Na Marquês de Sapucaí, a homenagem da Mocidade Independente de Padre Miguel a Rita Lee ganhou corpo coletivo na ala LGBTQIAPN+, que levou para a avenida um tributo à artista como símbolo de liberdade, autenticidade e enfrentamento às normas sociais. Em um desfile marcado pela celebração de sua trajetória, a presença da diversidade transformou a memória musical em afirmação política.
Muito antes de debates sobre gênero e sexualidade ocuparem o centro da esfera pública, Rita já tencionava padrões. Em 1997, no clipe de “Obrigado, Não”, exibiu o beijo entre dois homens vestidos de militares. O gesto foi considerado ousado para a época e revelador de sua postura provocadora diante do conservadorismo. Na avenida, esse legado foi reconhecido como caminho aberto para novas existências.
Gabi Santos, da ala LGBT da Mocidade. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Estreante na Estrela Guia, Gabi Santos, de 32 anos, escolheu desfilar justamente na ala LGBTQIAPN+ por se reconhecer nessa história de coragem. Seguindo os passos da avó, antiga torcedora da escola, ela destacou a importância de artistas que desafiaram limites e tornaram possíveis outras formas de viver.
“Ela trilhou o chão para a gente caminhar. Tem total importância para estarmos aqui hoje fazendo o que estamos fazendo. Me influencia muito, assim como outros artistas da época, como Ney Matogrosso e Cazuza. Não são da minha geração, mas têm um valor enorme para mim”.
João Gabriel Lemos, da ala LGBT da Mocidade. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Entre os componentes, a imagem de Rita aparece associada à franqueza e à recusa do silêncio. João Gabriel Lemos, que também desfilou na ala, afirmou se reconhecer na personalidade direta da cantora.
“Essa autenticidade dela, esse jeito de falar as coisas sem medo… eu sou genioso e me identifico muito. Quando a Mocidade lançou o enredo, falei que era o meu ano, porque me vejo nessa forma de se expressar sem censura”.
Em um espaço historicamente marcado por disputas de visibilidade, a presença de uma ala dedicada à diversidade reafirma o Carnaval como território de existência coletiva. Para Gabi, mais do que representação, trata-se da continuidade de um legado.
“O Carnaval tem essa licença poética para a gente se libertar das amarras e viver da forma mais livre possível”, afirmou.
Ao transformar a homenagem a Rita Lee em celebração coletiva da diferença, a Mocidade fez da Sapucaí não apenas palco de memória, mas espaço de liberdade que a cantora ajudou a construir. Entre música, coragem e fantasia, sua voz segue ecoando onde sempre fez mais sentido: no corpo de quem insiste em existir sem pedir permissão.
Antes de deixar a explosão dos tambores e do canto tomar conta da Sapucaí com um samba-enredo que caiu na boca do povo, a Beija-Flor abriu o desfile com silêncio. Mas não estamos falando do silêncio sonoro, e sim, do da espiritualidade. O monumental abre-alas, intitulado “No silêncio que antecede o tambor”, representou os 16 dias de recolhimento que antecedem o Bembé, marcando o tempo sagrado destinado a preparação espiritual para a celebração acontecer.
Detalhes do abre-alas da BeijaFlor FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O carro era predominado pela cor branca, associada a equilíbrio, paz e tranquilidade, significando esse período. A Sapucaí foi transformada em uma extensão do terreiro, se reafirmando como um espaço de manifestação da fé e resistência.
Hércules Cruz, de 25 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O ator Hércules Cruz, de 25 anos, veio como destaque no carro e comentou que, apesar da proposta de introspecção, o sentimento provocado nele ao ver a alegoria é mais de celebração.
“É um enorme sentimento de celebração, de pureza, uma alegria que vem de dentro para fora. Para mim, a cor branca representa a suavidade, as águas limpas, o céu claro, o novo dia que está para raiar, a nova chance de batalhar para o novo dia e tudo de mais incrível desse mundo”, comentou.
Ao falar sobre a importância de transformar a Sapucaí em espaço de rito do Bembé, que ocupa a rua há mais de 136 anos, Hércules ressaltou: “Eu acho muito importante, porque é uma história que tem que ser muito conhecida mesmo. O Bembé é uma força ancestral, e por isso, assim como a Beija-Flor. Só ela poderia contar essa história”.
Isis Cristine, de 40 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A assistente de design Isis Cristine, de 40 anos, candomblecista há 26 anos, vê o desfile como uma grande afirmação do sagrado e da ancestralidade.
“É valorizar quem veio antes de nós. Sem a ancestralidade, sem os nossos antepassados, nossos avós, bisavós, pais, nós não estaríamos aqui. Exaltá-los é uma forma de agradecer a luta deles, porque foi mais difícil para eles. Nós chegamos em uma fase mais tranquila da manifetsção da nossa religiosidade, entre aspas. Ainda falta muito para conquistarmos a totalidade e a reparação histórica de uma forma geral. Mas eles passaram muito mais preconceito, muito mais discriminação, muito mais rejeição do que nós. Estar aqui nessa celebração significa resistência”, pontuou.
