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Freddy Ferreira analisa a bateria do Jacarezinho no desfile no Carnaval 2026

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Um bom desfile da bateria “Show Mil” da Unidos do Jacarezinho, na estreia de mestre Pelezinho na Sapucaí. Um ritmo potente, com afinação pesada de surdos foi apresentado. Com um conjunto de bossas que atrelou a sonoridade a história musical do homenageado, teve de alusão a virada possante da bateria do Salgueiro até a paradinha do pagode para reverenciar Xande de Pilares como tema da escola.

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Na primeira fila da bateria “Show Mil” vieram xequerês, pandeiros, reco-reco, tantan e repiques de mão, sendo todos importantes durante a bossa do pagode. Uma boa ala de cuícas ajudou no preenchimento das peças leves, junto de agogôs que pontuavam as variações melódicas do samba-enredo executando seu desenho rítmico. Um naipe de chocalhos sólido exibiu consistência coletiva tocando interligados a uma ala de tamborins eficiente, que realizou uma convenção rítmica simples, pautada pelas nuances da melodia.

Na cozinha da bateria do Jacarezinho, uma afinação de surdos pesada e muito boa foi notada. Marcadores de primeira e de segunda foram firmes durante todo o cortejo. O balanço envolvente dos surdos de terceira contribuíram no trabalho dos graves. Caixas de guerra com bom volume tocaram junto de repiques coesos, complementando a sonoridade dos médios.

Bossas que buscavam conexão musical com a proposta sonora do homenageado foram exibidas. Com destaque para a paradinha do pagode, onde integrantes da primeira fila entravam por dentro do corredor para exibir o arranjo, que ainda era finalizado junto de um solo envolvendo o naipe de tamborins. Bossas que utilizavam as nuances melódicas para consolidar seu ritmo foram apresentadas, com grande pressão sonora, envolvendo os pesados surdos, tornando os arranjos potentes.

Uma boa apresentação da bateria “Show Mil” do Jacarezinho, na estreia da regência de mestre Pelezinho na Sapucaí. Um ritmo com pressão e bossas atreladas ao enredo foi apresentado. A melhor apresentação foi no último módulo de julgamento, onde está a cabine dupla. Após uma boa apresentação na primeira cabine julgadora, a segunda podia ter sido melhor, caso a bossa do pagode não tivesse sido apresentada somente com o “rabo” da bateria virada para o júri. Mas nada que tirasse o brilho desse bom desfile da bateria “Show Mil” do Jacarezinho.

No compasso do pavilhão: casal e comissão sustentam a Jacarezinho em noite desafiadora nos demais quesitos

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No reencontro com a Marquês de Sapucaí, após 13 anos longe, a Unidos do Jacarezinho abriu os trabalhos nesta sexta-feira de desfiles da Série Ouro. Com uma comissão de frente modesta, mas competente, e um casal bem aguerrido, a Rosa e Branco encontrou dificuldades nos demais quesitos. O desfile terminou com 57 minutos, dois além do tempo permitido e a escola sofrerá penalização.

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A escola levou para a pista o enredo “O Ar que se respira agora inspira novos tempos”, uma homenagem a Xande de Pilares, que se apresentou como uma declaração de amor ao samba nascido e cultivado na favela, território onde vozes aprendem primeiro a cantar na roda antes de ecoarem no rádio, assim como foi a de Xande. No entanto, mediante a precariedade das fantasias e alegorias, pelos infortúnios que a escola enfrentou, a compreensão ficou difícil.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

ENREDO

Assinado pelo carnavalesco Bruno de Oliveira, o desfile se estruturou em três setores que percorreram a trajetória do artista Xande de Pilares como quem folheia um álbum de memórias afetivas.

* LEIA AQUI: “É emoção demais ser morador da favela e ser homenageado”: Xande de Pilares fala sobre homenagem do Unidos do Jacarezinho

O primeiro setor, “O Ar que se respira agora inspira novos tempos”, mergulhou nas origens, revisitando a infância, a Folia de Reis, o rádio como janela para o mundo e os primeiros versos que encantaram o poeta. O abre-alas “No Jacarezinho deu nó na tristeza e fez da vida carnaval” traduziu, com a velha guarda em cima do carro, que foi na favela do Jacarezinho que Xande iniciou sua carreira como sambista, sendo o morro do Jacarezinho uma encruzilhada essencial para transformar os rumos e os caminhos de Xande. A falta de fantasias, comprometidas no incêndio que a escola enfrentou há pouco tempo, deixou não apenas este setor, mas os dois seguintes, difíceis de compreender.

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Na sequência, o segundo setor, “Pinto de Rosa e Branco a Inspiração”, trouxe a carreira no carnaval, celebrando o compositor de sambas-enredo marcantes, especialmente sua relação com o Salgueiro, com a alegoria “Salgueirense da Cabeça aos Pés”, com o clássico Preto Velho do Salgueiro, presente no carnaval da Academia do Samba em 2025, e um Zé Pelintra, remetendo ao carnaval do Salgueiro de 2016, da mesma escola.

O último setor, “Coroado na Favela”, apontou para a consagração, sintetizada na alegoria “É Deus Quem Aponta a Estrela Que Tem Que Brilhar”, na qual vieram Xande, sua família e amigos próximos. O carro, revestido de um tecido com estrelas, tentou apresentar a narrativa da estrela que nasceu no morro e iluminou o país.

COMISSÃO DE FRENTE

Intitulada “O Verso que encantou o Poeta”, a comissão foi coreografada por Akia de Almeida. A apresentação simbolizou o instante inaugural em que a palavra virou destino. Composta por 15 componentes, vestidos de bate-bolas, e um homem vestido de Xande de Pilares, a comissão foi competente, simples e sem elementos cênicos.

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Os bate-bolas, vestidos com roupas coloridas e distintas entre si, evocaram e incentivaram o bailarino vestido de Xande a compor. Ele, que entrava e saía perdido de cena, parecendo não saber o que estava fazendo ali, no decorrer da coreografia se encorajava e começava a se tornar artista. Na primeira cabine, ele fingia compor em cima de uma mesa de partitura, que caiu no primeiro módulo e foi descartada nas outras duas apresentações. No fim da coreografia, um bate-bola dava um cavaquinho na mão dele e, extremamente parecido com o cantor homenageado, ele performou cantando e tocando ao mesmo tempo. Para quem acompanha a carreira de Xande, não precisava de mais nada: estava tudo ali.

A coreografia era boa e foi bem executada, mas um figurino mais elaborado melhoraria a performance. No trecho “É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar”, havia uma chuva de faíscas, fechando a apresentação.

Em suma, foi uma boa apresentação, modesta, mas competente, refletindo o empenho de todos do quesito para uma boa entrega da escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Na dança do pavilhão, o primeiro casal, Maycon Ferreira e Lorenna Brito, com a fantasia “Estrela da Inspiração”, representou com elegância o brilho que conduziu a obra do homenageado. Com fantasias pretas com penas rosas, a dela, e pretas, a dele, cheias de estrelas prateadas, a indumentária representava a estrela, símbolo que acompanha a vida de Xande de Pilares. A dança foi correta e muito bem executada. Eles dançaram com vigor e segurança.

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A fantasia de Lorenna poderia ter uma saia mais baixa e com mais penas. No início, a saia curta parecia atrapalhar a dança dela, mas foi apenas impressão, pois ela se sustentou com facilidade nos três módulos. Assim como Maycon riscou a avenida e cortejou sua porta-bandeira com maestria e precisão. Foi um casal elegante e risonho, com uma apresentação correta e muito bem-feita.

EVOLUÇÃO

A escola enfrentou alguns problemas no quesito, que irão, inevitavelmente, onerar a pontuação na quinta-feira. Com dois buracos na pista, ambos nas apresentações da bateria diante dos módulos 2º e 3º, a escola não segurou o desfile para a bateria se apresentar.

Com 55 minutos na pista, tempo máximo permitido, a bateria se apresentava no último módulo de jurados, com a ala “Amigos do Xande” seguindo para a dispersão, deixando a pista livre e com buraco para a bateria finalizar o desfile.

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Apesar de animados, os componentes aparentavam estar abatidos no desfile; andaram chacoalhando o corpo, sem sambar de fato.

A escola finalizou o desfile aos 57 minutos, dois a mais do que o permitido, o que acarretará a perda de 0,2 décimos na apuração de quinta-feira.

HARMONIA

O samba passou muito bem pela avenida. Os intérpretes Aílton Santos e Thiago Acácio conduziram o samba de maneira magistral. A escola cantou pouco. Por conta da evolução comprometida, a harmonia também deve ter décimos perdidos, uma vez que o canto da comunidade foi irregular, visto o ritmo instável que a escola teve na avenida.

