Vai-Vai abrirá o sábado de carnaval com enredo de oposição ao sistema com crítica importante e homenagem ao hip-hop
O Vai-Vai irá fazer algo histórico no próximo dia 10 de fevereiro. Utilizando da ótica questionadora do hip hop, a escola alvinegra além de homenagear o movimento, vai colocar em prática um desfile questionador ao extremo. Terá réplica da estátua do Borba-Gato todo pichado e queimado, um MASP vandalizado e um Teatro Municipal jogado às traças. Nem tudo terá será crítico. Além do “Manifesto Paulistano”, como cita o título do enredo, o desfile conta com a presença de vários cantores do rap nacional, dentre eles o Mano Brown, um dos principais artistas da música brasileira. Uma grande homenagem à música, grafite e esporte também estarão presentes no Anhembi.

Isso quem conta é o carnavalesco Sidnei França. A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da agremiação da Bela Vista e conversou com o artista e conheceu todo o projeto que visa o desfile de 2024. Voltando ao Grupo Especial, o Vai-Vai, maior campeão do carnaval paulistano, será a primeira agremiação a desfilar no sábado de carnaval. O título do enredo é: “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o hip hop: Um Manifesto Paulistano”, assinado por Sidnei França.
Elo entre samba e hip hop
O carnavalesco deu uma longa explicação: O hip-hop tem ligações com o samba devido ao fato de ambos serem marginalizados pela elite. Também exaltou o Vai-Vai por ser uma escola de rua. Realmente é um tema que casa bastante com a história da agremiação. “O enredo traz uma homenagem para o hip hop. A cultura hip hop é uma cultura para além de um modismo ou de uma tendência. Celebrou agora em 2023, os 50 anos no mundo e 40 no Brasil. Então são datas bonitas, datas redondas. O hip hop é um movimento que merece todo o nosso respeito, até porque o seu fundamento e a sua base é na rua, periferia e por muito tempo foi estigmatizado como rótulo de marginalidade. O samba nasceu e ainda é por muitos locais e muitas vezes marginalizado. Tem uma incompreensão muito grande a respeito do que é uma escola de samba. Durante muito tempo foi taxado como local de pessoas desocupadas, vagabundo, prostituta, drogado. Enfim, então esse estigma sempre também acompanhou o hip-hop. Então eu acho que daí cria uma sinergia e uma identidade muito forte com o Vai-Vai, que é uma escola que firmou a sua identidade na rua. É uma escola que apesar de não ter uma essência na periferia, a Bela Vista é região central, mas é o centro que abrigou um quilombo. O quilombo Saracura é o centro que por muito tempo abrigou uma parcela grande da população preta e pobre também, porque o imigrante rico foi para regiões mais abastadas e o pobre foi para a região da Bela Vista”, explicou.
Como surgiu o tema
Finalmente saiu do papel a vontade que o Vai-Vai tinha há muito tempo, que era ter um enredo deste tipo, visto que vários artistas do meio são ligados com a escola, como o carnavalesco cita. Além disso, o profissional diz que o conceituado rapper Rappin Hood foi de suma importância para a criação do enredo. “Se falava por muitos anos que o Vai-Vai podia fazer um carnaval sobre o rap, porque tem muitos rappers que são Vai-Vai – o próprio Mano Brown, Ice Blue, Rappin Hood, Dexter e uma série de rappers sempre frequentaram a escola e sempre rondou a ideia de fazer um enredo sobre o rap. E aí acabou o carnaval de 2023 e o presidente Clarício me chamou no WhatsApp, eu estava em Uruguaiana, fazendo o carnaval lá. Sempre acontece 20 dias depois daqui e eu todo ano eu vou para lá. O Clarício me chamou e disse: ‘Poxa, você deve ter mil ideias de enredo aí, mas ouve uma pessoa que eu vou te passar o contato que ela tem uma ideia muito bacana e de repente você gosta. Se você achar que não tem nada a ver, a gente dribla e foge’. Essa pessoa era o Rappin Hood, que é um rapper muito conceituado, além de ter uma história gigantesca no rap brasileiro, ele apresentou o “Manos e Minas” na TV Cultura, então ele tem um engajamento da cultura hip hop muito forte. Ele tem muita propriedade para falar sobre isso e ele me passou muitas informações”, contou.

Pesquisando e aprendendo
O aprendizado de Sidnei só aumentava. De acordo com o artista, quanto mais estudava, descobria coisas diferentes. Inclusive na forma de fazer carnaval e quais materiais iria usar na questão da plástica que o Vai-Vai apresentará na avenida. “Eu parei para pesquisar e vi que o rap faz parte da cultura hip hop. E aí eu descobri que ele é formado por quatro elementos – DJ e Mc’s que trabalham a musicalidade que forma o rap, grafiteiros e dançarinos de breaking dance. E aí eu descobri um universo riquíssimo. Então imaginar que a escola de samba desfila com três módulos de avaliação, que são o visual, música e dança. Então o visual é o grafite para o hip hop, a dança é o breaking e a música é o rap. Eu achei que tinha muita familiaridade entre as duas culturas. Fiz uma pesquisa maior ainda e comecei a imaginar como seria um desfile sobre hip hop e logo de cara constatei que seria muito diferente do que o carnaval está acostumado e isso me desafiou. E aí eu pensei: ‘Nossa, fazer um carnaval sobre hip hop deve ser meio difícil, porque você tem que abandonar arabescos, plumas, espelhos em excesso, contornos de aljofre, de galão, enfim, que é o que o carnaval se alimenta basicamente. É uma decoração mais rococó e mais rebuscada, né? Que é um padrão mais acadêmico”, disse.
Mudança de estilo e convencimento a diretoria
A cultura hip hop é além de uma dança. Há quem diga que a musicalidade seja apenas uma parte do ramo. Com isso, o estreante diz que precisou mudar os seus pensamentos em relação a como pensa o carnaval e convenceu a diretoria da agremiação a tocar na ferida de muitas pessoas, sobretudo da elite. “Eu pensei que seria covardia da minha parte desvalorizar essa cultura só para eu estar na zona de conforto de fazer um carnaval dentro daquilo que eu sempre fiz. Eu me senti provocado por mim mesmo. Eu pensava: ‘Poxa, mas será que vai ficar bonito? mas ao mesmo tempo eu também pensava que estava sendo covarde de falar isso. Você tem que enfrentar e fazer ficar bonito uma cultura que as pessoas não conhecem o carnaval também. É desbravar e desafiar. Buscar novas visões das coisas, novos ângulos e perspectivas. Olha quanta coisa foi passando na minha cabeça. E aí quando eu comecei a formatar esse enredo e desfile, eu sentei com a diretoria e falei: ‘Nós vamos ter que ser muito corajosos, porque o enredo leva uma verdade, entre muitas aspas, porque ninguém é dono da verdade absoluta, mas ele traz uma mensagem que para o hip hop é muito verdadeira, que é lutar contra o sistema. Nós temos que entender que não estamos só escolhendo o rap, breaking e o grafite. Nós estamos escolhendo uma visão de mundo que questiona a sociedade e a elite. Nós vamos ter que ter muita e coragem para levar esse discurso no peito. A escola tem que ser crítica, tem que ser dura e ácida com o governo, com a grande mídia aqui, que mercantiliza a notícia e faz tudo por um like, que é tudo que o hip hop renega. Ele não é político, mas tem uma presença muito politizada, porque tem a consciência plena de que a cultura tem o dever: Colocar o cidadão em posicionamento perante a sociedade”, declarou.

