Comunidade sustenta desfile do Vai-Vai durante amanhecer no Anhembi
Quem nunca viu o samba amanhecer… Quem estava no Anhembi na reta final do último sábado viu. O Vai-Vai entrou na avenida já com o dia amanhecendo e mostrou que tem chão. Penúltima escola a desfilar, a agremiação ouviu seu nome ser anunciado e fez arquibancadas se levantarem em bloco, com bandeirinhas balançando e um clima de euforia que confirma o tamanho do Alvinegro no sambódromo.
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Depois de dois rebaixamentos recentes, a escola optou por um desfile mais estratégico do que luxuoso, com regulamento a seu favor. Sem apostar em grandes ousadias, o Vai-Vai investiu em entendimento fácil e execução correta para sustentar o conjunto. Com o enredo “Em Cartaz: A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Paulicéia”, a narrativa foi contada como um filme pelas lentes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, do cenário ao clímax e ao desfecho.
A escola encerrou sua apresentação em 01h04min32seg, dentro do tempo regulamentar.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Priscila Paciência e Diogo Santos, a comissão de frente, intitulada “Avant Premiere”, se apresentou em forma de filme. O elemento alegórico era um rolo de filme e, a partir dele, a coreografia se desenrolava com figurinos ligados ao universo do cinema e quatro personagens emblemáticos das produções da época da Companhia Cinematográfica Vera Cruz: Jeca Tatu, Sinhá Moça, Silvia (de “Passionata”) e o Cangaceiro.

Na prática, a leitura geral foi clara por reconhecer os personagens e o ambiente. O ponto alto esteve na coreografia executada no chão, bem desenhada e de fácil entendimento, sustentando o quesito com boa comunicação.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Pedro Trindade e Mirelly Nunes, desfilou com a fantasia “Identidade de um povo guerreiro”, proposta para representar o povo forte evocado pelo enredo. A fantasia carregava muito brilho e remetia a guerreiros.

Além dos giros leves e movimentos obrigatórios bem executados, houve diálogo direto com a letra em momentos específicos: no trecho “vai parar geral”, o casal estava de frente para uma cabine de jurados e marcou um movimento claro de “parar” com os braços. Outro momento, é quando o samba menciona “vedete principal”, o mestre-sala incorporou passos que remetiam a esse universo, reforçando a intenção do enredo.
O conjunto se mostrou leve, comunicativo e, dentro do estilo do quesito, buscou brincar com o samba sem perder a função de defesa do pavilhão.
HARMONIA
O canto foi um dos pontos altos do Vai-Vai. A comunidade cantou muito, sustentando o samba de ponta a ponta mesmo no horário de amanhecer, e a resposta da arquibancada acompanhou esse rendimento. A participação das alas foi consistente, com destaque para a ala Força Alvinegra, que apareceu especialmente forte após o segundo carro.

A condução do intérprete Luiz Felipe teve papel decisivo na energia do desfile. Além de puxar o canto com intensidade, ele estimulou a interação das arquibancadas, chamando o público a balançar as bandeiras distribuídas no início do desfile, o que ampliou a participação das arquibancadas.
ENREDO
O enredo “Em Cartaz: A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Paulicéia” foi desenvolvido como um filme, com roteiro: a história é contada pelas lentes da Vera Cruz. Desde a apresentação e ambientação, até o progresso, depois assume o clímax com a greve, e o final é o desfecho em uma cidade ideal.

Na avenida, essa estrutura pode não ter ficado claro a intenção de trazer toda a história. No entanto, a escola não buscou camadas excessivamente abstratas, as transições foram reconhecíveis.
EVOLUÇÃO
Se nos ensaios a escola havia enfrentado desafio com o tempo e chegou perto do estouro no último. No desfile oficial, o Vai-Vai iniciou mais acelerado, demonstrando preocupação em garantir margem no cronômetro.

Mas já no fim da avenida, foi perceptível a necessidade de controlar o andamento e segurar o passo para atingir o tempo mínimo regulamentar. A desaceleração foi administrada sem desorganização evidente do conjunto e o fechamento em 01:04:32 indica que o Vai-Vai conseguiu ajustar o desfile durante a apresentação, transformando um risco de tempo em cumprimento seguro do novo regulamento.
SAMBA
O samba funcionou muito bem na avenida por ser fácil de cantar e por mobilizar a identidade da escola. O tradicional “vai vai vai” no meio da canção recebeu resposta forte da comunidade.
A condução do Luiz Felipe ajudou a manter o canto alto mesmo com o dia cada vez mais claro, e a interação com as arquibancadas — especialmente o incentivo ao movimento das bandeiras — reforçou o impacto do samba para além do canto, criando um efeito visual que acompanhou os picos de empolgação do desfile.
FANTASIAS
As fantasias cumpriram seu papel narrativo dentro de um desfile assumidamente mais contido e técnico. O Vai-Vai não apostou em luxo excessivo ou grandes soluções, mas apresentou figurinos corretos e bem resolvidos dentro da proposta.

A escolha de cores funcionou a favor do enredo: o setor inicial, predominantemente preto e branco, dialogou com a ideia de passado e com a estética do cinema de época, enquanto os setores finais ficaram mais coloridos, reforçando a noção de futuro e de cidade ideal.
Entre os destaques positivos, a ala Kizomba chamou atenção pelo volume e pelo impacto visual, especialmente por ser coreografada e ocupar bem a pista. A fantasia da bateria, representando operários, também dialogou de forma clara com o setor industrial, reforçando a narrativa proposta. No geral, as fantasias favoreceram o entendimento do enredo.

