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Freddy Ferreira analisa a bateria da Mangueira no desfile no Carnaval 2026

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Um grande desfile da bateria da Estação Primeira de Mangueira, sob o comando dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto. Um ritmo com andamento bem confortável, limpeza rítmica e excelente fluência entre todos os naipes foi apresentado. Tudo junto de um conjunto de bossas que de tão musical pode ser considerado simplesmente primoroso. Uma bateria da Verde e Rosa que atrelou a cultura amapaense a sua sonoridade, vinculando seu ritmo ao tema da agremiação do morro de Mangueira.

Na parte da frente do ritmo da Verde e Rosa, uma primeira fila de xequerês deu brilho sonoro às peças leves junto de uma consistente ala de cuícas. Um naipe de ganzás de grande qualidade se exibiu de modo ressonante. Uma ala de tamborins impressionante exibiu um desenho rítmico complexo e de difícil execução com brilhantismo. Simplesmente fabuloso o toque coletivo do carreteiro da Manga, fazendo jus ao apelido “Tem que respeitar meu tamborim” da bateria mangueirense. Uma bela ala de agogôs de duas campanas (bocas) ajudou a valorizar o samba, com uma convenção bem casada com a obra.

Na cozinha da bateria da Mangueira, uma afinação pesada e potente do surdo de primeira foi notada, auxiliando os marcadores da Velha Manga a tocarem com vigor, além de precisão. O balanço irrepreensível dos surdos mor ajudaram no grande trabalho envolvendo os graves. Repiques de alta técnica tocaram juntos de um naipe de caixas de guerra simplesmente brilhante. Impressionante a batida clássica rufada mangueirense tão enxuta e uníssona, dando base de amparo musical aos demais naipes. Timbales também auxiliaram no preenchimento da sonoridade da parte de trás do ritmo com um balanço acima da média, tanto no ritmo quanto em bossas. Marabaixos vieram pelas laterais e nos fundos da bateria da Mangueira, sendo cruciais na paradinha do início da segunda do samba.

Bossas altamente musicais foram exibidas com precisão cirúrgica. Bem vinculadas ao que o melodioso samba mangueirense pedia, se aproveitando das nuances para consolidar seu ritmo. Se tratam de conversas rítmicas potentes, por vezes com sonoridade encantadora. Como é o caso da bossa dos marabaixos na segunda do samba, que começa logo após a letra da obra praticamente solicitar o arranjo. Simplesmente sensacional a retomada pautada pelos marabaixos, mostrando uma versatilidade rítmica extremamente acima da média. A referida bossa é iniciada com um solo muito bem pontuado de timbales e agogôs, encerrando com o solo dos marabaixos ajudando a retomar o ritmo. De muito bom gosto a criação musical da Mangueira, além de ser muito bem casada com a obra.

Uma grande apresentação da bateria da Mangueira, dirigida pelos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto. Um ritmo com andamento confortável, boa equalização de timbres e um equilíbrio acima da média foi exibido. Com um conjunto de bossas altamente musical, a sonoridade produzida pela bateria da Estação Primeira se mostrou totalmente atrelada ao tema da agremiação, valorizando o samba-enredo com seus arranjos bem pontuados. Infelizmente, em virtude de tempo apertado para terminar seu desfile, a apresentação na última cabine só contemplou uma bossa, que foi bem executada. A educação musical diferenciada dos ritmistas foi um baita trunfo, nesse grandioso desfile da bateria da Mangueira.

Mangueira tem visual primoroso, canto potente e evolução segura

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A Estação Primeira de Mangueira voltou a apresentar uma estética muito consistente, criativa e de bom acabamento no segundo desfile assinado por Sidnei França. Com um enredo potente e cheio de ancestralidade, a Verde e Rosa passou de forma segura pela Sapucaí, com fluidez, tempo controlado e destaque para o canto da escola. Se o samba não foi explosivo, a comunidade mostrou que está sempre fechada com a escola. O ponto preocupante ficou para o casal e a comissão, justamente na cabine espelhada. Na abertura do desfile, a comissão não conseguiu ser satisfatória na apresentação para os dois lados e, no casal, Matheus acabou hesitando ao pegar o pavilhão, precisando de mais de um toque para segurá-lo.

