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Vigário Geral tem estética criativa, enredo ousado, mas peca na leitura e no canto da comunidade

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A Vigário Geral pisou na Sapucaí com muita criatividade, trazendo um enredo diferente, satírico, baseado em ideia criativa dos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini. Com estética criativa, uso de materiais diferentes, soluções estéticas inovadoras e carros grandiosos, a dupla ousou na ideia, mas pecou um pouco na leitura e no encadeamento da história, que não ficou muito clara para o público. O início, com a caravela e o mar, até dava bom entendimento, mas, a partir da metade do desfile, a história e a proposta não se traduziram nas fantasias de forma clara. Apesar de um bom rendimento do samba, a comunidade cantou pouco. Comissão e casal tiveram pequenas questões que podem não influenciar tanto na nota. A evolução também não foi perfeita, mas o carro de som, comandado por Danilo Cezar, deu show.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa”, desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a Vigário Geral, com o tempo de 55 minutos, encerrou a primeira noite de desfiles da Série Ouro.

COMISSÃO DE FRENTE

À frente dos componentes da Vigário Geral desde 2020, Handerson Big apresentou a comissão “Sátira do Pequeno Invasor”, que trouxe um sujeito de mangas bufantes, suando sob o sol de 40 graus, na vestimenta de um português do período das grandes navegações. Na coreografia de deslocamento, esse invasor se desloca com uma pequena caravela meio destruída e com um globo terrestre que ora ele sobe em cima, ora ele empurra. Na apresentação para o júri, este personagem dança com o globo, onde a Europa ocupa o centro, esticada e inflada por um ego cartográfico. Ele joga o mundo para o alto, os componentes se unem nessa dança e depois colocam o globo na caravela.

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No clímax dessa sátira, os componentes retiram da roupa pequenos mapas-múndi que, na verdade, de um lado têm imagens de monstros mitológicos e, do outro, as letras que formam o nome Vigário Geral. Após se assustarem com as imagens desses seres, eles se juntam e formam o nome da escola no final. A ideia é bem legal, tem muito a ver com o enredo, traz um tom de sátira e irreverência. O que prejudicou um pouco foi o uso da iluminação cênica. Em alguns momentos-chave, a Sapucaí ficava muito escura, como no momento em que os invasores erguiam o globo juntos. Em outro momento, quando os personagens apresentavam os monstros nos mapas, a iluminação muito baixa não destacava a cena, e as imagens não ficavam muito nítidas. No geral, uma ideia legal; a execução poderia ser melhor.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Johny Matos e Isabela Moura, veio com o figurino “A dança das marés”, que representou o fenômeno natural do movimento de sobe e desce do nível do mar, causado pela atração gravitacional da Lua e do Sol, criando um ciclo constante. É um bailado de ondas que, junto ao vento, leva as embarcações rumo ao desconhecido.

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A dupla optou por uma coreografia intensa, com Isabela dando muitos giros e mostrando muita força e talento para sustentar o pavilhão. A única questão a ser analisada foi no primeiro módulo de julgamento, que não é duplo, em que, em dois momentos, nos giros, a bandeira não ficou bem desfraldada, como é recomendado ao casal no julgamento. Mas eles se mantiveram bem nas outras cabines, fazendo inclusive um passinho muito interessante no verso do samba “Deixa o chão tremer”, em que Johny parecia interagir com o público. Do casal, só essa situação a se analisar na primeira apresentação.

HARMONIA

O “pequeno notável”, o capixaba Danilo Cezar, em seu terceiro desfile pela Vigário, mais uma vez mostrou que é nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes. Que voz. Terminou o desfile como começou: com muita potência, afinação, correção e colocando muita expressão na apresentação do samba, pois a obra pedia um pouco de irreverência e picardia. E, com a ajuda das vozes de apoio, ele conseguiu dominar a obra.

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Já a comunidade ficou abaixo no canto. Era fácil notar, em diversas alas, componentes que não cantavam, e, em algumas alas, era difícil achar gente cantando, como na ala “Imaginária Riquezas”. Na ala “Vigarista à vista”, a primeira da escola, os componentes estavam com o rosto tampado com pano, dificultando o canto para o desfilante e a visualização, pelo jurado, de quem estava cantando. E foi assim em diversas alas. O canto ficou devendo.

ENREDO

O enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa” teve como objetivo recontar a história do Brasil a partir da perspectiva dos monstros e seres mitológicos criados pelos colonizadores. Os carnavalescos fizeram desses seres os verdadeiros heróis do país, de forma cômica, sarcástica e crítica.

O primeiro setor apresentou a estética marítima, com caravela híbrida e criaturas fantásticas. Nele, a Vigário Geral mostrou o primeiro encontro do invasor com o desconhecido nas águas do oceano Atlântico.

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Já no segundo setor, a floresta e a invasão europeia dialogaram com o imaginário indígena distorcido. Nele, a escola abordou a entrada de bandeirantes, clérigos, viajantes, naturalistas e artistas no interior verde do Brasil.

Por fim, o último setor ressignificou esses “monstros” como símbolos da cultura brasileira, defendendo que a história de um país também é a história de suas criaturas imaginadas. Nessa última parte, a agremiação retratou a terra: os sertões revelaram-se uma região árida e pouco habitada, prolífera em causos, visagens e assombrações.

Apesar de um enredo ousado, irreverente e com crítica histórica, na Avenida, olhando fantasia por fantasia, havia certa dificuldade de relacionar os setores e de transportar o que era mostrado para a narrativa proposta pelos carnavalescos.

EVOLUÇÃO

A Vigário começou seu desfile com muita energia, no ritmo do samba, com espontaneidade e alegria. A escola manteve o tom de picardia do enredo e se apresentou brincando o carnaval, sem alas coreografadas e sem alas engessadas.

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O único problema foi no segundo módulo de julgamento, quando a escola teve um momento em que o casal se movimentou e a ala de trás não acompanhou, deixando um espaçamento equivalente ao tamanho entre duas torres de som.

Na reta final, a Vigário ainda parou um pouco nos últimos setores para brindar o público com a bateria. Não foi um desfile perfeito no quesito, mas não chegou a ser um problema grave, pois a cabine não era dupla.