ALEGORIAS
As alegorias foram o setor mais irregular do desfile, com diferença perceptível de acabamento e impacto entre os carros. O abre-alas apresentou conceito claro e alinhado à proposta cinematográfica, mas um problema de acabamento — com parte da estrutura ficando aparente após a queda de tecido — comprometeu a leitura frontal. Além disso, o forte investimento em iluminação perdeu efeito com o dia já claro, reduzindo o impacto visual planejado.


O segundo carro manteve coerência ao desenvolver a ideia de progresso industrial, mas teve execução mais simples e menor imponência estética dentro do conjunto. Já o terceiro carro, foi o melhor das alegorias, tanto pela concepção quanto pela conexão com o samba, com coreografias no topo e gestos de punho erguido que reforçaram a ideia política do desfile.

No fechamento, o Vai-Vai trouxe solução simbólica ao representar a cidade ideal e valorizar a Velha Guarda na frente da alegoria. No entanto, novamente a iluminação excessiva perdeu força no horário do desfile. No geral, as alegorias cumpriram a função narrativa, mas oscilaram em acabamento e impacto.
OUTROS DESTAQUES
A presença da ala mirim cantando e dançando com intensidade mostrou como a tradição passa de geração em geração dentro do Vai-Vai. Durante o desfile, era possível ver muitos componentes emocionados por estarem ali.
A bateria Pegada de Macaco, comandada pelo Mestre Tadeu e Mestre Beto, manteve a identidade. A escola apostou em paradões alinhados ao refrão “vai parar geral” e uma bossa que chamou atenção no trecho “Nobres imigrantes aportaram nesse chão”, recebendo boa resposta das arquibancadas e das alas.

Entre os destaques individuais, Madu Fraga, rainha da Pegada de Macaco, apareceu com presença forte à frente da bateria. Cria da comunidade e já consolidada no posto desde 2023, ela sustentou boa interação com o público e reforçou a tradição.
Comunidade da Rosas de Ouro supera atraso e canta forte no desfile oficial
Nesta sexta-feira de Carnaval, a Rosas de Ouro realizou seu desfile oficial no Sambódromo do Anhembi. A apresentação foi marcada pela força do canto da comunidade e por um espírito evidente de superação. Havia a expectativa sobre como a escola reagiria ao desconto prévio de 0,5 ponto, devido a falhas na entrega da pasta oficial aos jurados. O que se viu, porém, foi uma comunidade aguerrida e determinada.
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Outro desafio enfrentado foi o derramamento de óleo na pista, que provocou atraso significativo. Ainda assim, a escola não esfriou. No entanto, um problema mais grave ocorreu durante o desfile: um integrante da comissão de frente passou mal e não conseguiu desfilar. Resta saber qual será o impacto dessa ausência na apuração. A Rosas de Ouro apresentou o enredo “Escrito nas Estrelas” e foi a quinta a desfilar, fechando o desfile com 01h03min.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Arthur Rozas, a comissão representou o “Sublime Carrossel Celestial”, traduzindo com clareza a proposta do enredo ao unir astrologia e astronomia. Embora distintas, as duas vertentes foram integradas de maneira harmônica. Sol e Lua, personagens centrais, simbolizavam o movimento e o equilíbrio do universo, com fantasias dourada e prateada.

O elemento alegórico fazia alusão direta à mandala astrológica, representação circular do céu dividida em doze casas. Entretanto, devido ao incidente na concentração, a escola desfilou com 13 componentes, quando o previsto eram 14. Essa ausência pode gerar impacto não apenas no quesito Comissão de Frente, mas também em outras avaliações técnicas.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Uilian Cesário e Isabel Casagrande desfilou com a indumentária “A Energia de um Bailado Ancestral”. A apresentação foi segura e tecnicamente correta, com cumprimento dos movimentos obrigatórios previstos no manual do julgador. Isabel executou os giros horários e anti-horários com precisão, sempre sorridente, enquanto Uilian acompanhou com firmeza nas finalizações. Foi uma apresentação correta e satisfatória.

HARMONIA
O canto da comunidade segue sendo um dos grandes trunfos da escola. O samba, de melodia fácil e envolvente, foi rapidamente assimilado e abraçado pelos componentes. Os refrões foram os pontos altos do cortejo, especialmente o refrão principal, que impulsionou o desfile.

A “Bateria com Identidade” manteve seu ritmo acelerado e contagiante, estimulando a participação constante dos desfilantes. O intérprete Carlos Júnior também teve papel fundamental ao incentivar a escola durante todo o percurso.
ENREDO
A proposta foi apresentar a importância da astronomia ao longo da história, trazendo referências a figuras como Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e Cláudio Ptolomeu. O abre-alas retratou a expansão do universo, enquanto o figurino do casal de mestre-sala e porta-bandeira dialogou diretamente com a ciência.
A astrologia também teve papel central, especialmente com a presença do zodíaco como eixo narrativo. A comissão de frente reforçou essa ideia ao representar o carrossel celestial inspirado na mandala astrológica. Apesar da complexidade e dos múltiplos pilares do tema, a escola conseguiu organizar bem as informações, apresentando um desfile coeso e de fácil compreensão.
EVOLUÇÃO
A evolução foi correta, sobretudo no alinhamento entre as alas. Repetindo o desempenho do segundo ensaio técnico, os componentes cantaram e dançaram com leveza, aparentemente deixando de lado a punição sofrida. Houve alguns pequenos espaços entre alegorias e alas, mas nada que indique grandes riscos de penalização.
SAMBA
A escola repetiu a estratégia adotada em 2025, apostando em um samba de letra mais curta e melodia dinâmica. Essa escolha facilitou a assimilação e intensificou o canto coletivo. A performance vista nos ensaios técnicos se confirmou na avenida.
Carlos Júnior, pelo terceiro ano consecutivo como intérprete da escola, mostrou entrosamento com a comunidade. Mesmo não vivendo seu auge vocal, manteve a característica marcante que o consolidou como um dos grandes intérpretes do carnaval paulistano, utilizando cacos estratégicos para levantar a escola.
FANTASIAS
Sob assinatura do carnavalesco Fábio Ricardo, as fantasias priorizaram estética e leveza. Não houve excesso de luxo, mas os elementos utilizados garantiram requinte e coerência visual. As vestimentas também favoreceram o desempenho dos componentes, permitindo canto e dança com conforto.