Questionamento forte e gratidão à escola
A política está ligada com o hip hop, principalmente tocar na ferida. É algo que tem um pensamento bastante ligado à esquerda. O carnavalesco diz que essa crítica é o que mais encantou ele, além de ser grato ao Vai-Vai por ter aceitado a proposta dele. “O que eu mais gosto é a capacidade que esse enredo tem de falar com diversas pessoas. Esse enredo fala muito comigo enquanto um cidadão que não aprova privilégios. Eu não apoio esse pensamento aristocrático de que quem nasceu rico, vai se perpetuar assim. A falta de mobilidade social, a falta de oportunidade é o que mais pega nesse carnaval. E nesse enredo do Vai-Vai é falar também do quanto eu desejo e o quanto eu anseio uma outra São Paulo, que olha pra rua e fala: ‘Não sou dono de nada, mas ao mesmo tempo eu tenho que cuidar de tudo’. E isso não existe. A elite quer dominar tudo, mas não cuida de nada, porque senão a gente não teria Cracolândia, por exemplo. Essa acidez é o que eu mais curto nesse enredo. Eu sempre digo aqui para a diretoria do Vai-Vai que sempre vou ser muito grato por eles terem entendido a minha proposta”, comentou.
Importância dos artistas no desfile
Como citado anteriormente, o Vai-Vai irá levar para o Anhembi inúmeros artistas da arte rap e hip hop. O principal deles são os Racionais, liderado por Mano Brown, que faz participação especial na faixa do álbum de sambas-enredo da Liga-SP em 2024. De acordo com Sidnei, é um prazer ter essas pessoas do lado e a sociedade deve aprender bastante. “Eu recebo isso como um presente, porque eles não têm obrigação de entender o carnaval de São Paulo. A escola de samba hoje obedece a um critério de julgamento e um regulamento que rege os desfiles, mas o hip hop não entende nada disso. Eles não entendem o que faz você ser penalizado, que faz você estourar tempo. E se um carro alegórico não entrar na avenida o que acontece? Eles não têm essas dimensões. Eles chegam com frescor de quem não conhece, mas respeita, tem curiosidade e quer se envolver. Principalmente nessa homenagem a eles. Tem sido muito valioso para mim até para expandir a mente e entender que o samba não é a única maneira de representar a cultura popular. A gente tem que ter essa humildade de entender que hoje no ano de 2024, se baixar um decreto e abolir as escolas de samba, só nós vamos chorar. A cidade de São Paulo não vai chorar pelas escolas de samba. Se você for aos bancos na Avenida Paulista, se você vai no autódromo de Interlagos, vão sentir pena, mas daqui um mês nem vão lembrar. A gente sim vai lamentar. Os rappers sabem muito bem o que é resistência. A gente tem muito que aprender com essa gente que vive resistindo e sabe que é taxado de preto, maloqueiro, subversivo e anarquista, mas que eles sabem que a mensagem deles é essencial. Por exemplo, para Capão Redondo, Jardim São Luiz, Jardim Ângela para estarem no mapa de São Paulo, quem colocou foi Racionais Mc’s”, afirmou.

Estética realista
Perguntado sobre as fantasias, Sidnei explica que não vai fugir da estética colorida, apesar do enredo apelativo. Cita também o realismo que as vestimentas irão mostrar para o público. “Quando eu fui pensar nas fantasias, claro que tem que respeitar a identidade do discurso do tema e do setor que elas vêm. Cada fantasia está no setor e cada setor tem uma identidade e responde a um período do hip hop, seja por época ou por movimento artístico político. Mas no geral são roupas com poucos brilhos. Ninguém vai encontrar galões, espelhos e plumas. São fantasias que têm duas vertentes. Algumas eu nem chamaria de fantasia de tão realistas que são. Tem muito figurino nesse desfile e as fantasias elas apelam porque a gente chama de hiper-realismo, que é você retratar a realidade nua e crua. Acho que vai dar uma estética muito diferente, mas eu aposto que vai ser muito bacana. Eu tenho uma esperança muito positiva da apresentação desse desfile, até porque falar da rua e falar de criminalidade. falar de violência, de abandono, de opressão, não quer dizer que vai ser um desfile monocromático. A escola vai ser colorida, mas colocando o dedo na ferida”, contou.
Trunfos no Anhembi
De acordo com o artista, a alvinegra da Bela Vista irá levar dois trunfos para a passarela. Um deles é a questão de o tema ser ligado totalmente ao Vai-Vai. Segundo o carnavalesco, dentro de outra agremiação não seria a mesma coisa. Outra coisa é a estética, que Sidnei diz que irá ser diferente das outras escolas do Especial. “Pode ser dois, porque eu vejo grandes trunfos: Primeiro é a identidade do tema com a escola. Ela está muito segura do que está falando, cantando e do que vai representar. Acho que o primeiro trunfo é que se esse enredo fosse feito em alguma outra escola que tivesse menos preocupação com o viés popular, soaria muito fake e ia ser muito artificial. Então primeiro é isso, eu acho que o Vai-Vai tem é o famoso lugar de fala. Está muito na moda falar isso, eu fico fugindo dessas palavras, hoje em dia todo mundo fala em ancestralidade e em lugar de fala, mas eu acho que no fim é isso. Apesar do termo meio surrado, ter lugar de fala para falar da rua, periferia, povo pobre e do preto oprimido, eu acho que não vai mais se construir em cima desses valores que a sociedade rejeita ou ignora. Acho que poucas escolas conseguem desfilar em São Paulo com enredo que tem. Em segundo, é o que a gente acabou de falar. Eu acho que o Vai-Vai se diferencia totalmente nesse carnaval das outras 13 do Grupo Especial na questão da plástica. Eu acho que muita gente que não entendeu esse enredo vai falar que está pobre, ou seja, mais uma vez reforçando esse pensamento euro centrado. São os dois grandes trunfos do Vai-Vai – É o enredo que fala com a sua identidade e também uma estética que se diferencia das outras para o bem e para o mal”, avaliou.
Conheça o desfile
Sidnei França explica todo os setores e contexto de alas e significado de alegorias. O carnavalesco fez questão de ser o mais detalhista possível.

Questionando São Paulo
“Toda a entrada do desfile é diferente. Abre-alas, todo aquele começo, baiana e o primeiro casal está ali também. A escola propõe uma volta em 100 anos atrás. Então o desfile de fato começa em 1922, quando vai questionar a Semana de Arte Moderna. A ideia é essa e quando eu falo questionar a Semana de Arte Moderna, é no contexto de que nós não invalidamos, não é isso, jamais, muito pelo contrário. É um momento histórico do Brasil onde refundaram valores artísticos e aflorou a identidade de um país que se assumiu tropicalista, miscigenado e sincretizado também. Então se você entender como era São Paulo em 1922, tinha muita roda de samba e grupos carnavalescos. Já existia o grupo Barra Funda, que é o embrião do Cordão Barra Funda, que depois virou o Camisa Verde e Branco, rodas de capoeiras, na Zona Leste já tinha a Tiririca que participava seu Nenê de Vila Matilde. A gente percebe que São Paulo já tinha uma efervescência preta, só que isso não entrou na Semana de Arte Moderna. A elite sempre preferiu se clausurar nos teatros, nos museus, nos grandes salões para celebrar a sua superioridade e não olhou para. Então nós não começamos falando de hip hop de fato. A gente começa debatendo uma São Paulo aristocrática, que na sua maioria das vezes não olha para rua com respeito, valorização e igualdade”.
Homenagem ao hip hop
“A gente vai para o segundo setor e aí sim a gente começa a homenagear o hip hop de fato. Então começa a falar sobre os 40 anos no Brasil dessa cultura. E aí a gente faz um passeio. Esse segundo setor é dividido em dois: A primeira metade, que é onde vem a bateria, vem bem perto do abre-alas. Depois a segunda ala depois do abre-alas. Então essa primeira metade do segundo setor homenageia o breaking. Então, por exemplo, a bateria vem vestida de Nelson Triunfo. Ele é uma espécie de um patrono de uma figura líder do movimento que primeiro era o funk e depois virou breaking no Brasil e que foi absorvido pelo hip hop. Então a primeira metade desse segundo setor é o breaking e a dança. E na outra metade nós vamos mostrar o rap. E aí é onde vem o segundo carro do desfile. O segundo carro é a união dos Mcs e dos DJs. Nesta segunda alegoria é onde nós vamos homenagear toda a vanguarda e velha-guarda do hip hop através dos grandes álbuns. Nós vamos falar do picho, que é uma modalidade que é considerada subversiva e até mesmo criminosa, porque muitas vezes o pichador ele não pede a autorização ou licença para pichar um muro, um prédio, uma fachada, uma empena de um prédio. Só que tem muita arte dentro da pichação, tem muitos códigos de cultura e de costura também. Nós vamos homenagear o picho e depois a gente vai homenagear o grafite, que hoje é uma modalidade de arte que no mundo inteiro é reconhecida. Eu também vou homenagear no desfile um projeto que eu conheci na zona leste de São Paulo, em São Mateus, chamado de Favela Galeria. Dentro da estrutura dessa favela, eles têm a intenção em algum tempo em alguns anos de ser a primeira favela na América Latina 100% grafitada. Telhado, parede, rua, escadão e viela tudo grafitado. A intenção deles é que drone e helicóptero passe e veja um distrito inteiro grafitado. E a gente vai tornar o sonho deles realidade no carnaval, porque o terceiro carro é uma favela 100% grafitada. Nós vamos grafitar uma homenagem pra Favela Galeria”
Inteligência no movimento
“O que que eu chamo de conhecimento hip hop que vai estar nesse último setor, por exemplo, as crianças vão abrir esse setor vestida de skatistas. O skate se aproximou do hip hop e passou a ser entendido como conhecimento hip hop, é esporte antes não se falava de esporte no hip hop com essa aproximação dos skatistas com os rappers com os b-boys e com os grafiteiros que é todo mundo da rua, né? Ocupa a rua então o skate acabou sendo abraçado e foi entendido como cultura de conhecimento. Outro exemplo, é agora que nós também vamos ter nesse último setor do desfile, é o breaking; Ele alcança a Academia Brasileira de Letras. Então já tem um movimento para o Mano Brown ser um Imortal da Academia Brasileira de Letras. Outra coisa que vai estar nesse último setor são as batalhas de rima que acontecem nas estações de metrô, nas praças e bibliotecas de São Paulo. Nós já temos as rodas e as pessoas ficam duelando. É o que eles chamam de poesia urbana”
‘Fogo na estrutura’
“Último carro é o próprio movimento manifesto paulistano. Então nesse último carro nós pretendemos ressignificar São Paulo a partir da ética hip hop. Então nesse último carro nós vamos trocar o lema do brasão de São Paulo ao invés do “Non Ducor Duco”. Vamos colocar algo que nos represente mais, então vamos tirar isso porque é em latim e nós não falamos latim. É um discurso, “Não sou conduzido. Eu conduzo”. É, ele é dominador, ele é aristocrata e substituindo. “Não somos invisíveis, existimos”, representa mais a verdade do Povo de São Paulo. Uma outra proposta que está nesse manifesto paulistano é queimar o Borba Gato. A ideia é a escola desconstruir, pichar e queimar o Borba Gato, que foi o que tentaram fazer agora em 2018. Outra ideia que a gente vai fazer é uma nova ocupação do MASP, porque o MASP representa a artística plantada na Avenida Paulista e que é o símbolo do capitalismo brasileiro. Nós vamos fazer macumba, nós vamos fazer despacho e o próprio MASP, ele vem com alguns dizeres, vai vir pichado com manifesto de reivindicação de direitos proletariado para o povo pobre preto. Nesse mesmo carro, por exemplo, nós vamos ter também várias placas de trânsito, de rodovias, de praças e de ruas rebatizadas. Então, por exemplo, nós vamos trocar a Fernão Dias por Madrinha Eunice e Raposo Tavares por Geraldo filme.
Ficha técnica
Quatro alegorias
Um tripé
2.600 componentes
Série Barracões: Com uma estética imponente e diferenciada, Império Serrano contará a história heroica de cada orixá do candomblé
Muita vontade de voltar ao Grupo Especial. Esse é o sentimento que todo imperiano vai levar para a disputa do carnaval na Série Ouro em 2024. Após um rebaixamento considerado injusto por muitos, o Império Serrano quer mostrar toda sua potência, deixando claro que não deveria ter saído do Grupo Especial. Para isso, o carnavalesco Alex de Souza contará a história de cada orixá cultuado no candomblé, um enredo sempre muito representativo. Mas se engana quem pensa que o tema é batido. O artista quer representar todas essas entidades de uma forma diferente a tudo o que já passou na avenida. Alex não irá focar na abordagem ritualística, mas sim na visão de que os orixás seriam guerreiros ou reis de determinados territórios. Além disso, trará um colorido bastante especial, apostando na combinação com a luz do dia. Com alegorias imponentes, o Reizinho de Madureira dará uma demonstração de força.