SAMBA-ENREDO

O samba foi produzido por Verônica dos Tambores, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Junior Falcão, Flavinho Avelar, Geraldo M. Felício, Camila Lúcio, Gilsinho da Vila, Rogério Máximo, Rafael Gonçalves, Soares do Cavaco, Antônio Neto e Davison Jaime.

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Baseado em um enredo que, mais do que qualquer coisa, é uma sátira, o samba da Vigário tem uma pegada engraçada, lembrando os melhores tempos, por exemplo, da São Clemente, tratando, neste caso, um assunto histórico com uma roupagem leve, com desconstrução, o que resultou em uma obra alegre, para cima. O andamento escolhido pela bateria e pela direção musical ajudou, assim como o rendimento do carro de som, que impulsionou a obra.

Destaque para os dois refrões “Se a canoa não virar…” e “Deixa o chão tremer…”, que eram os momentos em que o samba mais se destacava e a comunidade mais cantava.

FANTASIAS

O conjunto estético desenvolvido por Alex Carvalho e Caio Cidrini foi outro ponto alto do desfile na questão da estética, da criatividade e dos materiais alternativos. A dupla mais uma vez mostrou um trabalho com assinatura própria.

As primeiras alas, em um setor que trata do mar, trouxeram tons de azul mais claro na indumentária. As fantasias “Vigarista à vista”, falando dos portugueses que, para justificar a invasão, criaram um Brasil mitológico; logo depois “Criaturas marinhas”, que representava a vastidão do mar e o desconhecido do que havia nele por parte dos exploradores daquele tempo; e “Assombrações litorâneas”, que tratou do fascínio pelo desconhecido que aportou no litoral brasileiro, no mesmo setor e no mesmo tom de azul, produziram um efeito estético e de colorimetria interessante.

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No segundo setor, houve mais utilização de tons dourados. No último setor, a escola trouxe cores mais vivas ao retratar dimensões da cultura brasileira. Já os tons mais desbotados, como o da ala das baianas “Relatos sertanistas”, trouxeram o que o próprio nome da fantasia indica: anotações, cartas e documentos que permitiram e validaram as descobertas feitas durante as jornadas, funcionando como ferramentas de registro científico, histórico e pessoal.

No final, a literatura de cordel também estava retratada na última ala, em consonância com os tons do último carro.

ALEGORIAS

Assim como nas fantasias, as alegorias tiveram a assinatura dos carnavalescos. Com trabalho estético criativo, bem executado e utilização de materiais diferentes do uso comum, a escola mostrou ter superado o incêndio no pré-carnaval, apresentando três alegorias de muito valor estético.

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O carro abre-alas, primoroso e alto, com o nome “Imponente Brasil Submerso”, trouxe uma ode às assombrações do mar, bioma pelo qual os falsos “descobridores” adentraram o Brasil. Na alegoria, a caravela, símbolo maior da expansão marítima europeia, dialogava com a fauna e a flora marinha, como uma espécie de navio metamorfo que representava o medo do desconhecido. Da lateral, saíam bolas de sabão.

Na segunda alegoria, “Quimérico Nativo”, a escola apresentou uma floresta diferente de tudo que já havia sido visto por aqueles que chegaram à praia: árvores de todos os tamanhos, misturadas com orquídeas, cipós, samambaias, arbustos e ervas. No chão, sempre molhado, raízes e mudas. A segunda alegoria da Vigário Geral retratou as florestas tropicais do Brasil com seus enxames de insetos e répteis.

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A terceira alegoria, “Malassombro Sertanejo”, apresentou a dura vida de quem desbravou o Brasil profundo, resultando em um carro alegórico inspirado nos causos do sertão nordestino. Para tal conceituação, a estética cordelista foi inspirada na obra visual de J. Borges e na obra textual de Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré e Cego Aderaldo.

Na figura central, o Cramulhão, meio monstro, meio humano, fruto da mestiçagem religiosa, sintetizava os temores do destino final dessa viagem no tempo e na alma brasileira. Carros de muita qualidade estética e criativa.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Swing Puro”, de mestre Luygui Silva, com a fantasia “Visagens da mata”, representou as aparições, assombrações, encantamentos ou seres sobrenaturais que povoam as florestas e tanto assustaram quanto fascinaram os povos locais e as expedições estrangeiras.

A rainha Patrícia Souza representou os rituais antropofágicos dos povos originários. Já os passistas da Vigário, com a fantasia “Bicho-fera”, representaram a onça-pintada, animal que causou muito espanto aos portugueses em sua chegada.

A presidente Betinha valorizou o trabalho de sua equipe, que superou o incêndio no barracão da agremiação.

União da Ilha transforma medo em luxo e abre a Série Ouro com espetáculo de contrastes na Sapucaí

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A União da Ilha do Governador desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida. Com o enredo “Viva o Hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola abriu sua apresentação propondo um mergulho no contraste entre o deslumbramento e o temor. 

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Nayana Gottgtroy 47 domestica
Nayana Gottgtroy. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da primeira ala detalharam emoções, expectativas e a responsabilidade de representar, logo no cartão de visitas, a identidade visual da comunidade insulana na disputa por uma vaga no Grupo Especial para 2027.

Inspirado no brilho lunar que corta o Universo, a escola trouxe para a Avenida a imagem de uma população dividida entre o fascínio e o medo diante da passagem de um cometa. De um lado, figuras elegantemente vestidas sob a influência de ares franceses; de outro, figuras do início do século passado, remetendo a um possível colapso atmosférico. O contraste se materializa no diálogo entre luxo e caos, traduzindo a pergunta que intitula a alegoria: “Será que o mensageiro desse caos sou eu?”.

A estética mistura referências da Belle Époque com o Movimento Steampunk. As figuras monstruosas, de visual impactante, foram confeccionadas com sobras de materiais e fantasias de carnavais anteriores, cedidos por colaboradores e escolas coirmãs. A proposta sustentável de Marcus Ferreira não apenas reduz desperdícios, como também reforça a criatividade como marca do fazer carnavalesco, ressignificando o passado para construir o presente.