Juan de Castro, de 31 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já o professor Juan de Castro, de 31 anos, professor, morador de Nilópolis e torcedor da escola, afirmou que o carro lhe despertou sentimentos múltiplos:“Me remete tanto à celebração quanto à tranquilidade, leveza, calma, tranquilidade, ao início de tudo. Como abre-alas, estamos abrindo da melhor forma possível. Mesmo representando tranquilidade, vamos levantar a poeira e dar o nosso nome aí na avenida”.
Tchelsea Barbosa, de 18 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A estudante e empresária Tchelsea Barbosa, de 18 anos, estudante e empresária, moradora de Jacarepaguá, desfilou pela primeira vez na Azul e Branca, e resumiu o impacto que o abre-alas lhe causou.
“Eu vejo a celebração junto com a paz. Nem tudo que é animado precisa ser caos. O Carnaval é felicidade, é emoção e tranquilodade também, afinal, nada melhor do que curtir de forma leve”.
Gabriel Souza, de 25 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já o empresário Gabriel Souza, de 25 anos, resumiu o sentimento fazendo um apelo: “Temos que estar sempre celebrando, para que não haja intolerância. É magnífico estar desfilando em um carro tão importante quanto esse”.
A Mocidade trouxe uma estética bem acima do carnaval passado, com carros bem desenvolvidos, fantasias leves e qualidade de acabamento no geral, salvo alguns pequenos pontos. Bruna e Diogo voltaram a entregar uma apresentação muito intensa e sincronizada, mas um buraco enorme no setor quatro, bem no campo de visão de três módulos de julgamento, além de diversos momentos de evolução travada comprometeram o desfile. Com pequenos problemas em comissão e harmonia, a escola mostrou o enredo de forma perfeita e criativa. O samba teve rendimento satisfatório e interagiu com o público.
Com o enredo “Rita Lee, a padroeira da liberdade”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, a Mocidade abriu a segunda noite de desfiles do carnaval carioca com o tempo de 80 minutos.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
COMISSÃO DE FRENTE
Mais uma vez liderada por Marcelo Misailidis, a comissão apresentou Rita Lee como sinônimo de tudo aquilo que não tem limite no imaginário, do que representa uma mulher livre, independente e contestadora, alguém que se permitiu viver fora de padrões preestabelecidos, enfrentando a resistência e desafiando o sistema político e de comportamento. Dessa forma, a comissão propôs uma abertura falando da artista, relacionando a mulher real e sua história ao ficcional de sua obra. A apresentação se inicia com um cortejo hippie e Rita seguindo com o jipe de que ela gostava muito e que comprou do pai. Enquanto essa trupe dançava, Rita e o jipe eram escondidos por algumas torres grafitadas com a imagem dela e outras palavras. Quando as torres se afastam, Rita reaparece com roupa de presidiária, agora envolta por grades e com soldados batendo nelas.
O ponto toca sobre o embate entre a cantora e a ditadura militar, que buscava censurar as suas músicas. Nesse momento, a iluminação dá o clima quando o foco fica só na personagem e o restante totalmente escurecido. Então, das torres, surgem bruxas em bicicletas altas, evocando o misticismo de Rita e, no final, a iluminação diminui, e o fascínio da cantora pelos mistérios do universo é representado quando as grades da prisão se dobram até formar um disco voador, com Rita tocando guitarra. Pelo segundo ano consecutivo, Misailidis buscou uma comissão mais no chão, sem elemento cenográfico gigante, mas colocando outros recursos na apresentação. A narrativa da comissão buscou sintetizar o enredo, colocando traços que seriam apresentados depois no próprio desfile. A comissão teve leveza e graça, ainda que não tenha se utilizado de muitos recursos especiais. A execução também teve alguns problemas, como o não funcionamento total das câmeras que faziam parte da apresentação no primeiro módulo, além do travamento das engrenagens que não permitiu que a moto saísse da torre.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade, Diogo Jesus e Bruna Santos, veio para a Avenida vestido com fantasia inspirada na arte psicodélica dos anos 1960, movimento que mistura cores vibrantes e intensas para criar a sensação de alucinação visual. Psicodélicos, coloridos, em azul, rosa, vermelho, laranja e traços quadriculados em preto e branco, Diogo Jesus e Bruna Santos abriram o cortejo da Mocidade com coreografia em passos que pontuavam a letra do samba. A coreografia se iniciou com a dupla já girando junta, de mãos dadas, e depois separada, com Bruna brilhando no giro com o pavilhão.
Após a apresentação do pavilhão, a dupla fez uma passada coreografada, como que dando pisadinhas mais firmes, um indo em direção ao outro e depois para o lado. Depois, após um momento de maior intensidade nos giros, a dupla voltou a se procurar e se aproximar para mais uma sequência intensa de giros separados e, em seguida, o giro de mãos dadas. Houve ainda mais um passo coreografado até os últimos giros e a bandeirada de Bruna. Excelente apresentação nos módulos, com força e intensidade, com o casal se procurando o tempo todo e com os passos bem sincronizados. Mais um ano de apresentação em alto nível da dupla.
“Rita Lee, a padroeira da liberdade”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, incumbiu a Mocidade Independente de Padre Miguel de assumir a responsabilidade de reverenciar, na Avenida, o legado de uma estrela indispensável à história do rock, da música e da cultura brasileira. A escola apresentou na Sapucaí todas as fases da artista: provocadora, espiritualizada, libertária, verborrágica, irônica, crítica, debochada, rebelde e profundamente amorosa.