O Império Serrano será a última escola a desfilar no sábado de carnaval e levará para a avenida o enredo “Ilu-Obá Oyó – A gira dos ancestrais”, mostrando a importância de cada orixá na cultura trazida pelos africanos para o Brasil através da formação do candomblé.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, Alex de Souza revelou que a ideia do enredo partiu dele ao querer representar os orixás de uma forma diferenciada em comparação ao que se costuma ver em desfiles desse tipo:

“A ideia foi minha, foi uma coisa que eu já estava pensando. Já no outro ano ainda, eu comecei a ver o trabalho de inteligência artificial, de ilustrações, de várias mitologias, de várias culturas e senti falta justamente dessa cultura iorubá. Eu não vi os orixás representados, eu vi deuses de várias procedências, de várias culturas. E aí fiquei imaginando como seria interessante e criativo retratar os orixás de uma maneira diferente, com um design mais moderno e contando a história deles como reis, como guerreiros. Saindo apenas da questão ritualística, apenas da questão de culto. E aí eu pensei, como que eu vou contar? Em que ordem eu apresento eles? E aí pintou o xirê, é a forma como no ritual o orixá vem à terra, se incorpora no seu iniciado, seu filho, e você tem uma ordem hierárquica de apresentação. Aí eu fui me aprofundar sobre a história do candomblé, como é que o candomblé surgiu no Brasil, quem criou, como foi isso. Aí eu cheguei no livro de Pierre Verger, a casa de Oxumarê, que ele conta tudo isso, porque ele fez pesquisas no Brasil e fez pesquisas na África”, falou Alex.
O carnavalesco do Império contou que a pesquisa mais aprofundada para o enredo foi de muito aprendizado, já que ele não tinha tanto domínio sobre o tema. Inclusive na questão das cores de cada orixá, que é o grande trunfo de seu desfile, em sua visão:

“Cada representação que eu fazia, eu procurava saber de onde é. Quem foi, o que representou. Foi um rei, foi um fundador, foi um orixá de criação, quer dizer, criou o mundo, fez parte da mitologia de fato, ou foi de carne e osso. Xangô eu já conhecia um pouco a história, porque eu fiz no Salgueiro, os outros eu não conhecia. Então, foi muito interessante aprender sobre isso. Cada orixá tem a sua cor, tem determinados elementos que caracterizam a sua história. Acabou que a gente será a última a desfilar. O desfile será muito colorido, porque aí você tem aquela massa de alas representando os orixás, com cores predominantes, já que eu gosto dessa coisa de cor em bloco. E aí eles vêm numa sequência. Eu imagino cores muito alegres, muito vivas. O samba é maravilhoso, do Aluísio Machado, alegre, para cima, bateria fantástica. Então, acho que vai ser um dia muito feliz, muito alegre, e que você, sabendo do enredo e olhando isso, até esquece o próprio fundamento, você tem uma coisa diferente. Eu acho que a gente está preparando um grande carnaval para encerrar a Série Ouro e almejando ficar entre as seis primeiras. E contribuir para que a Série Ouro, como um todo, faça um dia especial, fora do Grupo Especial”, disse Alex.
O artista trabalhou no Grupo Especial durante muitos anos e estava acostumado com os barracões da Cidade do Samba. Alex disse qual é a maior diferença em termos de estrutura para o barracão em que está atualmente fazendo o carnaval do Império:

“Eu acho que a própria estrutura que a Cidade do Samba criou, onde você tem um grande pátio, e três andares com passarelas, você tem uma visão de cima das alegorias. Você tem um quarto andar onde se prepara as peças e aí tem aqueles guindastes que trazem as peças. Você tem uma estrutura diferente, porque aqui a gente está no plano. A gente até está em um barracão para o grupo de acesso que é bacana, muito próximo da concentração, um pé direito alto e é um espaço grande, estamos até dividindo com outra escola, a Acadêmicos de Niterói. Mas o que eu sinto mais falta é a questão de você não ter uma marquise, uma coisa alta para poder dizer melhor. O lugar mais alto que eu tenho é em cima do próprio carro alegórico”, falou o carnavalesco.

Embora estivesse muito tempo longe do carnaval do grupo de acesso, Alex se surpreendeu consigo mesmo ao não sofrer tanto quanto imaginava. Isso muito se deveu às condições de trabalho, que para a Série Ouro são boas:
“Se a gente tem dificuldade no Especial, imagina no acesso. Tem muito mais dificuldade. A última vez que eu fiz o grupo de acesso foi no ano de 2005, em que nós vencemos na Rocinha e subimos pro Especial. De lá para cá, eu fiquei todos esses anos no Especial. Então, já é um bom tempo distanciado do acesso. Eu achei que iria estranhar mais, eu achei que iria sofrer um pouco mais, mas pelo espaço que temos, que é até muito bom, e pelo que a gente está conseguindo fazer aqui dentro, acho que superou minhas expectativas positivamente, mas a gente quer subir”, disse o carnavalesco.
Contando com sua grande experiência no carnaval, o artista revelou já ter aprendido a se virar com o que tem. Mas para Alex, o grande desafio é o tempo:

“Eu acho que o papel do carnavalesco em um determinado momento do processo é realmente ter muito jogo de cintura e saber driblar as dificuldades. Você tem que ter um raciocínio muito rápido. E eu aprendi, até mesmo no tempo que eu trabalhei no acesso, que foram muitos anos também, de você saber que se não tem isso, então a gente troca por aquilo, se não dá para fazer assim, vamos fazer de outro jeito. Porque a gente tem que saber driblar várias situações, mas uma das questões mais complicadas é a questão do tempo. Tempo é um inimigo, porque você tem que driblar o tempo. E aí também tem a dificuldade financeira, a dificuldade com o material, a dificuldade com mão de obra. Então, você faz um projeto, você sonha muito. O problema é fazer esse projeto virar realidade, se materializar. Então, para se materializar, tem que ser muito versátil para chegar próximo daquilo que sonhou”, falou Alex.

