O ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Capitão Guimarães, se posicionou sobre a possibilidade de ampliação do número de escolas no Grupo Especial do Rio de Janeiro para o Carnaval 2028. Em participação no podcast “Só se for agora”, apresentado por Jorge Perlingeiro, o dirigente defendeu cautela antes de qualquer mudança e afirmou que uma eventual expansão depende diretamente das condições oferecidas pelo poder público. Segundo Capitão Guimarães, a discussão gira em torno da manutenção de 12 agremiações ou da ampliação para 13 desfilantes. Para ele, a decisão não pode ser tomada sem que a Prefeitura do Rio garanta a infraestrutura necessária para atender ao novo formato.
“Temos que definir se vão ser 13 ou 12 para o Carnaval 2028. O presidente da Liga fez alguns pedidos para Prefeitura do Rio, como a construção de novos barracões, mas nada ainda foi realizado. Não adianta fazer demagogia e enfraquecer o que está dando certo. Se cair uma e subirem duas enfraquece os dois grupos. Qual é a vantagem? Não vejo vantagem”, afirmou.
O dirigente também destacou que, caso a Prefeitura viabilize as condições estruturais e financeiras para receber mais uma escola sem prejudicar as atuais integrantes do Grupo Especial, será favorável à ampliação. No entanto, defendeu que, nesse cenário, apenas uma escola seja promovida da Série Ouro, sem rebaixamento na elite da folia.
“Se a prefeitura entender que tem que ser 13 escolas e der condições, sem diminuir a receita das 12 escolas, na minha concepção, estamos com 12 melhores, e se for para acontecer, vou defender no plenário, não descer ninguém e subir apenas uma para o Especial. Quem decide é o poder público”, declarou.
Antes da assinatura do Regulamento do Carnaval 2027, o tema deverá ser discutido entre a Liga, as agremiações e a Prefeitura do Rio de Janeiro antes de uma definição para o regulamento do Carnaval 2028.
O carnaval carioca perdeu, nesta segunda-feira, um de seus maiores nomes nos bastidores dos desfiles. Morreu Ricardo Fernandes, diretor de carnaval que construiu uma das trajetórias mais vitoriosas e respeitadas da Marquês de Sapucaí, sendo referência no quesito Harmonia e na organização técnica dos desfiles. Reconhecido pela organização dos desfiles, pela atenção aos detalhes e pela capacidade de conduzir grandes equipes, participou de momentos marcantes em algumas das principais escolas de samba do Rio de Janeiro. Não foi informada a causa da morte. As informações sobre o velório e sepultamento ainda não vão ser divulgadas pela família.
Ao longo de mais de três décadas dedicadas às escolas de samba, Ricardo Fernandes tornou-se sinônimo de disciplina, planejamento e excelência. Sua carreira começou no fim da década de 1980, na Imperatriz Leopoldinense, onde participou da construção de uma das equipes mais marcantes da história da agremiação. Foi um dos responsáveis pela revolução na organização dos desfiles, ajudando a consolidar um modelo de trabalho que elevou o nível técnico das apresentações na Sapucaí.
Segundo destacou a Unidos da Tijuca em nota oficial, foi justamente sob seu comando que nasceu a expressão “tecnicamente perfeito”, utilizada por especialistas para definir desfiles impecáveis em todos os aspectos. Trabalhando ao lado de carnavalescos como Rosa Magalhães e Paulo Barros, Ricardo tornou-se um dos principais responsáveis por estabelecer novos padrões de organização e evolução para as escolas de samba.
Durante sua trajetória, deixou sua marca em grandes agremiações do carnaval, como Imperatriz Leopoldinense, Acadêmicos do Salgueiro, Unidos de Vila Isabel, Acadêmicos do Grande Rio, Unidos do Porto da Pedra e Unidos da Tijuca, sempre exercendo funções ligadas à direção de carnaval e à harmonia.
Na Unidos da Tijuca, viveu alguns dos momentos mais marcantes de sua carreira. Foi diretor de carnaval da escola nos carnavais de 2003, 2004, 2010, 2011, 2012 e 2013. Sua participação foi decisiva na reconstrução da agremiação a partir de 2003, culminando no histórico vice-campeonato de 2004. Anos depois, retornou para integrar a equipe que conquistou o inesquecível título de 2010 com o enredo “É Segredo”, desfile considerado um dos mais emblemáticos da história recente do carnaval carioca.
Em nota de pesar, o presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, e todos os segmentos da escola prestaram homenagem ao diretor.
“Ricardo tornou-se um menestrel do quesito Harmonia, orquestrando com sua obstinação e disciplina uma verdadeira revolução na organização dos desfiles. Para além da técnica e do estilo marcante de comando, o mestre legou discípulos ao carnaval como nenhum outro em seu ramo, sendo muitos destes os que hoje ocupam as funções que um dia ele exerceu”, destacou a agremiação.
Com o enredo “Sankofa Tabon: Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”, idealizado por Antônio Gonzaga, a bateria da Grande Rio reinicia o caminho rumo aos 40 pontos. Após dois anos sem obter o resultado desejado, a agremiação se reestrutura, projetando melhorias no trabalho com inovações, pesquisas sobre os ritmos musicais de Gana e apostando na parceria com o novo intérprete, Ito Melodia. A perda de décimos na quarta-feira nunca é muito bem recebida e, para lidar com isso, mestre Fafá se apegou à maturidade para receber as críticas e analisá-las com atenção.
“Quando recebe um 9.9 numa apuração, acredito que, em qualquer segmento, ninguém concorda na hora. Quando você sai da Avenida com a sensação de um trabalho bem feito, de dever cumprido, com a certeza de que vai conseguir o objetivo, que é a nota 10. Só que depois vêm as justificativas, você começa a ver vídeos e começa a estudar o que aconteceu, e percebe que poderia ter sido melhor. Sim, eu concordo com a justificativa dos julgadores e, de verdade, levo essa justificativa como um conselho. Talvez ali, na forma da escrita de um julgador ou outro, possa ter sido um pouco mais rigoroso, mas não levo isso para o coração. […] Sempre que puder ousar em algo, como um dos julgadores escreveu na sua justificativa que sentiu falta de elementos do manguebeat, isso reflete muito. Não acho que houve rigor excessivo com a bateria. A gente chegou com uma proposta, que foi bem aceita por um e por três não. É absorver isso, levar como exemplo e trabalhar para o próximo ano”, afirmou o mestre de bateria.
O mestre destacou que o foco agora é trabalhar para recuperar o que foi perdido nos últimos anos, assim como diz o enredo de 2027.
“São dois anos em que a bateria da Grande Rio não obtém pontuação máxima, uma bateria que vinha de anos de pontuação máxima. É como diz nosso enredo: trazer de volta o que se foi perdido. Trabalhando com muita humildade, sabedoria e respeito. Sei o quanto a moral dos ritmistas da bateria está ferida. Sei o quanto é difícil para eles, o quanto se dedicam para poder ter uma pontuação máxima, poder curtir e desfrutar desse momento. Não faltou empenho, não faltou dedicação. Talvez a proposta não tenha sido bem absorvida pelos julgadores, então a gente vai trabalhar para, mais uma vez, buscar conquistar os julgadores e a nota máxima”, disse mestre Fafá.
E, para a nova temporada, a bateria promete levar à Sapucaí a sonoridade da ancestralidade africana, sobretudo de Gana. Para isso, a bateria passará por algumas mudanças estruturais, entre elas, a implementação de uma ala dedicada aos atabaques e tambores.
“Não terá nenhuma mudança específica, mas, visando ao nosso enredo, a gente vai ter uma ala de atabaques, de tambores. E estamos estudando algumas mudanças para a bateria, mas ainda em fase de testes. Vamos buscar entender um pouco mais sobre o nosso enredo para ver o que a gente vai implementar para o Carnaval de 2027”, contou mestre Fafá.
A imersão cultural proposta pelo enredo já está sendo estudada para ser colocada em prática. Com o objetivo de implementar referências tradicionais africanas do início ao fim do desfile, Mestre Fafá realiza pesquisas e contou com a ajuda de ogãs e do autor Guilherme Gonçalves.
“Quando se fala de música africana, Gana é líder nesse assunto. Eu já tenho feito os meus estudos. Fui buscar alguns fundamentos, troquei uma ideia com o Guilherme, que escreveu o livro Batuque Carioca, e ele me passou um dossiê sobre ritmos de Gana, ritmos africanos. A gente tem feito os nossos estudos aqui todas as terças-feiras com alguns ogãs da bateria. Vamos estudar bastante para levar o que for possível de ritmos, de toques, até de uma introdução que remeta a todo esse poderio musical de Gana”, contou Mestre Fafá.
A agremiação conta com uma nova voz. A chegada do intérprete Ito Melodia foi celebrada pela torcida caxiense. Fafá está confiante de que farão uma excelente parceria na Avenida.
“O Ito é fantástico. Informalmente, a gente já desfilou junto várias vezes. Inclusive, este ano, na Inocentes de Belford Roxo, eu desfilei na bateria e o Ito estava cantando. Ele dispensa comentários, como pessoa e como cantor. Podem esperar muita parceria. Ito tem o coração na alma, é um cara que deixa toda a energia dele em tudo o que está fazendo. É respeitador, entende filosofias, entende de trabalho… Podem esperar muita alegria e muita incorporação, como diz ele”, concluiu Fafá.
A Mocidade Alegre realizou na noite do último domingo a grande final de samba-enredo na Arena Morada. Considerado um dos eventos mais aguardados do carnaval de São Paulo, a disputa contou com a quadra lotada e reuniu milhares de componentes e torcedores para acompanhar a decisão. Cinco sambas chegaram à fase final e levaram suas respectivas torcidas para defender as obras. A noite foi marcada por grandes apresentações, com efeitos especiais, balões e papéis que ajudaram a abrilhantar o espetáculo. No fim, o samba 10 confirmou o favoritismo que vinha construindo ao longo da disputa e foi escolhido como o hino oficial da agremiação para o Carnaval de 2027. Repetindo a estratégia apresentada na semifinal, a parceria levou para a Arena Morada uma alegoria de barco acompanhada de uma encenação, representando a navegação da Nau Catarineta, elemento central do enredo. Além disso, uma multidão de torcedores cantou forte durante a apresentação da obra campeã, com destaque para o refrão do meio, um dos trechos mais celebrados pela comunidade. Os compositores responsáveis pelo samba vencedor são: Gui Cruz, Nikimba, Imperial, Rodrigo Minuetto, Rodolfo Minuetto, Portuga, Ratinho, Darlan Alves, Reinaldo, Luciano, Rapha Moreira, Ayr Júnior, Mala, Fal, Thiaguinho da Morada, Rafa Cria, Jorge Diego, Mario Presida, Marçal, Willian Tadeu e Vitor Gabriel. Atual campeã do carnaval de São Paulo, a Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar no sábado de Carnaval com o enredo “Sete Anos de Mar, Sete Léguas de Encanto: A Nau que Venceu o Diabo sob a Benção do Sagrado Manto”, desenvolvido pelo carnavalesco Caio Araújo.