O primeiro setor representou o nascimento artístico de Rita Lee e a primeira grande ruptura que ela provocou na música e no comportamento brasileiro. É o momento da explosão criativa, da psicodelia e da contracultura, em que Rita surge jovem, coletiva e ousada, transformando a música em atitude, estética e comportamento. Depois, a escola celebrou Rita Lee como um dos grandes símbolos do Tropicalismo, movimento que uniu música, artes plásticas, teatro e cinema em uma luta estética e política por liberdade em meio à ditadura.
O terceiro setor retratou o período em que Rita Lee enfrentou diretamente os limites impostos pelo poder, pelo conservadorismo e pelas tentativas de silenciamento, sem se reduzir apenas à ditadura. Em seguida, a Mocidade apresentou Rita Lee transformando a música em um espaço de consciência, afirmação e emancipação da mulher. No setor seguinte, a escola mostrou que Rita Lee levou a liberdade para outro território: o da experiência sensorial, do prazer e da festa, onde a sexualidade deixa de ser discurso e se transforma em vivência. O setor seguinte revelou as muitas faces de Rita Lee: a roqueira, a mística, a ativista, a escritora, a defensora dos animais, a aliada das minorias e a observadora crítica do mundo.
O encerramento foi com Rita Lee transformando o rock em samba e a música em festa coletiva, unindo riso, dança, ironia e alegria popular. Justa homenagem a essa grande artista, passada com muita leitura, de forma didática por Renato Lage. Sem fazer muita firula, focou em contar a vida e a obra de Rita, até de forma bastante cronológica, propondo no final uma relação entre a artista e o carnaval por meio da música “Lança Perfume”.
EVOLUÇÃO
A evolução da Mocidade, diferentemente do ano passado, foi bastante problemática. Ainda no início do desfile, a escola deixou um buraco considerável no setor 4, quando o segundo casal e a ala à frente da bateria foram e a bateria ficou, dando visão principalmente para o jurado do módulo 1, mas também para os jurados da cabine espelhada. Além disso, sem nenhuma explicação de problemas com alegorias ou outra coisa parecida, por mais de uma vez a Mocidade ficou parada por muito tempo.
Uma pena, pois os componentes vinham, antes desses problemas, desfilando com muita garra, com muita vontade, além de alegria e no tom que o desfile pedia: irreverente, leve e para cima. Mas, no quesito, a Mocidade provavelmente vai deixar décimos preciosos.
HARMONIA
Um dos pontos positivos da Mocidade foi o canto da comunidade. Como nos ensaios, a escola comprou a ideia de um samba leve, para cima e alinhado ao enredo. Cantou bastante durante todo o desfile, principalmente nas primeiras alas, que passaram mais tranquilas na Sapucaí. Houve uma diminuição de intensidade só no final, quando a escola já chegava à dispersão, mas nada que comprometesse o rendimento desse ponto na nota de harmonia.
O carro de som, comandado por Igor Vianna, trouxe musicalidade e, principalmente, a presença feminina das vozes de Milena Wainer, Viviane Santos e Roberta Barreto, algo já característico da escola. Há alguns carnavais, a agremiação tem trazido esse time de vozes femininas com volume, contrastando com o intérprete oficial. E foram, mais uma vez, muito bem, abrilhantando a parte harmônica. Já Igor, em sua estreia na Verde e Branca da Zona Oeste, mostrou sua grande relação com a agremiação, sempre buscando animar o componente por meio de bons cacos e gritos de animação. O único ponto a ser colocado foi que, nos momentos de notas mais altas do samba, o cantor teve um pouco mais de dificuldade, passando mais reto, em contraste com as vozes de apoio, que seguraram bem.
SAMBA-ENREDO
O samba que a Mocidade levou para a Avenida teve como compositores Jeffinho Rodrigues, Diego Nicolau, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Lauro Silva, Cleiton Roberto e Cabeça do Ajax. Leve e irreverente como a homenageada, a obra teve rendimento satisfatório para o desfile, sendo bastante cantada pelos componentes e tendo resposta positiva do público. Muita gente nas frisas e arquibancadas interagiu com a Verde e Branca.
Na cabeça, em “Um belo dia resolvi mudar”, as cordas faziam uma levada mais pop rock, de forma bem sutil, sem atrapalhar a obra. Destaque para o refrão principal, que começa aludindo na melodia e métrica à música “Venenosa”, mas depois vai para outro campo harmônico. Este foi muito cantado pelo público e ainda com mais força pelos componentes.
ALEGORIAS
O conjunto alegórico da Mocidade foi composto por seis carros e um tripé. Renato Lage levou para a Sapucaí carros de muito conceito, bem executados e com estética muito bem relacionada à homenageada, pontuando cada parte do desfile. Um desfile diferente até dos trabalhos recentes do carnavalesco. Carros leves, com leitura, irreverentes, com bom uso de luz e visual psicodélico. Porém, com alguns pequenos problemas de acabamento em alegorias específicas.