O carnavalesco do Império evitou falar sobre o futuro. Alex prefere se preocupar em entregar um grande carnaval e só depois disso definir quais serão os próximos passos:
“Eu acho que o futuro a Deus pertence. A gente pode imaginar coisas, mas elas só acontecem. Vai chegar o momento do sim ou não. Mas, por enquanto, não há nada. O que me importa é que a gente está chegando perto do carnaval. Eu quero terminar de maneira tranquila, quero que fique mais próximo daquilo que sonhei. Que a escola faça um belo desfile, e que a gente consiga o melhor resultado. A partir daí, o que vier é lucro”, disse o artista.
Em seu desfile, o Império Serrano levará três alegorias, um tripé, além de um elemento cenográfico para sua comissão de frente.
Conheça o desfile da escola
Setor 1: “Nós vamos começar com esse cerimonial que é o xirê, onde a gente vai trazer os orixás e contar a história de cada um como fundador, como rei, pertencente de alguma cidade, algum reino que compunha esse grande império yorubá, que é o Ilu-Obá Oyó, que o Império Serrano está reverenciando. Nós abrimos com Exu naturalmente, porque sem Exu nada se começa. Então, a gente traz um tripé com Exu em um Itã, pois dizia no Orum que ele batia, que ele batucava, ele cantava para os orixás. E um dia, os orixás pediram para ele parar de fazer aquela cantoria toda. Quando pediram para ele retornar, ele disse que não faria mais. Deu o cargo a Ogan para fazer isso. E aí surge a figura de Ogan, que é o cargo de santo que faz a festa, que faz a cantoria, que bate. Em seguida, com seus irmãos, com Ogun e com Oxóssi, que é o carro Abre-alas. São os reinos referentes a Ogun e a Oxóssi. Um dado muito interessante é a própria figura de Ogun representada de uma maneira diferente. Para ele ganhar o reino dele, ele teria cortado a cabeça de um rei e oferecido para o seu pai. Horrorizado, não podia ver a cabeça do outro rei, mas permitiu, deu a ele algum reino”.
Setor 2: “Depois, a gente vem com uma sequência de orixás, que são Obaluae, Ossain, a bateria, que é o Ogan, e Oxumaré. E vem com o carro de Dan, de Daomé, que são as sete serpentes que formam arco-íris. Em seguida, a gente vem com todo o reino de Oió, vem com Xangô e suas mulheres, Oxum, Obá e Iansã. E com o segundo casal, com Orunmilá, é o Itã de Euá. E vem com o tripé de Xangô, o quarto alafim de Oió”.
Setor 3: “Na parte final, a gente encerra com Logun Edé, Nanã e Iemanjá, e traz a figura de Oxalufã, e encerra com o carro dos orixás funfum, que são os orixás brancos. A própria escola, pegando a coroa de Oxalá, consagrando o Império Serrano e trazendo membros da sua velha guarda, seus fundadores, que são grandes figuras. A gente fala dessa espiritualidade que também pertence ao Império, de grandes figuras do Império que fundaram a escola e que tiveram o cargo de santo, mães de santo, não exatamente do Candomblé, mas de casas de Umbanda e da própria figura do Mano Eloy, um dos fundadores da escola, que foi um dos primeiros a divulgar as canções dos orixás gravados em LP. Então, a história do Império Serrano é também muito forte com essa relação de fé africana. O enredo conta a história de como surgiu o Candomblé no Brasil”.
Série Barracões: São Clemente levará história e vida de Zé Katimba para Avenida e sonha com retorno ao Grupo Especial
A São Clemente levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “Que grande destino reservaram pra você”, do carnavalesco Bruno de Oliveira. A obra conta a história do baluarte Zé Katimba, um dos maiores compositores de samba-enredo do Carnaval carioca e um dos fundadores da Imperatriz Leopoldinense. Na Série Ouro pelo segundo ano seguido após desfilar por 11 anos no Grupo Especial, a escola sonha com o retorno à elite do Carnaval carioca.

Para a busca pelo acesso, a aposta será na força de Zé Katimba somada à uma comunidade unida e feliz, como afirma o carnavalesco da Preta e Amarela. O enredo, segundo ele, planeja elencar as principais vivências da trajetória do homenageado, mas sem seguir uma ordem cronológica: “Arte através de arte”.
“O Carnaval da São Clemente em 2024 vai cantar a vida do Zé Katimba. Não iremos priorizar a linearidade cronológica, pois estamos falando de arte através de arte. Vamos carnavalizar a história e os efeitos do potente baluarte do carnaval carioca. Teremos uma São Clemente feliz, unida e com um carnaval que foi feito em família. O presidente sempre fala que aqui é uma escola de família, e realmente é. Toda essa energia do Zé está sendo transmitida para a construção do desfile de 2024. É uma São Clemente mais leve, mais competitiva e feliz”, diz Bruno.
Segundo o carnavalesco, a ideia de homenagear Zé Catimba surgiu após o presidente da agremiação, Renato Almeida Gomes – o Renatinho -, revelar o desejo de ter um enredo nordestino. Foi durante pesquisas por um tema, que o compositor André Diniz sugeriu uma homenagem ao sambista. O texto do enredo foi preparado por Bruno, Diniz e André Bonatte – que faz parte do Departamento Cultural da Imperatriz.

“Em uma conversa, o compositor André Diniz disse que tinha uma ideia que fugiria um pouco do que o presidente pediu, mas que também iria bater. A partir disso surgiu a proposta de falar de Zé Katimba, um nordestino, compositor e morador do Rio de Janeiro. A ideia foi como um presente, e depois de me aprofundar na história do Zé tive ainda mais certeza. Apresentamos para o presidente, que na hora topou. O Diniz é muito amigo do Zé e foi preparando ele, já que por ter essa paixão pelo carnaval e pelo samba, esperava muito por esse momento. Quando o presidente ‘bateu o martelo’, chamamos o Zé e o André Bonatti. Foi um texto feito a seis mãos”, conta o carnavalesco.
Nascido em Guarabira, na Paraíba, Zé Katimba veio para o Rio de Janeiro aos dez anos, clandestinamente junto com os pais. Durante a viagem, sonhou com uma cigana sereia que soprou em seu ouvido a frase “que grande destino reservaram pra você”. Compositor desde a adolescência, viu a consagração chegar justamente quando utilizou o verso em um samba-enredo da agremiação que ajudou a fundar: foi em 1971, junto com Gibi, que compôs “Martim Cererê”, samba-enredo da Imperatriz no Carnaval do ano seguinte.
Uma espécie de mantra na vida de Zé, a frase se tornou um portal para o grande sucesso do compositor e da escola da Zona da Leopoldina – não à toa, tornou-se o título do enredo da São Clemente. O verso é o ponto central de tudo que será apresentado na Passarela do Samba.

“A história dele é imensa. Procuramos pegar as melhores situações, composições e momentos para levar à Avenida. Quando ele veio para o Rio com a família, teve um sonho com uma cigana sereia que soprou em seu ouvido a frase ‘que grande destino reservaram pra você’. Ele guardou isso. Quando foi em 1971, nas disputas de samba para o carnaval de 1972, ele usou essa frase. O samba ganhou uma grande notoriedade ainda na disputa. Foi o primeiro samba-enredo a participar de uma trilha sonora de novela. Com essa explosão, a Imperatriz fura a bolha das quatro escolas da época. Essa frase deu notoriedade para a vida dele enquanto compositor e para a própria escola”, explica.

Um baluarte do carnaval carioca e do samba, Zé escreveu inúmeras canções com Martinho da Vila e João Nogueira, seus parceiros de jornada. Ao todo, o artista assinou 13 sambas-enredos na agremiação da Zona da Leopoldina e possui mais de 800 composições gravadas.
Feliz e emocionado pela homenagem, o sambista disse a Bruno que a São Clemente era um dos destinos reservados pela cigana sereia para a vida dele. Zé também contribuiu na elaboração da obra, mas não fez qualquer exigência. A Rainha de Ramos também terá um momento no desfile e vai ser representada em uma das alegorias.
“Ele está tão feliz que não palpitou, disse para eu fazer o que meu coração estava pedindo. Quando mostrei os figurinos e apresentei os projetos, ele ficou muito emocionado. Deu ok em tudo e me deixou muito à vontade. Desde a construção do enredo à produção ele tem sido uma pessoa muito importante com seus conselhos e experiências. Zé Katimba sempre fala de amor e um dos amores da vida dele é a Imperatriz. A escola terá sua alegoria”, conta o carnavalesco.