“É muito gratificante saber que a comunidade abraçou esse samba. Foi uma composição feita de coração, por uma parceria que conhece profundamente a escola. Quando uma agremiação vem de um título e consegue se unir ainda mais em torno de um samba, só podemos ficar muito felizes”, disse o compositor Imperial.
Fotos: Gustavo Lima e Almir Aprígio/CARNAVALESCO
Voltando a vencer pela escola do coração
Um dos maiores vencedores da história da Mocidade Alegre, agora com nove sambas campeões, Imperial afirmou que conquistar mais uma disputa pela escola do coração tem um significado especial. “É sempre um sentimento de renovação, como se fosse a primeira vez. A Mocidade é a escola do meu coração. Foi aqui que me tornei sambista, compositor e onde nasceu o nome Imperial. Sou muito grato por essa escola. Como diz o samba, ela é o meu ‘porto seguro’. Esse é um samba que pegou, a comunidade abraçou e praticamente foi uma escolha unânime”.
A parceria do samba 10 levou uma grande torcida à Arena Morada, transformando a final em uma verdadeira festa. Imperial comentou sobre a celebração. “Foi uma festa maravilhosa. Trouxemos uma verdadeira multidão, apaixonada por essa escola e por essa bagunça maravilhosa que é o carnaval. São os loucos marinheiros dessa nau. E, graças a Deus, conseguimos chegar ao porto que tanto queríamos”.
Retorno de uma parceria vitoriosa
Outro compositor que assina a obra, Vitor Gabriel celebrou o retorno da parceria à Mocidade Alegre, já coroado com mais uma vitória. “Para nós foi muito especial compor esse samba. Ele marca o retorno da nossa parceria à Mocidade Alegre, depois de ficarmos fora do último Carnaval. Mais do que isso, representa a reunião da nossa formação original: eu, Gui Cruz, Portuga, os Gêmeos, Rafael Falanga e toda a equipe que conquistou tantas vitórias pela escola. Por isso, esse samba tem um significado muito especial”.
Desde o lançamento dos sambas concorrentes, o samba 10 despontou como um dos favoritos. Mesmo assim, Vitor preferiu tratar o assunto com cautela e fez questão de demonstrar respeito às demais parcerias. “Favoritismo fica por conta das opiniões de quem acompanha o concurso. Para nós, compositores, não tem isso. Existe respeito por todas as parcerias. Todo mundo trabalha para apresentar o melhor samba possível. Eu mesmo ouvi os concorrentes e havia dois ou três sambas de que gostei muito. Inclusive, falei isso ao Maradona no palco. Havia grandes composições na disputa. O importante era fazer o nosso melhor e, graças a Deus, deu certo”.
Assim que o resultado foi anunciado, a reação da comunidade foi imediata. Para Vitor, ver o samba ser tão bem recebido pela escola tem um significado especial, principalmente por sua ligação com a Mocidade Alegre. “Ter o acolhimento da comunidade é sempre muito especial. A Mocidade Alegre foi a escola onde comecei no Carnaval, em 2002. Passei muitos anos na bateria antes de me tornar compositor. Tanto eu quanto meus parceiros somos pessoas da casa, então esse carinho da comunidade tem um significado enorme”.
Geralmente, o refrão principal é o trecho que mais chama a atenção em um samba-enredo. No entanto, a obra vencedora se destaca principalmente pelo refrão do meio, que ganhou força pela construção melódica e pela riqueza da letra. “A proposta era fazer algo diferente. O refrão tem uma ousadia na letra porque trata de um tema que normalmente é abordado de forma muito pesada. Nós escolhemos seguir um caminho mais lúdico, leve e irreverente. Talvez esse tenha sido o grande diferencial do samba: transformar um assunto denso em algo satírico, agradável e gostoso de cantar”.
Evento grandioso e uma escolha unânime
A presidente Solange Cruz celebrou o sucesso do evento e o grande público que a Arena Morada recebeu neste domingo. “Confesso que me surpreendeu. Tinha muita gente. Havia pessoas na arquibancada, na pista, em todos os espaços da quadra. Acho que o horário ajudou bastante, começamos mais cedo, o pagode foi excelente e toda a preparação para a festa foi muito bem feita. Claro que, durante a apuração, bate aquela tensão para conhecer o resultado e ver a reação das pessoas. Mas terminou tudo muito bem. Todo mundo saiu feliz, cantando o samba. Foi mais uma grande escolha da Mocidade”.
De acordo com a dirigente, a votação apontou 100% de preferência pelo samba 10, além de refletir a vontade da escola e a reação dos componentes durante a final. “A comissão julgadora foi unânime na escolha e, além disso, realizamos uma audição na quarta-feira com todas as lideranças da escola. O time de canto apresentou todos os sambas e fizemos uma votação. Percebemos que o resultado dessa votação era exatamente o mesmo desejado pela comissão julgadora. Isso nos dá muita tranquilidade, porque é importante ouvir a comunidade, ouvir a escola e ouvir quem vai defender esse samba na avenida”.
A comissão de carnaval da escola costuma analisar os pontos do samba para adequá-los às suas pretensões e, quando necessário, realiza ajustes na obra. “Amanhã começamos o trabalho de ajustes. Na quarta-feira teremos ensaio de bateria e vamos alinhar esses detalhes. Depois fazemos uma pequena pausa por causa do Dia dos Pais e, na sequência, retomamos tudo com força total para iniciar os ensaios da comunidade”.
Próximos passos
Júnior Dentista, diretor de carnaval, revelou que, durante as conversas com os compositores, a proposta era apresentar um samba irreverente, característica encontrada na obra escolhida pela escola. “Quando definimos esse enredo, nossa intenção era apresentar uma proposta irreverente, deixando a escola mais leve e mais solta. Inclusive, isso foi explicado aos compositores desde o início.
Sentimos que, por não haver eliminatórias, muitos sambas não tiveram tempo suficiente para crescer ao longo da disputa. Se houvesse mais duas ou três fases, acredito que algumas obras evoluiriam bastante. Mas esse é o formato adotado. A audição realizada durante a semana foi fundamental. A comissão julgadora gostava de aspectos diferentes de alguns sambas, mas naquele momento conseguiu esclarecer todas as dúvidas. A final apenas confirmou essa decisão”
Em relação ao anúncio que levou a quadra ao delírio, Júnior comentou sobre a importância de ter a comunidade alinhada com a escolha da escola. “Quando a comunidade está ao seu lado, tudo fica mais fácil. Nesta semana vamos nos reunir com o diretor musical para fazer pequenos ajustes que forem necessários e chegar ao primeiro ensaio oficial com o samba completamente pronto. Sempre existe algum detalhe de letra ou melodia para aperfeiçoar, mas trabalhar com a comunidade abraçando o samba facilita muito esse processo”.
Revelando os próximos passos da preparação, Júnior Dentista também comentou sobre os ajustes que serão realizados no samba, conforme confirmado pela presidente Solange Cruz, além de detalhar o andamento dos trabalhos no barracão. “Nesta semana vamos nos reunir com o intérprete, o diretor musical, o mestre de bateria e toda a diretoria para finalizar os ajustes de melodia, letra e arranjos. Na quarta-feira já teremos ensaio da bateria. Depois da pausa do Dia dos Pais, voltamos com o ensaio da comunidade antes do primeiro ensaio de rua. Paralelamente, seguimos com a produção dos pilotos. A reprodução das fantasias já está praticamente pronta e o barracão está em pleno andamento. O Caio ainda está finalizando a pintura de algumas alegorias, mas todo o projeto já está desenhado. As fantasias estão definidas, o projeto da comissão de frente está maravilhoso e estamos caminhando muito bem. Agora é seguir trabalhando rumo ao nosso objetivo: buscar a décima quarta estrela da Mocidade Alegre”.
Clima leve e escolha alinhada com o tema
O carnavalesco Caio Araújo enalteceu a festa realizada pela Mocidade Alegre e o clima da final. “Acho que foi uma sensação de muita leveza e muita alegria. A gente tem noção da importância que é escolher o samba certo para o nosso desfile. É ele que vai conduzir a Mocidade para um grande sucesso ou para um grande fracasso. E esse ano a gente tem certeza de que fez a escolha certa, um grande samba. Agora a gente vai correr atrás de fazer um grande desfile. A gente sai daqui hoje com a alma leve, tranquila, de que vamos fazer um grande carnaval em 2027”.
Questionado se o samba-enredo poderia alterar o projeto da agremiação para o desfile, o carnavalesco Caio Araújo afirmou que novas possibilidades sempre podem surgir. “Acho que sempre abre novas possibilidades. O samba é a parte mais importante do desfile. Se a gente precisar adequar o visual ao que o nosso samba está falando, a gente vai fazer isso. Mas acho que esse ano não vai ser o caso, porque está tudo muito casado. No ano passado nós encontramos a frase ‘Todo preto vai para o céu’, que era a frase mais forte do samba e que não estava prevista no desfile, não estava representada antes da escolha do samba. Aí fizemos essa adequação para ela caber no desfile”.
O enredista Léo Antan revelou que, apesar de não participar da votação, contribui com opiniões junto ao carnavalesco Caio Araújo e à diretoria, além de confiar no processo de escolha da escola. “A gente dá nossa opinião, mas não vota nesse processo. Então a gente acompanha um pouco de longe, tentando entender o que está acontecendo, mas sempre confiante também na decisão da escola. A gente sabe que, apesar de ter a centralidade da Solange, é uma escola com um debate muito grande, em que as decisões são tomadas coletivamente. Então isso também nos tranquiliza. Tem uma democracia muito grande aqui na Mocidade. Então a gente acompanha esses processos mais de longe, mas com a alma leve e com a certeza de que a escola vai escolher o melhor para o desfile. Porém, era o nosso samba favorito, com certeza”.
Arriscar coisas diferentes
A porta-bandeira Graci Araújo revelou que não costuma ouvir os sambas concorrentes durante a disputa para evitar criar preferência por alguma obra específica. Satisfeita com a escolha, ela acredita que o samba vencedor permitirá novas possibilidades para a apresentação do casal. “Eu não tinha um samba preferido. Costumo me apaixonar por algum durante a disputa e, no fim, nem sempre é ele o escolhido. Então aprendi todos, porque estava preparada para qualquer resultado. O samba vencedor pega rapidamente. Tem muitas pausas e o que mais me agradou foi a variedade da composição. São quatro estrofes bem diferentes entre si. Isso vai nos permitir explorar bastante o passo tradicional de mestre-sala e porta-bandeira, mas também arriscar alguns movimentos mais específicos que dialogam com o enredo”.
