Início de uma tradição: Comissão da Inocentes representa a chegada dos Russos em Pernambuco
A Inocentes de Belford Roxo foi a segunda escola da Série Ouro a passar pela Marquês de Sapucaí, nesta sexta. A agremiação apresentou o enredo “O sonho do tal pagode russo, nos frevos do meu Pernambuco”, idealizado pelo carnavalesco Edson Pereira e inspirado na música “Pagode Russo”, de Luiz Gonzaga. A escola homenageia a cultura pernambucana, o frevo e a influência da Rússia nessa cultura.
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Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A comissão, coreografada por Sérgio Lobato e Patrícia Salgado, contou como surgiu o frevo na cultura pernambucana. Ela parte de uma lenda urbana, em que, com a chegada dos Russos na cidade de Recife, houve uma troca cultural entre os nativos e os estrangeiros. Com a influência nos passos pernambucanos surgiu a famosa dança pernambucana. Em entrevista ao CARNAVALESCO, os coreógrafos e dançarinos comentam sobre essa apresentação.
Como dito anteriormente, a comissão parte de uma lenda, um “disse-me-disse”. Logo, o trabalho dos coreógrafos em tornar isso em uma dança de fácil compreensão ao público se é maior.
“Vai ficar muito claro pela personalização dos personagens. Eles estão muito bem caracterizados pela movimentação, que vai ser muito clara. Essa parte do disse-me-disse também, porque nós temos um personagem que retrata isso com a dança dele e com a movimentação. E o nosso tripé tá muito rico de informação, eu acho que o público vai conseguir entender muito bem, além da alegria de Pernambuco do Recife”, diz Patrícia.
“Nós trazemos os cidadãos pernambucanos na visão do mestre Vitalino, em Barro. E esses mesmos personagens em barro, eles são trajados, depois dos barros, também com frego. Na verdade, a comissão é toda essa brasilidade, essa mistura de danças russa, do coco, até dá essa tropofagia. Essa mistura, que o carro também tem um movimento que eles trocam de roupa, para esse remelexo, como diz o samba, para dar o frego. É toda essa brincadeira deles vendo que pessoas são essas, estranhas na nossa cidade. e essa interação entre eles e representando também aqui a música através da homenagem também do Luiz Gonzaga, que vai também estar sendo representado”, completou Sérgio.

Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A apresentação se passou em um coreto, local que teve um papel importante em Pernambuco no século XIX, justamente por movimentar a cultura e sociabilidade do povo, sendo um local de encontro, festividade e dança. Na coreografia, é nele onde ocorre essa conexão cultural.
“Nós utilizamos bastante o espaço, tanto de baixo quanto de cima, que a gente vai ter uma divisão mesmo desses personagens. Os russos, num certo ponto, eles vão estar lá em cima e eles vão assistir, dançam em cima do carro e eles assistem embaixo o movimento do frevo”, explica a coreógrafa.
“É o tempo todo essa troca de dança de informações e o coreto que é essa referência do passado, tanto musical, política, festa, festiva, então a gente traz essa representação e é um trabalho todo ele muito artesanal, essa é a proposta”, comenta Lobato.

Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Os coreógrafos contaram como foi o trabalho de construir a diferença corporal entre os russos e os pernambucanos, tendo em vista que são culturas distintas, mas que precisa ser claro para os jurados e o público.
“Nós somos da dança clássica, não é tão difícil sobre os russos. Além das pesquisas sobre Pernambuco, as danças referências, a dança do coco. No início do jurado, é como se tivesse uma rivalidade, uma disputa de dança entre eles, até que surge esse mix, que surge o frevo”, detalha o coreógrafo.
“Eu acho que foi um trabalho de pesquisa. A gente estudou a dança russa, claro, carnavalizando, porque a dança russa é muito específica, né? E não podemos esquecer que nós estamos no carnaval. Foi um trabalho de pesquisa mesmo, sempre adaptando para o projeto do carnaval. E eu acho que ficou muito de fácil leitura. As pessoas, quando verem a coreografia, vão entender bem os movimentos e vão perceber quem é quem”, completa Patrícia.
O momento em que a estranheza entre os dois povos acaba no momento em que eles criam o frevo, que é quando eles se conectam e tem o momento de festa. Os coreógrafos comentaram sobre esse momento e a percepção do público.
“Durante a avenida vai ter muita também vai ter festa, durante a avenida vai ter essa disputa também, mas ainda um pouco distantes um personagem do outro né, os russos bem garbosos, meio além de serem tipo militares da sua forma, também eles dançam, as danças e cossacas, esse final é só o jurado mesmo que tem essa junção”, conta Sérgio.
“Eu acho que é mais para o final, quando vai acontecer uma coisa que eles vão ver que ali é o momento da festa, é o acontecimento”, afirma Patrícia.

Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
André Valim, de 44 anos, ator e professor, desfila na Sapucaí há 33 anos, mas está em seu primeiro ano na Inocentes. Ele interpretou um grande papel na comissão: Luiz Gonzaga.
“Foi um presente poder representar quem eu venho representando, o Luiz Gonzaga. Eu considero o Luiz Gonzaga muito mais do que um compositor, ele é uma instituição. O que ele fez com a cultura nordestina é quase um ato político de colocar o nordeste no centro da identidade brasileira. É muito emocionante estar aqui no enredo que é a partir de uma obra dele, conhecida por todo brasileiro”, pontua André.
O ator também falou sobre o momento em que começa o frevo na coreografia: “Nesse momento, eu, especificamente, estou tocando. É como se eu estivesse tocando pra todo mundo dançar. É um prazer estar vivendo esse momento, mesmo não sendo músico”.
“Eu quero muito que eles sintam a mesma alegria, a mesma vibração e a mesma energia que a gente sente fazendo esse desfile, essa coreografia. Que, desde o início, foi um trabalho de muita alegria, de muita leveza e de muita empolgação. Eu acho que é isso que eu quero que eles sintam um pouco do que a gente viveu”, diz André sobre o que espera da reação do público.

Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A bailarina e integrante da comissão de frente, Maria Clara Barrie, de 20 anos, também está estreando na agremiação. A dançarina representou os pernambucanos.
“É muito impressionante e muito importante, porque o Carnaval traz pautas muito importantes e que, às vezes, a gente não pensa. E ver essa beleza traz a gente para pensar a beleza real daquilo que a gente, às vezes, tem preconceito, não entende, não conhece. É muita pressão. Vamos dizer assim, porque é um personagem muito importante, muito característico, mas é muito legal”, revela.
Maria Clara também falou sobre seu sentimento no momento em que o frevo surge na coreografia.
“Quando a gente tira a roupa assim, quando a gente muda de posição, não tem como tirar o sorriso do rosto, é a felicidade da dança, da coreografia, da cultura, da beleza”.

Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O dançarino Davi, de 29 anos, apesar de já ter trabalhado com Sérgio Lobato em outras escolas do Grupo Especial, está em seu primeiro desfile pela Inocentes.
“É sempre um grande prazer representar a história do Brasil e principalmente essa miscelânea, essa mistura que foi da dança russa, da cultura russa, trazida para o Nordeste, para o Recife, e se misturando e virando o nosso frevo”, conta Davi.
O dançarino também contou a expectativa quanto a reação do público: “A gente espera sempre levar alegria para o público que está esperando isso, e principalmente para a comunidade de Belford Roxo, que a nossa missão como comissão de frente é resumir e ao mesmo tempo contar a história que está vindo atrás da gente com o resto da escola”.
Após incêndios, Jacarezinho faz do abre-alas um manifesto de resistência
A Unidos do Jacarezinho abriu os desfiles da Série Ouro convertendo o carro abre-alas no principal manifesto do enredo “O ar que se respira agora inspira novos tempos”, homenagem ao cantor Xande de Pilares. Em vez de apenas apresentar o tema, o abre-alas assumiu o papel de síntese de uma temporada marcada por perdas, reconstrução e mobilização comunitária.
Horas antes do desfile, na concentração, o cenário era de tensão e entrega coletiva. Integrantes ainda colavam tecidos sobre a estrutura de madeira da alegoria, numa corrida contra o tempo para finalizar o acabamento da alegoria.
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A proposta visual era retratar uma favela colorida, com pipas no topo, evocando as vielas do Jacarezinho onde as primeiras músicas de Xande ecoaram. O que poderia ser lido como improviso revelou-se, na Avenida, como potência estética e política: a comunidade sustentando, com as próprias mãos, o próprio sonho.
A temporada foi atravessada por perdas severas. Na madrugada de 5 de fevereiro, um incêndio atingiu três salas da quadra da agremiação, no bairro do Jacarezinho, destruindo fantasias de 12 alas e diversos adereços. Meses antes, em outubro, outro incêndio já havia atingido o barracão da escola na zona portuária.
A ausência de fantasias e o impacto material eram visíveis. Mas o clima, como repetiam os componentes, era de resiliência e garra.

Estreando na escola, Ângelo Rios, 24 anos, assistente administrativo, resumiu a apreensão que antecedeu o desfile. “No primeiro momento eu fiquei um pouco apreensivo. Eu achei que ia dar meio ruim, mas agora que está chegando perto da hora da escola desfilar, eu estou achando que pelo menos a gente vai entregar. Alguma coisa vai entregar”, afirmou.
Morador da comunidade, ele se deteve na parte frontal da alegoria. “Eu gostei muito dessa parte aqui da frente, do Jacarezinho, acho que vem trazendo o nome da escola, vem trazendo a comunidade, eu acho que isso é muito importante. E gostei das cabeças lá em cima que remete muito a Xangô, eu acho que isso traz um pouco do Xande também. Estou gostando das cores vívidas, acho que melhorou”, disse.
Ao refletir sobre a representação da própria comunidade, foi sincero: “Eu acho que poderia estar melhor. Eu acho que a comunidade vem muito mais forte do que as alegorias, mas eu acho que a escola de samba também é isso. Alegoria é só uma figuração, eu acho que o que importa é o que a comunidade vem trazendo e eu acho que a gente vai trazer um bom desfile para saudar o Xande, saudar a comunidade, eu acho que é isso que importa no final”, explicou.

Para ele, abrir o desfile falando da própria realidade tem peso simbólico. “Eu acho que é extremamente importante. Eu também tenho uma identificação muito grande com a Caprichosos de Pilares, eu ainda não tive a oportunidade de desfilar por lá e eu acho que trazer o Xande, ainda mais nesse meu primeiro ano na Sapucaí, é uma realização interna minha e eu acho que também para a própria comunidade. O Xande esteve aí em diversos carnavais da Jacarezinho, foi autor de diversos sambas. Eu acho que é muito importante. Eu estou gostando bastante, acho que também trazer um pouco da Jacarezinho que não aparece muito nos noticiários”, afirmou.
Sobre a ligação do artista com a escola, ele revelou descoberta recente. “Na verdade eu conheci a partir do enredo. Boa parte eu já sabia que ele tinha escrito alguns sambas mas não sabia que era tantos, e sambas tão históricos assim para Jacarezinho. Então acho que foi uma escolha perfeita do carnavalesco, uma pena que não está saindo da forma que a gente queria que saísse, mas se depender da comunidade a gente vai estar fazendo o que a gente pode de melhor”, disse.
A frase-tema do carro — “dar nó na tristeza e fazer da vida um carnaval” — ganhou interpretação existencial. “Esses dias eu li, vi um vídeo, que dizia justamente isso: a gente não faz carnaval porque a gente é feliz, eu acho que a gente faz carnaval porque na maioria das vezes a gente está triste e a gente precisa desse momento para dar um restart na vida, para que a gente possa reviver. Isso aqui é vida. Não só o carnaval como um todo, mas uma comunidade, a gente estar em prol de um objetivo. Quando passar daquela Sapucaí, a sirene tocar, a vida vai tocar na gente. Eu acho que é isso que importa”, concluiu.

Também estreante, o biomédico Egleberto Lima avaliou o abre-alas à luz das tragédias recentes. “Eu já esperava porque depois de tudo que aconteceu com a escola, de ter pegado fogo duas vezes, então esperava que não estivesse tão grandioso, mas eu achei que está muito bonito sim”, afirmou.
O que mais lhe chamou atenção foi a identidade visual. “O brilho está bem chamativo e está com as cores da escola. Está trazendo um pouco da nossa força, da nossa energia e a nossa identidade visual como verde e rosa”, disse.
Como morador, reconheceu que a expectativa inicial era maior. “Esperava que a comunidade trouxesse algo muito grandioso porque era isso que a gente estava fomentando o ano inteiro, mas devido aos acontecimentos eu acho que está muito bonito sim, devido tudo que aconteceu”, declarou.
Sobre abrir o carnaval na Sapucaí, foi enfático. “Eu acho muito grandioso porque como todo mundo fala, é o cartão postal do Rio de Janeiro e do Brasil. Então a gente é a primeira escola a desfilar na Sapucaí, abrindo o carnaval, então é algo muito importante porque é uma comunidade, é a favela. Então a gente realmente vestiu a camisa e vai entregar tudo, então é muito importante para a gente”, afirmou.
Ele também descobriu detalhes da trajetória de Xande ao longo dos ensaios. “Eu descobri ao decorrer dos ensaios. Realmente a gente foi entendendo um pouco mais da vivência do Xande. Então ele até falou um pouco da entrevista dele que ele fez para o RJ1. Então a gente entendeu muito sobre a vivência dele e a gente meio que se integrou como comunidade, como uma pessoa que veio da comunidade, que escreveu um pouco da história do Jacarezinho”, explicou.
Para Egleberto, o conceito do carro dialoga com a estética apresentada. “Com certeza, porque o carnaval é isso, é se divertir, é mostrar que a gente veio para isso, é se entregar. Então eu acho que o carro reflete um pouco porque tem cores vibrantes, tem muito brilho, então traz um pouco também da vivência do Xande”, disse.
E completou sobre o impacto pessoal: “Sim, muito, porque eu sou carnaval desde criança. Então eu vivo isso, eu respiro isso. Então estar hoje também aqui desfilando é uma virada de chave porque eu sou uma pessoa que eu venho sempre para o carnaval, sempre para a Sapucaí, então viver isso é a minha identidade como pessoa. É o que eu vivo, é o que eu respiro, então é um momento de felicidade imensa”, concluiu.

No quinto desfile pela escola, a jornalista Luan Monteiro contextualizou as dificuldades. “A gente sempre tem a expectativa de fazer bonito. A gente teve um ano complicado por conta do incêndio e tudo mais. Mas a gente tem um espírito muito grande nessa escola. Desde que eu estou na escola, a gente sempre teve a diversidade. Então, para a gente aqui, não é uma novidade desfilar com essas condições. Então, a gente vai lá e faz assim mesmo e a gente sempre bota expectativa”, afirmou.
Sobre o carro, exaltou a identidade cromática. “Eu acho que as cores da escola são espetaculares. É a única rosa e branca. Ela é única. Então, quando a gente faz esse capricho com um esquema com dourado, eu acho que sempre é uma coisa que encaixa bem. E a gente espera entregar bonito”, disse.
Para ele, a grandeza está na base comunitária. “Eu acho que pelo fato de ser uma escola muito do povo mesmo, da favela de verdade, você vê que ela tem todas as dificuldades que as pessoas em geral têm, que a população pobre tem. E eu acho que essa que é a parte mais interessante. Você vê que é uma coisa do povo para o povo. Mesmo a verba que tem, ela não é o suficiente para poder fazer tudo. O que faz a escola ser grandiosa é uma tradição muito grande que a escola tem, que a comunidade tem”, afirmou.
Sobre Xande, reconheceu que conheceu essa parte da história por meio do enredo. “Conheci por causa da escola. Até então, não conhecia. Fiquei feliz de saber que ele morou no Jacarezinho, que parte importante da formação do samba dele foi de lá também. O Jacarezinho tem um histórico muito grande no samba. Tem várias figuras ilustres de lá também. Pelo que eu conheço, do pouco que eu estudei aqui, conversando com gente mais velha, você vê que é um pessoal que sabe muito do samba. Nada mais justo do que ter o Xande aqui sendo homenageado. Acho maravilhoso, acho ótimo”, declarou.
Ele também associou o carnaval à resistência. “Acho que faz, porque o povo sofre muito. A vida do povo é sofrida. O carnaval é uma expressão do povo brasileiro, de muitos anos, e é uma expressão que a burguesia procura reprimir de várias maneiras. Os governos, no geral, à direita, fazem um esforço muito grande para poder acabar com a festa de rua. Então a gente acaba sendo um episódio de resistência aqui”, afirmou.
E concluiu sobre o impacto pessoal: “Com certeza. Estar aqui no meio de todo mundo é uma coisa que não tem como descrever em muitas palavras. É só indo para você ver como é”, disse.

A psicóloga Carolina Carrijo, de 58 anos, estreou na escola justamente nesse retorno à Sapucaí. “Eu fiquei feliz de eles estarem forrando agora, também concluindo, porque foi triste o que aconteceu. E aí fiquei num ímpeto de querer ajudar”, relatou.
O que mais a marcou foi o esforço coletivo. “Eu confesso que foi esse trabalho da comunidade ali em cima, grampeando, fazendo as coisas. Foi isso”, afirmou.
Sobre participar desse momento histórico, declarou: “Eu acho que é um momento muito importante e me deu mais vontade ainda de estar aqui. Eu já queria e eu falei: conta com a gente, o que a gente puder fazer da nossa parte, a gente vai fazer”, disse.
Fã declarada de Xande, completou: “Sabia de muita coisa dele. Eu sou fã, eu admiro demais o Xande de Pilares, acompanho no que eu puder, vou a shows dele sempre que eu posso e acho a história dele muito bacana. Muito bacana. As épocas mais difíceis e tudo”, afirmou.
Para ela, a frase do carro dialoga com a realidade. “Faz muito, faz muito. Todos nós, e o brasileiro, e a comunidade mais ainda, sempre tem que dar nó, tem que se virar, é desatar nós também. Eu acho que faz muito sentido”, disse.
E finalizou com emoção: “Eu acho que esse hoje está sendo. Eu já desfilei muitas vezes em escolas grandes e desfilei na Mangueira alguns anos. O que eu acho que este está significando mais é por estar podendo participar de uma volta por cima. Para mim significa muito, então talvez seja uma virada de chave agora”, concluiu.
Para Victoria Thiers, gerente de loja, de 30 anos, também estreante, sintetizou o sentimento coletivo. “Eu senti que, por mais que as adversidades tivessem pego a gente, a gente vai entrar na Sapucaí com a garra que a escola tem, com a força que a comunidade tem”, afirmou.
O rosa, sua cor preferida. foi o detalhe que mais a tocou. “Ver que mesmo com tudo que a gente passou, com os incêndios que a escola enfrentou, a gente conseguiu colocar um carro na rua com as cores da escola, representando a escola, representando a força que a gente tem e a não desistência de passar pela Sapucaí após mais de 10 anos, eu estou muito emocionada de estar aqui hoje”, disse.
Moradora próxima à comunidade, emocionou-se ao falar da participação. “Eu frequento a comunidade há muito tempo, eu moro muito perto dali, eu consigo ir a pé da minha casa. Está sendo incrível. Eu estou extremamente emocionada de estar aqui hoje”, afirmou.
Sobre a escolha do homenageado, destacou: “Eu sou do samba há muitos anos, eu cresci no samba. E quando eu descobri que seria ele, eu fiquei muito feliz, porque ele é um cara que merece muito ser homenageado. Eu amo essas homenagens quando a pessoa está viva ainda, que pode estar aqui. Ele acabou de passar, então deu mais um gás para a escola. Isso é incrível”, disse.
E resumiu o espírito do momento: “Faz total sentido. Principalmente depois da semana passada, que a gente teve o último incêndio depois de já ter tido um. É isso: dar nó na tristeza e entrar com toda a emoção e a garra para o Carnaval”, afirmou.
Ao falar de virada de chave, trouxe memória afetiva. “Já foi uma virada de chave na minha vida. Meu avô foi presidente do conselho da São Clemente por muitos anos. Eu aprendi a gostar de Carnaval com o meu avô. É incrível. É tudo”, concluiu.
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Com desfile criativo e comissão de frente impactante, Inocentes de Belford Roxo aposta na força da cultura popular
A Inocentes de Belford Roxo levou para a Marquês de Sapucaí um dos enredos mais inusitados da temporada. Segunda escola da noite, a agremiação da Baixada Fluminense apostou no improvável sob o título “O Sonho de Um Pagode Russo Nos Frevos do Meu Pernambuco”, criação do carnavalesco Edson Pereira. O resultado foi um desfile criativo, tecnicamente equilibrado e com bons momentos plásticos, especialmente na comissão de frente e na harmonia. Entre os pontos de atenção estiveram um espaço aberto pela ala de passistas antes do módulo 3 e falhas de acabamento em parte das fantasias.
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A proposta partiu da obra de Luiz Gonzaga para costurar as estepes russas no chão nordestino. A narrativa não se limitou ao exotismo visual e construiu um fio condutor claro, defendendo que, no território do samba, distâncias geográficas se dissolvem ao som da sanfona.

A escola apresentou três alegorias bem preenchidas, com iluminação funcional e ocupação cênica coerente. O abre-alas, “O Sonho de Pedro, o Grande, no Paço do Frevo”, sintetizou o conceito ao fundir referências da arquitetura de São Petersburgo com elementos clássicos do carnaval recifense. A leitura era imediata e dialogava com o enredo sem ruídos.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Patrícia Salgado e Sérgio Lobato, a comissão de frente cumpriu seu papel de cartão de visitas com clareza dramatúrgica e impacto visual. Eram 15 bailarinos: sete representando a estética russa, sete a pernambucana e um sanfoneiro no alto de um tripé cenográfico que remetia ao coreto de uma praça.

A coreografia começou no chão, com passos marcados, saltos e interações entre os dois grupos, enquanto o sanfoneiro dominava o plano superior. Em seguida, o grupo russo subiu para a parte mais alta do tripé, e o pernambucano ocupou as laterais. O elemento girava em sentido anti-horário enquanto os bailarinos retiravam sobreposições em tons terrosos, revelando figurinos coloridos típicos do frevo.
No clímax, dançaram com o gesto clássico do frevo, com braço erguido e sombrinha em punho, fazendo com que faíscas brilhantes surgissem das pontas dos guarda-chuvas e do topo do tripé. A apresentação, com duração de uma passada do samba, foi coesa, dialogou diretamente com o enredo e sintetizou o “casamento matuto na neve” proposto pela escola.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Vinicius Jesus e Thainá Teixeira, realizou uma apresentação de uma passada do samba, marcada por bailado tradicional, rodopios sem excesso de intensidade e boa sincronia. Houve conexão entre os dois e leitura clara da coreografia.
O mestre-sala conduziu cortejo clássico, protegendo o pavilhão com veemência, mas incorporou passos de frevo em trechos estratégicos do samba, especialmente no verso “no fervo do frevo, o destino sorri pra mim”. O mestre-sala deslizou com segurança pela Avenida.

A porta-bandeira apresentou dança tradicional com carisma e interação constante com o parceiro. Em dois momentos, nos módulos 1 e 3, a bandeira apresentou leve dobra, sem chegar a enrolar, situação que pode ser observada pelo júri, mas sem caráter de falha grave.
Com figurinos em cores quentes como o vermelho, amarelo e laranja, foi uma apresentação aplaudida pelo público presente.
SAMBA E HARMONIA
O samba, defendido por Ito Melodia e pela ala musical, passou bem e encontrou resposta da comunidade. O intérprete conduziu a escola chamando o canto, o que fortaleceu a participação das alas.

A harmonia foi positiva, com destaque para a elevação do canto a partir do segundo setor, quando a escola ganhou ainda mais volume e consistência.
EVOLUÇÃO
A Inocentes de Belford Roxo apresentou um desfile de desenho organizacional bem estruturado, especialmente nos dois primeiros setores. A escola iniciou compacta, com alas preenchendo corretamente os claros da pista e mantendo alinhamento lateral consistente entre as fileiras. A cadência esteve ajustada ao andamento do samba, sem aceleração excessiva nem arrasto visível nos primeiros módulos.
A transição do abre-alas para as alas subsequentes foi fluida, sem engarrafamentos na saída dos carros. Houve boa leitura espacial entre alas, fator importante para a percepção de continuidade do desfile.

O ponto de atenção surgiu pouco antes do módulo 3, quando a ala de passistas abriu um espaço significativo na parte central da pista, que rompeu momentaneamente a forma linear do conjunto e criou um vazio perceptível na diagonal de visão dos jurados. A recomposição aconteceu, mas o intervalo foi suficiente para chamar atenção técnica.
Após esse episódio, a escola retomou o controle da progressão. As alas seguintes mantiveram regularidade no deslocamento, com destaque para a boa ocupação lateral próxima às grades, evitando buracos nas extremidades. Não houve registros de componentes correndo para recompor posição, o que indica que o controle de tempo estava sob gestão adequada da direção de harmonia e evolução.

Nos setores finais, a Inocentes manteve constância no andamento e conseguiu preservar a unidade visual até a dispersão, sem desmembramento precoce de alas. A leitura geral foi de um desfile que, apesar do episódio pontual no terceiro módulo, apresentou organização, controle rítmico e consciência espacial, aspectos que sustentam uma avaliação positiva no conjunto do quesito.
ALEGORIAS E FANTASIAS
No conjunto plástico, a Inocentes de Belford Roxo apresentou três alegorias que cumpriram bem a função de sustentar a narrativa proposta por Edson Pereira. Os carros estavam completos, com todos os espaços de composição ocupados, iluminação operante e leitura temática objetiva, fator essencial para o julgamento à distância.

O abre-alas se destacou pelo impacto cenográfico. A fusão entre referências da arquitetura russa e elementos do carnaval recifense foi vista já na primeira leitura. Volumetria equilibrada, planos bem distribuídos e bom uso de altura garantiram imponência sem comprometer a estabilidade visual. A paleta transitou entre azuis frios e dourados imperiais, dialogando com o imaginário czarista, enquanto elementos cromáticos mais quentes inseriram Pernambuco na cena sem conflito estético.
A segunda alegoria, com estética de festa junina sob lente imperial, apostou no lúdico. Havia bom preenchimento e coerência entre figurinos de composição e escultura cenográfica. O cuidado com a ocupação evitou vazios estruturais, embora o acabamento de algumas aplicações, principalmente em detalhes ornamentais mais delicados, pudesse apresentar maior refinamento, sobretudo nas junções visíveis de materiais.

O terceiro carro foi o mais sóbrio do conjunto. Cores como preto e dourado, forte presença de elementos do frevo e maior dinamismo visual criaram sensação de apoteose intermediária antes do setor final. A iluminação funcionou como recurso de valorização volumétrica, sem ofuscar as fantasias dos componentes.
Nas fantasias, a escola apresentou coerência narrativa entre alas e setores. A transição cromática acompanhou a dramaturgia do enredo, com tons mais sóbrios e frios nos primeiros momentos, evoluindo para explosões de cor associadas ao frevo e ao São João.
As alas representando a estética russa apostaram em casacas, golas altas e tecidos com aparência mais estruturada. Já as alas pernambucanas trouxeram leveza, movimento e cores saturadas, favorecendo a leitura coreográfica.

O ponto sensível esteve no acabamento. Em algumas alas, especialmente na dos bonecos de Olinda, foram perceptíveis falhas de finalização, como aplicações desalinhadas e diferenças de padronização entre peças de um mesmo conjunto. Em julgamento técnico, esse tipo de inconsistência pode pesar, já que o quesito avalia uniformidade, capricho e qualidade de execução.
No geral, o projeto plástico da Inocentes foi coerente, compreensível e visualmente competitivo. A escola sustentou sua proposta estética do início ao fim, mas pequenos ajustes de acabamento poderiam elevar o conjunto a um patamar ainda mais sólido no julgamento técnico.
OUTROS DESTAQUES
A bateria pontuou a narrativa com bossas em alusão ao frevo e ao São João, criando identidade sonora para o enredo. A rainha Carolane Silva apresentou samba no pé e uma linda fantasia.
Um destaque do desfile aconteceu na segunda alegoria, com a presença da Velha Guarda em posição de destaque no carro. Em meio à mistura criativa entre Rússia e Pernambuco, a escola trouxe os baluartes ali, ocupando lugar de honra, com emoção e equilíbrio ao setor.
Outro destaque também foi a ala de passistas que levou para a Avenida a vibração que o enredo pedia. Com fantasias leves, que favoreciam o movimento, o grupo entregou gingado, presença cênica e conexão direta com a bateria. Coreograficamente, os passistas apostaram em deslocamentos dinâmicos e ocupação central da pista, garantindo destaque visual. Houve boa interação entre eles e resposta ao ritmo da bateria, especialmente nas bossas que dialogavam com o frevo.
O ponto de atenção aconteceu pouco antes do módulo 3, quando a ala abriu um espaço significativo no meio da formação. O claro ficou perceptível e quebrou momentaneamente a unidade visual do setor. A recomposição veio na sequência, mas o intervalo pode ser observado tecnicamente. Ainda assim, no conjunto, a ala entregou energia, sorriso no rosto e domínio de pista.
Da exclusão à explosão cultural: a Ala 09 da Inocentes mostra como o povo transforma resistência em tradição
No Carnaval, não há protocolo que resista à força do povo. Em 2026, a Inocentes de Belford Roxo leva para a Avenida a Ala 09: “Os foliões populares invadem a festa”. Ela representa o momento simbólico em que o povo negro, excluído das recepções oficiais, rompe o cerimonial com dança, algazarra e criatividade improvisada.
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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Segundo a narrativa do enredo, diante da exclusão, esses grupos criaram suas próprias manifestações: figurinos feitos com sobras de tecido, fitas coloridas, sombrinhas recortadas e a ocupação da praça com energia explosiva. Mais do que desordem, essa invasão marca o nascimento de uma força cultural que ajudaria a consolidar o frevo como expressão urbana e coletiva.
A ala encena a ocupação simbólica do espaço elitizado, a criatividade que nasce da precariedade, a explosão popular que rompe o protocolo e a transformação da exclusão em potência cultural.
No enredo, a Ala chega para quebrar o clima cerimonial e colocar a alma do povo na jogada, com a dança explosiva a força que emerge dos guetos pernambucanos desde o tempo de 1800.
Werino Gierinazani, fisioterapeuta, de 56 anos, estreia na Inocentes trazendo memórias afetivas de Pernambuco e reflexões sobre o Carnaval contemporâneo. Para ele, representar essa narrativa é celebrar a diversidade cultural brasileira.
“Muita coisa, porque na diversidade cultural do país, Pernambuco é muito importante no Carnaval brasileiro. Estar aqui representando, ainda mais isso que é o pagode russo, que eu cresci cantando, é maravilhoso. Representar Pernambuco dessa forma no Carnaval do Rio de Janeiro, que para mim é o único do mundo, é incrível. Certamente a falta de recurso amplia a criatividade. O que mais sinto quando vira o cotovelo na Avenida e a bateria começa, é a produção de um monte de substância no meu corpo e eu viro outra criatura. A festa é maravilhosa e a gente tem que viver o momento”, conta o fisioterapeuta.

Daniele de Sales, de 44 anos, cuidadora, desfila há cinco anos e carrega no discurso a vivência de mulher negra dentro e fora da festa.
“Eu vejo muito presente no Carnaval a falta de recurso virando criatividade. Desfilo desde os 12 anos. Eu sou uma mulher negra, então a gente acaba sendo excluída em muitas coisas, tem preconceitos. O Carnaval é onde a gente pode se divertir e ser igual a todo mundo. Quando o frevo começa, tudo arrepia, é um fogo, parece que eu tenho 15 anos de novo. É emoção, é felicidade. O povo de Belford Roxo tem garra e a gente veio brigar para ganhar”, comenta.

Arthur Sampaio Marinho, 23 anos, técnico em química, também vive seu primeiro ano na escola e enxerga na ala um reflexo da própria trajetória.
“Eu estou muito feliz por estar aqui pela primeira vez e representar uma história que representa a cultura da minha família, que é toda nordestina de Pernambuco, do Recife. Tem um significado muito grande. Às vezes, a criatividade existe, mas pela falta de recurso a pessoa não consegue mostrar o talento. Aqui na Baixada a gente é muito excluído de oportunidades, então estar numa ala que representa transformar exclusão em inclusão significa muito. Eu estudo em universidade federal, minha mãe é empregada doméstica, meu pai é motorista, e a gente vai quebrando barreiras. Quando o frevo começa, o coração transborda e você só se solta. Eu espero que a Inocentes arrase e que todo mundo curta”.

Ana Paula Aragão, de 58 anos, bióloga, desfila há três anos e resume o sentimento coletivo da ala.
“É muita emoção participar da escola. É um movimento cultural com tanta história que eu me sinto emocionada de fazer parte. A criatividade e a falta de recursos caminham juntas, a gente faz malabarismo na vida o tempo todo. Por que não transformar exclusão em manifestação? A voz do povo é a voz do conjunto. Quando o frevo começa é emoção. E quando a ala entrar na Avenida, eu espero sentir muita alegria, muita emoção e torcer muito pela escola”, diz Ana Paula.

Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Na Ala 09, a exclusão não é silêncio, é batida forte. Não é ausência, é ocupação. Não é limite, é reinvenção.
Quando os foliões populares invadirem simbolicamente a festa na Avenida, será a prova de que o Carnaval continua sendo o maior palco da resistência brasileira: onde o povo transforma o que lhe negaram em espetáculo, tradição e potência cultural.
Unidos do Jacarezinho transforma Xande de Pilares em estrela maior da alegoria que encerra o desfile
A terceira e última alegoria da Unidos do Jacarezinho levou à avenida uma verdadeira constelação para exaltar Xande de Pilares, um dos nomes mais queridos da música brasileira.
Decorado por estrelas e envolto em uma atmosfera de céu iluminado, o carro teve como inspiração a canção “Tá Escrito”, grande sucesso de Xande, que fala sobre fé, perseverança e trajetória.
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A estética da alegoria também refletiu o momento da escola, que volta a desfilar na Sapucaí após 12 anos e precisou se reconstruir depois de perder grande parte de suas alegorias e fantasias em dois incêndios recentes no barracão e na quadra da escola. Xande esteve entre os principais apoiadores.
No geral, a alegoria dialoga com a identificação popular que marca a obra do artista: a ideia de que cada pessoa tem sua própria estrela para brilhar. E também a intenção de mostrar como ele é querido pelas pessoas, ao trazer amigos de Xande para compor o carro.
Na concentração, a emoção tomava conta dos amigos, familiares e admiradores que aguardavam o momento de entrar na avenida. O ator e comediante Hélio de la Peña, que estava presente no carro, destacou a importância da homenagem ao amigo e falou sobre a empolgação que sentiu ao saber que Xande seria enredo.
“Estamos aqui numa alegria tremenda de ver o nosso amigo merecidamente sendo homenageado. Uma figura do samba, um compositor inigualável, e é um prazer enorme estar aqui fazendo parte do grupo dos amigos do Xande. Assim que eu fiquei sabendo que ele seria homenageado, me interessou me engajar. O convite foi feito, pois ele estava reunindo os amigos, principalmente depois do incêndio que houve no barracão. Ele estava querendo que a coisa ficasse no nível que merece. E para isso estamos aqui”, disse o ator.

Sérgio Couto, irmão de Hélio de la Peña e amigo de Xande, também celebrou o momento com entusiasmo.
“O Xande é uma figura super importante do samba. Acompanho o trabalho dele há muito tempo. É uma satisfação e uma alegria ter essa oportunidade de estar aqui nesse momento importante para ele também. Ele está sendo homenageado”, disse.

Amiga de longa data, a atriz Carla Cristina Cardoso falou sobre a relação de parceria com o cantor e a emoção de estar participando dessa homenagem.
“O Xande é um irmão. O que ele faz, a gente vai atrás. Em tudo que ele está, eu estou. Quando eu faço alguma coisa, alguma peça, ele está sempre comigo. Ele é muito amigo, ele é muito real. Essa homenagem da Jacarezinho, mesmo após os problemas, as fantasias perdidas e o incêndio, não deixou os componentes tristes. Ele é o enredo, está emocionado, está feliz. Independentemente do que aconteceu, ele está feliz. Se o Xande está feliz, a gente está aqui de branco, feliz também”, declarou.

Entre os familiares, a emoção também era latente. Anny Caroline, de 21 anos, prima do artista, destacou o orgulho de acompanhar de perto a homenagem: “É uma alegria imensa. O sentimento é gratidão, porque ele é um cara merecedor. Eu acompanho a história dele desde que eu nasci. Me sinto muito honrada em fazer parte desse momento e por ele estar sendo homenageado. É gratificante, porque é importante uma pessoa que já passou por tanta coisa ser retratada na avenida dessa forma. E a gente está aqui prestigiando ele, muito feliz. E vai dar tudo certo, graças a Deus. Ele é o símbolo da nossa comunidade. É uma realização. Só sei que ele é muito merecedor de tudo isso”, afirmou.

Inês Gabriele, de 17 anos, também prima de Xande, contou como a música do artista marcou sua vida.
“A música dele me marcou muito a vida toda. E o samba da escola está muito bonito, muito bem feito. O Xande só merece. A música fez parte da minha vida também, em vários momentos de superação, até na minha vida pessoal. Passei por várias coisas em que essa música me marcou bastante”.
Componente da Harmonia e fã declarada do cantor, Mônica Magalhães, de 50 anos, resumiu o sentimento de quem desfilou logo atrás da alegoria:
“É maravilhoso. O Xande é amor, é vida, é amizade, é cantor, é compositor, é uma estrela. E eu acho que tudo que ele faz é perfeito. Então a gente está aqui justamente não só para homenagear ele, mas também o Jacarezinho, que é uma escola linda, que está vindo para viver o que eles estão trabalhando o ano todo. Estou aqui muito feliz, muito feliz mesmo”
Sobre a música “Tá Escrito”, ela fez um relato pessoal: “‘Tá Escrito’ é uma coisa que faz a gente se sentir viva, por tudo que a gente já viveu. Ele traz uma história muito maravilhosa para cada um que entende o que viveu na vida. Então cada um tem a sua individualidade nessa música”.

Questionada se já precisou fortalecer a fé em momentos difíceis, ela respondeu: “Olha, não. Eu acho que eu sempre fui muito alegre. Tudo que a música trouxe foi somar mais à alegria. Eu não posso te dizer que tenha algo assim que tenha somado para a alegria que eu tenho. Então não tem nada mais que eu possa falar. O artista que ele é, único, um homem que sempre foi guerreiro no que viveu, veio lá da comunidade do Turano, passou por Chacrinha, Pilares. Então ele veio sempre para poder fazer alegria para o povo. Isso, para a gente, já resume o Xande”, concluiu ela sobre o desfile emocionante.
Entre o frevo e o imaginário: as baianas da Inocentes mostram como o povo transforma encontros em Tradição
O Carnaval é território onde história e imaginação caminham juntas. Em 2026, a Inocentes de Belford Roxo leva para a Avenida o imaginário “Pernamburrusso” na Ala das Baianas, uma narrativa popular que associa certos passos do frevo à possível influência russa no início do século XIX, a partir da chegada da expedição Langsdorff ao Recife.
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Entre fato, fantasia e tradição oral, a história sugere um encontro festivo entre russos e pernambucanos, onde passos teriam sido trocados e reinventados. É essa mistura simbólica que conecta o Trem-de-Ferro do frevo às danças do Império do Czar, celebrando a ideia de que a cultura popular transforma encontros em identidade.
E quem melhor para representar essa travessia cultural do que as baianas, guardiãs da memória e da ancestralidade nas escolas de samba?
Para Maria Marques, 63 anos, professora e há dois anos na escola, o imaginário já basta por si só.
“O nosso imaginário vale muito, faz a gente viajar e imaginar coisas. Isso é muito bom”, afirma. Para ela, o Carnaval soube se reinventar ao longo do tempo. “Já foi muito tradição. Graças a Deus, hoje, fez uma repaginada com coisas futuristas, com tecnologias, conhecendo melhor o nosso Brasil e o mundo”.

Quando se fala em frevo, Maria é direta: “Recife. Muita garra, muita energia, muito drible nos pés.” E quando o ritmo começa, ela sente que tudo se conecta: “Tudo é batuque, tudo é samba, tudo é frevo, tudo é axé.” Na Avenida, o que espera é simples e potente: “Energia da arquibancada gritando e cantando.”
Já Lúcia Helena, de 67 anos, doméstica e há 19 anos na Inocentes, prefere a comprovação histórica. “Eu preciso que seja comprovada”, diz sobre histórias curiosas. Defensora das tradições, ela carrega o Carnaval no sangue: “Desde que me conheço por gente eu sigo a tradição. Meu irmão foi ritmista, outro baterista, e eu com seis anos já desfilava.” Para ela, frevo é celebração pura: “Eu danço tudo, meu amor. Frevo é forte para a festa.” E quando o carro entrar na Avenida, a palavra que resume é clara: “Alegria. Felicidade”.

No primeiro ano desfilando, Ana Helena Luna, de 51 anos, servidora pública, enxerga no Carnaval a convivência entre passado e futuro.
“As duas coisas se misturam. O novo e o antigo se retroalimentam. O Carnaval precisa juntar tradição e inovação para se manter vivo.” Ela conta que já viveu o frevo de perto: “Passei um Carnaval em Pernambuco e foi a coisa mais linda que já vi. Já dancei maracatu aqui no Rio, sou forrozeira também além de sambista.” Ao falar do Galo da Madrugada, ela celebra: “Viva o Galo, viva a nossa cultura popular brasileira.” Sobre o ritmo acelerado do frevo, define: “O tambor bate fundo no coração.” E diante da proposta do enredo, se emociona: “Adorei saber dessa junção, dessa influência russa sobre o brasileiro. Minha expectativa está lá no alto”.

Historiadora e desfilando há três anos, Cláudia Turco busca o equilíbrio entre rigor e imaginação. “Eu busco comprovar, mas é sempre bom ter um pouco de imaginação.” Para ela, o Carnaval sobrevive justamente na mistura. “Ele busca inovação para se manter vivo, mas também se segura muito nas tradições. É a mistura dos dois.” Quando pensa em frevo, lembra do Recife, dos bonecos gigantes de Olinda e do Galo.
E mesmo sem nunca ter arriscado os passos acelerados da dança, admite: “A gente se anima, dá vontade de se mexer.” Na hora da entrada na Avenida, a expectativa é intensa: “É muita emoção, muita emoção mesmo”.

Entre comprovação e fantasia, tradição e inovação, as baianas da Inocentes mostram que a cultura popular não precisa escolher um lado. O frevo pode dialogar com o Império do Czar. O Recife pode conversar com a Rússia. O que nasce desse encontro real ou imaginado é tradição.
E quando as saias girarem na Avenida, será a prova de que o Carnaval continua fazendo o que sempre fez de melhor: transformar histórias em espetáculo e encontros em identidade.
‘É emoção demais ser morador da favela e ser homenageado’: Xande de Pilares fala sobre homenagem do Unidos do Jacarezinho
O cantor Xande de Pilares foi o grande homenageado da Unidos do Jacarezinho, que abriu a primeira noite de desfiles da Série Ouro do carnaval carioca, na última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí. Com o enredo “O Ar Que Se Respira Agora Inspira Novos Tempos”, a agremiação celebrou a trajetória do artista, que desfilou na terceira e última alegoria, inspirada em sua música “Tá Escrito”, ao lado de amigos e parceiros de caminhada.
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Momentos antes de entrar na avenida, Xande falou ao CARNAVALESCO sobre a felicidade de ser celebrado em vida pela comunidade onde construiu parte de sua vida e de sua história no samba. Ao comentar o significado da homenagem, não conseguiu esconder o sentimento que tomou conta de si: “É emoção para caramba ser morador da favela e estar sendo homenageado”.
Cria de diferentes comunidades da Zona Norte, o cantor destacou sua relação afetiva com o Jacarezinho e o reconhecimento no carnaval, mesmo fora de sua escola de coração, o Salgueiro.
“Não é o Salgueiro, mas é a escola da comunidade que eu morei. Como eu já morei no Salgueiro, nasci no Turano, morei no Az de Ouro. O Jacarezinho é uma escola de samba onde eu já ganhei samba que compus. É uma escola que já saí na bateria, que eu conheço os compositores como Barberim, como Macambeira, Gilson Bernini, que é meu parceiro atual. Mas o que me chama a atenção é eu estar vivo, sendo homenageado”, declarou.

Ele também lembrou o momento delicado vivido pela agremiação, que chegou ao desfile após perder grande parte de seu conjunto alegórico e de fantasias após dois incêndios.
“Todo mundo sabe o que aconteceu. Todo mundo procurou contribuir para amenizar o problema. Eu fui um dos contribuintes, mas eu estou muito feliz por estar vivendo isso. A gente tem que valorizar cada página do livro que a gente escreve”, disse ele, muito emocionado.
Durante a conversa, Xande voltou a um tema recorrente em sua obra: os sonhos. Para ele, continuar sonhando é o que sustenta a caminhada iniciada ainda na juventude.
“Eu sonhava apenas em ser compositor. Não imaginava tudo isso. Hoje, em 2026, estou sendo homenageado e continuo sendo aquele garoto que sonhava todos os dias. Nunca vou parar de buscar realizar meus sonhos”, afirmou.
A presença do cantor na última alegoria transformou o encerramento do desfile da Unidos do Jacarezinho em um dos momentos mais emocionantes da noite, unindo celebração, resistência e reconhecimento da comunidade que ajudou a formar sua história.


