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ALEGORIA E ADEREÇOS

As alegorias da Unidos do Jacarezinho apresentaram problemas de concepção e acabamento. Todas as três tinham apenas tecido como revestimento, sem nenhum adereço. Com madeira exposta no abre-alas e piloto sentado em cima do tripé “Salgueirense da Cabeça aos Pés”, este deve ser mais um quesito em que a escola será despontuada.

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SAMBA

Composto por Paulinho Bandolim, Tomate Show, Rodrigo Jacopetti, Bruno Dallari, Godoi, Guto Cachaça, Dodô Ananias e Rafa Cria, a obra cumpriu o seu papel em homenagear o artista. Com uma letra muito boa e de fácil compreensão, o refrão “Sapucaí vai tremer quando a sirene tocar / Jacarezinho, taca fogo no gongá / Vai ter pagode pelos becos e vielas / Salve, Xande de Pilares / Hoje, coroado na favela” deu um agito nas frisas e arquibancadas, mesmo que de maneira tímida. Em resumo, o samba merecia um desfile à sua altura.

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FANTASIAS

Abalada pelo incêndio que aconteceu na quadra da escola, no dia 5 de fevereiro, a escola desfilou com três alas sem fantasia, apenas com a camiseta da comunidade. A primeira ala estava sem a cabeça da fantasia, apenas com a calça e a camisa estampada, sem dizer nada sobre o enredo, assim como a bateria.

A ala das baianas, com poucas integrantes, desfilou com roupas brancas, mas com texturas e tecidos totalmente distintos entre si.

As alas de passistas, a das crianças, a dos compositores, a internacional, a “Amigos do Xande” e a que representou o Império Serrano foram as únicas que desfilaram com fantasias.

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OUTROS DESTAQUES

A ala das crianças, apesar de bem pequena, teve uma fantasia didática e bem-feita, sendo um charme para o desfile.

Inocentes de Belford Roxo 2026: Galeria de fotos do desfile

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Jacarezinho 2026: Galeria de fotos do desfile

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Série Barracões SP: Exaltando os anti-heróis, Tucuruvi promete emoção para 2026

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Após um 2025 marcado por desafios e pela queda de divisão, o Acadêmicos do Tucuruvi aposta em um enredo autoral e reflexivo para o próximo Carnaval. Com o conceito de “anti-herói”, a escola propõe uma narrativa sobre dualidade, identidade brasileira e resistência, reforçando o diálogo entre comunidade e proposta artística.

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Foto: Divulgação

Desenvolvido pelo carnavalesco Nicolas Gonçalves em parceria com o enredista Clayton, o projeto mergulha em referências da literatura, da cultura popular e da ancestralidade para construir um desfile dividido em três setores. A ideia é provocar reflexão sem abrir mão da emoção, característica marcante da agremiação da Zona Norte.

Com o enredo “Anti-Herói Brasil”, a escola será a terceira a desfilar no domingo de Carnaval.

O CARNAVALESCO visitou o barracão da escola e conversou com Nicolas sobre o desenvolvimento do enredo.

O conceito do tema

“Nós, carnavalescos, sempre temos uma gaveta cheia de ideias esperando para acontecer, e foi assim que surgiu. Com tudo o que passamos em 2025, eu lembrei desse enredo que eu tinha. Não estava desenvolvido, mas eu gostava muito do termo anti-herói. Achava interessante essa relação, essa dubiedade, esse meio caminho entre o herói e o vilão, mas de um jeito abrasileirado. Enfim, me debrucei sobre isso.

Quando sentei com o Rodrigo para renovar e continuar na escola, conversamos muito sobre o que passamos e sobre o que queríamos. Ele me disse que não queria apagar o que vivemos, não queria passar uma borracha. Tudo é aprendizado, mas também não podemos ficar na dor, nos diminuir ou entristecer a ponto de não fazer acontecer.

E acho que foi esse sentimento que senti na comunidade: estamos tristes, mas com sangue nos olhos para mostrar que não merecíamos cair. Percebi que isso dialogava muito com o anti-heroísmo — quase virou o subtítulo do enredo: ‘Nossa jornada não é perfeita, mas o propósito é legítimo’. O anti-herói tem essa questão”, contou.

A dificuldade do desenvolvimento

“Eu tive a felicidade de receber o Clayton como enredista este ano. Foram umas três semanas mergulhados nisso. É muito gostoso fazer um enredo abstrato, porque permite mais liberdade para guiar os caminhos da pesquisa. Dificuldade mesmo não tivemos.

O mais complicado foi fazer o recorte, porque é um enredo muito aberto. Existem muitos anti-heróis — e todos nós somos. A conclusão é essa. Então, como recortar e enquadrar isso em três carros e tantas alas? A dificuldade foi entender como passar a mensagem sem esquecer ninguém.

Mas a pesquisa foi muito interessante. Tivemos carinho, esmero e delicadeza, porque é um enredo sensível, que pode cair em preconceitos ou generalizações. Acho que tivemos o tato de construir uma narrativa interessante, que estou doido para que as pessoas vejam”, falou.

A comunidade com o enredo

“Não foram receptivos de imediato, assim como não foram com Ifá e com Assojaba, porque são enredos complexos. Hoje vemos muitos enredos indo para caminhos mais panfletários, de fácil identificação. E senti que o Tucuruvi faz o caminho contrário.

Quando trouxemos Ifá, houve resistência — inclusive com o samba, pelas palavras em iorubá. Existe essa resistência porque não é fácil. Mas aí surgiu o diferencial: a comunidade começou a parar, estudar, entender, pesquisar. Isso foi se construindo.

Em Assojaba aconteceu o mesmo, com termos em tupi e uma narrativa densa. E foi muito bonito ver as pessoas se aproximando do enredo.

Para mim não tem coisa mais divertida do que alguém chegar e comentar sobre a pesquisa, sobre o que descobriu. É esse casamento entre comunidade e enredo. O anti-herói não foi diferente.

São enredos complexos, mas complexidades que fazem bem para a comunidade, que ajudam a construir uma escola que estuda, que se aprofunda — sempre com alegria e samba. Tenho certeza de que será assim novamente”, afirmou.

O enredo em setores

“A gente divide a escola em três setores.

Na abertura falamos da ancestralidade e trazemos o ensinamento de Baquetá, o senhor da terceira cabaça, para explicar o espírito anti-heróico.

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Foto: Divulgação

Um itã conta que Exu recebe duas cabaças: uma com o bem e outra com o mal. Ele pede uma terceira e mistura os conteúdos. Assim, bem e mal passam a coexistir em equilíbrio. Esse é o espírito anti-heróico: entender essa dualidade.

A partir daí, vamos aos anti-heróis já registrados. Fazemos o mesmo movimento de escritores brasileiros que, para falar do país, precisaram olhar para o povo real.

Trazemos personagens da literatura e do cinema que refletem o brasileiro, como Chicó e João Grilo, de O Auto da Compadecida, e Macunaíma, grande anti-herói da nossa literatura. Esse é o segundo setor.

No terceiro, somos mais explícitos: os anti-heróis do cotidiano — pessoas que vivem às margens e nem sempre são vistas.

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Foto: Divulgação

A ideia é coroar essas pessoas, dar visibilidade e encerrar com essa premiação simbólica. Esse é o anti-herói Brasil, o anti-herói Tucuruvi”, explicou.

O ponto alto do desfile

“É difícil responder — é como pedir para um pai escolher o filho favorito.

Abrimos com grandiosidade, apostando em materiais diferenciados, como fizemos em Assojaba. Também teremos um carro com crítica forte, como o de Dom Pedro no ano passado. Acho essencial a escola provocar reflexão.

E fechamos com emoção — Tucuruvi é uma escola que se emociona na Avenida.

Se eu pudesse destacar algo, seria isso: vamos falar de anti-heróis, mas estaremos falando do Tucuruvi. O ponto alto não será uma alegoria específica, mas a emoção como um todo”, disse.

As cores e os materiais na passarela

“No ano passado pensamos muito na colorimetria. Fizemos uma abertura azul com neon. Este ano, novamente, pensei numa paleta diferenciada.

Gosto muito da abertura: usamos páginas de livros — páginas que escrevem história — impregnadas na cenografia. Será uma abertura com muito branco da folha, mas com escrita.

Também trabalhamos o preto e branco da dualidade de Exu e da terceira cabaça. Brincamos bastante com essas cores”, explicou.

Para a comunidade

“Quero deixar um recado para a comunidade: agradecer por acreditarem no meu trabalho e nessa ousadia.

A gente precisa assumir esse papel diferente — algo que antes até gerava bullying, mas hoje nos fortalece.

Não tenham medo de ousar, de ser felizes. Contem com a gente para corrigir os erros técnicos e fazer um carnaval bonito, colhendo o que merecemos. Contem comigo, porque eu conto com vocês”, finalizou.

Ficha técnica

Alegorias: 3

Alas: 19

Diretor de barracão: Jonatas Ramos

Série Barracões SP: Maria Bonita conduz o desfile da Pérola Negra em enredo de força feminina e identidade nordestina

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De volta ao Pérola Negra, o carnavalesco André Machado aposta na força simbólica de Maria Bonita para conduzir o desfile da escola no Grupo de Acesso. A escolha do enredo nasceu de um encontro entre projeto pessoal e a identificação da presidente Sheila com a personagem, resultando em uma proposta que une pesquisa histórica, cultura nordestina e protagonismo feminino.

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Foto: Divulgação

Dividido em três setores e três alegorias, o desfile percorre a trajetória da cangaceira desde o ingresso no cangaço até sua influência na cultura popular e na religiosidade. Com predominância de tons terrosos e uso de couro ecológico nas alegorias, a escola pretende aliar impacto visual à força do canto da comunidade na avenida.

Com o enredo “Valei-me, cangaceira arretada, Maria que abala a gira, valente e bonita que vence demanda”, assinado pelo carnavalesco André Machado, a Pérola será a sexta escola a passar pela Avenida no domingo de Carnaval.

Para o CARNAVALESCO, o artista abriu as portas do barracão e contou sobre todo o projeto para 2026.

A chegada do tema

“Assim que eu entrei na escola, por coincidência, eu tinha três enredos — e os três tinham mulheres como homenageadas. Eu contei para a presidente Sheila e, quando ela viu Maria Bonita, o olho dela começou a brilhar e ela deu um sorrisinho. Aí eu falei: ‘E aí, o que você acha?’. Ela respondeu: ‘Eu quero Maria Bonita’.

Como eu já tinha feito outros trabalhos envolvendo a cultura nordestina, gostei da decisão dela. Acho que é o momento ideal, porque a escola, no ano passado, foi campeã no Grupo de Acesso 2 com um enredo que contava a história de Exu mulher. Tem uma sequência bacana sobre isso.

Três anos atrás, fiz o enredo da Mancha Verde sobre o xaxado, então já tinha muito material de pesquisa, o que me facilitou bastante. E é um enredo que eu sempre tive vontade de fazer.

Uns dez anos atrás, em uma papelaria, me encantei com um livro que contava a história dela. Comprei pensando em, futuramente, desenvolver um enredo. Quando fui carnavalesco da Mancha e tive a oportunidade de conhecer a bisneta de Maria Bonita, mostrei o livro — e quem tinha escrito era uma tia dela, que inclusive autografou para mim.

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Foto: Divulgação

A parte de pesquisa foi muito fácil nesse sentido. É um enredo muito bonito porque minha mãe é nordestina, meu pai é nordestino — essa cultura me encanta demais. E, graças a Deus, a Sheila escolheu esse enredo, porque facilita muito também a construção de um samba-enredo bacana”, contou.

Pesquisa do tema

“Eu já tinha um livro sobre Maria Bonita. Depois, quando fui para a Mancha fazer o xaxado, comprei outros e ganhei mais alguns. Juntei tudo isso para desenvolver o carnaval — me enriqueceu muito na pesquisa.

As pessoas, quando falam de Maria Bonita, pensam logo na figura do cangaço. É uma personagem controversa, porque tem um nome simbólico e vivia no meio de cangaceiros, um movimento que muita gente reprova por conta da violência.

É curioso ver uma mulher que largou a família — ela era casada, sofria no casamento, era espancada — e teve coragem de abandonar tudo para ir para o cangaço. Mesmo apaixonada, viveu no meio de homens. Isso mostra a força da mulher. Acho que a mulher nordestina tem muito de Maria Bonita, e isso tudo me fascinou para fazer esse enredo”, disse.

O desenvolvimento entre alas e alegorias

“A gente dividiu o enredo em três partes, três setores — e cada alegoria representa um setor.

Abrimos falando da Maria Bonita no cangaço, desde quando ela entra até sua morte. A comissão de frente mostra esse momento de transformação em cangaceira, o confronto com a polícia e a vivência no bando.

Logo depois vem a ala das baianas, representando a Rainha do Cangaço, quando ela se torna essa figura emblemática. Em seguida, temos o Bando de Lampião e Maria Bonita, e o nosso primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representa os dois.