Já o mestre-sala Emerson Ramires comentou que a obra era uma de suas favoritas e destacou a expectativa para desenvolver a apresentação ao lado da companheira. “Achei o samba maravilhoso. A expectativa era muito grande. Era o samba pelo qual muita gente torcia. Todos os finalistas eram muito bons e, qualquer que fosse o escolhido, nós cantaríamos, vibraríamos e comemoraríamos, porque a Mocidade Alegre é assim: canta com emoção. Agora a expectativa é fazer algo diferente. Como a Graci comentou, há muitas surpresas sendo preparadas. O samba nos dá essa possibilidade e vamos aproveitar isso para levar algo novo para a Avenida”.
Graci também elogiou a forma como a agremiação conduz o processo de escolha do samba-enredo. “Este é o meu primeiro ano na Mocidade Alegre e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a forma como a escola conduz a escolha do samba. Eles reúnem todos os chefes de ala e representantes da comunidade para estudar os sambas. São feitas várias passagens com os finalistas e esse trabalho também é replicado nas alas. Independentemente de qual fosse o vencedor, todos já estavam preparados, conheciam a letra e sabiam cantar. Eu não conhecia essa dinâmica em outra escola e achei muito interessante. Isso fez com que todos participassem da final com entusiasmo, independentemente do samba que estivesse sendo apresentado. Acho que isso contribuiu muito para a energia da noite”.
O mestre-sala, que já defendeu a Morada há alguns anos, destacou o sentimento de retornar à escola e acompanhar uma final de samba-enredo. “Achei tudo maravilhoso. Depois de seis anos longe da Mocidade Alegre e do mundo do samba, poder retornar e prestigiar uma final de samba-enredo como essa é algo que não tem preço. Estou muito feliz e grato por viver esse momento novamente. Agora é trabalhar, porque o Carnaval de 2027 já está aí e estamos ansiosos para ver esse samba na Avenida”.
Segundo Graci Araújo, o casal já iniciou a preparação antes da escolha do samba e agora irá desenvolver a coreografia da apresentação. “Estamos ensaiando desde março. Ainda não temos uma coreografia fechada, mas já desenvolvemos algumas sequências. Hoje temos entre sete e oito prontas. Também pensamos em algumas entradas, embora ainda não na apresentação para os jurados. Agora, com o samba definido, vamos aproveitar parte do que já foi ensaiado e montar a coreografia como um grande quebra-cabeça. O samba sugere alguns movimentos mais específicos, então devemos acrescentar alguns elementos. Mas não esperamos a escolha do samba para começar a preparar a apresentação; esse trabalho já vinha sendo desenvolvido”.
Acerto no samba em busca do campeonato
Comandante da “Ritmo Puro” desde os anos 90, mestre Sombra aprovou a escolha da obra e já projeta a busca pelo título no Carnaval de 2027. “Temos acertado na escolha dos sambas e isso tem dado resultado. Agora é trabalhar, repetir, corrigir e prestar muita atenção aos detalhes para fazer um grande desfile. O Carnaval de 2027 será muito disputado, e não podemos esperar que a vitória venha até nós. Precisamos correr atrás dela”.
Questionado sobre o trabalho após a escolha do samba-enredo, o mestre de bateria revelou que a preparação começa imediatamente. “Toda segunda-feira marca o início do trabalho da direção de bateria junto com a equipe de canto e os técnicos. É nesse momento que definimos cada detalhe, cada pausa, cada entrada, para conduzir aquilo que vai dar ainda mais vida ao desfile da nossa escola”.
Trabalho intenso com a ala musical
Igor Sorriso, que retornou à Mocidade Alegre em 2019, destacou o compromisso de entregar novamente um trabalho de excelência. “O samba-enredo é um estilo musical que se constrói e amadurece com o tempo. Estamos em agosto e temos até fevereiro para evoluir, melhorar e fazer com que ele funcione cada vez mais, encontrando a melhor forma de apresentá-lo. Estou muito tranquilo em relação a isso e tenho certeza de que vamos entregar um trabalho de muita qualidade”
O intérprete revelou que, mesmo antes da final, o trabalho de preparação com os sambas concorrentes já havia começado. “Esse trabalho já começou antes mesmo da final. Pegamos os sambas finalistas, começamos a cantar, testar algumas ideias e fazer alguns ajustes. Agora vamos aguardar o nosso diretor musical, o Fabiano, apresentar o que preparou, porque ele também já vinha estudando algumas possibilidades. Ainda esta semana faremos nossa primeira reunião para acertar os detalhes e fazer esse samba acontecer”.
Como citado anteriormente, a Mocidade Alegre costuma realizar mudanças para adaptar a obra às necessidades do desfile. Igor Sorriso explicou que participa dessas reuniões para aprimorar o conjunto. “Gosto de participar dessas reuniões. Acho importante respeitar a composição original, mas também pensar no que é melhor para a escola. O samba é cantado por um conjunto muito grande de pessoas, então precisamos fazer com que todos estejam na melhor condição possível para entregar uma grande apresentação e conquistar as notas máximas nos quesitos que nos competem”.
Em mais uma noite marcada por homenagens a Monarco, a Portela realizou, no úlitmo domingo, a primeira eliminatória da segunda fase da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027. As 20 obras classificadas foram divididas em dois grupos de dez composições cada. A chave branca abriu esta etapa do concurso na quadra de Madureira, enquanto a chave azul se apresentará no próximo dia 16 de agosto. A escola levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “Ao Mestre, com Carinho”, uma homenagem ao eterno baluarte Hildemar Diniz, o Monarco. A seguir, a análise do CARNAVALESCO sobre o desempenho das seis parcerias que se classificaram.
Parceria de Valtinho Botafogo: Responsável por abrir a disputa da chave branca, o samba da parceria de Valtinho Botafogo, Madalena, Xande de Pilares, Savanna, Cardosinho, Dinny Peçanha e Bernini iniciou a noite com uma apresentação segura, mesmo sem a presença do intérprete defensor da composição, Evandro Malandro. O samba percorre diferentes momentos da vida de Monarco, da infância na Baixada Fluminense à consagração como um dos maiores símbolos da Portela, valorizando sua trajetória de forma linear e de fácil compreensão. A letra apresenta boas referências ao universo do homenageado, com destaque para os versos “No cavaquinho dedilhou tantos amores, partido alto, ala de compositores”, que sintetizam sua relação com a música e com a escola. O refrão do meio reforça o vínculo do mestre com Oswaldo Cruz antes da chegada do ponto alto da composição. O grande momento está no refrão principal. Com um desenho melódico envolvente e de fácil assimilação, o trecho “Voa, minha águia, mostra a essa gente que Monarco da Portela está presente” proporcionou um dos melhores instantes da apresentação. No conjunto, o samba manteve regularidade durante toda a exibição e cumpriu bem a missão de abrir a disputa.
Parceria de Samir Trindade: A parceria de Samir Trindade apresentou um samba de forte apelo afetivo, construído como uma carta dedicada a Monarco. A narrativa em primeira pessoa aproxima o compositor do homenageado e conduz o enredo por lembranças da infância, da trajetória no samba e da ligação com Oswaldo Cruz, criando um clima de emoção sem perder a identidade portelense. A melodia acompanha esse caráter contemplativo, com desenvolvimento fluido e valorizando os momentos mais sensíveis da letra. O refrão do meio é um dos pontos altos ao estabelecer uma bonita conexão entre Monarco e Paulo da Portela, reforçando a continuidade da tradição da escola. Outro momento marcante surge no trecho “Na imensidão desse enredo, brilha o azul que te eternizou, um dia haverá reencontro… Olinda, seu grande amor”, que acrescenta delicadeza à homenagem ao citar a companheira do baluarte. O refrão principal sintetiza com eficiência a essência do personagem ao destacar sua elegância, seu comportamento e a forma como representava a Portela. Durante a apresentação, o samba manteve regularidade nas quatro passadas, sustentado pelas interpretações de Marquinho Art’Samba e Gera e pelo canto empolgado dos segmentos da escola.
Parceria de Cecília Cruz: A parceria de Cecília Cruz, Claudio Cruz, Luciano Fogaça, Fabinho Gomes Gêmeos, Osmar Fernandes e Júlio Pagé protagonizou uma das apresentações mais consistentes da noite, conduzida por Pixulé. O samba aposta em uma narrativa afetiva para retratar diferentes fases da vida de Monarco, desde a infância até sua consolidação como um dos maiores compositores e guardiões da história da Portela. A letra se desenvolve de forma natural, alternando passagens descritivas e referências marcantes, enquanto a melodia equilibrada sustenta o crescimento da composição. O samba ganha força à medida que avança. O refrão do meio recria o ambiente das feiras e das tradicionais rodas de samba, trazendo leveza e excelente comunicação com o público. Na reta final, versos como “Hoje o lenço enxuga a saudade que mora no meu coração, te devo afeto e carinho como retribuição” sintetizam o sentimento de gratidão ao mestre e preparam a chegada de um refrão principal de grande impacto. As repetições crescentes de “Se eu for falar de Monarco”, aliadas a um caminho melódico envolvente, funcionam como um convite ao canto e potencializam a emoção da obra, prontamente acompanhada pelos segmentos da escola.
Parceria de Naldo: Interpretado por Serginho do Porto, o samba da parceria de Naldo, Bororó, Waguinho, Marcelo Fernandes, Mario Carvalho, Paulo Beckham e William Ramos presta uma homenagem direta a Monarco, ressaltando sua importância como guardião da tradição portelense. A letra se desenvolve de forma clara e valoriza o legado do homenageado. O refrão do meio figura entre os melhores momentos da composição. Os versos “No solo sagrado de Oswaldo Cruz, talento menino, a flor que seduz, com a melodia beijando o poema, é mestre Monarco entrando em cena” unem boa construção poética a um desenho melódico agradável. Outro destaque aparece na reta final da segunda parte, quando a Velha Guarda é reverenciada antes da referência ao célebre verso “Se for falar de você não vou terminar”. O refrão principal sintetiza com eficiência a proposta do enredo ao transformar a homenagem em uma carta de amor da Portela para Monarco. De fácil assimilação, foi bem conduzido por Serginho do Porto e acompanhado pelos segmentos da escola. O samba manteve bom rendimento, andamento regular e deixou uma impressão positiva ao longo da apresentação.
Parceria de Jorge do Batuke: Interpretado por Zé Paulo Sierra, o samba da parceria de Jorge do Batuke, Márcio Carvalho, Luiz Matos, João Menna Barreto, Lucas Alves, J. Ferreira e Araguaci foi um dos destaques da noite. A composição desenvolve sua homenagem a partir da profunda ligação entre Monarco e a Portela, transformando o enredo em um desfile de referências à história da escola e aos seus principais baluartes. A letra costura nomes e símbolos da agremiação de forma orgânica, valorizando a memória coletiva da azul e branca de Oswaldo Cruz. A melodia mantém bom rendimento e cresce na reta final. O trecho que antecede o refrão principal é um dos pontos altos da composição ao repetir a mesma estrutura melódica para citar Casquinha, Candeia, Marçal, Paulinho da Viola, Paulo da Portela, Natal e Manacéa, criando um momento de grande identificação com a comunidade. Na sequência, o refrão principal, construído em um único verso repetido, preserva a força melódica e encerra a apresentação em alta.