ALEGORIAS
O abre-alas, “O Universo em Expansão”, apresentou predominância do preto, simbolizando o espaço. De fácil leitura, dialogou diretamente com os versos iniciais do samba.

A segunda alegoria, “Atlântida, Civilização Mãe e o Tempo da Criação”, destacou-se pelo tom verde-água com detalhes dourados, sendo visualmente uma das mais impactantes do desfile.

O terceiro carro, “Um Planetário de Saberes”, trouxe um grande globo prateado representando o planeta Terra e homenageando estudiosos que marcaram a história da ciência.
Encerrando o cortejo, a quarta alegoria, “A Era de Aquário, A Nossa Luz Irá Brilhar”, apresentou predominância do rosa, com escultura central nas cores rosa e dourado.

No conjunto, o desfile foi compreensível ao público, especialmente na abertura. Apesar da beleza plástica do carro de Atlântida, sua leitura pode ter sido um pouco mais complexa para parte dos espectadores, pois não havia esculturas de fácil entendimento. Era um carro com uma concepção completamente diferente.
OUTROS DESTAQUES
A “Bateria com Identidade”, comandada por mestre Rafa, desfilou com a fantasia “Os Egípcios e o Brilho de Osíris”, apresentando bossas direcionadas aos módulos de julgamento. O maestro demonstrou ousadia no recuo, mesmo diante de julgadores conhecidos por rigor técnico.

A ala das baianas também se destacou com a fantasia “Mesopotâmia, o Relicário Zigurate”, valorizando as cores da escola.
De modo geral, a Rosas de Ouro apresentou um desfile consistente, superando adversidades e sustentado, principalmente, pela força de sua comunidade.
Público reage ao primeiro dia de desfile das escolas da Série Ouro
Por Maria Estela Costa e Juliane Barbosa
A superstição deu lugar ao espetáculo na Marquês de Sapucaí. Nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, o primeiro dia de desfiles da Série Ouro transformou expectativa em vibração, arquibancadas cheias e análises apaixonadas do público que acompanhou cada detalhe das apresentações.
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Sete escolas passaram pela Avenida levando enredos marcados por identidade, território, ancestralidade e disputa por uma vaga no Grupo Especial. Mais do que assistir, o público avaliou, comparou e reagiu da comissão de frente ao último módulo da bateria.
A Unidos do Jacarezinho abriu a noite e trouxe a comunidade para o centro da cena. A agremiação levou à Sapucaí o enredo “O ar que respira agora inspira novos tempos”, idealizado pelo carnavalesco Bruno de Oliveira, em homenagem à trajetória do cantor Xande de Pilares.
Douglas Gomes, de 30 anos, assistente administrativo, avaliou a apresentação da escola da Zona Norte do Rio.
“Muito bom, o enredo muito bom, a construção também muito boa, a bateria estava ótima. Eu acho que a história que eles contaram e tudo mais sobre o Xande de Pilares ficou ótima. Não faltou nada, eu acho que a bateria foi 100%. A escola vem para subir. Eu acho que, dentre todas, foi a melhor de hoje”, confiante, afirma.

FOTO: CARNAVALESCO
Na sequência, a Inocentes de Belford Roxo apostou em um desfile vibrante e reforçou a sua identidade na tentativas de convencer os jurados e as arquibancadas. A Caçula da Baixada levou para a Avenida o enredo “O sonho do tal pagode russo, nos frevos do meu Pernambuco”, idealizado pelo carnavalesco Edson Pereira, em homenagem à cultura pernambucana e ao músico Luiz Gonzaga.
O jornalista Rodrigo Coutinho, de 39 anos, revelou ter ficado surpreso com a apresentação da agremiação da Baixada Fluminense.
“Foi um desfile que me surpreendeu. Achei visualmente a escola estava com boas soluções. Óbvio, não tinha luxo, mas não tinha nada mal acabado. Tinha leitura, estava com fantasia e acho que a escola foi bem no chão. Foi um dos melhores desfiles de chão da Inocentes nos últimos anos. Gostei muito. Não só a escola cantando, mas o carro de som também junto com a bateria”, analisou o jornalista.

FOTO: CARNAVALESCO
A União do Parque Acari levou para a Avenida a força de sua narrativa e manteve o ritmo da disputa acirrado. A agremiação apresentou o enredo “Brasilidades”, pensado pelo carnavalesco Guilherme Estevão, em homenagem ao Teatro Folclórico Brasileiro, que anos depois se tornou o Brasiliana e foi responsável por levar a cultura brasileira mundo afora.
Josiane Martins, 40 anos e bibliotecária: “Achei um desfile morno, não teve nada deslumbrante na escola e senti falta dos componentes cantando, agitando e sacudindo a avenida, poderiam ter entregado mais neste desfile”.

