Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins
O grande temor de toda escola de samba é ouvir uma nota diferente de dez no dia da apuração. Para que isso aconteça, não é permitido errar. E, buscando sempre a segurança em cada quesito, o Águia de Ouro teve uma atuação bastante destacada defendendo o enredo “Águia de Ouro nas Ondas do Rádio”, idealizado pelo carnavalesco Victor Santos. Quinta escola a desfilar no sábado de carnaval, a agremiação não deixou de ter pontos de destaque. As alegorias, bastante altas e imponentes, chamara atenção de quem estava no Anhembi. Histórias bastante interessantes, como a de um casal de mestre-sala e porta-bandeira formado há menos de um mês e que tiveram ótima atuação e a de uma rainha de bateria que teve uma fratura no pé e desfilou mesmo assim, rechearam um desfile que surpreendo positivamente.

Comissão de Frente
Com um grande tripé, o segmento, chamado de “Nas ondas do Rádio… em uma viagem imersiva, a invenção do Rádio é Ciência ou Bruxaria?” no enredo, fazia homenagens e continha uma própria história – toda idealizada pelo coreógrafo Ruy Oliveira. Em cima do tripé, uma dona de casa e o marido embarcavam em todas as emoções que o aparelho conseguiu despertar ao longo da centenária história do rádio no Brasil – principal mote do enredo, por sinal. Também fazendo referência a Landell de Moura, padre que patenteou o rádio nos Estados Unidos, o segmento trazia bailarinos representando grandes ícones do universo radiofônico, como Carmem Miranda, Ary Barroso, Linda Batista e Chacrinha. É importante pontuar que os dois grupos citados não tinham grande integração, cada qual com a própria coreografia.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Juntos há cerca de vinte dias, João Carlos Camargo e Monalisa Bueno representavam os Dragões da Independência, que participaram da primeira transmissão radiofônica do Brasil – os festejos da Independência do Brasil, em 1922. Com uma fantasia de identificação bastante simples para quem conhece a unidade militar, ambos passaram longe de ter qualquer falha de sincronia – na realidade, a impressão é que ambos dançavam há tempos juntos. Com ótimas apresentações nos quatro módulos, cumprindo todos os balizamentos obrigatórios, é importante pontuar que a sequência de giros do Casal era bastante extensa, impressionando todos os presentes.

Enredo
O Águia de Ouro buscou, em todo o desfile, prestar uma homenagem ao rádio – item que completou o centenário de existência em 2022. O primeiro setor (chamado de “Sintonia” na carnavalização) falava de toda a ciência que existiu para que a criação do item se concretizasse, além de exaltar a primeira transmissão via rádio no país – já citada neste texto; no segundo, como o objeto se tornou fundamental na sociedade brasileira para informação, lazer e formação da identidade do país ao longo de todo o século XX; no terceiro, o enfoque foi para o radiojornalismo e para as transmissões religiosas, também muito presentes no país até hoje; e, no quarto, falando do futuro, uma homenagem à internet e a Eli Corrêa, homenageado e dos grandes radialistas de São Paulo e do Brasil. De forma bastante leve, a agremiação da Pompeia conseguiu passar seu recado de maneira bastante eficiente e lúdica.

Alegorias
Absolutamente todas alegorias, além de bastante altos, impressionavam pela beleza, pelo bom gosto e pelo excelente acabamento. O abre-alas, “As ondas radiofônicas e a primeira transmissão nacional”, com uma imponente águia dourada em um primeiro chassi, trazia o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, palco inaugural do instrumento no Brasil. O segundo era claramente estilizado em homenagem à relevantíssima Rádio Nacional; o terceiro, “Hora do Angelus”, destaca a miríade de atrações religiosas no rádio brasileiro, todo decorado com motivos religiosos; por fim, o quarto, “O futuro é agora!”, buscava trazer uma mensagem positiva sobre os próximos momentos do instrumento – sempre citado como um meio de comunicação obsoleto, mas que nunca desaparece.

Também é importante pontuar o tripé alegórico “O som do meu carro”, com um conversível vermelho, que representava o status que um jovem possuía em décadas anteriores com um equipamento musical potente. De se pontuar, apenas, um integrante com uma camisa da escola no segundo carro, inteiramente com pessoas com traje de gala.
Fantasias
Chamou atenção o quanto a escola, em sua totalidade, conseguiu dar uma leitura bastante clara para todas as alas, carros alegóricos, casais e segmentos no geral. A ala 06, “Futebol – a emoção da narração de uma paixão nacional”, por exemplo, tinha camisas amarelas, shorts azuis e bolas de futebol; já a ala 12, “Radinho de pilha”, mostrava o quanto o instrumento portátil ajudava o homem do campo em sua labuta. Todos os fardamentos, por sinal, estavam muito bem acabados – muitos dos segmentos utilizavam materiais claramente nobres, por sinal.