O desfile da São Clemente também marca a estreia de Bruno de Oliveira como carnavalesco de uma escola da Marquês de Sapucaí. Ele iniciou a carreira no mundo do carnaval em 2006, na própria agremiação de Botafogo, como estagiário de figurinos. Na Imperatriz Leopoldinense, se especializou na área e também passou pela Unidos de Padre Miguel. Foi em 2020, na Caprichosos de Pilares, que Bruno assinou o seu primeiro carnaval. Para ele, estrear no Sambódromo sob o comando da Preta e Amarela com um enredo sobre Zé Katimba é motivo de muita responsabilidade e desejo de retribuição: “Parece que as coisas se encaixaram para este momento”.
“Aqui foi o lugar em que comecei meu primeiro emprego, e agora estou começando como carnavalesco na Marquês de Sapucaí. Eu falo para o Zé que esse título do enredo serve para mim, porque estou chegando na agremiação como carnavalesco com uma homenagem ao fundador da uma escola que me profissionalizou no carnaval. É muito trabalho e ansiedade para tudo dar certo, além da responsabilidade que é levar para a Avenida um enredo sobre Zé Katimba. Eu quero retribuir a oportunidade que a São Clemente está me dando e fazer um excelente trabalho. É uma responsabilidade dupla, espero poder contribuir com as notas máximas na busca pelo retorno ao Grupo Especial”, revela Bruno.

Além da vida de Zé, o grande trunfo para a Avenida é a presença do artista, que estará no abre-alas da escola, representando a cidade de Guarabira em festa. Bruno, apesar de ser um carnavalesco relativamente novo, acredita que o tratamento refinado e as fantasias leves são características de seu trabalho que não podem ficar de fora do desfile da São Clemente.
“Eu sempre pensei em introduzir fantasias mais leves nas escolas de samba, de acordo com os moldes que são feitos os figurinos do carnaval. A São Clemente me ajudou a trazer esse pensamento. Também estou buscando dar um tratamento mais refinado e delicado, que é algo que sempre gostei e estou podendo introduzir aqui na escola”, explica.
Conheça o desfile da São Clemente
A São Clemente será a sexta escola a desfilar no sábado de Carnaval. A agremiação vai levar para a Avenida três alegorias e um tripé. Ao todo, serão 17 alas e cerca de 1700 componentes. Para contar a história de Zé Katimba, o enredo foi dividido em três setores.
Setor 1: “Começamos o primeiro setor com Guarabira em festa. Vamos celebrar a vida do poeta, presente com seus conterrâneos e pedindo a benção de Nossa Senhora da Luz para agradecer por tudo que ele conseguiu enquanto um grande contribuinte da música popular brasileira”.
Setor 2: “É a musicalidade e seus diálogos com os frutos musicais que nascem das múltiplas experiências da vida do Zé. Ele compôs obras que tinham uma conotação político-social, além de canções que retratavam o amor em diversas formas. O grande sucesso musical vem através das composições que ele fez para Imperatriz durante a carreira. Também vale lembrar que o Zé Katimba foi inspiração para o personagem interpretado por Grande Otelo na novela ‘Bandeira Dois’. A sua composição para o Carnaval de 1972 fez com que a Imperatriz pudesse participar da primeira trilha musical de uma novela. E devido ao sucesso da música, a escola conseguiu furar o bloqueio das quatro grandes agremiações da época”.
Setor 3: “É um mergulho dos sonhos infantis que nascem em Guarabira, através do conto da sereia com a frase ‘que grande destino reservaram pra você’, que é o título do enredo e a frase usada no samba de 1972 – que deu uma notoriedade para a sua vida. É o que faz a gente se ancorar com a conotação da história, sobrevoando todo o universo do nosso homenageado”.
Entorno do Sambódromo será ‘vigiado’ no Carnaval 2024 por 90 câmeras conectadas ao Centro de Operações
Por Guibsom Romão e Matheus Morais
O presidente da Riotur, Ronnie Costa, abriu a coletiva de planejamento da Prefeitura do Rio para o Carnaval 2024, especialmente, sobre a operação da Marquês de Sapucaí. Ele citou que o trabalho foi feito em cima de muito estudo e de muitas mãos.

O Centro de Operações Rio terá imagens de 90 câmeras, com 60 operadores. O trabalho será 24 horas por dia, sete dias por semana. Foi feita uma parceria com o Waze e as interdições das vias vão ser informadas em tempo real pelo aplicativo Cor.rio. “São muitas operações na cidade inteira. Temos diversos movimentos de entradas e saídas na cidade. Especificamente para o Sambódromo teremos 90 câmeras. A plataforma Waze terá todas informações dos bloqueios. No aplicativo COR.RIO o cidadão terá tudo em tempo real”, frisou Marcus Belchior, chefe-executivo do Centro de Operações Rio (COR).
A secretário de Ordem Pública vai atuar na fiscalização de ambulantes legalizados e irregulares, coibir a venda de bebidas em garrafas de vidro, patrulhamento preventivo, fluidez de trânsito e manutenção dos bloqueios viários, auxílio na dispersão dos carros alegóricos, fiscalização de estacionamento irregular, fiscalização de táxi e transporte complementar, auxílio ao público e distribuição de pulseirinhas de identificação para crianças, atuação da Ronda Maria da Penha para coibir flagrantes de violência contra a mulher e fiscalização da área de manobra dos carros alegórico que acessam a Marquês de Sapucaí.
Saúde
A secretário de Saúde montou a operação no Sambódromo, de 19h às 6h, nos dias 9, 10, 11, 12 e 17 de fevereiro. Com seis postos médicos, localizados nos setores 1, 2, 7, 10, 11 e na Apoteose. São 32 leitos (7 de suporte avançado de vida) e 16 ambulâncias avançadas por dia de desfiles. São 220 profissionais envolvidos.

Transporte
As linhas provenientes da Zona Sul e Centro, com destino à Tijuca, Zona Norte e Av. Brasil, que trafegam pela Rua Frei Caneca, farão desbio pela Praça da República e devem seguir pela pista lateral da Avenida Presidente Cargas, sentido Praça da Bandeira.
Entre os dias 9 e 12, e no dia 17 de fevereiro, o acesso dos táxis às áreas bloqueadas se dará da seguinte forma: até às 21h: liberado para todos os táxis, das 21h às 8h somente táxi.rio e táxi especial; após às 9h liberado a todos os táxis.
Para o deslocamento dos carros alegóricos as principais interdições a partir de 1h de quinta-feira (08/02): Av.Brasil, Av Rodrigues Alves, Túnel Marcello Alencar e Túnel Rio 450. A Avenida Presidente Vargas terá interdição de quinta para sexta para o posicionamento das alegorias.
Haverá na operação da CET-Rio: 275 operadores de trânsito por dia, 25 viaturas, 10 reboques, 38 paineis de mensagens e 49 motocicletas.
Acesso ao Sambódromo – Via Metrô
Funcionamento o tempo inteiro do sistema do Metrô, a partir das 5h de sexta-feira (09/02) até 23h59 de terça-feira (13/02). Extensão até 1h do dia 14/02 nas estações Central e Praça Onze para os desfiles das escolas mirins.
“O metrô é o principal meio de transporte do carnaval. A operação especial começa na sexta-feira. Vamos funcionar 24 horas até quarta-feira de cinzas e depois retornamos com essa operação no sábado das campeãs. Durante todo o período de operações especiais as estações Presidente Vargas e Catete vão estar fechadas por questão de logística. A estação Cinelândia vai funcionar das 6h até 20h, é importante que as pessoas utilizem a estação Cariocas. Recomendamos que as pessoas carreguem o cartão Giro com antecedência ou com o unitário antes e o pagamento por aproximação. Temos estrutura robusta na estação General Osório para Zona Sul. Fizemos uma campanha educativa para as pessoas respeitarem todas regras de segurança, respeitarem as mulheres, não sujarem o metrô e não urinarem nos trens e estações”, disse Pedro Mello, diretor de operações do MetrôRio.
Linha 1 e 4: Uruguai-Jardim Oceânico
Linha 2: Pavuna-General Osório
Setores ímpares, concentração no “Balança mais não cai” e “Terreirão do Samba” – desembarque na estação Central
Setores pares e concentração nos Correios: desembarque na estação Praça Onze

Secretária da Mulher

Em noite de celebração, comunidade comparece em peso no último ensaio de rua do Tuiuti e desfila com muita garra e alegria
Há uma semana do desfile oficial, o Paraíso do Tuiuti “desceu o morro” pela última vez em São Cristóvão neste pré-carnaval e fechou o ciclo de ensaios de rua para o carnaval de 2024. Desde o final de outubro do ano passado, abrilhantando as noites de segunda-feira com muito samba no Campo de São Cristóvão, a Azul e Amarela da Zona Norte, neste teste final, aproveitou, para , antes de tudo, confraternizar entre segmentos, componentes e a comunidade. Fantasiados, como para os antigos bailes de carnaval, teve pierrot, colombina, rainha, outros personagens menos óbvios, como o “fofão” e a “minnie”, mas também teve muito ensaio, foram cerca de duas horas de treino no deslocamento entre o Colégio Pedro II e a Quadra do Tuiuti. Em seu discurso, o presidente Renato Thor ressaltou a organização da escola para estes treinos e para o carnaval que irá colocar na Avenida, inflamando os componentes a desfilarem com muita vontade de vencer. O diretor de carnaval André Gonçalves explicou que além da preparação, a ideia principal para esta segunda-feira era que o folião do Paraíso do Tuiuti pudesse se confraternizar uns com os outros em um momento de muita alegria para chegar no desfile bastante leve e felizes, também por mais uma temporada de muitos ensaios concluída.

