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Haddad e Bora exaltam comunidade da Vila Isabel e prometem enredo construído ‘com carinho e respeito’

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Foto: Matheus Morais/CARNAVALESCO

Gabriel Haddad e Leonardo Bora foram felizes ao realizar seu primeiro trabalho na Unidos de Vila Isabel no último carnaval. A dupla foi responsável pelo terceiro lugar da agremiação com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, sobre a vida de Heitor dos Prazeres, um dos grandes nomes da história do samba, que esteve no surgimento das escolas e na consolidação do próprio samba.

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Em primeiro lugar, os carnavalescos falaram sobre o desfile de 2026, o resultado e o pós-carnaval, que inclusive levou o Pierrot Apaixonado com a face de Heitor à Casa Brasil, localizada ao lado do CCBB. Gabriel destaca este momento e a continuidade que os carnavais que ambos levaram à Sapucaí possuem, enquanto Leonardo pontua o afeto ao longo do processo de 2026 e a poesia que guiou a escola do bairro de Noel para a Passarela do Samba, para contar a vida de Heitor dos Prazeres.

“Era um desejo nosso trabalhar com o Heitor, mergulhar mais profundamente na vida e na obra dele. Era e ainda está sendo um momento muito importante para a Unidos de Vila Isabel, uma escola que possui uma comunidade potente, que queria cantar um enredo poético e que falava da própria memória carnavalesca. O desfile expressou essa poeticidade, trouxe esse perfume, que é uma palavra usada no belíssimo samba. É esse perfume dos outros carnavais, da nostalgia carnavalesca, que tanto nos anima e pela qual nós somos apaixonados. Foi um momento muito feliz, temos muito orgulho de ter construído essa narrativa junto da Vila Isabel e de todo o povo do samba. O torcedor da Vila pode ter certeza de que 2027 será mais um enredo construído com muito respeito à memória dessa escola, com muito carinho, com muito cuidado”, declarou Leo.

“Ainda está se desdobrando. O Pierrot Apaixonado foi para a Casa Brasil agora, em exposição. Estamos em contato com a família do Heitor para continuarmos esse desdobramento, como fizemos em outros carnavais, como Bispo do Rosário na Cubango e o Exu na Grande Rio. É importante as escolas ficarem em evidência fora do momento do desfile, é isso que a gente busca sempre. A Vila fez um carnaval muito feliz, desde a escolha do samba, o anúncio do enredo na Pedra do Sal, como tudo foi se desenhando, até chegar a um grande desfile que disputou o título, junto com o Viradouro e a Beija-Flor. Foi uma disputa muito bonita este ano entre as escolas, qualquer uma das três podia ter sido campeã. Estamos muito felizes de continuar, fazer um grande projeto para 27 e seguir confiando e buscando essa energia positiva da comunidade da Vila Isabel”, pontuou Gabriel.

Por fim, eles abordaram a parceria do Povo do Samba com a China, através do consulado do país, e destacaram a importância que qualquer tipo de parceria tem para o carnaval como fonte de recursos, além de afirmarem que não negam que, algum dia, algo interessante relativo ao país possa virar enredo, dando Rosa Magalhães como exemplo.

“O carnaval hoje em si, e não só o carnaval da Vila Isabel, mas das doze escolas do Especial, das escolas do Grupo de Acesso, tanto da Sapucaí quanto da Intendente Magalhães, está precisando de parcerias, investidores, gente de boa vontade para investir, e que a gente veja um retorno para as comunidades, para as pessoas que trabalham no carnaval. E é isso que as escolas estão buscando: uma melhoria no chassi, uma melhoria na quadra. Vão buscar ajuda, e elas são bem-vindas. Claro, para o futuro, não vou dizer algo como ‘nunca faria tal enredo’, um enredo sobre pedra como a Rosa fez na Estácio, e que foi um enredo lindíssimo desenvolvido por ela, por exemplo”, destacou Gabriel Haddad.

“É uma parceria que vai além de uma ideia de enredo, é uma ideia de investimento no Carnaval em si, em uma escola de samba, uma instituição, como são as escolas de samba do Rio de Janeiro. São coisas que vão acontecendo, mas é uma coisa muito mais ampla do que um enredo em si. O Gabriel citou Rosa, essa mestra e referência. Em 2004 e em 2005, na sequência, a Rosa nos brindou com dois enredos muito interessantes, com duas Chinas muito diferentes e maravilhosas”, encerrou Leonardo Bora.

Festa da Vitória se consolida como tradição do carnaval de São Paulo

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

O último sábado teve um evento mais do que especial no Carnaval de São Paulo: a noite reservou a Festa da Vitória, reunindo as três grandes campeãs da folia na cidade. A celebração, realizada na Arena Morada, na Freguesia do Ó, Zona Norte do município, teve a presença da anfitriã Mocidade Alegre (vencedora do Grupo Especial), da Acadêmicos do Tucuruvi (Grupo de Acesso I) e Morro da Casa Verde (Grupo de Acesso II) – além de um show especial com intérpretes de escolas de samba cariocas e da revelação do enredo da Morada do Samba para o desfile de 2027, intitulado “Sete Anos de Mar, Sete Léguas de Encanto: A Nau que Venceu o Diabo sob a Benção do Sagrado Manto”, assinado pelo carnavalesco Caio Araújo com pesquisa do enredista Leonardo Antan. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO conversou com representantes das três escolas participantes da festividade para entender quão importante a Festa da Vitória já se tornou para a folia em São Paulo.

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Histórico

Em 2024, a Mocidade Alegre realizou a então chamada Festa das Campeãs 2024 na mesma Arena Morada. À época, além das campeãs do Grupos de Acesso II e I (X-9 Paulistana e Estrela do Terceiro Milênio, respectivamente), também participaram a carioca Unidos de Padre Miguel (então vencedora da Série Ouro) e a fluminense Unidos do Viradouro (campeã do Grupo Especial). Naquele momento, outra tradição surgiu: a revelação do enredo da vencedora do primeiro pelotão paulistano para o ano seguinte – no caso, “Quem Não pode Com Mandinga Não Carrega Patuá”.

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Em 2025, novamente, a campeã do Grupo Especial de São Paulo foi o Rosas de Ouro – e, por isso, foi a anfitriã da Festa das Campeãs 2025. Na data, o Pérola Negra e a Tom Maior (pela ordem, vencedores do Grupo de Acesso II e I naquele ano) também se apresentaram. Por fim, a Roseira apresentou “Escrito Nas Estrelas”, temática para 2026.

