Secretária municipal de Desenvolvimento Integrado, Sibelle Tavares. Foto: Matheus Vinícius/CARNAVALESCO
A noite da final da disputa de samba da Unidos da Tijuca só estaria completa se houvesse representantes do município de Caridade na quadra da agremiação. Afinal, a cidade serviu de base para a fictícia Candeia, do livro “A cabeça do santo”, de Socorro Acioli, obra que será o enredo da Tijuca. A secretária municipal de Desenvolvimento Integrado, Sibelle Tavares, acompanhou a escolha do samba e representou sua população. Ela contou ao CARNAVALESCO a alegria do município ao saber que “A cabeça do santo” e Caridade seriam enredo da amarelo-ouro e azul-pavão.
“Foi um momento único, brilhante para nós, fazerem o município de Caridade. Ver a nossa história do santo sem cabeça, de Santo Antônio, ser contada na Sapucaí pela Unidos da Tijuca no carnaval de 2027 é um momento glorioso. Nós fazemos o município de Caridade. Em nome da minha mãe, que é a prefeita Simone Tavares, a gente fica muito honrado e muito feliz de saber que Caridade vai abrir as portas para o mundo com a história linda, que é a história do nosso santo”.
A repercussão sobre a história do santo sem cabeça em Caridade foi tão grande que está sendo construído um complexo em volta de Santo Antônio, e uma cabeça está sendo instalada no corpo.
“Há 40 anos foi construído o corpo do santo em cima do morro, e a cabeça ficou construída em uma rua específica do município. E hoje a gente já tem um complexo sendo construído, a estátua sendo construída também, que já foi colocada a cabeça e já está em fase de pintura. É um momento de muita alegria”, contou a secretária.
A cidade de Caridade tem ficado mais conhecida desde que Socorro Acioli lançou “A cabeça do santo”, em 2014. O livro conta a história de Samuel, um jovem que sai de Juazeiro do Norte rumo a Candeia, onde a cabeça do santo lhe serve de abrigo e fonte de “milagres casamenteiros”. A obra já ultrapassou meio milhão de exemplares vendidos e transformou culturalmente Caridade.
“O livro da Socorro Acioli veio para colocar a nossa história cada vez mais forte na cultura, na nossa tradição. Isso abriu as portas do nosso município de Caridade, primeiro na literatura, e juntamente com a escola Unidos da Tijuca, na cultura, no carnaval, no samba. Para nós, foi uma virada de chave para o nosso município, e permitiu a construção do nosso complexo de Santo Antônio”, explicou Sibelle.
Tavares também opinou sobre o que não poderia faltar no desfile da Unidos da Tijuca, que está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, e sobre como está sendo a relação com a escola.
“(Não pode faltar) A nossa cabeça do santo e a história do nosso município. A equipe da Tijuca esteve em caravana no nosso município de Caridade. Eles viram que Caridade é uma cidade acolhedora, de muita fé, de muita cultura, de muita tradição. Eu tenho certeza de que a história da nossa cidade e a história do nosso Santo Antônio serão contadas na Sapucaí com muita sensibilidade, com muito carinho e com muita humildade também”, declarou a secretária.
A ideia da prefeitura é imergir o povo de Caridade no carnaval carioca. Sibelle Tavares explicou que o objetivo é permitir que os moradores dos três distritos da cidade (a sede, Campos Belos e São Domingos) possam assistir ao desfile.
“Caridade já abraçou a Unidos da Tijuca. Eu até me arrepio porque a cidade inteira se envolveu com a história do enredo. Com certeza nós teremos telões na cidade, não só na sede, mas também nos nossos três distritos para poder mostrar a nossa história. E que eles se sintam aqui na Sapucaí junto conosco, nesse momento tão especial para o nosso município”, celebrou a secretária.
Além dos telões, os caridadenses também vão desfilar na Avenida. A quantidade ainda vai ser definida junto com a escola de samba, mas uma coisa é certa: a cidade estará engajada com o carnaval tijucano.
“Nós teremos uma comitiva muito grande, se Deus quiser, mas ainda o número certo nós não sabemos. Nós vamos combinar juntamente com a escola, juntamente com o nosso presidente Fernando Horta. Caridade vai estar aqui, mas também vai estar lá mandando energia positiva para todos que vão estar na Unidos da Tijuca, na Sapucaí, desfilando”, comentou Sibelle.
A Unidos da Tijuca, a obra de Socorro Acioli e a cultura de Caridade vão passar pela Marquês de Sapucaí na segunda-feira, 8 de fevereiro, como a segunda escola a desfilar.
O futuro das escolas de samba não começa na avenida, mas na infância, no primeiro contato com o pavilhão, no encanto com os desfiles e na convivência com uma cultura que atravessa gerações. Foi com esse sentimento que a Fábrica do Samba, em São Paulo, recebeu, na última segunda-feira, pelo segundo ano consecutivo, a festa do Dia das Crianças promovida pela Liga-SP. Entre apresentações das escolas mirins, brinquedos, alimentos e momentos de confraternização, famílias e representantes das agremiações reforçaram uma mensagem em comum: preservar o samba também significa criar oportunidades para que as crianças conheçam, vivam e deem continuidade a essa história.
A celebração foi além da diversão. Para quem acompanha o carnaval de perto, proporcionar às crianças experiências como essa representa uma maneira de aproximá-las das escolas de samba desde cedo, fortalecendo os laços com as comunidades e garantindo que a paixão pelo pavilhão continue viva nas próximas gerações. A percepção apareceu em diferentes entrevistas realizadas pelo CARNAVALESCO durante o evento.
Mãe de uma menina que torce pela Imperatriz da Pauliceia, Vilma Maria de Paula destacou a importância de apresentar a cultura do samba às crianças e valorizar as raízes que sustentam a tradição das agremiações.
“Para mim, é tudo. A importância de ela estar curtindo, conhecendo a nossa cultura, os nossos ancestrais. Para mim, é muito gratificante, e ela gosta bastante também, desde a barriga”, contou.
Mãe de uma menina que torce pela Imperatriz da Pauliceia, Vilma Maria de Paula destacou a importância de apresentar a cultura do samba
A experiência também foi celebrada por Luana Poletti, torcedora do Camisa Verde e Branco. Integrante de uma família ligada ao carnaval, ela ressaltou que a transmissão desse vínculo começa dentro de casa, mas precisa ser acompanhada por iniciativas que aproximem os pequenos das escolas de samba.
“Nós somos uma família do carnaval, todo mundo lá em casa trabalha com o carnaval. Nossas filhas já nasceram no carnaval. A gente acha superimportante valorizar a cultura, valorizar as tradições e, desde pequeno, conseguir seguir nesse legado e saber a importância das raízes”, afirmou.
Para Luana, a realização de eventos voltados ao público infantil ajuda a mostrar que o carnaval também é espaço de convivência, alegria e pertencimento, além do compromisso exigido pelos ensaios e desfiles.
“É totalmente importante a Liga valorizar as crianças, porque são o futuro das escolas de samba. A gente sabe que, se as crianças não seguirem esse legado, daqui a pouco não temos escolas de samba. É importante incentivar as crianças e fazê-las gostar desde pequenas”, completou.
Cultura, inclusão e oportunidade para as novas gerações
A importância de aproximar as crianças do samba também passa pela necessidade de combater preconceitos e ampliar o acesso à cultura. Pâmela, torcedora da X-9 Paulistana, avaliou que a festa contribui para apresentar às novas gerações o significado do carnaval e os valores que fazem parte da vida das comunidades.
“É importante porque o carnaval precisa ser desmistificado. Às vezes, as pessoas colocam o carnaval como se fosse uma coisa feia, uma coisa do diabo. É importante trazer as crianças para elas verem realmente a essência do carnaval, que é o amor, a união, a preservação do samba e da nossa cultura brasileira”, declarou.
