trata-se do local de onde o Rei de Oyó lança suas labaredas por justiça. Com componentes vestidos com figurinos dourados e com plumas vermelhas na cabeça, o ápice da coreografia acontecia quando do alto do elemento cenográfico simbolizando uma pedreira surgia a figura de Xangô e fogos de artifício saiam da roupa.

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Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Com uma fantasia chamada “Xangô… A Força do Vulcão”, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Anderson Abreu e Eliza Xavier, deu um verdadeiro espetáculo na Avenida. Em seu quarto desfile defendendo o pavilhão principal da vermelha e branca da Zona Oeste do Rio, a dupla apresentou uma dança com passos coreografados, fazendo referências a ritmos africanos, com gestos velozes e precisos.

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Os movimentos ousados realizados por Eliza com o primeiro pavilhão levantaram o público, como quando ela rodava a bandeira por cima da própria cabeça. O vento durante as apresentações na primeira e terceira cabines de jurados causaram dificuldades para o casal, que soube se sair bem das situações.

VEJA ABAIXO MATÉRIAS ESPECIAIS DO DESFILE
* Abre-alas da Unidos de Bangu levou para a avenida a Morada de Aganjú
* Bateria da Bangu traz ritmo e religião em sua fantasia e reforça luta contra a intolerância e valorização das religiões de matriz afro
* Valorização à ancestralidade das baianas está presente na fantasia da ala para 2023 na Bangu
* Último carro da Unidos de Bangu levou para avenida as festas juninas e o sincretismo religioso

Harmonia

Aliada a parte plástica, a harmonia foi um dos grandes pontos altos do desfile da Unidos de Bangu. Em todas as alas, era possível constatar componentes cantando forte e empolgados. Entre aquelas que se sobressaíram estão as alas “Bela Oyá” e “A Força do Oshê”. O canto alegre e solto na velha guarda, que representava “Os Obás de Xangô”, também foi um dos pontos altos.

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Enredo

Sob o título “Aganjú… A visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó”, a Unidos de Bangu trouxe para Marquês de Sapucaí a história de uma qualidade de Xangô, o orixá da justiça. A ideia da agremiação foi trazer uma leitura diferenciada do tema, explorando fatos e lendas relacionadas que pouco foram mostradas na Avenida.

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Tanto as fantasias e alegorias conseguiram transmitir com clareza a história que estava sendo contada na Avenida. No entanto, a inversão na posição de algumas alas no último setor pode trazer perda de pontos. No Roteiro de Desfiles, o grupo cênico “Festa Junina” e os compositores desfilariam após a terceira alegoria, mas na prática ambas vieram na frente dela.

Aliás, ainda com relação ao quesito, uma curiosidade é que desde o retorno da escola para a Marquês de Sapucaí, em 2018, este foi o terceiro enredo de temática negra que ela apresentou. O primeiro foi logo no ano da volta ao Sambódromo: “A travessia da Calunga Grande e a nobreza negra do Brasil”, do carnavalesco Cid Carvalho. Já o segundo, “Memória de um Griô: a diáspora africana numa idade nada moderna e muito menos contemporânea”, em 2020, foi desenvolvido por Bruno Rocha.

Evolução

O grande ponto fraco da Unidos de Bangu. A agremiação cometeu erros neste quesito do começo ao fim do desfile. Por conta do desacoplamento das duas partes que formavam o abre-alas, alguns clarões foram abertos. Além disso, por duas vezes se foram um buraco entre a bateria e ala de passistas, que vinha à frente, bem na altura dos módulos um e dois de julgamento.

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Outro ponto problemático neste quesito foi o ritmo irregular da escola. A vermelha e branca começou a apresentação de maneira mais lenta e apertou o passo do meio para o final, o que fez com que algumas alas se embolassem e outras abrissem espaçamentos entre os componentes.

Samba-Enredo

O samba-enredo composto por Júnior Fionda, Tem-Tem Jr, Marcelo Adnet, Marcelinho Santos, Orlando Ambrósio, Domingos PS, Dudu Senna, Fábio Turko e Diego Nogueira teve um excelente desempenho no desfile oficial. Em sua estreia na escola, o intérprete Pixulé teve uma performance segura comandando o microfone oficial e mostrou entrosamento com a bateria comandada por mestre Laion Jorge. Aliás, as bossas e paradinhas executadas pelos ritmistas levantaram o público presente no Sambódromo e serviu de combustível para que o samba “pegasse” nas arquibancadas e frisas.