Novamente anfitriã

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Diretor de Carnaval da Mocidade Alegre, João Lola Junior, popularmente conhecido como Junior Dentista, destacou que a união entre componentes de coirmãs paulistanas é o grande mote de eventos como esse. Ele aproveitou para explicar o motivo pelo qual a campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro não compareceu: “A importância da Festa da Vitória é a celebração da festa, do evento, da comemoração, o merecimento do Morro da Casa Verde, da Acadêmicos do Tucuruvi. Quisemos trazer a Viradouro, mas eles estão em Portugal – e só por isso que escola não veio: a gente sempre chama as campeãs do Rio de Janeiro e do Grupos de Acesso II e I de São Paulo. O evento existe para comemorar junto e é para todo o povo do Carnaval – do Rio, de São Paulo, do Brasil todo, parabenizando e celebrando junto com as grandes campeãs. A ideia é essa e a intenção é essa”, explicou.

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Campeãs prestigiadas

Vencedora do Grupo de Acesso I, Rodrigo Delduque, vice-presidente e Diretor de Carnaval da Acadêmicos do Tucuruvi, fez questão de agradecer à mandatária da agremiação anfitriã: “Para a Tucuruvi, é importantíssimo o reconhecimento dos títulos das coirmãs pela Mocidade Alegre. Queria agradecer à Solange e a toda a diretoria da Mocidade. É uma festa que coroa o campeonato, coroa os títulos do Carnaval no pós-Carnaval. Agora, no momento em que estamos na montagem do Carnaval 2027, ser convidado para uma festa dessas é uma emoção grande, é um reconhecimento maravilhoso pela Mocidade Alegre. Só tenho a agradecer, mais uma vez a presidente Solange e toda a diretoria da Mocidade Alegre”, comemorou.

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Já Diego de Campos, presidente do Morro da Casa Verde, campeã do Grupo de Acesso II, também destacou o trabalho que já está sendo feito na verde e rosa: “Eu me sinto muito honrado em fazer parte dessa festa, uma vez que, para a nossa comunidade, o título foi muito importante. A gente chegou em peso, acredito que a gente fez um grande espetáculo, um espetáculo de campeã como fomos em 2027. Agradeço a presidente Solange e a toda a comunidade da Mocidade Alegre por fazer esse grande evento. Para a gente, é uma experiência única! E a primeira vez, que eu, como presidente, eu estou aqui na Festa da Vitória – espero retornar outras vezes e vou embora. O Carnaval 2027 está aí e é trabalhar, chegar com energia e fazer um grande desfile para vocês no dia 07 de fevereiro”, finalizou.

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Em busca da retomada, Nenê de Vila Matilde apresenta enredo afro para o Carnaval 2027

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Fotos: Letícia Sansão/CARNAVALESCO

A última quarta-feira foi marcada por emoção, ancestralidade e sentimento de pertencimento na explanação do enredo da Nenê de Vila Matilde para o Carnaval 2027. Com presença da imprensa, compositores e integrantes da comunidade, a azul e branca da Zona Leste apresentou oficialmente “Mulheres de Palmares – A Liberdade Tem Rosto de Mulher”, enredo que será desenvolvido pelo carnavalesco Chico Ângelo no Grupo de Acesso 2. O evento também marcou o lançamento oficial do concurso de samba-enredo da escola e reuniu diferentes segmentos da comunidade matildense em uma noite de forte conexão com a identidade afro.

Clima de emoção

A explanação foi acompanhada com atenção e emoção pelos presentes. Enquanto a narrativa do desfile era apresentada, alguns integrantes da escola se emocionaram nos trechos que abordavam ancestralidade e o protagonismo das mulheres negras dentro da história de Palmares. O sentimento era de identificação imediata com um enredo afro que vinha sendo pedido há algum tempo pela comunidade.

A apresentação começou com a leitura detalhada da sinopse do desfile, que será dividido em quatro atos: Acotirene, Aqualtune, Dandara e as Herdeiras de Palmares. Durante a explanação, Chico Ângelo reforçou diversas vezes que o projeto não pretende resumir mulheres negras à dor da escravidão, mas exaltar protagonismo, liderança e continuidade histórica.

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Carnavalesco Chico Ângelo

“Eu não quero falar de mulheres acorrentadas. Quero falar de mulheres livres, fortes, inteligentes e que construíram Palmares. A história dessas mulheres vai muito além da dor”, afirmou o carnavalesco.

Ao CARNAVALESCO, Chico definiu o tom que pretende levar para a avenida. “Acho que será um desfile com um tom emocional muito forte, como um grito de liberdade preso na garganta, com mulheres empoderadas desfilando na avenida. Será um desfile potente e com uma carga emocional elevada”, declarou.

Narrativa ancestral

A construção do desfile vai atravessar ancestralidade africana, formação do Quilombo dos Palmares, espiritualidade, maternidade, luta coletiva e resistência negra contemporânea. O primeiro ato será centrado em Acotirene, personagem ligada à formação de Palmares e aos saberes ancestrais. O segundo apresentará Aqualtune como símbolo de organização, proteção e afeto coletivo. Já o terceiro setor será dedicado à força de Dandara como mulher de combate, liberdade e resistência.

O encerramento do desfile será voltado às “Herdeiras de Palmares”, conectando as mulheres quilombolas às mulheres negras da atualidade que seguem ocupando espaços políticos, culturais e sociais.

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Segundo Chico Ângelo, o último carro alegórico deverá reunir homenagens a mulheres pretas que ajudaram a construir o país em diferentes áreas.

“Quero homenagear toda mulher preta que ajudou a construir este país e que merece reconhecimento. A lista é enorme, mas o carro tem limites, então vamos escolher esses nomes com muito carinho. São mulheres que merecem nossos aplausos eternos”, declarou ao CARNAVALESCO.

Durante a explanação, o carnavalesco convidou a ex-secretária municipal de Cultura de São Paulo, Aline Torres, e a histórica porta-bandeira da Mancha Verde, Adriana Gomes, para representarem o espírito do setor final do desfile, dedicado às herdeiras contemporâneas de Palmares.

“Várias mulheres pretas do carnaval me inspiraram e me ajudaram a construir o carnavalesco que eu sou”, contou.

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Ex-secretária municipal de Cultura de São Paulo, Aline Torres, com o carnavalesco

Professora emocionou comunidade

Após a apresentação da sinopse, Chico Ângelo chamou à frente a professora Adriana Vasconcellos, responsável por auxiliar na pesquisa do enredo. A participação da educadora transformou a explanação em um momento de reflexão sobre ancestralidade, negritude e matriarcado negro.

O carnavalesco destacou a importância da professora em sua formação dentro da luta antirracista.

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“Ela é professora, e eu acho que esse é o papel principal da Adriana: ensinar. Muita da minha bagagem na luta antirracista veio daqui. Então, essa é a minha grande incentivadora”, declarou.

Durante sua fala, Adriana relacionou o conceito de matriarcado às estruturas presentes nas escolas de samba, nos terreiros e nas rodas de capoeira, além de destacar a importância de resgatar histórias apagadas da população negra.

“As mulheres negras já carregavam essa estrutura antes mesmo do sequestro. E é importante lembrar que matriarcado não tem nada a ver com disputa ou oposição aos homens. Matriarcado é a mulher como coluna da sociedade”, explicou.

A professora também emocionou a comunidade ao falar sobre pertencimento e acolhimento nos espaços negros.

“Esse resgate que está sendo feito é algo ímpar porque é verdadeiro. Precisamos resgatar as nossas histórias e a nossa negritude. A escola de samba é um espaço sagrado, de resistência, de liberdade e de libertação”, comentou.

Retomada da identidade

A diretora de carnaval, Bruna Babalu, revelou ao CARNAVALESCO que o projeto foi escolhido entre três propostas enviadas por Chico Ângelo. Segundo ela, o enredo representa uma retomada da essência histórica da azul e branca.

“Quando vi o enredo das Mulheres de Palmares, ainda no começo, quando era ‘Mulheres do Quilombo’, já senti que esse era o caminho. Esse enredo é a cara da Nenê. A Nenê precisava desse enredo afro. A comunidade está em êxtase e abraçou completamente o enredo”, afirmou.

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Diretora de carnaval, Bruna Babalu

A dirigente ainda relacionou o projeto ao momento vivido pela escola após os últimos carnavais, em um ambiente de reconstrução da identidade matildense.

Concurso de samba-enredo

A noite também marcou o lançamento oficial do concurso de samba-enredo da escola para o Carnaval 2027. A apresentação foi conduzida pelo diretor-geral Rodrigo Oliveira, com presença do diretor musical Tonn Queiroz, do diretor da Ala de Compositores, Cassio de Oliveira, e do diretor de Harmonia, Douglas Neto.

Durante a apresentação, Tonn reforçou a tradição musical da azul e branca e pediu atenção dos compositores à identidade da escola.

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Diretor musical Tonn Queiroz

“A Nenê é a escola que mais tem prêmio de samba-enredo em São Paulo. A fórmula já existe. Ninguém precisa inventar nada”, declarou.

O diretor musical também destacou que os compositores precisam compreender profundamente a essência musical da escola e a narrativa do enredo.

“É fazer um samba com a cara da Nenê. A escola já tem hoje um enredo com a cara da Nenê, que é um enredo afro, do jeito que a comunidade gosta. Agora, a gente precisa de um samba com a cara da Nenê. Procurem construir um samba em que a história tenha um fio condutor. Vamos trabalhar letra, vamos fazer poesia”, afirmou.

A escola informou que não realizará eventos até o dia 25 de julho, quando acontecerá a tradicional Feijoada das Alas Reunidas, marcando o reencontro com a comunidade. Os sambas concorrentes serão apresentados em formato de roda de samba, e os finalistas serão definidos no mesmo evento.

A grande final acontecerá no dia 2 de agosto. O samba vencedor receberá premiação de R$ 3 mil. Em caso de parceria entre compositores, o valor será dividido entre os vencedores.

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Haroldo Costa é reverenciado em evento; ‘Ideia original do Tambor, de 2009, foi dele’, revela Gustavo Melo

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Fotos: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro recebeu, na última quarta-feira, a Feira Literária do Carnaval Haroldo Costa, dedicada a obras sobre o universo do carnaval e das escolas de samba, cujo grande homenageado foi o escritor, pesquisador, bailarino e ator que batizou o nome do evento. Haroldo foi lembrado em duas mesas de debate: a primeira dissecando temas retratados nos livros escritos por ele, enquanto a mesa final relembrou o legado e as características pessoais do artista, com a presença de personalidades que tinham uma relação afetiva com o homenageado, como Helena Theodoro, que o conheceu na década de 50, criando uma amizade de mais de meio século.

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“Minha amizade com o Haroldo começou nos meus longínquos 15 anos de idade. Nos conhecemos na Rádio MEC, quando eu era uma estudante de música. Ele sempre estará vivo em nossos corações”, ressaltou Helena.

Além da filósofa e pesquisadora, a segunda mesa contou com as participações dos jornalistas Aydano André Motta e Fábio Fabato, do diretor cultural da Unidos da Tijuca, Julio César Farias, e dos escritores Miguel Pinto Guimarães e Onésio Meirelles, com mediação de Rachel Valença, pesquisadora e escritora. Aydano lembrou da importância de Haroldo na mudança de paradigma dos desfiles, influenciada pelo Salgueiro e sua academia de carnavalescos na década de 60.

“Haroldo é um grande nome da revolução cultural do Salgueiro. O que a Portela inventou lá atrás, o Salgueiro revolucionou de uma forma muito sofisticada. Ele é um dos grandes responsáveis por isso”, afirmou.

Fábio Fabato sintetizou como enxergava o homenageado: “Celebremos a memória de alguém tão grande quanto Haroldo Costa, a generosidade e a simplicidade em forma humana”.

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Julio César trabalhou com Haroldo na Secretaria de Cultura do Rio e criou uma relação próxima com ele, ganhando um amigo e incentivador. “Trabalhei com o Haroldo por cinco anos. Ele me introduziu na produção de um programa na Rádio Roquete Pinto, cheguei a apresentar por incentivo dele. Era um homem que acreditava demais nas pessoas, era muito amigo. No desfile do Paraíso do Tuiuti que homenageou Ricardo Cravo Albin, a alegoria na qual vinham Haroldo e outros amigos começou a dar choques por conta da chuva e, mesmo assim, ele tentou ficar lá, não queria sair, até que aceitou descer e veio no chão”, lembrou, contando uma curiosa história do artista.

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Outro amigo de Haroldo, Miguel Pinto Guimarães, citou a formação intelectual do ator. “Minha relação com ele era de amizade, estava sempre em meus aniversários. Ele é um dos elos mais importantes entre o carnaval das escolas de samba e a arte erudita. Ele era um intelectual, um homem de teatro. A academia estava nele. Poucas pessoas costuraram tão bem essa relação do carnaval com a intelectualidade como ele”, lembrou.

“Durante a pandemia, eu revi inúmeros desfiles antigos e fiquei encantada pelos comentários do Haroldo Costa, pela sensibilidade e conhecimento que ele mostrava. Ele teve uma trajetória linda de vida e contava como se fosse algo banal. Me senti emocionada quando me chamaram para essa mesa, pois eu poderia contar que conheci alguém com esse tamanho, com essa história de vida”, afirmou Rachel Valença.

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Único dos presentes sem uma relação mais pessoal com Haroldo Costa, Onésio Meirelles criou uma afetividade pelo exemplo que o artista era para os jovens negros como ele, num universo que parecia inalcançável para muitos deles. “Haroldo era um espelho para um jovem negro como eu, fazendo tantas coisas com imenso talento: ator, dançarino, depois escritor, produtor. O seu legado está vivo”.

A mesa que discorreu sobre as narrativas das escolas de samba através dos livros escritos por Haroldo, sobretudo a obra “História do Brasil na Boca do Povo”, catalogou diversos sambas-enredo que retratavam acontecimentos históricos do país. Deste debate participaram os jornalistas Marcelo Mello e Felipe Ferreira; os enredistas de Vila Isabel e Viradouro, respectivamente, Vinicius Natal e João Gustavo Melo; e o dançarino e mestre na arte da dança dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, Manoel Dionisio.

Entre diversos pontos abordados na mesa, foram discutidas as narrativas de sambas e enredos antigos, que sempre eram criados de acordo com a visão do status quo da época, a narrativa do poder e da classe dominante, algo de que Haroldo sempre discordou, sendo um dos primeiros negros a conseguir espaço como pensador do carnaval.

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“Haroldo Costa é um dos principais representantes da intelectualidade negra no samba, que abriu muitos espaços num universo de barreiras diversas. Hoje ainda temos uma força contrária enorme, como o avanço das igrejas evangélicas que demonizam o samba e as matrizes africanas. Precisamos lutar para colocar o samba no centro da cultura brasileira”, afirmou Vinicius Natal.

O jornalista Marcelo de Mello lembrou do pioneirismo do enredo de 1963 do Salgueiro, que falou de Xica da Silva, uma personagem até então não tão conhecida do grande público, desfile que fez Haroldo se tornar torcedor da vermelho e branco. “Um legado que as escolas de samba trazem para a cultura brasileira é dar visibilidade a figuras antes não tão faladas. Xica da Silva passou a ser retratada em diversas obras após o desfile histórico do Salgueiro em 63”, declarou.

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Quem participou desse desfile com a inesquecível ala do Minueto foi Manoel Dionísio, dançarino como Haroldo Costa e seu contemporâneo. “Fizemos o minueto na Presidente Vargas às 11 horas da manhã, sol quente, roupa de veludo. Na época, o único sambista que tinha uma coluna de carnaval no Jornal dos Sports era o Marco Aurélio, conhecido como Jangada. Após o título do Salgueiro, ele escreveu que o Salgueiro tinha sido campeão com uma coreografia maldita. Nos anos seguintes, passaram a aparecer duplas e trios fazendo coreografia, e ele não falava nada. Achei uma certa discriminação. É por isso que digo: eu não sou bailarino, sou dançarino afro”, afirmou Manoel, lembrando como era a visão artística da época em relação aos negros.

Haroldo Costa teve participação fundamental no último título do Salgueiro, em 2009. “O último campeonato do Salgueiro, ‘Tambor’, é uma ideia original do Haroldo Costa. O enredo em 2009 seria sobre Jorge Ben Jor, mas ele recusou. O Renato Lage procurou o Haroldo e perguntou quais ideias de enredo ele tinha. Ele citou duas ideias, e uma delas era o tambor. Renato abraçou, e o resultado foi o título”, contou João Gustavo Melo.

O evento foi encerrado com a apresentação do Salgueiro, coroando uma bela homenagem a um dos intelectuais mais populares da cultura brasileira.

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Paraíso do Tuiuti 2027: leia a sinopse do enredo

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Enredo: CIATA: A MÃE PRETA DO SAMBA

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ANÁLISE DE DISCURSO

“Tu és meu sonho Tuiuti
Tens um destino a cumprir”
Paraíso do Tuiuti 2001
(Cesar Som Livre, Kleber Rodrigues, David Lima e Claudio Martins)

O Paraíso do Tuiuti, preparado para continuar indo ao encontro do seu destino, reafirma a sua posição de fazer enredos e propor questionamentos que busquem tirar fatos e personagens do apagamento dos livros oficiais para consagrá-los na eternidade do maior espetáculo da terra.

CONCEITO DO TÍTULO DO ENREDO
CIATA: MÃE PRETA DO SAMBA

Traduz de forma direta e sucinta o significado e o simbolismo da personagem de fundamental importância na criação do samba carioca, como também no enraizamento da cultura de terreiro.

A expressão “mãe preta” no Brasil Colonial é muito marcada pelo imaginário e pela violência da escravidão, não raro definindo as amas de leite submetidas à amamentação compulsória dos filhos da elite.

Desafiando o horror da escravidão, o Tuiuti propõe a ressignificação do termo, entendendo a mãe preta do samba como protagonista soberana e livre, senhora de saberes, sabores, afetos, acolhimentos, resistências e reexistências, no contexto do matriarcado gerador da cultura preta do samba.

SINOPSE

Acordou, como sempre, antes do galo cantar. De um estalo se mirou no espelho do abebé, o leque dourado de Oxum, naquela hora em que o sol, como um abre-alas, pediu passagem entre as nuvens da madrugada para anunciar a chegada de mais um dia. O cheiro bom do omolokum arriado no dia anterior ainda dominava o ambiente.

A tia preta abriu a porta do casarão, então matriz de acolhimento dos sabores e saberes de sua gente, na rua Visconde de Itaúna, número 117, Praça Onze de Junho, e saiu para o trabalho, empunhando o seu tabuleiro de doces deliciosos, vestida a caráter: pano da costa, ojá na cabeça, saia rendada, bata, guias e balangandãs.

Ela, ao lado de tantas tias, foi expoente da tradição das mulheres quituteiras trajadas de baianas nas ruas da cidade; pretas soberanas que assumiram plenamente o protagonismo sobre suas vontades, seus corpos e suas vidas.

Hilária Batista de Almeida se lembrou da Bahia e do tempo de cabeça feita pelo velho Bamboche, quando Oxum gritou por três vezes no jogo aberto: Ora iê iê ô, alafiou!

E pensou alto: este ano a festa da minha mãe vai ser linda.

Feito isso, seguiu para seu ponto comercial naquela esquina do Centro, próxima às ruas da Alfândega e do Ouvidor, sem esquecer da caminhada como primeira yaquequerê do terreiro de João Alabá, na rua Barão de São Felix, na Cidade Nova.

A região central da cidade se transformava pelas reformas urbanas que buscavam construir, desde o início da República, uma espécie de “Paris Tropical”; projeto que caminhou tentando invisibilizar as vivências e a ciência dos pretos e pobres que não faziam parte do ideal da Belle Époque carioca.

A tia ainda se lembrava dos dias da Revolta da Vacina, nos tempos do Bota Abaixo do prefeito Pereira Passos. No burburinho das ruas, era como se Omolu, o grande orixá da doença e da cura, estivesse balançando o xaxará, o cetro de búzios e palha da costa, pela cidade inteira.