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Com o enredo “Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, a Estação Primeira de Mangueira foi a última escola a pisar na Sapucaí nesta primeira noite de desfiles do Grupo Especial, com o tempo de 79 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Com coreografia assinada por Lucas Maciel e Karina Dias, em “Te Invoco do Meio do Mundo”, animais sagrados e uma árvore erguida ambientavam o público com a Amazônia Negra, território afro-indígena do extremo norte do Brasil. No momento ritualístico, os povos originários tomavam o caxixi, bebida responsável pelo transe, e passavam a celebrar os seres de Outro Mundo. Essas energias se apresentavam entre os planos físico e espiritual, fundindo realidades diante dos tons e das texturas do encanto tucuju. Saudando a natureza e as forças ancestrais, aquele que é seu maior representante foi invocado e tomou o espaço. O Xamã Babalaô, guardião dos povos, da cura e das culturas amapaenses, apresentou-se como a forma encantada de Mestre Sacaca. Embrenhado em sua Amazônia, o personagem seguiu vivo como natureza pulsante.

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Na apresentação no módulo, o Xamã Babalaô, ao ser invocado, apareceu na árvore e realizou um efeito de luz em suas asas, como se manuseasse o fogo. Ao final, surgia Yá Benedita. O elemento cenográfico, constituído por uma árvore centenária gigante, era de fato muito bonito, e a ideia dos animais, das onças, era interessante, além do trabalho de luz do Xamã. Porém, na cabine espelhada, a comissão não conseguiu encontrar um modo de se apresentar simultaneamente. Na parte em que o Xamã aparecia, ele surgia apenas para um lado e fazia o truque de luz, enquanto, no outro, o jurado via apenas a dança dos componentes ao redor da árvore, com o elemento cenográfico sem aproveitamento por muito tempo. Assim, cada jurado ficou um bom tempo com a árvore à frente sem que nada acontecesse. Ponto negativo de uma ideia interessante, que passou melhor no primeiro e no terceiro módulo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Estação Primeira de Mangueira, Matheus Olivério e Cintya Santos, coreografado por Ana Paula Lessa, veio inserido na abertura do desfile da Verde e Rosa, personificando os participantes indígenas do Turé. Os figurinos da dupla, belíssimos, com a parte de baixo trabalhada no marrom-escuro em contraste com as pedras coloridas e a estética indígena, trouxeram referência ao trabalho plumário e às padronagens inspiradas nas artes dos povos originários dessa região, representando, de forma carnavalizada, os participantes que integram esse ritual, apoiando os pajés em diferentes missões.

* Sairé: o toque indígena do Carvão ecoa na Avenida da Estação Primeira de Mangueira

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A coreografia foi forte e intensa, justificando o apelido de “Casal Furacão”, com Cintya colocando em prática todos os seus artifícios nos giros, para os dois sentidos, inclusive aquele em que inclina o corpo. Matheus também executou seus passos característicos, com uma dança que remete muito ao mestre Delegado, honrando o legado do sambista histórico. A apresentação foi muito boa no primeiro módulo, mas não teve perfeição no segundo, justamente no espelhado, quando, na segunda sequência de giros, a porta-bandeira estende a bandeira e o mestre-sala hesita e não a segura de primeira, precisando dar mais de um toque no pavilhão. Uma pena pela apresentação forte que a dupla fazia. Já no terceiro módulo, tudo certo.

ENREDO

Desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França, “Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra” homenageou a sabedoria popular, a ancestralidade amazônica e a figura de Mestre Sacaca, valorizando a cultura do Amapá e a Floresta Amazônica. No primeiro setor, definido por Sidnei como primeiro encanto, a Mangueira inaugurou o seu cortejo inspirada no ritual indígena do Turé, realizado no extremo norte do Brasil. Foi um momento de celebração aos seres de Outro Mundo, vivenciado pelo transe do caxixi.

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No segundo setor, o Xamã Babalaô seguiu o chamado das águas, mergulhando nas correntezas que unem gente e mistério. Nesse encanto, apresentou-se que os rios eram estradas fundamentais na vida de Sacaca e que conduziam, diariamente, as populações tradicionais com as quais ele tanto conviveu.

No terceiro setor, o Xamã Babalaô reencontrou-se com os segredos da mata, transformando a natureza em Ciência do Encanto, em que diversos elementos carregavam o poder da cura e, por meio deles, o encantado tucuju cuidava de seu povo e disseminava a medicina ancestral.

No quarto setor, ao ouvir o som dos tambores, o Xamã Babalaô reviveu sua vocação para a cultura e integrou-se às manifestações de seu povo, celebrando junto a ele.

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O quinto setor encerrou o desfile mostrando o Xamã Babalaô como espírito encantado que caminha ao lado da nação mangueirense, revivendo os saberes, as tradições e os valores de sua comunidade.

No geral, a história foi muito bem contada, com fantasias de fácil leitura, bom encadeamento narrativo e uma mensagem importante ao final. Faltou apenas relacionar um pouco mais essa ancestralidade de Mestre Sacaca com a Mangueira, algo que sempre emociona o mangueirense e que tinha espaço no desfecho. Mas nada que comprometa o bom trabalho narrativo de Sidnei.