Harmonia
O Águia de Ouro é conhecida pelo quanto os componentes da agremiação cantam forte. E isso, mais uma vez, se mostrou verdadeiro no desfile de 2024. Se o samba-enredo não é dos mais elogiados da safra, é nítido que a comunidade abraçou a leve obra, bastante simples de se cantar e com letra sem complicação alguma. A Batucada da Pompeia, bateria da azul e branca da Zona Oeste, colaborou com convenções que empolgaram os desfilantes, que cantaram em uníssono e sem qualquer percalço ao longo de toda a apresentação.

Samba-enredo
Quando as primeiras gravações de sambas-enredo começaram a ser reveladas, muitas críticas surgiram em relação à obra do Águia – composta por Tales Queralt, Aquiles da Vila, Lucas Queralt, Chanel, Marcelo Dores, Salgado Luz, Luccas Barroso, Abílio Jr., André Ricardo, Bruno Ribas, Nando do Cavaco, Ivanzinho, André Filosofia, Caio Ricci, Cauê Ricci, Edson Lins e Ronny Potolski, em uma fusão para decidir a eliminatória interna da instituição. Ao longo de todo o ciclo carnavalesco, porém, novas gravações e, sobretudo, o desempenho da canção ao vivo fizeram com que muitos reconsiderassem a primeira opinião acerca da qualidade da obra.

O que se pode destacar é que, no desfile, como costuma acontecer com todas as músicas levadas pela agremiação da Pompeia para a avenida, a comunidade inteira carregou a canção no colo e cantou com força. O samba, com característica bastante leve e popular, também pareceu feito para empolgar na voz de Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto, históricos intérpretes da instituição. Para finalizar, a Batucada da Pompeia, comandada mais uma vez por Mestre Juca (e com os também competentíssimos mestres Mi e Marcão na diretoria), sustentou com galhardia o samba, realizando as tradicionais bossas do segmento do Águia – incluindo uma delas no final da música, antes de chegar ao refrão.

Evolução
Se muitos criticam a agremiação por ter um andamento um tanto quanto mecânico, é muitíssimo importante pontuar que, se o objetivo de toda e qualquer escola é conquistar o título, a agremiação da Pompeia executa com perfeição o que o regulamento pede. Com ritmo bastante uniforme ao longo de todo o desfile, sem correrias ou espaços em branco, o Águia foi, novamente, exemplo no quesito. O tempo bastante tranquilo de encerramento da exibição, uma hora e um minuto, é apenas mais uma mostra de que, no atual carnaval paulistano, há uma agremiação que domina o quesito como ninguém.

Outros Destaques
Reinando soberana na corte da Batucada da Pompeia (que chegou a se ajoelhar na frente da Arquibancada Monumental), uma rainha à altura: Vanessa Alves, que desfilou lesionada (ela sofreu uma fratura no pé esquerdo em ensaio no dia 22 de janeiro, passando por cirurgia dias) e precisou de um imenso esforço extrapassarela para estar presente com os ritmistas.


Oxóssi, o rei do candomblé Ketú, é conhecido por ser o grande caçador, o rei de todas as matas. Sua cor característica é azul, mas usa-se o verde para representá-lo por conta da sua conexão com a natureza. E essas foram as cores que as baianas do Império Serrano vestiram para representar esse orixá no enredo “Ilú-Oba Òyó: A Gira dos Ancestrais”.
“Representar Oxóssi, que é a força do Império, significa que a gente não pode desistir, temos que continuar na luta, porque a gente vai chegar onde a gente merece”, disse a psicopedagoga Bruna José, de 35 anos.
Para Vera Lúcia Moreira, de 62 anos, a fantasia de Oxóssi é sinônimo de Império Serrano.
“A gente vem representando Oxóssi. E que ele venha abençoar e trazer melhoramento para o Império Serrano, só isso e muita paz”, disse Maria José, que tem 85 anos, a maioria deles vividos como baiana da escola da Serrinha.