A gente simples das ruas cariocas, todavia, não é de se entregar e se integrou através da luta, da ocupação do espaço público e da construção de sociabilidades cotidianas. Nelas, se atam os nós da resistência e da invenção de modos coletivos de vida.

Ciata continuou a passos firmes, cruzou com uns conhecidos capoeiras, passou pelo vizinho que escrevia o jogo do bicho, viu algumas barracas de frutas frescas e percebeu que a justa vinha descendo em disparada desde o Campo de Santana, atrás de uns malandros e de uma yaô recém-iniciada para o orixá.

Ao seu lado, dois moleques gaiatos cantarolavam baixinho:

“O Chefe da Folia pelo telefone mandou avisar…”

Pensou alto: Oxalá!

O Rio de Janeiro começava a respirar os ares do carnaval e como era bom ouvir aquele batuque que começou misturado com choro, maxixe, samba de roda e muito axé, livre da repressão urbana, no quintal de sua casa, e que estava se tornando popular em meio ao corre-corre das ruas.

Ela mesma, afinal, participara da composição daquela música que os garotos cantavam — e Donga registrou com o título de “Pelo Telefone” — além de ter a fama de ser bamba nas rodas de partido alto. Como versava!

A Tia mal podia conter a expectativa pelos dias de folia. Ela era carnavalesca das mais animadas que, não à toa, herdou o Rancho Rosa Branca e viu nascer no seio de sua família o bloco O Macaco é Outro.

De súbito, um senhor de paletó marinho, que ela conhecera quando vendia doces numa Festa da Penha, há muitos anos, perguntou:

Tem doce de coco, tia? Daquele que eu comi no dia de Cosme e Damião do ano passado, na sua casa?

Tem sim senhor! E manjar também.

Uma senhora, negra altiva, disse:

Hoje não, mas amanhã eu quero mugunzá de colher, cuscuz e pé de moleque. Hoje eu quero comer um acarajé de mamãe Oyá para ficar ventando de satisfeita! Se bem que um caruru também é boa pedida.

A Iyabassê, sem perder o sorriso do rosto, respondeu irônica:

Por falar nisso, amanhã nem sei se venho. Preciso bater umas folhas ainda hoje e fazer um banho de ervas para curar a perna de um tal Venceslau Brás, acho que é o Presidente da República! Não tem ferida que Ossanha não resolva. Ele vai ficar bom.

E as duas riram.

Fez-se depois um silêncio momentâneo, logo rompido pelo barulho da turba que continuou agitando aquela manhã carioca de mais um dia de fevereiro.

De volta ao casarão de onde saíra de manhã, a tia encontrou a festa preparada para começar. Macumbeiros, sambistas, artistas, chorões, jornalistas, mães e filhas de santo, poetas, o povo da rua, tias amigas de longa data, não paravam de chegar.

Parecia que a gente daquela pequena África encravada entre o porto, a Saúde, a Gamboa, a Praça Onze, a Cidade Nova e o bairro do Estácio de Sá, estava toda ali.

De repente, com a mesa farta, os copos cheios e os corpos livres, a celebração rompe os limites do tempo e do espaço. A casa da Visconde de Itaúna é uma avenida iluminada para saudar a matriarca.

É carnaval e o rancho da saudade vai desfilar…

O seu povo desce o morro do Tuiuti e se veste de azul e amarelo para cantar, vibrar e reverenciar a ancestral maior que abençoa o carnaval.

Cada passo de samba é como um ponto riscado na Marquês de Sapucaí transformada em terreiro.

A Yalodê, líder feminina de sua gente, está feliz!

CRIAÇÃO E PESQUISA
• Carnavalesco: Renato Lage
• Pesquisa e texto: Claudio Russo e Luiz Antonio Simas
• Consultoria e apoio à pesquisa: Gracy Moreira e equipe da Casa da Tia Ciata
• Agradecimentos especiais: Professoras Angélica Ferrarez e Cláudia Alexandre

Gabriel David sobre reeleição na Liesa: ‘Independente de quem estiver lá, quero estar perto’

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Foto: Divulgação/Rio Carnaval

Em entrevista ao podcast Setor Sul, o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Gabriel David, abriu o jogo sobre os rumos da gestão do carnaval carioca, as fofocas de bastidores e os planos para os próximos anos. Com foco total no Carnaval de 2027, ele minimizou as discussões sobre reeleição e reforçou a importância de manter o modelo de negócio que tem profissionalizado a festa. Questionado sobre o processo eleitoral e boatos, Gabriel David foi enfático ao dizer que o aumento das especulações é um reflexo do sucesso atual do carnaval.

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“Quando o carnaval estava em baixa não tinha fofoca. Agora tem fofoca de tudo quanto é lado, e isso é fruto do sucesso”, afirmou.

Sobre uma possível reeleição, o dirigente declarou que sua prioridade absoluta é a execução do projeto para o Carnaval de 2027, que ele pretende que seja o “maior e melhor de todos os tempos”. Para David, focar em política agora poderia dispersar a energia necessária para os desafios operacionais e artísticos da Liga.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de continuidade no trabalho administrativo. Segundo Gabriel, o modelo atual tem sido “extremamente vencedor” em termos de geração de receita, interface com o mercado publicitário e reconhecimento midiático. Ele alertou que romper com esse formato agora impactaria diretamente milhares de pessoas, artistas e fornecedores que dependem financeiramente do cronograma do carnaval.

Apesar de defender a continuidade, David declarou não acreditar na perpetuação do poder. Ele revelou que a grande maioria de suas indicações para novos beneméritos da Liesa foram artistas da festa, e sinalizou que, no futuro, a liderança poderia, e talvez devesse, ser ocupada por um artista, alguém com uma sensibilidade diferente para enxergar problemas que gestores tradicionais podem deixar passar.

Mangueira 2027: leia a sinopse do enredo

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Oya dé
Olúafééfé
Oya Ijegbe, igan obirin a ji sa idá
Ó lamu lamu bi ína bi alaro
Da ína si ajerę gbẹ ẹrù
Oya ni o to iwo efọn gbe
Ó ni lábá-lábá
Ó ni Olúafééfé

Relampejou! Natureza revolta como presságio. Os raios dela rasgam a imensidão do céu como a origem do seu próprio nome: O ya!. Ela rasgou, ela rasga. Ela corta, ela rompe, ela lacera, ela dilacera. Princípio que não se vê mas que se sente empurrar. Èfúûfù líle. O estrondo de sua presença preenche qualquer canto; tudo agora se confunde com a sua energia. Energia de imensidão, de exuberância. De ventania, de redemoinho, de furacão. De começo, meio e recomeço. Sentido espiralar da existência. Fundamento da vida, rito de orixά.

Deixa chover, deixa ventar. Deixa insurgir a tempestade das nuvens de chumbo dessa senhora cor de cobre, enegrecida, rosada, rubra, terracota, marrom.