Parceria de Diogo Nogueira: Interpretado por Tinga, o samba da parceria de Diogo Nogueira, Claudio Russo, Raphael Gravino, Julio Alves, Adolpho Konder, Laura Romero e Gabriel Simões aposta em uma abordagem criativa ao colocar Dona Olinda como voz condutora da homenagem a Monarco. A escolha oferece uma perspectiva intimista e confere identidade própria à letra, que intercala lembranças da vida do compositor com referências ao universo portelense. A composição reúne passagens de grande carga poética, especialmente nos versos em que Olinda declara seu amor ao marido sem deixar de reconhecer a devoção compartilhada com a escola: “Meu nego… eu só divido o seu amor com a Portela”. Outro momento sensível aparece no desfecho da segunda parte, quando a personagem afirma: “Poeta, este ano a Águia é linda… da tua, sempre tua, Olinda”, reforçando o caráter afetivo da homenagem. O refrão do meio é um dos grandes trunfos do samba. O trecho “Vou pra Portela que o samba mandou me chamar” apresenta balanço, fácil assimilação e excelente comunicação com a comunidade. Já o refrão principal preserva a proposta mais lírica e emotiva, encerrando a composição com consistência. Soma-se a isso o bom andamento do samba, que flui naturalmente do início ao fim. A interpretação segura de Tinga, aliada à forte resposta dos segmentos, evidenciou o alto poder de canto da parceria.
A Libertadores da América começou na Vila Vintém. No último domingo, a Mocidade Independente recebeu em sua quadra os 15 sambas concorrentes para a primeira semana da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027. O dia foi de apresentação das obras para o público, sem eliminação. No próximo ano, a verde e branco desfilará com o enredo “Latinamente Independente – Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”, abrindo a segunda-feira de carnaval. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações das parcerias.
Parceria de Leo Peres: Bruno Ribas e Igor Pitta defenderam o samba de Léo Peres, Leandro Fregonesi, Felipe Pires, Rogerinho, Wilson Paulino e Bruno Serrinho. O refrão principal, “Dale Mocidade, canta, incendeia a avenida, se a latinidade é forte, o Sul vira norte, gracias a la vida”, mostrou força, puxou a apresentação para cima e a obra teve um desempenho satisfatório nas duas passadas. Toda a obra é sustentada por uma narrativa de força e resistência, como no bom refrão central: “vade retro, invasor, kaô, laroyê, ai se eu te pego no maculelê, feito a guerrilha e o raiar do sol de mayo, um outro raio pra expulsar quem se atrever”. A melodia é linear e segurou bem o samba, como na segunda parte da obra, mesmo com poucas variações.
Parceria de Valdecir Moreno: O samba de Valdecir Moreno e Jorge Luiz Job foi levado com garra pelos intérpretes do palco, e a apresentação ganhou alguma força. A melodia é simples e não levantou o nível da obra, com exceção do refrão central: “caça, caça no kanindé, bulaiê, bulaiô, Oxóssi é quem nos guia, guerreiro e protetor, Oxóssi é o rei das matas, é nosso caçador”. A letra mostrou alguns bons trechos, como os versos finais: “os Caetés revoltados, se alimentaram do opressor, e no vira virou o sabor da revolta, o bispo provou”. De resto, a narrativa não chamou maior atenção e passou mais apagada. O refrão principal, “troquei o Norte pelo Sul, criei um mapa diferente, Sapucaí vem sulear, Latinamente Mocidade Independente”, teve um desempenho correto.
Parceria de Jaci Campo Grande: Rodrigo Tinoco comandou o samba de Jaci Campo Grande, Marcelo Tchakabum, Dr. Marcelo, Alex Cruz, Elian Dias e Laio Lopes. Foi uma apresentação forte de um samba com boas variações melódicas, o que manteve o rendimento sempre firme. A letra explorou alguns termos da língua espanhola, como no refrão principal: “Estrela latina, caliente, tenho corazon independente, maracas, candombe de lá, e os terreiros de cá, faz vibrar a nossa gente”, que passou de maneira agradável. A primeira parte, que retrata as origens negras e indígenas da miscigenação brasileira, mostrou-se mais inspirada na letra, em versos como: “a Pachamama invocou ô ô, a força do matriarcado, remanso vira insurreição, faz banzeiro, meu irmão, pega o ouro saqueado”. A segunda parte soa pouco criativa, com termos mais genéricos, mas não sofreu queda de desempenho durante a apresentação.
Parceria de Beto BR: A obra de Beto BR, Luizinho Pereira, Dauri Mocidade, Tony Negão, Tony Negão, Fábio Santana e Marcio Silva teve Sandro Mota no microfone principal, que, ao lado dos seus apoios, fez uma condução animada do samba, que não acompanhou o mesmo embalo. Uma passagem morna de um samba que teve como destaque o seu refrão principal: “vira, virou, arriba Mocidade, reinventa a verdade, posta pelo opressor, mostra a sua identidade, pra provar o seu valor, latinamente independente, eu sou, sou independente, eu sou”. A narrativa do enredo soou genérica em alguns momentos e funcionou melhor na primeira parte, como nos versos “sem chances de sucumbir, com ternura lutar, rebeldia sulear, nas terras daqui, o que se planta dá, Teco-munhangaua”. A segunda parte é ligeiramente mais fraca e também teve um rendimento sem maior destaque.
Parceria de Rafael Drumond: A obra de Rafael Drumond, Pinoquio do Cavaco, Thainá do Tantan, Gil Paiva, Gilberto Paizão e Luiz Santista teve uma passagem regular, com uma queda entre a primeira parte e o refrão central, crescendo na reta final da segunda parte até o refrão principal: “eterna menina de sangue caliente, homérica latina de swing independente, amada menina de corpo caliente, homérica latina de swing independente”. A letra tem uma construção interessante em alguns versos, como “sagrada lâmina de Ogum se refletiu, num tom Pacífico das águas que emergiu, do beijo Atlântico aos pés da cordilheira, Pachamama é Pindorama, berço esplêndido gentil”. A segunda parte busca uma linguagem mais rebuscada, vide versos como “aos tópicos utópicos do Império, que reduz meu hemisfério a quintal da inexistência, remanifesto, nosso trópico regido por um signo de luz não se presta à continência”, mas falta fluidez na narrativa, apesar de o trecho possuir uma boa melodia.
Parceria de Diego Nicolau: Thiago Brito defendeu o samba de Diego Nicolau, Arlindinho Cruz, Igor Leal, Ricardo Mendonça, Rodolfo Vale e Fabian Juarez. O refrão principal, “Latino-americano, cria da Vila Vintém, e esse molho só a gente tem, se querer é poder, podemos sonhar, é hora de contratacar”, teve um bom funcionamento e passou animado. No refrão central, “Yo soy la alma independiente, la gente que siempre cree en el sueño, revolucionar es nuestra misión, acerca de mi corazón, eu sou a alma independente da gente, que acredita no sonho, revolucionar é nossa missão, dentro do meu coração”, foi utilizada a sacada de uma repetição em espanhol e outra em português. O samba teve alguns momentos de queda durante a apresentação, como na primeira parte, muito por conta da melodia mais truncada. A partir da segunda parte, o samba subiu de rendimento.
Parceria de Richard Valença: Tinga e Charles Silva defenderam o samba de Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Jorginho Via 13, W. Corrêa e Cabeça do Ajax. Uma grande apresentação, mostrando muita força e rendimento lá em cima. A sequência do refrão “pelo sangue derramado, pelo sol da liberdade, sou o braço rebelado, manifesto a Mocidade”, com o trecho de estrutura de refrão, mas sem bis, “O mapa que vira, virou, refez o passado, independente não vai ser colonizado, o mapa que vira, virou, nos faz ir além, são outros quinhentos na Vila Vintém”, passou de forma explosiva. A narrativa é muito clara e inteligente, com versos como “quero meu povo em cada busto, nossa memória muito além do museu, nasci índio batizado, pois você brincou de Deus, vim pra retomar o que é meu”. A melodia não passeia tanto, mas é muito aguerrida e contribuiu para uma apresentação de destaque na noite.
Parceria de Jefinho Rodrigues: Wander Pires comandou o samba da parceria de Jefinho Rodrigues, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Estevão Ciavatta, Cleiton Roberto e Prof. Renato Cunha. Wander explorou uma melodia bem feita e com bonitas variações, como na segunda parte, no trecho “ginga no samba e na salsa, pra celebrar, tem colorido pra desnortear o teu olhar”, potencializando o desempenho da obra, que passou muito bem. O refrão principal, “Arriba la Mocidade, leva mi corazón, faz valer tua verdade, teu chão, mostra pro mundo o que só a gente tem, dale ritmo caliente, o molho da Vila Vintém”, teve bom desempenho. O refrão central, “o amor serpenteou, o vento anunciou, a luz tá no saber de Pachamama, Kosi Ewé, o que será do amanhã, se não reverdejar o Pindorama”, é muito bonito e outro destaque melódico da obra. A sinopse foi bem traduzida pelo samba, sobretudo na primeira parte.
Parceria de Paulo Cesar Feital: Zé Paulo liderou o samba de Paulo Cesar Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rozário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno. Uma apresentação de muita qualidade, carregada por dois excelentes refrões e uma letra visceral que captou bem o espírito do enredo. O refrão principal, “toca o agueré, pra fazer revolução, toca o agueré e respeita essa nação, o meu norte sempre foi nossa pátria mãe gentil, Mocidade Independente do Brasil”, é forte e gostoso de ouvir, tendo grande desempenho. O refrão central, “eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum, Caetés na Casa Branca, a Colômbia e o Peru, na soberania plena todos juntos somos um, Pindorama era o quilombo dos saberes de Ogum”, é menos explosivo, mas poético e também teve ótimo funcionamento. A segunda parte teve uma fluidez menor na melodia. Outro destaque narrativo é o trecho “os sabores do amor têm punhados de alegria, preparados no calor da rebeldia, peço ao Norte não repita o amargor de tanta ausência, no Brasil, meus companheiros são heróis da resistência”.
Parceria de Tim Maia Daflon: Rogerinho comandou a apresentação da parceria de Tim Maia Daflon, Waltinho Xavier, Léo Lopes, Italo de Bangu, Darlem Morais e Lauro Sena. O samba teve um desempenho mediano, com o refrão principal, “Nos caminhos de Oxóssi, vou com meu ziriguidum, pra vencer demanda Patakori Ogum, banho de erva o ancestral me ensinou, latinamente a Mocidade chegou”, mostrando mais fôlego. A melodia é pobre em alguns momentos e não se resolve, fazendo a obra passar de forma mais truncada. A narrativa não é tão poética, mas é bem feita em determinados momentos, como nos versos “a dança é flecha contra o mal, floresta é cura, não é capital, saberes milenares são heranças culturais, e cores que inspiram carnavais”.
Parceria de Ricardo Simpatia: Tem Tem Jr. defendeu a obra de Ricardo Simpatia, Rodrigo Medeiros, Cristiano Placido, Guto Listo, Flavinho Avellar e Samir Trindade. O desempenho foi irregular, com alguns momentos de arrastamento, como na segunda parte. O refrão central, “meu Brasil curumim, nosso verde em protesto volte a ser tupiniquim no meu canto manifesto”, segurou com mais qualidade, seguido de um lalalalaiá com melodia em alusão ao samba de 1987 sobre Tupinicópolis. A letra também seguiu a irregularidade presente na melodia, com algumas boas soluções, como na primeira parte, em versos como “a estrela da revolução segue a direção que Fernando Pinto sonhou, não me curvo a ninguém, vai Vila Vintém”. A segunda parte juntou soluções mais triviais com o curioso verso “Tia Nilda é melhor que Tio Sam”. O refrão principal passou sem maior brilho.
Parceria de Franco Cava: Tuninho Junior foi o cantor principal do samba da parceria de Franco Cava, Juca, Nito de Souza, Marcinho.com, Anderson Migão e Gule Machado. Um samba dolente que teve uma boa apresentação. O refrão principal, “de punhos cerrados pro céu, na boina, a estrela de Padre Miguel, alma latina de quem não se rende, avante, Mocidade Independente”, passou com boa fluência. O refrão central, “evoco os donos da mata, Jurupari é quem manda, enquanto o branco desmata, Tupana vence demanda, o sol de maio na pele marrom, Guantanamera é revolução”, teve um rendimento satisfatório, além de possuir uma melodia forte. O samba focou bastante nas ancestralidades negra e indígena que permeiam a maior parte da obra.
Parceria de Sandra Sá: Pixulé comandou o samba de Sandra Sá, Trivella, Tamyres Ayres, Bachini, Marquinho Lessa e Gordo de Muriqui. Outra apresentação de qualidade na noite, potencializada pelo desempenho do intérprete, que explorou as nuances melódicas que o samba possui. O refrão principal, “entra na roda, baiana, é o balanço no xirê, Vila Vintém nas cores latinas do Ará Ilê, perdoar é libertar, sem esquecer a ferida, Àse, ayô, vou lutar, dar a volta por cima”, é swingado e passou muito bem. O refrão central, “Ibà Onilê, Ibà Òrisà, o mistério sagrado reluz a riqueza da vida, como o curso de um rio que deságua na existência, cosmovisão ancestral, herança, vida, resistência”, tem variações melódicas bem interessantes. A narrativa abordou bem todos os pontos da sinopse, apesar de ter um foco maior na herança africana. A segunda parte disseca bem o enredo de forma mais diversa, como no trecho “quem não honra as raízes, não enxerga o amanhã, encontrei no chão da minha Mocidade o retrato da latinidade”.
Parceria de Beto Corrêa: Emerson Dias foi o intérprete principal da obra de Beto Corrêa, Piter Corrêa, Giacomo Gavazzi e Moleque Silveira. O samba tem uma estrutura narrativa mais coloquial, mas conseguiu retratar com alguma correção o enredo, principalmente na segunda parte, vide os versos “é a justiça invertendo a história, e que a labuta só nos dê prazer, deixar de lado essa força bruta, e aprontar tudo para o renascer”. A primeira parte acaba não tendo uma narrativa bem amarrada, com versos mais jogados a esmo. O refrão central, “ê fuzuê, fuzuê, fuzuá, nossa terra é Pindorama, onde canta o sabiá, ê fuzuê, fuzuê, fuzuá, sob a flecha de Oxóssi, Pachamama a nos guiar”, é um destaque do samba, que teve uma boa passagem.
Parceria de Santana: Dowglas Diniz e Leonardo Bessa defenderam o samba de Santana, Paulo Senna Poeta, Carlos Augusto, Saulinho, Edvaldo Lucas e Everaldo Silva. Uma apresentação que fechou bem a noite, com garra e uma melodia que sustentou a obra com valentia, bem conduzida pelos intérpretes. O refrão principal, “sangue latino revestido de alegria, até o fim demonstro minha identidade, o sol que brilha, amanhã, um novo dia, virei o mundo pela minha Mocidade”, passou com correção, mas o destaque maior foi o refrão central, “Okê, okê, okê arô, okê, okê, arô, se ontem eu fui a caça, hoje eu sou caçador”, cuja última frase traduz a ideia do enredo. O trecho passou com muita força. A narrativa tem um forte tom de bravura e resistência, misturando pitadas de irreverência, como nos versos “em cada canto um guardião, se quer me levar, vai ficar no cheiro, na essência de um batuque verdadeiro”.
A Acadêmicos de Niterói tem uma nova rainha de bateria para o carnaval de 2027. A atriz e empresária Thalita Zampirolli reinará à frente dos ritmistas da “Cadência de Niterói”, do mestre Demétrius. Thalita é mais um nome anunciado no elenco da azul e branca da cidade sorriso para o próximo desfile na Marquês de Sapucaí.
Reconhecida por sua forte ligação com a folia, Thalita chega à escola para construir uma relação ainda mais próxima com a comunidade, mergulhando na rotina da agremiação e participando ativamente dos ensaios, eventos e de toda a preparação para o desfile de 2027.
Celebrando 16 anos de trajetória e com uma trajetória consolidada no carnaval carioca, Thalita inicia essa nova fase cercada de expectativas e pronta para escrever mais um importante capítulo de sua carreira ao lado da Acadêmicos de Niterói.
A Estação Primeira de Mangueira deu início à sua temporada de escolha do samba-enredo para o Carnaval 2027 no último sábado, no Palácio do Samba, recebendo 10 obras concorrentes. A noite foi de boas apresentações, com sambas que já despontam na disputa, e teve a eliminação de quatro obras; seis seguem para a próxima etapa da eliminatória, marcada para o próximo sábado, dia 8 de agosto. A escola trará, em 2027, o enredo “Oyá Por Nós”, encerrando o carnaval na Marquês de Sapucaí. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre as apresentações das parcerias.
Parceria de Gilson Bernini: Pitty de Menezes e Ito Melodia abriram a noite defendendo o samba de Gilson Bernini, Beto Savanna, Xande de Pilares, Karinah, Felipe Mussili e Gustavo Clarão. Logo na entrada, a dupla trocou gritos de guerra; Ito fez “o sonho virou realidade” e Pitty respondeu com sua icônica gargalhada; um início que já introduziu bem a obra. O refrão principal, “Toca o aguerê, vim pra guerrear / Queima no dendê Epahey Oyá / Oyá por nós minha mãe com o seu axé / Mangueira é terreiro de candomblé”, é o momento de maior força vocal do samba. O canto atinge sua maior intensidade justamente quando o samba sintetiza o enredo de 2027: a Mangueira se afirmando como escola que celebra sua ancestralidade e seus fundamentos. O refrão do meio, original e criativo, já prepara esse desfecho ao tratar da questão ritual do candomblé antes de assumi-la como fundamento da Estação Primeira. Merece destaque também os versos “Voa no rosa do amanhecer / Pousa no verde sagrado de Ewé / Preta do ventre de Oyá / Não vai se curvar”, de beleza poética e de encantamento. De modo geral, é um samba com bastante margem de crescimento: tem bom refrão principal, refrão do meio original e dois intérpretes de peso; falta ainda ganhar aquela “ventania” de arrastar o canto do início ao fim, efeito que por ora só aparece no fechamento.
Parceria de Chacal do Sax: Lissandra Oliveira, Juan Briggs e Tinguinha, este substituindo Pixulé, ausente na apresentação, defenderam o samba de Chacal do Sax, Verônica dos Tambores, Laura Roméro, Rafael Capiberibe, Giovani e Ronie Machado. O trio manteve uma performance vocal com boa regularidade: a letra chegou bem articulada e compreensível em toda a sua extensão. O refrão do meio é o primeiro momento de crescimento do samba, bem cantado e contagiante, e cumpre três funções: saúda [Iansã/Oyá], reconhece a filiação do mangueirense com a orixá, e evoca a força da guerra, da bravura e do amor, tocando também na relação com Xangô. O pré-refrão principal, “Quando ela passa, nada fica no lugar! / Incendeia, mãe! Incendeia! / Eu não seria nada sem Oyá! / Quem é do fogo tem dendê na veia!”, reforça essa mesma ideia do atributo de Iansã, a ventania que não fica parada, reverenciando a filiação e preparando um canto aguerrido para o refrão principal, que chega como uma saudação em tambores e também tem bom desempenho. Na avaliação geral, é uma passagem regular, com bons momentos nos dois refrões. Vale destacar também que esta foi uma parceria bem cantada por alguns segmentos da escola.
Parceria de Arlindinho: A torcida já cantava a obra antes mesmo do início da apresentação, e o samba se consolidou como a segunda parceria mais cantada da noite. Composto por Arlindinho, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto, Paulo César Feital e Igor Legal, e defendido por Evandro Malandro, Bruno Ribas, Thiago Acácio e Vitor Cunha, com a participação da cantora Majur, presente também no clipe de divulgação da música. É um canto potente, sustentado por vozes fortes, com uma vitalidade que se percebe não só na letra, mas sobretudo na interpretação: o samba já nasce grande e se mantém vibrante ao longo de todas as passadas, sem um momento isolado de explosão porque é constante desde o início. Essa qualidade “ventada”, dialoga diretamente com o atributo de Iansã, orixá da guerra e da ventania. Entre os versos, a transformação poética “na fúria de um furacão a fera vai se transformar asas de LÁBÁ-LÁBÁ” sintetiza com beleza a multiplicidade de Oyá. O pré-refrão “Dobra o Adarô…” retoma o toque dos tambores e prepara o refrão principal, que reconhece a filiação mangueirense com Oyá e situa a quarta-feira, dia dedicado à orixá, como o mesmo dia em que a Mangueira desfilará, fechando o carnaval. Essa relação amplia a força do samba não só em relação ao enredo, mas ao momento do desfile em si. A interpretação de Evandro Malandro dá uma identidade muito própria à obra, que teve um desempenho excelente nesta primeira apresentação.
Parceria de Gustavo Louzada: Uma torcida presente cantou com regularidade ao longo da apresentação, que teve em Zé Paulo Sierra a voz principal, numa passagem leve e de andamento tranquilo. Composto por Gustavo Louzada, Dulce Santos, Alexandre Naval, Valtinho Botafogo e Raimundo Santa Rosa, o samba mantém uma constância ao longo das passadas, sem um momento de pico, cumprindo sua função de forma correta. Destaque para a equipe de cordas, que nas primeiras passadas, ainda sem a bateria, construiu um fraseado musical bonito, em diálogo com as vozes. Uma apresentação sem grandes sobressaltos.
Parceria de Bete da Mangueira: O samba tem nos versos “Deixa chover, deixa ventar / Relampejou, Òrum a clarear / Trazendo àse ao povo vem chegando a Verde e Rosa / Saudações Oyá” o seu momento de maior força. É um trecho bem cantado, que anima e faz o samba crescer. O restante da obra, no entanto, mantém uma regularidade mais discreta, sem alcançar a mesma empolgação nas demais passagens, o que deixa a apresentação menos nítida como um todo. Composto por Bete da Mangueira, Jorge Luiz da Mangueira do Amanhã, Denise Mineira, Vera de Jesus e William César, é também um dos sambas da noite que menos se apropria do enredo e o transforma em termos poéticos; um ponto que vale reflexão, já que a poética é um dos subquesitos de samba-enredo.
Parceria de Lequinho: Foi a torcida que mais cantou na noite; os cantores e a equipe de cordas ainda se preparavam no palco quando a quadra já cantava o refrão principal do samba em alto volume. Composto por Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim, o samba foi defendido por Tinga. O refrão do meio, “Iyá mesan orun… / treme-terra desce o morro, sobe o rum… / é guerra bate o oguê que o sangue tem dendê / tá pra nascer quem manda nela”, é um dos trechos de maior força, cantado com intensidade. A letra reúne frases marcantes que evocam nos atributos de Oyá questões sociopolíticas brasileiras; a intolerância religiosa, no verso “Quem tem fé na quarta-feira sabe que eu não ando só, o Brasil da intolerância eu despacho no ebó”, e a afirmação da mulher frente ao machismo, em “Por que não existe macho que levante a mão pra mim é que eu sou preta, macumbeira e de Oyá”. Esses versos-síntese funcionam como ganchos que facilitam o aprendizado do canto já na primeira escuta, dando ao samba um vigor constante. O refrão principal, “OYÁ TETÊ / OYÁ TETÊ OYÁ / OYÁ TETÊ OYÁ MANGUEIRA YABÁ / Ê MAMÃE, TRAZ DE NOVO TEU AXÉ / RELAMPEJOU PRA VITÓRIA / MOTUMBA LÈ”, faz a Mangueira explodir com a torcida e os intérpretes cantando em alta intensidade; mérito de Tinga, que puxa o samba para frente mesmo com a quadra já inflada. Fica uma ressalva para reflexão: por já nascer tão explosivo e “para frente”, o samba corre o risco de, se não for bem trabalhado nas próximas etapas, perder essa força ao longo das eliminatórias. Ainda assim, é seguramente uma das grandes obras dessa safra da Mangueira para 2027.
A comunidade do Tucuruvi encheu a sua nova quadra, localizada na Rua Manuel Gaya, na noite do último sábado, para prestigiar a final de samba-enredo, além de torcer pelo seu favorito. O evento contou com a presença da coirmã Mocidade Alegre, que levou a comunidade em peso para fazer a festa e abrilhantar ainda mais a festa no local do “Zaca”. Após a apresentação da Morada do Samba, chegou o aguardado momento dos quatro sambas finalistas se apresentarem no palco. Todas as parcerias levaram grandes torcidas e nomes consagrados para comandar os microfones, como Fredy Vianna, Pixulé, Celsinho, Darlan Alves e Luiz Felipe. Seis passadas, sambas iorubas, pirotecnia, bexigas e papéis picados fizeram a festa do povo. Contudo, o primeiro samba a se apresentar se sagrou o campeão. O time número 7, que tem como compositores: Thiago Meiners, Thiago Morganti, Claudio Mattos, Sukata, Wilson Mineiro, André Valencio, Ítalo Pires, André Aranha, Serjão Português, Thiago Piccirillo, Don Souza, Daniel Tubino e Rafael Tubino.
“É uma emoção muito grande. A gente ficou afastado da escola por um tempo. O último samba que vencemos aqui foi em 2017, depois acabamos nos afastando. Mas temos uma história muito bonita com a escola, uma relação de cumplicidade maravilhosa desde 2002. Estamos aqui participando há muitos anos. Com essa nova gestão, do Rodrigo Delduque, surgiu a oportunidade de voltar. Em 2017 já tínhamos vencido e agora retornar e conquistar mais um título é uma satisfação imensurável. É muito gostoso estar aqui, ser bem recebido por uma escola familiar, com uma comunidade maravilhosa. Também quero parabenizar todos os compositores. Eu sei que uma derrota é difícil de assimilar. A gente trata o samba como um filho, então perder nunca é fácil. Mas, graças a Deus, hoje saímos vencedores dessa competição”, disse Turko, um dos compositores da obra.
Com termos iorubás, o poeta contou que a feitura do samba exige, mas não foi difícil, pois a escola vem pedindo essa abordagem nos últimos anos. “A escola adotou esse estilo de samba com uma linguagem mais elaborada, que encanta e exige um pouco mais do público. São muitas palavras de origem iorubá, muito ligadas ao enredo. O processo acaba sendo natural. A gente busca utilizar essas expressões, essas palavras de origem africana, sempre dentro do contexto do enredo. E, felizmente, fomos campeões”, completou Turko.
Composição de várias localidades e facilidade na escrita
Outro autor da trilha-sonora, André Valencio revelou que a parceria é formada de compositores de várias regiões do Brasil e, de acordo com ele, facilita o processo de composição. “É um sentimento um pouco diferente, porque, apesar de a gente já ter disputado algumas vezes aqui, foi relativamente no passado. A gente ainda está novo, cru na escola. A gente gostou muito do enredo, então isso chamou a nossa atenção. O samba saiu muito rápido, porque realmente foi uma coisa muito marcante para nós. E como a nossa parceria é multifacetada, tem gente de vários lugares do país: tem gente da Bahia, tem gente do Sul, tem gente do Rio. Isso facilita, de certa forma, apesar da distância, porque as ideias vêm de vários lugares diferentes. Então isso acaba contribuindo para que grandes obras saiam, graças a Deus. Esse é o nosso quarto samba no Grupo Especial este ano e, se Deus quiser, com mais alguns por vir”.
Gustavo Lima e Almir Aprígio
Com as palavras em iorubá, André Valencio falou sobre a tranquilidade de abordar tal fato, devido a experiência que vem tendo na Barroca Zona Sul nos últimos anos. “Graças a Deus, um pouco da nossa experiência com a própria Barroca, onde já são alguns anos fazendo samba com esse tipo de linguajar, ajudou bastante. Para a gente, graças a Deus, não foi nenhuma dificuldade trabalhar com isso. Estamos no território que a gente gosta”.
Elencando a parte favorita da obra, André citou o refrão. “A minha parte favorita, na verdade, é a força do começo: ‘Nessa terra, nesse ayê, o meu samba tem poder’. Isso é muito forte. Parece que você está chamando a galera para entrar junto, com lança, com tudo. ‘Vamos para a guerra!’. É muito legal. A que eu mais gosto, na realidade, é essa do começo”.
Samba adequado ao enredo e trabalho com a comunidade
Exaltando a obra, o presidente Rodrigo Delduque diz que combina completamente com o tema e agora a missão é passar todo o contexto para os componentes. “É um samba muito pertinente ao enredo, que nos dá muita segurança. Agora vamos reescrevê-lo e entrar em estúdio. Tenho certeza de que os profissionais vão conseguir entregar para nós um samba memorável, assim como os últimos que passaram pela escola; Desde que decidimos abordar a profundidade da religião de matriz africana, sabemos que precisamos passar isso para a comunidade de forma pedagógica, mostrando como é feito e de que forma é desenvolvido. Hoje temos o nosso babalaô nos auxiliando sempre”.
Explicando o formato de trabalho, o dirigente revelou que primeiro é feito um trabalho de canto, e que a comunidade tem pedido cada vez mais este formato de enredo. “Realizamos um trabalho de harmonia inicialmente com o time de canto. Só depois levamos todo esse conteúdo teórico para a prática com a equipe de harmonia. Tem dado certo, tem dado resultado. A escola já fica sedenta por enredos afro, por palavras em iorubá. Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Assim que termina um carnaval, eles já querem saber qual será o próximo enredo. Talvez, se não houvesse nenhuma palavra em iorubá no samba, nem fosse ficar com a cara da comunidade”.
Sobre a reunião de decisão, Delduque contou que a escolha foi feita democraticamente. “A maioria decidiu, a maioria aclamou. Ouvimos todos os segmentos, ouvimos todos os quesitos e, graças a Ifá e Exu, conseguimos escolher um samba que tenho certeza de que ainda vai crescer muito mais”.
Clima da final e samba dentro da sinopse
A estreante porta-bandeira no Tucuruvi, Sofia Nascimento, elogiou a obra escolhida, dizendo que estava condizente com a sinopse. “É um samba que estava muito alinhado com a sinopse, com tudo aquilo que o carnavalesco propôs junto ao nosso pai Maurício. Então, estamos muito animados. É um samba que todos nós gostamos. Somos suspeitos para falar de cada um, porque acompanhamos todas as obras, ouvimos cada samba e analisamos com muito cuidado. Como eu sempre digo, a gente gosta de estudar. Pegávamos cada samba, comparávamos com a sinopse e avaliávamos como ele se encaixava no enredo. Agora é trabalhar, fazer alguns ajustes para a nossa coreografia e seguir com o projeto”.
O mestre-sala Luan Caliel exaltou o clima da final, e também demonstrou muito conhecimento ao tema. Eu adorei. Achei o clima muito legal. Este ano tivemos várias parcerias muito boas, muitos sambas que conseguiram traduzir o enredo. Todas as parcerias apresentaram um belo trabalho, trouxeram suas torcidas e deram aquele calor que uma final precisa ter. Como a Sofia comentou, o samba vencedor está muito conectado ao enredo. Ele conta muito bem os quatro setores da escola: começa com uma saudação ao Ilê, passa pelo segundo setor, com Ilê e Fé, abordando um pouco sobre o Ògbóni; depois apresenta os cultos e faz o fechamento da narrativa”.
Forte trabalho e os próximos passos
Aprimorando o discurso do presidente, o diretor de carnaval, Raphael Hungeria, disse que é uma obra cabível ao enredo, mas que foi uma escolha difícil devido a qualidade da disputa na final. “É um samba que realmente entrega tudo o que a gente imagina em termos de plástica e também aquilo que a sinopse que os meninos criaram propõe. Para a gente, foi uma escolha muito complicada e difícil, mas tenho certeza de que, agora, trabalhando esse samba com o restante da escola, vamos fazer um trabalho de ensinar o pessoal passo a passo, palavra por palavra, para que ele cresça ainda mais e esteja com a gente no Anhembi, levando mais um ensinamento, mais uma aula da Tucuruvi para todo mundo”.
Dentro do processo de ensinamento para a comunidade, Raphael revelou que são muitos detalhes explicados e todos os segmentos participam. Não é algo apenas cantado, e sim o contexto deve ser entendido. “A gente vem trabalhando isso desde o ‘Ifá’. Mesmo a ‘Assojaba’ já tinha algumas palavras em iorubá. A gente traz a comunidade para dentro da escola. Primeiro, reunimos os setores e os quesitos e fazemos uma verdadeira aula, bem didática. Sentamos com o pessoal, lemos o samba, explicamos cada palavra, mostramos o significado e fazemos com que eles entendam exatamente o que estão cantando. Assim, quando estiverem ensaiando na quadra, na avenida e, principalmente, no dia do desfile, isso já será algo natural, sem nenhuma novidade. Trabalhamos de forma muito didática com todos, do primeiro ao último componente. O Hudson participa, o Serginho participa, a direção de carnaval também faz parte desse processo. Toda terça-feira ensaiamos com eles aqui: primeiro sentados, lendo a letra; depois em pé, andando e fazendo movimentação, junto com a bateria. É assim que buscamos alcançar o resultado que queremos e conquistar a nota que tanto almejamos no dia do desfile”.
O profissional revelou os próximos passos do Tucuruvi. Segundo ele, a escola está preparando principalmente uma festa dos protótipos que acontecerá em breve. “Agora, os próximos passos da escola são dar sequência ao planejamento. Vamos realizar a Festa dos Pilotos, que será um grande evento, e vocês já estão convidados. Assim como estiveram conosco na Fábrica do Samba e puderam ver parte do trabalho, em setembro teremos essa grande apresentação. Vou até dar um spoiler: os pilotos já estão todos prontos. Estamos muito contentes com o resultado, muito felizes. O presidente aprovou todos os pilotos desenvolvidos pelos carnavalescos. Vamos fazer essa festa justamente para mostrar tudo ao público e para que vocês tenham a certeza de que aquilo que estamos cantando vai aparecer na avenida exatamente como foi imaginado, em fantasias e alegorias”.
Conduzir o crescimento
O carnavalesco Nicolas Gonçalves destacou a emoção de acompanhar o crescimento da Acadêmicos do Tucuruvi e a responsabilidade de conduzir a escola nesta ascensão. “É uma realização para a escola. Estou há três anos na Tucuruvi e, nesse período, vivemos três anos com grandes sambas. É uma alegria chegar ao terceiro ano e ver obras que já haviam participado de outras disputas continuarem conosco, além de uma nova parceria conquistar o campeonato. Isso mostra a força da safra de sambas da Tucuruvi. Quando uma parceria nova vence, também demonstra o quanto a escola está engajada em buscar sempre o melhor para a agremiação. Independentemente de qual samba fosse escolhido, o objetivo era fazer um grande Carnaval. E tenho certeza de que fizemos a escolha da melhor obra para o momento da escola”.
O artista falou sobre a energia da Tucuruvi, além de revelar que a escolha da obra foi pensada na proposta do carnaval que o ‘Zaca’ irá fazer. “A escolha do samba já foi pensada dentro da construção do desfile. Quando desenvolvemos a parte visual, ainda não tínhamos a ordem definida, mas, pelo fato de termos conquistado o acesso, já existia a expectativa de que poderíamos encerrar o Carnaval. Todo o projeto foi desenvolvido considerando essa possibilidade. E não apenas pela posição de desfile. Em 2024, com o enredo sobre ‘Ifá’, encerramos o desfile no Anhembi com a arquibancada cheia e uma energia muito forte. Acredito que com Ògbóni vamos manter essa vibração. O resultado de Ifá não foi o que esperávamos, mas tenho confiança de que Ògbóni pode nos levar a um resultado diferente”.
Surpresas na bateria para o desfile
O mestre Serginho revelou que a ideia da “Bateria do Zaca” é começar a trabalhar já a partir de segunda-feira. “A gente sempre espera o samba vencedor para começar a pensar. Na segunda-feira já começamos a definir como será o trabalho e, na quarta, nos reunimos para iniciar os arranjos. Agora não tem mais volta. Esse é o nosso método de trabalho. Preferimos esperar o fim da eliminatória para tratar todos os sambas da mesma forma, com o mesmo cuidado. Agora o samba da Tucuruvi está definido. A partir de segunda-feira começa o trabalho de verdade”.
Em 2024, a bateria de Serginho teve o seu melhor ano desde quando ele assumiu em 2020. Com um enredo afro, uma bossa longa feita com apagão e atabaques se notabilizou e foi reconhecida por todo o carnaval. O mestre revelou que em 2027 também terá surpresas. “Assim que terminou a disputa, antes mesmo de descer a escadaria, o pessoal já veio perguntando: ‘Vamos colocar aquelas paradas?’. E vamos, sim. A ideia é fazer algo bem diferente. Você se lembra que eu falei isso naquele ano, e o resultado foi diferente. Agora estou dizendo de novo: vamos preparar algo fora da caixinha. Ainda estamos definindo como será, mas uma coisa já está decidida: teremos três bossas. Uma será voltada ao enredo, outra à escola e a terceira vai explorar a afinação da bateria. Isso já estava definido, independentemente de qual samba fosse escolhido. Queremos fazer algo inédito, começando com uma introdução diferente de tudo o que já apresentamos. Agora é trabalhar com calma. Amanhã a rapaziada descansa e, na segunda-feira de manhã, o Hudson já vai querer saber por onde começamos. A ansiedade é grande, mas tenho certeza de que o resultado será muito bom”.
Projetando um grande desfile
Enaltecendo a força do samba-enredo, o intérprete Hudson Luiz projeta um desfile grandioso da Tucuruvi com a obra escolhida. “Graças a Deus, pudemos receber grandes obras durante todo o processo de escolha do samba-enredo. Foram quatro grandes sambas finalistas e, agora, começamos a trabalhar mais um grande samba. Posso dizer que sou um cara abençoado. Nessa sequência, de ‘Ifá’ até ‘Ogbodirin Ogboni’, tive a oportunidade de cantar quatro grandes sambas e, graças a Deus, todos me renderam premiações. Tenho certeza de que este também é um grande samba, que vai embalar a nossa escola com muita força rumo a mais um grande desfile”.
No carnaval paulistano, é sempre um desafio fechar um dia de carnaval, pois a noite é longa, e o intérprete recebe um desafio a mais. Porém, para o cantor, não é um problema. “Eu gosto de fechar o carnaval. Na verdade, no Rio de Janeiro existe essa cultura de encerrar os desfiles. Em São Paulo era um pouco diferente, mas acredito que isso vem mudando. Não sei se antes de ‘Ifá’, mas, a partir dali, percebi que muitas escolas passaram a querer fechar o Carnaval. Isso não me incomoda, pelo contrário. A Tucuruvi vive um momento de crescimento e, quando falo em crescimento, é mesmo considerando o rebaixamento. Nós entendemos os nossos erros, mas também sabemos que houve situações que não dependiam apenas de nós. De qualquer forma, seguimos evoluindo. Encerrar o carnaval é algo tranquilo para a gente, porque temos um grande samba, sabemos que vamos apresentar um grande desfile e temos certeza de que o Anhembi estará esperando a Tucuruvi para mais uma grande apresentação. Acho que fechar o carnaval será como encerrar a festa com chave de ouro, vendo a Tucuruvi naquele lindo amanhecer do Anhembi”.
Seguindo a linha de explicação do presidente e do diretor de carnaval, Hudson falou sobre a dinâmica de trabalhar a obra com a comunidade. “Esse samba vencedor tem uma característica interessante: ele possui menos palavras em iorubá do que os demais finalistas. Agora vamos fazer os ajustes necessários e, em seguida, iniciar um trabalho com a comunidade. Vamos realizar encontros para a leitura e a oralidade do samba, explicando o significado e a pronúncia correta das palavras em iorubá. A partir daí, vamos transmitir esse conhecimento aos componentes, aos segmentos e a todos os desfilantes. Fizemos esse trabalho em Ifá e deu muito certo. Repetimos em Asojaba e também tivemos um excelente resultado. Esse será o nosso próximo passo: finalizar o samba e levá-lo para a comunidade, para que todos tenham segurança ao cantá-lo”.
A Imperador do Ipiranga definiu na noite do último sábado o samba-enredo a ser entoado pela escola no Carnaval 2027. O enredo “Xetruá, Boiadeiro! A Saga de Fé e Luz no Cruzeiro de Bom Jesus da Lapa”, já possui música. Os compositores Xandinho Nocera, Nando do Cavaco, André Filosofia, Daniel Covo, Vinícius Nobre, Alcides Jr, Dr Édson, Diley Machado e Ronny Potolsky, assinam o antigo samba 02, agora chamado de samba-enredo oficial da escola para o próximo desfile. A obra vencedora mistura uma série de elementos que o amplo enredo propõe, ao reconectar balanço, história, lirismo, regionalismo e samba em um mesmo balaio digressivo. Presente na final, o compositor Xandinho Nocera explicou ao CARNAVALESCO sobre a construção dos elementos melódicos no samba.
“A parte do sertão tem um tom mais de lamento. E um destaque ao nosso parceiro Nando do Cavaco, que ajudou muito nessa construção melódica. Essas nuances na parte do ‘vaqueiro, vaqueiro’, são construções harmônicas dentro da nossa parceria. A gente tentou explorar as ruas nordestinas. Tanto que esse refrão de meio, eu falei, ‘ó, e se o refrão de meio a gente fizesse um xote? Um forrozinho?’ Aí o Daniel disse: ‘Para que eu tenho uma ideia de letra’. Ele veio com o vaqueiro, pôs a ideia, a gente lapidou, ajustou e saiu o refrão. E assim como na primeira, ele sai com um tom mais de lamento, que é o povo do sertão que pede clemência, a gente tentou ajustar melodicamente cada parte do enredo no trecho, colocando a parte afro na segunda do samba, que para mim é uma parte de muito destaque. É um samba com um DNA de Imperador. Eu falo que é um samba com a cara da Imperador, com a cara dos melhores sambas da Imperador, que são sambas em tom menor, um samba valente, que a gente fala que é para cantar de braços abertos e de olhos fechados. É esse samba aí”, exemplificou.
Fotos: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO
Outro dos compositores que celebrou na quadra do Ipiranga foi Daniel Covo. Profundamente emocionado com a vitória dessa parceria, o compositor destacou a riqueza teológica que o enredo concedeu aos compositores, e sua experiência pessoal neste processo.
