Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins
O retorno da Escola do Povo ao Grupo Especial de 2024 era aguardado por muitos motivos além da chegada da maior campeã do Grupo Especial do carnaval de São Paulo ao pelotão de elite mais uma vez. O aclamadíssimo enredo “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano”, idealizado pelo carnavalesco Sidnei França, teve sua prova final ao ser a primeira escola a desfilar no sábado de carnaval – 10 de fevereiro. Com uma estética bastante diferente do que se vê habitualmente em um desfile de escola de samba, a Alvinegra teve uma Harmonia digna de catarse e uma exibição de 63 minutos bastante competente de Renatinho e Fabíola Trindade, experiente casal do carnaval paulistano e tetracampeão na própria agremiação.

Comissão de Frente
Após dois ensaios técnicos no qual a dança, toda inspirada no break, e o altíssimo tripé estava ensacado, o mistério foi desfeito: ele representava uma famosa parada do transporte público de São Paulo, como o próprio nome do segmento expressa: “No Largo São Bento do Metrô, o Hip Hop é Imortal” – foi lá que os primeiros dançarinos do ritmo (a grande maioria da periferia, por sinal) se concentraram para se divertir e fazer arte em pleno Centro Histórico de São Paulo. É importante pontuar que, cerca de três horas antes do desfile começar, o tripé supracitado teve um princípio de incêndio, e que, em ao menos um momento da exibição, a alegoria se apagou. Com seis elencos distintos, um representando Exu (orixá que guia a escola e também está no contexto do enredo, por reger o ritmo) e cada uma das décadas entre 1970 e 2000, os coreografados por Robson Bernardino.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Com uma fantasia intitulada “A Insurgência da Arte de Rua”, os históricos Renatinho e Fabíola Trindade vieram no Setor 1, chamado “A Insurgência de Quem Tem o Corpo Fechado”. Com adornos em cores quentes (como laranja e amarelo) e uma roupa inteiramente colorida, remetendo aos traços do graffiti, todas as apresentações do Casal observadas pela reportagem, mais do que bem executadas, tiveram muita vitalidade da parte dos componentes – que, inclusive, fizeram vários movimentos relativos ao movimento hip hop, com mãos levantadas e giros do estilo de dança homenageado pela Saracura. Vale pontuar, também, que a apresentação no primeiro módulo teve duração menor que as outras três – sobretudo na quarta, em que o casal se apresentou por um tempo sensivelmente maior.

Enredo
Muito celebrado desde quando foi apresentado à comunidade do samba paulistano, todo o desfile da Saracura foi palmilhado não apenas pelo hip hop, mas por jogar luz às culturas afroperiféricas em meio à comemoração dos 470 anos de São Paulo. Destacando o já citado Exu para abrir caminhos, também foi destacado o funk, o rap, o graffiti e o hip hop para combater a arte dita de elite e todos os defensores da mesma. Com uma estética completamente distinta do que se está acostumado a ver em um desfile de escola de samba, a agremiação deixou o recado mais do que claro para o público ao longo de todo o cortejo, muito bem idealizado por Sidnei França.

Alegorias
Uma das frases que mais se falava no universo do carnaval paulistano era que o Vai-Vai viria para chocar nos carros alegóricos. Se esse era o objetivo da escola, ele foi cumprido à risca. Dos quatro carros alegóricos, ao menos três deles eram bastante distintos do que se está acostumado a ver. O abre-alas, “Laroyê, Exu!… A Decadência da Elite e o Apogeu da Metrópole Que Pulsa Com a Arte de Rua”, ironizava o Theatro Municipal de São Paulo, símbolo da elite paulistana e sede principal da Semana de Arte Moderna de 1922 (atacada em setores do desfile), cheio de ratos e pó – mas com rodinhas aparentes nos primeiros elementos, que faziam papel semelhante ao de um pede-passagem.

Já o terceiro, “Antes Crime, Hoje Arte… A Favela Pulsa nas Cores do Graffiti!” tinha a estética inteiramente pensada na arte visual do título da alegoria, bastante colorido. Por fim, o último, “Manifesto Paulistano: Ressignificando São Paulo”, trazia a famosa estátua de Borba Gato (incendiada em 2021), o MASP, arranha-céus e etc pegando fogo – e, nele, estavam personalidades como Djonga, Emicida, Gloria Groove e Rapin Hood – que causaram muita interação do público. O segunda carro, “Sobe o Som, DJ: Da Periferia Para o Mundo, o Rap!”, tinha uma estética mais próxima dos desfiles de samba-enredo, mas trazendo esculturas e ideias ligadas a um ambiente do gênero.