Pâmela, torcedora da X-9 Paulistana, avaliou que a festa contribui para apresentar às novas gerações o significado do carnaval
A presença das famílias na Fábrica do Samba também foi uma oportunidade de convivência entre crianças de diferentes agremiações. Para Pâmela, levar os pequenos ao espaço e permitir que acompanhem a escola do coração ajuda a fortalecer essa relação com a comunidade.
A inclusão foi outro ponto destacado por Sabrina Yldebrando, que participou do evento pela primeira vez com a filha, Lorena, e o marido. Torcedora do Vai-Vai, Sabrina ressaltou a importância de iniciativas que ampliem as oportunidades para as crianças e acolham diferentes públicos.
“Eu acho importante porque a desigualdade é muito grande em relação às escolas. Isso cria oportunidades para todos, e tem a inclusão de crianças especiais também, que eu acho muito importante, porque eles abraçam essa causa e ajudam também as comunidades que precisam tanto”, afirmou.
Torcedora do Vai-Vai, Sabrina ressaltou a importância de iniciativas que ampliem as oportunidades para as crianças e acolham diferentes públicos
Sabrina também destacou a continuidade do carnaval por meio da participação infantil. Para ela, a aproximação entre as novas gerações e as escolas é essencial para que a tradição não se perca com o passar do tempo.
“Vai renovando de geração em geração e cada vez mais vão participando. As gerações atuais precisam dar continuidade e ver que vale a pena para o carnaval”, disse.
Legado que passa de uma geração para outra
Entre os representantes das escolas de samba, o sentimento de continuidade ganhou um exemplo concreto na história de Kawe Lacorte, mestre-sala da Pérola Negra. Integrante de uma família de sambistas, ele destacou a importância da estrutura oferecida pela Liga-SP e das atividades que permitem às crianças vivenciar o carnaval para além do desfile oficial.
“Foi um acontecimento muito importante para as nossas crianças. A estrutura que a Liga trouxe para esse evento foi muito boa, com entrega de comida, brinquedo e a oportunidade de proporcionar uma tarde maravilhosa para elas nesse dia tão especial”, avaliou.
Kawe Lacorte, mestre-sala da Pérola Negra, destacou a importância da estrutura oferecida pela Liga-SP
Para Kawe Lacorte, a renovação do samba começa com o incentivo aos talentos infantis e com a criação de espaços em que as crianças possam descobrir suas próprias vocações dentro das agremiações. Sua própria família representa esse movimento. A sobrinha dele se tornou porta-bandeira mirim neste ano, dando sequência a uma relação com o samba que atravessa gerações. Kawe Lacorte já projeta o futuro dessa parceria dentro da escola.
“Minha sobrinha se tornou porta-bandeira mirim da escola. É de geração em geração que vai acontecendo, e é muito importante a gente não deixar esse legado morrer, a história do samba morrer. Eu, com certeza, vou passar meu cargo para ela, como mestre-sala dela”, contou.
A relação familiar com o carnaval, segundo ele, ajuda a explicar por que a festa tem significado especial para quem vive o universo das escolas de samba. Seu pai e sua mãe se conheceram no samba, assim como irmãos e outros familiares mantêm essa ligação. Agora, a presença da sobrinha na escola representa mais um capítulo dessa história. Kawe Lacorte também destacou a importância da presença das escolas mirins como parte da formação de novos integrantes e da descoberta de talentos dentro das comunidades.
“É muito importante a gente estar aqui, cultuando. Eu sou de família de sambistas, e agora estou passando o legado para minha sobrinha. Acredito que isso acontece em todas as escolas”, afirmou.
Festa para as crianças e para o futuro do carnaval
A programação foi marcada pela participação das crianças, pelos desfiles e pela oportunidade de reunir famílias em um ambiente dedicado à cultura do samba. Para Luana Poletti, a organização e a tranquilidade do evento ajudaram a proporcionar um dia especial aos pequenos. A filha Isadora também aprovou a experiência.
“Eu amei o evento, está muito organizado, está muito legal, as crianças estão curtindo bastante e eu amei, está muito lindo”, disse Isadora.
Experiência também foi celebrada por Luana Poletti, torcedora do Camisa Verde e Branco
Sabrina Yldebrando também comemorou a experiência inédita ao lado da filha Lorena. “É a primeira vez que eu estou aqui com ela, com meu esposo. Nossa, é um evento surpreendente”, contou.
Ao reunir diversão, convivência e apresentações das escolas mirins, a festa promovida pela Liga-SP reforçou a importância de aproximar as crianças do universo do carnaval. O desafio de manter vivas as tradições das agremiações depende também da capacidade de acolher as novas gerações e oferecer a elas oportunidades de participação.
Na Fábrica do Samba, a mensagem ganhou rosto e voz nas famílias que levam os filhos às escolas, nos representantes que compartilham suas histórias e nas crianças que começam a construir a própria relação com o pavilhão. Afinal, para que o samba continue atravessando gerações, é preciso que os pequenos não sejam apenas espectadores do carnaval de hoje, mas protagonistas da história que será contada amanhã.
O Camisa 12 prepara o desfile do Carnaval 2027 com a missão de transformar a força de sua comunidade em combustível para a retomada no Anhembi. Após o rebaixamento no último carnaval, a escola aposta no enredo “Meu terreiro é protegido… Ogunhê. A força que atravessa o tempo!” e no samba-enredo ‘Patakori! Traz a vitória pro meu pavilhão’ para buscar o retorno ao Grupo de Acesso 1. A proposta foi apresentada à comunidade e à imprensa no dia 27 de setembro, em uma noite que também contou com a exibição dos protótipos das fantasias para o próximo desfile. O projeto reúne os carnavalescos Leno Vidal, Fernando Dias e Delmo Moraes, além de uma equipe musical que trabalha para fortalecer a identidade da agremiação.
O diretor de carnaval, Demis Roberto, destacou que a mensagem central do samba está diretamente relacionada ao momento vivido pela escola. Para ele, a obra precisa transmitir confiança aos componentes e reforçar a capacidade de reação do Camisa 12.
“Todo samba precisa passar uma mensagem. E a nossa mensagem este ano é que o filho do Camisa 12 não cai”, afirmou.
Demis reconheceu a dificuldade de lidar com o rebaixamento, mas ressaltou que a escola já está concentrada na preparação para o próximo desfile. A proposta para 2027 é desenvolver um carnaval mais enxuto, sem abrir mão da grandiosidade das alegorias e fantasias que marcam o trabalho da agremiação.
“A gente quer um carnaval mais enxuto no Acesso 2, mas sem perder a grandeza que já adquirimos nas alegorias e nas fantasias”, explicou.
Ogum no centro da narrativa
O enredo coloca Ogum no centro da narrativa e busca explorar não apenas a figura do orixá, mas também os elementos sociais, culturais e simbólicos que atravessam essa história. O presidente Giovanni Bargi de Souza, conhecido como Madimbu, destacou a confiança na parceria responsável pelo samba-enredo, que já trabalha com a escola há alguns anos. O dirigente também ressaltou a combinação entre a obra e a identidade musical da bateria da escola. Segundo ele, a cadência característica do ritmo do Camisa 12 contribui para o resultado que será desenvolvido até o desfile.
“Eu gosto muito do samba. A parceria já está com a gente há alguns anos e eles já entendem a nossa mensagem. Eles conseguem transmitir aquilo que a gente quer passar. É um samba para frente, alegre, e acredito que vai levar a nossa comunidade para a avenida”, afirmou Giovanni.
“Eu gostei muito do samba. Ele representa aquilo que a gente queria colocar na pista. A gente tentou fugir do óbvio, porque não estamos falando simplesmente de Ogum como orixá, mas de tudo aquilo que está ao redor, que circunda Ogum”, afirmou Demis, diretor de carnaval.
Três carnavalescos na construção do desfile
O projeto para 2027 conta com Leno Vidal, Fernando Dias e Delmo Moraes na equipe de carnavalescos. Os três participaram do desenvolvimento do samba-enredo, em um processo de diálogo com os compositores para aproximar a letra e a melodia da narrativa planejada para a avenida. Fernando Dias destacou a relação entre a obra musical e o enredo.