No abre-alas, a Mocidade celebrou a chegada da cantora ao cenário da música brasileira, quando ela fez história ao se tornar a primeira mulher a liderar uma banda roqueira no Brasil. No carro, uma explosão de cores e luzes, vários elementos de alucinação psicodélica, como discos hipnóticos, borboletas, camaleões, cogumelos e símbolos da colorida cultura hippie. Na parte da frente, Rita Lee, e nas laterais, o recurso de arte cinética com o giro de formas.
No segundo carro, a escola apresentou Rita como uma das principais figuras do Tropicalismo. De bom nível de cores, a alegoria teve problema em uma escultura de abacaxi que não mostrava estar bem encaixada. No terceiro carro, havia uma grande prisão, o Xadrez 21, para onde Rita foi levada por suposta posse de maconha. Na frente, a Ovelha Negra e, nos lados, esculturas de soldados. A alegoria tratou do embate da artista e sua obra com a censura e a ditadura militar.
O quarto carro mostrou como as músicas e a própria imagem da artista desafiaram tabus diante da sociedade e do patriarcado, tratando dos anseios femininos sem culpa, sem limitações e sem estereótipos. O cenário da quinta alegoria era um castelo medieval, com direito a candelabros, vitrais, gárgulas e uma linda lua cheia. Veio para exaltar um dos clássicos de Rita Lee: a sensual e erótica “Doce Vampiro”. O último carro trouxe uma visão cenográfica dos antigos carnavais, nas cores da escola. O tripé “Paixão pelos Animais”, que vinha no último setor, esteve um pouco abaixo do excelente conjunto alegórico da Mocidade.
FANTASIAS
As fantasias também apresentaram bom nível, ainda que um pouco abaixo das alegorias na questão de acabamento. Produziram ótima leitura do enredo, foram muito bem trabalhadas nas paletas de cores e eram bastante irreverentes, algumas até engraçadas, dialogando com a leveza que Rita tinha.
A ala “Psicodelicamente Lisérgico” inaugurou o desfile com muito colorido e psicodelismo. O segundo setor, sobre o Tropicalismo, trouxe colorido e abusou de verde e amarelo, como visto nas alas “Parangolé” e “La Miranda”. No terceiro setor, as cores cítricas apareceram para contar o lado mais questionador de Rita, e a famosa música “Ovelha Negra” foi retratada de forma irônica, aparecendo toda de branco.
A partir do quarto setor, o rosa se fez mais presente ao falar da carreira solo de Rita Lee e das características visuais, de moda e personalidade da artista. Na fantasia “Toda Mulher é Rita Lee”, as mulheres vinham com os famosos óculos da cantora. No quinto setor, o rosa seguiu intercalado com cores cítricas, como na excelente ala “Bonita e Gostosa”, que tinha até seios cenográficos acoplados à fantasia, satirizando o poder do patriarcado. Depois, uma das alas mais legais do desfile, “Mulher Vampiro”, homenageando “Doce Vampiro”, música da artista.
O penúltimo setor falou do misticismo e das curiosidades de Rita, quando o roxo voltou a fazer parte na ala das baianas e na ala da frente “Alô, Alô, Marciano”. A Mocidade encerrou o desfile com colorido, tons mais leves e irreverência, como na ala “Quero Mais Saúde”, e, antes da última alegoria, a ala “Circo”, com estética de palhaço e balões amarrados no costeiro, foi uma das mais belas do desfile.
OUTROS DESTAQUES
A ala de passistas traduziu, em movimento, a liberdade feminina celebrada por Rita Lee, onde corpo e emoção caminharam juntos com identidade. Inspirados pelos versos “Eu fico pensando em nós dois… Cada um na sua”, em verde e dourado, deram o show de sempre no samba no pé e na beleza.
A “Não Existe Mais Quente”, de mestre Dudu, veio para a Avenida vestida de Eros, o deus do amor na mitologia grega. A fantasia trazia um estilizado clâmide (o manto grego mais curto), com asas que representam Eros. A rainha Fabíola de Andrade representou Afrodite. Nas apresentações nos módulos, a bateria trouxe um efeito visual ao soltar balões em formato de coração.
As baianas da Mocidade representaram uma feiticeira rompendo com estigmas ao afirmar que “nem toda feiticeira é corcunda”. Mística por natureza, a cantora dizia que toda feiticeira tem um gato preto — símbolo do instinto, da liberdade e do saber ancestral. No adereço de mão, o gato deixou de ser mau agouro e passou a ser cúmplice.
No esquenta, Igor Vianna cantou clássicos da discografia da Mocidade, como “Sonhar não custa nada” e “Vira, Virou”.
A Beija-Flor de Nilópolis encerrou seu desfile na Marquês de Sapucaí convertendo a avenida em oceano, altar e território de memória. O último carro alegórico não desfilou, navegou. Avançou como um grande balaio que cruza as águas do Recôncavo Baiano para entregar à avenida o presente mais precioso: o sagrado do Bembé do Mercado.
“Um presente nilopolitano no mar da Sapucaí” é o nome da terceira alegoria da Beija-flor. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Nascido há mais de um século em Santo Amaro da Purificação, o Bembé ocupa as ruas como gesto coletivo de fé e liberdade. Criado por João de Obá logo após a abolição formal da escravidão, ressignificou o 13 de maio não como concessão do Estado, mas como rito de louvor às divindades, especialmente Iemanjá e Oxum. Se a lei veio pela caneta, foi o corpo negro reunido em celebração que construiu caminhos concretos de existência, pertencimento e continuidade.
Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia e do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Bembé é considerado o maior candomblé de rua do mundo. Na Sapucaí, sua força ancestral ganhou dimensão de vitrine internacional.
Luana Maria. Foto: Juliane Babosa/CARNAVALESCO
O carro final materializou essa travessia. Espelhado como água viva, era o próprio oceano que abriu o desfile e, ao final, o acolheu de volta. No alto, Iemanjá e Oxum giravam sobre o mar cenográfico, abençoadas pelo beijo simbólico de um beija-flor que costurava rio e mar, Recôncavo e Baixada Fluminense, Bahia e Nilópolis. O carro era espelho, templo e balaio. Nele, o povo depositava vitórias, dores, promessas e gratidão. O desfile se encerrou como começou: em oração.
Para quem desfilava, a responsabilidade ia além do espetáculo.
Luana Maria, 45 anos, stylist, figurinista e componente da escola há três anos, destacou a dimensão espiritual da apresentação:
“A celebração da vida já é uma grande oferenda e uma energia vital. Estar vivo e celebrar nossa religiosidade numa escola tão grandiosa é um presente. Carregamos o nome dos orixás da nossa casa de santo através do corpo, então precisamos estar preparados com postura e imponência”, disse.
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A professora Katiuscia Ribeiro, 45 anos, definiu o desfile como marco político e espiritual: “Nós fomos inundados por um axé de transformação numa sociedade que nega a nossa presença e a nossa espiritualidade. A Beija-Flor fez um manifesto vivo de axé e de existência. Deixar as águas do Bembé na Sapucaí foi fertilizar um novo horizonte de respeito à nossa fé e à nossa liberdade de viver o sagrado”, afirmou.
Para a jornalista Flávia Oliveira, 56 anos, que desfila pela escola desde 1999, o momento teve dimensão íntima e ancestral. Filha do Recôncavo Baiano e beija-flor desde a infância, viveu na avenida o encontro de suas duas origens.
“Eu sinto o encontro de Bembé e Nilópolis no meu corpo e na minha alma. É a união da escola que amo com a terra onde nasci. É responsabilidade, mas também escolha política de valorizar nossa cultura e exigir respeito à nossa religiosidade”, comentou.
Diretamente de Santo Amaro para a avenida, o artista Roberto Chaves, 57 anos, que mora na França, atravessou o oceano para participar do desfile.
“Eu vim por causa da homenagem ao Bembé do Mercado, à minha terra. Hoje foi uma reparação simbólica para o povo negro, porque o mundo inteiro pôde ver um Bembé com mais de um século de existência chegar à Sapucaí. É a melhor vitrine para mostrar nossa história”, afirmou.
Ao levar o Bembé do Mercado para a Marquês de Sapucaí, a Beija-Flor reafirmou o carnaval como território legítimo da memória negra. Transformou a avenida em extensão simbólica do Largo do Mercado de Santo Amaro. Fez da arte gesto de devoção e do samba herdeiro direto das matrizes africanas que estruturam o Brasil.
O corpo que abre caminho também carrega história. Na Beija-Flor de Nilópolis, o destaque de chão “Fertilidade das Águas” anuncia a força primordial que antecede a entrega do presente às Yabás. É símbolo de renovação, continuidade e vida. E quem assume esse posto é Aline Daflor, componente da escola e mãe da rainha de bateria Lorena Raíssa.
Aline Daflor estreou como destaque de chão da Beija-flor. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
O convite veio após um vídeo viralizar nas redes sociais: mãe e filha sambando juntas na quadra, em um momento espontâneo que emocionou a comunidade e chamou a atenção do presidente da escola. O gesto virou reconhecimento.
Aline conta que recebeu o convite com surpresa e emoção
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
“Foi uma surpresa. A gente estava em uma reunião e, de repente, o presidente Almir me chamou e fez o convite. Perguntou se eu aceitava. Como eu ia dizer não? É a minha escola, é a coisa que eu mais amo, é sambar. Claro que eu aceitei”, contou emocionada.
A fantasia utilizada no desfile representa a força que gera e transforma. Para Aline, essa simbologia dialoga diretamente com sua própria trajetória.
“Eu acho que mãe negra, guerreira, trabalhadora… eu me sinto muito bem representada. É uma fantasia que fala de força, de continuidade. E eu me vejo nisso”, disse a destaque da última alegoria da escola.
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
O vídeo ao lado da filha foi o ponto de virada. O que era apenas uma brincadeira virou fenômeno.
“Foi um vídeo de brincadeira, como a gente sempre faz. Só que dessa vez era com uma rainha. Aí virou um boom, chamou muita atenção. Eu só tenho a agradecer a Deus e aos orixás, porque recebi muitos elogios. A gente vê tanta maldade na internet, mas eu só estava brincando. De repente, acordei e disseram que o vídeo tinha viralizado. Eu nem entendo dessas coisas. Foi muito gratificante, principalmente pelo reconhecimento. Aqui na escola, a gente respeita todo mundo, seja do faxineiro ao presidente. O respeito é mútuo”, comentou.
