Início Site Página 678

Série Barracões: União da Ilha trará o olhar lúdico das crianças pretas para combater o racismo com educação e amor

0

Depois do justo rebaixamento de 2020 no Grupo Especial, a União da Ilha do Governador fará seu terceiro desfile em sequência no carnaval da Série Ouro. Sonhando em retornar à elite, a escola seguirá apostando no talento e competência do carnavalesco Cahê Rodrigues. Dessa vez, o artista resolveu apostar em dois temas que a Ilha tem predileção, por ter gerado desfiles de muito destaque. Ao unir a africanidade com o mundo infantil, criou o enredo de 2024, que teve grande aceitação da comunidade. Crianças passaram a frequentar a quadra da escola, incentivados pelos componentes ao explicar a história que Cahê pretende desenvolver na avenida. Jovens pretos começaram a se sentir representados, encorpando ainda mais a Ilha, que sempre foi tradicionalmente bastante popular. E pelo que se vê no barracão da escola, mesmo em condições não tão favoráveis em termos de estrutura, os sambistas podem esperar um trabalho estético de alto nível. Alegorias muito grandes, limpas e impactantes. Um dos carros deve chegar a 15 metros de altura no ponto mais alto de sua escultura principal. Além disso, serão vistos mecanismos giratórios, demonstrando que a direção da União da Ilha também aposta e investe bastante no próximo carnaval. Mas a principal mensagem estará contida no enredo, que será um grande manifesto antirracista através do olhar infantil, utilizando a educação e o amor como armas nesta importante luta.

ilha barracao24 6
Fotos: Rafael Soares/CARNAVALESCO

A União da Ilha será a quarta escola a desfilar no sábado de carnaval, dia 10 de fevereiro, pela Série Ouro, na Marquês de Sapucaí. A agremiação irá levar para a avenida o enredo “Doum e Amora: Crianças para transformar o mundo!”, de autoria do carnavalesco Cahê Rodrigues.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, o artista falou sobre como surgiu a ideia do enredo e de que forma o livro do rapper Emicida ajudou no desenvolvimento:

“Eu já tinha um enredo pré-desenvolvido falando de crianças transformadoras, e aí, conversando com a minha equipe de enredistas, a gente se deparou com a obra do Emicida, que completou tudo aquilo que faltava dentro da nossa concepção, que era juntar o afro com o infantil, que são dois temas que a Ilha gosta muito de fazer. E aí, o livro Amoras, do Emicida, nos deu essa possibilidade de fazer um enredo com um olhar infantil, mas tendo uma roupagem africana. Então, não é uma África pesada, não é uma África terrosa, como a gente costuma ver, é uma África infantil, dentro de um tema infantil. E aí, nasceu Doum e Amora, crianças para transformar o mundo. Então, foi uma junção de ideias dentro de uma conversa na equipe, que nasceu a ideia de falar sobre o enredo antirracista inspirado no livro do Emicida”, disse Cahê Rodrigues.

ilha barracao24 3

O carnavalesco contou que viveu episódios muito marcantes em sua infância e adolescência em que seus amigos foram alvo de racismo. Cahê trouxe essas memórias como uma importante motivação para realizar seu carnaval, mas buscando retratar esse contexto sem tanta dor, muito mais com o olhar puro das crianças. Ele ainda contou um belo momento sobre uma menina preta na escola:

“Eu fui uma criança, um adolescente que conviveu muito com negros. Os meus melhores amigos são negros, as pessoas que eu tenho, que eu carrego no meu coração, são negras, então eu já vi de perto muitas situações de racismo. Eu nunca vou sentir a dor que eles sentem, o que eles já sentiram, mas eu pude ver de perto muitas coisas que doeram em mim poder presenciar. Então, quando eu olho para essa história, quando eu vejo a possibilidade de um homem branco como eu poder tocar num tema desse, poder desenvolver um enredo desse, peço permissão à ancestralidade preta, conversando com pessoas, porque eu não sei trabalhar de outra forma, não sei deixar de ouvir as pessoas que estão inseridas dentro desse processo. Um dos meus enredistas é um homem preto. A escola tem muitos exemplos pretos, pessoas que carregam histórias muito bacanas. Então, eu procurei ter muito cuidado, porque enredo sobre racismo já passou um monte na avenida. Mas quando a gente olha para a Ilha e vê o enredo que tem como protagonistas duas crianças pretas que vão contar essa história de uma outra forma, isso que me encanta, poder tocar em temas tão sensíveis e necessários, mas sem agressão, sem dor, sem corrente, sem chicotada. Não que eu esteja fantasiando e floreando uma história que a gente sabe que não é bonita, mas na ocasião, para o nosso enredo, a gente tem essas crianças que vão nos ajudar a contar isso de forma mais leve, mostrando que não é com agressão, não é com chicotada, não é com palavrão que você vai transformar a humanidade. Você só vai conseguir transformar a humanidade através da educação e do amor. Porque ninguém nasce racista. As pessoas aprendem a ser racistas por falta justamente de uma educação antirracista dentro de casa, dentro das escolas. Então, Doum e Amora vão transformar a vida das pessoas através dos seus olhares. Quando eu comecei a ter alguns sinais de que a gente estava no caminho certo, foi quando a filha de uma menina da escola, quando ela viu a logo do enredo, ela falou para a mãe dela que a menina se parecia com ela, porque é uma menina negra de cachinhos. Então, aí você vê o protagonismo da criança preta que nunca existiu. Ou existiu de forma camuflada. Quando você vê uma criança olhando para um logo de um enredo e apontando para a mãe que aquela menina se parece com ela, eu acho que já é uma vitória do nosso enredo, independente de qualquer coisa”, falou o artista.

ilha barracao24 2

Cahê disse ter muito carinho por todo o desenvolvimento do enredo, mas revelou algumas partes do desfile em que aposta bastante, por conta de sua beleza e significado muito fortes:

“Eu sou muito apaixonado nesse enredo e pelos momentos que a gente vai apresentar, mas eu acho que a abertura da Ilha, a entrada da escola esse ano vai ser mágica. A nossa frente é muito bonita, o nosso Abre-alas trazendo o Doum é muito bonito. É muito significativo esse céu de África trazendo a imagem do Doum. A escola toda está muito bacana, mas eu acho que um outro ponto que vai ser muito bonitinho também vai ser o tripé, que vem logo depois do carro Abre-alas, que traz Amora, que é apresentada dentro desse contexto da ciranda dos orixás, com as ferramentas dos orixás, como se a gente estivesse materializando a logo do enredo no desfile. Então, você tem um livro que salta de dentro dele essa energia, essa espiritualidade de Amora, cercada por esse carrossel de ferramentas dos orixás, e é onde vem Belinha, também nesse tripé de Amora, então acho que vai ser bem bonitinho de ver”, apostou o carnavalesco.

ilha barracao24 4

O artista preferiu não afirmar que o desfile da Ilha será o maior de sua história no grupo de acesso, mas demonstrou muita confiança de que representará um divisor de águas para a agremiação:

“Eu não sei se vai ser o maior, cada desfile é um desfile. O desfile de Nossa Senhora Aparecida foi arrebatador, foi lindo. E eu considero um dos grandes desfiles da história da Ilha. Não só porque estava no Grupo de Acesso, mas eu acho que o Vendedor de Orações foi um grande desfile. Eu acho que Doum e Amora vai ser um divisor de águas dentro de uma escola onde, de alguma forma, a gente também está ensinando as pessoas essa educação antirracista. Eu acho que quando a gente fala de um bom enredo, ele só vale a pena quando a mensagem fica. Quando a gente aprende alguma coisa com ele. Então, eu olho para a quadra da Ilha hoje cheia de crianças. Eu nunca vi aquela quadra com tanta criança, eu nunca vi tantas crianças perto de mim. Parece uma coisa que realmente o mundo espiritual ele carrega, ele traz isso para perto da gente. Não sei se vai ser o maior desfile da União da Ilha, mas eu acho que vai ser um desfile que vai marcar a história da União da Ilha e que vai emocionar o sambódromo pela mensagem, pela verdade que a gente carrega e por tudo, todo o cuidado que a gente está tendo com o tema deste carnaval”, disse Cahê.

ilha barracao24 5

Após muitos anos de trabalho no Grupo Especial, em escolas como Imperatriz, Grande Rio, Portela e Porto da Pedra, Cahê está em seu terceiro ano seguido com a União da llha na Série Ouro. O artista contou as principais dificuldades que encontra no barracão em que está atualmente, em comparação com a estrutura da Cidade do Samba:

“Não tem estrutura nenhuma de trabalho. A Ilha ainda é uma escola que se preocupa em fazer uma sala, tem um ar-condicionado, fez um banheiro. Mas até pouco tempo eu estava brigando aqui com órgãos, com lideranças da prefeitura, para poder vir aqui jogar um remédio de mosquito, porque um monte de gente com dengue nessa região, os barracões infestados de mosquito, ninguém faz nada. E aí eu estou vendo meus funcionários adoecendo, barracões vizinhos também reclamando da mesma coisa. Essa situação a gente não passa na Cidade do Samba. E aqui a gente tem que se virar nos trinta para poder trabalhar de forma digna e dar pelo menos um pouco de estrutura às pessoas que estão aqui dentro. Essa é a maior dificuldade. É a falta de segurança, a falta de higiene. E aí você acaba tendo que se preocupar. Não só com a feitura do carnaval, mas com as pessoas que estão aqui dentro trabalhando. Acho que existe uma diferença muito grande em estar dentro da Cidade do Samba e fazer um carnaval fora muito competitivo como a Ilha faz, porque é uma escola que é muito esperada, se cobra muito da Ilha um grande carnaval e a gente trabalha nas mesmas condições que todas as escolas da Série Ouro, não é diferente. Então, é driblar esses problemas e poder fazer um carnaval digno da Ilha, dentro de uma estrutura muito ruim, é o nosso maior desafio”, desabafou o carnavalesco.

ilha barracao24 1

Ainda neste tema, o artista falou sobre as formas que ele e a escola encontraram para driblar as dificuldades financeiras e estruturais para o desenvolvimento do carnaval, buscando novos recursos e apostando em uma equipe muito competente:

“A gente vai dando o nosso jeito. Acho que a Ilha tem uma boa administração, então o presidente tem consciência de que a gente precisa apresentar um grande carnaval. Ao mesmo tempo, a gente sabe que recebeu a mesma grana que todo mundo, não foi diferente, então aí ele também corre atrás de outros recursos, de apoio de empresários, de amigos, que sempre ajudam a escola. O orçamento da escola, claro que vai ultrapassar a subvenção que a escola recebeu, porque é um projeto para disputar título. A gente teve que fazer praticamente carros novos, estruturas de ferro novas, a escola gastou muito com madeira e fibra, coisa que no ano passado a gente não gastou tanto. No conjunto de fantasias houve um investimento também muito grande, então é uma escola que tem essa obrigação, independente das dificuldades de fazer um grande carnaval, e isso demanda muito tempo, dedicação, jogo de cintura, porque a gente tem que procurar sempre caminhos, pensar em plano A, B, C, o tempo todo. Eu mudei o meu projeto, por exemplo, umas três vezes, porque o dinheiro chegou muito em cima do laço e não dava para ficar brigando pelo projeto original, porque não ia sair. Você acorda e entende que não vai ter tempo de concluir o projeto original. E pensa no plano B, C, D, porque senão você vai ficar todo enrolado aqui, foi o que eu fiz. A estrutura foi feita, o carnaval é grande, os carros são grandes, mas eles precisam ser finalizados. E aí, com pouco dinheiro, como faz? Então, é realmente driblar os problemas com materiais alternativos. Eu também agradeço a equipe que eu tenho aqui dentro, que é fantástica. Minha equipe de ferreiros, de carpinteiros, de decoração, são pessoas muito comprometidas. E aí, somado à minha praticidade, que eu tenho em lidar com as dificuldades, e à administração da escola, que entende também que a gente precisa fazer um grande carnaval, independente das dificuldades”, explicou Rodrigues.

Cahê disse não se sentir desprestigiado por trabalhar na Série Ouro. Ele revelou que a União da Ilha devolveu seu prazer em fazer carnaval, pois é uma grande escola que o tirou da zona de conforto do Grupo Especial:

“Eu fiquei muitos anos no Especial, então, pra mim, estar lá não é novidade. A minha satisfação e alegria enquanto artista é ter paz e respeito onde estou trabalhando. Não me sinto diminuído pelo fato de estar na Série Ouro. Posso dizer que hoje eu estou muito feliz. Talvez eu tenha encontrado na Ilha uma alegria e um prazer de trabalhar que eu já não sentia há muito tempo. Então, para o artista que faz carnaval, é indiferente ele estar na Série Ouro ou no Especial. Até porque não adianta eu estar no Especial e não conseguir fazer um grande projeto ou não conseguir levar meu carnaval para a avenida, como já aconteceu em outros anos. Porque a gente sempre vai ser julgado pelo trabalho que atravessa o sambódromo. É claro que quando eu olho para as questões de estrutura de trabalho e a questão financeira, o Grupo Especial te dá muito mais possibilidades de um salário mais digno, de uma estrutura decente. Mas na Ilha eu encontrei essa alegria. Depois que eu comecei no acesso, e depois fui para o Especial, você acaba se acomodando um pouco. É normal, porque você encontra ali uma grande estrutura e só não faz um grande carnaval se você não quiser. Na Série Ouro é diferente. Se você não tiver experiência de barracão, se não tiver jogo de cintura, se não tiver um bom relacionamento com os profissionais, a coisa fica mais difícil. É claro que eu almejo em algum momento voltar para o Especial. Eu tenho projetos, tenho enredos que são para o Grupo Especial, e que eu sei que não vou conseguir fazer na Série Ouro por uma questão de investimento. Mas não me sinto diminuído pelo fato de estar na Série Ouro. Pelo contrário, eu agradeço todos os dias o fato de estar empregado em um momento que está tudo tão difícil para todo mundo. E eu estou em uma grande escola, a Ilha tem uma grande bandeira. Me sinto honrado em fazer parte da história da Ilha. E vou trabalhar até o último momento para ver essa escola de volta ao Grupo Especial”, refletiu o artista.

O carnavalesco da Ilha afirmou não ter planos traçados para a sequência da carreira. Cahê quer fazer o máximo possível pela escola e, depois do carnaval, aguardar o que o futuro reserva para ele:

“Na minha vida inteira eu nunca fiz planos. As coisas sempre foram acontecendo naturalmente. Nunca bati na porta de ninguém para pedir emprego, nunca liguei para ninguém. Eu não tenho esse perfil, dos famosos puxadores de tapete. Eu sempre espero e não faço planos. Carnaval é uma caixinha de surpresas, a gente nunca sabe o que vai acontecer. Hoje uma escola que é cotada para ser campeã pode chegar na hora e não acontecer. Então, a gente não sabe nunca o que está reservado para nós. Eu faço o meu trabalho pensando no meu carnaval. O que vai acontecer depois é consequência de uma série de coisas. Então, hoje o meu projeto é trabalhar até o último momento para ver a Ilha fazer mais um grande carnaval. E o que vai acontecer depois, se eu vou continuar na escola, se eu vou para outra escola, eu vou deixar acontecer. Não tenho contato de ninguém, não tenho convite de ninguém, como muitas pessoas ficam especulando. É claro que uma hora ou outra aparece alguém que fala alguma coisa, faz uma ligação ou algo mais concreto. Mas eu deixo a coisa acontecer, se tiver que ser, será. Se um convite tiver que vir, virá. E o que tiver guardado para mim, será meu porque está escrito”, disse Cahê.

Conheça o desfile da União da Ilha

Setor 1: “Doum e Amora, crianças para transformar o mundo, é um enredo inspirado livremente na obra do Emicida, Amoras. É um tema de educação antirracista e que foi dividido em quatro setores. O primeiro setor é quando a gente apresenta Doum, que chega ao céu de África e traz com ele toda a sua ancestralidade, toda a sua espiritualidade. Então, é um setor que a gente vai tratar exclusivamente da apresentação e chegada desse personagem. Ele é o protagonista desse primeiro momento do enredo”.

Setor 2: “O segundo setor é quando a gente apresenta Amora, a menina com a cara do Brasil. Também dentro desse perfil de menina de periferia, porque Amora pode ser qualquer menina de qualquer favela do Rio de Janeiro, do Brasil, do mundo. Então, é uma menina que representa a caminhada de todas essas meninas pretas que passam por tantas coisas ao longo do seu crescimento e que por falta de uma educação antirracista acabam sofrendo muito, principalmente na primeira idade, vamos dizer assim. Então, é um setor que a gente também vai falar desse universo de Amora, da sua ancestralidade, da sua origem, dos seus saberes, do seu habitat, do seu dia a dia dentro da sua comunidade”.

Setor 3: “O terceiro setor é quando Amora encontra Doum e aí os dois trocam experiências, trocam saberes e Amora apresenta Doum à sua comunidade. Onde ela mora, as suas brincadeiras, os seus costumes. Doum vai começar a se deparar também com as lutas diárias dos pais de Amora, em meio à luta contra o racismo, só que isso tudo com o olhar da criança. A gente sempre vai tocar no racismo com o olhar da criança. E aí nesse terceiro setor, a gente sai um pouquinho do lúdico, que está muito presente nos dois primeiros setores, e entra numa realidade onde Amora apresenta a Doum esse universo”.

Setor 4: “Quarto e último setor é quando essas crianças, protagonistas desse enredo, se encontram com outras lideranças. Então, já é um setor que eles começam a entender as histórias que os pais contavam. Até porque o livro do Emicida é um diálogo de um pai preto para uma filha preta, onde ele ensina a ela a beleza de ser preto. É um livreto simples, mas com uma mensagem muito potente desse pai para essa filha que o livro deixa muito claro. Vai estar muito presente no último setor, que é um setor que a gente fala diretamente dessa luta pautada na educação antirracista. Então, Doum e Amora vão se deparando ao longo das alas com esses personagens, com esses exemplos que servem de inspiração para eles, e que eles escutaram a vida inteira os pais falando para eles sobre o exemplo desses homens e mulheres. No final, a gente vê Doum e Amora inseridos em um universo onde, de fato, o que vai salvar a ignorância do mundo e o racismo é a educação e o amor que vão estar sendo espalhados ao longo de todo o desfile por essas crianças”.

