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A ala “Brasil Devorador”, da Vigário Geral, transforma o monstro do desconhecido em potência na Sapucaí

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Última escola a entrar na avenida no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral levou à Marquês de Sapucaí a ala 18, “Brasil Devorador”, tradicional ala de amigos da escola e responsável pelo fechamento conceitual do enredo.
A ala materializou a ideia central de que o olhar colonial transformou o Brasil em “monstro” para justificar invasões e violências, e o país respondeu devorando culturas, misturando referências e criando algo novo. O figurino traz uma bandeira do Brasil estilizada com a frase “O que nos faz Brasil é nossa alma devoradora”. Aqui, o “monstro” deixa de ser ameaça e vira potência criativa.
O carnavalesco Vitor Vasale, do Espírito Santo, acompanhou o amigo Giovanni Lima, professor universitário de Uberlândia, que estava pela primeira vez no Rio. Vitor comentou o que, para ele, diferencia o Brasil quando o assunto é cultura popular.

 

 

Vitor e Geovane Acari
Vitor e Geovane. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Eu acho que o caldeirão cultural que o Brasil é contribui muito para essa característica nossa. Então, assim, essa mistura de povos que se dá por esse processo de colonização e que se reinventa e se ressignifica o tempo todo contribui para a gente ser essa nação tão diferente”.
“E tem uma perspectiva antropofágica. Porque chega o processo de colonização bastante violento com quem está aqui, mas também introduz pessoas a partir de processos de violência pela escravização. E aí essas pessoas, a partir dos seus próprios repertórios e também resgatando aquilo que a própria terra dá, criam uma noção de território que é muito bonito e talvez seja uma das mais bonitas do mundo, sabe? Um povo que acolhe a diferença. A gente vive um monte de tensões e de polarizações, mas acho que, em suma, a gente acolhe. Acolhe a diferença”, completou Geovane.
Vitor ainda ressaltou o papel do carnaval nesse processo.
“Eu acho que o Rio de Janeiro e a própria escola de samba e o desfile de escola de samba são uma aula sobre isso, do quanto que a negritude conseguiu fazer, através da resistência, essas marcas de um povo. O carnaval hoje é a vitrine cultural do Brasil, e nada mais nada menos é a marca de um povo”.
Geovane ampliou a leitura para além da negritude: “E a Vigário Geral não está falando nem só da negritude. Ela fala dos indígenas, dos povos originários, e pensar como isso se construiu. E é uma revisão, não é nem uma visão. E estamos felizes que é revisão. Eu acho que a gente está contando a história, porque no processo de colonização a gente importou muitas histórias que não eram nossas, e o carnaval conta o que é nosso. Tem uma noção de revisão histórica muito interessante”.
Sobre a frase “O que nos faz Brasil é a nossa alma devoradora”, ambos concordaram que ela faz senrtido: “Com certeza. Totalmente”.
“Eu acho esse ‘devorador’ uma proposição metodológica, porque o processo dos 1500 imputa pra gente tudo que não é nosso e a gente mastiga isso e, a partir dessa mastigação, devolve e cria esse caldeirão de culturas que o Vitor disse. Então a gente primeiro come, e o que come vira o que a gente está mostrando, o que faz todo sentido o Brasil devorador. Os povos afro que chegaram ao Brasil já tinham isso na cultura deles, na África. Quando você conquistava por meio da guerra ou pelo que fosse, tinha essa característica de você se apropriar também daquilo que você não eliminava, você agregava à sua cultura. E foi muito isso que aconteceu no Brasil. Agregou e fez disso outra coisa gigantesca, brilhante e maior. E o carnaval, como arte contemporânea mesmo, no sentido do pensamento elaborado, é pegar esse processo de violência e dizer: ‘toma aqui, lidem com isso’, aprofundou Geovane.
A nutricionista Gabriela Flauzido, 32 anos, também se reconheceu na proposta do enredo.
Gabriela
Gabriela Flauzido. Foto: CARNAVALESCO
“É sobre como o de fora vê a gente realmente como monstros ou coisas muito diferentes. Assim, o que é diferente é tratado como ruim. Precisamos reinventar essa ideia pra poder mostrar que, às vezes, o que é visto como ruim, na verdade, é o que faz a gente ser o que a gente é”.
Para ela, o carnaval é o maior retrato dessa transformação: “O carnaval representa muita coisa sobre o retrato do Brasil. Não é só a dor, mas tudo. O espelho do Brasil é o que a gente representa nessa festa. A forma como conseguimos fazer com que toda a dor, a desigualdade, as coisas que podem parecer ruins, realmente reinventamos e colocamos isso na festa. É tanta coisa, por exemplo, as escolas que falam sobre os indígenas, sobre toda a nossa história, que é um passado triste, que a gente reinventa numa festa que é alegria”.
A designer de moda e moradora do Maracanã, Hannah Vaz, 35 anos, enxergou essa “alma devoradora” em diversos aspectos da nossa cultura.
Hannah Vaz
Hannah Vaz. Fotos: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Tudo que cai na mão do brasileiro a gente reinventa. Eu trabalho com gastronomia, a gente vê isso, por exemplo, com comida. A gente frita sushi. No Brasil, para tudo a gente dá o nosso jeitinho, dá a nossa cara e fica ainda melhor”.
Sobre o que diferencia o Brasil no campo popular, ela analisou: “Eu acho que a gente conseguiu fazer uma união, apesar de colônia. Viemos puxando um pouquinho de lá, um pouquinho de cá, e a gente conseguiu transformar em algo realmente nosso, não uma cópia de outras coisas. Conseguimos ressignificar todas as culturas que vieram pra gente. E agora a gente tem algo que é genuinamente brasileiro. No momento atual é mais do que essencial a gente mostrar o quanto que a gente tem orgulho de ser brasileiro, né? Porque tantas coisas a gente tem visto aí que têm acontecido e têm dado uma manchada no nosso nome, mas a gente não pode deixar a peteca cair, não. Aqui é Brasil, como diz muito por aí, aqui é Brasil”.
O professor e parceiro criativo do carnavalesco Caio Cidrini, Guilherme Chalo, de 33 anos, participou da escrita da sinopse do enredo e se sente diretamente representado por ele.
“Foi bem interessante esse processo de repensar o país através dessa ideia do monstro, essa ideia de alguma coisa que a gente não conhece, mas é fundamental para a nossa formação e para a nossa história. Acho que o enredo e o desfile vão representar bastante essa ideia de repensar através dessas estranhezas, dessas coisas que alguns não conseguem entender, compreender, se conectar. O enredo ai trazer essa geografia de forma bem interessante. A cultura popular tem essa dimensão de mistura, mas tem essa dimensão também de reinvenção do nosso povo através disso que o enredo fala, disso que o enredo se propõe a refletir e pensar através da mistura. O samba fala de uma espécie de miscigenação com a coroa, o cocar e a pele preta. Acho que a cultura popular tem um pouco disso. Ela é uma espécie de síntese violenta, difusa, estranha, mas super fundamental pra gente pensar esse Brasil popular, com gente que se critica, que se pensa, que se faz pensar. A escola de samba tem esse papel também, isso é importante”, ele analisou de forma minuciosa.
Guilherme Chal
Guilherme Chalo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Na Sapucaí, a Ala 18 encerra o desfile com a bandeira erguida no peito e uma afirmação: o Brasil que foi chamado de “monstro” é, na verdade, criador.