“Eu sou da religião. Eu sou um umbandista. Eu já conhecia um pouco da história do Seu Boiadeiro. A sinopse veio bem detalhada para a gente, e tivemos facilidade de encaixar as ideias poéticas do Xandinho dentro da história do Seu Boiadeiro, com alguma contribuição nossa. A partir do que a gente imagina, do que a gente escuta também dentro do terreiro, e acabou nisso. A teologia, eu estava até comentando com o Xandinho hoje. A gente é compositor, e ao receber a sinopse, já queremos sair fazendo samba, às vezes sem falar sequer com o carnavalesco. A gente já estava com o samba praticamente pronto. Quando o Anselmo fez a explanação e passou a parte da segunda, percebemos que nossa segunda estava invertida, ou seja, não estava na ordem cronológica dos orixás. Me deitei; orei para meus orixás, acordei de madrugada e refiz a segunda na ordem que meus orixás passaram para mim. Isso é muito da miscigenação do povo brasileiro. Eu aqui, alemão; minha esposa negra, e minhas duas filhas mestiças. Isso é o Brasil. Isso é Imperador do Ipiranga! E isso é o carnaval. Estou muito feliz, e não tenho nem palavras para expressar”, complementou.
Voz do samba-enredo
Antes de a comunidade conhecer o samba-enredo, a cerimônia trouxe uma musicalidade incomum nos sambas Brasil afora. Com a presença de um berrante, que deu som ao enredo e simbolizou o boiadeiro como um raiar de letra e música para o pavilhão, o instrumento cumpriu o papel de um sino que anuncia e de um rufo de tambor que cria suspense. Na sequência, quando a comunidade esperava ansiosamente, o intérprete oficial, Helber Medeiros, mostrou que entende do palco, ao conduzir o Imperador do Ipiranga para o clímax que uma final de samba-enredo representa. Autêntico, presente e enérgico, foi e será na voz de Helber, que a poesia afro-sertaneja e melodiosa ganhará sentido, força e identidade. O cantor refletiu sobre a potente final, e sintetizou tecnicamente o quão equilibrado e plural o samba vencedor é, além das abordagens possíveis para sua interpretação.
“Primeiramente, eu quero agradecer a todos os compositores. Faz três anos que a Imperador do Ipiranga não fazia concurso de samba-enredo. Tivemos uma safra muito bacana. Tínhamos três sambas muito bons na final, e com três vertentes diferentes. É muito bacana poder analisar três vertentes diferentes. O Samba 01, mais curto e para cima; uma melodia muito gostosa de ser cantada. O Samba 02, uma vertente de melodias diversas. Você começa, cai, volta e o refrão explode! E o samba 08, mais um samba gostoso de ser cantado. Foi bem difícil lá na salinha. Demoramos, mas por democracia, o pensamento da Imperador do Ipiranga, que patinava um pouco nessa questão do samba enredo, hoje partiu para um samba exatamente disso: um samba completo que fala de tudo do enredo. Tudo que você olhar na avenida, você vai ver nesse samba. O nosso desfile, você ouve no samba. Foi o que mais chamou a atenção e por isso escolhemos esse samba, justamente por ser um enredo complexo. Eu passei a sexta-feira no estúdio, do meio-dia até às 18h, fazendo laboratório para os três sambas. Eu baixei meio tom do samba campeão para caber na minha textura. Começamos falando do sertão, e trabalhar com vibrato é algo que uso pouco. Eu trabalho mais com a voz aguerrida. A gente começa a falar de religiosidade na segunda do samba. E para nós não perdermos essa garra, vamos manter a sonoridade guerreira, sem essa questão do vibrato. Trabalharemos um pouquinho daquela questão do sertão, porque falamos do Boiadeiro, e precisamos dessa identidade. Esse sertanejo no começo, e depois a parte mais aguerrida; até a subida do samba. Vamos trabalhar essas duas vertentes”, garantiu.
Da música para o desfile
O desfile da escola, marcado para 30 de janeiro de 2027, terá como carnavalesco um velho conhecido. Anselmo Brito retorna à escola azul e amarela para contar a história do Boiadeiro. O artista esteve na finalíssima e elaborou para o CARNAVALESCO sobre a excelência do samba e a vasta dimensão, tanto na espiritualidade quanto na parte artística que o enredo e seu novo samba carregam.
“Imperador do Ipiranga teve a grata surpresa de ser contemplada com uma grande e fantástica obra. O nosso enredo é um leque de possibilidades. Por quê? Porque eu venho contando a saga de um espírito mesmo, que é do Seu Boiadeiro. E eu tenho muita ligação com ele. Eu tenho uma ligação muito espiritual e, quando esse tema chegou na escola, ficou muito claro que a gente queria o quê? Apresentar a história. Não somente a história do espírito, mas o que levou esse espírito a chegar nesse plano espiritual. Nós vamos fazer uma viagem e, nessa viagem, o que nós pedimos para os compositores era que apresentassem uma obra de caminho, de que ele foi um vaqueiro, e que ele viveu no Nordeste, numa região seca e castigada. E, como nós, também um devoto de Bom Jesus da Lapa. Essa história se baseia na espiritualidade dele até chegar nesse plano espiritual. O samba realmente está enquadrado nessas possibilidades. Uma melodia fácil para se cantar, e tecnicamente, fazer a nossa escola trazer nota em evolução e em harmonia”, projetou.
Primeiros passos
Quando o Sambódromo do Anhembi receber o Imperador do Ipiranga para o desfile, o samba-enredo terá a companhia da comissão de frente, que dará os primeiros passos, artísticos e cênicos na avenida. Responsável por este segmento, o coreógrafo Diego Costa, conjecturou a maneira que a música e o enredo dialogam com suas ideias para o Carnaval 2027.
“É interessante, porque fazendo uma analogia com o enredo do ano passado do Ibeji, onde eu estive à frente como diretor de carnaval, esse projeto de 2027 não foge muito, porque o samba tem uma letra mais extensa, mas está contando e narrando perfeitamente o nosso enredo. Não é uma narração em primeira pessoa. Ele está contando a história. A gente começa ali o desfile mesmo! Vai começar com o Nordeste, com a procissão da cidade de Bom Jesus da Lapa, que é a maior procissão que tem no estado da Bahia. E aí, o que que acontece? A gente vai contar sobre a história do Boiadeiro; da entidade deste Boiadeiro. Ele era o chefe dos vaqueiros e vai em busca do seu grande amor, marinha; até ele morrer e passar para o próximo plano. E nessa chegada ao próximo plano, ele vai encontrando orixá por orixá, até chegar no final e acontecer aquela grande gira no terreiro de Aruanda. É um enredo muito fácil e muito autoexplicativo. Vamos iniciar com o Nordeste, o sertão e a seca. Falaremos da flor na procissão, a Romaria até o segundo plano, na parte dos orixás. No ano que vem, vai ser muito fácil de vocês baterem olho e entenderem qual é a proposta da escola”, afirmou.
Ainda sobre os impactos técnicos que o samba-enredo provoca nos passos da escola, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Nogueira e Dani Motta, salientou como eles vêm trabalhando em torno deste enredo e suas impressões sobre o samba campeão da comunidade ipiranguense. O desenho dos movimentos obrigatórios já havia começado e, para Matheus, a melodia é um formidável destaque.
“A gente vem trabalhando desde maio. Agora que o samba saiu, vamos colocá-lo em cima do nosso desenho de pista. É uma melodia gostosa, com as letras espaçadas e sem aquele atropelamento. Vai ser bem funcional para a Imperador do Ipiranga”, opinou o mestre-sala.
Com um pouco mais de spoiler sobre aquilo que casal prepara, a porta-bandeira Dani Motta, observou a criatividade possível dentro do regulamento, além de um gracioso pitaco sobre o andamento do samba vencedor.
“A gente já tem praticamente fechada a nossa apresentação de jurado. Agora, o regulamento da liga pede um movimento cenográfico. Por isso, tem tudo a ver a gente conseguir colocar os elementos que caracterizam o Boiadeiro, o sertão e todos os elementos que acompanham o nosso samba. Vai ficar bem bonito! Já está bem bonito. O samba-enredo casa com a bateria; ficou numa levada muito legal. Agora vamos abraçar o samba e, se Deus quiser, é o samba que vai ser campeão com a Imperador em 2027”, esperançou.
Por falar em bateria
Recém-chegado no Imperador, Wasni Oliveira, o mestre Pelé, fez um apanhado sobre o processo da escolha do samba-enredo da escola. Suas preocupações voltadas ao andamento durante as eliminatórias, e suas percepções iniciais sobre como o samba-enredo escolhido pode dialogar com a identidade da bateria “Só Quem É”.
“Eu procurei me manter mais centrado no andamento, porque foram 36 sambas inscritos. Eu tive que escutar muitos sambas para poder julgar e para poder dar meu voto. Eu procurei entender melhor as melodias e a sinopse do que me apegar. Esse samba tem uns pontos de xote afro. Agora sim, eu vou parar, pegar o samba, dechavar ele todinho na minha mente e entender onde pede o quê. O que precisa? Onde é carreteiro, onde é ‘telecoteca’, onde é forró, onde é afro. Agora sim, eu vou entender. Com calma, eu vou fazer esse trabalho para ajudar a escola, para que a escola evolua e a comunidade cante. Para que a criançada se emocione e para que a harmonia também se dê bem. A partir de agora, começa o trabalho”, revelou.
Palavra do presidente
O presidente do Imperador do Ipiranga, Renato Ribeiro Filho, o Neto, saudou a qualidade e relevância de todos os sambas-enredo que participaram da seletiva, em especial os três finalistas. Ao comentar o quão difícil foi a decisão tomada pela escola, ele relembrou o significado profundo do enredo para a trajetória da agremiação.
“Todos os sambas estão em um nível muito alto e similar. Infelizmente, apenas três foram para a final. Eu vou falar logo. A verdade é que foi muito difícil escolher, porque estavam muito bons. Não tínhamos favoritos e foi uma briga boa para decidir, e quem ganha é a Escola. Eu escolhi esse enredo em homenagem à uma pessoa que é o patrono da escola. Se essa escola hoje está aberta, é por causa dele. É uma homenagem ao meu padrinho e o patrono da minha escola”, reforçou.
Representando a Comissão de Harmonia da escola, Luciana Marcondes, dividiu com o CARNAVALESCO como a diretoria tratou a disputa do samba-enredo, além de traçar sua perspectiva sobre o trabalho daqui em diante, e suas afinidades com o samba que a escola, enfim, levará ao Anhembi.
“Acreditamos desde o começo. Nós recebemos diversos sambas, e houve uma audição interna com muito estudo. Trabalhamos em cima da sinopse, e tentamos ser absolutamente técnicos, no sentido de fazer o melhor para a Imperador. Nós queremos muito! A gente quer brigar para voltar para o especial. O trabalho precisa ser sério, rico em pesquisa e tudo o mais. Temos um carnavalesco próximo, a diretoria acreditando no trabalho da harmonia muito forte, e pesquisa e trabalho andando juntos. O samba é muito completo, de uma forma rica e de acordo com a sinopse. Ele vem com propriedade de letra! Ele tem uma melodia muito boa. Acreditamos que é importante a gente vir com uma melodia para a frente. Queremos a Imperador cantando; a arquibancada cantando. A Imperador é uma escola especial, e não faremos um desfile morno. Precisa ser um desfile para passar de verdade, e transmitir o nosso recado”, encerrou.