FOTO: CARNAVALESCO
Vinicius Assis, é contador e tem 42 anos. “Achei a plástica do desfile ótimo, foi muito bonita. Mas o enredo não agitou o público. Houve uma falta de empolgação ou algo que causasse mais alegria na Avenida. Por outro lado, o carnavalesco fez ótimas escolhas e foi muito bonito”.

FOTO: CARNAVALESCO
Já a tradicional Unidos de Bangu apresentou o enredo “As coisas que mamãe me ensinou” com garra, dividindo opiniões e arrancando aplausos em pontos estratégicos da Sapucaí. O tema foi planejado pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, e celebra a vida e trajetória profissional da cantora Leci Brandão.
Zelma Silva, 74 anos e secretária executiva da Bolsa: “Eu gostei, estava bonitinho. O desfile dela estava um desfile, assim, animado. Estava simples, mas os componentes estavam bem animados. Eu gostei da porta-bandeira e do mestre-sala. Fizeram uma graça aqui, se esforçaram muito e fizeram muito bonitinho”, comentou.

FOTO: CARNAVALESCO
Um dos momentos mais comentados da noite foi a passagem da Unidos de Padre Miguel, que investiu em impacto visual e emoção para marcar seu retorno e reafirmar sua potência na Série Ouro. A agremiação levou um enredo que aborda a potência feminina: “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, pensado pelo carnavalesco Lucas Milato, em homenagem a Clara Camarão, indígena Potiguara que se tornou símbolo da resistência feminina após liderar batalhas contra as invasões holandesas.
Sueli Loureiro, 77 anos e professora aposentada. “Eu adorei. Para mim, é a melhor escola que passou hoje. Eu não vi a primeira, mas das outras que eu vi, foi a melhor. Gostei muito da Comissão de Frente da UPM, me emocionou. Foi muito linda, perfeita”.

FOTO: CARNAVALESCO
A União da Ilha do Governador manteve o alto nível da disputa, com um desfile técnico e envolvente que gerou debates nas arquibancadas.
Érica Valentino, 38 anos e auxiliar de serviços gerais: “A União da ilha fez um desfile bonito. Teve harmonia, mas faltou um pouco de conexão com o público, principalmente no Setor 1, que nós somos a comunidade raiz. A apresentação foi boa, mas o enredo deixou a desejar para levantar a arquibancada”.

FOTO: CARNAVALESCO
Thiago Tononi, 25 anos, é bailarino: “A União da Ilha veio bem bacana. A escola estava grande, e as fantasias volumosas. Por mais que seja uma fantasia grande e bonita, eu acho prejudicial para o componente. A escola surpreendeu e mostrou que veio para competir, mas referente ao enredo, estava confuso. O intérprete tem uma voz boa de se ouvir, porém eu não consegui conectar as alas com a história do enredo”.

FOTO: CARNAVALESCO
A última escola desta sexta-feira foi a Acadêmicos de Vigário Geral. A agremiação fechou a Avenida com energia intensa, deixando a sensação de que a disputa está completamente aberta. O enredo escolhido foi o “Brasil Incógnito: O que seus olhos não veem, a minha imaginação inventa”, formulado pelos carnavalesco Alex Carvalho e Caio Cidrini. A obra faz uma releitura da história do Brasil Colônia, por meio de um ponto de vista decolonial.
Fernando da Silva, 59 anos e professor: “A Vigário se apresentando por último é meio complicado, porque a arquibancada está mais vazia. Isso influencia em saber se o público gostou do enredo, e a grande maioria já gastou muita energia. Acredito que, dentro das escolas de disputa desta noite, a Vigário fez uma boa apresentação. Está em um bom patamar”.

FOTO: CARNAVALESCO
Técnica irretocável aliada a andamento do samba enriquecem desfile dos Acadêmicos do Tatuapé
Os Acadêmicos do Tatuapé atravessaram o Sambódromo do Anhembi, na última sexta-feira, em desfile válido pelo Grupo Especial do Carnaval de São Paulo em 2026. Quarta escola a cruzar a Passarela do Samba, a apresentação foi marcada pelo excelente desempenho da ala musical e pela impecabilidade técnica do cortejo, encerrado após 62 minutos na Avenida. A Escola da Emoção desfilou com o enredo “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”, assinado pelo carnavalesco Wagner Santos.

O Tatuapé é uma escola sempre focada em buscar o título. As apresentações da Azul e Branco cumprem seu papel cultural, e sua comunidade se diverte na Avenida. O que se viu no Anhembi foi, mais uma vez, uma escola que vem para a briga, conseguindo trazer um enredo político sem o peso da política, mostrando os benefícios da reforma agrária e das técnicas alternativas de cultivo. Que a Escola da Emoção continue exercendo seu importante papel cultural, e se suas escolhas musicais ou estéticas geram debates, cabe às outras agremiações mostrarem competência superior.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Leonardo Helmer, a Comissão de Frente representou na Avenida “O Broto Primordial”. Assim como no ano anterior, o quesito apostou em uma apresentação abstrata, com a missão de começar a narrativa do enredo e entregá-la para o elemento seguinte do desfile. Um elemento alegórico representava esse broto, com dimensões imponentes e visual rústico e marcante, acompanhando a caracterização dos dançarinos da comissão.