Quando nasce um monstro? Vigário Geral transforma o medo em potência na Sapucaí

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Quando nasce um monstro? A pergunta ecoou na Marquês de Sapucaí na primeira noite de desfiles da Série Ouro, quando a Acadêmicos de Vigário Geral foi a sétima escola a atravessar a avenida com o enredo “Brasil Incógnito – O Que os Seus Olhos Não Veem, a Minha Imaginação Reinventa”.

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Assinado pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, o projeto propõe uma revisão crítica do imaginário colonial ao transformar o “bestiário” descrito pelos europeus em símbolo de resistência e reinvenção histórica.

A ideia é simples e provocadora: aquilo que foi chamado de monstruoso passa a ocupar o centro da narrativa. O medo, antes instrumento de dominação, torna-se potência criativa. Entre componentes de diferentes alas, a reflexão ganhou corpo e voz.

Professor e estreante na escola Vinicius Moraes 35 anos
Professor e estreante na escola, Vinícius Moraes, 35 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Professor e estreante na escola, Vinícius Moraes, 35 anos, entende a monstruosidade como construção social: “É muito relativo. O que é monstro pode ser para uns e para outros não ser. É algo que depende do ponto de vista. O próprio enredo vem dizer que é tudo uma construção social”.

Para ele, o medo nasce do desconhecimento e do preconceito: “O medo tem uma coisa de desconhecimento, de preconceito, e isso pode ser interpretado como uma ameaça, como algo ruim”, disse.

Ao comentar como o Brasil foi historicamente descrito como selvagem ou monstruoso, Vinícius apontou interesses de poder por trás dessa narrativa.

“Havia todo um interesse em pintar o Brasil dessa maneira. Era com o intuito de deturpar, converter e retirar a imagem do Brasil. Existe um interesse de poder nesse sentido”, afirmou.

O professor também questiona a ideia de padrão: “Alguém estabelece o padrão. Se você não está dentro dele, dizem que aquilo é errado ou complicado, e isso começa a assustar”, disse. Para o professor, a inversão proposta pelo enredo dialoga com um novo olhar sobre a história do país: “Nos últimos anos temos visto esse novo olhar sobre a história do Brasil. Monstros nem sempre são como foram pintados”, concluiu.