Integrantes da Mocidade participam de encontro com Lula

0

Integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel participaram na noite de terça-feira de um encontro com o presidente Lula. O evento foi oferecido pelo prefeito Eduardo Paes.

lula mocidade
Foto: Divulgação Mocidade

A escola da Vila Vintém publicou imagens nas redes sociais e celebrou estar com o presidente do país e ainda citou que a primeira-dama, Janja, é torcedora da Verde e Branco.

“A Estrela aqui viveu uma noite maravilhosa ontem. Queríamos agradecer ao prefeito pelo convite de mostrarmos o hit do verão ao presidente da república. Um beijo especial a minha Independente, Janja. Viva o Rio. Viva a nossa cultura, a nossa gente. Viva o carnaval”.

Folia Carioca e Ministério Público do Trabalho lançam campanha de conscientização contra o abuso infantil no Carnaval

0

Com o objetivo de conscientizar os foliões para o combate ao abuso infantil, a Folia Carioca, uma das mais representativas entidades do Carnaval de rua carioca, lançou a campanha “Abuso não combina com a folia. Para um Carnaval seguro para as crianças”. A iniciativa, criada em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e com o apoio da Associação de Conselheiros Tutelares do Estado do Rio de Janeiro (ACTERJ), prevê a instalação de outdoors, busdoors, cartazes em estações do MetrôRio e da Supervia e a distribuição de ventarolas.

infantil
Foto: Divulgação

A campanha pretende alertar sobre a vulnerabilidade das crianças e dos adolescentes durante o Carnaval. Nesta época, são mais comuns o acesso desregrado à bebida alcóolica, a negligência de alguns responsáveis, a sexualização, o abuso sexual e o uso do trabalho infantil. Para isso, serão instalados dez outdoors em vários pontos da cidade, 50 busdoors em 16 linhas de ônibus, cartazes nas estações Carioca, Cinelândia, Saens Pena e Botafogo do MetroRio e na Central do Brasil (Supervia). Além disso, dezenas de milhares de ventarolas serão ofertadas aos foliões que participarem dos cortejos dos blocos e bandas.

De acordo com Marco Muniz, coordenador da Folia Carioca, a ação é mais uma oportunidade de lançar luz sobre este importante problema de nossa sociedade: ” Como instituição, temos uma responsabilidade social que vai além da folia. Entendemos que o Carnaval é uma oportunidade de levar uma mensagem à população sobre temas importantes nesse momento de festa”.

Já a presidente da ACTERJ, Tatiana Charles, destaca que a ação também é importante para informar à população como se faz a denúncia de violação dos direitos de crianças e adolescentes. “Campanhas de sensibilização são fundamentais para proteção de crianças e adolescentes, desta forma convidamos a todos a se engajar em nossa iniciativa”, afirma.

A campanha também conta com a colaboração da Federação dos Blocos Afros e Afoxés do Rio de Janeiro (Febarj), da Liga Independente dos Blocos de Embalo do Estado do Rio de Janeiro (Liberj), da Associação das Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro (Aesm-Rio) e do G.R.E.S. Estácio de Sá.

Sobre a Folia Carioca:

A Folia Carioca foi fundada em 2009 e congrega 18 blocos e bandas tradicionais do Carnaval Carioca: Bloco Se Me Der, Eu Como!, Bloco Cata-Latas do Grajaú, Bloco Guri da Merck, Bloco Enxota Que Eu Vou, Bloco Berço do Samba, Banda da Rua do Mercado, Bloco Largo do Machado Mas Não Largo do Copo, Bloco Largo do Machadinho Mas Não Largo do Suquinho, Associação Carnavalesca Infiéis, Bloco Arteiros da Glória, Bloco Boêmios da Lapa, Bloco Quem Não Guenta Bebe Água, Bloco da Insana, Foliões do ABRACES, Bloco Educa Que Liberta, Bloco da Harmonia, DNA Suburbano e Bloco Eu Também Tenho Arsch.

Série Barracões: União de Maricá estreia na Sapucaí homenageando e reconhecendo grandes compositores brasileiros

0

Na sua estreia na Sapucaí, a União de Maricá apresenta o enredo “O Esperançar do Poeta”, uma homenagem ao papel social, cultural e humanitário presente no ofício do compositor. Com um barracão quase pronto, o carnavalesco André Rodrigues reconhece a ajuda da prefeitura de Maricá e contou um pouco do que envolve a criação do desfile, que, segundo ele, tem a simplicidade como trunfo, mas com muito luxo e romance. A escola, que vem da série bronze como vice-campeã, traz um enredo que, lançado em forma de curta-metragem, é fruto de uma conversa de André com uma amiga, que promete homenagear grandes compositores e o universo deles na Sapucaí.

marica barracao24 4
Fotos: Guibsom Romão/CARNAVALESCO

“A ideia do enredo veio até mim, quando a minha amiga Kamila me mostrou um texto do Igor Trindade, sobre a carreira do Guará, o Guaracy Sant’anna, um grande compositor carioca. E partindo daí, contar a vida desses compositores. É um enredo que fala sobre o ato de compor, a arte de compor, a escola vai exaltar os compositores, tendo como fio condutor Guará, mas falando sobre essas vivências e realidades desses compositores e o que esses compositores viveram. A gente está vindo aí para honrar um pouco a história desses compositores e compositoras que fizeram grandes sambas para tocar a nossa vida, e às vezes a gente não sabe, muitas vezes a gente lembra mais do intérprete e acaba esquecendo de pensar em quem compôs aquela música, a realidade que aquela pessoa viveu e a mensagem que ela queria passar”, conta André.

marica barracao24 8

Guaracy Sant’anna foi um cantor e compositor do subúrbio carioca e teve a sua trajetória como artista marcada por diversos sucessos. O maior deles é o samba “Sorriso Aberto”, faixa-título do disco de Jovelina Pérola Negra em 1988. O enredo também tem como inspiração outros compositores de sambas, como, por exemplo: “Castelo de um quarto só” (Vinny Santa Fé), “Sonhar não custa nada, ou quase nada” (Dico da Viola/ Moleque Silveira/ Paulinho Mocidade), “Zé do Caroço” (Leci Brandão), “Despejo da Favela” (Adoniran Barbosa), etc., todos alinhados com a narrativa do enredo, composições que falam sobre a realidade dos compositores e os locais em que eles vivem.

“Para mim, o grande trunfo desse enredo é a simplicidade dos compositores, a simplicidade da vida deles que se reflete na arte de compor. Algo que vai ser visto no desfile é o universo particular de cada compositor. Fazendo uma homenagem ao próprio ato de compor mesmo, à magia envolvida nesse processo, e às formas com que a inspiração pode chegar até a gente, falando das coisas que nos trazem inspiração. Eu mesmo fiquei muito tocado com a leitura do texto do Igor, que inclusive assina o enredo junto comigo e com a Kamila. O trunfo é esse, falar da essência desses artistas que nos atravessam de diversas formas com suas músicas e nem sempre são reconhecidos”, afirma o carnavalesco.

marica barracao24 2

A União de Maricá faz sua estreia na Série Ouro, por conta disso, entende-se que o porte da escola, consequentemente, tende a aumentar, pois ela estará disputando com escolas já consagradas e que conhecem muito bem a Sapucaí nesses 40 anos de existência da avenida. No entanto, é sabido que o trabalho de concepção de um carnaval na Série Ouro é precarizado, pois faltam recursos e estrutura necessária para o trabalho. Porém, André, que já tem experiência com a Série Ouro, relata que com a União de Maricá, essa questão tem sido muito diferente das outras.

“Eu entendo e conheço muito bem a situação precária que é fazer um carnaval na Série Ouro, mas a minha experiência para o carnaval desse ano, aqui na União de Maricá, tem sido muito diferente graças a uma subvenção da prefeitura de Maricá. Eu seria até hipócrita se falasse que enfrentei alguma dificuldade desse tipo aqui. Mas essa subvenção da prefeitura não foi apenas para o artístico do carnaval, mas também e inclusive para a estrutura da escola, porque a escola vem da Série Prata, então é preciso dar uma estrutura maior para a escola ir para a avenida, como um novo barracão. Então, é necessário construir uma identidade nova para essa escola, né? Porque ela vem fazendo um desfile na Intendente, que era de um jeito, e agora ela vai ter que se comportar, de certa forma, de outro jeito na Sapucaí, né? Com outro tamanho, com outros objetivos”, revela André.

marica barracao24 6

Uma nova estrutura, uma equipe de ponta, uma prefeitura que apoia. A União de Maricá vem preparada para a sua estreia na Sapucaí, no entanto, a estreia é um momento histórico e muito esperado pela comunidade e pelo público do carnaval, o que acaba gerando ansiedade e colocando muita responsabilidade em cima dos responsáveis pelo desfile, André se mostra tranquilo quanto a isso, mas reconhece a responsabilidade desse momento.