Encerrando o desfile da Beija-Flor como destaque de chão, Aline sabe que o momento será intenso.
“Eu vou entregar todo o carinho que estão me oferecendo. Muito respeito à minha escola. Eu chorei, chorei muito. Mas saibam que o meu foi dado pela comunidade”, finalizou.
Primeira escola a cruzar a Marquês de Sapucaí nesta segunda-feira (16), no segundo dia do Grupo Especial, a Mocidade Independente de Padre Miguel abriu a noite com um tributo vibrante a Rita Lee. Com o enredo “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”, assinado pelo carnavalesco Renato Lage, a verde e branca levou para a Avenida diferentes facetas da artista. Entre elas, a Ala 21, “Quero Mais Saúde”, destacou o lado leve, bem-humorado e otimista da cantora nos anos 1980.
A proposta da ala partiu de um gesto icônico de Rita em cena, quando brincava com exercícios e alongamentos durante os shows, transformando o próprio corpo em linguagem artística. A fantasia traduziu esse movimento como expressão de liberdade, energia e alegria. Em tempos de excesso de opiniões e “lero-lero”, como a própria Rita ironizava, celebrar a vida tornou-se um posicionamento.
Componentes ouvidas pelo CARNAVALESCO opinaram e para a maioria delas desfilar representou mais do que participar de um espetáculo. Foi uma afirmação de identidade, independência feminina e liberdade de ser e fazer o que tiver vontade.
“Eu sou o que eu sou, levo minha vida do jeito que eu quero e não me importo com ninguém. Acho que cada um tem mais é que viver a sua própria vida. Eu vivo a minha e não me importo com a dos outros”, afirmou Ana Claudia Vianna, 56 anos, autônoma, estreando na Sapucaí. Sobre Rita, completou.
“Ela era muito original, ela era o que era e não se importava com a opinião dos outros”. A fala sintetiza o espírito da ala, que apostou na autenticidade como forma de resistência.
Com dez anos de desfile, Antônia de Maria, 57, também reforçou a centralidade da autonomia pessoal.
“Não me importo com a opinião dos outros, me importo com a minha. Nesse mundo o que importa é você ser feliz, fazendo o que bem entender”, declarou. Na mesma linha, Maria Nilza dos Santos, 69, aposentada, ressaltou equilíbrio e autocuidado.
“Costumo levar a vida com mais leveza, mas pensando em mim primeiro”.
A experiência acumulada de quem atravessa décadas na Avenida também apareceu no discurso de Marisa Dias, 66, com 38 anos de desfile.
“Eu sou mais eu, não me importo o que pensem. Acho que a Rita deixou muito disso, de sermos o que a gente é, não importa o que os outros pensem”, disse.
Já Glauciane Oliveira, 46, destacou a importância de agir sem medo.
“Levo a vida com muita leveza e acho que a melhor coisa que podemos fazer é isso, viver. Quando a gente pensa muito, acaba não fazendo. Então vamos pensar menos e viver. Rita transcendia felicidade naturalmente, ela deixou esse exemplo”.
Trazendo a Padroeira da Liberdade para a Avenida, a Mocidade reafirmou que a Sapucaí e o carnaval também são espaços de liberdade e pertencimento femininos, de quem escolhe viver com autenticidade assim como a homenageada.
A Beija-Flor de Nilópolis encerrou seu desfile na Marquês de Sapucaí transformando a avenida em oceano, altar e território de memória. O último carro alegórico não desfilou: navegou. Avançou como um grande balaio que cruza as águas do Recôncavo Baiano para entregar à avenida o presente mais precioso, o sagrado do Bembé do Mercado.
Nascido há mais de 136 anos em Santo Amaro da Purificação, o Bembé ocupa as ruas como gesto coletivo de fé e liberdade. Criado por João de Obá logo após a abolição formal da escravidão, ressignificou o 13 de maio não como concessão do Estado, mas como rito de louvor às divindades, especialmente a Iemanjá e Oxum. Se a lei foi assinada pela caneta, foi o corpo negro reunido em celebração que construiu caminhos concretos de existência, pertencimento e continuidade.
Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia e do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Bembé é considerado o maior candomblé de rua do mundo. Agora, sua força ancestral ganhou a vitrine internacional do Carnaval carioca.
O carro final materializou essa travessia. Espelhado como água viva, ele era o próprio oceano que abriu o desfile e, ao final, o acolheu de volta. No alto, Iemanjá e Oxum giravam sobre o mar cenográfico, abençoadas pelo beijo simbólico de um beija-flor que costurava rio e mar, Recôncavo e Baixada Fluminense, Bahia e Nilópolis. O carro era espelho, templo e balaio. Nele, o povo depositava vitórias, dores, promessas e gratidão. O desfile se encerrou como começou: em oração.
Para quem desfilava, a responsabilidade ia além do espetáculo.
Luana Maria, 45 anos, stylist figurinista e componente da escola há três anos, destacou a dimensão espiritual da apresentação.
“A celebração da vida já é uma grande oferenda e uma energia vital. É um grande presente estar vivo e celebrar nossa religiosidade numa escola tão fantástica. Carregamos o nome dos orixás da nossa casa de santo através do nosso corpo, então precisamos estar preparados com postura e imponência”, disse.