Não há uma leitura verbal direta do que ocorreu. Trata-se de uma dança sensorial, cujo objetivo foi fazer o público imaginar o surgimento da vida através do que passava diante de seus olhos. Foi uma abertura de desfile onírica e exótica, mas certamente impactante. As fantasias dos dançarinos eram vívidas, e junto da alegoria formaram um único conjunto, em especial no ato em que todos os componentes coreografavam em cima do tripé. Durante a passagem pelo primeiro módulo, a finalização desse ato aparentou uma demora de conclusão, pela tentativa de guardar os adereços de mão na estrutura destinada, algo que foi mais ágil no restante dos módulos em que foram observados.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O “Casal Foguinho” do Tatuapé, formado por Diego Campos e Jussara Souza, se apresentou com fantasias representando o “Céu”. Conseguindo trazer os desejados 30 pontos há oito anos, a dupla novamente fez uma apresentação correta, cumprindo as obrigatoriedades em todos os módulos em que foram observados. Mesmo durante a passagem pelo terceiro jurado, quando a escola parou parcialmente de evoluir para a execução do recuo da bateria, o casal lidou bem com a situação. É esperado que a sequência de boas avaliações continue aumentando.

HARMONIA
O samba do Tatuapé ecoou pelo Sambódromo do Anhembi na boca de sua apaixonada comunidade com vigor e irreverência. Ajudados por uma evolução tranquila do início ao fim, os desfilantes brincaram o carnaval à vontade, contribuindo consideravelmente para tornar o desfile altamente técnico da escola um espetáculo agradável de se acompanhar. A escola pode esperar bons frutos do desempenho do quesito no dia da apuração.

ENREDO
“Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra” é um enredo concebido com apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Apesar do que a curiosa parceria entre os Acadêmicos do Tatuapé e um dos mais conhecidos movimentos sociais do Brasil possa sugerir, a reforma agrária não foi o único elemento explorado no desfile.

Como a própria Comissão de Frente entrega logo no início, a apresentação da Escola da Emoção começa com o surgimento da vida e a celebração do mundo criado por Tupã, dentro da crença dos povos originários. É no segundo setor que a história da exploração da terra começa a ganhar forma, ao mostrar como os invasores portugueses utilizavam a mão de obra no período do Brasil Colonial, as culturas semeadas e as primeiras lutas sociais pelo direito dos pequenos produtores. A demanda pela reforma agrária começa a ser explorada no terceiro setor, destacando os elementos mais intimistas relacionados à agricultura familiar. O desfile se encerra com mais culturas típicas desse grupo de trabalhadores rurais, chegando ao último carro com direito a uma grande festa na roça.

Na Avenida, a leitura da narrativa foi clara, e o conjunto de fantasias serviu como uma espécie de tapete para os elementos apresentados pelas alegorias. Espera-se que o quesito consiga cumprir sua missão no dia da apuração.
EVOLUÇÃO
O Tatuapé realizou no Anhembi um andamento de desfile praticamente perfeito. A fluidez foi constante do início ao fim diante dos módulos em que foram observados, e a manobra do recuo de bateria foi executada com maestria, tendo na corte de bateria papel fundamental para fechar os espaços sem alardes. Quesito que tem impactado as escolas consideravelmente nos últimos anos, pode ser um trunfo importante para as pretensões da Azul e Branco.

SAMBA-ENREDO
O samba do Tatuapé para o Carnaval de 2026 foi fruto da junção dos dois finalistas do concurso, por isso a lista de compositores é grande: Turko, Zé Paulo Sierra, Silas Augusto, Rafa do Cavaco, Cláudio Russo, Luis Jorge, Fábio Souza, Dr. Élio, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinícius, Lucas Donato, Salgado Luz, Daniel Goulart, Fabian Juarez, Fábio Oliveira, Wagner Forte e Chico Maia. Curiosamente, não é a primeira vez que obras assinadas por Turko e Aquiles da Vila são unidas por decisão de uma escola de samba. A última vez em que isso ocorreu foi em 2023, com o samba do desfile campeão da Mocidade Alegre.

A Escola da Emoção adotou como critério a escolha de sambas que apresentam rigorosamente o conteúdo de cada setor do desfile, o que faz com que junções de samba sejam muito comuns. A busca pela obra mais funcional possível dentro da narrativa do enredo gera resultados muitas vezes controversos, sendo o samba de 2026 um exemplo desse processo. Essa postura pode estar atrelada a um de seus maiores trunfos: o poderoso carro de som, comandado há mais de uma década pelo intérprete Celsinho Mody. Com uma das vozes mais exaltadas da atualidade, conta com um elenco de apoio implacável, com destaque para a potência vocal da cantora Keilla Regina. Juntos, conseguem fazer com que a escolha da escola funcione bem na Avenida, proporcionando um desfile imersivo e agradável, seja qual for o enredo.

Em 2026, novamente os cantores do Tatuapé cumpriram as expectativas. A condução do samba foi irretocável, e Celsinho Mody mais uma vez foi um dos principais destaques do desfile da escola. A comunidade cantou o samba com clareza e animação, mostrando que a estratégia da escola pode ser contestada o quanto for, mas inegavelmente funciona.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias do Tatuapé procurou retratar, dentro da divisão de setores, cada ambiente proposto. O maior desafio para a compreensão das vestimentas, porém, está na ausência de uma linearidade clara na narrativa. A função primordial do quesito se deu mais pela construção de cenários, como visto especialmente no Setor 2, onde a Ala 2 fez uma representação do trabalho escravo e a Ala 6 retratou a Guerra de Canudos, mas os componentes entre essas duas alas apenas representavam culturas agrícolas. O Setor 3 trouxe elementos associados às plantações, enquanto o Setor 4 trouxe mais exemplos de plantações. O peso narrativo ficou majoritariamente nas alegorias, tirando a obrigação das fantasias de chão de contarem o enredo diretamente, ao transformar os componentes em uma massa cromática de apoio visual.