Epahey, Oyá!.

Ao fim do arrebol, faz-se noite de carnaval. Daqui, de antes e por todo o sempre, sua valentia prevalece. Afasta os desatinos, arrastando tudo aquilo que está à sua frente. Oyá é uma constante reinvenção. Impulso indomável da liberdade, que só sabe ser livre se for muitas. Transcorre, transforma, expande. Do sagrado Rio Níger ao coral do mar; da capacidade de mutações diversas ao veredito do elefante branco. Pisando firme no chão, planando pelo ar. Linhagem de mandinga, várias formas de ser. De ser avassaladora. Exu, nas rédeas dos caminhos, possibilita diferentes magias de renovações. Dá novos sentidos à existência, rege a transformação dos deuses. Com sua mediação, Oyá segue. Abaixo da pele de búfalo, sob a imponente carcaça com o par de chifres, ela surge potente e fascinante. Sabe chegar, fincar, se impor. E também sabe voar para longe, compreendendo o tempo de se recolher para adornar os céus de lábá-lábá. Flutua no espaço, bate as asas pelos caminhos, travessias de borboleta-mulher.

Oyá é guerreira que não se curva aos inimigos. Com ela, amor e afeto se fazem juntos. O mesmo arrepio da luta vem da paixão. Yabá combatente e corajosa, mãe de nove filhos forjados entre o ferro e a vida. Ao lado do Senhor de Irê, promove um amor que se encontra na guerra e no fio da espada. Valente, ela é comandante implacável de tantos enfrentamentos sem barreiras que possam Ihe segurar. Mulher de dendê, mancha presente que não se esvai, ardente como o óleo-sangue do mundo. Ao comer akará, aprendeu a ser brasa e cuspir a chama daquele com quem teve outro grande encontro: o Alafin de Oyó. É ele uma força tão obstinada quanto Oyá. Orikis contam essa paixão de revoluções, capaz de quebrar grilhões, mudar o passado, se juntar na quarta-feira e fazer tocar daró e alujá.

Sobe o run! Nos ilê axé, Oyá reina sobre os oris por ela apontados. Destino! Pelas mãos dos axoguns e pelos cuidados das ekedjes, obrigações e rituais são cumpridos em seu nome. Missão! Oguês e okutás compõem os seus assentamentos. Das iyabassés, acarajé com folha de louro para atrair prosperidade, além de olelê e ekuru. O povo de santo planta axé e firma os Candomblés durante noites de beleza sem-fim. Dentro dos barracões, Oyá encanta oborós com sua dança de entre-mundos acompanhada pelos alabês. Ao longo do ajerê, carrega tacho na cabeça, exibindo o poder dos seus dedos quentes ao redor da fogueira. Eruexim erguido, orienta os caminhos. Governante dos ciclos, a lyá Mesan Orun! No axexê, a senhora dos nove céus encaminha os ancestrais. Com peregun, abre os seus destinos. Ewé, para-raio, erva-prata. Adaga de igbá. Rituais e macumbas, farturas e cantigas, defumação e alguidar. Awò.

O terreiro ganha a rua para que ela se apresente em cortejos sublimes. Atravessa a religião e se apodera das festas e das manifestações da cultura afro-brasileira, que a evocam e reverenciam. Fio de conta continua tocando ao peito, o som se mantém negro e Oyá vive em outras formas de cultuá-la. Ocupa e transforma diferentes espaços: está nos palcos, nas ruas, nas artes, nos maracatus, nos afoxés, nas danças, nas escolas de samba, na Estação Primeira. Vínculo transcendental de ventres constituídos pelas mãos femininas, que sustentam, articulam e conduzem esses coletivos matriarcais. Herdeiras de Oyá, honram seu legado e seus saberes. Ela protege, sustenta e inspira suas filhas. Mulheres que seguem soprando; se reinventando, resistindo e existindo; amando e guerreando; fazendo batuque e festa… tudo por ela. Tudo com ela! Liderando e tecendo redes, fundando famílias, zelando pelos filhos uma das outras e formando vidas. Sendo Oyá. Para bradar a todos os céus a quem se é grata, pois nutri-la também é se alimentar.

Quando lansā passa, nada fica no lugar. Depois que a Mangueira desfila, nada permanece igual. Todo mundo nos conhece ao longe. Chegou, ela chegou. É tempo de Oyá!

Nessa celebração, já é madrugada de quarta-feira – dia dela, para confirmar. Olhares inundados, peito apertado, o nosso povo em devoção. Vendaval de gente, macumba Verde e Rosa na avenida, cruzando essa pista em busca da manhã. Olhando para frente, miramos a Apoteose. Queremos ver o nascer do sol, uma nova estrela. Entoar de novo aquele brado em sua companhia.

Epahey, minha mãe! Aceite essa Nação que é sua. Aceite esse carnval que é seu. É você, Oyá! É você pela gente!

É Oyá por nós!

Enredo e Pesquisa: Sidnei França, Sthefanye Paz e Felipe Tinoco

Glossário

Acarajé – Bolinho de feijão-fradinho frito no dendê.
Comida ofertada a Oyá.

Akará – Bola de fogo.

Ajerê – Ritual presente em festejos de Xangô, no qual Oyá dança com um tacho com fogo na cabeça. Também é o nome dado ao próprio tacho do ritual.

Alabês – Ogans responsáveis pelos atabaques e toques em rituais do Candomblé.

Alafin – Título do rei de Oyó.

Alujá – Toque da religiosidade afro-brasileira vinculado a Xangô.

Awo – Dentre diferentes definições, é associado aos segredos dos cultos afrorreligiosos.

Axexê – Ritual fúnebre do Candomblé.

Axoguns – Ogans designados para fazer a transposição de energia contida nos elementos sagrados que serão oferecidos nos rituais dos orixás.

Barracões – Espaço no qual são realizados alguns rituais e eventos públicos dos terreiros de Candomblé.

Daró – Também conhecido como adaró ou “quebra-pratos”. Toque dedicado a Oyá, marcado por sua agilidade relacionada aos movimentos intensos dessa yabá.

Èfúùfù líle – Expressão associada aos grandes ventos, vendavais e tempestades vinculados a Oyá. Também conhecido como Efurufu lelé ou Ofurufu lele.

Epahey – Saudação a Oyá.

Ekedjes – Cargo feminino no Candomblé vinculado aos cuidados com os orixás e responsabilidades do terreiro.

Ekuru e Olelê – Comidas feitas de feijão-fradinho, sem fritar, também oferecidas a Oyá em alguns contextos religiosos.

Eruexim – Instrumento ritual feito com rabo de animal, utilizado por Oyá para governar os Eguns, os espíritos dos ancestrais.

Erva-prata – Planta utilizada em rituais com a presença de Oyá.