EVOLUÇÃO

A evolução da Mangueira foi uma das melhores dos últimos tempos. Cadenciada, a escola passou com fluidez muito eficiente. Controlada, aproveitou bem as apresentações, encerrando o desfile no tempo, apesar de levar um conjunto de desfilantes bastante grande. Passou pela Sapucaí com calma, com os componentes aproveitando o desfile.

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O principal: sem correria ou buracos, a escola desfilou com seu tapete de fantasias e alegorias sem deixar espaços aparentes. No compasso do samba, a evolução não foi marcada pela intensidade, mas houve alegria e espontaneidade do mangueirense. A grande maioria das fantasias em trajes leves também ajudou. Destaque para a ala “O Movimento das Águas Barrentas do Amazonas”, que realizava coreografia com componentes mudando e trocando de lugares para aludir ao movimento das águas.

HARMONIA

Estreando em voo solo na Sapucaí, Dowglas Diniz não sentiu a pressão do momento. Calmo, fez tudo com muita correção e qualidade. O cantor foi um achado da escola: ritmista, começou a cantar, fez parte do carro de som, dividiu microfone com Marquinhos e hoje é a voz principal de uma escola como a Mangueira. Dono de uma voz rasgada, com ótima extensão vocal e afinação, mostrou que a aposta foi acertada, inclusive fazendo solo no refrão de baixo, respondido pelas vozes femininas.

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O restante do carro de som, experiente e talentoso, composto por nomes como Leandro Santos e Daniel Silva, além das afinadas e competentes Cacá Nascimento e Nina Rosa, teve mais uma vez alta produtividade. E falar do canto da comunidade da Mangueira é chover no molhado: cantaram do início ao fim, alegres e interagindo com o público. Era notório, tanto que Dowglas, em diversos momentos, deixava apenas para o povo o verso “Abençoe o jeito Tucuju”.

SAMBA-ENREDO

A obra da Mangueira foi produzida pelos compositores Pedro Terra, Tomaz Miranda, Joãozinho Gomes, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal. Envolto em algumas polêmicas em sua escolha no concurso de sambas, o samba mostrou um caráter mais cadenciado, remetendo aos do início dos anos 2000. A bateria dos mestres Taranta Neto e Rodrigo Explosão aproveitou para inserir bossas pertinentes à música e à temática do desfile, como a utilização do marabaixo.

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Com propensão a uma linha melódica bem desenvolvida, como na primeira parte do samba a partir de “Finquei minhas raízes” e no fim da segunda estrofe em “Yá Benedita de Oliveira”, a obra não possui refrões de grande explosão, sendo mais cadenciada e mantendo linha mais reta e focada na melodia. Apesar disso, o desempenho na avenida foi satisfatório.

FANTASIAS

A Mangueira trouxe um conjunto de fantasias muito bem trabalhado, rico, com utilização de materiais de alta qualidade, bom gosto e soluções estéticas não tão óbvias. As fantasias eram de fácil leitura e ajudaram a contar o enredo.

Já na primeira ala, “Turé, uma nação incorporada”, Sidnei França trouxe a palha contrastada com os tons de verde e rosa, além de pontos de azul e laranja cítrico, abrindo o desfile com efeito interessante em figurinos com três formas diferentes.

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O segundo setor destacou o verde em diferentes tonalidades, contrastando com cores como os tons de barro na ala “O Movimento das Águas Barrentas do Amazonas” e com o dourado na ala “Navegando no Rio Matapi”, evitando monotonia cromática.

No terceiro setor, que tratava dos segredos da mata, o verde voltou intercalado com tons de madeira e elementos do dia a dia inseridos nas fantasias com boa qualidade estética, como nas alas “O Ritual da Colheita” e “O Poder das Cascas e Sementes”, ambas belíssimas e com soluções visuais fora do óbvio.

A partir da ala 12, “Simpatias para o Povo Ter Fé”, a opção por tons terrosos em contraste com laranja e vermelho dialogou com a alegoria “Engarrafa a Cura”, trazendo nova roupagem ao desfile. Após o terceiro carro, no setor dos Tambores, o rosa começou a aparecer mais, como nas alas “Couro do Amassador do Curiaú” e “Açucenas e Tocadores”. Foi o momento com maior presença da cor, o que pode incomodar o mangueirense mais fervoroso, mas era pertinente ao enredo.

Ao falar de Mestre Sacaca como ser encantado e guardião da floresta, a escola finalizou com paleta em tons de marrom, palha e barro, reforçando a ancestralidade da floresta e do Xamã Babalaô.

ALEGORIAS

Também de muita qualidade estética, as alegorias apresentaram volumetria, altura e esculturas bem executadas, com boa leitura do enredo e soluções criativas. Com bom acabamento, os carros passaram pela Sapucaí sem grandes problemas. Apenas o abre-alas teve questão na dispersão, já fora do desfile.

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O abre-alas mostrou a Mangueira aportando no extremo norte do Brasil no ritual do Turé. A cerimônia indígena é realizada como forma de agradecimento e enaltecimento aos espíritos invisíveis, como o próprio Xamã Babalaô. Cobras, jacarés e pássaros estavam espalhados pelo carro, pintados com grafismos dos povos originários. Maracás erguidos simbolizavam a manifestação indígena, além de figuras animais, elementos celestes e efeitos sonoros da floresta.

A segunda alegoria mostrou o Xamã Babalaô nas águas doces, reencontrando os povos tradicionais amapaenses. Tinha como elemento central uma cobra ligada às correntes fluviais, além de embarcações inspiradas nas utilizadas por Mestre Sacaca. Alegoria criativa e com movimento, embora o acabamento tenha sido inferior às demais.

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O terceiro carro exaltou a reconexão com a medicina ancestral, com escultura central de uma senhora segurando um bebê recém-nascido, fruto de uma garrafada. Havia representações de medicamentos populares e efeito de fumaça nos cachimbos.

O quarto carro trouxe a Missa dos Quilombos, ápice do Encontro dos Tambores, celebrando manifestações culturais e religiosas amapaenses com elementos do afrocatolicismo amazônico.

A quinta alegoria apresentou o Xamã Babalaô em forma humana, entrelaçado à natureza, surgindo como raiz de uma árvore viva, símbolo da sobrevivência física e espiritual da Amazônia Negra. Excelente conjunto alegórico.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Tem Que Respeitar Meu Tamborim”, dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto, representou o Xamã Babalaô, conhecido como Preto Velho do Amapá. Com fantasia que incluía barba postiça, destacou-se também por bossa com marabaixo.

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A rainha Evelyn Bastos, em sua terceira “encantaria”, representou a fumaça, simbolizando as mandingas do Xamã Babalaô, com fantasia em tons entre o preto e o prata.

No esquenta, Dowglas Diniz levantou a Sapucaí com o samba de exaltação, além de “Tem Capoeira” e “Salve Mangueira”. Em discurso, a presidente Guanayra Firmino lembrou a ancestralidade da escola e inflamou os desfilantes a darem o seu melhor.

Baianas da Mangueira reverenciam o Encontro dos Tambores

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O tradicional Encontro dos Tambores, que celebra a ancestralidade e a religiosidade afro-brasileira, realizado no bairro do Laguinho, no Amapá, foi a grande inspiração para a ala das baianas da Mangueira neste ano. Vestidas de branco com detalhes em dourado, as componentes cruzaram a avenida com oferendas na cabeça, como gratidão aos orixás e aos tambores sagrados.

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Detalhes da fantasia das baianas da Mangueira
Detalhes da fantasia das baianas da Mangueira
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A proposta da ala era conectar as mães do samba com as mães de santo que participam do evento no Amapá, representando a tradição e a espiritualidade.

Gabriela Pinto, de 51 anos
Gabriela Pinto, de 51 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A recepcionista e doceira Gabriela Pinto, de 51 anos, comentou a emoção de representar o tema: “A ala das baianas representa muito. Essa coisa dos tambores tem um significado enorme para nós. Hoje viemos agradececendo aos Orixás. É uma alegria muito grande fazer parte disso”.

Elisangela Tomazelli de 53 anos
Elisângela Tomazelli, de 53 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Elisângela Tomazelli, de 53 anos, explicou o significado da oferenda e do branco e dourado dentro do contexto da fantasia: “A oferenda simboliza bênção e devoção. É como se você estivesse agradecenco aos Orixás enquanto está abençoando, dando uma glória a alguém. O branco e dourado representam a riqueza e a prosperidade”.

Reginara Brandao de 45 anos
Reginara Brandão, de 45 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já a promotora Reginara Brandão, de 45 anos, comentou como se identifica com a ala: “Representar o Encontro dos Tambores fala sobre minha identidade como mulher preta, sobre ancestralidade e a força da religião de matriz africana no samba. As oferendas são um agradecimento pelo ano e a entrega do nosso melhor. O branco e dourado simbolizam paz, prosperidade e riqueza. Mesmo sem praticar, tenho fé na matriz africana e acredito nos orixás e na nossa raiz ancestral”.

Portela enfrenta o apagamento da presença negra no Sul ao exaltar o Batuque na Sapucaí

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A Portela promoveu um resgate histórico na primeira noite do Grupo Especial ao levar para a Marquês de Sapucaí a religiosidade negra do Sul do Brasil. O desfile apresentou o Batuque, tradição de matriz africana da região, por meio de figuras como o Príncipe Custódio, o orixá Bará e a lenda do Negrinho do Pastoreio, símbolos que confrontam o apagamento da presença negra na cultura sulista.

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Ala Xire dos Orixas materia religiao portela
Ala Xirê dos Orixás. Foto: Mariana Santos/CARNALESCO

Concebido pelo carnavalesco André Rodrigues, o enredo questiona a ideia de um Sul exclusivamente branco e de costumes europeus. Integrante da ala Xirê dos Orixás, Rosinete de Alencar representou Ogum, divindade do metal, e destacou a importância de ampliar os imaginários sobre a região.

“Todo mundo pensa que no Rio Grande não existe macumba, não existe Batuque, só pessoas brancas. E não. Existem negros, existem várias religiões, como em qualquer lugar”, afirmou.

Rosinete Materia religiao portela
Rosinete de Alencar. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Nas religiões de matriz africana, o passado é memória viva e espaço de reverência. Umbandista, a componente ressaltou o valor educativo do enredo para as novas gerações.

“Eu acho lindo representar nossa religião, mostrar a cultura, as roupas, os costumes. Quem está nascendo agora precisa ter esse conhecimento”, disse.

Ao narrar o assentamento de Bará no Mercado Público de Porto Alegre, o samba-enredo evoca a divindade com o pedido de licença “Alupó” no refrão, momento que transforma a energia da Avenida e emociona os desfilantes.

“Me arrepio dos pés à cabeça. Vi muita gente chorando no ensaio técnico. É como um fortalecimento da alma”, contou.

Luciana Materia Religiao Portela
Luciana Monteiro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Da ala Batuqueiro Mandingueiro, Luciana Monteiro reforçou que conhecer a diversidade religiosa é condição para o respeito.

“A gente precisa aprender a respeitar. Não adianta conhecer só a própria religião; é preciso entender a do outro para respeitar e até admirar”, destacou.

Mesmo diante de críticas recorrentes sobre a repetição de temas afro nas escolas de samba, os componentes defendem a permanência dessas narrativas como afirmação de memória e existência.

“A ancestralidade não pode morrer. Precisamos saber por que estamos aqui e o que ainda temos que evoluir a partir dos nossos ancestrais”, concluiu.

Ala da Mangueira transforma Mestre Sacaca em Rei Momo da Amazônia

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A ala “O rei retoma as batucadas carnavalescas”, da Mangueira, levou para a Sapucaí uma faceta pouco conhecida de Mestre Sacaca: sua intensa relação com o carnaval do Amapá. No desfile da Verde e Rosa, o Xamã Babalaô foi celebrado como Rei Momo, posto que ocupou por mais de duas décadas, significando a alegria no estado, que recebeu o samba como expressão cultural na década de 50.

Detalhes da fantasia
Detalhes da fantasia
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

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Os componentes vestiram uma fantasia que remetia às vestes tradicionais do Rei Momo, com cores vibrantes e elementos da realeza popular.

Marcelo Bastos de 44 anos
Marcelo Bastos, de 44 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Para o engenheiro Marcelo Bastos, de 44 anos, mangueirense apaixonado, desfilar representando essa figura histórica é mais do que especial. Incorporar sua alegria na Avenida é algo que vem com naturalidade.

“O Rei Momo é a história do Carnaval do Rio de Janeiro. Vir nessa ala é poder representar o início da festa e o que ela significa. O Rei Momo é a figura que recebe a chave da cidade, por isso, é bem importante. E expressar sua alegria na Avenida é muito natural para mim. Minha família inteira é de Carnaval. Minha mãe foi a primeira rainha do Cacique de Ramos, meus tios sempre foram passistas. Essa alegria já está no sangue. É fazer por amor, brincar, cantar e representar o nosso pavilhão”, comenta.

Romario Gomes
Romário Gomes
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O advogado amapaense Romário Gomes contou que fez de tudo para estar no desfile assim que soube da homenagem ao Mestre Sacaca.

“É uma emoção muito grande ver o nosso estado sendo representado na maior festa do planeta. Vivemos o carnaval no Amapá com muita paixão, e estar aqui é gratificante. O Rei Momo é o nosso símbolo maior do Carnaval. O nosso curandeiro representa toda a nossa amazonidade, do Carnaval ao futebol. Ele mais do que ninguém poderia juntar tudo isso para representar a Mangueira. Estamos muito felizes de estar aqui”, revela o componente.

Romário explicou um pouco mais sobre a festa, citando que a Mangueira foi pessoalmente buscar sua inspiração para montar o desfile com fidelidade.

“A festa de São Tiago acontece todo 25 de julho e representa a luta entre mouros e cristãos. Mazagão veio do Marrocos e foi a primeira capital do nosso estado. No último festejo, o pessoal da Mangueira esteve lá, se encantou, e hoje somos uma ala dessa festividade. Estamos representando o marabaixo, o futebol, nossas escolas de samba. É muito lindo ver a nossa história sendo contada na avenida”, detalha.

Ana Clara de 20 anos
Ana Clara, de 20 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Para a estudante Ana Clara, de 20 anos, também amapaense, desfilar na ala é um motivo de orgulho pelo reconhecimento da própria cultura.

“Essa ala é muito importante, porque fala da tradição amazonense da festa de São Tiago, no Mazagão, que é muito histórica e importante para nós do Amapá. É algo muito representativo para a gente estar aqui. A ala está lindíssima e a Mangueira arrasou”, afirmou, emocionada.

Abre-alas da Acadêmicos de Niterói expõe a crueldade da seca e a esperança que marca a infância de Lula

O agreste pernambucano, cenário da infância de Luiz Inácio Lula da Silva, abriu o desfile da Acadêmicos de Niterói como território simultâneo de aridez e resistência. Primeira escola de domingo no Grupo Especial, a agremiação apresentou a trajetória do presidente desde a infância marcada pela seca até a chegada à Presidência da República.

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Abre-alas da Acadêmicos de Niterói. Foto: Mariana Santos

Entre pássaros ressequidos e tons terrosos, uma árvore de mulungu irrompe vibrante. Sobre ela, o menino Lula sorri. A alegoria explicita a tensão que atravessa seus primeiros anos: da escassez brota a esperança. No sertão, o que ameaça também fascina e sustenta o imaginário infantil.

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Representando retirantes aos pés da árvore no terceiro módulo do carro, Leaci Oliveira destacou a força simbólica do elemento central, que transforma a morte em possibilidade de renascimento.

“Ao mesmo tempo em que existia a seca, ele via a vida com certa inocência. A árvore traz essa sensação de brotar, de renascimento, de expectativa de um futuro melhor”, afirmou.

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Leaci Oliveira. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Paralelos estéticos reforçam a ambiguidade: carcaças ressecadas, materiais opacos e natureza morta contrastam com iguanas e cobras coloridas que acompanham o caminho do menino até a esperança. A dualidade que marca a origem do presidente estrutura a narrativa visual do abre-alas.

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João Hildenberg. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Na alegoria, João Hildenberg personifica um ser místico do agreste que povoava as lendas da infância em Garanhuns. Para ele, a tensão estética evidencia o cenário desafiador enfrentado por Lula e sua família.

“Ele veio de um lugar com muita pobreza e fome e se tornou quem se tornou. Homenageá-lo representando essas lendas da natureza é muito importante”, disse.

O carro também evidencia a crueldade da seca que forçou Lula e tantos outros retirantes a buscar uma vida digna em outros territórios, como ressalta o samba-enredo.

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Arlen Guerra. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Não tem como contar a história do Lula sem falar do sertão e da seca cruel daquele tempo. Foi onde tudo começou”, afirmou Arlen Guerra, integrante da composição alegórica.

Acima da árvore de mulungu, o menino sustenta uma estrela azul, imagem de futuro possível em meio à aridez. A alegoria transforma a trajetória individual de Lula em espelho de muitas outras caminhadas marcadas por luta, deslocamento e resistência.

“Nem todos que se esforçam conseguem chegar tão longe, mas, com luta e oportunidades aproveitadas, isso pode acontecer. A história dele mostra exatamente isso”, concluiu Leaci.

Ecos de uma realeza negra: Terceiro casal da Portela exalta o Maçambique de Osório na Sapucaí

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A terceira escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no primeiro dia do Grupo Especial foi a Portela, levando para a avenida o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”.

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Dentro do setor “Ecos de Uma Realeza”, o terceiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Osanna Baptista e Yuri Pires, assumiu papel central ao representar o Bailado do Maçambique de Osório. O figurino com bastões e fitas coloridas chamou, mais do que estética, havia ali pesquisa e fusão cultural.

Questionada se já conhecia a manifestação cultural negra do Rio Grande do Sul antes de vestir a fantasia, Osanna foi direta ao destacar o caráter educativo do desfile. Segundo ela, o enredo da Portela funciona como “uma verdadeira aula de
história”, sobretudo por apresentar ao grande público tradições pouco difundidas. Para a Porta-Bandeira, viver essa experiência está sendo lindo e diferente, principalmente por poder trazer a cultura do Rio Grande do Sul e mesclar com a carioca. A fala revela o espírito de troca que marcou a preparação do casal.

Adaptar o bailado tradicional do samba ao ritmo próprio do Maçambique exigiu dedicação. Yuri ressaltou a importância de receber “com muito amor e carinho tudo aquilo que é diferente e novo”, reforçando o respeito ao processo.

Já Osanna detalhou que houve “muito estudo, muito treino”, com direito a testes durante as bossas da bateria. Ela contou ainda que buscou apoio de uma amiga Porta-Estandarte do Rio Grande do Sul.

“Tenho uma amiga que é Porta-Estandarte no Rio Grande do Sul, então eu mandava vídeo para ela, e assim ela ia me ajudando, me passando algumas referências e assim fomos evoluindo e chegando até a nossa dança”, afirmou.

Ao levar para a Sapucaí uma manifestação negra do Sul do país, o casal também ajudou a romper percepções limitadas sobre a região.

“Negro é negro, a gente consegue se misturar independente da cultura”, afirmou o Mestre-Sala, defendendo a ideia de unidade na diversidade. A presença do Maçambique de Osório na avenida amplia o olhar sobre o Rio Grande do Sul, muitas vezes associado apenas a matrizes europeias.

Vestindo uma fantasia que simboliza a nobreza negra esquecida de Osório, o casal também destacou o cuidado do ateliê na execução das roupas.

“Temos um ateliê maravilhoso, que entende o figurino e trazer a arte do Rio Grande do Sul e adaptar com a nossa cultura foi perfeito”, concluíram.

A Portela celebrou a adaptação da arte gaúcha à identidade carioca. O brilho das fitas e a imponência dos bastões dialogavam com o conceito de “ecos de uma realeza”.

Sairé: o toque indígena do Carvão ecoa na Avenida da Estação Primeira de Mangueira

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A ala 15 da Verde e Rosa representou o momento em que o Xamã Babalaô revive e se reconecta com as manifestações culturais da Amazônia Negra. Entre elas, o tambor surge como elo central da ponte entre fé, memória e resistência.

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Componentes da Ala 15
Componentes da Ala 15
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A ala dedicada ao Sairé resgata os toques tradicionais do Amapá, prática introduzida pelo catolicismo às populações originárias, mas que carrega na própria palavra sua raiz indígena: “Çai Erê”, antiga forma de saudação. Hoje reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Amapá, o Sairé permanece vivo especialmente na comunidade do Carvão e atravessa gerações no compasso da tradição.

Ao transformar o ritual em espetáculo, a Mangueira reafirma que cada batida de tambor é gesto político e espiritual. O tambor que ecoa no Norte dialoga com o tambor que pulsa no morro. No ritmo do Sairé, a ancestralidade amapaense encontra a ancestralidade mangueirense e ambas se reconhecem.

Luisa Ferreira de 27 anos
Luísa Ferreira, de 27 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Engenheira e estreante na escola, Luísa Ferreira, de 27 anos, fala do impacto cultural do enredo.

“Conhecer a cultura da Amazônia Negra é muito fascinante. Eu confesso que não sabia e tenho muito interesse na cultura do Amapá e do Norte. O Carnaval é isso: traz representatividade não só de religião, mas das culturas de todos os estados do Brasil. A música e a fé se misturam. A música sempre está ligada à religião, arrepia e move nossos corações. Isso está conectado com a fé que sentimos. A Mangueira deixou esse legado na avenida”, avalia.

Guilherme Carnel de 46 anos
Guilherme Carnel, de 46 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Guilherme Carnel, de 46 anos, advogado e há dois anos na escola, o momento é de arrepio e reconhecimento: “É realização sentir a força da Mangueira e do enredo. O samba nasceu da ancestralidade. Ter o povo indígena ouvindo o nosso estilo musical em uma homenagem a eles é de arrepiar. Viver essas misturas é algo muito forte”.

Felipe Navegantes de 38 anos
Felipe Navegantes, de 38 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Felipe Navegantes, de 38 anos, funcionário público e há dez anos desfilando na verde e rosa, destaca o papel do tambor como herança comum.

“Sempre é uma honra desfilar na Mangueira. Não representa só a comunidade de onde eu sou fruto, mas o legado de um povo inteiro. Este ano, o Amapá e a Amazônia Negra trouxeram ainda mais tradição para o enredo. As populações negras chegaram ao Brasil trazendo o tambor, e é ele que movimenta a gente, que dá sentido à festa. É o som do tambor que nos guia”, afirmou Felipe.

Terceiro setor da Mangueira abordou a importância da medicina alternativa para curar o mal-estar do dia a dia

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A Estação Primeira de Mangueira encerrou a primeira noite de desfiles do Grupo especial, neste domingo, com uma homenagem à Mestre Sacacá, curandeiro do Amapá, referência na medicina alternativa. O terceiro setor da verde e rosa focou na medicina ancestral, interligando os saberes afrodescendente com os indígenas, na chamada Amazônia Negra, em que diversos elementos levam o poder da cura, o que auxiliou Mestre Sacacá a cuidar de seu povo e divulgar esse meio alternativo de cura.

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A assistente social Daniele Garcia, de 44 anos, se sentiu motivada a desfilar pela primeira vez na agremiação por conta do enredo, pois trabalha com os saberes tradicionais no Sistema Unico de Saúde, o SUS. Ela esteve presente na ala 09: “O poder das cascas é sementes”.

danielle Mangueira

“Eu chorei todos os ensaios de rua e sonhei estar aqui vivendo esse momento, porque a sabedoria da Floresta Amazônica é a cura. Poder homenagear uma benzedeira que foi a matriarca da Mangueira e o Mestre Sacaca para mim é um presente, é como se eu estivesse alinhando o meu trabalho de pesquisa, o meu trabalho como profissional do SUS e o Carnaval, é como se eu estivesse no caminho certo”, declarou Daniele.

brunofaria mangueira

Bruno Farias, decorador de eventos de 28 anos, oriundo do Amapá e morador de Recife, veio ao Rio de Janeiro somente para participar dessa homenagem. Bruno contou sua experiência com a medicina alternativa.

“Quando criança, sofria muito de asma e minha avó comprava muita garrafada para remédio de asma. Inclusive, hoje já não sofro tanto de asma porque ela começou a me curar desde pequenininho. Eu sou muito ansioso, se tivesse a garrafada para ansiedade, eu seria o primeiro a tomar todos os dias”, completou Bruno.

A nutricionista Ana Paula, de 44 anos, desfila na Mangueira há 37 anos e, nesse ano, veio no terceiro carro alegórico. A homenagem do enredo foi emocionante para ela, porque relembra seus momentos com sua avó, que era indígena e uma das parteiras e benzedeiras de sua tribo.

anapaula mangueira

“A minha avó, ela era indígena e a gente já usou muitas ervas medicinais. Inclusive, ela tinha um caderninho que ela era benzedeira da tribo dela. Meu pai teve uma doença chamada erisipela que também foi tratada com ervas”, contou Ana Paula.

A ancestralidade indígena e afro-brasileira regasta espiritualidade, tradição e cura, que faz parte do dia a dia dos brasileiros e foi bem retratada pela Verde e Rosa.

Livres da culpa e do pecado: Baianas da Imperatriz giram em manifesto de resistência e liberdade

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Homenageado pela Imperatriz Leopoldinense, Ney Matogrosso construiu sua trajetória artística a partir da defesa radical da liberdade de ser. A ala 21, “Não existe pecado ao sul do Equador”, evocou a versão regravada pelo cantor para transformar a Marquês de Sapucaí em um espaço simbólico de vida sem culpa, medo ou julgamento.

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Baianas da Imperatriz. Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A fantasia combinou referências ao pecado com cores vibrantes e exuberantes, criando contraste direto com a ideia de culpa. Em um cenário marcado pelo avanço do conservadorismo no país, os giros das matriarcas do samba surgiram como imagem de resistência do corpo feminino e libertação das amarras morais.

Edna Luz
Edna Luz, 58 anos, consultora de vendas. Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Consultora de vendas de 58 anos, Edna Luz desfilou pela primeira vez pela escola e destacou a alegria como forma de luta pela liberdade.

“Significa me libertar de tudo aquilo que a sociedade prega contra a mulher num momento tão difícil que nós vivemos. A mulher de 50+ pode não só desfilar, mas estudar, batalhar por algo a mais”, afirmou.

Deise Mendes
Deise Mendes, de 54 anos, cuidadora. Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Também estreante na agremiação, a cuidadora Deise Mendes, de 54 anos, relacionou a emoção do desfile à possibilidade de expressão sem julgamentos após meses de opressão cotidiana.

“O carnaval deixa a gente livre pra ser o que a gente quiser e representar isso. Esse enredo traz essa liberdade”, disse.

Maria Regina
Maria Regina, de 79 anos, costureira. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Há 35 anos na Imperatriz, a costureira Maria Regina, de 79 anos, resumiu o sentido popular da festa ao falar da relação entre carnaval e alegria coletiva.

“Sem o carnaval o povo não tem uma diversão boa, uma alegria para sair. Não dá pra ficar sem carnaval, ele é a alegria do povo”, declarou.

Na Avenida, as baianas giraram como símbolos vivos de liberdade, fé e permanência, reafirmando o carnaval como território onde o corpo feminino deixa de pedir licença para simplesmente existir.