marica barracao24 7

“Eu sempre procuro estar muito próximo das pessoas, as pessoas que são a escola, né? Procurar entender quem são essas pessoas que fazem essas escolas para a gente desvendar um pouco a alma dessas agremiações. Eu falo muito que, assim, eu sou sambista, eu gosto de carnaval, eu gosto de escola de samba. Eu até tento consertar essa frase, eu não gosto de carnaval, eu gosto de escola de samba. Escola de samba é uma coisa que eu gosto e que eu respeito muito. E que eu procuro levar cada vez mais as importâncias da escola de samba para sociedade em si. Então, eu procuro muito entender quem são essas pessoas que fazem as escolas de samba. E a Maricá, nesse sentido, me toca um pouco justamente por essa estreia dela na Sapucaí, né? É uma coisa que é difícil você ver uma escola que vai estrear na Sapucaí de alguma maneira. E eu me sinto feliz, assim, de estar vivendo esse momento com essas pessoas, de estar vivendo esse momento com os outros profissionais que também estão aqui, que são muito meus amigos, muitos de vários outros anos, assim. Então, eu acho que a ansiedade é mais pelo que a gente pode dar para o torcedor da Maricá, sobre o que a gente pode construir com o torcedor da Maricá, com a pessoa que é Maricá. Então, dar um pouco do tom desse objetivo é uma responsabilidade muito grande. Mas, para mim, é sempre muito emocionante. Eu gosto de lidar mesmo com as pessoas em si, de entender quais são as expectativas delas, para poder entrar cada vez mais na alma das escolas. Eu fiz assim na Portela, fiz assim na Maricá, fiz assim na Sossego principalmente e, enfim, fiz na Beija-Flor e eu acho que essa maneira é a maneira mais correta, a gente respeitando o que são as escolas de samba, até porque, a gente que está chegando tem que entender um pouco o que são esses redutos, quem são as pessoas que fazem ele para poder construir algo que respeite a história dele”, disse o carnavalesco.

Conheça o desfile da União de Maricá

Na sua estreia no Sambódromo, a União de Maricá vem com 1500 componentes, divididos em 19 alas, com três carros alegóricos e um tripé, além do tripé da comissão de frente. O desfile é dividido em quatro setores.

marica barracao24 3

1º Setor: “O primeiro setor fala sobre o local desses poetas, como eles enxergam um pouco o local onde eles vivem, como eles romantizam esse local. O desfile todo tem uma visão muito romântica, sobretudo porque é a visão da composição, é a visão da poesia, da melodia e tudo mais. Então, o abre-alas é isso, são esses barracos suspensos entre nuvens, em meio às bananeiras. É uma visão muito dos anos 70, dos anos 80, dessas favelas, que tem aquele monte de bananeira, os barracos e tal. Só que tudo isso envolto em muito luxo, obviamente, de delírio, de sonho. Então, tem esses pássaros que vão voando. Enfim, tudo é muito romântico para essa visão do poeta sobre o seu lugar”.

marica barracao24 5

2º Setor: “O segundo setor fala sobre como eles acabam compondo grandes músicas, também extremamente poéticas, sobre esses lugares, sobre denúncias desses lugares, músicas ótimas que falam sobre fome, falam sobre estrutura, sobre trabalho, sobre, enfim, sobre uma série de denúncias sociais que eles conseguem fazer através das suas músicas”.

3º Setor: “O terceiro setor fala sobre eles vivendo nesse mundo da escola de samba, sobre como eles constroem o mundo das escolas de samba, a partir também dos sambas-enredos, como os sambas-enredos, que são esses que a gente selecionou, acabam extrapolando o mundo da escola de samba para esses compositores, pensando que muitos compositores buscam esse reconhecimento, buscam o reconhecimento das suas obras”.

marica barracao24 1

4º Setor: “E o último setor, fala sobre como eles depositam a esperança, esse esperançar, principalmente construindo músicas de fé e construindo músicas que propõem novos futuros a partir principalmente das crianças, a partir desse legado deles de que outras pessoas virão para manter essa busca por um esperançar de um lugar melhor, onde eles possam fazer música por fazer música, não necessariamente por viverem ou romantizarem esses lugares. Então, essa homenagem a essas múltiplas facetas que a gente encontra nesses compositores e sobre como eles conseguem criar imaginários para a gente em vários outros lugares”.

Série Barracões: Voltando ao Grupo de Acesso I, Torcida Jovem já almeja vaga no Grupo Especial

0

Finalmente um grande sonho alvinegro se tornou realidade. Após uma curta passagem pelo Grupo de Acesso em 2011, a Torcida Jovem ficou anos no antigo chamado ‘Grupo 1-Uesp’, onde bateu na trave várias vezes para voltar à segunda prateleira do carnaval paulistano. Também, em 2022, já com todas as escolas da terceira divisão integrada à Liga-SP, a Jovem novamente quase conseguiu o acesso, ficando atrás de Nenê e Peruche. As três brigaram fortemente na apuração àquela época.

jovem barracao24 4

Entretanto, naquela oportunidade, já havia indícios de que a escola alvinegra estava em uma crescente como uma escola que logo alcançaria os seus objetivos. Em uma apuração que imaginávamos ser acirrada no Grupo de Acesso em 2023, a oriunda santista nadou de braçadas e conquistou o título e, consequentemente, a vaga para o Grupo de Acesso I.

A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da agremiação e conversou com Fernando Dias, integrante da comissão artística e um dos responsáveis pelo projeto de carnaval que a escola levou para si.

Vale destacar que a Torcida Jovem historicamente tem bastante enredos afros. Nesta volta ao Acesso I não será diferente – “Raiz afro mãe, meu Brasil bantu”, é o título do tema da entidade.

O tema da Jovem foi decidido internamente, pela própria diretoria e pelo pesquisador Marcelo Caverna, que é um grande conhecido do carnaval paulistano, também por ser mestre de bateria da escola. “O enredo conta a história dos escravos, que é o povo bantu. Eles vieram da África, escravizados através do europeu em troca de mercadorias e sendo vendidos para os senhores de engenho. Aos poucos eles foram conquistando a sua liberdade, o seu espaço e voltando a se tornar reis e rainhas como eram na África”, explicou Fernando Dias.

Importância da cultura

Perguntado sobre o que é mais alucinante nesse enredo, na opinião de Fernando é a cultura. O artista gosta de comunicar ao povo enredos históricos, além de entender o que ocorreu para chegarmos aqui. “O que me fascina é a cultura. É muito legal trazer enredos históricos e culturais para as pessoas conhecerem mais. E também desenvolver este projeto. Cada vez que ele começa a ganhar corpo, ganhar vida, a gente se apaixona muito mais e começa a entender muito mais lá atrás a nossa história, o que foi passado e o que aconteceu”, disse.

jovem barracao24 5

Diferencial na matriz africana

Há uma demanda muito grande de enredos ligados à matriz africana no Grupo de Acesso I. das oito agremiações, seis delas têm fortes ligações. Contudo, de acordo com Fernando, a riqueza do tema e a garra da comunidade podem ser os diferenciais no desfile. “Todas as outras escolas buscaram um enredo afro e estão trazendo a cultura. A Jovem foi por esse lado e eu vejo um grande diferencial no projeto e na própria comunidade que aceitou esse tema afro. Nós temos, talvez, o melhor samba do Acesso I e a comunidade está cantando e abraçou. o grande diferencial vai estar nesse projeto. A garra e o desenvolvimento que eles abraçaram. Nosso enredo é muito rico nesse aspecto da cultura”, declarou.

jovem barracao24 3

Voltando para a escola

Dias afirma que a volta para a Torcida Jovem está sendo benéfica e está encontrando uma escola bastante organizada e com uma diretoria que tem pensamentos melhores para o desenvolvimento de um carnaval. “Para mim está sendo gratificante depois de sete anos estar voltando para a Torcida Jovem. Eu passei aqui como carnavalesco e a convite da diretoria estou retornando. O grande diferencial da minha participação aqui é legal por ter uma nova diretoria com um novo pensamento. Tanto que eles foram campeões e estão voltando para o Acesso I. Eu sempre acreditei que a Jovem tem força e é só saber usar ela para poder chegar onde a gente quer, que é o Grupo Especial. Para nós, artistas, é muito gratificante pegar a escola com essa vontade”, comentou.

jovem barracao24 1

Beleza estética

Indo ao barracão é inegável ver que a escola está investindo bastante nas alegorias. O cuidado com o acabamento de todas está sendo primoroso. O otimismo reina internamente, e com Fernando não é diferente. “O Acesso I é um grupo que antecede ao Grupo Especial, então se deve ter mais ou menos o mesmo nível. A Jovem vem com isso, com fantasias luxuosas, alegorias grandes, bem acabadas, montadas e preenchidas. Porque se a gente conseguir chegar lá, eu acredito muito nisso, não vai sofrer tanto. Está bem legal isso. Quando o conjunto chegar na avenida, vai surpreender muita gente”, afirmou.

jovem barracao24 2

Ficha técnica
1000 componentes
3 alegorias
Diretor de barracão – Paulo Roberto
Trabalho de pesquisa – Marcelo Caverna

Série Barracões: Misturando crítica e desfile leve, Dom Bosco de Itaquera pretende abrir Grupo de Acesso I contando um nordeste diferente

0

Uma escola que acabou de subir para o Grupo de Acesso I e está feliz com os seus resultados no carnaval chama-se Dom Bosco de Itaquera. É mais uma agremiação que irá apostar na temática nordestina visando o próximo desfile. Porém, de acordo com o carnavalesco Danilo Dantas, a escola da Zona Leste abordará o tema de maneira diferente, onde dentro do desfile, haverá críticas em relação ao forte preconceito que sudestinos e sulistas têm em relação ao povo nordestino. A apresentação no Anhembi, além de mostrar a cultura da região, vai mostrar várias reflexões ao público presente no Sambódromo.

bosco barracoes24 3

A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da escola e conversou com Danilo Dantas, responsável pelo tema para 2024.