Estreante, Nayana Gottgtroy, 47, doméstica, fala sobre sua percepção da fantasia que estava vestindo. “Para mim representa a elegância. É a primeira vez que desfilo, então tá sendo uma emoção e uma expectativa fora do normal”, afirmou. Sobre o reaproveitamento de materiais na alegoria, ela foi direta: “Acho muito melhor, reaproveitar é sempre o caminho mais sustentável”. Para Nayana, a responsabilidade de estar no Abre-Alas exige que a primeira impressão seja inesquecível, mesmo com a correria que teve para sua preparação.

Carlos Salcedo
Carlos Salcedo. Fotos: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Componente da escola desde 1997, Carlos Salcedo, 39 anos, técnico de enfermagem, também veste o luxo da composição afrancesada. “A minha fantasia representa a elegância, me sinto lisonjeado e extremamente feliz em vir no abre-alas. Acho uma boa ideia as escolas investirem nisso (uso de materiais recicláveis na produção de fantasias e alegorias), é muito mais sustentável”. Em sintonia com o samba-enredo, ele garante que, se o mundo acabasse ao fechar dos portões, sairia realizado da Avenida.

Carlos ainda destacou o peso emocional de abrir o desfile. “Emocional não tem jeito, a gente sempre fica emocionado, já o físico é a alimentação, beber muita água, praticar atividades físicas e descansar pra gente poder aguentar essa batalha na Avenida”, afirmou. A fala reforça que, por trás do espetáculo visual, há preparo e disciplina para sustentar o impacto que a escola deseja causar logo nos primeiros minutos de apresentação.

Morgan Little 44 vendedora
Morgan Little. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A estrangeira Morgan Little, 44 anos, vendedora, viveu sua primeira experiência no carnaval carioca diretamente no Abre-Alas. “É a minha primeira vez no carnaval do Rio, estou muito animada e mais animada ainda em poder fazer parte desse show. Minha fantasia é bem luxuosa, colorida e repleta de detalhes, parte a parte”. Encantada, ela afirmou não poder estar mais feliz e que quer “aproveitar tudo e ser muito feliz com a União da Ilha na Avenida”, sintetizando o espírito do enredo que celebra o hoje.

Entre o medo simbolizado pelas máscaras de gás e o luxo refletido nos figurinos elegantes, a União da Ilha construiu uma abertura que convida à reflexão sobre o tempo, o agora e o amanhã incerto. O Abre-Alas, com sua mistura insana de Steampunk e Belle Époque, não apenas impactou visualmente, como reafirmou o pertencimento de seus componentes a uma narrativa que transforma incerteza em arte.

 

Técnica e plástica consistentes colocam Colorado do Brás entre os destaques da noite

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Quem estava no Anhembi no último sábado, viu ferver o caldeirão da Colorado do Brás. A escola apresentou um desfile tecnicamente positivo, sustentado principalmente pela plástica impecável e uma forte comissão de frente. Com enredo “A Bruxa Está Solta – Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a agremiação apostou na ressignificação da figura da bruxa como mulher detentora de saberes ancestrais.

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A escola foi a segunda a desfilar e encerrou sua apresentação em 1h02min51seg, dentro do tempo regulamentar e agora briga pelas cabeças.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente abriu os portais do enredo ao representar o Grande Sabbath, ritual que inaugura o universo místico proposto pela Colorado. A encenação foi de fácil leitura e transformou o Anhembi em uma atmosfera de celebração dos saberes ancestrais.

Coreograficamente, a proposta apostou em uma construção mais ritualística, com movimentos que buscavam evocar a ideia de cerimônia e invocação. Além disso, a presença de um caldeirão com fumaça na cena ajudou na narrativa.

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Ao longo das cabines, a apresentação se manteve regular com tempo médio de execução de 2 minutos no chão. O ponto de maior impacto esteve quando Sabbath foi suspenso no tripé, que representava os quatro elementos da natureza. Após a suspensão, o ator encena um ritual em uma performance solo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Brunno Mathias e Jessika Barbosa defenderam o pavilhão em diálogo direto com o enredo, traduzindo em dança o universo místico proposto pela escola.

Leves e visivelmente à vontade na pista, os dois apostaram em uma condução solta, marcada por alegria de quem realmente brinca na pista. Nos refrões, os passinhos laterais surgiram como resposta ao ritmo do samba. Em trechos específicos da letra, como na menção à noite de lua cheia, o casal apontava para o céu, reforçando a conexão entre coreografia e narrativa.

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Jessika, em especial, incorporou gestos que remetiam o ato de enfeitiçar, desenhando movimentos com as mãos que dialogaram com a ideia da bruxa como figura de poder e encantamento. Nas apresentações para os jurados, esse recurso ganhou força quando os dois passaram a executar o gesto em conjunto, como se, simbolicamente, “lançassem um feitiço” sobre as cabines.

HARMONIA

O canto da Colorado do Brás apresentou comportamento irregular ao longo do desfile. Os apagões potencializaram a resposta da arquibancada e dos componentes, sobretudo nos refrões, quando houve aumento evidente de volume e participação coletiva. Nesses momentos, a escola alcançou seus melhores picos de rendimento no quesito.

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Fora dos trechos de apagão, porém, o canto se manteve mais regular, com execução correta, mas sem a mesma força coletiva observada nos refrões.

ENREDO

A proposta de ressignificar a figura da bruxa como símbolo de mulheres detentoras de saberes ancestrais se desenvolveu em uma narrativa que partiu do ritual, atravessou a perseguição histórica e percorreu diferentes culturas até desembocar no presente. Na avenida, as bruxas surgiram representadas sob múltiplas formas: do imaginário popular e cultural, com personagens reconhecíveis e figuras icônicas, até referências a lendas antigas, tradições espirituais e saberes femininos ligados à cura e à ancestralidade.

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Essa amplitude de representações contribuiu para uma leitura clara do enredo ao longo dos setores, facilitando a compreensão do público. O conjunto manteve coerência ao longo da pista, com encadeamento lógico entre os setores e respeito à narrativa apresentada.

EVOLUÇÃO

O andamento do desfile da Colorado do Brás foi, de modo geral, fluido, com as alas avançando de forma correta ao longo da pista. A opção por alas mais engessadas resultou em uma leitura visual mais rígida, porém contribuiu para a manutenção do espaçamento e da organização do conjunto parte da apresentação.