O abre-alas fala da Maria do Cangaço. Nas pesquisas vi que os cangaceiros eram exímios na confecção das próprias roupas em couro. Como eu nunca tinha feito um carro com esse material, aproveitei — até porque dialoga com a paleta de tons terrosos da frente da escola.

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Foto: Divulgação

Depois entramos na cultura: mostramos a caatinga, a dificuldade de viver naquele ambiente, até chegar à música. Temos uma ala sobre ‘Mulher Rendeira’, canção entoada pelos cangaceiros.

No segundo setor, mostro a influência de Maria Bonita na cultura nordestina — mulheres que lutam pelo sustento, que migram para a cidade grande inspiradas nessa coragem. Temos também Luiz Gonzaga, que cantou muito sobre ela, e uma encenação de festas juninas, onde muita gente quer ser Maria Bonita por um dia.

O meu xodó é o último carro: Maria Bonita na Umbanda, até se tornar entidade. O quanto ela é forte culturalmente a ponto de virar essa representação espiritual. Essa ideia foi da própria Sheila”, contou.

A recepção da comunidade

“Foi uma recepção muito boa, talvez por dois motivos. Primeiro pelo meu retorno ao Pérola. Graças a Deus fiquei aqui seis anos e fiz seis grandes carnavais.

E esse enredo é muito comentado desde que surgiu. Quando anunciei Maria Bonita, a aceitação foi imediata, porque ainda está viva na memória da comunidade”, disse.

Ponto alto do desfile

“Tenho alguns pontos-chave que acho que, visualmente, vão ser muito fortes, como a ala das baianas na frente da escola.

Mas o último carro é meu xodó. O piso não é só madeira — é todo trançado, um trabalho super artesanal. Acredito muito na força disso.

Apesar da parte plástica, acho que um grande foco do desfile vai ser o povo cantando”, destacou.

As cores e os materiais

“Uma cor que eu nunca tinha utilizado em carros alegóricos é o marrom. E outro material é o couro ecológico. Quando fiz a ala das baianas com esse material, percebi como funcionava bem.

Isso também dialoga com a história, porque os cangaceiros produziam suas próprias roupas. Então o material não está ali à toa”, explicou.

Aos telespectadores

“Vai ser um carnaval mágico. Quem estiver em casa ou na avenida vai se identificar muito com o enredo. O nosso samba — não é porque é nosso, não — mas acho que é um dos melhores do Grupo de Acesso.

Podem esperar uma escola com muita garra, com muita vontade de chegar ao Grupo Especial”, finalizou.

Ficha técnica

Alegorias: 3

Alas: 12

Componentes: 980

Diretor de barracão: Tonico

Mulheres da UPM falam sobre a importância da presença feminina nas escolas de samba

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Desfilante há mais de dez anos, a professora Daniela Moreira compartilhou com o CARNAVALESCO sua visão sobre a importância da presidenta Lara como liderança feminina à frente do boi vermelho da Vila Vintém. Para Daniela, a dirigente representa não apenas renovação, mas também compromisso e amor pela escola.

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Foto: Vanessa Vicente / CARNAVALESCO

Segundo a professora, mesmo sendo muito jovem, Lara demonstra competência, responsabilidade e dedicação na condução dos trabalhos. “Ela tem amor pelo que faz, e isso inspira todos nós”, relata Daniela, ao destacar o empenho da presidenta na organização e no fortalecimento da agremiação.

A trajetória de Lara com a escola, no entanto, vem de longa data. Daniela lembra que a atual dirigente cresceu acompanhando a história da instituição, frequentando os ensaios desde a época de sua avó, Dona Deise, figura tradicional na comunidade e que foi destaque no abre-alas durante ensaio recente da escola.

Para a desfilante, essa conexão familiar reforça o sentimento de pertencimento e explica o comprometimento da jovem liderança.

“Ela carrega a tradição no sangue, mas também traz novas ideias”, afirma.

A presença de mulheres em posições de liderança, como a de Lara, também é vista por Daniela como um marco importante para o boi vermelho da Vila Vintém, fortalecendo a representatividade feminina dentro da agremiação e na comunidade.

Com união entre tradição e renovação, a escola segue seus preparativos, tendo à frente uma dirigente que, apesar da juventude, já demonstra maturidade e paixão pelo pavilhão que defende.