A professora Catiuça Ribeiro, 45 anos, definiu o desfile como um marco político e espiritual.
“Nós fomos inundados por um axé de transformação numa sociedade que nega a nossa presença e a nossa espiritualidade. A Beija-Flor fez um manifesto vivo do nosso axé e da nossa vida. Deixar as águas do Bembé na Sapucaí foi fertilizar um novo horizonte para essa espiritualidade africana, sobretudo de respeito pela nossa fé e pela nossa liberdade de viver o nosso sagrado”, afirmou.
Para a jornalista Flávia Oliveira, 56 anos, que desfila pela escola desde 1999, o momento teve dimensão íntima e ancestral. Filha do Recôncavo Baiano e beija-flor desde a infância, ela viveu na avenida o encontro de suas duas origens.
“Eu sinto o encontro de Bembé e Nilópolis no meu corpo e na minha alma. É o encontro da escola que eu amo com a região onde eu nasci. É uma responsabilidade, mas também uma escolha política de valorizar a nossa cultura e pedir respeito pela nossa religiosidade”, comentou.
Diretamente de Santo Amaro para a avenida, o artista Roberto Chaves, 57 anos, que mora na França, atravessou o oceano para estar ali.
“Eu vim desfilar por causa da homenagem ao Bembé do Mercado, a minha terra. Hoje foi uma reparação para todos os negros porque o mundo agora vai ver um Bembé que tem 137 anos e nunca veio para a avenida. A Sapucaí é vitrine do mundo. É o melhor lugar para mostrar a nossa história.”
Ao levar o Bembé do Mercado para a Marquês de Sapucaí, a Beija-Flor reafirmou o Carnaval como território legítimo da memória negra. Transformou a avenida em extensão do Largo do Mercado de Santo Amaro. Fez da arte um gesto de devoção. Do samba, um herdeiro direto das matrizes africanas que estruturam o Brasil.
O desfile terminou, mas não se encerrou. Como no Bembé, o ciclo retorna às águas para recomeçar. Porque, se toda terra tem dono, a água pertence a todos. E foi nesse encontro entre povo e mar que a escola ofereceu seu presente: um Carnaval que se fez rito, resistência e fé.
A Mocidade Independente de Padre Miguel abriu a segunda noite de desfiles do Grupo Especial de 2026 com o enredo “Rita Lee, a padroeira da liberdade”, desenvolvido por Renato Lage. Em sintonia com o universo irreverente da artista, a bateria Não Existe Mais Quente atravessou a Avenida vestida de Eros, o Deus do amor na mitologia grega. Se a rainha representava Afrodite, os ritmistas vieram com clâmide estilizada e asas, usando instrumentos como flechas sonoras para atingir os corações da Sapucaí.
Ritmistas da Mocidade FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Para entender essa relação entre paixão e batida, a reportagem conversou com Angélica Castro, de 35 anos, profissional de marketing e há três anos na bateria; Aline Pamplona, de 40 anos, administradora e há quatro anos na escola; Bárbara Langer Greter, de 39 anos, executiva de contas comercial, estreante na bateria; e Letícia Martins, 26 anos, profissional de marketing e há oito anos na Mocidade.
Você se apaixonou pela Mocidade por intermédio da bateria?
Angélica Castro, de 35 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Angélica Castro relembra que a paixão começou ainda na infância. “Sim, desde pequena, meu pai me levava para os ensaios, minha mãe, quando era no Campo do Bangu ainda, e sempre deu aquela coisinha diferente no coração. Principalmente pelo meu instrumento que eu toco surdo. Então dali eu já comecei a me apaixonar até o dia que eu consegui entrar”, afirmou.
Aline Pamplona, de 40 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Aline Pamplona também aponta a bateria como ponto de partida: “Com certeza, o motivo inicial de eu me apaixonar pela Mocidade é pela bateria, pelo swing da bateria. Eu nunca imaginei tocar na Mocidade, porque eu achava assim, um sonho muito distante, até o dia que eu consegui ir e até hoje ainda é um momento assim que eu fico, cara, não tô acreditando. Os anos vão passando e todo ano é a mesma coisa do eu não acreditar ainda”.
Bárbara Langer Greter, de 39 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Bárbara Langer Greter veio de São Paulo e encontrou na caixa o elo direto com Padre Miguel.
“O que me trouxe pra Mocidade, para desfilar na Mocidade, é a batida de caixa. Então é através do coração mesmo da escola. Eu já desfilo em São Paulo há 26 anos, e a minha escola, que é a Águia de Ouro, ela tinha como referência a bateria da Mocidade. Então toda afinação, batida de caixa, toda característica da bateria da Mocidade, ela era da minha escola porque o mestre de bateria da minha de lá era muito fã e admirador, então ele fez a mesma imagem na bateria”, contou.
Letícia Milgasto Martins reforça a força da experiência na quadra: “Então, eu desafio alguém a estar num ensaio, a estar dentro da quadra, na Vintém, sentir a energia e não se apaixonar pela escola e, principalmente, pela bateria. Pela energia, pela batida da caixa diferenciada, pelo chocalho cascavel… a Mocidade vai muito além do que a gente consegue imaginar. É um ambiente diferenciado”.