O produtor cultural Mike Vieira de 34 anos
o produtor cultural Mike Vieira, de 34 anos
FOTO; Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Também estreante na agremiação, o produtor cultural Mike Vieira, de 34 anos, reforçou que o termo pode carregar sentidos opostos. “Quando você chama o outro de monstro é muito mais sobre a sua percepção do que sobre o que o outro de fato é. Pode ser elogio ou algo negativo. Quando aquilo é estranho para nós, o primeiro sentimento é medo, até que se conheça de fato”, disse.

Ao falar sobre a mistura cultural brasileira, frequentemente vista como ameaça ao longo da história, Mike defendeu a força dessa identidade plural: “Somos um povo tão multicultural que o resto do mundo tem um pouco de medo, porque sabe que nunca vai chegar aos nossos pés culturalmente”.

Ele acredita que o carnaval responde ao medo com criatividade e superação. “O carnaval é construção coletiva, luta e superação. Existe sempre o medo de que algo dê errado, mas no final dá tudo certo”, encerrou.

Já Hélida vê na proposta da escola um gesto de reeducação histórica: “Fomos educados a ver a história do nosso país de uma forma. Quando artistas mudam esse ponto de vista e contam a história não pelo olhar do colonizador, mas pelo lado de quem sofreu a invasão, mostram um novo olhar que não estamos acostumados, porque aprendemos de outra maneira”.

Sara Etienne 43 anos
Sara Etienne, 43 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Desfilante que retorna à escola após mais de três décadas, Sara Etienne, 43 anos, desfilou pela primeira vez na ala infantil, em 1992. Para ela, o termo “monstro” também oscila entre o medo e a admiração.

“Chamam de monstro quando consideram alguém muito feio ou assustador, mas também quando a pessoa é muito importante na música ou no teatro, por exemplo. É alguém grande, imenso”, afirmou.

Na Avenida, a Vigário Geral levou à cena a pergunta que atravessa séculos: quem define o que é monstruoso? Ao devorar simbolicamente o olhar colonial e reinventar suas próprias imagens, a escola transforma o medo em narrativa, a diferença em potência e o monstro em espelho.

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Guardiãs que giram a história: baianas da Vigário Geral transformam memória em resistência na Sapucaí

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A cada giro de saia, a ala da baianas da Acadêmicos de Vigário Geral transformou a Marquês de Sapucaí em um grande livro aberto. Batizada de “Relatos Sertanistas – Pergaminhos: as histórias que giram”, as baianas representaram cartas e registros oficiais que narram a história do Brasil, mas também evocou aquilo que nunca coube nos documentos oficiais: a memória viva da cultura afro-brasileira, transmitida pelos corpos, pelas famílias e pela oralidade.

Inserida no enredo “Brasil Incógnito – O Que os Seus Olhos Não Veem, a Minha Imaginação Reinventa”, desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a ala reforçou a proposta da escola de revisar criticamente o imaginário colonial.

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MARIA INES
Maria Inês Ramos. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ao transformar o “bestiário” da colonização em símbolo de resistência, a Vigário Geral, sétima a desfilar na primeira noite de desfiles da Série Ouro, inverteu a lógica do colonizador e celebrou a identidade brasileira sob a ótica da reinvenção e da antropofagia cultural.

Com dez anos na escola, a arquiteta Maria Inês Ramos Silva, de 66 anos, definiu a experiência de vestir a fantasia como um ato de reverência aos ancestrais.

“Eu sinto que estamos representando os nossos ancestrais. A nossa cultura afro-brasileira nasceu conosco. O samba nasceu conosco. É uma cultura que, por mais que tentassem, não conseguiram apagar. Nós estamos aqui representando exatamente isso”, afirmou.

Para ela, ser baiana é assumir o papel de guardiã da memória e da ética do samba. “A memória do samba é o respeito. E o respeito que está faltando muito hoje em dia. Precisamos reaprender a respeitar principalmente os mais velhos, que estão sendo tidos como descartáveis. Se a gente não aprende com os mais velhos, não aprende com ninguém”, disse. 

Ao definir o que representa ocupar aquele posto, resumiu: “Representa a alegria de viver. Somos guardiãs da memória da escola”, concluiu.

MARIA NAZARE
Maria Nazaré. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A médica Maria Nazaré, de 69 anos, e irmã de Maria Inês, também há cerca de uma década na ala das baianas, descreveu a emoção de dar continuidade a uma linhagem que considera fundamental para a identidade das escolas de samba.

“É uma emoção incrível, porque estamos dando continuidade à tradição de uma ala que está nas raízes da escola. Somos as mães do samba. É a maternidade de um filho que você não pariu. É uma honra fazer parte da história de baianas famosas como Dona Neuma e de tantas outras que seguem atuando”, afirmou.

Ela relembrou que o samba é herança familiar e atravessa gerações. “Minha mãe nos levava para o Carnaval muito pequenas. Não lembramos de um único ano da nossa infância em que não estivéssemos fantasiadas e dançando com ela. Quinze dias antes de um Carnaval, ela faleceu, mas pediu que mantivéssemos a tradição. E nós dançamos em homenagem a ela”, disse.