Ewé – Nome associado a folhas sagradas.

Igbá – Assentamento em que se guardam os elementos ritualísticos de cada orixá.

Ilê axé – Casas do culto de Candomblé.

Irê – Cidade em que Ogum foi rei.

Iyá Mesan Orun – “Mãe dos nove oruns”, titulação recebida por Oyá, e uma das origens associadas ao nome de Iansã, que seria uma corruptela desta expressão.

Lábá-lábá – Em iorubá, uma forma de se referir à borboleta.

Oyá – De acordo com algumas narrativas, a junção dos termos “O” e “ya” teria originado o nome de Oyá, que significaria “ela cortou”.

Oborós – Orixás masculinos.

Oguês – Chifres de búfalo.

Okutás – Pedras consagradas utilizadas nos cultos dos orixás.

Orikis – Canções em iorubá dedicadas aos orixás.

Orun – Mundo espiritual.

Ori – Expressão associada à cabeça de cada pessoa, na qual se guarda o seu conteúdo espiritual, regida pelos orixás.

Oyó – Império governado por Xangô.

Para-raio – Planta vinculada a Oyá e a alguns de seus rituais.

Peregun – Planta usada em rituais com a presença de Oyá, inclusive para dar caminho durante a passagem dos ancestrais.

Rio Níger – Também conhecido como Odo Oyá, é um dos rios mais extensos do continente africano, que corta diferentes países. Associado aos cultos de Oyá. Em algumas narrativas, ela teria virado o próprio rio.

Run – Maior e mais grave atabaque do Candomblé.

Yabás – Orixás femininos.


Tradução do oriki que abre a sinopse

Oyá chegou
Senhora dos ventos
Oyá Ijebé, mulher corajosa que, ao despertar, levantou a espada
Ela brilha como o fogo sob a luz
Ela acende o fogo em um ajerê e o leva na cabeça
Oyá é a única que pode carregar os chifres do búfalo
Ela é uma borboleta
Ela é a dona dos ventos


REFERÊNCIAS

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Dossiê de registro: Maracatu Nação. Brasília: IPHAN, 2014. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/DOSIE_MARACATU_NA%C3%87%C3%830.pdf.

D’OSOGIYAN, Fernando. Oyá. A origem mítica do rio Níger. Ilé Àṣẹ Ọ̀ṣòlúfọ́n-Íwin, 2017. Disponível em: https://ileaxeoxolufaniwin.wordpress.com/2017/08/16/oya-a-origem-mitica-do-rio-niger/.

GABRIEL DA SILVA, Sárally. Itan e encantamentos: oralidade e performance pelos ventos de Iansã. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Letras – Português), Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2024.

GOLDMAN, Marcio. Os tambores dos mortos e os tambores dos vivos: etnografia, antropologia e política em Ilhéus, Bahia. Revista de Antropologia, v. 46, p. 445-476, 2003.

LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. Selo Negro Edições, 2014.

MORAES, Daniela Beny Polito; ALVES, Teodora de Araújo. Os códigos de Oyá: elementos simbólicos da Dança de Iansã no Afoxé Oju Omitim Omorewá. Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1, n. 24, p. 59-71, 2015.

OYEWÙMÍ, Oyèrónké. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

PARIZI, Vicente Galvão. O livro dos Orixás: África e Brasil. Porto Alegre: Editora Fi, 2020.

PAI RODNEY. Eparrei Iansã. Diálogos da Fé, CartaCapital, São Paulo, 2018. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/eparrei-iansa/.

PAI RODNEY. O enterro do pai de santo. Diálogos da Fé, CartaCapital, São Paulo, 2017. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/o-enterro-do-pai-de-santo/.

PEREIRA DA SILVA, Tulani. Entre búfalos e borboletas: dançando reflexões sobre corpo e gênero no cotidiano a partir da figura de Oyá-Iansã. Nganhu, v. 1, n. 1, 2018.

POLI, Ivan da Silva. Antropologia dos orixás: a civilização iorubá a partir de seus mitos, seus orikis e sua diáspora. Rio de Janeiro: Pallas, 2019.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SANTOS, Vagner José Rocha. O acará de Iansã na festa de Santa Bárbara: breves considerações sobre as comidas de uma festa religiosa popular em Salvador. Revista Ingesta, v. 1, n. 2, p. 26-37, 2019.

THEODORO, Helena. Iansã: rainha dos ventos e tempestades. Rio de Janeiro: Pallas, 2010.

VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 2002.

Dragões da Real anuncia saída do intérprete Renê Sobral

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Foto: Divulgação/Dragões da Real

A direção da Dragões da Real anunciou, nesta quarta-feira, a saída do intérprete Renê Sobral. Em comunicado oficial, a escola agradeceu ao cantor pela dedicação, profissionalismo e compromisso ao longo do período em que esteve à frente do carro de som. Nos últimos dias, o cantor esteve envolvido em um problema particular e o próprio artista, em declaração nas redes sociais, falou sobre a saída da agremiação.

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Segundo a nota, a voz e a presença de Renê marcaram momentos importantes da trajetória recente da escola, consolidando uma parceria construída com empenho e identificação junto à comunidade.

“Hoje nos despedimos e agradecemos ao intérprete Renê Sobral por toda dedicação, profissionalismo e compromisso ao longo dessa caminhada. Sua voz, presença e trabalho marcaram momentos importantes da nossa história”, destacou a agremiação.

‘Torto arado – sobre a terra há de viver sempre o mais forte’ é o enredo da Unidos de Vila Isabel para o Carnaval 2027

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Foto: Divulgação/Vila Isabel

​A Unidos de Vila Isabel anunciou o seu enredo para o carnaval de 2027: “Torto arado – sobre a terra há de viver sempre o mais forte.” Desenvolvida pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em parceria com o pesquisador Vinícius Natal, a narrativa propõe uma adaptação carnavalesca do universo desenhado pelo escritor Itamar Vieira Junior em seu premiado romance “Torto arado”, publicado em 2019 pela editora Todavia. Aclamado pelo público e pela crítica, o livro de Vieira Junior venceu os prêmios LeYa, Jabuti e Oceanos, tornando-se um recente fenômeno literário brasileiro, com mais de 1 milhão de cópias vendidas e dezenas de traduções para outros idiomas. A trama contundente, a força das personagens femininas e o cenário onde tudo se desenrola (a Chapada Diamantina, no sertão da Bahia) motivaram os carnavalescos a proporem uma nova tradução da saga – agora, para a escola branca e azul do bairro de Noel Rosa. Haddad explica este movimento:

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​“Este enredo começou a ser pensado em 2023, quando percebemos, a partir da leitura de ‘Torto arado’, que o universo do Jarê, uma religião de matriz africana específica da Chapada Diamantina, nunca tinha sido celebrado na Marquês de Sapucaí. O percurso pelas páginas literárias foi muito transformador, de modo que passamos a nutrir o desejo de desdobrar essa história em enredo. Agora, já bem ambientados na Vila Isabel, eu e Leo percebemos que era o momento ideal. Curiosamente, conhecemos o autor do livro, Itamar Vieira Junior, durante uma cerimônia religiosa conduzida por Glicéria Tupinambá, no Museu Nacional, diante do Manto Tupinambá. Isso ocorreu quando já estávamos desenvolvendo as fantasias e as alegorias do desfile de 2026, em homenagem a Heitor dos Prazeres, terceiro colocado na última disputa. Então entendemos que as coisas estão sempre conectadas, num girar criativo muito impressionante. A empolgação é enorme”, celebra Haddad.