Fantasias
O Vai-Vai chocou pelo tamanho de costeiros e pela qualidade dos tecidos utilizados nas roupas, com detalhes como quadrinhos e cores fortes para vestir cada um dos componentes. O tamanho e a confecção dos adereços (a grande maioria deles em cores vibrantes) também impressionou. É necessário notar, entretanto, que algumas alas tiveram problemas quanto à manutenção ao longo do desfile. A ala 01′, “Ode à Rua… O Levante dos Excluídos”, tinha componentes com costeiros danificados; algumas baianas tinham dificuldade com os chapéus. Apesar de tais detalhes, porém, a exibição deixou ótima impressão quanto ao fardamento dos desfilantes.

Harmonia
Dos quesitos mais fortes do Vai-Vai nos noventa e quatro anos de história da instituição, a Alvinegra, mais uma vez, não desapontou no canto – algo que já era perceptível nos ensaios técnicos. Algo raro em 2024 também foi notado: a voz dos componentes em uníssono cantando o samba, se sobrepondo ao alto volume das caixas de som. Tal veemência para cantarolar a canção era respondida pelas arquibancadas, que inflamavam ainda mais a passarela e criavam um lindo espetáculo musical.

Samba-enredo
Se nunca foi uma das canções mais aclamadas da safra do carnaval paulistano, a canção funcionou de maneira bastante adequada ao longo de todo o desfile – já que os componentes cantaram e houve boa resposta do público presente no Sambódromo. Com uma letra que se adequa muito bem ao enredo, com gíria como “nóis”, “manos” e “minas” e a citação à consagrada música “Capítulo 4, Versículo 3”, dos Racionais MCs (que estavam no desfile), a obra também era bastante diferente do habitual e teve ótima sincronia com o que era visto. Vale destacar, também, a sustentação dada pela Pegada de Macaco, bateria do Vai-Vai, comandada por Mestre Tadeu e Mestre Beto, que executou a tão falada Paradinha Rap em três oportunidades e levantou todos os presentes no Anhembi.

Evolução
O desafio era bastante complicado. Do ponto de vista matemático e logístico, fazer 2350 componentes desfilarem por quinhentos e trinta metros e sessenta e cinco minutos é algo extremamente difícil. Ciente disso, era evidente o quanto a escola estava preocupada com sua velocidade. Aos doze minutos, por exemplo, a comissão de frente já tinha superado o Setor B – onde fica a Arquibancada Monumental. O expressivo número, porém, em determinado momento, se fez presente. Com cerca de cinquenta minutos de desfile, ficou claro que o andamento da agremiação estava mais célere, para impedir o estouro do cronômetro. Não houve, entretanto, grande correria nem buracos na passarela. E, claro: ao encerrar o desfile em sessenta e três minutos, a Saracura fica livre de qualquer punição regulamentar. O recuo de bateria, com um movimento redemoinho (virando primeiro para a esquerda, e não para a direita, onde fica o box), teve cerca de um minuto e quarenta e cinco segundos de duração, sem grandes problemas para a Alvinegra em tal aspecto.

Outros Destaques
Executora da já histórica Paradinha Rap, a Pegada de Macaco, bateria do Vai-Vai, teve, além da rainha Madu Fraga, a madrinha Negra Li – famosa rapper.