As fantasias do Tatuapé estavam bonitas, e contavam com uma leveza que facilitou aos componentes desfilarem tranquilamente. A ala do Algodão e do Café estavam especialmente belas, e chamaram atenção pela solução inteligente no uso de materiais. É um quesito que pode render boas notas para a escola.
ALEGORIAS
Os Acadêmicos do Tatuapé apresentaram na Avenida um conjunto formado por quatro carros alegóricos. São eles: O Abre-alas, “A Criação de Tupã”, fez uma grande representação de como a natureza era antes da chegada dos invasores portugueses. O Carro 2, “A ganância, a cobiça humana, os vilões da agricultura”, trouxe um cenário caótico em que o uso desenfreado de técnicas agressivas de plantio, como queimadas para limpar a terra e agrotóxicos, são muito utilizados por grandes produtores rurais. O Carro 3, “Área de Reforma Agrária Popular: Assentamento”, mostra os frutos das lutas pelo direito à terra dos pequenos agricultores, como o trabalho manual e a vida comunitária. Por fim, o Carro 4, “Tem festa na roça: É a festa da colheita”, faz a grande celebração pelo resultado de um trabalho bem-feito.

As alegorias evidenciam a qualidade do método de construção de desfiles do Tatuapé, onde a história contada por meio dos carros alegóricos e do samba torna o tapete formado pelo conjunto de fantasias um grande cenário de fácil leitura narrativa. Na Avenida, porém, notou-se uma disparidade no nível de acabamento entre o carro Abre-alas, mais rico em detalhes, em relação às demais alegorias, em especial a última, que teve um uso demasiadamente elevado de tecido estampado como solução de acabamento.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Qualidade Especial” teve uma boa apresentação na Avenida. Os comandados pelo mestre Cassiano Andrade, estreante no posto pela escola, contribuíram para o andamento do samba com um bom conjunto de bossas. Mas o destaque principal fica para a corte de bateria liderada pela Rainha Muriel Quixaba, onde juntas tiveram papel determinante para a excelente execução do recuo pelo quesito, fechando os espaços sem dar chances para evidenciar buracos. Beleza e samba no pé ajudam muito, e isso elas têm de sobra, mas atuar de maneira tão positiva para o desempenho não é algo que se vê em todas as escolas.
Conjunto alegórico e comissão de frente são destaques principais no desfile da Dragões da Real
Nesta sexta-feira de carnaval, a Dragões da Real realizou seu desfile oficial no Sambódromo do Anhembi, exaltando as Guerreiras Icamiabas. Com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”, a escola apresentou um espetáculo de forte identidade indígena, marcado por alegorias monumentais e um conjunto coeso.
A agremiação da Vila Anastácio demonstrou atenção ao novo manual do julgador e conseguiu executar suas propostas de forma satisfatória. O canto foi predominante ao longo de todo o percurso, sustentado por um conjunto musical bem entrosado. Destaque para as convenções do mestre Klemen e para o apagão conduzido por Renê Sobral. Como já apontado no pré-carnaval, a escola certamente brigará pelas primeiras posições da tabela. O desfile foi concluído em 1h03.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Ricardo Negreiros, a comissão apresentou o quadro “As Icamiabas e o Sopro da Floresta”. Cinco elementos compuseram a encenação: o nascimento da Icamiaba, as guerreiras já formadas, uma pajé, os espíritos da floresta e o amuleto muiraquitã, representado por uma criança.

O ápice ocorreu na transformação das Icamiabas recém-nascidas em guerreiras. O elemento alegórico se fechava e, ao reabrir, revelava novas personagens com flechas e fantasias vermelhas, simbolizando força e impacto. A troca de elenco, com efeito visual surpreendente, arrancou aplausos do público. Todos os movimentos obrigatórios, saudação ao público e apresentação do pavilhão, foram executados com clareza. Assim como nos ensaios técnicos, a comissão teve fácil leitura e traduziu bem o enredo, especialmente ao destacar o surgimento das Icamiabas e o muiraquitã.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Rubens de Castro e Janny Moreno, com a indumentária “A Proteção Espiritual e a Superação”, realizou uma apresentação tecnicamente segura. Os movimentos obrigatórios foram executados com precisão, inclusive as finalizações após os giros horário e anti-horário. Embora a coreografia não tenha sido exuberante, o desempenho foi correto e satisfatório.

HARMONIA
Repetindo o padrão dos últimos anos e dos ensaios técnicos, a Dragões manteve excelência no canto. Mesmo com fantasias de grande volumetria, a escola sustentou a harmonia do início ao fim do desfile. O apagão nos versos finais, a partir de “Valentes guerreiras”, foi um dos momentos mais marcantes. Diferentemente do habitual, não ocorreu no refrão principal, mas em outro trecho do samba, demonstrando ousadia do conjunto musical.
O samba foi abraçado pela comunidade e teve uma arrancada forte, contagiando inclusive as arquibancadas.
ENREDO
A proposta foi exaltar a lenda das Guerreiras Icamiabas, mulheres amazônicas associadas à força, resistência e preservação ambiental. O enredo também estabeleceu um paralelo com o empoderamento feminino contemporâneo, evidenciado em versos como: “Levam nome de Marias, mulheres comuns… No peito amor, na pele urucum”.