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Fantasias

Tricampeão no Carnaval do Espírito Santo, o carnavalesco Robson Goulart já havia atuando na folia carioca em escolas como a Inocentes de Belford Roxo em 2005, a Unidos da Ponte em 2006 e a Independente da Praça da Bandeira nos anos de 2010 e 2011. No entanto, neste retorno assinando o desfile da Unidos de Bangu, fez o seu melhor trabalho em terras cariocas. Um exemplo disso foi o conjunto de fantasias: simples, sem uso de materiais caros e de fácil leitura. Entre os figurinos de maior destaque valem ser mencionados os da bateria, chamado de “Ritual do Ajerê”, e do ala 14, denominado “Agrado aos Ibejis”. Ambas utilizavam o recurso da estamparia, que toque diferenciado as indumentárias.

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Alegorias e Adereços

Assim como outras agremiações da Série Ouro, a Unidos de Bangu apostou no gigantismo em seu conjunto alegórico. A agremiação já abriu a apresentação com um pede passagem intitulado de “A Força e Coragem no Reino de Oyó”, com uma grande escultura de um leão simbolizando a coragem e determinação do orixá.

Na sequência, o abre-alas, de nome “O Império do Senhor do Fogo… A Chama da Renovação”, retratou a morada de Aganjú e o fogo que ilumina, purifica e queima todas as mazelas da humanidade. Uma escultura gigante do orixá provocou impacto na abertura do desfile.

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A segunda alegoria, chamada “Oferendas e Ritos – Kabecilê Kaô, Xangô Menino”, deu prosseguimento as grandes proporções neste quesito. No entanto, pequenos problemas de acabamento na parte traseira, assim como um destaque que estava descalço pode provocar alguns descontos.

Nomeada de “Sincretismo à Xangô – A Festa da Renovação”, a terceira alegoria trouxe a relação feita pelos adeptos de religiões afro-brasileiras entre Xangô e santos católicos, dando destaque aos festejos para Aganjú realizados no mês de junho. Assim como a segunda, ela apresentou algumas falhas, como um buraco na cabeça de uma das esculturas do alto, na parte traseira. Nada, porém, que diminuísse o impacto visual positivo dela.

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Todavia, não foram só essas falhas que podem causar perda de pontos para agremiação. Um problema com acoplamento do abre-alas, antes mesmo da linha de início do desfile, fez com que ele passasse com duas partes soltas por toda Avenida. Com isso, a vermelha e branca totalizou quatro carros, um acima do limite. Tal fato deve acarretar em penalização para escola.

Outros Destaques

Fazendo seu segundo desfile à frente dos ritmistas da Unidos de Bangu, a rainha de bateria Wenny Isa, de apenas 13 anos, se mostrou mais solta e à vontade na função. Com uma fantasia intitulada “Isô, a Chama da Justiça”, nas cores vermelha e amarela, ela atraiu as atenções por onde passou e interagiu com o público das frisas.

Baianas da Em Cima da Hora fazem homenagem para mulheres pretas

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ECDH01 2As baianas da Em Cima da Hora trouxeram, no segundo dia de desfile do Grupo de Acesso, a ancestralidade africana e clamam pela justiça de Xangô. As mães do samba da azul e branca, neste sábado, exibiram em sua fantasia a luta de mulheres negras. “Infelizmente nem sempre existe justiça na terra, quando falamos de mulheres pretas, não existe na maioria dos casos. Estamos aqui para lutar por dias melhores”, explicou Sidneia de Freitas, presidente da ala de baianas.

A fantasia é colorida, repleta de tecidos com desenhos da cultura africana, representando a ancestralidade. Bonecas negras com cabelo afro, fotos de mulheres negras e conchas de búzios chamaram a atenção na saia. Na cabeça, as baianas carregaram argolas grandes e douradas nas orelhas e o chapéu exibia um cabelo afro.

ECDH02 2Para a presidente, a fantasia representa as mulheres negras através das fotos, representa os povos africanos através dos desenhos do tecidos e os búzios. É, também, uma fantasia com ancestralidade. “Nosso enredo conta a história da primeira advogada negra do Brasil. Com essa fantasia, não só homenageamos ela, mas também, homenageamos todas as mulheres negras. Mostramos na fantasia mulheres negras famosas que lutaram pela nossa cor”, disse.

As baianas da Em Cima da Hora dividiram opiniões. Para Silvia Ramos, guia de turismo e baiana há vinte anos, a fantasia é desconfortável. “A fantasia é espetacular, uma responsabilidade muito grande, mas não tá muito leve não”, relatou Silvia. Em contrapartida, Katia Antunes desfila como baiana há três anos e já vestiu roupas mais pesadas. “É uma fantasia tranquila de se desfilar. Já enfrentei coisas piores, vai ser tranquilo na avenida”, disse a baiana.

A escola foi a quarta escola a desfilar, no Grupo de Acesso, neste segundo dia desfile. A escola trouxe a vida de Esperança Garcia, primeira advogada negra do Brasil.

Passistas da Em Cima da Hora mostraram a importância da leitura na luta pela liberdade

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ECDH04As passistas da Em Cima da Hora trouxeram para avenida neste sábado, no segundo desfile do Grupo de Acesso, a historia de Esperança Garcia. Uma mulher negra escravizada que virou voz da resistência e lutou contra a escravidão. A azul e branco, em sua ala nove, mostrou o poder da leitura e da escrita. As passistas, representando Esperança, exibem em sua fantasia ‘horrores e abusos’ a luta de uma mulher que encontrou na leitura e escrita seu poder de luta e resistência.

A fantasia das passistas não é pesada nem complicada. Elas usaram um body dourado escuro, com um cinto na altura da barriga. Meia-rastão marrom, ombreiras com detalhes dourados e um chapéu dourado e laranja compõe a fantasia. Para as passistas, a fantasia deixa elas livres para poder desfilar na avenida.

“É muito leve, a gente tem os braços livres para poder sambar. Muitas fantasias não permitem isso. [….] O passista é a alma do samba, e o samba da Em Cima da Hora fala sobre uma mulher preta. A maioria dos passistas são pessoas pretas”, disse a passista, da Em cima da Hora, Renata Cristina. Ela estava ansiosa para representar a escola no desfile do grupo de Acesso. Renata, assim como Esperança, é advogada e mulher negra.

ECDH03As passistas tiveram a responsabilidade de levar para avenida a importância da leitura e escrita, extremamente relevante na luta de Esperança pela liberdade.

“A fantasia enaltece a leitura e escrita. […] É liberdade. […] O aprendizado é algo que a gente pode levar pra sempre na nossa vida. Ninguém tira de você o que você aprendeu lendo, ninguém tira a escrita de alguém. O aprendizado é uma riqueza pra vida toda”, explicou Maria Angelica, mulher negra e empresária, desfila há cinco anos na avenida.

ECDH01Para as passistas da azul e branca, representar esse símbolo de resistência é uma causa maior. “É um fruto de muito esforço dos nossos coordenadores. […] A leitura e escrita representa o futuro da nossa nação e precisamos incentiva-la”, diz Dandara Barbosa, mulher negra e dona de casa, é passista por mais de dois anos.

A Em Cima da Hora foi a quarta escola a desfilar, no Grupo de Acesso, neste segundo dia desfile. A escola trouxe a vida de Esperança Garcia, primeira advogada negra do Brasil.

Mancha Verde 2023: galeria de fotos

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Bangu no desfile

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A bateria da Unidos de Bangu fez um excelente desfile, na estreia de mestre Laion. Um ritmo da “Caldeirão da Zona Oeste” pautado por integrar o samba da escola a cultura musical de vertente africana. Construções musicais profundamente enraizadas em toques de candomblé foram percebidas e embalaram tanto componentes da agremiação, quanto o público presente na Sapucaí. Uma exibição com credenciais para conquistar a nota máxima.

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Na cozinha da bateria foi possível notar uma afinação de surdos de qualidade, além de marcadores de primeira e segunda que tocaram de forma firme, ditando o andamento do belo samba-enredo da Unidos de Bangu. Surdos de terceira deram balanço único ao ritmo, sem contar as participações luxuosas nos arranjos musicais. Um naipe de caixas de guerra sólido ajudou a complementar a musicalidade da parte de trás do ritmo, junto a uma boa ala de repiques.

Na cabeça da bateria, uma ala de tamborins simplesmente fabulosa tocou intercalado a um naipe de chocalhos musicalmente deslumbrante. O casamento musical entre tamborins e chocalhos deu valor sonoro a parte da frente do ritmo. Uma ala de cuícas coesa e segura ajudou na sonoridade das peças leves, junto de um naipe de agogôs que efetuou seu toque através da melodia da obra.

Uma subida na cabeça do samba deu destaque musical ao ritmo da “Caldeirão da Zona Oeste”. Contou com o balanço das terceiras, aliada a rufadas das caixas feitas com firmeza. O arranjo musical sofisticado já é praticamente uma marca do trabalho de mestre Laion.