“É um samba maravilhoso. Ele se casa com o enredo, com a história, com a narrativa. É um samba guerreiro, para frente”, afirmou Fernando.
Delmo Moraes explicou que o trabalho começou com a apresentação da sinopse aos compositores e avançou com ajustes para alinhar o samba ao projeto visual e narrativo do desfile. Leno Vidal acrescentou que a estrutura da narrativa serviu como base para o desenvolvimento poético da obra.
“A narrativa foi estruturada na sinopse para que o samba pudesse se desenvolver. O grupo de compositores conseguiu criar uma relação poética e completa com aquilo que estava sendo proposto”, explicou.
A escolha por um samba encomendado também permitiu uma comunicação mais direta entre os profissionais envolvidos. Segundo Fernando, esse formato facilitou a realização de ajustes durante o processo criativo.
“Não tivemos problema. É muito mais fácil trabalhar com um grupo do que com dez ou quinze grupos. Os compositores conseguem entender melhor aquilo que a gente quer”, explicou Fernando.
Bateria ‘Ritmo 12’ trabalha no desenvolvimento musical
Na parte musical, o samba é visto como uma oportunidade para explorar características da bateria “Ritmo 12”, comandada pelo mestre Lipe. A temática afro abre espaço para o uso de atabaques, tambores e outros elementos que dialogam com a proposta do enredo.
Lipe explicou que o trabalho já vinha sendo desenvolvido meses antes da apresentação oficial do samba. Uma primeira gravação foi realizada para que a escola pudesse ter uma referência da melodia, mas o arranjo definitivo ainda será construído até o carnaval.
“A gente está trabalhando dentro de uma sequência de sambas afro. Tem muito atabaque, tambor e axé. É uma coisa favorável para a nossa bateria”, explicou Lipe.
Clóvis Pê, integrante da parceria de compositores, também destacou a força da letra e da melodia, com crescimento musical ao longo da obra até chegar ao refrão. A equipe pretende acrescentar recursos como cacos, contracantos e vocalizes durante a preparação.
“A gente vem fazendo grandes sambas e acredito que este seja um dos mais fortes em letra e melodia. A melodia vem crescendo e explode no refrão”, explica Clóvis.
Tim Cardoso, também integrante da parceria no carro de som do Camisa 12, destacou que o samba segue a linha musical da escola. “Ele acompanha a linha melódica da escola. O Clóvis é muito detalhista, muito cuidadoso com melodia, letra, acessibilidade e com a evolução do samba. Cada passagem vai ficando melhor”, explicou Tim.
Casal oficial já prepara a apresentação no Anhembi
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Luã Camargo e Estefany Olukomim, também já trabalha na preparação para o desfile de 2027. Estefany contou que o processo começou antes mesmo da definição do samba, a partir da apresentação do enredo pela diretoria. Com a obra musical definida, a dupla passou a incorporar a dança e ajustar os detalhes da apresentação. Luã ressaltou que a construção coreográfica exige atenção à leitura dos jurados, sem ficar excessivamente presa a uma interpretação literal da letra ou do enredo.
“A Camisa 12 só faz obra-prima. Todo ano tem um samba memorável. Esse também é memorável e vai arrebentar no Anhembi. A coreografia da pista não pode ficar tão presa ao samba e ao enredo, porque a interpretação do jurado é muito subjetiva. A gente nunca sabe qual parte ele vai observar”, disse Luã.
“É um samba que fica na cabeça. É muito gostoso. Agora temos bastante trabalho pela frente”, comentou Estefany.
Fantasias mantêm proposta de grandiosidade
A apresentação dos pilotos de fantasias, realizada junto à comunidade em setembro, revelou parte da proposta visual que o Camisa 12 pretende levar ao Anhembi. A escola busca conciliar a grandiosidade das fantasias e alegorias com as necessidades de um desfile no Grupo de Acesso 2. O desafio é preservar características já desenvolvidas pela agremiação e, ao mesmo tempo, adequar o projeto ao objetivo de voltar à divisão superior.
A Portela transformou a gravação oficial do samba-enredo para o Carnaval 2027 em mais um capítulo da homenagem para o mestre Monarco. Com uma proposta musical que buscou valorizar a tradição da escola, a obra foi levada ao estúdio com referências a grandes nomes da história portelense, atenção à melodia e uma interpretação que pretende aproximar ainda mais o público da emoção presente na composição. Para os integrantes da agremiação, a gravação representou tanto a preparação para o desfile quanto a oportunidade de eternizar, em música, o carinho por uma figura fundamental para a Azul e Branco de Oswaldo Cruz e Madureira.
A escolha do arranjo, o andamento da bateria e a participação dos segmentos foram pensados para preservar a identidade musical da Portela. A proposta também se refletiu na expectativa dos compositores, que destacaram a responsabilidade de escrever sobre Monarco dentro da própria escola, e dos profissionais envolvidos na gravação, que enxergaram no trabalho a oportunidade de celebrar o legado do sambista.
Diretor de harmonia e de carnaval, Dudu Falcão ressaltou que o cuidado com a gravação teve como objetivo entregar uma obra capaz de acompanhar diferentes momentos da vida dos amantes do samba, sem perder a qualidade musical.
“Gravação oficial é aquela que vai chegar às casas das pessoas, por isso estamos tratando com muito carinho. É um samba para se ouvir em casa, tomando vinho, bebendo cerveja, curtindo e também para atender aos anseios de quem gosta de um bom samba e de uma boa gravação. O público pode ter certeza: quem gosta de um bom samba, nós vamos entregar um bom produto para escutar em casa, no churrasco, em família e até em qualquer resenha que goste de samba”, afirmou.
Diretor de harmonia e de carnaval, Dudu Falcão
A escola levou para o estúdio mais de 30 ritmistas, o carro de som completo e integrantes de seu elenco, entre eles, o primeiro casal, musas e passistas. Dudu Falcão também destacou a presença do intérprete Bruno Ribas, que, segundo o diretor, estava se recuperando de um problema de saúde e chegou à gravação com mais disposição.
“A escola trouxe um grupo de mais de 30 ritmistas, uma garotada nova tocando à beça, nosso carro de som completo, o Bruno Ribas, hoje muito bem recuperado da saúde, com um ânimo maior, e, com isso, o nosso elenco e o nosso primeiro casal para cá. Porque, no visual, quem puder ver o clipe vai encontrar um belo casal, nossas musas e os passistas. Pode ter certeza: uma elegância portelense e uma qualidade portelense de samba”, declarou.
Entre os versos que mais emocionam o diretor está uma passagem que traduz o vínculo afetivo entre a escola e sua comunidade. Para Dudu, a declaração de amor à Portela tem potencial para ultrapassar os limites da própria torcida.
“Cada dia, cada semana, eu sou mais apaixonado por uma parte do samba, mas acho que a que mais toca o portelense é ‘Eu sou Portela desde os tempos de criança’. Isso parece que bate muito forte, vai ser gritado, não vai ser nem cantado. Acho que vai contagiar até quem não é portelense desde o tempo de criança”, avaliou.
A gravação também foi descrita pelo diretor como o nascimento de um grande desfile. Dudu lembrou que o enredo e o samba-enredo são elementos fundamentais para conduzir uma escola rumo aos seus objetivos na Avenida e demonstrou confiança na obra escolhida para 2027.
“É a sensação de ver um grande desfile nascendo. Por mais que eu esteja no barracão todos os dias, existe o enredo e o samba-enredo. Esses dois conduzem, de fato, uma escola para onde ela quer ir, seja para disputar o campeonato, disputar a volta ou até disputar lá embaixo. Eu acho, tenho certeza, que estamos aqui com um produto que vai fazer com que a gente dispute lá em cima esse campeonato. É muito gratificante estar aqui”, afirmou.
Arranjo recupera referências da musicalidade portelense
Responsável pelo arranjo, Leandro Lima explicou que a concepção musical partiu da história da Portela e de sua sonoridade tradicional. A proposta buscou estabelecer um diálogo com instrumentistas que ajudaram a construir a identidade musical da escola, com atenção especial às cordas e às respostas instrumentais ao canto.
“O arranjo foi pensado todo de acordo com o enredo e, lógico, com a musicalidade original da Portela, com a história da Portela. Eu pensei, no caso, nos cavaquinhos da afinação tradicional, lembrando os grandes cavaquinhos da Portela, o senhor Manacéa, o senhor Osmar, o Mauro Diniz mesmo, o senhor Jair do Cavaquinho. Trabalhei um violão de seis e de sete cordas, como faziam o senhor Lino, o senhor Jorge da Conceição, o senhor Guaracy, enfim, a musicalidade original da Portela”, explicou.
Responsável pelo arranjo, Leandro Lima
Segundo o arranjador, a própria composição permitiu explorar frases de contracanto e trabalhar a interpretação a partir de referências ligadas à Velha Guarda e às pastoras. A intenção foi construir uma sonoridade que respeitasse a tradição sem comprometer a fluidez da obra.
“E o samba me permitiu colocar frases de contracanto, trabalhando também, testando o canto, lembrando a Velha-Guarda, as pastoras. Ficou bem bonito, o resultado ficou bem legal. Acho que, com certeza, o portelense vai ficar bem feliz”, completou.
A tonalidade escolhida para a gravação foi Fá maior. Leandro também explicou que o arranjo incorporou uma modulação após uma citação de “Passado de Glória”, samba de mestre Monarco. A passagem foi construída com a participação da harmonia, das cordas e do canto, de modo a conduzir a mudança tonal.
“O tom do samba é Fá maior. No início, eu fiz uma modulação. A gente faz um trecho, uma citação do samba do senhor Monarco, ‘Passado de Glória’, e eu coloquei uma frase ali, na verdade, para fazer a mudança de tom. Fiz uma passagem para poder fazer a modulação, não só com a harmonia, com as cordas, mas com o canto também. Ficou bem bonito”, detalhou.
Para Leandro, a emoção é o elemento central da gravação. O arranjador destacou a combinação entre a tradição portelense, um andamento confortável para o canto e uma composição que mantém a energia necessária para o samba.
“A emoção. Com certeza vai emocionar o portelense. É uma emoção bem animada, que nos traz, nos remete à Portela, à Portela tradicional, mas com um andamento gostoso, bom para sambar, bom para a gente cantar. É um samba bem para cima, bem no momento, com alegria”, afirmou.
Compositores destacam responsabilidade de homenagear Monarco
Para os compositores, a gravação representou a continuidade de uma trajetória que começou na disputa de samba-enredo e ganhou uma dimensão ainda mais especial com a escolha da obra. Hélio Porto ressaltou que vencer uma disputa na Portela já era uma conquista de grande importância, mas transformar a homenagem a Monarco em uma gravação oficial acrescentou outro significado ao momento.
“Não há nada mais importante para nós do que ganhar um samba na Portela. Depois, entrar em um estúdio, poder gravar e mostrar para todo mundo tudo aquilo de bom que fizemos para homenagear mestre Monarco é algo muito sublime, de profunda leveza, mas também de profunda responsabilidade e amor pela Portela. É um dia mágico para a gente, assim como foi ganhar esse samba na quadra”, declarou.
Compositor Hélio Porto
Ao falar sobre o trecho de que mais gosta, Hélio destacou a tentativa de traduzir, em palavras, a relação de Monarco com a escola e a delicadeza de sua presença na história do samba.
“Aquela parte em que a gente diz que falar de Monarco é como poder falar da singeleza do amor, da sutileza que ele representa para essa escola. Dizer isso para a escola da forma como nós vamos é uma coisa que vai proporcionar ao mundo, ao portelense, mil possibilidades de abstrair sobre aquilo que a gente vai cantar”, explicou.
Vinicius Ferreira também descreveu a vitória na Portela como uma emoção que se renova a cada conquista. Para o compositor, a homenagem a Monarco tornou o processo ainda mais especial, principalmente diante da resposta da comunidade, que demonstrou envolvimento com o samba nos encontros realizados pela escola.
“Primeiro, parto de um lugar onde são várias sensações agora, dos últimos dias. Ganhar na Portela é uma emoção sempre nova, e falar de Monarco é totalmente especial. Ver a comunidade cantando o samba cada vez mais parece um sonho. Eu costumo dizer uma frase: parei de normalizar coisas incríveis na minha vida. Eu não normalizo mais. Vivo o máximo do máximo, na potência que ela deve ser vivida”, afirmou.
“Ando muito feliz com tudo. Meus parceiros também, acho que estão nessa estrada da mesma forma. A Portela está cantando para caramba o samba. É viver esse momento, cada momento dessa trajetória que é tão curta, mas viver com a intensidade que ela merece”, completou.
A reação do público durante a feijoada realizada no Renascença foi apontada por Vinicius como um sinal positivo para o rendimento da composição. O compositor explicou que já tinha uma expectativa favorável, mas se surpreendeu com a maneira como os portelenses receberam a obra.
Compositor Vinicius Ferreira
“Eu acho que já está aí. Essa feijoada que teve lá no Renascença me impressionou. Eu já estava com uma sensação de que seria legal e tal. A Portela sempre é boa, independentemente do samba que venha, sempre escolhe bem e dá certo. Mas me impressionou. As pessoas cantando emocionadas parecem que ecoam mais. O samba tem alguns momentos que são muito do portelense. É muito a emoção, que fala junto com a letra, com a melodia, aquela coisa da alma, a coisa do portelense”, contou.
“Parece mentira às vezes, parece que estou sonhando, de verdade. É muito bom. Eu não conseguiria falar aqui, mas o máximo que chega é isso”, acrescentou.
A conquista também ganhou um significado pessoal para Vinicius. Aos 41 anos, o compositor afirmou que vive uma experiência que não imaginava quando pensava no próprio futuro e que a homenagem reuniu pessoas com quem construiu relações ao longo de muitos anos na Portela.
“Esse samba representa na minha vida um momento que eu nunca imaginei viver, de verdade. Eu imaginava talvez como seria minha vida com 30 anos, mas nunca tinha imaginado como seria minha vida com 41. E é tudo muito novo para mim, tudo muito surpreendente. A vida parece que está cada vez melhor. Eu já tinha vivido algumas emoções na Portela, mas nunca vivi o que estou vivendo agora, da forma como está sendo. Está sendo muito especial”, declarou.
“É falar de Monarco com o Bruno cantando, com o Vitinho, mestre de bateria, com a rainha, com o presidente, com a vice-presidente, que são todas pessoas que conheço há anos e anos. Parece que estou na minha casa, vivendo um sonho único. Parece que tudo convergiu para que a nossa parceria fosse formada pelas pessoas que estão, para que o presidente fosse quem é, para que a vice fosse quem é, para que o mestre fosse quem é. É muito mágico para mim”, completou.
Wanderley Monteiro também ressaltou os dois principais motivos que tornaram a composição especial: a importância de Monarco para o samba e o fato de a homenagem ter sido construída dentro da escola que aprendeu a amar desde cedo, mesmo morando longe.
“Muito importante por dois motivos. A gente está falando de Monarco, que é um dos maiores ícones do nosso samba, uma figura muito querida por todo mundo e muito mais ainda na Portela. Um ícone da Portela, uma pessoa muito importante para a gente. O outro motivo é fazer um samba para Monarco na minha escola, a escola que aprendi a gostar desde cedo, mesmo morando longe. Isso, para mim, tem uma relevância muito grande. A gente está muito feliz. O samba foi feito com muito carinho, muito amor, por causa desses dois motivos. A gente fala de Monarco, e você não tem espaço, não tem como terminar. Mas, brincando um pouquinho, tinha que terminar, porque o samba tem que ter. É muito importante para mim, sim, com certeza, por tudo isso que falei”, acrescentou.