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O principal ponto de atenção no quesito ocorreu na frente do Setor H, quando se abriu um espaço significativo entre o primeiro casal e a ala seguinte. O intervalo chegou a cerca de 12 grades de distância, em frente ao módulo de jurados, exigindo que algumas alas acelerassem o deslocamento para recompor o espaço vazio. Apesar da correção rápida da situação, o episódio pontual pode pesar na avaliação do quesito, já que rompeu momentaneamente a fluidez que vinha sendo mantida até então.

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SAMBA-ENREDO

O samba-enredo funcionou como eixo de sustentação do desfile, alternando momentos de maior explosão coletiva com trechos de menor resposta da escola.

Alguns momentos do samba se mostram mais favoráveis ao canto em massa, como o “Vem ver vai ferver o caldeirão”.

FANTASIAS

As fantasias desempenharam papel central na tradução visual do enredo da Colorado, especialmente por se tratar de uma narrativa que depende fortemente de símbolos. De modo geral, os figurinos se mostraram muito bem acabados, com atenção aos detalhes e forte impacto visual, garantindo leitura clara em grande parte das alas.

É válido destacar também a maquiagem dos destaques que estavam em cima da terceira alegoria “A Convenção das Bruxas”.

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Alguns setores tiveram destaque pela clareza imediata da proposta, enquanto outras alas exigiram maior atenção do público para interpretação, como as alas 09 e 10, que representavam a Bruxa de Blair e Malkin. Outro ponto de atenção foi a transição de cores a partir do segundo setor, quando o desfile passou de tons mais escuros para cores mais vivas de forma relativamente brusca, criando contraste perceptível e alterando o visual do conjunto.

Ainda assim, o alto nível de acabamento e a consistência das fantasias ao longo da pista sustentaram a leitura do enredo e o impacto cênico da escola.

ALEGORIAS

As alegorias funcionaram como marcos visuais da narrativa, estruturando os grandes momentos do enredo: o da perseguição, o dos saberes ancestrais, o da construção da bruxa no imaginário popular e o da libertação final. Cada carro apresentou uma leitura própria.

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O grande destaque entre as alegorias da Colorado do Brás foi o abre-alas, que apresentou a perseguição às bruxas como eixo central da narrativa. O carro utilizou efeitos pirotécnicos em momentos estratégicos, com faíscas semelhantes a sinalizadores e três entradas de fogos de artifício ao longo da apresentação.

Além dos efeitos visuais, o carro apostou em encenação. Atrizes representavam uma prisão, reforçando o tema da perseguição. No trecho do samba que menciona o “grito calado”, as personagens gritaram simultaneamente, criando um momento de impacto nas arquibancadas.

A segunda alegoria das “Curandeiras Indígenas”. O carro se destacou não apenas pela concepção visual, mas também pela movimentação em cima, onde as componentes realizavam coreografias que remetiam a um ritual, dialogando com a ideia de saber ancestral.

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Já a alegoria da “Convenção das Bruxas” apresentou uma mudança perceptível na paleta, com cores mais vibrantes e maior variedade visual. O carro reuniu personagens marcantes do imaginário popular, como Bruxa do 71, Úrsula, Cuca, Glinda, entre outros, além da presença de crianças remetendo à história de João e Maria na tradicional casa de doces da bruxa. A leitura foi imediata para o público, especialmente pela identificação com figuras conhecidas, consolidando o setor mais popular do desfile.

OUTROS DESTAQUES

A bateria Ritmo Responsa, comandada pelo Mestre Acerola de Angola, também interagiu com o público ao longo do desfile. Com coreografias bem executadas e intervenções pontuais, como gritos em momentos específicos do samba, eles contribuíram para elevar a energia da pista em alguns trechos. A bossa do refrão do meio se destacou como um dos pontos em que os componentes mais se soltavam.

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À frente da bateria, Talita Guastelli confirmou na avenida o que já vinha sendo observado nos ensaios. Bailarina de formação, a rainha de bateria impressionou ao desfilar durante toda a apresentação sambando na ponta dos pés, aproximadamente uma hora de desfile sustentando o movimento. A resistência e o domínio técnico chamaram atenção e se consolidaram como um dos destaques individuais.

No rio vermelho da resistência: o abre-alas da Unidos de Padre Miguel anuncia força, ancestralidade e luta por retorno ao Especial

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Abrir um desfile é mais do que iniciar uma apresentação. É definir o tom, a energia e a identidade de toda uma escola. Em 2026, a Unidos de Padre Miguel inicia seu cortejo na Marquês de Sapucaí mergulhando no vermelho simbólico do Rio Potengi para contar a história de “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”.

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O enredo homenageia Clara Camarão, indígena potiguara símbolo de coragem na resistência contra a invasão holandesa no século XVII. A narrativa celebra o protagonismo feminino, a espiritualidade da Jurema e a força ancestral dos povos originários.

O carro abre-alas representa o Rio Potengi tingido de vermelho, urucum e sangue, marcando o nascimento místico de Clara Camarão. Uma imensa escultura da Mãe D’Água domina a alegoria, enquanto o símbolo da escola, o Boi Vermelho, surge metamorfoseado em Pajé, unindo identidade, espiritualidade e tradição. À frente desse “rio vermelho”, a responsabilidade é sentida no corpo.

ANA CRISTINA UPM
Ana Cristina Fonseca, advogada, de 65 anos
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Ana Cristina Fonseca, advogada, de 65 anos, desfila há seis anos na escola e fala com garra sobre abrir o desfile.

“Vai ser contagiante abrir o desfile como a primeira ala. Estou com sangue nos olhos para vencer esse campeonato, porque esse ano a Unidos de Padre Miguel retorna para a Especial. A nossa flechada antes de entrar na Avenida é para espetar os jurados e nos fazer campeões. É uma emoção sem tamanho viver e representar esta escola, tem que cantar e gritar para soltar tudo que está dentro do corpo”, revela a componente.

Celso da Silva psicologo de 65 anos
Celso da Silva, psicólogo, de 65 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Celso da Silva, psicólogo, de 65 anos, está há três anos na escola e destaca o peso simbólico do momento.

“Estou extremamente emocionado. Não imaginei a força e a carga que essa escola está representando na avenida. A nossa flechada antes de pisar na avenida é a demonstração da certeza, do foco e da garantia de que viemos para vencer. O Boi representa a força, a ancestralidade e ele é a vida”, confiante, afirma.