O que essa bateria tem de tão diferente que deixa todo mundo apaixonado?
Para Angélica, o segredo está no balanço e na tradição: “Com certeza é o swing. Nosso swing é diferenciado. Desde a afinação dos surdos, aí eu sou meio suspeita de falar, quanto também a questão da terceira, das caixas, é todo o legado do Mestre André, que a gente está levando aí para todo o sempre. E pela escola a mesma coisa, a união, companheirismo dos componentes, o amor à bandeira”.
Aline reforça que o diferencial é perceptível já nos primeiros acordes: “Eu acho que o swing da bateria é diferenciado, a pegada da galera é uma bateria swingada. É uma bateria diferente, não tem outra bateria que bate igual a Mocidade na Avenida. Esse é o ponto chave da bateria da Mocidade, é o swing, é o gingado, é toda uma história, tem todo um significado, então muitas pessoas se apaixonam pela escola através da bateria”.
Bárbara detalha tecnicamente o que faz a diferença: “O diferencial, falando pessoalmente, são as pessoas que me receberam, mas tecnicamente, de forma talvez rítmica, é uma bateria muito swingada, é uma batida de caixa, que carrega a batida de Oxóssi, então é a alma da bateria. Há características específicas. O que eu acho que diferencia é a batida de caixa. É a maior característica dessa bateria. E por isso, como ela é mais contratempo, mais swingada, ela tem um andamento mais gostoso de cantar o samba. Então às vezes não precisa correr e acompanhar o samba com melodia e ritmo”, concluiu.
A Mocidade Independente de Padre Miguel foi a primeira escola a cruzar a Marquês de Sapucaí nesta segunda-feira (16), abrindo o segundo dia de desfiles do Grupo Especial com uma homenagem vibrante a Rita Lee.Com o enredo “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, a verde e branco da Zona Oeste levou à Avenida um tributo que ultrapassou a música e se firmou como declaração política e cultural. A Ala 9 se destacou ao transformar a artista em símbolo do empoderamento feminino.
Ala 09 “Toda mulher é meio Rita Lee”. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Batizada de “Toda mulher é meio Rita Lee”, a Ala 9 foi inspirada na canção “Todas as Mulheres do Mundo” e apresentou uma leitura contemporânea da figura da cantora como arquétipo de coragem, irreverência e autonomia.
Exclusivamente feminina, a ala trouxe para o centro do desfile a discussão sobre independência e ocupação de espaços historicamente negados às mulheres. A proposta foi clara: reafirmar o carnaval como território de expressão e liberdade.
Lisiane Gomes, 50, enfermeira. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Em entrevista ao CARNAVALESCO, Lisiane Gomes, 50 anos, enfermeira, destacou a força simbólica da homenagem. “Ela veio para dizer que a gente pode tudo, que não existe mais essa de que mulher não pode fazer determinadas coisas. A gente pode tudo. Então ela vem para afirmar isso, o feminismo e o protagonismo da mulher brasileira. No carnaval a gente pode se reinventar e fazer tudo o que temos vontade”, afirmou.
A componente ressaltou ainda que, embora o carnaval seja um espaço agregador, a estrutura ainda carrega marcas de desigualdade. “Apesar do carnaval somar muito, ele ainda é um universo bem mais masculino, mas eu acho que esse espaço está se abrindo, aos poucos, mas esse protagonismo feminino está chegando. Acho que sou a prova viva da liberdade e do legado da Rita, decidi que queria passar meus 50 anos desfilando na Sapucaí e hoje estou aqui. Deixei família, amigos e vim realizar esse sonho”, afirmou.
Letícia Pereira Lima 39, professora. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Para Letícia Pereira Lima, 39 anos, professora, o fato de a ala ser formada apenas por mulheres já representa um avanço concreto. “A Ala é exclusivamente feminina e é isso que ela traz, o feminismo, o poder da mulher, o empoderamento. Vejo cada vez as mulheres se tornando protagonistas, essa ala exclusivamente feminina já mostra um pouco disso, acho que estamos no caminho certo”.
Ela também apontou que a ampliação da presença feminina em funções como intérprete, carnavalesca e mestra de bateria ainda enfrenta barreiras culturais, mas percebe que mudanças estão ocorrendo.
Priscila Abrantes, 42, jornalista. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Priscila Abrantes, 42, jornalista, reforçou a dimensão simbólica da apresentação. “Acho que essa ala mostra que a gente pode tudo. Não somos mais aquela mulher recatada e do lar, que fica em casa cuidando dos filhos, a gente também pode ser muito mais. Podemos estar aqui na Avenida, representando essa mulher maravilhosa que foi a Rita Lee, que representou tudo isso, a libertação da mulher, que é um exemplo de liberdade”, disse.
Vivendo pela primeira vez o carnaval no Rio de Janeiro, ela relatou o impacto da experiência: “Estou aqui desde sábado e é muito legal ver a liberdade das mulheres em saírem fantasiadas, se divertindo, livres”.
Ao transformar a figura de Rita Lee como Padroeira da Liberdade, a Mocidade trouxe para Avenida um posicionamento sobre o presente e o futuro do carnaval. Em uma festa marcada por tradição, mas também por transformação, a escola sinalizou que o brilho feminino já não é coadjuvante.