Compositor Wanderley Monteiro
Questionado sobre o peso de ser um dos compositores mais vencedores da Portela, Wanderley afirmou que as conquistas não representam uma vaidade pessoal. O compositor explicou que prefere pensar em cada disputa como uma oportunidade de vencer, sem estabelecer uma meta numérica de títulos.
“Claro. Não por ser o maior vencedor, porque isso não me envaidece. Não me envaidece porque um dia alguém vai me passar, seja porque eu não estarei mais aqui, seja porque parei de fazer. Agora, me envaidece cada vitória que tenho na Portela. Cada vez que a gente é campeão é uma alegria muito grande, mas não tenho a meta de ‘quero ganhar tantos sambas’. Não, eu quero ganhar toda vez que disputar. Ser o maior é consequência disso”, afirmou.
O compositor também compartilhou a emoção de ver uma obra sair do papel e alcançar o público. Antes de começar a compor sambas-enredo para a Portela, Wanderley já tinha músicas gravadas por artistas como Beth Carvalho. Ainda assim, ele destacou que acompanhar uma multidão cantando um samba na Avenida tem um significado particular.
“Eu, antes de começar a fazer samba na Portela, já tinha alguns sambas gravados com a Beth Carvalho, com o Diogo, e outros grandes artistas. É sempre uma sensação muito legal ver o teu samba gravado e ver o teu samba cantado na Avenida. Mais ainda no samba-enredo, porque você pode ver uma multidão de gente cantando de uma vez só. É uma alegria, e você fala assim: ‘Poxa, eu cheguei aqui. Olha onde eu cheguei, nunca imaginei’. Quando fui para a Portela, fui por ser minha escola de coração, para ganhar um samba. Hoje tenho nove, graças a Deus, graças aos meus parceiros, à minha esposa, que me apoia muito, Michelle Bragança, e aos meus amigos. Isso me deixa muito feliz. É muito gratificante ver o nosso samba assim. Eu fico olhando para a arquibancada lá na Sapucaí, o pessoal cantando, e saio até do chão. É uma coisa muito legal. Nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo e está acontecendo. Deus e meus protetores são muito bons comigo”, completou.
A reação na quadra também reforçou a confiança de Wanderley no caminho escolhido pela escola. O compositor lembrou a apresentação do samba durante a feijoada no Renascença e destacou a energia dos portelenses diante da obra.
“A Portela fez a feijoada no Renascença e apresentou o samba. Eu nunca vi, nas minhas nove vitórias, nas oito anteriores, uma Portela tão feliz com o samba escolhido como está com esse. É uma energia muito boa, muita gente pulando, gritando. E só tinha portelense, porque é uma festa da Portela. A gente pôde sentir a importância do samba para o portelense. Isso ainda nos dá mais alegria”, avaliou.
Mestre Vitinho aposta em andamento confortável e referências aos velhos tempos
Na bateria, Mestre Vitinho definiu um andamento entre 142 e 144 BPM (batidas por minuto) para a gravação. A escolha levou em consideração a melodia e a necessidade de criar condições favoráveis para que a interpretação de Bruno Ribas alcançasse o público.
“A gente vai colocar o andamento de 142, 144 BPM. Essa é uma obra para todo mundo ter um entendimento bem bacana, da melodia, do sentimento. É um samba bem melódico, que mexe com as pessoas. Mesmo quem não é portelense se emociona pela melodia. Estamos buscando um andamento mais confortável para a voz do nosso grande cantor Bruno entrar na mente e no coração de todos”, explicou.
Mestre Vitinho
A preparação também contemplou referências à tradição musical da escola. Vitinho contou que a ideia era conduzir a gravação por um caminho que remetesse à sonoridade associada a Monarco e aos antigos tempos da Portela. Entre as referências mencionadas, esteve o trabalho do mestre de bateria Marçal, cujo centenário também motivou uma homenagem.
“Essa era uma boa movimentação para uma gravação mais, vamos dizer, do lado mais Monarco. O Monarco era um grande baluarte, muito conservador. Na primeira passada, a ideia era fazer uma batucada relembrando os velhos tempos da Portela, com os três teleco-tecos do mestre Marçal, que é o centenário dele, para fazer uma homenagem para ele. Na segunda passada, tocar samba para o Monarco”, relatou.
À frente da bateria, o mestre afirmou que a gravação representava um dos momentos mais importantes de sua trajetória profissional. Depois de um primeiro ano marcado pela chegada à escola, Vitinho disse que passou a se sentir plenamente em casa e destacou a responsabilidade de conduzir uma homenagem a Monarco.
“Eu confesso que é, para mim, o melhor momento da minha carreira. Estou feliz com o que vou viver, com o que estou vivendo à frente da bateria da Portela. O ano passado foi bacana, mas era a minha chegada. Agora, voltando para casa, já me vejo 100% em casa. Então, com certeza, vai ser uma das melhores gravações que já executei à frente de uma bateria. Tocar a promessa do Monarco é algo gratificante demais. Nada melhor do que fazer com amor e carinho, porque, com certeza, onde ele estiver, receberá isso com muita felicidade”, declarou.
Camarão Netto destaca identidade musical e emoção da homenagem
Diretor de carnaval da Portela, Camarão Netto também apontou a emoção como um dos elementos centrais da gravação. Para ele, registrar a obra é uma maneira de prolongar a celebração a Monarco e permitir que a homenagem alcance o público durante toda a temporada carnavalesca.
“A gente pode esperar um samba com muita emoção, de fato, para celebrar o nosso mestre, o nosso homenageado, Mestre Monarco. A Portela segue celebrando a cada dia, e hoje não vai ser diferente. É deixar isso registrado nessa celebração, para que o mundo inteiro possa escutar da melhor forma, da melhor maneira possível, a obra feita por compositores da escola, e celebrar durante todo o carnaval essa gravação”, afirmou.
O diretor ressaltou que a gravação ficará registrada não apenas como um produto musical, mas também como parte da memória afetiva dos portelenses. Na avaliação de Camarão, a bateria e o carro de som precisavam estar alinhados para reforçar a identidade musical que a escola construiu ao longo de sua história.
“É um momento muito importante, porque isso fica registrado. É uma forma de celebração que vai ficar no coração de todo portelense. A escola está vindo, sim, com bastante emoção, um samba bem emotivo, a bateria e o carro de som bem alinhados, bem característicos da levada da escola. Isso é muito importante também: zelar pela característica que os nossos mestres do samba deixaram para a gente. Cantar Monarco, falar de Monarco, exige que a gente imprima essa identidade da nossa querida Portela. Vamos trazer bastante emoção e muita identidade musical”, completou.
A relação pessoal com o homenageado tornou o momento ainda mais delicado para Camarão. Integrante da Velha-Guarda Show da Portela, o diretor lembrou que foi colocado nessa posição por Monarco e contou que precisou conciliar a emoção com a responsabilidade de acompanhar a gravação.
“Cara, eu não consigo nem explicar muito, porque, para mim, é um processo muito emotivo. Convivi muito com o senhor Monarco. Apesar de ser membro da Velha-Guarda Show da Portela, fui colocado nesse lugar por ele. Para mim, é muita emoção. Apesar de estar numa posição de muita atenção, ao mesmo tempo me emociono muito, porque é um momento muito delicado para mim”, declarou.
Entre os versos que mais o tocam, Camarão destacou uma frase que sintetiza a ligação entre a figura de Monarco e o próprio samba: “Se o samba tem rosto, é o seu”.
O presidente da Liga-RJ, Déo Pessoa, cobrou previsibilidade no repasse de recursos para o carnaval e defendeu maior valorização das escolas de samba durante entrevista ao CARNAVALESCO, na audição do álbum de sambas-enredo da Série Ouro para o Carnaval 2027. O dirigente também confirmou a realização dos ensaios técnicos nos dias 15, 16 e 17 de janeiro de 2027, enquanto a realização dos minidesfiles ainda depende da captação de recursos. Ao avaliar o resultado da gravação do álbum, Déo demonstrou satisfação e destacou a possibilidade de ouvir as letras com clareza e cantar os sambas, características que, na avaliação dele, remetem a uma experiência mais próxima da tradição dos discos de carnaval.
“Eu fiquei emocionado, porque pude curtir bastante. Ele me remeteu ao passado, quando você ouvia os sambas dessa maneira. É positivo, é bom, porque você podia ouvir bem a letra, cantar o samba. Isso é o importante. O resultado está bastante a meu agrado”, afirmou.
O presidente também ressaltou a importância de antecipar a entrega do álbum, especialmente diante do calendário mais cedo do carnaval de 2027. Segundo Déo, a Liga-RJ trabalha para disponibilizar o material com antecedência, apesar das dificuldades financeiras e estruturais enfrentadas pela entidade.
“Buscamos trabalhar com toda a dificuldade que estamos tendo de recursos, enfim, estruturais, mas força de vontade não falta para que a gente possa cair dentro e entregar não só esse trabalho, como o CD, mas outros que virão pela frente com antecedência”, explicou.
Déo Pessoa cobra respeito e previsibilidade para as escolas
Ao abordar as perspectivas financeiras para o próximo carnaval, Déo Pessoa reconheceu que ainda não há uma definição sobre os recursos que estarão disponíveis para as escolas de samba. O dirigente, no entanto, manifestou esperança de que a valorização do carnaval seja mantida e, se possível, ampliada. Para o presidente da Liga-RJ, um dos principais problemas enfrentados pelas agremiações é a falta de previsibilidade orçamentária, que dificulta o planejamento e a organização do trabalho para os desfiles.
“A gente precisa ter previsibilidade nos recursos. Não podemos continuar dessa forma, parece que estamos com o pires na mão, pedindo ajuda, esmola. Precisamos ter respeito por parte do poder público e da sociedade como um todo”, declarou.
Déo também criticou a forma como o financiamento do carnaval é tratado em debates públicos, especialmente quando a discussão gira em torno da manutenção ou do corte das verbas destinadas às escolas de samba. Na avaliação do dirigente, esse tipo de discussão contribui para marginalizar as instituições do carnaval.
“Quando vem um debate, como aconteceu durante a eleição, de cortar ou não cortar a verba do carnaval, de vai dar ou não vai dar, as escolas de samba e a Liga acabam ficando mais marginalizadas dentro desse debate. O carnaval tem uma importância muito grande para a nossa cultura e para a cidade do Rio de Janeiro”, ressaltou.
Minidesfiles seguem indefinidos, mas ensaios técnicos estão confirmados
A realização dos minidesfiles da Série Ouro ainda é uma incógnita. Déo Pessoa admitiu que o evento enfrenta dificuldades para sair do papel, mas não descartou a possibilidade de conseguir recursos que viabilizem a programação.
“Os minidesfiles estão difíceis. Só não digo agora que não vão acontecer porque ainda temos esperança de conseguir algum recurso que proporcione isso”, afirmou.
Em contrapartida, os ensaios técnicos estão confirmados para os dias 15, 16 e 17. A Liga-RJ deverá divulgar em breve a ordem das apresentações das escolas, permitindo que as agremiações e o público se organizem para a programação preparatória para os desfiles da Série Ouro de 2027.
O carnavalesco Lucas Milato, da Unidos da Tijuca, defendeu a participação dos sambistas na manifestação ‘O samba não se cala’, realizada nos Arcos da Lapa, no Centro do Rio. Presente no ato em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o artista afirmou que a relação entre samba e política é direta e histórica, além de destacar a importância da mobilização dos profissionais do carnaval na defesa da arte e da cultura.
Para Lucas, a presença dos integrantes das escolas de samba nas ruas representa uma atitude necessária para quem trabalha com cultura e acredita na importância do carnaval para a sociedade. O carnavalesco ressaltou que a mobilização também está relacionada à defesa dos profissionais do setor artístico.
“A gente está aqui fazendo o óbvio para qualquer sambista apaixonado por carnaval, não só pelo carnaval, mas pela arte e pela cultura. A gente está aqui para reverter esse jogo, virar esse jogo, porque precisamos de Lula reeleito, pela arte, pela cultura, por nós, profissionais do carnaval, profissionais da arte. A gente está aqui para seguir na missão e virar esse jogo, se Deus quiser”, afirmou.
Questionado sobre as críticas à aproximação entre carnaval e política, Lucas foi enfático ao defender que as duas áreas não podem ser tratadas de forma isolada. Na avaliação do carnavalesco, as escolas de samba desempenham uma função que ultrapassa o espetáculo e contribuem para a formação cultural e social do país.
“Eu acho que é uma relação direta e eterna, porque a arte é política, o carnaval é política, as escolas de samba são instituições culturais necessárias para a construção social do nosso país. Então, é impossível falar de samba e não falar de política. São coisas que estão o tempo inteiro unidas, e a gente precisa batalhar pelo óbvio e pelo sambista”, declarou.
O mistério, a ancestralidade e o respeito ao sagrado da cultura afro-brasileira são os principais pilares do enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, que será apresentado no próximo carnaval pela Imperatriz Leopoldinense. Idealizada por Leandro Vieira, a história resgata a memória da calunga Dona Júlia, do Maracatu Nação Porto-Rico, em Pernambuco, que ficou 34 anos desaparecida. Em 2014, Dona Júlia retornou ao seu maracatu de origem e, com uma história marcante e ritos ancestrais, em 2027, 13 anos depois de seu reaparecimento, será homenageada no maior espetáculo da Terra. Em entrevista ao CARNAVALESCO, o líder do Maracatu Nação Porto-Rico, Mestre Chacon, revelou que a história com a Imperatriz, sobretudo com Leandro Vieira, começou de maneira inusitada. Isso porque o babalorixá, de início, não viu a mensagem que o carnavalesco tinha enviado pelo Instagram. Em seguida, Leandro ligou diretamente para o líder, que pensou ser mais um pesquisador acadêmico.
“Quando o Leandro mandou uma mensagem no Instagram, eu não a localizei. Em seguida, ele me ligou dizendo que precisava falar comigo a respeito de coisas da cultura. No início, eu achei que era mais um pesquisador que estaria querendo saber sobre o terreiro, Candomblé, Maracatu… Eu fui. Ele falou: ‘Posso conversar com você agora? Tem um tempo?’. Eu digo: ‘Tenho’. Eu saí de onde eu estava para outro local, e ele perguntou se eu ainda era o Babalorixá, o coordenador responsável do Maracatu, e se podia falar sobre Dona Júlia. Eu digo: ‘Posso’, mas, até então, eu achava que era só mais uma pesquisa. Ele me falou: ‘Não, eu sou carnavalesco’. Ele se apresentou e eu disse: ‘Tudo bem’”, contou o mestre.
Por se tratar de um tema oriundo de religiões afro-brasileiras, eles decidiram que só poderiam trabalhar o assunto com a permissão do sagrado.
“Leandro me disse: ‘Só podemos trabalhar isso se for autorizado pelo sagrado’, porque Dona Júlia, junto com as outras quatro calungas, é tudo de mais sagrado que a gente tem dentro da nação do Maracatu, junto aos orixás, aos eguns, aos mestres e mestras do catimbó. Nós marcamos, joguei o Ifá, fiz um jogo on-line, Oxalufan autorizou, alafiou, e, quando ele autorizou, eu disse: ‘Está autorizado trabalhar o tema e que ela seja muito bem-vinda, bem-vista e bem trabalhada a sua história dentro da Imperatriz’”, disse mestre Chacon.
Com a permissão de Oxalufan, deram-se início aos trabalhos e a uma grande parceria. Quando questionado sobre o desenvolvimento do projeto, o babalorixá não se conteve nos elogios ao carnavalesco.
“Está maravilhoso. Temos uma pegada muito parecida, eu e Leandro. A gente não faz nada que não seja autorizado pelo ancestral, pelos orixás, pelo sagrado. E Leandro é um cara da cabeça muito aberta e muito além do tempo dele. A gente se conecta muito bem. Sou eu no sagrado e ele na conjuntura do profano, da festa, do brilho, da história. Casou muito bem, Leandro/Chacon, Chacon/Leandro, porque, independentemente de tudo isso, a gente se respeita muito. Estamos todos os dias conversando, tentando resolver e fazer o melhor e levar a Dona Júlia e a sua história para o carnaval, para que todo mundo passe a conhecer. É muita felicidade, é muita emoção, é muito mágico e é um desafio, porque é muito fácil você contar o que está no Google, mas contar uma história que estava apagada, desaparecida, guardada, e aí você a tira e a leva para o mundo é muita responsabilidade. Pelo sagrado e pelos ancestrais, tudo o que a gente tem dentro dos nossos terreiros”, afirmou.
O trabalho de Leandro Vieira está resgatando uma memória viva da cultura afro-brasileira de forma clara, para que o público possa entender, se interessar e se apaixonar por Dona Júlia e pelas calungas.
“Sabe quando a coisa é muito complexa e, de repente, ela está sendo tão bem contada, tão bem apresentada, que vai ser tão fácil o mundo entender esse mundo mágico dos eguns, dos ancestrais, do orixá Iansã? Porque falar de Oyá é muito fácil, mas falar do fundamento de Oyá aos eguns e do que ela representa junto com a calunga não é tão fácil. Mas está sendo contada de uma forma tão simples, tão direta, tão objetiva, tão transparente, que o público com certeza vai se apaixonar”, ressaltou mestre Chacon.
Assim como o público sambista irá se encantar com o próximo desfile, Chacon conta que ficou impressionado com o barracão da agremiação, na Cidade do Samba. Durante a visita, o impacto visual das alegorias e fantasias foi marcante.
“A minha maior surpresa foi quando eu conheci lá o grande templo, o templo mágico onde tudo se cria, tudo se transforma e nada se perde, que é o grande barracão, que é um local mágico. Eu não imaginava que tudo era tão grande, era tão mágico. Quando você chega e diz: ‘Está tudo muito vivo, está tudo muito presente’. Pode acreditar que vocês vão ter um grande espetáculo na Avenida. É surpresa”, declarou.
No carnaval, a Nação Maracatu Porto-Rico também está em festa. No próximo ano, os desfiles irão acontecer em dias seguidos. Porém, mesmo com uma agenda corrida, Chacon confirmou sua presença na Sapucaí.
“O Porto Rico desfila no domingo, e aqui é na segunda. A gente termina o desfile, pega o foguete e cai aqui na Imperatriz para estar junto com ela. Dona Júlia desfila no domingo e vai estar aqui com a Dama do Passo, com a Rainha, com tudo o que é preciso e é possível para o carnaval da Imperatriz. Pode acreditar, vai ser um sucesso, vai ser um momento mágico”, disse.
Agora, além do líder religioso do Maracatu, há outra coisa que não pode faltar de jeito nenhum no desfile da Imperatriz Leopoldinense em 2027: “Dona Júlia! O que não pode faltar é ela. Ela vai estar linda, maravilhosa, junto ao nosso grande pai Oxalá, que é o dono do orí dela. Eu só posso dizer a cor com que ela vem, que é branco, porque ela é de Oxalá, já foi divulgado para o mundo, ela não pode vir com outra cor. Mas ela vai estar linda, trazendo todo o axé e toda a magia que os eguns e os ancestrais podem trazer para esse carnaval dentro da Sapucaí, representado pela Imperatriz Leopoldinense”, concluiu.
Após a escolha do hino oficial de 2027, a Portela está cada vez mais perto de levar Monarco para a Marquês de Sapucaí. A parceria de Wanderley Monteiro sagrou-se campeã prometendo um desfile muito emocionante e representativo para a figura do baluarte da escola. A partir desse ponto, começa um trabalho ainda mais importante: o da harmonia. Afinal de contas, samba é para ser cantado. O trabalho na Majestade do Samba é composto por Dudu Falcão, que também exerce a função de diretor de carnaval, Marcelo Jacob, que teve passagem de 2006 a 2013 pela agremiação, retornando 13 anos depois; Almir de Souza, que também teve passagem de 2012 a 2015 e retornou em 2021; e Vitor Leite, integrante desde 2018. Uma comissão tripla apresenta desafios, principalmente de comunicação e tomadas de decisões, além de carregar a responsabilidade natural.
“A comissão trabalha sempre em conjunto, nós discutimos os problemas e os desafios e decidimos juntos o que precisa ser feito. Mesmo nos momentos em que a comissão é representada por um de nós, esse um representa a decisão do time, pois tudo é debatido e nada é escondido. Fica mais fácil desse jeito, apesar de sermos diretores com idades diferentes, tempos de carreira diferentes e passagens diferentes pelo mundo do carnaval. São experiências diferentes que se somam pelo objetivo, que é colocar a Portela no topo”, disse Vitor Leite.
Em 2027, a Portela completa 104 anos de existência. Isso, por si só, é muito significativo. Juntamente a este fato, tem-se Monarco, um baluarte. Um pilar para a cultura do samba e da própria agremiação. Marcelo Jacob compartilha como a importância de um enredo clássico como esse atingir os corações dos portelenses, uma vez que o samba na avenida pode definir um carnaval. Mas esse trabalho é em conjunto e depende de todas as partes, como uma engrenagem.
“O nosso trabalho é essencialmente setorial. Contamos com coordenadores específicos para cada setor da escola. Como este ano apresentaremos um enredo de caráter clássico, nosso foco será garantir um canto potente e uma evolução constante, assegurando que a Portela entre na avenida com energia elevada. Sendo a primeira escola a desfilar, nosso objetivo é demonstrar todo o potencial desenvolvido nos ensaios, aprimorando cada detalhe técnico para atingir a nota máxima”, comentou Marcelo Jacob.
O último ponto a se destacar, claro, é o trabalho da principal voz que embala o hino da agremiação. O intérprete Bruno Ribas é uma parte muito importante na disputa de um campeonato, com um enredo tradicional e potente que a azul e branco carrega para a Sapucaí. Almir de Souza pontua a rotina de trabalho com Bruno até a avenida.
“Na verdade, o nosso trabalho é de muita união, sempre tomamos decisões em conjunto e isso nos fortalece. Trabalhar com Marcelo, Vítor e Dudu, está sendo uma experiência fantástica. O mais importante é que nos respeitamos. Trabalhar com Bruno Ribas e sua equipe é fácil. Temos um grande entrosamento e respeito uns pelos outros. Temos também o apoio do Leandro, diretor musical que torna esse trabalho muito mais fácil. Temos uma comunidade incrível que gosta de cantar e evoluir, facilitando o nosso trabalho. Vai ser uma comunhão perfeita”, citou Almir de Souza.
O álbum dos sambas-enredo da Série Ouro para o carnaval de 2027 vai soar diferente. O disco da Liga RJ aposta em uma sonoridade mais próxima do ao vivo e o formato que resgata os discos antigos das escolas de samba: a primeira passada de cada samba chega com a bateria mais leve, e a segunda, com os ritmistas a pleno vapor. A proposta, segundo o produtor Macaco Branco, é fazer o ouvinte se sentir dentro de uma quadra.
“Vai ser uma pegada mais próxima do ao vivo e, entre aspas, retrô. Daquela época em que a gente fazia a primeira passada do samba mais leve, e a bateria vinha mais pesada na segunda”, explicou.
Na primeira execução, o destaque vai para os arranjos de harmonia e para um coro “bem pesadão”, que facilita o entendimento da letra. Na segunda, entram as bossas, as paradinhas e os desenhos preparados por cada mestre de bateria. Para o produtor, é aí que aparece a identidade sonora de cada agremiação.
“O legal é quando você ouve e se sente dentro daquilo, fazendo parte daquele projeto”, disse.
Padrão comum, identidade própria
O processo começa antes de qualquer gravação, em reuniões entre Macaco Branco e Maurício, com quem divide a concepção do disco. É nesse momento que se define a estética fonográfica e um padrão comum a todas as faixas, repassado depois às escolas e aos arranjadores. A ideia é evitar discrepâncias, como um samba com três passadas e outro com uma, ou um alusivo longo ao lado de um curto.
“Nossa função é fazer um produto comercial, mas sem perder a essência de cada escola”, resumiu.
Os alusivos, aliás, ficaram a critério das agremiações. Algumas manterão introduções tradicionais; outras usarão aberturas que valorizem o enredo. Os arranjadores, conta o produtor, trabalham em diálogo com os diretores musicais e as direções de carnaval de cada escola.
Depois das reuniões, cada agremiação vai ao estúdio para montar a guia com os arranjadores, que gravam as harmonias. Em seguida, os mestres levam os ritmistas para gravar a bateria. Na semana seguinte, é a vez do carro de som e do intérprete principal. Quando o enredo pede, entram instrumentos de fora da formação tradicional, como acordeom, atabaques e timbal. Por fim, o material passa por edição, mixagem e masterização, e só segue para as plataformas digitais depois de aprovado em audição pelo presidente da Liga RJ. A data de lançamento está marcada para 29 de outubro.
Sonho do coro da comunidade
Confiante, Macaco Branco não economiza na expectativa: “Pode ter certeza: vai ser um dos melhores álbuns de todos os tempos”.
Mas, ele admite que ainda há um passo a ser dado. Seu desejo é, um dia, levar a gravação para dentro das comunidades.
“Fazer um corão ao vivo, com pelo menos 50 a 100 vozes da comunidade, e gravar com a bateria ao vivo, com uns 50 a 80 ritmistas. A ideia é sempre passar o máximo de imersão, uma pegada bem ao vivo e, ao mesmo tempo, muito bem mixada”, projetou.
Algo que permeou a gravação do audiovisual da MUM para o Carnaval 2027 foi a preocupação com as festividades antigas da cidade de São Paulo. A característica começou nos arranjos para a faixa, como explicou Dennys Silva, um dos responsáveis pela parte musical e mestre da “Chapa Quente”, bateria da MUM.
“A gente só faz o que o samba pede, desde o começo. Gravamos esse samba no dia 16 de abril, então foi muita maturação, respeitando as ideias dos compositores. É uma comunhão de pessoas pensando no melhor tom, na voz dos cantores e no andamento da escola. Tudo é muito bem pensado para exaltar o samba, a nossa obra, o nosso hino”, destacou.
Paulo Henrique, popularmente conhecido como PH do Cavaco, ressaltou que não houve predominância de nenhum instrumento na gravação.
“As cordas não têm privilégio de nada, tanto que hoje a gente colocou até um banjo na gravação. A bateria faz o lance dela, a gente faz a nossa parte e responde, tudo com muito respeito musical entre ambos. Por isso, o conjunto fica muito bom”, comentou.
Facilitadores
Cerca de uma semana antes da gravação do audiovisual oficial da escola para a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP), a Mocidade Unida da Mooca produziu sua própria versão, convidando as escolas que representam os cardeais do samba paulistano, homenageados no enredo.
Ao ser perguntado sobre como o curto intervalo entre as gravações e as diferentes dinâmicas poderiam atrapalhar ou ajudar a agremiação, Dennys avaliou que a experiência trouxe benefícios.
“Essa situação super nos ajudou! Fizemos apenas uma adaptação para ter um tamanho melhor, diminuindo um pouco a introdução. No arranjo em si, não houve mudança alguma: foi igualzinho ao do audiovisual, que durou 16 minutos e teve oito passagens. Aqui, estamos com duas passagens sem introdução”, explicou.
Imersão completa
Presidente da Mocidade Unida da Mooca, Rafael Falanga destacou a proposta artística como o principal diferencial da gravação.
“O diferencial da MUM é trazer uma proposta à moda antiga, de acordo com o enredo. Vamos fazer uma gravação sem uma grande introdução, indo direto para o samba, tal qual era feito antigamente. Cada componente do coral fez sua própria fantasia. Queremos retratar os carnavais antigos não só no áudio, mas também na parte visual”, afirmou.
O presidente também valorizou o envolvimento da comunidade na construção da identidade visual do clipe.
“A energia está pairando sobre a MUM! A galera comprou muito essa história. Mas preciso dar nome aos bois: quem trouxe essa ideia foi um dos nossos diretores de Carnaval, Vanderley Silva. Ele sugeriu que, em vez de corrermos atrás dos figurinos padrões, trouxéssemos os carnavais antigos para a parte visual do clipe. A comunidade e o coral compraram a ideia, e houve uma movimentação imensa ao longo da semana. Deu super certo! Está todo mundo lindo e vai refletir o enredo”, comemorou.
Horário favorável
Ao ser perguntado sobre a logística para os componentes chegarem à Fábrica do Samba, Vanderley Silva, integrante da direção de carnaval da escola, respondeu com bom humor.
Vanderley Silva, integrante da direção de carnaval da escola
“Tinha o metrô Palmeiras-Barra Funda e os ônibus de linha que chegam aqui na Fábrica do Samba. Como era uma sexta-feira, com todo mundo vindo do trabalho, montamos um esquema de recepção, maquiagem e alimentação. O horário da gravação também era confortável: às 22h30”, pontuou.
O diretor também explicou como surgiu a ideia de fantasiar os integrantes do coral.
“A princípio, nossa ideia era serpentear no espaço do coral, com todo mundo de calça branca e camisa do enredo. Fui para casa e, na manhã seguinte, tive a ideia de cada um fazer sua própria fantasia, tal qual se fazia antigamente. Achei que o Renan Ribeiro e o Rafael Falanga iam dizer que eu estava maluco, mas eles gostaram. O Renan fez um vídeo e ajudou a produzir, enviando as imagens do que queria no audiovisual. O resultado vocês viram aí”, disse.
Preparação de bamba
Os intérpretes também entraram na onda dos antigos carnavais. Com chapéus panamá, Gui Cruz e Pixulé mostraram descontração ao falar da preparação para a gravação.
Gui Cruz também entrou na brincadeira e contou que teve pouco tempo para se preparar.
“Trabalhei para caramba hoje, até as 19h. Só depois cheguei ao barracão e comecei a pensar na gravação”, riu.
Ao comentar o que mais chamou sua atenção na proposta, Gui destacou a concepção artística e a participação dos componentes.
“A proposta artística como um todo é sensacional! Cada pessoa do coral produziu a própria fantasia para reproduzir os carnavais de antigamente. Pensamos na arte desde o princípio: não fizemos nossos gritos de guerra nem introdução na gravação. Tudo para fazer como se fazia samba antigamente. Parabéns à Diretoria Artística da Mocidade Unida da Mooca por pensar artisticamente no carnaval, porque carnaval é arte e alegria”, exaltou.
Na primeira gravação de audiovisual da Liga-SP com a Mocidade Unida da Mooca, Pixulé também se surpreendeu com o resultado do trabalho do coral.
“Quero puxar a sardinha para a minha comunidade: eles deram um show! Pensei que a escola faria os figurinos e deixaria todo mundo uniformizado, mas cada um fez a sua fantasia e deu certo. Ficou maneiro demais, maravilhoso! Deu liga demais!”, comemorou.
Tradicional até na bateria
Dennys explicou a escolha do andamento da “Chapa Quente” para a gravação e destacou a preocupação em preservar as características do samba.
“A gente foi com um andamento de 140 a 142, no máximo, porque é um samba que não pede muito. Estamos fazendo uma releitura do que se tocava nos carnavais antigos, sem deixar o andamento tão para trás a ponto de desconfigurar o que o carnaval faz ultimamente. Vamos com três bossas para a pista e duas na gravação. Tranquilidade máxima, tem que priorizar o samba”, afirmou.
O mestre também ressaltou a formação tradicional da bateria como um dos destaques da obra.
“A gente tem caixa, surdo, repinique, agogô, chocalho, tamborim e cuíca. É um carnaval que relembra os antigos, com uma bateria bem tradicional, sem predomínio de naipe algum”, concluiu.