Elizabeth da Silva de 55 anos
Elizabeth da Silva, de 55 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Elizabeth da Silva, de 55 anos, autônoma, vive seu segundo ano na Unidos e se emociona ao falar sobre o significado do abre-alas: “É uma emoção sem fim pertencer à Unidos de Padre Miguel. A nossa flechada é para assumir a Especial em 2027.” Com os olhos cheios de lágrimas, ela resume o sentimento coletivo de quem atravessa o rio vermelho carregando mais que fantasia: “carrega pertencimento”.

William Costa de 53 anos
William Costa, de 53 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

William Costa, de 53 anos, militar, também no segundo ano na escola, enxerga o abre-alas como um marco simbólico. “Não tem coisa melhor que abrir o desfile, participar do abre-alas que tem um significado importante e de potência na história. O Boi Vermelho está no nosso sangue, no nosso coração e é a nossa família”.

Flavia Fernandes de 61 anos
Flávia Fernandes, de 61 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Flávia Fernandes, de 61 anos, gráfica e componente há sete anos, conecta o enredo ao protagonismo feminino exaltado pela escola.

“É maravilhoso ser mulher e representar a nossa história, a força que só nós mulheres temos. O público precisa desfilar para entender a emoção que é representar e viver a Unidos de Padre Miguel e o Boi Vermelho”, analisa.

No primeiro impacto visual da Avenida, a Unidos de Padre Miguel não apenas abre o desfile: ela anuncia resistência, espiritualidade e identidade. Dentro do rio vermelho, entre urucum e ancestralidade, a escola reafirma sua origem, sua fé e seu desejo de vitória. Mais do que um abre-alas, é um chamado. Um sopro sagrado que ecoa da Jurema à Sapucaí.

Ala coreografada da UPM representa vitória feminina em batalha contra holandeses

No Carnaval 2026, a Unidos de Padre Miguel, escola que é reconhecida por colocar mulheres em locais de destaques, levou à Sapucaí o enredo “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, idealizado pelo carnavalesco Lucas Milato, em homenagem à Clara Camarão, mulher indígena responsável por liderar as batalhas contra a invasão holandesa no século XV. 

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A agremiação foi a quinta a desfilar nesta sexta-feira, reafirmando a importância de colocar mulheres em posições de protagonismo. Entre os momentos da história de Clara Camarão, houve a batalha Tejucupapo, em que, com pimenta e água fervendo, as mulheres, lideradas pela homenageada, vencem a tropa holandesa com auxílio de pimenta e água fervente, e é isso que a ala 12 apresenta em sua coreografia. 

Gabriela Coreografada UPM
Gabriela Lima. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A professora Gabriela Lima, 32 anos, está em seu segundo ano desfilando na agremiação e falou sobre a representação do enredo:

“Eu acho que é uma honra a gente poder estar aqui contando essas histórias que não costumam ser contadas nem por meios oficiais. O carnaval tem esse papel também de trazer aqui para a avenida, de mostrar para o Brasil, para o mundo todo essas histórias que muitas vezes não são contadas em outros lugares. Para a gente é uma honra poder estar reverenciando essa personagem, essa mulher forte, guerreira, como todas as mulheres da Unidos de Padre Miguel”. 

“Por ser uma escola que tem um protagonismo feminino também muito grande na liderança, a nossa presidente, que agora é presidente, mas já foi diretora de Carnaval, e são muitas mulheres em cargos de liderança também. Pra gente a Clara Camarão é uma inspiração, assim como as outras mulheres da Unidos de Padre Miguel. É só continuando essa história de mulheres guerreiras, que não começou hoje, vem lá de trás e a gente está podendo reescrever esse protagonismo feminino que sempre fez parte da nossa história”, disse Gabriela. 

Vanessa Coreografa UPM
Vanessa Barbosa. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Uma história construída a mais de uma década, Vanessa Barbosa, de 43 anos, vigilante, desfila na agremiação há 13 anos e falou sobre o processo de preparação física para esse momento:

“Foi árdua, a gente ensaiava de duas a três vezes por semana, fora os ensaios de rua, foi bem complicado, mas a galera conseguiu pegar a coreografia ‘legalzinho’. […] A nossa coreografia é uma guerra, as mulheres estão brigando para manter o lugar delas de origem e os homens são os soldados que estão nos impedindo, vai ser uma batalha mesmo na avenida, e ao meu ver vai ser muito legal e eu acho que a galera também vai gostar”. 

Ana Coreografada UPM
Ana Catarina. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A trancista, Ana Catarina, de 26 anos, está indo para o seu segundo ano desfilando com a agremiação e, para ela, representar a força da mulher em um cenário de batalha, foi o que mais chamou atenção dela: 

“É uma luta contra os homens e, no final, ver que a mulher tem essa força e a gente consegue lutar unidas, isso foi muito emocionante”.

“Eu me sinto muito bem representada e é interessante para mim porque eu não conhecia essa história. É gratificante, emocionante, muito bonito, orgulhosa pela minha escola ter escolhido, estar escolhendo mulheres para vir homenageando nesses últimos anos”, disse Ana sobre a escolha do enredo. 

Gabriel Coreografada UPM
Gabriel Alves. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Gabriel Alves, de 21 anos, repositor, desfila na Unidos de Padre Miguel a 2 anos e também falou sobre o processo de preparo físico:

“A gente já vem se preparando há alguns meses, desde julho, agosto. Todo um físico tem que ser mantido, tem que ter bom cardio, bom preparo, não pode dar bobeira. A academia tem que estar em dia pra aguentar, ainda mais que a gente é ala coreografada. A ala 12 vem representando uma ala coreografada. Exige muita dedicação, um bom respiro, uma boa coordenação, motor, tem que estar tudo em dia”.

“Elas estão vindo de camponesas e a gente está vindo de holandeses e ao longo do desfile a gente vai retratando essa batalha, então temos várias cenas de ação, várias cenas de luta. Representando bem esse momento da passagem e da vitória das meninas contra os holandeses”, concluiu Gabriel.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Vigário Geral no desfile no Carnaval 2026

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Um desfile muito bom da bateria “Swing Puro” da Acadêmicos de Vigário Geral, dirigida por mestre Luygui. Um ritmo possante foi exibido, graças a uma afinação potente e pesada de surdos. O chapéu demasiado elevado dos ritmistas prejudicou a visão pela pista, dando trabalho extra a diretores de bateria prestativos e antenados. Esse fato fez com que muitos ritmistas desfilassem sem a espontaneidade ideal, já que tinham que se preocupar em visualizar as sinalizações da diretoria.