Além de revoluções industriais e trabalhistas, a Em Cima da Hora trouxe revoluções populares a Sapucaí. A ala das baianas veio representando a Revolução Praieira, ocorrida no Pernambuco, no século XVIII, foi a última rebelião provincial do Segundo Reinado. A Revolução Praieira foi uma disputa entre praieiros e conservadores, as causas da revolução eram o fim da dominação de conservadores, latifundiários e comerciantes portugueses que exploravam os trabalhadores. Os praieiros lutavam pela liberdade de imprensa, voto livre e universal, garantia de trabalho e o fim do privilégio português no comércio brasileiro.
“A baiana da Em Cima da Hora representa a Revolução Praieira que teve lá em Pernambuco. Esse clima praiano que a gente vai representar na avenida e que tem muita ligação com a questão do trabalhador, por ser uma revolução liberal. Além de que eu adorei a fantasia, a baiana fica feliz com roupa bonita, roupa bonita é leve, que aí a gente consegue evoluir bastante bem. E essa é leve, maravilhosa, acho que dá até para dar cambalhota nessa avenida se precisasse”, contou a professora de matemática e podcaster Gabriela Moreira, de 36 anos.
“É o sol, é o brilho do sol, da liberdade, uma revolução que buscava a liberdade de vida das pessoas, e nós que somos baianas botamos o nosso brilho com a fantasia, fantasia que amei. Eu tenho mais de 30 anos como baiana e adorei essa aqui”, disse a costureira.
“Essa fantasia está tão linda, representando paz, harmonia, tudo de bom que o povo no poder pode querer, assim como a revolução que ela representa. Esse azul mar só pode significar tranquilidade e o verde a esperança, esperança de um povo vivendo num mundo melhor e feliz”, pontuou Maria do Socorro Silva, doméstica de 63 anos.
O pavilhão do Arranco do Engenho de Dentro viajou no espaço-tempo em três quadros pintados pela história, com o enredo “Nise: reimaginação da Loucura” em homenagem à Nise da Silveira, uma extraordinária mulher brasileira e mundialmente reconhecida pelo papel revolucionário que desempenhou no campo da saúde mental. O abre alas representou a batalha no centro psiquiátrico do Engenho de Dentro trazendo como a Nise introduziu na psiquiatria a arte e o afeto contra o brutal e caótico maquinário tecnológico usado no tratamento dos internos.
Enrico Gomes Moraes, de 28 anos, contou sobre a importância desse enredo que representou a luta de sua mãe, que trabalha e luta por essa causa. Ele veio representando todo esse amor que sua mãe carrega: “Esse tema de tratar sobre a Nise da Silveira, por exemplo, é muita coisa para mim, porque minha mãe trabalha com pessoas que são especiais, pessoas que têm alguns transtornos psiquiátricos, pessoas que têm síndrome de down, enfim, tudo que abrange essa esfera do campo da saúde. E minha mãe, ela sai todo ano na loucura que é um dos blocos de carnaval lá do Engenho de Dentro, então, desfilar para mim hoje aqui é muito especial. Primeiro que minha mãe, ela não consegue vir, eu chamei ela, mas ela não consegue vir porque ela tem problemas de mobilidade e falou, desfila por mim lá, me representa também, porque esse é um enredo que me toca muito e tem todo esse simbolismo de levar o que minha mãe tem não só como profissão, mas também como bandeira da vida dela, que é inclusão, que é o que a Nise da Silveira sempre tratou, a inclusão das pessoas que sempre foram excluídas pela sociedade.”
O Arranco do Engenho de Dentro prestou homenagem a Nise da Silveira, uma mulher extraordinária brasileira mundialmente reconhecida por seu papel revolucionário no campo da saúde mental. O terceiro carro, intitulado “Reimaginar o Insano Universo”, representou o delírio de Momo, que personifica o desejo de reimaginar a loucura e transformar a realidade através da pintura. Essa representação destaca a importância do trabalho de Nise da Silveira na valorização da expressão artística como ferramenta terapêutica na saúde mental.
“É, esse carro representa a loucura suburbana, que é um bloco carnavalesco que sai toda quinta-feira antes do carnaval lá do hospital Nise da Silveira, onde ficavam os antigos loucos, os internados, eles ficavam lá e esse bloco se formou inicialmente com os pacientes. Hoje não, hoje toda a comunidade participa, os moradores, gente de muito longe vem pra participar do loucura suburbana, e é maravilhoso, homenagear a Nise, é muito importante para, principalmente para quem trabalha na psiquiatria ou conhece alguém que tem problemas mentais, psiquiátricos, é muito importante porque ela trouxe uma nova visão para psiquiatria, para o tratamento dos pacientes, olha, é maravilhoso esse enredo”, comentou Adriana Viter Vilarinho de 54 anos.
A Em Cima da hora prestou uma homenagem aos trabalhadores brasileiros, criticando novas e velhas relações trabalhistas do Brasil e do mundo, a agremiação trouxe acontecimentos históricos que envolvem os trabalhadores do mundo todo.
Logo no primeiro setor, um velho e conhecido paradoxo é trazido, chamado “A luta entre o homem, o tempo e a máquina”, o carro abre-alas, chamado “Revoluções Industriais – O Capitalismo X O Proletariado”, trazia na sua frente crânios dourados que, no lugar dos olhos, tinham ferragens. Além de esculturas douradas de operários que se assemelhavam a robôs, havia um grande pêndulo, girando por 360º, que parecia uma ferramenta chave fixa que em cada ponta tinha uma pessoa vestida de trabalhador.
Taiana Fernandes, de 32 anos, apresentou a sua fantasia e o que ela representava.
Para a atriz Ana Cleide Cardoso, de 55 anos, o carnaval é um nítido exemplo do quanto o trabalhador é invisibilizado:









