Depois do justo rebaixamento de 2020 no Grupo Especial, a União da Ilha do Governador fará seu terceiro desfile em sequência no carnaval da Série Ouro. Sonhando em retornar à elite, a escola seguirá apostando no talento e competência do carnavalesco Cahê Rodrigues. Dessa vez, o artista resolveu apostar em dois temas que a Ilha tem predileção, por ter gerado desfiles de muito destaque. Ao unir a africanidade com o mundo infantil, criou o enredo de 2024, que teve grande aceitação da comunidade. Crianças passaram a frequentar a quadra da escola, incentivados pelos componentes ao explicar a história que Cahê pretende desenvolver na avenida. Jovens pretos começaram a se sentir representados, encorpando ainda mais a Ilha, que sempre foi tradicionalmente bastante popular. E pelo que se vê no barracão da escola, mesmo em condições não tão favoráveis em termos de estrutura, os sambistas podem esperar um trabalho estético de alto nível. Alegorias muito grandes, limpas e impactantes. Um dos carros deve chegar a 15 metros de altura no ponto mais alto de sua escultura principal. Além disso, serão vistos mecanismos giratórios, demonstrando que a direção da União da Ilha também aposta e investe bastante no próximo carnaval. Mas a principal mensagem estará contida no enredo, que será um grande manifesto antirracista através do olhar infantil, utilizando a educação e o amor como armas nesta importante luta.

Fotos: Rafael Soares/CARNAVALESCO

A União da Ilha será a quarta escola a desfilar no sábado de carnaval, dia 10 de fevereiro, pela Série Ouro, na Marquês de Sapucaí. A agremiação irá levar para a avenida o enredo “Doum e Amora: Crianças para transformar o mundo!”, de autoria do carnavalesco Cahê Rodrigues.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, o artista falou sobre como surgiu a ideia do enredo e de que forma o livro do rapper Emicida ajudou no desenvolvimento:

“Eu já tinha um enredo pré-desenvolvido falando de crianças transformadoras, e aí, conversando com a minha equipe de enredistas, a gente se deparou com a obra do Emicida, que completou tudo aquilo que faltava dentro da nossa concepção, que era juntar o afro com o infantil, que são dois temas que a Ilha gosta muito de fazer. E aí, o livro Amoras, do Emicida, nos deu essa possibilidade de fazer um enredo com um olhar infantil, mas tendo uma roupagem africana. Então, não é uma África pesada, não é uma África terrosa, como a gente costuma ver, é uma África infantil, dentro de um tema infantil. E aí, nasceu Doum e Amora, crianças para transformar o mundo. Então, foi uma junção de ideias dentro de uma conversa na equipe, que nasceu a ideia de falar sobre o enredo antirracista inspirado no livro do Emicida”, disse Cahê Rodrigues.

O carnavalesco contou que viveu episódios muito marcantes em sua infância e adolescência em que seus amigos foram alvo de racismo. Cahê trouxe essas memórias como uma importante motivação para realizar seu carnaval, mas buscando retratar esse contexto sem tanta dor, muito mais com o olhar puro das crianças. Ele ainda contou um belo momento sobre uma menina preta na escola:

“Eu fui uma criança, um adolescente que conviveu muito com negros. Os meus melhores amigos são negros, as pessoas que eu tenho, que eu carrego no meu coração, são negras, então eu já vi de perto muitas situações de racismo. Eu nunca vou sentir a dor que eles sentem, o que eles já sentiram, mas eu pude ver de perto muitas coisas que doeram em mim poder presenciar. Então, quando eu olho para essa história, quando eu vejo a possibilidade de um homem branco como eu poder tocar num tema desse, poder desenvolver um enredo desse, peço permissão à ancestralidade preta, conversando com pessoas, porque eu não sei trabalhar de outra forma, não sei deixar de ouvir as pessoas que estão inseridas dentro desse processo. Um dos meus enredistas é um homem preto. A escola tem muitos exemplos pretos, pessoas que carregam histórias muito bacanas. Então, eu procurei ter muito cuidado, porque enredo sobre racismo já passou um monte na avenida. Mas quando a gente olha para a Ilha e vê o enredo que tem como protagonistas duas crianças pretas que vão contar essa história de uma outra forma, isso que me encanta, poder tocar em temas tão sensíveis e necessários, mas sem agressão, sem dor, sem corrente, sem chicotada. Não que eu esteja fantasiando e floreando uma história que a gente sabe que não é bonita, mas na ocasião, para o nosso enredo, a gente tem essas crianças que vão nos ajudar a contar isso de forma mais leve, mostrando que não é com agressão, não é com chicotada, não é com palavrão que você vai transformar a humanidade. Você só vai conseguir transformar a humanidade através da educação e do amor. Porque ninguém nasce racista. As pessoas aprendem a ser racistas por falta justamente de uma educação antirracista dentro de casa, dentro das escolas. Então, Doum e Amora vão transformar a vida das pessoas através dos seus olhares. Quando eu comecei a ter alguns sinais de que a gente estava no caminho certo, foi quando a filha de uma menina da escola, quando ela viu a logo do enredo, ela falou para a mãe dela que a menina se parecia com ela, porque é uma menina negra de cachinhos. Então, aí você vê o protagonismo da criança preta que nunca existiu. Ou existiu de forma camuflada. Quando você vê uma criança olhando para um logo de um enredo e apontando para a mãe que aquela menina se parece com ela, eu acho que já é uma vitória do nosso enredo, independente de qualquer coisa”, falou o artista.

Cahê disse ter muito carinho por todo o desenvolvimento do enredo, mas revelou algumas partes do desfile em que aposta bastante, por conta de sua beleza e significado muito fortes:

“Eu sou muito apaixonado nesse enredo e pelos momentos que a gente vai apresentar, mas eu acho que a abertura da Ilha, a entrada da escola esse ano vai ser mágica. A nossa frente é muito bonita, o nosso Abre-alas trazendo o Doum é muito bonito. É muito significativo esse céu de África trazendo a imagem do Doum. A escola toda está muito bacana, mas eu acho que um outro ponto que vai ser muito bonitinho também vai ser o tripé, que vem logo depois do carro Abre-alas, que traz Amora, que é apresentada dentro desse contexto da ciranda dos orixás, com as ferramentas dos orixás, como se a gente estivesse materializando a logo do enredo no desfile. Então, você tem um livro que salta de dentro dele essa energia, essa espiritualidade de Amora, cercada por esse carrossel de ferramentas dos orixás, e é onde vem Belinha, também nesse tripé de Amora, então acho que vai ser bem bonitinho de ver”, apostou o carnavalesco.

O artista preferiu não afirmar que o desfile da Ilha será o maior de sua história no grupo de acesso, mas demonstrou muita confiança de que representará um divisor de águas para a agremiação:

“Eu não sei se vai ser o maior, cada desfile é um desfile. O desfile de Nossa Senhora Aparecida foi arrebatador, foi lindo. E eu considero um dos grandes desfiles da história da Ilha. Não só porque estava no Grupo de Acesso, mas eu acho que o Vendedor de Orações foi um grande desfile. Eu acho que Doum e Amora vai ser um divisor de águas dentro de uma escola onde, de alguma forma, a gente também está ensinando as pessoas essa educação antirracista. Eu acho que quando a gente fala de um bom enredo, ele só vale a pena quando a mensagem fica. Quando a gente aprende alguma coisa com ele. Então, eu olho para a quadra da Ilha hoje cheia de crianças. Eu nunca vi aquela quadra com tanta criança, eu nunca vi tantas crianças perto de mim. Parece uma coisa que realmente o mundo espiritual ele carrega, ele traz isso para perto da gente. Não sei se vai ser o maior desfile da União da Ilha, mas eu acho que vai ser um desfile que vai marcar a história da União da Ilha e que vai emocionar o sambódromo pela mensagem, pela verdade que a gente carrega e por tudo, todo o cuidado que a gente está tendo com o tema deste carnaval”, disse Cahê.

Após muitos anos de trabalho no Grupo Especial, em escolas como Imperatriz, Grande Rio, Portela e Porto da Pedra, Cahê está em seu terceiro ano seguido com a União da llha na Série Ouro. O artista contou as principais dificuldades que encontra no barracão em que está atualmente, em comparação com a estrutura da Cidade do Samba:

“Não tem estrutura nenhuma de trabalho. A Ilha ainda é uma escola que se preocupa em fazer uma sala, tem um ar-condicionado, fez um banheiro. Mas até pouco tempo eu estava brigando aqui com órgãos, com lideranças da prefeitura, para poder vir aqui jogar um remédio de mosquito, porque um monte de gente com dengue nessa região, os barracões infestados de mosquito, ninguém faz nada. E aí eu estou vendo meus funcionários adoecendo, barracões vizinhos também reclamando da mesma coisa. Essa situação a gente não passa na Cidade do Samba. E aqui a gente tem que se virar nos trinta para poder trabalhar de forma digna e dar pelo menos um pouco de estrutura às pessoas que estão aqui dentro. Essa é a maior dificuldade. É a falta de segurança, a falta de higiene. E aí você acaba tendo que se preocupar. Não só com a feitura do carnaval, mas com as pessoas que estão aqui dentro trabalhando. Acho que existe uma diferença muito grande em estar dentro da Cidade do Samba e fazer um carnaval fora muito competitivo como a Ilha faz, porque é uma escola que é muito esperada, se cobra muito da Ilha um grande carnaval e a gente trabalha nas mesmas condições que todas as escolas da Série Ouro, não é diferente. Então, é driblar esses problemas e poder fazer um carnaval digno da Ilha, dentro de uma estrutura muito ruim, é o nosso maior desafio”, desabafou o carnavalesco.

Ainda neste tema, o artista falou sobre as formas que ele e a escola encontraram para driblar as dificuldades financeiras e estruturais para o desenvolvimento do carnaval, buscando novos recursos e apostando em uma equipe muito competente:

“A gente vai dando o nosso jeito. Acho que a Ilha tem uma boa administração, então o presidente tem consciência de que a gente precisa apresentar um grande carnaval. Ao mesmo tempo, a gente sabe que recebeu a mesma grana que todo mundo, não foi diferente, então aí ele também corre atrás de outros recursos, de apoio de empresários, de amigos, que sempre ajudam a escola. O orçamento da escola, claro que vai ultrapassar a subvenção que a escola recebeu, porque é um projeto para disputar título. A gente teve que fazer praticamente carros novos, estruturas de ferro novas, a escola gastou muito com madeira e fibra, coisa que no ano passado a gente não gastou tanto. No conjunto de fantasias houve um investimento também muito grande, então é uma escola que tem essa obrigação, independente das dificuldades de fazer um grande carnaval, e isso demanda muito tempo, dedicação, jogo de cintura, porque a gente tem que procurar sempre caminhos, pensar em plano A, B, C, o tempo todo. Eu mudei o meu projeto, por exemplo, umas três vezes, porque o dinheiro chegou muito em cima do laço e não dava para ficar brigando pelo projeto original, porque não ia sair. Você acorda e entende que não vai ter tempo de concluir o projeto original. E pensa no plano B, C, D, porque senão você vai ficar todo enrolado aqui, foi o que eu fiz. A estrutura foi feita, o carnaval é grande, os carros são grandes, mas eles precisam ser finalizados. E aí, com pouco dinheiro, como faz? Então, é realmente driblar os problemas com materiais alternativos. Eu também agradeço a equipe que eu tenho aqui dentro, que é fantástica. Minha equipe de ferreiros, de carpinteiros, de decoração, são pessoas muito comprometidas. E aí, somado à minha praticidade, que eu tenho em lidar com as dificuldades, e à administração da escola, que entende também que a gente precisa fazer um grande carnaval, independente das dificuldades”, explicou Rodrigues.

Cahê disse não se sentir desprestigiado por trabalhar na Série Ouro. Ele revelou que a União da Ilha devolveu seu prazer em fazer carnaval, pois é uma grande escola que o tirou da zona de conforto do Grupo Especial:

“Eu fiquei muitos anos no Especial, então, pra mim, estar lá não é novidade. A minha satisfação e alegria enquanto artista é ter paz e respeito onde estou trabalhando. Não me sinto diminuído pelo fato de estar na Série Ouro. Posso dizer que hoje eu estou muito feliz. Talvez eu tenha encontrado na Ilha uma alegria e um prazer de trabalhar que eu já não sentia há muito tempo. Então, para o artista que faz carnaval, é indiferente ele estar na Série Ouro ou no Especial. Até porque não adianta eu estar no Especial e não conseguir fazer um grande projeto ou não conseguir levar meu carnaval para a avenida, como já aconteceu em outros anos. Porque a gente sempre vai ser julgado pelo trabalho que atravessa o sambódromo. É claro que quando eu olho para as questões de estrutura de trabalho e a questão financeira, o Grupo Especial te dá muito mais possibilidades de um salário mais digno, de uma estrutura decente. Mas na Ilha eu encontrei essa alegria. Depois que eu comecei no acesso, e depois fui para o Especial, você acaba se acomodando um pouco. É normal, porque você encontra ali uma grande estrutura e só não faz um grande carnaval se você não quiser. Na Série Ouro é diferente. Se você não tiver experiência de barracão, se não tiver jogo de cintura, se não tiver um bom relacionamento com os profissionais, a coisa fica mais difícil. É claro que eu almejo em algum momento voltar para o Especial. Eu tenho projetos, tenho enredos que são para o Grupo Especial, e que eu sei que não vou conseguir fazer na Série Ouro por uma questão de investimento. Mas não me sinto diminuído pelo fato de estar na Série Ouro. Pelo contrário, eu agradeço todos os dias o fato de estar empregado em um momento que está tudo tão difícil para todo mundo. E eu estou em uma grande escola, a Ilha tem uma grande bandeira. Me sinto honrado em fazer parte da história da Ilha. E vou trabalhar até o último momento para ver essa escola de volta ao Grupo Especial”, refletiu o artista.

O carnavalesco da Ilha afirmou não ter planos traçados para a sequência da carreira. Cahê quer fazer o máximo possível pela escola e, depois do carnaval, aguardar o que o futuro reserva para ele:

“Na minha vida inteira eu nunca fiz planos. As coisas sempre foram acontecendo naturalmente. Nunca bati na porta de ninguém para pedir emprego, nunca liguei para ninguém. Eu não tenho esse perfil, dos famosos puxadores de tapete. Eu sempre espero e não faço planos. Carnaval é uma caixinha de surpresas, a gente nunca sabe o que vai acontecer. Hoje uma escola que é cotada para ser campeã pode chegar na hora e não acontecer. Então, a gente não sabe nunca o que está reservado para nós. Eu faço o meu trabalho pensando no meu carnaval. O que vai acontecer depois é consequência de uma série de coisas. Então, hoje o meu projeto é trabalhar até o último momento para ver a Ilha fazer mais um grande carnaval. E o que vai acontecer depois, se eu vou continuar na escola, se eu vou para outra escola, eu vou deixar acontecer. Não tenho contato de ninguém, não tenho convite de ninguém, como muitas pessoas ficam especulando. É claro que uma hora ou outra aparece alguém que fala alguma coisa, faz uma ligação ou algo mais concreto. Mas eu deixo a coisa acontecer, se tiver que ser, será. Se um convite tiver que vir, virá. E o que tiver guardado para mim, será meu porque está escrito”, disse Cahê.

Conheça o desfile da União da Ilha

Setor 1: “Doum e Amora, crianças para transformar o mundo, é um enredo inspirado livremente na obra do Emicida, Amoras. É um tema de educação antirracista e que foi dividido em quatro setores. O primeiro setor é quando a gente apresenta Doum, que chega ao céu de África e traz com ele toda a sua ancestralidade, toda a sua espiritualidade. Então, é um setor que a gente vai tratar exclusivamente da apresentação e chegada desse personagem. Ele é o protagonista desse primeiro momento do enredo”.

Setor 2: “O segundo setor é quando a gente apresenta Amora, a menina com a cara do Brasil. Também dentro desse perfil de menina de periferia, porque Amora pode ser qualquer menina de qualquer favela do Rio de Janeiro, do Brasil, do mundo. Então, é uma menina que representa a caminhada de todas essas meninas pretas que passam por tantas coisas ao longo do seu crescimento e que por falta de uma educação antirracista acabam sofrendo muito, principalmente na primeira idade, vamos dizer assim. Então, é um setor que a gente também vai falar desse universo de Amora, da sua ancestralidade, da sua origem, dos seus saberes, do seu habitat, do seu dia a dia dentro da sua comunidade”.

Setor 3: “O terceiro setor é quando Amora encontra Doum e aí os dois trocam experiências, trocam saberes e Amora apresenta Doum à sua comunidade. Onde ela mora, as suas brincadeiras, os seus costumes. Doum vai começar a se deparar também com as lutas diárias dos pais de Amora, em meio à luta contra o racismo, só que isso tudo com o olhar da criança. A gente sempre vai tocar no racismo com o olhar da criança. E aí nesse terceiro setor, a gente sai um pouquinho do lúdico, que está muito presente nos dois primeiros setores, e entra numa realidade onde Amora apresenta a Doum esse universo”.

Setor 4: “Quarto e último setor é quando essas crianças, protagonistas desse enredo, se encontram com outras lideranças. Então, já é um setor que eles começam a entender as histórias que os pais contavam. Até porque o livro do Emicida é um diálogo de um pai preto para uma filha preta, onde ele ensina a ela a beleza de ser preto. É um livreto simples, mas com uma mensagem muito potente desse pai para essa filha que o livro deixa muito claro. Vai estar muito presente no último setor, que é um setor que a gente fala diretamente dessa luta pautada na educação antirracista. Então, Doum e Amora vão se deparando ao longo das alas com esses personagens, com esses exemplos que servem de inspiração para eles, e que eles escutaram a vida inteira os pais falando para eles sobre o exemplo desses homens e mulheres. No final, a gente vê Doum e Amora inseridos em um universo onde, de fato, o que vai salvar a ignorância do mundo e o racismo é a educação e o amor que vão estar sendo espalhados ao longo de todo o desfile por essas crianças”.