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Na cabeça da bateria “Swing Puro”, uma boa ala de cuícas veio na frente do ritmo. Chocalhos de exímia qualidade tocaram juntos de um naipe de tamborins de virtude musical coletiva impressionante. O belo entrosamento musical entre tamborins e chocalhos foi o maior destaque do belo trabalho envolvendo as peças leves.

Na parte de trás do ritmo da Vigário, uma afinação potente e bastante pesada de surdos foi exibida. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza e precisão. Surdos de terceira de inegável qualidade ficaram responsáveis pelo balanço envolvente. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas bem consistente, que auxiliou no ritmo e em bossas, acentuando as levadas com eficiência. Ajudaram também no ótimo preenchimento dos médios, uma ala contendo taróis sólidos.

Bossas possantes se aproveitavam das nuances melódicas do samba da Vigário para consolidar seu ritmo. Tudo com bastante pressão sonora, por causa da pesada e impactante afinação das marcações. É possível dizer que a criação musical levou em conta um conceito contemporâneo para dar vida aos arranjos, diante da complexidade rítmica de alguns, além da dificuldade de execução elevada. Mesmo difíceis, as execuções em módulos ocorreram sem problemas, graças à qualidade técnica acima da média dos ritmistas.

Uma apresentação muito boa e poderosa da bateria “Swing Puro” da Vigário, dirigida por mestre Luygui. Um ritmo com potência sonora dos surdos foi exibido, tudo com uma criação musical de conceito bem contemporâneo. A “Tropa do Amassa” deu seu recado com categoria, realizando boas apresentações no primeiro e no segundo módulo de julgadores. A exibição na última cabine (dupla) foi fabulosa, arrancando aplausos dos julgadores, evidenciando o grande desfile da bateria da Vigário.

Freddy Ferreira analisa a bateria da União da Ilha no desfile no Carnaval 2026

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Um desfile espetacular da bateria da União da Ilha do Governador, comandada por mestre Marcelo Santos. Um ritmo bem equilibrado, bastante enxuto e muito bem equalizado. A equalização privilegiada de timbres, proporcionada por uma afinação de surdos acima da média, permitiu uma fluência entre os mais diversos naipes da “Baterilha”.

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Na parte da frente do ritmo da tricolor insulana, um bom naipe de cuícas tocou junto de agogôs sublimes, que executaram a convenção pautada pela melodia do samba da Ilha com perfeição. Um naipe de chocalhos tecnicamente acima da média se exibiu interligado a uma ala de tamborins de imensa qualidade musical. O belíssimo casamento rítmico entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto do trabalho irretocável das peças leves.

Na cozinha da “Baterilha”, uma afinação poderosa e potente de surdos foi notada, imprimindo um groove fabuloso ao ritmo insulano. Marcadores de primeira e de segunda foram precisos e seguros. Surdos de terceira deram um balanço bastante envolvente, valorizando o belo trabalho dos graves. Uma ala de repiques bem coesa e técnica tocou junto de caixas de guerra impressionantes, com sua batida rufada clássica ressoando pela Avenida como se fosse uma só. Um espetáculo à parte o naipe uníssono de caixas da União da Ilha.

Bossas bem vinculadas as nuances melódicas da obra da Ilha foram exibidas com perfeição nas cabines. Sempre pautadas pelas variações do samba, mostraram impacto da pressão sonora de surdos, além de uma acentuação privilegiada de um naipe de caixas maravilhoso, ajudando a rechear as camadas de médios com muita propriedade nos arranjos. A boa conversa rítmica do arranjo do final da segunda que descamba no estribilho merece exaltação musical, graças a um movimento simples, mas preciso de surdos que marcavam igual ao coração, conforme pedia o samba.

Uma apresentação grandiosa da historicamente famosa “Baterilha”, dirigida pelo mestre Marcelo Santos. Um ritmo insulano com ótima fluência entre os naipes e com bossas conectadas ao samba foi exibido. Uma boa e enxuta apresentação na primeira cabine iniciou o desfile em alto estilo. Uma apresentação muito boa no segundo módulo, que só não foi superior a exibição fantástica na última cabine. Desfile para a “Baterilha” gabaritar o quesito com louvor.

Visual futurista e bateria segura garantem brilho da Ilha, mas escola enfrenta obstáculos técnicos na evolução

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A União da Ilha do Governador cruzou a Marquês de Sapucaí como a sexta agremiação da primeira noite de desfiles. Com o enredo “Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois!”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola não apenas apresentou um tema; ela propôs um manifesto contra a ansiedade dos novos tempos, buscando no brilho dos astros e na força do subúrbio a justificativa para a celebração imediata. A agremiação entregou um conjunto plástico criativo, coroado por uma comissão de frente teatral e um casal de mestre-sala e porta-bandeira que flutuou em tons de prata.

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Entretanto, se o enredo pregava o “viva o hoje”, o rigor do cronômetro e a organização da pista foram os grandes vilões da jornada. Entre o brilho de uma Rainha de Bateria resiliente e o simbolismo emocionante do encontro entre gerações, a escola deixou pelo caminho pontos preciosos em evolução e harmonia, evidenciados por buracos no cortejo e um canto que, embora correto, não atingiu a explosão necessária para contagiar a avenida em sua totalidade.

COMISSÃO DE FRENTE

A abertura da União da Ilha do Governador foi um mergulho no Rio de Janeiro do início do século passado, sob a execução coreográfica de Junior Scapin. A comissão de frente utilizou o elemento cenográfico “O Observatório da Avenida Central”, inspirado nos extintos coretos da época para narrar um momento histórico em que os olhos da cidade estavam vidrados no céu, em uma moderna Babel tomada pelo frenesi da passagem do cometa mais famoso do universo.