A Unidos de Bangu encerrou seu desfile trazendo o carro “Jorge sincretizado! Patacori, Ogum!”, como uma grande festa saudando Ogum, o orixá guerreiro vencedor de demandas, onde não somente ele, mas diversos outros orixás também apareciam em saudação. O carro traz o sincretismo entre os santos católicos e os orixás cultuados nas religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, através de esculturas e de pessoas representando cada um destes orixás, entre eles Exú e Iemanjá, sendo a maior das esculturas a do orixá homenageado. Em tons de azul e branco, e com muitos búzios, a alegoria trouxe ainda um grande caldeirão a frente.
Vitória Zanardo é outra componente que desfilou pela primeira vez na escola: “Eu venho representando a Oxum, que é a deusa da fertilidade, da beleza. E estou muito feliz, hoje, de estar representando essa escola tão linda, de uma comunidade tão linda e especial pra mim, e a fantasia é confortável, achei com bastante brilho, que é o mais importante, né, pra alegoria. E muito completa, com diz, com o que é proposto”. Sobre a alegoria em si, a foliã, de vinte e seis anos, gostou muito: “Eu achei bem completo, né, ele vem falando sobre os orixás, e ele está grande, com muita cor, cores bem vivas, que é o que chama a atenção no carnaval. As cores as fantasias estão com muito brilho, bem caprichadas esse ano e a gente tem tudo para brilhar hoje na avenida”.
“Jorge da Capadócia” foi o enredo que a Unidos de Bangu trouxe à avenida para o Carnaval de 2024. Contando a história do soldado que virou santo, e séculos depois foi sincretizado com Ogum, orixá guerreiro, marca que fica salientada na religiosidade de vários brasileiros, em especial nas religiões de matriz africana. Sabendo da popular devoção de São Jorge, o CARNAVALESCO conversou com alguns devotos do santo, que vieram desfilando pela escola Vermelha e Branca, ainda na concentração, numa conversa de fé e samba.
Carlayle Júnior, de trinta e sete anos, contou sobre sua percepção do santo guerreiro: “Eu acho que São Jorge, como todo santo popular no Brasil, diz muito sobre a nossa cultura, a formação do nosso povo, o sincretismo religioso, misturado com essa questão dos santos católicos, com os orixás, com as entidades. Eu acho que São Jorge é o que talvez represente melhor isso”. O folião conta que além de São Jorge, tem devoção por outros santos, e acredita que, de uma forma, ou outra, seus pedidos, como saúde, trabalho, e tranquilidade, são atendidos, mas sem que os santos tenham uma “dívida” com ele: “Eu tenho uma devoção para São Jorge, São Sebastião, vários santos católicos, mas confesso que eu não chego a achar que eles têm que atender todos os meus pedidos, Mas acho que de uma certa maneira talvez sim, algumas coisas que eu tenha pedido sim”. E falando de samba, ele, que desfila pela primeira vez na escola, falou sobre as vezes que São Jorge veio como enredo, ou parte de um enredo maior: “Eu acho que todo enredo, toda escola vai sempre arrumar um jeito diferente, um outro enquadramento pra contar a história de um mesmo santo, de um mesmo tema. Então acho que a Bangu já encontrou um jeito diferente de contar essa história de uma outra maneira, assim como outra escola, o Império, vai vir com os orixás, que com certeza, são sempre bem vindos e são sempre bem celebrados aqui na Sapucaí”.
Rudgeri Gonzaga, que desfila há quatro anos na Bangu, começou definindo São Jorge em algumas palavras ao falar do santo: “Guerreiro, luta, força, coragem. São Jorge é especial em todos os momentos. É com ele que eu me pego, sempre”. Ele continuou contando que é sustentado pelo santo, e alguns dos pedidos que faz a ele, além de citar o momento que considera mais especial nessa relação: “Muita paciência para poder enfrentar os desafios do dia. São Jorge tem me sustentado muito. Todo dia 23 de abril, quando a gente vai na igreja de Quintino, eu acho que é um momento muito especial, que marca uma emoção muito grande de São Jorge, a presença dele na vida da gente. Quando tem a processão, então, é um momento muito emocionante”. Ao falar de samba, o desfilante de trinta e três anos, que veio de São Jorge, falou que é sempre pertinente homenagear o santo da Capadócia: “A gente tem que homenagear sempre São Jorge, eu acho que a gente tem que falar muito sobre Ogum, da representação da religião de Matriz Africana, que traz com muito louvor a história do santo guerreiro, seja em qual religião ele se destaca, porque eu acho que São Jorge é a força da representação do sambista, e a gente tem que trazer sempre”.





