Esteticamente, o desfile foi marcadamente indígena, sobretudo nas alegorias. A segunda alegoria, que retratou Iaci e Iara, destacou-se pelo clima de floresta, com animais em movimento, água jorrando e uma imponente representação de Iara.
A última alegoria trouxe uma mensagem atual e reflexiva, simbolizando a destruição da Amazônia, com predominância do preto. Não houve um final feliz, mas sim um alerta necessário. A Dragões conseguiu articular de maneira respeitosa as lendas amazônicas, o empoderamento feminino e a conscientização ambiental, oferecendo um espetáculo visual bem acabado, criativo e de fácil leitura.
EVOLUÇÃO
A evolução foi satisfatória e manteve a característica da escola: intensidade e movimentação coletiva. A Dragões desfilou compacta, sem riscos de buracos ou divisão de alas. Impressionou o espaçamento mínimo entre uma ala e outra, fruto do trabalho atento dos coordenadores ao longo da pista. Algumas alas coreografadas também se destacaram pela criatividade.

SAMBA-ENREDO
Sob o comando de Renê Sobral, o carro de som apresentou alto nível técnico. Músicos como Jorginho Soares integraram o conjunto, e a cantora Mayara Lima realizou uma bela abertura com voz e cordas na introdução. Após o grito de guerra, a escola teve uma largada impactante. A letra, aliada aos arranjos e ao entrosamento com mestre Klemen, manteve o público envolvido durante todo o desfile.
FANTASIAS
Com assinatura do carnavalesco Jorge Freitas, as fantasias apresentaram alta volumetria, luxo e excelente acabamento. Os costeiros merecem menção especial. A evolução compacta valorizou o colorido da escola na avenida, criando um contraste visual marcante, especialmente no primeiro setor.

ALEGORIAS
O abre-alas, “Aldeia Icamiaba e as Iguanas da Proteção”, trouxe um dragão, símbolo da escola, na maior escultura já apresentada pela agremiação, com movimentos e efeitos de fumaça. O restante do carro exibiu riqueza de detalhes indígenas, reforçando o respeito estético ao tema.

A segunda alegoria, “Iaci e Iara no Templo das Esmeraldas e das Muiraquitãs”, destacou o amuleto sagrado em formato de sapo. Sapos cenográficos com movimentos de boca e língua deram dinamismo ao carro. As esculturas de Iara e Iaci impressionaram pelo realismo, e a água jorrando no topo reforçou a simbologia da mãe das águas. Apesar de deixar o chão molhado, o efeito não comprometeu a evolução.
O terceiro carro, “A Transformação Icamiaba na Resistência contra os Invasores”, simbolizou a chegada europeia e a defesa do território. A escultura feminina com traços humanos e animais remeteu à força mítica das guerreiras.
A quarta alegoria, “Fogo e Destruição: a Luta pela Preservação do Santuário Icamiaba”, encerrou o desfile com tom reflexivo. A predominância de cores escuras reforçou a mensagem de alerta ambiental. Observou-se, porém, a exposição de uma roda no lado direito, o que pode ser considerado elemento visual indesejado.

No geral, o conjunto alegórico foi um dos grandes destaques da noite, alinhado ao novo modelo de julgamento, que valoriza impacto visual e acabamento.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Ritmo que Incendeia”, comandada por mestre Klemen, desfilou caracterizada como “Guerreiros Tupi”, mantendo regularidade e energia ao longo do percurso.

As baianas, representando as “Mulheres Anciãs”, encantaram vestidas de vermelho. Já a corte de bateria, com a rainha Karine Grum, a musa Lexa e a princesa Yohana Obyara, imprimiu carisma e samba no pé ao desfile.

Em síntese, a Dragões da Real apresentou um desfile consistente, visualmente impactante e tecnicamente competitivo, credenciando-se como forte candidata às primeiras colocações do carnaval.
A ala “Brasil Devorador”, da Vigário Geral, transforma o monstro do desconhecido em potência na Sapucaí
Última escola a entrar na avenida no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral levou à Marquês de Sapucaí a ala 18, “Brasil Devorador”, tradicional ala de amigos da escola e responsável pelo fechamento conceitual do enredo.
A ala materializou a ideia central de que o olhar colonial transformou o Brasil em “monstro” para justificar invasões e violências, e o país respondeu devorando culturas, misturando referências e criando algo novo. O figurino traz uma bandeira do Brasil estilizada com a frase “O que nos faz Brasil é nossa alma devoradora”. Aqui, o “monstro” deixa de ser ameaça e vira potência criativa.
O carnavalesco Vitor Vasale, do Espírito Santo, acompanhou o amigo Giovanni Lima, professor universitário de Uberlândia, que estava pela primeira vez no Rio. Vitor comentou o que, para ele, diferencia o Brasil quando o assunto é cultura popular.

“Eu acho que o caldeirão cultural que o Brasil é contribui muito para essa característica nossa. Então, assim, essa mistura de povos que se dá por esse processo de colonização e que se reinventa e se ressignifica o tempo todo contribui para a gente ser essa nação tão diferente”.
“E tem uma perspectiva antropofágica. Porque chega o processo de colonização bastante violento com quem está aqui, mas também introduz pessoas a partir de processos de violência pela escravização. E aí essas pessoas, a partir dos seus próprios repertórios e também resgatando aquilo que a própria terra dá, criam uma noção de território que é muito bonito e talvez seja uma das mais bonitas do mundo, sabe? Um povo que acolhe a diferença. A gente vive um monte de tensões e de polarizações, mas acho que, em suma, a gente acolhe. Acolhe a diferença”, completou Geovane.
Vitor ainda ressaltou o papel do carnaval nesse processo.
“Eu acho que o Rio de Janeiro e a própria escola de samba e o desfile de escola de samba são uma aula sobre isso, do quanto que a negritude conseguiu fazer, através da resistência, essas marcas de um povo. O carnaval hoje é a vitrine cultural do Brasil, e nada mais nada menos é a marca de um povo”.
Geovane ampliou a leitura para além da negritude: “E a Vigário Geral não está falando nem só da negritude. Ela fala dos indígenas, dos povos originários, e pensar como isso se construiu. E é uma revisão, não é nem uma visão. E estamos felizes que é revisão. Eu acho que a gente está contando a história, porque no processo de colonização a gente importou muitas histórias que não eram nossas, e o carnaval conta o que é nosso. Tem uma noção de revisão histórica muito interessante”.
Sobre a frase “O que nos faz Brasil é a nossa alma devoradora”, ambos concordaram que ela faz senrtido: “Com certeza. Totalmente”.
“Eu acho esse ‘devorador’ uma proposição metodológica, porque o processo dos 1500 imputa pra gente tudo que não é nosso e a gente mastiga isso e, a partir dessa mastigação, devolve e cria esse caldeirão de culturas que o Vitor disse. Então a gente primeiro come, e o que come vira o que a gente está mostrando, o que faz todo sentido o Brasil devorador. Os povos afro que chegaram ao Brasil já tinham isso na cultura deles, na África. Quando você conquistava por meio da guerra ou pelo que fosse, tinha essa característica de você se apropriar também daquilo que você não eliminava, você agregava à sua cultura. E foi muito isso que aconteceu no Brasil. Agregou e fez disso outra coisa gigantesca, brilhante e maior. E o carnaval, como arte contemporânea mesmo, no sentido do pensamento elaborado, é pegar esse processo de violência e dizer: ‘toma aqui, lidem com isso’, aprofundou Geovane.
A nutricionista Gabriela Flauzido, 32 anos, também se reconheceu na proposta do enredo.

“É sobre como o de fora vê a gente realmente como monstros ou coisas muito diferentes. Assim, o que é diferente é tratado como ruim. Precisamos reinventar essa ideia pra poder mostrar que, às vezes, o que é visto como ruim, na verdade, é o que faz a gente ser o que a gente é”.
Para ela, o carnaval é o maior retrato dessa transformação: “O carnaval representa muita coisa sobre o retrato do Brasil. Não é só a dor, mas tudo. O espelho do Brasil é o que a gente representa nessa festa. A forma como conseguimos fazer com que toda a dor, a desigualdade, as coisas que podem parecer ruins, realmente reinventamos e colocamos isso na festa. É tanta coisa, por exemplo, as escolas que falam sobre os indígenas, sobre toda a nossa história, que é um passado triste, que a gente reinventa numa festa que é alegria”.
A designer de moda e moradora do Maracanã, Hannah Vaz, 35 anos, enxergou essa “alma devoradora” em diversos aspectos da nossa cultura.

“Tudo que cai na mão do brasileiro a gente reinventa. Eu trabalho com gastronomia, a gente vê isso, por exemplo, com comida. A gente frita sushi. No Brasil, para tudo a gente dá o nosso jeitinho, dá a nossa cara e fica ainda melhor”.
Sobre o que diferencia o Brasil no campo popular, ela analisou: “Eu acho que a gente conseguiu fazer uma união, apesar de colônia. Viemos puxando um pouquinho de lá, um pouquinho de cá, e a gente conseguiu transformar em algo realmente nosso, não uma cópia de outras coisas. Conseguimos ressignificar todas as culturas que vieram pra gente. E agora a gente tem algo que é genuinamente brasileiro. No momento atual é mais do que essencial a gente mostrar o quanto que a gente tem orgulho de ser brasileiro, né? Porque tantas coisas a gente tem visto aí que têm acontecido e têm dado uma manchada no nosso nome, mas a gente não pode deixar a peteca cair, não. Aqui é Brasil, como diz muito por aí, aqui é Brasil”.
O professor e parceiro criativo do carnavalesco Caio Cidrini, Guilherme Chalo, de 33 anos, participou da escrita da sinopse do enredo e se sente diretamente representado por ele.
“Foi bem interessante esse processo de repensar o país através dessa ideia do monstro, essa ideia de alguma coisa que a gente não conhece, mas é fundamental para a nossa formação e para a nossa história. Acho que o enredo e o desfile vão representar bastante essa ideia de repensar através dessas estranhezas, dessas coisas que alguns não conseguem entender, compreender, se conectar. O enredo ai trazer essa geografia de forma bem interessante. A cultura popular tem essa dimensão de mistura, mas tem essa dimensão também de reinvenção do nosso povo através disso que o enredo fala, disso que o enredo se propõe a refletir e pensar através da mistura. O samba fala de uma espécie de miscigenação com a coroa, o cocar e a pele preta. Acho que a cultura popular tem um pouco disso. Ela é uma espécie de síntese violenta, difusa, estranha, mas super fundamental pra gente pensar esse Brasil popular, com gente que se critica, que se pensa, que se faz pensar. A escola de samba tem esse papel também, isso é importante”, ele analisou de forma minuciosa.

Na Sapucaí, a Ala 18 encerra o desfile com a bandeira erguida no peito e uma afirmação: o Brasil que foi chamado de “monstro” é, na verdade, criador.