​Para Bora, que é professor do departamento de Ciência da Literatura da UFRJ e trabalha com o livro “Torto arado” em sala de aula, traduzir as páginas literárias em fantasias e alegorias é um desafio estimulante:

​“Obviamente, não será uma tradução literal. A linguagem de um desfile de escola de samba é única, então é um processo de adaptação diferente do que vemos no cinema ou no teatro. Tivemos longas conversas com o Itamar e uma palavra foi bastante repetida: liberdade. Ele, o autor da história, disse: ‘vocês precisam ter liberdade criativa.’ Este exercício da liberdade, que é um dos temas pulsantes do livro, é algo fundamentalmente bonito. A prosa de ‘Torto arado’ é muito alegórica, repleto de metáforas, o que, do ponto de vista criativo, é um prato cheio. Sobre a história, trata-se de uma saga familiar narrada por mulheres e ambientada na Chapada Diamantina, de modo que a família da ficção é, sem dúvidas, um retrato (ou uma fotopintura, como discutimos com Itamar) de muitos Brasis que ainda existem, lutando pela terra em um país tão complexo e violento, no que diz respeito às questões fundiárias. A própria Vila já falou sobre demarcação de terras e reforma agrária. Ao mesmo tempo, trata-se de um território mítico, repleto de encantamentos – por isso o texto do vídeo de apresentação do enredo assume a voz e o olhar de uma encantada, Santa Rita Pescadeira, que, testemunha oculta de tantas lutas, narra as memórias das pessoas e do território. Itamar nos disse, sabiamente: ‘esta é uma história que pode se estender de Norte a Sul do Brasil, onde há pessoas subjugadas, oprimidas, alijadas da terra, sem morada.’ Trata-se de um argumento muito forte e, o mais importante, conectado à memória da Vila”, conclui Bora.

​Vinícius Natal, pesquisador da agremiação, destaca a relação da temática do enredo com a memória da escola, entendendo que a Vila Isabel possui uma tradição de narrativas que podem ser conectadas a “Torto arado”:

​“Certa vez, em conversa com Analimar, filha de Martinho da Vila, perguntamos a ela o que poderia definir o espírito da escola. Ela disse: ‘A Vila é uma escola de luta.’ Isso ficou na nossa cabeça, ecoando, e automaticamente nos levou a pensar na importância dos enredos do período da constituinte, no final dos anos 1980 e início da década de 1990. Mesmo em tempos mais recentes, a Vila cantou as relações do homem com a terra e falou, por exemplo, em ‘acordar o campo para haver justiça’. É uma escola que se mostra preocupada em refletir sobre as violências da estrutura fundiária brasileira e as memórias do pós-abolição. Então contar a história de uma comunidade quilombola a partir do olhar de uma encantada, no contexto do Jarê, é algo que se conecta com essa identidade aguerrida da escola. Não por acaso, o enredo foi lançado no dia 13 de maio, dia de adorar as almas dos ancestrais, Pretas Velhas e Pretos Velhos. Esta data não é comemorada pelos movimentos negros, mas utilizada como ponto de reflexão crítica sobre a necessidade de continuarmos a lutar por direitos, perpetuando uma educação antirracista, entre outras urgências. Pensamento crítico. Um enredo como este contribui para isso”, finaliza o pesquisador.

​Autor de “Torto arado”, Itamar Vieira Junior declarou: ​“Ver ‘Torto arado’ ganhar vida em uma adaptação para o Carnaval, por meio do enredo da Vila Isabel, é algo que me emociona profundamente. O samba tem a capacidade de ampliar vozes, de transformar memória em celebração e resistência. É uma honra ver essa história ocupar a Avenida e encontrar o povo”, destaca o escritor.

​A Unidos de Vila Isabel será a quarta escola a desfilar no domingo de carnaval de 2027, 07 de fevereiro de 2027.

Ancestralidade! Mistério de Dona Júlia sob as lentes de Leandro Vieira no Carnaval 2027 da Imperatriz

boneca imperatriz
Foto: Divulgação/Imperatriz

A Imperatriz Leopoldinense já definiu o enredo para o Carnaval 2027. O carnavalesco Leandro Vieira, mestre em costurar a história popular com a poesia do asfalto, anunciou o enredo “A memória do rei e o sumiço de dona Júlia”. A trama, que parece saída de um conto de realismo fantástico, é baseada em fatos reais e mergulha nas profundezas dos maracatus de Pernambuco.

No centro da narrativa está Dona Júlia, uma calunga, boneca esculpida para guardar os axés e a ancestralidade. Realizada sob encomenda do babalorixá Eudes Chagas para sua coroação como rei, em 1967, a peça carrega o egun (espírito) de Maria Júlia do Nascimento, a lendária Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante.

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O que era um objeto de devoção tornou-se um mistério policial e espiritual quando a boneca desapareceu de um museu na década de 70, após ser entregue para salvaguarda.

“Como enredo, ‘A memória do rei e o sumiço de dona Júlia’ amplia o olhar sobre as tradições dos maracatus de baque virado, revelando-as como espaços para a manutenção de ritos associados à coroação dos reis do Congo e às devoções particulares marcadas por aspectos espirituais, nem sempre tão bem difundidos, como o culto aos eguns e o encantamento dos objetos”, afirma Leandro Vieira.

A história ganha contornos sobrenaturais em seu desfecho. Após 30 anos de paradeiro desconhecido, Dona Júlia reapareceu em 2014. Um estudante a entregou em um terreiro de Olinda com uma justificativa perturbadora: a boneca “assombrava” sua residência.

O reencontro com o Maracatu Porto Rico, seu grupo de origem, ocorreu após uma notícia de telejornal, na qual os integrantes mais antigos reconheceram a imagem da calunga perdida.

Para Vieira, essa “ressurreição” espiritual e o retorno de Dona Júlia às ruas, após sua reiniciação de axé, são o combustível perfeito para a Imperatriz. O enredo reforça a marca do artista na pesquisa minuciosa do cotidiano brasileiro, transformando a memória e o encantamento em espetáculo visual.