O artista conta que tinha esse enredo guardado há muito tempo, e que o principal objetivo dele é desmistificar a figura negativa do nordestino, além de exaltá-lo, como dito acima. “Eu tenho esse enredo há muitos anos, desde a minha primeira passagem no Grupo de Acesso com a Colorado. Me fascina muito e me revolta quando dizem que o nordeste é um atraso para o Brasil. Todo ano de eleição, o pessoal do sul e sudeste sempre usa esse termo. Baseado nisso, eu comecei a pesquisar o porquê surgiu isso e eu descobri o poema que o Bráulio Bessa recitou no programa da Fátima Bernardes e ficou na minha cabeça. Fui pesquisando e é uma música de 1984. Ou seja, desde a década de 80 existe isso. O Brasil vem tendo falas de políticos nas últimas eleições, e eu acho que é preciso mostrar para o brasileiro que se eles querem que o nordeste se afaste do Brasil, olha o tanto de coisa que eles vão perder. Então fizemos isso em um conto através da música ‘nordeste independente’, que é de Bráulio Tavares e Ivanildo Vila Nova e foi eternizada na voz de Elba Ramalho”, explicou.

Muitas coisas que o brasileiro deve aprender

Dantas diz que o que mais fascinou neste enredo, foi conhecer a importância que o Nordeste tem visto que a história nos mostra isso, basta procurar, além do fato de ter figuras brasileiras importantes que pessoas não imaginam ter naturalidade da região. “Saber o quanto tem de nordestino importante na história do Brasil e que as pessoas às vezes nem sabe. José de Alencar, Chico Anísio, Maria Quitéria, Raquel de Queiroz e tantos outros. São tantos fatos e um monte de coisa do nordeste que as pessoas não sabem. A história do Brasil nasceu no Nordeste, as principais revoltas brasileiras aconteceram no Nordeste e o pessoal acaba deixando isso de lado. Essas coisas me fascinaram. Não é só a seca, praia, o forró e o xaxado. É realmente tocar na ferida”, contou.

Nordeste diferente

Justamente completando o tópico anterior, segundo o artista, a Dom Bosco irá fugir do nordeste apresentado costumeiramente no Anhembi. “Não vai ser uma crítica explícita, porque o carnaval é festa. Acho que não é na nossa festa que a gente vai ficar politizando a conversa. A gente vai mostrar a realidade nua e crua das coisas positivas do Nordeste para o brasileiro ter um ponto de reflexão. Na hora que ver na avenida já vai entender e pensar: ‘é um tapa na minha cara’. Principalmente quando o trecho do samba fala ‘imagine minha gente se meu Nordeste não fosse uma nação’. Que me desculpe todas as escolas que abordam esse tema, eu vou muito além de maracatu, festa de reis, festa junina, xaxado, forró e baião. Lógico que tem. Eu vou mostrar a importância da cana de açúcar, algodão, da economia de sustentabilidade, da renda, da palha, do agricultor nordestino. É um enredo que eu quero falar da região inteira e não só da cultura”, disse.

bosco barracoes24 5

Plástica caprichada

Dentro da pista, Danilo fala que a plástica da escola será um misto, mas principalmente o fácil entendimento. “Eu falo principalmente para o pessoal da escola: Quem me conheceu nos últimos anos sabe que eu gosto de primar pelo acabamento, por tecidos mais luxuosos, mas esse enredo por mais que a gente queira colocar a nossa cara, não tem como fugir da estética. Vão ter alas que se vão olhar por si só que é o que estamos propondo. A ala da palha, da renda, da culinária. A gente procurou usar uma plástica teoricamente mais rústica, mas sempre com brilho. Todos os carros tem estampas próprias e em cada um desses setores vamos dar toques de carnaval, apesar do enredo. A gente vai ter fantasia com muitas plumas, penas e não pode deixar de ter dourado”, comentou.

bosco barracoes24 6

Comunidade empenhada

De acordo com Dantas, não terá um ponto alto, mas elenca alguns pontos que podem levar a comunidade de Itaquera ao sucesso, sobretudo a comunidade. “Não costumo dizer que tem um ponto alto. O desfile vai ser bem linear. Para quem viu a Dom Bosco nos últimos anos, vai se impressionar com as esculturas. São fantasias bem coloridas. Alegorias bem diversas e diversificadas. Acho que o grande trunfo que a gente tem todos os anos é a nossa comunidade. Eles estão gritando o samba. O importante vai ser eles cantando e dançando o samba”, afirmou.

Sem pressão

Sempre é um desafio abrir desfiles, ainda mais quando se trata de Grupo de Acesso. Porém, o artista diz que o psicológico está atrelado ao Acesso II, visto que são os mesmos jurados que vão julgar o grupo no dia 3. “Nós estamos com o pensamento de que vamos estar encerrando o desfile da semana anterior. Na nossa cabeça a gente não pode pegar esse fardo, até porque os jurados que vão avaliar o nosso grupo, vão julgar o Acesso II também. Já viram 11 escolas e não é novidade nenhuma. Também tem o fato de que vamos nos divertir. É o primeiro ano da escola no Grupo de Acesso e estamos fazendo o nosso papel. Lógico que a gente quer o resultado positivo, mas sem essa obrigatoriamente. A gente tem que sair dessa linha amarela com a certeza de que fizemos o nosso trabalho”, declarou.

Conheça o desfile

Setor 1: “Começa com um grande cordel mambembe, que são o multi cor da arte nordestina abrindo as portas do nordeste para o mundo. Como o nosso enredo é o cordel, a literatura de cordel é o que leva esse nosso personagem a desbravar o país. Nós temos uma ala antes do carro chamada ‘O forte do Nordeste’, que todo país tem a sua fronteira. A gente cria essa fronteira do ‘nós contra eles’. Já que eles falam tanto disso, os nordestinos pegam essa separação que já existe de fato, ela vai ser de direito. O nosso abre-alas vai ser o grito da independência nordestina. Vai ser um nordestino em um jegue gritando independência sem morte, mas com muito amor. A partir daí a gente faz um portal com todas as características do nordeste, mas de uma forma bem leve. Tem seca, carcaça de boi, carranca do São Francisco de uma forma carnavalizada e bem alegre”.

bosco barracoes24 4

Setor 2: “Nosso segundo setor, teoricamente, é a parte cultural nordestina. Não só da arte, mas da educação, gastronomia. A gente faz uma homenagem ao Paulo Freire, que há muitos anos foi bem criticado pelo ex-presidente. A gente chega até onde todo mundo conhece, que é o forró, xaxado, festas juninas. Vamos fazer uma homenagem ao mestre Vitalino. Não tem como não falar dos grandes heróis nordestinos”

Setor 3: “Vamos finalizar com o ponto de reflexão do nosso enredo, que é onde o nosso personagem teoricamente acorda e ele entende que: por que o brasileiro bate tanto no Nordeste e quando chega junho e julho vai em uma festa junina? Vai rezar Padre Cícero? Quando chega o final de ano ele vai ao nordeste curtir as suas praias. Então a gente faz um grande alto da união que é a celebração das duas nações. O Brasil celebrado por Padre Cícero e o Brasil por Nossa Senhora de Aparecida. A gente até brinca ela está entregando a chave do Brasil para Padre Cícero, porque ninguém precisa se separar”

Ficha técnica
3 alegorias
1 quadripé
16 alas (aproximadamente 1100 componentes)
Diretor de barracão – Dimas
Diretor de alegorias – Pica-Pau

Após 20 anos, Valéria Valenssa retorna à Sapucaí com a União de Maricá, no ano em que a escola pisará pela primeira vez no Sambódromo

O ano de 2024 traz momentos marcantes no mundo do samba; os 40 anos do Sambódromo, a estreia da União de Maricá na Sapucaí e o retorno de Valéria Valenssa na Avenida, após 20 anos. A empresária recebeu o convite para vir à frente da agremiação, como embaixadora. Maricá é a sexta escola a desfilar no sábado de carnaval pela Série Ouro. Em 2024, Maricá levará para a Avenida o enredo “O Esperançar do Poeta”, que traz luz ao ofício do compositor.

valeria 1
Fotos: AF Assessoria/Divulgação

A relação com Maricá vem de longa data. O pai da eterna Globeleza mora na cidade há 30 anos. Ele optou mudar para lá em busca de melhor qualidade de vida, mas foi em uma adversidade que o carinho de Valéria cresceu pela cidade.