Para Maria Nazaré, desfilar de baiana tornou-se uma escolha definitiva. “Passei a vida em outras alas, mas há cerca de dez anos desfilo de baiana e não quero outra vida. É tradição, é história, são nossos antepassados e as nossas descendentes que continuarão”, concluiu.

LETICIA MARTINS
Letícia Martins. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Representando uma geração mais jovem da ala, a pedagoga Letícia Martins, de 39 anos e há três anos na escola, relatou a força simbólica que sente ao entrar na avenida. “Eu sinto a ancestralidade. É como se a própria história do Carnaval estivesse sendo contada ali, através da fantasia e da ala. É uma sensação muito forte de conexão”, afirmou.

Primeira integrante de sua família a cruzar a Sapucaí, Letícia enxerga na ala das baianas um compromisso com a continuidade. “Representa a preservação da história do samba. É manter viva essa tradição tão importante”, disse.

JUCIARA DA CONCEICAO
Juciara da Conceição. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Quem também destacou o sentido ritualístico do movimento das saias rodadas, foi Juciara da Conceição, de 61 anos. Ela descreveu a sensação de fazer parte de um segmento tão importante da escola: “Eu sinto que levo o poder do movimento. Quando a gente gira, aquela saia enorme cria um redemoinho que parece limpar o caminho para a escola passar. É como se eu estivesse carregando o axé e uma energia de cura. Cada giro é um presente de alegria para quem está na arquibancada”, afirmou.

Ela também ressaltou que preservar a memória do samba passa pelo cotidiano da comunidade. “Faço questão de preservar a memória do acolhimento no barracão. O samba não é só o brilho da avenida; é o café compartilhado, é o cuidado de uma componente com a outra enquanto costuramos os adereços. A escola é uma rede de apoio onde ninguém fica para trás”, disse.

A baiana contou ainda que o samba chegou como processo de transformação pessoal. “O samba entrou na minha vida como cura e redescoberta na maturidade. Não nasci em berço de samba, mas o samba me adotou quando eu mais precisei de alegria”, afirmou.

Ao refletir sobre o papel da ala  dentro da hierarquia do desfile, foi categórica: “Ser baiana representa a soberania feminina. Mesmo que não sejamos o foco das câmeras como a rainha de bateria, somos o alicerce. Sem a ala das baianas, a escola nem pode competir. É orgulho de ser o fundamento da festa”, concluiu.

Ala “A Fera que o Invasor Temia”, da Vigário Geral, traz a garra e o protagonismo da onça para os passistas

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Última escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral veio com a ala das passistas inspirada na onça, animal que descrito com temor pelos primeiros colonizadores, mas que no enredo ganha novos significados: resistência, feminilidade, poder ancestral e garra.

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Entre as integrantes está a francesa Anahí Renoso, de 34 anos, que mora no Brasil há quatro anos, desfila pela Grande Rio e saiu pela primeira vez na Vigário Geral. Ao falar sobre representar a onça pintada, ela destacou a força do animal.

“É muito bom, porque nas lendas amazônicas a onça sempre aparece com essa característica de feminilidade, de sensualidade, de poder da floresta e de toda a parte mais religiosa dos caboclos. Tudo está encarnado dentro desse animal e acho muito bom porque também bate muito com a minha personalidade. Eu devo devorar a avenida mesmo, com garra para o pavilhão. Para mim, como gringa, é um estudo da cultura, além de ser um desfile. A onça na avenida mostra a resistência dentro do samba também e a garra de uma escola para ganhar o carnaval”, comenta a francesa.

As passistas Anahi e Alicia francesas
As passistas Anahí e Alícia, francesas
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Anahí também relembrou o enredo da Grande Rio que homenageou a onça.

“Eu já me sinto muito familiarizada com a onça, porque eu também vim de onça dourada no ano da Grande Rio. E esse ano da onça foi muito bom na escola, porque mostrou essa garra da escola também na avenida. Então eu gosto de ser onça. Parece que em cada escola que desfile tem uma onça sempre”.

Ao lado dela, a conterrânea Alícia Rodrigues, de 24 anos, desfilou pela primeira vez na Vigário. Com planos de morar no Brasil e participação confirmada no Carnaval de Recife com o Maracatu, ela celebrou a energia da ala.

“Eu acho que vai ser muito lindo lá na Avenida. A gente vai quebrar tudo com o samba no pé da ala da comunidade. A onça é um animal muito misterioso, e ela também tem uma energia bem particular por conta das lendas da Amazônia e tudo isso. Então, eu acho que é uma energia fantástica também”, afirma.

a musa Betao assumiu um papel de lideranca e protecao
a musa Betão assumiu um papel de liderança e proteção
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

À frente da ala, a musa Betão assumiu um papel de liderança e proteção.

“Eu venho representando a mãezona da ala das passistas. Como eu já estou há anos na Vigário Geral, para mim está sendo uma honra vir no primeiro ano como musa das passistas. ‘Mãezona’, como eles me chamam. A a onça quer proteger, e eu estou aqui pra proteger as minhas crias com samba no pé ralegria”, conta a musa.

Matheus Andrade de 20 anos
Matheus Andrade, de 20 anos
FOTO: CAROLINA FREITAS/CARNAVALESCO

Para Matheus Andrade, de 20 anos, morador da Penha, administrador e funcionário do CE-Rio, a estreia na escola veio carregada de emoção.

“É uma honra muito grande. É o meu primeiro ano aqui sendo passista da Vigário. Foi muita luta, muito suor no chão, porque isso é muito difícil, mas hoje eu tenho um sonho realizado. Estar aqui nessa escola tão incrível, que abre portas para tantas pessoas que, muitas vezes, onde não tem porta aberta, a gente abre janela. Então é muito honrado mesmo que eu esteja nessa escola na Avenida. A gente tem que ter garra, tem que ter personalidade. É carão, bocão, pernona, cabelo pro alto. E é isso, a onça vai cantar na avenida hoje com a Vigário”, resumiu sobre o momento.

Matheus também refletiu sobre a força que, ao longo da história, foi interpretada como ameaça.

“Depois do ocorrido que teve, de carros pegarem fogo, infelizmente no Carnaval acontece muito isso. Hoje a escola está magnífica, com os carros todos prontos. A escola está com uma garra muito grande. A gente, infelizmente, viu o Jacarezinho hoje no estado do fogo. Mas a Vigário hoje mostra realmente o pessoal que veio dar o sangue pela Vigário, junto com os carnavalescos Alexandre, Alex e Caio. Eles fizeram o impossível na Vigário. E hoje, daqui a pouquinho, a escola vai entrar e vai mostrar a força da onça junto com a Vigário na Avenida”, desabafa.

Moradora da Penha, Adriana Oliveira, de 50 anos, falou sobre o protagonismo muitas vezes invisível das passistas.

“Embora o chão da escola e a comunidade e as passistas tenham uma grande parte desse sucesso, desse chão, elas na verdade não pontuam. Porém, elas auxiliam no quesito da bateria, no quesito da evolução. Então, assim, de uma forma ou de outra, a gente tem um protagonismo não visto, mas ele está aí, ele existe”, avalia a passista.

Sobre a fantasia, ela apontou a conexão com o enredo: “Nesse caso, o enredo, eu acredito que a cabeça da onça e as penas que remetem ao indígena, aos povos originários. Nesse enredo, esse é o detalhe que mais faz referência”.

Estreando na Vigário, a psicóloga Thais Monsores, de 32 anos, reforçou a potência coletiva da ala.

“A escola está vindo super bonita esse ano, a gente está vindo com uma força muito grande. E a ala das passistas realmente é uma ala super animada, que demonstra toda a força da escola, toda a animação, toda a garra”, afirma.

Sua colega de ala, Érika Espada, de 50 anos, que trabalha na Comlurb e construiu amizade com Thais nos ensaios, associou a onça à força feminina dentro da agremiação.

“E a onça é um animal que é muito potente, muito forte também, que representa muito bem o que nós somos, o que a ala das passistas da Vigário é. É uma resistência. O animal também vem significando a força da mulher, também das passistas, que a presidenta também é uma mulher que segura a escola com muito amor e força. A gente vem representando também a força da mulher, a força da presidenta e que vamos, se Deus quiser, conseguir algo muito bom para a Vigário Geral”.

Questionada sobre o elemento da fantasia que melhor simboliza essa proposta, ela nem pensou duas vezes antes de responder: “Com certeza, a cabeça da onça”.

Na Sapucaí, a “fera” que um dia foi temida como ameaça ressurge agora como símbolo de ancestralidade e a potência de uma onça que não ruge com samba no pé pela comunidade de Vigário Geral.

“Um dia volto pra te ver, meu grande amor!”: Ilha une passado e futuro na última alegoria

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Penúltima escola a desfilar na sexta feira de desfiles da Série Ouro, a União da Ilha levou para a Sapucaí o enredo “Viva o hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, assinado pelo carnavalesco Marcus Ferreira, sobre a saga intergalática do cometa Halley. Numa brincadeira entre passado e futuro, a agremiação relembrou seu passado glorioso ao remeter a estética do carnaval “O Amanhã”, da Professora Maria Augusta, de 1978.

No último carro, a escola trouxe uma referência estética ao carnaval campeão da Professora, de plástica vintage remetendo a carnavais antigos e tons claros.

Carro 3 Uniao da Ilha
Última Alegoria da União da Ilha. Foto: Mariana Santos

Joseli Rocha, torcedora da União da Ilha desde a infância, tendo mesmo se mudado da Ilha do Governador, não abre mão de desfilar na escola. Esse ano, participa da ala que representa o Cometa, no último setor da escola. A componente relembra a genialidade da carnavalesca, falecida em 2025.