“Hoje foi uma grande festa, elaboramos uma grande festa, estamos prontos para o dia 12, para entrar na Avenida, fazer um belíssimo trabalho, um belíssimo desfile, um belíssimo carnaval, apresentar o que a casa sabe fazer, o que a comunidade sabe fazer que é o carnaval. A gente vem de muito tempo batendo na trave, volto a dizer, estávamos fazendo um trabalho incansável, mas nunca falando que estávamos prontos. Hoje eu posso falar para vocês que estamos prontos. Realizamos mais um ensaio, porém um ensaio para a gente poder curtir esse dia maravilhoso, é como se fosse uma confraternização, mas também foi um belo ensaio”, esclarece o diretor.
André também aproveitou para colocar que a escola está bastante tranquila nesta reta final em direção ao carnaval 2024, pois tem tudo concluído e uma escola pronta para buscar surpreender de novo, como foi em 2018.

“Estamos bem tranquilos, carnaval todo pronto, estamos entregando fantasias, o nosso barracão está pronto, nossas alegorias todas prontas, tudo que a gente pensou para a Avenida, já está pronto”, destaca o profissional.
Com um canto que manteve o bom rendimento de outros ensaios de rua do Tuiuti, a escola mais uma fez viu a bateria SuperSom de mestre Marcão se destacar com bom andamento, ritmo e bossas bem elaboradas como uma em forma de marcha e homenageando João Candido e sua profissão, bem no trecho “Salve o almirante negro…”. Com 40 anos de Sapucaí, ou seja desde o início do sambódromo, mestre Marcão revelou que apesar da experiência o frio na barriga sempre dá.

“São quarenta anos de Sapucaí, eu entrei em 1984 na bateria. Já fiz 40 anos, graças a Deus. A expectativa é sempre a melhor e o sentimento é sempre de como se fosse a primeira vez que vou pisar na Avenida. A gente sabe que treino é treino, jogo é jogo, ainda não estamos jogando, só treinando ainda, hoje foi o último treino, daqui a pouco a gente está lá na Sapucaí, semana que vem, vai ser interessante”, promete Marcão.
O comandante da Supersom avalia todos esses meses de trabalho e ainda destaca que há surpresas que só vão pintar na segunda-feira de carnaval quando o Tuiuti fizer a curva na Sapucaí.
“Está tudo redondinho, estamos fazendo aquilo que preparamos desde junho, algumas coisas modificamos neste período, até mesmo para poder ficar tudo casado com o carro de som, com a comunidade, a cada hora vem uma ideia boa. Depois do ensaio técnico, tive uma reunião com a minha diretoria, já planejamos uma outra coisa para fazer no dia, estivemos analisando os ensaios, está todo mundo de parabéns, cada um com a sua proposta, e estamos nessa luta. Como diz o diretor Claudinho, não é briga, mas luta, temos que lutar sempre”, finaliza o mestre de bateria da Azul e Amarela de São Cristóvão.

Dentro deste momento de preparação, que era também de celebração, o Tuiuti também trouxe a abertura da escola com a comissão de frente coreografada por Claudia Motta e Edifranc Alves e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane. Claudia e Edifranc trouxeram dois elencos, apresentando uma coreografia mais elaborada, mais próxima do que se pode esperar na Avenida, o que teve uma boa receptividade do público que acompanhava da calçada. Intensa e pontuando samba em diversas partes de forma bastante didática e fácil de acompanhar pelo público, mas com emoção e carregada com o peso do simbolismo histórico que o enredo do Tuiuti promete trazer. Logo depois no desfile, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. Combinados no azul em predominância no traje, a dupla mostrou o entrosamento de sempre e a dança mesclando passos um pouco mais coreografados, bem dentro do enredo, e o bailado característico e clássico de um casal de mestre-sala e porta-bandeira. Na pista, apesar da proximidade do desfile, não teve ninguém se poupando, apesar de que alguns cuidados para não correr riscos desnecessários sempre são bem vindos.
“A gente tem que ter uma atenção redobrada, como um quesito importante, a gente vem para o ensaio de rua há uma semana do nosso desfile, exatamente sete dias, então tem que ter um cuidado com os nossos corpos que são os nossos instrumentos de trabalho, então hoje foi com muita atenção, mas não viemos segurando, só que em um estado maior de alerta e atenção maior. E o frio na barriga é sempre o mesmo, acho que a responsabilidade de cada quesito é ano a ano, no carnaval, a cada temporada se apresenta um novo trabalho, uma nova proposta, uma nova coreografia no nosso caso, não tem como não entrar na Avenida com esse friozinho na barriga”, revela a porta-bandeira do Tuiuti, Dandara Ventapane.

A “dancinha” no “Lerê, Lerê mais um preto lutando pelo irmão…” que vem fazendo sucesso nos ensaios de rua, é extraordinária e original, transmitindo alguns passos afros com potência e ritmo e não ficou de fora neste teste. A apresentação foi marcada por simbolismos e ancestralidade. Raphael Rodrigues também explicou que o processo de preparação para o desfile contou com algumas etapas e que a espontaneidade da dupla foi colocando possibilidades na dança do casal para este carnaval 2024.

“Todo projeto tem sempre um período de criação e adaptação, e finalização, que é no dia do evento. Mas , graças a Deus, eu e a Dandara, a gente conseguiu agrupar tudo isso muito bem. A gente consegue conversar, a gente primeiro entende o que que é, o que que significa, o que que isso pode influenciar na gente, e depois a gente começa a colocar em prática as criações. Entre a gente é muito bom porque surge tudo muito naturalmente, a gente dançando na frente do espelho surge um passo, a gente guarda isso, a gente até brinca que todo ensaio, toda brincadeira nossa tem que ser filmada, porque sempre surgem algumas coisas do nada, como surgiu nessa coreografia. Tem muitos passos que chegaram de forma espontânea e a gente só aprimorou eles e viemos aprimorando cada vez mais. E temos ensaiado bastante para no dia chegar ao nosso grande objetivo”, avalia o mestre-sala, que está na escola desde 2022, ao lado da mesma parceira.

O ensaio ainda contou com a participação do filho de João Cândido, Seu Candinho, um senhor de quase 90 anos que neste treino veio a pé, mostrou muito vigor e alegria. O samba, uma obra com a cara do Tuiuti destes últimos anos, produzida pelos mesmos autores, mais uma vez passou bem impulsionado pela voz de Pixulé que mostrou bastante resistência ao cantar a obra por duas horas ao lado de seu carro de som. No fim, poupando a garganta, o cantor que volta ao Grupo Especial, agora pelo Tuiuti, após dez anos, limitou-se a enfatizar ao site CARNAVALESCO que a comunidade do Paraíso do Tuiuti está pronta para cantar e evoluir bastante.

“Essa comunidade tem sido maravilhosa, um show. Se o desfile fosse hoje, Tuiuti estaria ponta”, finalizou o intérprete estreante no Quilombo do Samba.
No carnaval de 2024, o Paraíso do Tuiuti levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “Glória ao Almirante Negro!”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, e vai homenagear João Cândido. A Azul e Amarela será a penúltima escola a desfilar na segunda-feira de carnaval.
De olho nos quesitos: jurados de fantasia apontam acabamento, leitura e paleta de cores repetitivas como principais justificativas
De acordo com o manual do julgador da Liesa, o julgador de fantasia precisa observar além da beleza do figurino das alas e sua adequação ao enredo se o uso de materiais está adequado, se o entendimento é facilitado ou não e ainda deve apontar eventuais situações repetitivas. Ao se apresentar completa na avenida, uma escola de samba precisa parecer um grande “tapete” multicolorido.