“No início a gente se preocupou, mas lá, realmente, tem qualidade de vida, ele vive bem lá. Sempre fui a Maricá pontualmente, visitá-lo. Tem um ano e meio que a minha mãe foi morar com ele, e, no ano passado, ela passou por uma situação delicada de saúde e foi atendida no hospital público de lá. Foi super bem atendida, tudo muito organizado. E quando eu fui chamada no início do ano pela Prefeitura, pra conhecer o prefeito e todo o trabalho feito lá, voltou esse filme na minha cabeça, sabe? Essa aliança vem de 30 anos. Então eu não estou desfilando por desfilar. Se hoje você me perguntasse qual seria a palavra, seria de gratidão. Gratidão por Maricá.”

A modelo está cada vez mais próxima de Maricá e já conheceu de perto as políticas públicas implementadas pelo município, que em sua opinião, já são exemplos de gestão pública e se tornaram referência pra outros municípios, entre eles destaca a tarifa zero nos ônibus.

“Isso é incrível, eu, por exemplo, tinha dias que tinha só o dinheiro da passagem, da ida para Botafogo para participar de uma seleção de um trabalho. Então, você ter uma cidade que investe nisso, é muito importante, essa oportunidade pros jovens. O atual prefeito me disse que na época em que estudava via muitas vezes seus amigos passarem por essa dificuldade. Então, ele traz essa dor. É importante você sentir a dor do próximo. Estou encantada, estou feliz com Maricá”, disse a empresária que falou sobre a responsabilidade de representar toda a população da cidade na Sapucaí.

valeria 2

“Que responsabilidade! Fico muito feliz, né? Hoje olho pra trás e vejo a minha história. Foi através do samba que eu vi essa transformação toda na minha vida. Foi através do samba, do personagem Globeleza que construí a minha família. Hoje eu tenho dois filhos. Então assim, eu tô num lugar de fala. De poder representar todas essas pessoas. Esse ano a gente vai poder fazer coisas lá em Maricá. E de poder compartilhar um pouquinho dessa experiência. Porque todos nós temos histórias. E a gente passa por tantas situações que às vezes a gente deixa de sonhar. Mas é isso que nos move.”

Valéria fez história no samba em uma época em que o posto de rainha de bateria, por exemplo, era ocupado por modelos, atrizes, jamais por meninas da comunidade. Hoje a realidade é outra. As crias da comunidade ganharam protagonismo e visibilidade. Ao site CARNAVALESCO a modelo falou sobre essa transformação além de relembrar de ícones que fizeram história no carnaval.

“É de vital importância a gente destacar essas pessoas, principalmente pretas, que fazem parte da comunidade. A gente que é do samba, sabe a importância dessas mulheres. E elas também tem a noção dessa importância que carregam. Precisamos lembrar também de mulheres que fizeram história no passado como a Piná e Dona Ivone Lara que foi a primeira mulher a entrar na ala de compositores”, destaca Valéria.

A modelo, que começou sua trajetória no carnaval, hoje atua também como empresária, por ser mulher preta os desafios são sempre maiores, mas Valéria nunca se deixou abater por isso.

“Estou escrevendo um livro que vai ser lançado em março, em que falo de beleza, mas eu acho que ele vai além de beleza. Falo da autoestima, da identidade no autoconhecimento. Se você tem isso dentro de você muito firmado, e eu tenho isso desde pequenininha, você não oscila, sabe? Você sai sabendo que você vai dar o teu recado. E a gente pode chegar aonde a gente quiser, a gente pode estar aonde a gente quiser”, finaliza.

De olho nos quesitos: mestre-sala e porta-bandeira possui índice de 56% de notas 10 nos últimos anos

0

O quesito mestre-sala e porta-bandeira, ao mesmo tempo em que é um dos mais ‘ingratos’ no aspecto de apenas duas pessoas responderem pela nota, é um dos de maior evolução na avenida nos últimos anos. Um casal hoje leva uma rotina de atleta de alto rendimento, com acompanhamento de nutricionista, personal trainer, ensaiadores exclusivos e toda a estrutura para que consigam uma performance digna da nota 10 na pista.

quesito ms pb
Foto: Diego Mendes/Divulgação Rio Carnaval

Tanto esmero vem se refletindo nas notas. A série ‘De olho nos quesitos’ avaliou as notas e justificativas do júri que vai avaliar os 12 casais do Grupo Especial em 2024 nos últimos anos e encontrou um alto índice de notas 10, em virtude da evolução dos casais. A reportagem do CARNAVALESCO encontrou 85 pontuações máximas em 151 aplicadas pelos quatro jurados de 2024. Um índice de 56%, considerado elevado se comparado com outros quesitos.

Fernando Bersot julgou apenas em 2023 com um índice de 66% de notas 10. João Wlamir, um dos mais experientes de todos os quesitos, não julgou em 2018 e 2019. Nos últimos três anos aplicou 20 notas 10, 54% do total possível. Paulo Rodrigues e Mônica Barbosa vêm julgando desde 2019. Ambos com índice acima de 50% de notas 10. A curiosidade fica por conta da distribuição das notas 10 de Mônica. 70% delas saíram na segunda de carnaval. Portanto, atenção especial aos casais que desfilam na primeira noite.

Casais de Beija-Flor, Viradouro, Grande Rio e Salgueiro acumulam notas 10

Analisando as notas dos quatro julgadores de 2024 os casais Claudinho e Selminha Sorriso da Beija-Flor, Daniel Werneck e Taciana Couto da Grande Rio, Julinho e Rute da Viradouro e Sidclei Santos e Marcella Alves do Salgueiro, colecionam notas máximas. Ambos obtiveram apenas duas notas 9,9 nos últimos anos e o restante foi 10. O casal da Vila Isabel só perdeu quatro décimos no período e o da Mocidade cinco. Contando que essas duas escolas não desfilaram sempre com o mesmo casal nos últimos cinco anos.

Dentre as escolas que figuram no Grupo Especial com maior constância o índice mais preocupante é o da Unidos da Tijuca. Desde a saída de Julinho e Rute da escola depois do desfile de 2017, a amarelo ouro e azul pavão do morro do Borel já foi penalizada em um ponto se somadas todas as notas abaixo de 10. Já foram cinco configurações de casais diferentes na escola no período, contando com a atual Matheus André e Lucinha Nobre. Mangueira, Portela e Imperatriz, que também mexeram muito nos defensores do pavilhão, perderam seis décimos no quesito. Pode-se concluir que este é um quesito em que mudanças não são aconselháveis.

Inovações que atrapalhem o bailado são certeza de punição

Desde que o casal de mestre-sala e porta-bandeira passou a vir atrás da comissão de frente, a partir de 2002, criou-se quase uma necessidade de acompanhar as inovações do quesito inicial e isso vem sendo um tiro no pé para alguns. Os jurados são tradicionalistas e costumam ser implacáveis com notas se as inovações prejudicarem o bailado e a tradição da dança, conforme as próprias justificativas apontam.

O figurino, especialmente das portas-bandeiras, também vem causando despontuação. As pernas das dançarinas não podem aparecer em hipótese alguma e isso pode ser atestado nas justificativas. Portas-bandeiras consagradas já sentiram o peso da nota pois suas saias estavam curtas demais. As coreografias muito bruscas e que tirem a leveza do bailado também são bastante citadas pelo júri.

Um outro aspecto que a equipe do CARNAVALESCO encontrou na justificativa é o uso inadequado do espaço para a dança. Ao iniciar sua apresentação para o júri, o casal tem uma espécie de quadro para dançar, demarcado ou por guardiões ou pelos próprios harmonias das escolas. Se o uso desse espaço for inadequado (o casal se apresenta muito centralizado ou muito nos cantos) a dupla é penalizada. O ideal é que o casal de mestre-sala e porta-bandeira deslize por todo o espaço mostrando o resultado de meses de ensaio e preparação.

Alberto João diz o que espera do desfile do Paraíso do Tuiuti no Carnaval 2024

0

Vai-Vai abrirá o sábado de carnaval com enredo de oposição ao sistema com crítica importante e homenagem ao hip-hop

0

O Vai-Vai irá fazer algo histórico no próximo dia 10 de fevereiro. Utilizando da ótica questionadora do hip hop, a escola alvinegra além de homenagear o movimento, vai colocar em prática um desfile questionador ao extremo. Terá réplica da estátua do Borba-Gato todo pichado e queimado, um MASP vandalizado e um Teatro Municipal jogado às traças. Nem tudo terá será crítico. Além do “Manifesto Paulistano”, como cita o título do enredo, o desfile conta com a presença de vários cantores do rap nacional, dentre eles o Mano Brown, um dos principais artistas da música brasileira. Uma grande homenagem à música, grafite e esporte também estarão presentes no Anhembi.

vaivai barracao24 1

Isso quem conta é o carnavalesco Sidnei França. A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da agremiação da Bela Vista e conversou com o artista e conheceu todo o projeto que visa o desfile de 2024. Voltando ao Grupo Especial, o Vai-Vai, maior campeão do carnaval paulistano, será a primeira agremiação a desfilar no sábado de carnaval. O título do enredo é: “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o hip hop: Um Manifesto Paulistano”, assinado por Sidnei França.