Uma alusão musical ao “Machado de Xangô” envolvendo os surdos também foi percebida com o ritmo rolando, no final da segunda do belo samba-enredo da Unidos de Bangu. Uma requintada nuance rítmica integrada ao que a obra pedia.

Uma bossa que também se destacou foi a bela construção musical exibida no refrão do meio. Os surdos de terceira são responsáveis por apresentar um refinado Alujá, quando a “Caldeirão” tocou para Xangô. Com ritmistas de terceira de evidente qualidade técnica, o impacto sonoro da pressão dos surdos foi notada, numa convenção altamente vinculada ao enredo de vertente africana da agremiação do bairro de Bangu.

A paradinha da segunda intercalou pressão e um ritmo junino muito bem executado. Uma convenção de qualidade sonora inegável, muito bem conduzida e principalmente construída. A primeira parte da paradinha também é concluída fazendo alusão à uma batida conhecida como “Machado de Xangô” no refrão que precede o principal, evidenciando uma concepção criativa refinada. No estribilho também é consolidado um toque de Alujá, produzindo uma musicalidade de raro valor. Durante a exibição da bossa, no toque junino, bandeirinhas juninas eram posicionadas através das laterais da pista, ficando por cima da bateria da Bangu. O movimento ainda era completado por ritmistas abaixados na hora do arranjo no refrão principal, com direito ainda a pirotecnia na parte da frente do ritmo da “Caldeirão”.

As três apresentações em frente aos módulos de julgadores foram soberbas, sendo as melhores as das duas primeiras cabines. Devido ao tempo próximo do limite, a bateria da Bangu não entrou no recuo, fazendo somente a bossa junina em frente ao último módulo, mas que encantou a plateia, além de ficar evidente a boa receptividade do jurado da terceira cabine. Mestre Laion estreou na “Caldeirão da Zona Oeste” com pé direito, apresentando uma conjunção sonora virtuosa, além de arranjos musicais sofisticados e modernos. As criações musicais plenamente integradas à música ajudaram no verdadeiro sacode da bateria da Unidos de Bangu.

Componentes da Em Cima da Hora ressaltam a importância de representar a história de Esperança Garcia

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ECDH02 1A Em Cima da Hora trouxe para a Avenida a história de Esperança Garcia, a primeira mulher advogada do Brasil. Infelizmente a história de luta contra a escravidão da advogada não é conhecida pelo público. Apesar de não conhecerem Esperança, os componentes da escola se sentiram honrados em contar sua trajetória na Marquês de Sapucaí.

Vanderlita Patrocínio de Santana, técnica em enfermagem do trabalho de 50 anos, é baiana da Em Cima da Hora. Vanderlita conheceu a história de Esperança Garcia pelo carnaval e, como mulher negra, logo se identificou.

“É uma honra poder participar de uma história de uma personalidade. Estou muito feliz e agradeço a escola pela oportunidade de representar uma figura tão importante (…) Isso (a escravidão) é uma marca do negro, é uma coisa que ainda não foi superada totalmente. A gente ainda sofre com muita repressão, é uma luta diária de igualdade racial”, disse Vanderlita.

ECDH04 1Juliano Coelho, psicólogo de 40 anos, ressaltou a importância do samba da Em Cima da Hora na luta contra o racismo. Para ele, a mensagem que a escola trouxe foi muito importante.

“É muito importante. Ela (Esperança Garcia) deixou todo um legado de dias que passaram, mas hoje a gente ainda enfrenta (…) Ela veio antes para abrir o caminho para lutar contra o racismo. Hoje a gente veio para a Marquês de Sapucaí trazer essa mensagem, ‘evocar’, como diz o samba, que todos pensem e pulsem para o mesmo sentido”, expressou Juliano.

Ana Mara Barroso, secretária escolar de 55 anos, não conhecia Esperança Garcia. Após conhecer essa personalidade histórica, Mara se sentiu honrada por representá-la, justamente por ser uma mulher negra como Esperança.

ECDH03 1“Eu como uma mulher negra fico honrada em representar. Fico também triste por a gente não ter conhecimento dessas histórias de personalidades negras que não chegam para todo mundo (…) Muita coisa eu aprendi através do carnaval.

Yuri Soares, comerciante de 45 anos, é cigano. Para Yuri, o carnaval é muito importante para contar histórias de culturas historicamente reprimidas.

“Para a gente é um prazer, pois foi como o povo cigano: discriminação, luta (…) É importante o carnaval mostrar essa cultura, porque não tem ninguém que fale e que mostre. O carnaval é mundial, vai para fora do país mostrar a cultura do Brasil, é sempre bom”, explicou Yuri.