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Diferente de interpretações iniciais do CARNAVALESCO, a performance não tratava de “mensageiros”, mas sim da representação da própria sociedade da época e seus desejos proibidos, retraídos e escondidos. Diante do medo coletivo de um possível fim do mundo naquele dia, esses desejos foram expostos em praça pública através de uma libertação súbita. Na Avenida, os 14 bailarinos iniciaram a apresentação com passos marcantes e dinâmicos em elegantes figurinos dourados, remetendo à arquitetura eclética e à sofisticação daquele período.

O elemento central da narrativa é o diário sendo aberto para contar segredos. A encenação dos três bailarinos em roupas íntimas, portanto, simboliza a exposição desses segredos sexuais e a queda das máscaras sociais diante da efemeridade da vida. O ápice da apresentação foram faíscas brilhantes disparadas do elemento cenográfico e um foguete que subiu ao céu, celebrando essa catarse coletiva sob o rastro do cometa.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, João Oliveira e Duda Martins, surgiu blindado por um figurino inteiramente prateado, evocando a luz fria, porém intensa, dos cometas. O bailado foi uma lição de etiqueta carnavalesca. João Oliveira executou um cortejo tradicional, em que cada giro servia como escudo protetor para o pavilhão.

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Duda Martins, com uma postura altiva e segura, demonstrou controle técnico. Seus giros, potentes e precisos, não permitiram que o pavilhão enrolasse em nenhum momento, mantendo a bandeira desfraldada. A conexão visual entre os dois foi o ponto alto, revelando uma sintonia lapidada.

HARMONIA E SAMBA

O samba-enredo foi conduzido com garra pelo intérprete Tem-Tem Jr., que encontrou na bateria do mestre Marcelo Santos o suporte ideal. A bateria, aliás, foi o relógio mais preciso da escola, com um trabalho consistente e bossas que respeitavam a melodia, dando o tom da resistência.

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No entanto, a harmonia vocal da escola apresentou um comportamento binário. Enquanto algumas alas da comunidade sustentavam o canto com vigor, percebeu-se que, em outras, houve um silêncio que contrastava com a potência da obra. Faltou aquela explosão de canto uníssona, necessária para elevar a harmonia ao patamar de nota máxima absoluta, embora a qualidade musical da ala de intérpretes tenha sido inquestionável.

EVOLUÇÃO

O quesito evolução foi o calcanhar de Aquiles da agremiação. O início fluido e empolgante deu lugar a certa desorganização conforme a escola avançava.

Próximo ao terceiro módulo de julgamento, as alas perderam o espaçamento ideal, criando um efeito visual de aglomeração em alguns pontos e rarefação em outros.

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O erro mais grave ocorreu diante do segundo módulo, onde um buraco se abriu à frente da segunda alegoria, comprometendo a continuidade visual do desfile. O excesso de pessoas de apoio em determinados setores também prejudicou a estética da evolução, tornando o passo da escola ora rígido, ora apressado para cumprir o cronômetro.

FANTASIAS E ALEGORIAS

O abre-alas, em azul profundo com detalhes dourados, trouxe uma volumetria impressionante, embora um problema estrutural na parte superior, que apresentava um aspecto de “afundamento”, tenha gerado preocupação técnica.

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O segundo carro foi uma celebração à opulência, com cores claras e acabamento impecável, servindo de palco para destaques luxuosos. Já a terceira alegoria rompeu com a tradição ao mergulhar em uma paleta de cores neon e prata, desenhando um futuro lúdico e criativo. Nas alas, a utilização de cores primárias e o uso de esplendores com grande volumetria garantiram um efeito de mar de fantasias.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Gracyanne Barbosa deu uma aula de profissionalismo. Mesmo calçando tênis devido a uma ruptura de tendão, sua presença foi magnética. O carisma e a técnica de samba no pé compensaram a ausência do salto alto, provando que a realeza está na postura, e não no calçado.

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Por fim, a última ala da escola entregou o golpe de mestre emocional: a união entre as crianças da escola e a Velha Guarda. Ver os guardiões da memória caminhando lado a lado com a promessa do futuro foi a materialização perfeita do enredo. A Ilha mostrou que, embora o relógio da avenida possa ser cruel, a alma da comunidade é atemporal.

Entre o medo e o encanto: a Ala 19 da Unidos de Padre Miguel leva o sobrenatural à Avenida

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Nem só de vermelho e branco se constrói um desfile. Em meio às cores que definem a identidade da Unidos de Padre Miguel, uma ala rompe o padrão cromático e provoca impacto imediato na Sapucaí.

A Ala 19, “O Gritador”, surge no setor do Encantamento como um ponto de tensão na narrativa de “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”. Com a fantasia em preto e branco, caveira no topo do estandarte e estética sombria, a ala representa uma entidade do folclore nordestino: um espírito que grita na noite e habita o limiar entre a vida e a morte. É Carnaval. É festa. Mas também é memória, respeito e espiritualidade.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A presença da ala dialoga com o período retratado no enredo, a invasão holandesa e o contexto de guerra que marcou a história de Clara Camarão. O brilho não apaga o luto. O espetáculo não esquece as perdas.

José Feital, de 65 anos, aposentado e há 14 anos na escola, descreve o impacto já na concentração. “Foi inusitado chegar na concentração com essa fantasia. As crianças ficam assustadas e encantadas ao mesmo tempo. Tirei foto com o público, mas é importante explicar que estamos representando uma lenda e que isso faz parte do enredo da Unidos de Padre Miguel, que foi chefiado por uma líder guerreira. É preciso ter muita coragem para vestir esse manto, porque precisamos representar com orgulho. Na época da invasão dos holandeses houve muita morte, e estamos aqui representando essas perdas. Vamos brilhar e fazer acontecer a vitória da escola”.

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José Feital. Foto: Juliane Barbosa

Luciana Santana, 42 anos, vive sua estreia na escola e sente o peso simbólico da fantasia. “As pessoas ficam assustadas com a fantasia, mas encantadas ao mesmo tempo. Desfilar na avenida com toda essa montagem é uma emoção.”

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Luciana Santana. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Pamela Reis, 43 anos, autônoma e há dois anos na Unidos, destacou a curiosidade do público diante da quebra estética. “A reação é engraçada. As pessoas perguntam qual é a escola, porque foge das cores tradicionais. A gente explica a história e elas gostam demais. Não precisa de preparação psicológica para vestir essa fantasia. E hoje ainda é sexta-feira 13, as caveirinhas vêm aí para fazer sucesso na avenida”.