Elo entre samba e hip hop

O carnavalesco deu uma longa explicação: O hip-hop tem ligações com o samba devido ao fato de ambos serem marginalizados pela elite. Também exaltou o Vai-Vai por ser uma escola de rua. Realmente é um tema que casa bastante com a história da agremiação. “O enredo traz uma homenagem para o hip hop. A cultura hip hop é uma cultura para além de um modismo ou de uma tendência. Celebrou agora em 2023, os 50 anos no mundo e 40 no Brasil. Então são datas bonitas, datas redondas. O hip hop é um movimento que merece todo o nosso respeito, até porque o seu fundamento e a sua base é na rua, periferia e por muito tempo foi estigmatizado como rótulo de marginalidade. O samba nasceu e ainda é por muitos locais e muitas vezes marginalizado. Tem uma incompreensão muito grande a respeito do que é uma escola de samba. Durante muito tempo foi taxado como local de pessoas desocupadas, vagabundo, prostituta, drogado. Enfim, então esse estigma sempre também acompanhou o hip-hop. Então eu acho que daí cria uma sinergia e uma identidade muito forte com o Vai-Vai, que é uma escola que firmou a sua identidade na rua. É uma escola que apesar de não ter uma essência na periferia, a Bela Vista é região central, mas é o centro que abrigou um quilombo. O quilombo Saracura é o centro que por muito tempo abrigou uma parcela grande da população preta e pobre também, porque o imigrante rico foi para regiões mais abastadas e o pobre foi para a região da Bela Vista”, explicou.

Como surgiu o tema

Finalmente saiu do papel a vontade que o Vai-Vai tinha há muito tempo, que era ter um enredo deste tipo, visto que vários artistas do meio são ligados com a escola, como o carnavalesco cita. Além disso, o profissional diz que o conceituado rapper Rappin Hood foi de suma importância para a criação do enredo. “Se falava por muitos anos que o Vai-Vai podia fazer um carnaval sobre o rap, porque tem muitos rappers que são Vai-Vai – o próprio Mano Brown, Ice Blue, Rappin Hood, Dexter e uma série de rappers sempre frequentaram a escola e sempre rondou a ideia de fazer um enredo sobre o rap. E aí acabou o carnaval de 2023 e o presidente Clarício me chamou no WhatsApp, eu estava em Uruguaiana, fazendo o carnaval lá. Sempre acontece 20 dias depois daqui e eu todo ano eu vou para lá. O Clarício me chamou e disse: ‘Poxa, você deve ter mil ideias de enredo aí, mas ouve uma pessoa que eu vou te passar o contato que ela tem uma ideia muito bacana e de repente você gosta. Se você achar que não tem nada a ver, a gente dribla e foge’. Essa pessoa era o Rappin Hood, que é um rapper muito conceituado, além de ter uma história gigantesca no rap brasileiro, ele apresentou o “Manos e Minas” na TV Cultura, então ele tem um engajamento da cultura hip hop muito forte. Ele tem muita propriedade para falar sobre isso e ele me passou muitas informações”, contou.

vaivai barracao24 5

Pesquisando e aprendendo

O aprendizado de Sidnei só aumentava. De acordo com o artista, quanto mais estudava, descobria coisas diferentes. Inclusive na forma de fazer carnaval e quais materiais iria usar na questão da plástica que o Vai-Vai apresentará na avenida. “Eu parei para pesquisar e vi que o rap faz parte da cultura hip hop. E aí eu descobri que ele é formado por quatro elementos – DJ e Mc’s que trabalham a musicalidade que forma o rap, grafiteiros e dançarinos de breaking dance. E aí eu descobri um universo riquíssimo. Então imaginar que a escola de samba desfila com três módulos de avaliação, que são o visual, música e dança. Então o visual é o grafite para o hip hop, a dança é o breaking e a música é o rap. Eu achei que tinha muita familiaridade entre as duas culturas. Fiz uma pesquisa maior ainda e comecei a imaginar como seria um desfile sobre hip hop e logo de cara constatei que seria muito diferente do que o carnaval está acostumado e isso me desafiou. E aí eu pensei: ‘Nossa, fazer um carnaval sobre hip hop deve ser meio difícil, porque você tem que abandonar arabescos, plumas, espelhos em excesso, contornos de aljofre, de galão, enfim, que é o que o carnaval se alimenta basicamente. É uma decoração mais rococó e mais rebuscada, né? Que é um padrão mais acadêmico”, disse.

Mudança de estilo e convencimento a diretoria

A cultura hip hop é além de uma dança. Há quem diga que a musicalidade seja apenas uma parte do ramo. Com isso, o estreante diz que precisou mudar os seus pensamentos em relação a como pensa o carnaval e convenceu a diretoria da agremiação a tocar na ferida de muitas pessoas, sobretudo da elite. “Eu pensei que seria covardia da minha parte desvalorizar essa cultura só para eu estar na zona de conforto de fazer um carnaval dentro daquilo que eu sempre fiz. Eu me senti provocado por mim mesmo. Eu pensava: ‘Poxa, mas será que vai ficar bonito? mas ao mesmo tempo eu também pensava que estava sendo covarde de falar isso. Você tem que enfrentar e fazer ficar bonito uma cultura que as pessoas não conhecem o carnaval também. É desbravar e desafiar. Buscar novas visões das coisas, novos ângulos e perspectivas. Olha quanta coisa foi passando na minha cabeça. E aí quando eu comecei a formatar esse enredo e desfile, eu sentei com a diretoria e falei: ‘Nós vamos ter que ser muito corajosos, porque o enredo leva uma verdade, entre muitas aspas, porque ninguém é dono da verdade absoluta, mas ele traz uma mensagem que para o hip hop é muito verdadeira, que é lutar contra o sistema. Nós temos que entender que não estamos só escolhendo o rap, breaking e o grafite. Nós estamos escolhendo uma visão de mundo que questiona a sociedade e a elite. Nós vamos ter que ter muita e coragem para levar esse discurso no peito. A escola tem que ser crítica, tem que ser dura e ácida com o governo, com a grande mídia aqui, que mercantiliza a notícia e faz tudo por um like, que é tudo que o hip hop renega. Ele não é político, mas tem uma presença muito politizada, porque tem a consciência plena de que a cultura tem o dever: Colocar o cidadão em posicionamento perante a sociedade”, declarou.

vaivai barracao24 4

Questionamento forte e gratidão à escola

A política está ligada com o hip hop, principalmente tocar na ferida. É algo que tem um pensamento bastante ligado à esquerda. O carnavalesco diz que essa crítica é o que mais encantou ele, além de ser grato ao Vai-Vai por ter aceitado a proposta dele. “O que eu mais gosto é a capacidade que esse enredo tem de falar com diversas pessoas. Esse enredo fala muito comigo enquanto um cidadão que não aprova privilégios. Eu não apoio esse pensamento aristocrático de que quem nasceu rico, vai se perpetuar assim. A falta de mobilidade social, a falta de oportunidade é o que mais pega nesse carnaval. E nesse enredo do Vai-Vai é falar também do quanto eu desejo e o quanto eu anseio uma outra São Paulo, que olha pra rua e fala: ‘Não sou dono de nada, mas ao mesmo tempo eu tenho que cuidar de tudo’. E isso não existe. A elite quer dominar tudo, mas não cuida de nada, porque senão a gente não teria Cracolândia, por exemplo. Essa acidez é o que eu mais curto nesse enredo. Eu sempre digo aqui para a diretoria do Vai-Vai que sempre vou ser muito grato por eles terem entendido a minha proposta”, comentou.

Importância dos artistas no desfile

Como citado anteriormente, o Vai-Vai irá levar para o Anhembi inúmeros artistas da arte rap e hip hop. O principal deles são os Racionais, liderado por Mano Brown, que faz participação especial na faixa do álbum de sambas-enredo da Liga-SP em 2024. De acordo com Sidnei, é um prazer ter essas pessoas do lado e a sociedade deve aprender bastante. “Eu recebo isso como um presente, porque eles não têm obrigação de entender o carnaval de São Paulo. A escola de samba hoje obedece a um critério de julgamento e um regulamento que rege os desfiles, mas o hip hop não entende nada disso. Eles não entendem o que faz você ser penalizado, que faz você estourar tempo. E se um carro alegórico não entrar na avenida o que acontece? Eles não têm essas dimensões. Eles chegam com frescor de quem não conhece, mas respeita, tem curiosidade e quer se envolver. Principalmente nessa homenagem a eles. Tem sido muito valioso para mim até para expandir a mente e entender que o samba não é a única maneira de representar a cultura popular. A gente tem que ter essa humildade de entender que hoje no ano de 2024, se baixar um decreto e abolir as escolas de samba, só nós vamos chorar. A cidade de São Paulo não vai chorar pelas escolas de samba. Se você for aos bancos na Avenida Paulista, se você vai no autódromo de Interlagos, vão sentir pena, mas daqui um mês nem vão lembrar. A gente sim vai lamentar. Os rappers sabem muito bem o que é resistência. A gente tem muito que aprender com essa gente que vive resistindo e sabe que é taxado de preto, maloqueiro, subversivo e anarquista, mas que eles sabem que a mensagem deles é essencial. Por exemplo, para Capão Redondo, Jardim São Luiz, Jardim Ângela para estarem no mapa de São Paulo, quem colocou foi Racionais Mc’s”, afirmou.

vaivai barracao24 2

Estética realista

Perguntado sobre as fantasias, Sidnei explica que não vai fugir da estética colorida, apesar do enredo apelativo. Cita também o realismo que as vestimentas irão mostrar para o público. “Quando eu fui pensar nas fantasias, claro que tem que respeitar a identidade do discurso do tema e do setor que elas vêm. Cada fantasia está no setor e cada setor tem uma identidade e responde a um período do hip hop, seja por época ou por movimento artístico político. Mas no geral são roupas com poucos brilhos. Ninguém vai encontrar galões, espelhos e plumas. São fantasias que têm duas vertentes. Algumas eu nem chamaria de fantasia de tão realistas que são. Tem muito figurino nesse desfile e as fantasias elas apelam porque a gente chama de hiper-realismo, que é você retratar a realidade nua e crua. Acho que vai dar uma estética muito diferente, mas eu aposto que vai ser muito bacana. Eu tenho uma esperança muito positiva da apresentação desse desfile, até porque falar da rua e falar de criminalidade. falar de violência, de abandono, de opressão, não quer dizer que vai ser um desfile monocromático. A escola vai ser colorida, mas colocando o dedo na ferida”, contou.