“Ela teve grandes carnavais, ela foi uma grande carnavalesca, não só com a União da Ilha, mas com outras escolas também. Era uma pessoa de muita sabedoria, de muita vida. E todos os carnavais dela eram campeões porque ela tinha muito bom gosto, não só na elaboração das fantasias, como em todo o enredo em toda a sequência”, disse.

Joseli Uniao da Ilha
Joseli Rocha. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Já para Micha, membro da Ala dos Compositores, parte da escola há mais de 20 anos, a homenagem vem em tempo oportuno.

“A homenagem chegou em boa hora, com muita justiça. Para a gente que já está há um tempinho nisso, realmente foi uma ideia maravilhosa. E chegou na hora certa, tudo tem sua hora”, compartilhou.

Micha Uniao da Ilha Compositores
Micha. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Sanchez Martins, membro da velha guarda, desfila pela União da Ilha do Governador há mais de 20 anos na União da Ilha, seguindo o legado do pai que fazia parte da escola desde os tempos dos desfiles no Cabula. Em um olhar para o futuro da escola, ele deixou a mensagem que o respeito e valorização da escola devem voltar.

“O futuro para a União da Ilha é ser campeã. Que vejam a escola com bons olhos, porque a bandeira pesa muito”, refletiu.

Sanchez Martins Velha Guarda Uniao da Ilha
Sanchez Martins. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

E para Micha, o futuro Insulano deve ser feliz e colhendo os frutos dos meses de ensaio para o desfile do Carnaval 2026.

“Que a escola seja feliz, faça um bom desfile como fizemos nos ensaios de rua. Estamos num processo em que ficamos um tempo em lugares mais altos, e saímos. Mas com força e fé, essa certeza vai voltar ao coração do Insulano”, disse.

Detalhes fantasia cometa joseli
Detalhes fantasia do cometa. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Opinião! Análise cabine a cabine no primeiro dia de desfiles da Série Ouro no Carnaval 2026

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“Um dia volto pra te ver, meu grande amor!”: União da Ilha une passado e futuro em desfile

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Penúltima escola da sexta-feira de desfiles da Série Ouro, a União da Ilha do Governador levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Viva o hoje! O Amanhã? Fica pra depois”. A obra fala da saga intergaláctica do cometa Halley. Numa brincadeira entre passado e futuro, relembra o passado glorioso ao remeter a estética do carnaval, “O Amanhã”, da Professora Maria Augusta, de 1978.

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DETALHES ULTIMO CARRO ILHA
Detalhes da última alegoria da União da Ilha
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

O último carro da agremiação trouxe uma referência estética ao carnaval campeão da Professora, de plástica vintage remetendo a carnavais antigos e tons claros.

Joseli Rocha torcedora da Uniao da Ilha desde a infancia
Joseli Rocha, torcedora da União da Ilha desde a infância
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Joseli Rocha, torcedora da União da Ilha desde a infância, não abre mão de desfilar na escola mesmo após se mudar do bairro. Este ano, ela participa da ala que representa o Cometa, no último setor da escola. A componente relembra a genialidade da carnavalesca, falecida em 2025.

“Ela teve grandes carnavais e foi uma grande carnavalesca, não só com a União da Ilha, mas com outras escolas, também. Era uma pessoa de muita sabedoria, de muita vida. E todos os carnavais dela eram campeões, porque ela tinha muito bom gosto, não só na elaboração das fantasias, como em todo o enredo e em toda a sequência”, disse.

Micha membro da Ala dos Compositores
Micha, membro da Ala dos Compositores
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Já para Micha, membro da Ala dos Compositores e parte da escola há mais de 20 anos, a homenagem vem em tempo oportuno.

“A homenagem chegou em boa hora, com muita justiça. Para a gente que já está há um tempinho nisso, realmente foi uma ideia maravilhosa. E chegou na hora certa, tudo tem sua hora”, compartilhou.

Sanchez Martins membro velha guarda
Sanchez Martins, membro velha guarda
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Sanchez Martins, membro velha guarda, desfila pela União da Ilha do Governador há mais de 20 anos, seguindo o legado do pai. Em um olhar para o futuro da escola, deixa a mensagem que o respeito e valorização a escola devem voltar.

“O futuro para a União da Ilha é ser campeão. Que vejam a União da Ilha com bons olhos, porque a bandeira pesa muito”, refletiu.

E para Micha, o futuro Insulano deve ser feliz e colhendo os frutos dos meses de ensaio para o desfile do Carnaval 2026.

“Que a escola seja feliz, faça um bom desfile como fizemos nos ensaios de rua. Estamos num processo em que ficamos um tempo em lugares mais altos, e saímos. Mas com força e fé, essa certeza vai voltar ao coração do Insulano”, confiante, disse.

Chorões de Carlitos: União da Ilha transforma compositores em estrelas do cinema mudo na Sapucaí

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A União da Ilha do Governador desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida. Com o enredo “Viva o Hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola levou para a pista uma reflexão sobre tempo, memória e celebração da vida. Em disputa por uma vaga no Grupo Especial para 2027, a tricolor insulana apostou na emoção e no inusitado. Entre os destaques, a Ala 14, dos compositores, chamou atenção pela ousadia estética e simbólica.

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Acelidio Silva 70 anos aposentado
Acelidio Silva. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Batizada de “Chorões na Cine-Ouvidor”, a ala representou o encontro entre o chorinho, expressão musical do início do século passado e o nascimento da sétima arte no Rio de Janeiro. A referência ao histórico Cine Ouvidor resgatou o impacto cultural provocado pela chegada do cinema à cidade em 1910, no mesmo contexto da passagem do Cometa Halley. Na Avenida, os poetas insulanos encarnaram personagens cômicos, misturando samba e humor físico. A imagem era poderosa: a ala de compositores do samba caracterizados como ícones do cinema mudo.

Em vez do tradicional terno, os compositores surgiram caracterizados como Charles Chaplin, eternizado pelo personagem Carlitos. A fantasia reforçou o diálogo entre música e cinema, entre o som vibrante do samba-enredo e a estética silenciosa da comédia clássica. “Vir vestido de Chaplin tem tudo a ver com o enredo, ainda mais vir encarnado de Charles que é uma figura antológica. Fico muito emocionado e feliz quando vejo essa arquibancada lotada, lembro dos áureos tempos da União da Ilha, quando ela chegava e o povo vinha junto”, afirma Acelídio Silva, 70 anos, aposentado. Ele conta ainda que já cometeu várias loucuras pela escola, tantas que não consegue enumerar.

 

Angila Nunes 53 anos tecnica de enfermagem Cassandra Pisco 40 anos medica e Marcia Almgren 45 anos administradora
Angina Nunes. Foto: Ana Júlia Agra

Para quem estreia na ala, a emoção ganha contornos ainda mais intensos. “Está sendo uma experiência maravilhosa, porque é a primeira vez que desfilo na ala dos compositores. Passam vários filmes ao ver a arquibancada lotada. Eu amo Charles Chaplin e amo a minha Ilha”, conta Angila Nunes, 53 anos, técnica de enfermagem.

A entrega à escola atravessa décadas e gerações. “É arrepiante, um momento mágico. Desfilo há uns 20 anos e todo ano é assim. Minha maior loucura pela Ilha foi assim que meu filho nasceu, levá-lo para quadra com dois meses de idade apenas. É um filme de muita alegria, União da Ilha nas cabeças e vamos subir”, fala Márcia Almgren, 45 anos, administradora. Histórias como essa evidenciam que o pertencimento não se limita ao desfile, mas se constrói no cotidiano e na herança cultural transmitida dentro das famílias.

A médica Cassandra Pisco, 40 anos, também associa o enredo a uma reflexão contemporânea. “Já viajei com a União da Ilha três dias de ônibus para representar a escola lá na Argentina, há uns dez anos atrás, desfilo já tem treze anos”. Sobre o filme que passa em sua cabeça, ela afirma: “Tendo como base o nosso enredo que é pra gente viver o hoje e fazendo um contraponto com a nossa realidade atual é ‘Tempos Modernos’, que fala muito da questão que a gente é uma máquina, só vive em prol do trabalho, da forma que a gente é tratado, a gente não tá vivendo mais, só sobrevivendo”.

Ao encarnar um ícone do cinema mudo e, ao mesmo tempo, cantar samba-enredo a plenos pulmões, a ala sintetizou o espírito do desfile. “É um orgulho poder dar voz não só a esse personagem, mas para refletirmos também que não somos máquinas, somos humanos, o quanto a gente ainda precisa dessa vivência, experimentar e representar a nossa cultura nacional”, finaliza Cassandra. Em tempos acelerados, a Ilha escolheu celebrar o agora, com humor, crítica e paixão.

Reparação Histórica: Unidos de Padre Miguel dá um novo significado à história de Clara Camarão

Nesta sexta-feira, a Unidos de Padre Miguel levou à Sapucaí o enredo “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, idealizado por Lucas Milato. A obra faz celebração à história de Clara Camarão, indígena potiguara que se tornou símbolo da resistência feminina após vencer batalhas contra as tropas holandesas.

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A escola se deparou com um empecilho: após a morte de Felipe Camarão, seu marido, não havia mais registros históricos sobre sua vida, indicando que, para a história, ela só foi relevante enquanto tinha um homem ao seu lado — uma perspectiva antiquada. No entanto, motivados a abordar esse assunto, a escola decidiu criar a ficção de que Clara não morreu, mas se tornou uma figura encantada e adentra às florestas. Para chegar na alegoria, a agremiação faz uma travessia por meio das fantasias.