Pamela UPM
Pâmela Reis. Foto: Juliane Barbosa

Já Ewerton da Silveira, 50 anos, há 12 anos na escola, chama atenção para o impacto visual e físico da ala. “A coisa mais luxuosa é a reação das pessoas. Ninguém acredita no que está vendo, é a maior alegria. Para alguns exige preparação física para sustentar a fantasia, o estandarte da caveira e atravessar a avenida”.

Ewerton UPM
Ewerton da Silveira. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O contraste que fortalece o enredo, a Ala 19 quebra o vermelho dominante e mergulha o público em uma atmosfera de respeito ao sobrenatural. O preto e branco simboliza o limiar entre vida e morte, presença e ausência, medo e fascínio.

No Carnaval, onde a alegria costuma ser a protagonista, “O Gritador” lembra que a história também é feita de dor, resistência e memória. A guerra, o sangue derramado e as perdas fazem parte da construção do povo que hoje celebra sua identidade.

Ao destoar das cores da escola, a ala não enfraquece a narrativa, e sim aprofunda.

Entre caveiras e gritos simbólicos, a Unidos de Padre Miguel mostra que o Carnaval também pode ser silêncio, sombra e reverência. Porque celebrar a ancestralidade é, acima de tudo, não esquecer. E na Avenida, até o medo pode virar encanto.

Ala “A Voz do Morro é de Criança”, da Unidos de Bangu, ecoa um grito de resistência e fé nas novas gerações pela Sapucaí

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Quarta escola a desfilar na Sapucaí na noite de abertura da Série Ouro, na sexta-feira, na Sapucaí, a Unidos de Bangu apostou na força das novas gerações para ecoar a mensagem de um dos maiores hinos da música popular brasileira. A ala infantil número 08, intitulada “A Voz do Morro é de Criança”, colocou pequenos sambistas para cantar “Zé do Caroço”, canção mais emblemática de Leci Brandão, homenageada pelo enredo.

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ALA DAS CRIANCAS DA UNIDOS DE BANGU
Ala das crianças da Unidos de Bangu
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Com fantasias que remetem ao serviço de alto-falante do Morro do Pau da Bandeira, a Vermelha e Branca transformou as crianças em porta-vozes de um legado que atravessa gerações, provando que, quando o morro fala, o futuro escuta.

A ideia da ala infantil surgiu para simbolizar o contraste entre a letra forte e a política da música com a inocência das crianças que a interpretam. Para Maria Valma, de 70 anos, coordenadora da ala, ver os pequenos entoando um hino de resistência na avenida é motivo de emoção e responsabilidade.

“É uma grande felicidade para nós, pois assim instigamos um entusiasmo neles, para que eles cresçam e desenvolvam o desejo de se engajar nas pautas que acreditam”, acredita.

Ela também falou sobre como conseguiu transmitir a mensagem de mobilização comunitária a uma geração tão conectada às telas.

“Eu acho que, apesar de elas viverem sob telas, as nossas crianças já estão entendendo a mensagem que estamos passando de forma clara. É muito importante esse desfile para elas nesse quesito. E o objetivo é que elas continuem aprendendo e se posicionando pelo que acreditam”, pontua Maria.

O megafone como a arma mais poderosa

Na concentração, as crianças falaram com brilho nos olhos sobre a responsabilidade de representar a escola e a homenageada, e deixaram a emoção tomar conta de si, da forma mais genuína.

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Maria Eduarda, de 12 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Maria Eduarda, de 12 anos, moradora de Bangu e desfilando pela primeira vez na escola, contou ao CARNAVALESCO o que gostaria de gritar em um megafone para todo mundo ouvir.

“Eu falaria que a escola veio muito bonita, muito arrumada, com tudo muito organizado. Vamos receber a nossa Leci Brandão como ela merece, com a nossa música e o nosso enredo maravilhoso. Que a gente consiga, este ano, aumentar a nossa escola”, conta.

CRIANCAS BANGU
Daniele Coelho, 14 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Daniele Coelho, de 14 anos, compartilhou a emoção do momento que está vivendo, provando que criar sonhos nas crianças é transformador.

“Nossa fantasia vem representando o Morro da Mangueira. Fiquei muito feliz de estar participando desse dia. A minha primeira grande experiência de vida. Quero lutar para que eu e todos os jovens possam viver momentos históricos como esse também. Que todos curtam bastante o Carnaval!”.

ISADORA TERESA
Isadora Tereza, de 13 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Isadora Tereza, de 13 anos, também compartilhou a expectativa da estreia na avenida.

“Estou muito animada e muito ansiosa para ver tudo o que vai acontecer no meu primeiro desfile na Bangu em homenagem à Leci, que conheci pela escola”, contou ela, provando que a missão da escola também é levar cultura e conhecimento a uma nova geração.

GABRIELA VITORIA
Gabriela Vitória de Oliveira, 10 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já Gabriela Vitória de Oliveira, 10 anos, se emocionou ao falar da estreia e deixou uma linda mensagem com reflexão, bem madura para a sua idade.

“Eu diria para todos curtirem bastante a vida, porque ela é curta. Enquanto eu puder estar vivendo, eu vou curtir mesmo momentos como hoje. Estou até arrepiada. É a primeira vez. Faltam alguns minutos para começar e eu espero que a Unidos de Bangu ganhe”, afirma.

AS AMIGAS CAMILE VITORIA
As amigas Camile Vitoria, Daniele Chaves e Maria Luiza
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Camile Vitória, 14 anos, que também desfila pela primeira vez e sonha em seguir carreira no Carnaval, foi direta e expressou apenas um desejo: “ É Unidos de Bangu. É sobre isso. Somos unidos até morrer. Estamos aqui para ver nossa escola crescer”.

Daniele Chaves, 11 anos, e Maria Luísa, 12 anos, moradora de Padre Miguel, que já desfilou na Estrelinha da Mocidade e agora integra a ala da Bangu, concordam com a amiga e em tom de alegria e divertimento, gritam em tom de torcida: “Para cima, Bangu!”.

Entre megafones cenográficos e vozes ainda em formação, a ala 08 mostra que a resistência também pode ser cantada com pureza.