A série ‘De olho nos quesitos‘ apresenta nesta reportagem uma minuciosa análise das notas e justificativas dos quatro julgadores de fantasia nos últimos carnavais. Paulo Paradela e Regina Oliva só não julgaram em 2020 nos últimos cinco anos. Sérgio Henrique e Wagner Louza estão no júri desde 2020. Os quatro terão a incumbência de avaliar os figurinos das 12 escolas do Grupo Especial na avenida este ano.
O site CARNAVALESCO levantou as justificativas mais utilizadas pelos quatro em seus julgamentos mais recentes e traz um guia aos carnavalescos sobre quais os temas mais causam perda de pontos. Assim como outros quesitos da festa, a fantasia se subdivide em concepção e realização. As perdas de pontos na maioria das vezes apontam para a realização. E a justificativa mais corriqueira nesse sentido é o acabamento das roupas. Se há partes caindo do corpo dos componentes, se algum tipo de iluminação está funcionando ou se eventuais maquiagens estão se desfazendo com o suor.
Outro aspecto bastante empregado nas justificativas é a leitura das fantasias. Não basta que elas estejam bem feitas, coloridas, criativas e com o emprego de diferentes materiais. Elas precisam dizer algo, precisam fazer sentido naquela parte do desfile e entrem com o fácil entendimento daquilo que representam. Caso contrário, os julgadores retiram décimos.
Um terceiro ponto bastante cobrado pelos jurados trata da paleta de cores. Se um determinado desfile tem um setor inteiro no mesmo tom de cor ou se a apresentação da escola como um todo abusa de uma mesma tonalidade, os julgadores também descontam décimos. O apuro visual das roupas, o excesso de informação, a volumetria das fantasias e a repetição de soluções estéticas em diferentes alas são outras justificativas enfatizadas pelos julgadores para punir as agremiações.
Julgadores de 2024 distribuíram 81 notas 10 em cinco anos
Os quatro julgadores do quesito fantasias aplicaram, desde 2018, 81 notas 10 para as escolas do Grupo Especial. O índice é quase metade (46%) das 176 notas totais distribuídas entre 2018 e 2023. 57% das notas máximas dadas por eles foram para as escolas de segunda-feira. Um índice mais equilibrado que em outros quesitos.
O julgador mais ‘generoso’ do júri deste ano é Sérgio Henrique. Ele é o único dos quatro que possui o índice de notas 10 acima dos 50%. Foram 20 notas 10 nos três anos que julgou, uma média de 6,6 por ano. Já Paulo Paradela é o mais exigente. 41% de suas notas nos quatro anos analisados foram 10 (21 de 51 notas dadas). Média de 5,25 por ano.
Viradouro ‘perde’ 0,5 décimo por ano e Mocidade quatro
A Viradouro é a escola de maior excelência no quesito a julgar pelas notas atribuídas pelos julgadores nos últimos cinco anos. Mesmo não tendo desfilado em 2018, a vermelha e branca de Niterói só perdeu dois décimos em 12 notas recebidas, o que dá uma média de apenas 0,5 décimo perdido por ano. Como não é possível perder meio décimo (se perde no mínimo um) pode-se sustentar que a escola é praticamente perfeita no quesito.
A Mocidade Independente de Padre Miguel, dentre aquelas que desfilam pelo menos quatro dos últimos cinco anos, é quem possui o desempenho mais baixo na média. A escola já perdeu 2,2 pontos em fantasias desde 2018 e só tirou quatro notas 10 em 14 possíveis. Isso dá uma média de perda de quatro décimos por ano.
Além da Viradouro as escolas com o melhor desempenho em fantasias são Vila Isabel, Mangueira, Salgueiro e Beija-Flor (0,1 décimo perdido por ano). As de desempenho mais fraco, além da Mocidade, foram Imperatriz e Tuiuti (0,3 por ano). Vale ressaltar que a série ‘De olho nos quesitos’ analisa apenas as notas dadas pelos jurados de cada quesito que estarão julgando em 2024. Notas atribuídas por outros jurados que não compõem o júri deste ano não foram analisadas.
Série Barracões SP: Camisa cumpre promessa e retorna ao Especial para homenagear legado de Oxossi
Doze anos depois, o Camisa Verde e Branco, nove vezes do carnaval paulistano, desfilará no Grupo Especial de São Paulo. E a história do enredo é bastante curiosa. Ainda no Grupo de Acesso I, a agremiação fez uma promessa para o orixá que guia os caminhos da instituição: quando o Trevo voltasse, Oxossi seria a temática da exibição. O projeto original foi mudado e recebeu o nome de “Adenla – O Imperador nas Terras do Rei”, que contará como três figuras (Faraó Piye, Mansa Musa e Adriano) honram o legado da entidade de religiões de matizes africanas. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Renan Ribeiro, idealizador do enredo, deu detalhes sobre a exibição – que abrirá os desfiles do Grupo Especial de São Paulo, na sexta-feira, 09 de fevereiro.

Sintetizando
Como dito, a promessa de homenagear única e exclusivamente Oxossi foi mudada. Mas, nas palavras do carnavalesco, apenas isso mudou no fio condutor da temática: “O enredo não teve alteração nenhuma. Às vezes é até comum no processo por questões técnicas. Aí, a gente faz alguma alteraçãozinha aqui, outra ali – o samba, às vezes, também faz com que a gente mexa no texto. Mas isso não aconteceu, a gente não teve nenhuma alteração no projeto. Fizemos só uma amarração mesmo, de correção. O que ganhou força dentro do decorrer desses meses de trabalho foi a ideia de monumentar a construção que a negritude fez baseada nessa memória genética, que os reis homenageados plantaram na história da negritude. Esse era um dos links que faríamos e a questão das dinastias africanas que culminaram em reposicionamento social ficou mais presente. Isso tudo foi condensado e se tornou um amálgama para poder fazer com que a negritude tivesse no Adriano um exemplo disso: um enredo que busca mostrar o impulso de reposicionamento social, econômico, financeiro e político dentro da sociedade”, comentou.
Muito além da religião
Muitas vezes apresentado como uma entidade unicamente ligada à fé, o orixá, nos dias de hoje, também ganhou outra conotação importantíssima, na visão de Renan: “A história de Oxossi como uma figura política me chamou muita atenção. É comum a vertente religiosa e espiritual dele como orixá. O lado divino dele já foi muito explorado, já desfilou algumas vezes no Carnaval do Brasil, mas a figura política dele me chamou muita atenção. E, apesar de ter feito um enredo político só e ser taxado como um carnavalesco político, o enredo tem algumas questões que tocam em questões políticas – mas não partidária, na parte de luta de classes. O que me chamou atenção é que todas as figuras homenageadas tocam, de alguma forma, nessa parte política”, pontuou.

Para exemplificar, o carnavalesco destacou como cada um dos homenageados impactará no desfile – aproveitando para destacar o que, para ele, será o ponto forte da exibição: “Oxossi, faraó Piye – talvez o mais veemente de todos por conta do reposicionamento dele dentro da política egípcia, de sair de um povo escravizado para se tornar líder do povo egípcio. Esse setor me encanta, talvez seja o meu setor favorito. Gosto muito da estética do Egito, mas também gosto muito do setor textual do Mansa Musa. Acho que ele merece um enredo só dele porque ele desmistifica e desconstrói o que a gente entende por África hoje, de gente faminta e ligada à miséria. Acho que esses serão os principais trunfos do desfile”, apostou.
Estética em pauta
Pouco depois, entretanto, Renan deu outra ótica para o ponto alto da exibição: “Eu não tenho como falar o que eu acho que chama mais atenção porque em cada setor da escola nós temos um recomeço de desfile. A gente muda a estética completamente: abrimos com uma África mais geométrica, com uma estética quilombola; depois, vamos para uma África egípcia, com uma estética completamente diferente; e vamos para uma África islâmica, árabe. Quando entramos nesse setor, a gente já tem essa memória genética reverberando na atualidade. Depois, falamos sobre movimentos políticos e do black power até a gente desencadear em um carro que é meio favela, meio Roma, coliseu. A estética é completamente maluca, no último setor eu tenho até algo meio Joãosinho Trinta. O último carro também tem muito a mão do Leonardo Catta Preta [carnavalesco que chegou ao Camisa em dezembro]. Foi uma mudança que a gente teve no projeto por sugestão dele, mais baixo. Encerraremos o desfile com algo mais teatral, mais elementos humanos em cima do carro, com vibração. Não com esculturas, espelhos e bandôs, não com uma grandiosidade material, mas com um elemento humano bastante presente. Eu destaco pontos porque eu tenho praticamente quatro desfiles dentro do mesmo desfile falando em questões estéticas”, refletiu.