“A escola é super bem organizada, isso é mérito dela e da família dela.”

Desfilando há dois anos, Manuela carrega uma relação antiga com a escola. Desde a infância, ela frequenta os ensaios ao lado da mãe, criando um vínculo afetivo que hoje se traduz em participação ativa na avenida. Em entrevista, a jovem ressaltou a força do enredo da Unidos de Padre Miguel (UPM), que traz como figura central Clara Camarão, mulher indígena ainda pouco conhecida por grande parte dos brasileiros. Para Manuela, a escolha do tema representa um importante gesto de reconhecimento histórico e cultural.

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Foto: Vanessa Vicente / CARNAVALESCO

“É uma oportunidade de dar visibilidade às mulheres caboclas e às mulheres brasileiras”, afirmou.

Segundo ela, levar essa narrativa para a avenida é ampliar vozes que, por muito tempo, foram silenciadas. A desfilante também destacou a dimensão do carnaval como vitrine cultural. Ao abordar a trajetória de Clara Camarão no maior evento audiovisual do mundo, a escola reafirma seu compromisso com a valorização da história e da identidade feminina no Brasil. Para Manuela, mais do que um desfile, trata-se de um ato de representatividade e memória coletiva, que fortalece não apenas a comunidade da escola, mas também o reconhecimento das raízes indígenas na formação do país.

“Trazer a história dela é ressaltar a força da mulher.”

Torcedora da agremiação, Dinecy Castro destacou a importância de ampliar a presença feminina em cargos de destaque no carnaval. Para ela, o fato de a escola contar com uma mulher em posição de decisão representa um avanço significativo e abre caminhos para um futuro com maior representatividade.

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Foto: Vanessa Vicente / CARNAVALESCO

Segundo a componente, a ocupação desses espaços por mulheres pode estimular novas lideranças a assumirem funções estratégicas dentro das escolas de samba, como intérprete oficial, diretora de carnaval e outros postos tradicionalmente ocupados por homens.

“É uma mudança que inspira e mostra que é possível”, afirmou.

A torcedora acredita que o movimento é um passo importante para transformar a estrutura do carnaval, especialmente nas agremiações do Rio de Janeiro, onde as escolas exercem forte influência cultural e social.

Para o futuro, Dinecy projeta um cenário com ainda mais mulheres à frente das escolas de samba, ocupando cargos de liderança e protagonizando decisões que impactam diretamente o espetáculo.

“Espero ver cada vez mais mulheres na linha de frente, conduzindo nossas escolas com competência e sensibilidade”, concluiu.

Dani Monteiro participa de inauguração de centro de convivência para ambulantes do Carnaval na Cidade Nova

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Foto: Divulgação

A deputada estadual Dani Monteiro, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, participou da inauguração, nesta sexta-feira (13), do Centro de Convivência das Ambulantes do Carnaval, instalado na Casa do Catador, na Cidade Nova. A iniciativa foi viabilizada após articulação com a concessionária Águas do Rio e Secretaria do Meio Ambiente, em parceria com o deputado federal Pastor Henrique Vieira, e reuniu o coletivo Elas por Elas, movimento Trabalhadores Sem Direitos, ambulantes e representantes da sociedade civil.

O espaço, que fica na Rua Viscondessa de Pirassununga, passa a oferecer pontos de hidratação, acolhimento e estrutura de apoio e descanso para trabalhadores informais que enfrentam longas jornadas sob calor intenso durante o Carnaval. A ação busca garantir condições básicas de saúde, descanso e higiene para quem sustenta a dinâmica econômica da festa nas ruas, especialmente na região central da cidade, próxima ao Sambódromo.

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Foto: Divulgação

“Hoje a gente celebra uma vitória da classe trabalhadora que faz o Carnaval existir e se perpetuar como o maior do mundo. São ambulantes e catadores que colocam comida na mesa de milhares de famílias e ajudam a movimentar uma festa que deve gerar cerca de R$ 5,9 bilhões na economia e receber 8 milhões de pessoas. Não existe esse número grandioso sem o trabalho árduo deles. Em meio a uma gritante crise climática, garantir água, cuidado e um espaço digno é também reconhecer que direitos humanos também são renda, saúde e respeito para quem mantém a cidade de pé, seja no dia a dia, seja nas grandes festas”, celebrou Dani Monteiro.

Ao vivo: primeiro dia de desfiles da Série Ouro no Carnaval 2026

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