Trunfos no Anhembi

De acordo com o artista, a alvinegra da Bela Vista irá levar dois trunfos para a passarela. Um deles é a questão de o tema ser ligado totalmente ao Vai-Vai. Segundo o carnavalesco, dentro de outra agremiação não seria a mesma coisa. Outra coisa é a estética, que Sidnei diz que irá ser diferente das outras escolas do Especial. “Pode ser dois, porque eu vejo grandes trunfos: Primeiro é a identidade do tema com a escola. Ela está muito segura do que está falando, cantando e do que vai representar. Acho que o primeiro trunfo é que se esse enredo fosse feito em alguma outra escola que tivesse menos preocupação com o viés popular, soaria muito fake e ia ser muito artificial. Então primeiro é isso, eu acho que o Vai-Vai tem é o famoso lugar de fala. Está muito na moda falar isso, eu fico fugindo dessas palavras, hoje em dia todo mundo fala em ancestralidade e em lugar de fala, mas eu acho que no fim é isso. Apesar do termo meio surrado, ter lugar de fala para falar da rua, periferia, povo pobre e do preto oprimido, eu acho que não vai mais se construir em cima desses valores que a sociedade rejeita ou ignora. Acho que poucas escolas conseguem desfilar em São Paulo com enredo que tem. Em segundo, é o que a gente acabou de falar. Eu acho que o Vai-Vai se diferencia totalmente nesse carnaval das outras 13 do Grupo Especial na questão da plástica. Eu acho que muita gente que não entendeu esse enredo vai falar que está pobre, ou seja, mais uma vez reforçando esse pensamento euro centrado. São os dois grandes trunfos do Vai-Vai – É o enredo que fala com a sua identidade e também uma estética que se diferencia das outras para o bem e para o mal”, avaliou.

Conheça o desfile

Sidnei França explica todo os setores e contexto de alas e significado de alegorias. O carnavalesco fez questão de ser o mais detalhista possível.

vaivai barracao24 3

Questionando São Paulo

“Toda a entrada do desfile é diferente. Abre-alas, todo aquele começo, baiana e o primeiro casal está ali também. A escola propõe uma volta em 100 anos atrás. Então o desfile de fato começa em 1922, quando vai questionar a Semana de Arte Moderna. A ideia é essa e quando eu falo questionar a Semana de Arte Moderna, é no contexto de que nós não invalidamos, não é isso, jamais, muito pelo contrário. É um momento histórico do Brasil onde refundaram valores artísticos e aflorou a identidade de um país que se assumiu tropicalista, miscigenado e sincretizado também. Então se você entender como era São Paulo em 1922, tinha muita roda de samba e grupos carnavalescos. Já existia o grupo Barra Funda, que é o embrião do Cordão Barra Funda, que depois virou o Camisa Verde e Branco, rodas de capoeiras, na Zona Leste já tinha a Tiririca que participava seu Nenê de Vila Matilde. A gente percebe que São Paulo já tinha uma efervescência preta, só que isso não entrou na Semana de Arte Moderna. A elite sempre preferiu se clausurar nos teatros, nos museus, nos grandes salões para celebrar a sua superioridade e não olhou para. Então nós não começamos falando de hip hop de fato. A gente começa debatendo uma São Paulo aristocrática, que na sua maioria das vezes não olha para rua com respeito, valorização e igualdade”.

Homenagem ao hip hop

“A gente vai para o segundo setor e aí sim a gente começa a homenagear o hip hop de fato. Então começa a falar sobre os 40 anos no Brasil dessa cultura. E aí a gente faz um passeio. Esse segundo setor é dividido em dois: A primeira metade, que é onde vem a bateria, vem bem perto do abre-alas. Depois a segunda ala depois do abre-alas. Então essa primeira metade do segundo setor homenageia o breaking. Então, por exemplo, a bateria vem vestida de Nelson Triunfo. Ele é uma espécie de um patrono de uma figura líder do movimento que primeiro era o funk e depois virou breaking no Brasil e que foi absorvido pelo hip hop. Então a primeira metade desse segundo setor é o breaking e a dança. E na outra metade nós vamos mostrar o rap. E aí é onde vem o segundo carro do desfile. O segundo carro é a união dos Mcs e dos DJs. Nesta segunda alegoria é onde nós vamos homenagear toda a vanguarda e velha-guarda do hip hop através dos grandes álbuns. Nós vamos falar do picho, que é uma modalidade que é considerada subversiva e até mesmo criminosa, porque muitas vezes o pichador ele não pede a autorização ou licença para pichar um muro, um prédio, uma fachada, uma empena de um prédio. Só que tem muita arte dentro da pichação, tem muitos códigos de cultura e de costura também. Nós vamos homenagear o picho e depois a gente vai homenagear o grafite, que hoje é uma modalidade de arte que no mundo inteiro é reconhecida. Eu também vou homenagear no desfile um projeto que eu conheci na zona leste de São Paulo, em São Mateus, chamado de Favela Galeria. Dentro da estrutura dessa favela, eles têm a intenção em algum tempo em alguns anos de ser a primeira favela na América Latina 100% grafitada. Telhado, parede, rua, escadão e viela tudo grafitado. A intenção deles é que drone e helicóptero passe e veja um distrito inteiro grafitado. E a gente vai tornar o sonho deles realidade no carnaval, porque o terceiro carro é uma favela 100% grafitada. Nós vamos grafitar uma homenagem pra Favela Galeria”

Inteligência no movimento

“O que que eu chamo de conhecimento hip hop que vai estar nesse último setor, por exemplo, as crianças vão abrir esse setor vestida de skatistas. O skate se aproximou do hip hop e passou a ser entendido como conhecimento hip hop, é esporte antes não se falava de esporte no hip hop com essa aproximação dos skatistas com os rappers com os b-boys e com os grafiteiros que é todo mundo da rua, né? Ocupa a rua então o skate acabou sendo abraçado e foi entendido como cultura de conhecimento. Outro exemplo, é agora que nós também vamos ter nesse último setor do desfile, é o breaking; Ele alcança a Academia Brasileira de Letras. Então já tem um movimento para o Mano Brown ser um Imortal da Academia Brasileira de Letras. Outra coisa que vai estar nesse último setor são as batalhas de rima que acontecem nas estações de metrô, nas praças e bibliotecas de São Paulo. Nós já temos as rodas e as pessoas ficam duelando. É o que eles chamam de poesia urbana”

‘Fogo na estrutura’

“Último carro é o próprio movimento manifesto paulistano. Então nesse último carro nós pretendemos ressignificar São Paulo a partir da ética hip hop. Então nesse último carro nós vamos trocar o lema do brasão de São Paulo ao invés do “Non Ducor Duco”. Vamos colocar algo que nos represente mais, então vamos tirar isso porque é em latim e nós não falamos latim. É um discurso, “Não sou conduzido. Eu conduzo”. É, ele é dominador, ele é aristocrata e substituindo. “Não somos invisíveis, existimos”, representa mais a verdade do Povo de São Paulo. Uma outra proposta que está nesse manifesto paulistano é queimar o Borba Gato. A ideia é a escola desconstruir, pichar e queimar o Borba Gato, que foi o que tentaram fazer agora em 2018. Outra ideia que a gente vai fazer é uma nova ocupação do MASP, porque o MASP representa a artística plantada na Avenida Paulista e que é o símbolo do capitalismo brasileiro. Nós vamos fazer macumba, nós vamos fazer despacho e o próprio MASP, ele vem com alguns dizeres, vai vir pichado com manifesto de reivindicação de direitos proletariado para o povo pobre preto. Nesse mesmo carro, por exemplo, nós vamos ter também várias placas de trânsito, de rodovias, de praças e de ruas rebatizadas. Então, por exemplo, nós vamos trocar a Fernão Dias por Madrinha Eunice e Raposo Tavares por Geraldo filme.

Ficha técnica
Quatro alegorias
Um tripé
2.600 componentes