Citando outras coirmãs que também desfile na sexta-feira, Renan pontuou que optou por seguir um caminho diferente: “Esteticamente, a gente tem um desfile africano que quase não é afro. Na mesma noite do Camisa, desfilam Independente e Dragões da Real, duas escolas muito fortes também com enredos africanos – mas com temas mais tradicionais, com um arco mais ligado à savana. A gente não tem essa estética aqui, faremos algo mais tribal. Falando de reinados africanos, teremos outro ponto de vista estético, saindo das pelas animais (como zebras e gnus) para mostrar a diversidade que a África tem. Essa foi uma escolha minha”, bancou.
Setorização
Sobre a divisão da agremiação, o carnavalesco se preocupou em trazer tudo que será apresentado para o Continente Espelho: “Cada setor ele vai desmistificando um estereótipo plantado no consciente coletivo sobre o que que é África. Eu começo falando que existe um continente que foi empobrecido, roubado e saqueado. Essas histórias vão desconstruindo a ideia que a África é isso: a África foi tornada assim. E, aí, eles se ligam a Adenla. A coroa do rei para mostrar que todos eles foram ligados à nobreza, dinastias, reinados e uma riqueza absurda. Eu falo de Oxossi como uma figura política porque ele desconstrói uma ideia de africano com um conformismo de subalternidade, de subserviência, de inferioridade. Ele deixa de ser um aldeão para se tornar um rei, ele recoloca dentro da sociedade dele. Ele já desconstrói esse estereótipo de que africano é escravo e não escravizado. O faraó Piye descontrói a ideia da África entregue, de que não é um continente onde se plantou muita luta. Líder dos núbios e dos cuxitas, ele se torna faraó do Egito. Mansa Musa descontrói a ideia da pobreza e da miséria africana, sendo o homem mais rico da Idade Média – quando, no consciente coletivo, os grandes impérios eram os europeus. No último setor, tudo isso vai se condensando e se afunilando para se tornar essa história sendo reverberada – ele sintetiza tudo aquilo que o sangue traz. Se a gente for dividir em setores, penso que cada personagem, dentro do enredo, descontrói um ícone dos estereótipos construído na África”, comentou.
Cotidiano apreensivo
Ao ser perguntado sobre como era o dia a dia em tudo que envolve a instituição, Renan fez uma confissão: “Foi, de longe, o carnaval mais difícil dos três que eu fiz pelo Camisa. Mais difícil que os do Grupo de Acesso porque subimos pro Especial ainda nos reestruturando. Não tem como dar um cavalo de pau em onze anos de Grupo de Acesso, subir e ter a mesma estrutura de outras escolas que nunca caíram. Tem sido muito difícil a minha rotina aqui, eu boto a mão na massa, vou para a mesa de corte e para a máquina de costura, vou para ateliês, trago fantasias. Tenho participação constante fora a participação que tenho com a própria escola de conversar com todo mundo, receber destaque por destaque no barracão, acompanho chefes de ala… o trabalho tem sido muito puxado porque o Camisa, em comparação a outras escolas, ainda tem uma equipe reduzida por questões orçamentárias. Queremos fazer um carnaval competitivo para manter o Camisa no Especial. Está todo mundo trabalhando dobrado para fazer um carnaval de excelente nível, acredito que vamos abrir o carnaval de São Paulo do jeito que o Camisa merece, a gente vai surpreender muito. São os setenta anos da escola, os cento e dez anos do cordão… vamos abrir o Especial em alto nível”, prometeu.

Ainda falando da escola, Renan aproveitou para relembrar uma situação vivida bem recentemente: “Eu era frequentador de ensaio, olho, avalio, canto e ensaio junto. O enredo afro era o desejo da escola já que é ligado à própria identidade da agremiação, todos se sentem à vontade com uma temática como essa. Quando revelamos o enredo, ninguém entendia muito bem o que era um enredo africano com a participação do Adriano. Conforme foram saindo as primeiras matérias, eu fui conversando com os próprios componentes e eles foram entendendo o que era, quais eram os caminhos, do que se tratava… o samba sintetiza e amarra bem o enredo, se tornou muito mais deglutível para a comunidade – e eles entenderam o recado. Até as eliminatórias eu tinha um pouco de desconfiança, e olha que ela foi de altíssimo nível. O samba ganhou algumas enquetes de melhor do Grupo Especial e isso vai ajudando na autoestima da escola: é o Camisa Verde e Branco, uma escola absurdamente tradicional, fazendo a lição de casa – que é ter uma boa bateria, um bom enredo, um bom samba, uma boa Evolução e uma boa Harmonia. O samba pegou, dentro e fora da instituição. A autoestima retornou e a escola está embalada, feliz, empolgada, animada… é um conjunto de fatores que faz com que a escola esteja cantando assim. No último domingo, teve ensaio na quadra, saí da Fábrica do Samba atrasado, o evento já tinha começado na quadra e, dois quarteirões antes, eu estava escutando os componentes no nosso terreiro – e fazendo eco. Apesar disso, o João [Victor Ferro, diretor de carnaval da escola] marcou ensaio de canto porque a gente sempre acha que pode melhorar ainda mais”, surpreendeu-se.

Para Renan, a principal preocupação do staff do Trevo são quesitos que envolvam algo além do canto e do samba-enredo: “Apesar do chão do Camisa e da empolgação da escola, a gente também busca uma linha mais técnica pensando muito em entregar a questão de critério de julgamento de regulamento. Esse ano a gente também vem na mesma forma para poder buscar os mesmos resultados. O desempenho da comissão de frente, por exemplo, é na entrega dos balizamentos; o Alex Malbec e Jessika Barbosa (casal de mestre-sala e porta-bandeira), a mesma coisa, dando aquele tempero. Em todos os setores a gente tem buscado isso. Fantasias, alegorias… a gente vai ‘fazendo os checks’, ‘ticando’. Pensamos nisso porque o Camisa é a emoção, o momento, a catarse. Isso o Camisa faz sem precisar de ensaio. O componente já é emocionado por si só. Precisamos ensaiar a parte técnica. Com essa questão redonda, a gente vai ter um desfile um equilíbrio entre técnica e pegada – como foi no desfile do ano passado”, lembrou-se.
Privilégio do Grupo Especial
A Fábrica do Samba é um espaço que reúne todos os barracões das escolas do Grupo Especial – quem está no Grupo de Acesso I e II fica na Fábrica do Samba II, conhecida popularmente como Fupe. Para o carnavalesco, o novo espaço é muito mais adequado para todos os envolvidos: “Você sai de uma construção mambembe para algo meio Big Brother. É muito diferente, principalmente para alegoria – que é o maior abismo que existe. Hoje, o Grupo de Acesso é absurdamente disputado, a gente tem grandes escolas lá – eu sempre ouvi que é o terceiro dia do Grupo Especial, que fazem carnavais gigantescos à mão. Um carnaval gigante com uma estrutura ínfima é complexo: você tira um carro alegórico da Fábrica do Samba II com o máximo de quatro metros e meio de altura para chegar a quinze metros, tem que montar mil peças para ter o direito de sonhar chegar no Grupo Especial. Aqui na Fábrica do Samba, já saímos com sete metros, a metade do caminho para a alegoria. A gente consegue ver o carro alegórico inteiro, de cima, quase em 360°. No outro local, vemos ele de baixo – já que não tem como subir em um carro. Aqui, a gente também consegue fazer um ateliê de costura e de corte, fazer a produção das fantasias parcialmente. A diferença de estrutura é gritante, principalmente nas alegorias – que ficam infinitamente melhores”, comemorou.
Peso do pavilhão
Ao ser perguntado sobre o que o público poderia esperar da agremiação, Renan Ribeiro deu uma dimensão do quão confiante está o Trevo no retorno ao Grupo Especial: “Para o pessoal que vai estar sexta-feira no Anhembi: o Camisa volta em um momento muito propício, marcando os setenta anos da escola e os cento e dez anos do cordão da Barra Funda – que é a origem não só da agremiação, mas de todo o carnaval de São Paulo. Para quem sente saudade do Camisa no Grupo Especial, quem vai estar na arquibancada, assistindo na televisão ou na internet, vai ver uma escola potente, grande e volumoso – do jeito que todo mundo esperava. A gente vai matar essa saudade em grande estilo: vai ser emocionante e comovente. Teremos já no abre-alas grandes figuras, nossa Velha Guarda, Casal Soberano [Gabi e Vivi, históricos mestre-sala e porta-bandeira da agremiação], matriarcas, baianas na frente para abrir os caminhos… esses setenta anos vem aos pés de Oxossi: o padroeiro da escola traz a dinastia e sua corte toda aos seus pés. A linha real do Camisa vem de cara: os setenta anos de uma escola tradicionalíssima, que é absurdamente preta e de comunidade”, finalizou.
Ficha técnica
Alas: 16
Alegorias: 04