O estudante de direito Danilo Salvatore de 25 anos
O estudante de direito, Danilo Salvatore, de 25 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O estudante de direito, Danilo Salvatore, de 25 anos, desfila na agremiação há 6 anos. Danilo usava a fantasia Jurema Sagrada, que indica o início da transição de Clara para se tornar um ser encantado.

“A nossa fantasia fala sobre a árvore sagrada. Tem tudo a ver com a Clara Camarão, sobre a travessia. Essa árvore representa muito a Unidos de Padre Miguel, o sagrado. A Unidos de Padre Miguel, dentro da Vila Vintém, é o que tem de mais sagrado lá. Tanto para os componentes da Unidos, quanto para a nossa comunidade, a Unidos é o que tem de mais sagrado. E ela vem falando sobre isso, ela vem representando esse algo sagrado que a gente tanto zela”, diz Danilo.

“A gente sabe que diversos que passaram, que tiveram um marco histórico na nossa humanidade, no nosso Brasil, muitas histórias foram se apagando com o tempo. E a Unido de Padre Miguel faz esse trabalho. Ao invés de deixar a história morta, ela vem ressuscitando a história e mostrando que não. É um povo de resistência. Eles merecem sim ser ouvidos, merecem ser contados nessa história, e é o que a Unido de Padre Miguel vem representando. A Clara Camarão não morreu, a história dela não foi apagada”, completa o estudante.

A assistente social Beatriz Custodia de 26 anos
A assistente social, Beatriz Custódia, de 26 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Outra fantasia que representa essa transição encantada é a “Pai do Mangue”, que aparece como um guia para a homenageada. A assistente social, Beatriz Custódia, de 26 anos, desfila na agremiação há 2 anos e contou como foi levar esse enredo e essa fantasia à Sapucaí.

“A UPM é união, é família, é tudo. É alegria, é diversão. E esse enredo tem uma conexão com a comunidade, com a direção da escola, que é uma direção de mulheres. Acredito que Clara Camarão resiste dentro da UPM, resiste através dessa direção, através da comunidade que é muito forte e que está resistindo depois desse grande baque que a gente levou. Me sinto muito especial dentro dessa ala”, revela Beatriz.

“É uma forma da gente trazer uma justiça para essa personagem, para essa mulher tão importante na história do Brasil. E aí eu volto a repetir: é uma conexão que no século XV das mulheres, dessa forma de resistir a todo o contexto social, a toda a forma de injustiça que as mulheres sofrem, que o povo preto sofre, que o povo indígena sofre. É uma forma bem carnavalizada, bem alegre, bem divertida, mas é sim uma forma de trazer justiça a essa grande mulher do Brasil”, completa Beatriz.

O motorista Julio Ribeiro de 33 anos
O motorista Julio Ribeiro, de 33 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A fantasia que precede o carro da floresta sagrada é “O Gritador”, uma entidade temida da mitologia nordestina. Com seu brado, ele anuncia a morte ou para assustar quem está adentrando ilegalmente no território sagrado da Jurema. O motorista Julio Ribeiro, de 33 anos, desfila na escola a dois anos e contou o que sentiu ao vestir essa o adereço.

“A história em si de você mostrar tudo. Não mostrar só a parte dos indígenas, mas você mostrar uma morte, você mostrar um renascer, mostrar tudo, acho isso muito legal. É justamente isso que essa imagem traz:o medo, de você, de quem é de fora e está entrando em uma área sagrada. Acredito que o medo constrói a pessoa, porque se você não tiver medo, você pode acabar qualquer hora. O medo também mostra que você pode ser muito mais capaz, ao invés de viver na mesmice. Não tem que mostrar só a parte boa, tem que mostrar também que tem a morte. Que você pode renascer, que você pode nascer, crescer e morrer”, avalia.

O cabeleireiro e maquiador Junior Oliveira de 31 anos
O cabeleireiro e maquiador Júnior Oliveira, de 31 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Enfim, na terceira alegoria, que representa o encontro de Clara Camarão com a natureza. O cabeleireiro e maquiador Júnior Oliveira, de 31 anos, é destaque há três anos e acompanha a agremiação desde sua infância. Ele contou a sensação de estar no carro alegórico.

“Nossa, é uma sensação incrível, porque nos faz perceber o quanto a nossa Floresta Amazônica e os povos indígenas foram e são importantes para as nossas vidas. E hoje eu venho representando a encantaria de toda pajelança, trazendo a riqueza dos nossos povos, das nossas terras. É uma energia tão grande e eu sou do Candomblé também, e isso é inexplicável. Só quem está vivendo esse momento pra sentir e pra saber”, diz.

“Faz parte do nosso cotidiano. É tanta luta, tanto preconceito, tanta injustiça, sendo que nossa terra, de onde nós viemos, é essa riqueza. E é isso que nós queremos passar, essa mensagem: que, apesar de tudo, apesar de todo o sangue, todo o sofrimento, há um lugar maravilhoso e iluminado para todos”, conclui Júnior.